sábado, 19 de outubro de 2013

João Paulo-Poeta do amor demais‏

Vinicius de Moraes marcou a cultura brasileira com obra que transitou da poesia espiritualista ao saudável materialismo, traduzido em poemas, músicas e na própria forma de levar a vida


João Paulo

Estado de Minas: 19/10/2013 



...São casas simples, com cadeiras na calçada
E na fachada escrito em cima que é um lar
Pela varanda, flores tristes e baldias
Como a alegria que não tem onde encostar...



 (Arquivo O Cruzeiro/EM)

“A vida é pra valer, a vida é pra levar”. Foi com esse verso, em Samba pra Vinicius, feito em parceria com Toquinho, que Chico Buarque definiu a existência do poeta. Com a simples mudança da posição das letras dos verbos, sintetizou toda uma vida. Para Vinicius, a vida era pra valer, carregava um sentido filosófico e, o que era mais sério, não tinha outra: o destino que nos aguarda a todos é “por cima uma laje, embaixo a escuridão”. Mas o poeta sabia que a melhor vingança para a inevitabilidade do fim é o prazer que se recolhe no durante: a vida é pra levar. Entre a metafísica e o prazer do instante, ficou com os dois.

Nascido em 19 de outubro de 1913, no Bairro da Gávea, no Rio de Janeiro, Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes foi sempre um homem dado a dualidades e à busca de superá-las. Na adolescência e juventude, mergulhou na poesia transcendental, mística, resultado de sua fase cristã. A tradução em sua obra dessa inclinação de alma foram poemas com versos longos, elegias, odes, sonetos e outras formas que fugiam do modernismo que dominava a cena literária. Para dar conta de temas como a visão trágica da existência, a culpa e a expiação religiosa, Vinicius escolheu modelos expressivos igualmente intensos e marcados pela tradição.

O contraponto da primeira poesia, de fundo espiritualista, foi a afirmação materialista que o poeta reconhecia como uma reação ao idealismo dos primeiros anos. Vinicius de Moraes foi seu próprio crítico literário e fez o trabalho de compreender e explicar para o leitor o sentido de seus versos. Em sua Antologia poética, divide sua obra em duas fases, a idealista – até o livro Ariana, a mulher, de 1936 – e a materialista – quando se afasta da religião para se dedicar à vida. Para Vinicius, entre esses dois momentos se situaria o livro Cinco elegias, de 1943. Em outras palavras, o poeta traçou um caminho que ia das ideias para a vida, da transcendência à imanência, do espírito para a matéria.

Para quem só conhece o compositor popular, talvez a poesia merecesse ter ficado para trás ou teria sido algo de interesse apenas dos estudiosos da literatura. Vinicius de Moraes, quando lido com seriedade, no entanto, se mostra sempre um poeta poderoso, senhor dos instrumentos mais sofisticados da lírica. A palavra escrita não foi uma preparação para o autor de letras de canções, nem apenas exercício literário abandonado com o tempo em favor do convite que lhe soprava do mundo. A obra de Vinicius de Moraes fixa um padrão de qualidade que precisa ser avaliado além da força mítica da existência do poeta. Quando Vinicius desloca o eixo da poesia para sua vida, parece deixar a obra escrita em segundo plano para dar mais valor à poesia vivida ou às letras das canções. Mas não foi bem assim: múltiplo, poeta e letrista conviviam no mesmo homem, como emanação de duas vertentes, a mão esquerda e a direita.

Entre os méritos literários do poeta está a variedade das formas, a absoluta mestria no culto do soneto, a capacidade de ir dos motivos transcendentais aos temas do cotidiano e, sobretudo, a capacidade de surpreender. Muitas vezes um poeta melhor se avalia pelo que desconcerta do que pela capacidade de consolar. Uma forma de avaliar como Vinicius de Moraes desafia a crítica é sua capacidade deixar críticos e poetas desconfiados.

Vem daí certa reserva da academia e inveja de colegas de profissão (claro que não os grandes, como Cabral, Bandeira e Drummond, que sempre o tiveram como par): para a universidade não é suficientemente sério; para os passadistas se perdeu em novidades; para os mordernistas, excessivamente formal; para os esquerdistas, muito alienado; para a direita, comunista e festivo demais. O público, felizmente, não perdeu tempo e sempre amou Vinicius. Declamar o Soneto da fidelidade é quase uma forma de oração laica. Vinicius ensinou ao brasileiro que o amor acaba, desde que seja amor de verdade. Essa é, talvez, uma das mais profundas revoluções na alma de uma nação católica, cheia de culpas, que o poeta carpiu em 14 versos sublimes para cada um de nós.

Letra e música
Se no interior de sua poesia há dualismo, a maior cisão, no entanto, estaria localizada entre o poeta da palavra e o poeta das canções. É claro que o Vinicius de Moraes compositor de clássicos como Chega de saudade, Eu sei que vou te amar, Garota de Ipanema, Berimbau, Samba da bênção, Primavera, Minha namorada, Arrastão e Tarde em Itapuã está na boca do povo e é cantado ainda hoje sempre que se puxa um violão. No entanto, o que parece ser uma concessão do poeta é, na verdade, um outro modo de expressão. O Vinicius de Moraes compositor não é menos poeta que o autor de sonetos e elegias. A canção popular, muito em função da obra do próprio Vinicius, se tornou veículo da melhor poesia feita no país.

O que a canção traz de diferente em relação ao poema escrito para ser lido é a soma de elementos próprios do universo da música: o ritmo que obriga ao virtuosismo de casar texto e melodia de forma impecável e a necessidade de comunicação mais imediata, já que a fruição se dá em outro tempo e motivada por aspectos também emocionais, não apenas construtivos e linguísticos. Vinicius de Moraes, além disso, se situa na inflexão de uma mudança na temática da canção, que abandona a origem literária para buscar um coloquialismo que a aproxime do dia a dia.

A revolução da bossa, quase sempre calcada na música (a celebrada batida de João Gilberto) só tem sentido quando percebida em sua totalidade, na qual as letras de Vinicius são elementos igualmente definidores. Há uma canção brasileira antes e depois de Tom e João Gilberto; há uma lírica da canção que tem como marco as letras de Vinicius de Moraes. Ao compreender a nova canção, o poeta percebeu a necessidade de uma poesia que se casasse a ela de acordo com suas demandas estéticas. A melodia de Garota de Ipanema convoca a memória afetiva para a letra; é impossível ler os versos sem cantarolar. Essa indivisibilidade é obra de Vinicius de Moraes.

Vinicius dominava a música. Soube compor para os vibratos de Elizete Cardoso (com a carga dramática necessária) e para a limpidez de João Gilberto (com o minimalismo exigido pelo novo canto). Suas letras, além disso, respondem às exigências do tempo, à renovação da sensibilidade do ouvinte urbano e até, sempre com equilíbrio, às demandas da política. Além disso, Vinicius parecia se tornar outro a cada parceiro, criando obras únicas com cada um deles. Com Tom, a arte direta, moderna, sem maneirismos; com Baden, a influência africana; com Lyra, um estado de alma marcado pela paixão sombreada pela melancolia; com Toquinho, a juventude na maturidade, um sentimento que intui a decadência da vitalidade e se traduz em impulso para a comunicação.

Há ainda outras divisões que apontam exatamente para o caráter múltiplo da obra e da presença de Vinicius de Moraes na cultura brasileira: o prosador (um cronista admirável) e o poeta; o escritor e o jornalista (crítico de música e cinema); o diplomata e o boêmio. Mas nenhuma dualidade é mais marcante e foi resolvida com mais sabedoria que a que separa a vida e a obra.

Vinicius foi um homem de paixões. Teve muitos relacionamentos, casou-se nove vezes, foi da dor intensa da perda ao nirvana do amor correspondido. A única saída para uma vida sem sofrimento seria a negação do amor. Algo impensável para um poeta do amor demais. A cada movimento de alma, foi aproximando mais e mais a obra da vida, até que, numa síntese da qual só ele teve a fórmula, realizou uma existência poética, com suas dores e alegrias.

A vida, para Vinicius, foi sempre pra valer. Por isso ele levou a vida como poeta.

Poeta do coração brasileiro - Ailton Magioli‏

Estado de Minas 19/10/2013

Poeta do coração brasileiro


Ailton Magioli



...Eu não ando só
Só ando em boa companhia
Com meu violão
Minha canção e a poesia...



Com Toquinho o maduro Vinicius reencontra os melhores momentos de sua juventude e renova seu público com canções mais simples e otimistas (Arquivo EM)
Com Toquinho o maduro Vinicius reencontra os melhores momentos de sua juventude e renova seu público com canções mais simples e otimistas


Para o poeta e professor de literatura brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Eucanaã Ferraz, a poesia de Vinicius de Moraes é um exemplo de liberdade. “Pensando como poeta, considero que podemos ver como uma grandeza inestimável o fato de Vinicius ter trabalhado, simultaneamente, com as conquistas modernas e o acervo da tradição poética ocidental”, justifica.

“Vinicius foi um exímio manipulador do verso livre – muitas vezes longo, largo, pleno de ressonâncias melódicas –, mas também do verso metrificado e da forma fixa, tendo sido pioneiro na reincorporação do soneto à poesia moderna no Brasil. Ele usou com liberdade rimas e variados efeitos rítmicos de corte e montagem, somando a isso uma quebra de hierarquias que possibilitou a abertura do poema a experiências sintáticas várias, bem como a qualquer palavra, incluindo-se criações inesperadas com a língua, não só a portuguesa; mas ao lado de rupturas surpreendentes, incorporou com sabedoria a fala mais simples e cotidiana”, acrescenta Eucanaã.

Para o professor, de tudo isso resultou um poeta vigilante, aberto à experimentação formal e à expressão dos sentimentos, capaz de pôr em movimento formas em que tradição e renovação jamais se antagonizam. Ao avaliar a obra do Poetinha, Eucanaã Ferraz admite que, Vinicius de Moraes é exemplo acabado de artista que, com o tempo, foi sobreposto à obra.

“Sempre desconfiei de que os versos do poeta mais popular e mais amado do Brasil eram insuficientemente lidos. Uma espessa matéria narrativa – envolvendo seus nove casamentos, os muitos amigos, a boemia, o uísque, o desprendimento, o gosto por diminutivos carinhosos, o desdém pela gravata e pelas formalidades – acabou por engendrar, sem dúvida, uma espécie de mitologia”, reconhece.

“Considero que, hoje, estamos indo além disso. Mas, de qualquer modo, também devemos considerar que o mito resultou da própria desejável e saudável popularidade de Vinicius, sendo esta, sem dúvida, menos uma consequência de sua atuação como poeta que o resultado de sua atividade como letrista”, salienta Eucanaã.

Mas para não dar a falsa impressão de que tudo é tão simples, o também poeta acrescenta que é preciso, por outro lado, sublinhar que a popularidade foi o efeito de um caminho trilhado pela poesia inicialmente marcada por um isolamento algo aristocrático de fundo religioso, “mas que foi se abrindo afetiva e esteticamente, pondo-se em diálogo expressivo com seu tempo, com o homem comum e seus dramas cotidianos”.

 Vale notar também, na opinião de Eucanaã Ferraz, que a escrita de Vinicius acata mais a clareza que o hermetismo; nela a experimentação formal não é um fim em si mesmo, antes colocando-se ao lado de formas e temas caros à tradição lírica e convivendo com traços coloquiais, vocabulário e sintaxe correntes. “Por fim, a transfiguração do real não exclui a incorporação da experiência ordinária”, garante. Para Eucanaã, tais escolhas não deságuam num equivocado pacto de reconhecimento com o leitor, como se os poemas apenas confirmassem o já sabido. “Bem ao contrário, a palavra de Vinicius é poesia no sentido pleno: o mundo recriado.”

“Sem poder descer a detalhes, observo que a musicalidade da poesia de Vinicius aparece num conjunto de características que incluem ritmo, timbre, fluidez melódica, deslizamentos sintáticos, recursos da fala cotidiana, entre outros. Mais que isso, porém, penso que Vinicius pôde se tornar letrista porque sabia adequar a escrita à melodia, sem sobreposição da primeira sobre a segunda e vice-versa, e também porque sentia-se à vontade para trabalhar em parceria”, defende o professor.

Sofisticação
Para Eucanaã Ferraz, é impressionante a capacidade de Vinicius em acomodar a escrita à música, compreendendo as necessidades da canção, entendida como um corpo único, equilibrado e indivisível. “Quanto ao que havia de poético em suas letras, talvez valha a pena somente ponderar que, com sua obra, o cancioneiro popular passou a incorporar uma inteligência sofisticada em diálogo com as experiências modernas, até então restritas à poesia escrita.” Ele avalia que, nesse sentido, Vinicius foi o primeiro a derrubar as fronteiras entre literatura e canção popular, entre a erudição dos livros e a fácil comunicação do canto.

“Antes de os anos 1960 preconizarem o fim das barreiras entre alta e baixa cultura, Vinicius, desassombradamente, deu forma a uma série de mudanças comportamentais que marcariam a história cotidiana do século 20. Se o encaminhamento do poeta, já laureado, diplomata, para a canção popular não era previsível, ela iria se mostrar, adiante, em tudo coerente com a atuação artística e intelectual de Vinicius. De sua popularidade, podemos inferir que foi, portanto, um traço de sua complexidade, na medida em que o aplauso frustrava as expectativas conservadoras, desmontava hierarquias socioculturais e fundia estratos diferentes e aparentemente antagônicos da cultura”, salienta.

De acordo com o professor, Vinicius foi um excepcional tradutor dos sentimentos mais desesperados ou mais sutis, das paixões e da solidão, da finitude e do desejo de eternidade. E cita canções como Se todos fossem iguais a você, Eu sei que vou te amar, Garota de Ipanema, O que tinha de ser, Insensatez, Berimbau, Samba da bênção, Minha namorada ou Tarde em Itapuã.

Eucanaã faz questão de também destacar a relação que o brasileiro mantém com o Vinicius poeta: “Lembro que não são apenas as palavras cantadas que permanecem na nossa memória. Todos, afinal, sabemos de cor alguma passagem dos célebres Soneto de fidelidade, Soneto do amor total, Soneto de separação, O operário em construção, O dia da criação e Rosa de Hiroshima. E, sim, lembramo-nos do seu rosto, da sua voz, de passagens biográficas, pois que vivemos com este criador uma espécie rara de intimidade, dentro da qual a admiração e descoberta nunca cessam”, conclui.


Arte de brincar com seriedade

...Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não...

Muito mais que uma parceria, o encontro de Vinicius de Morais com Toquinho foi uma troca de energias positivas. “Ele usufruiu de minha juventude e eu da experiência dele”, afirma Toquinho, admitindo ter havido uma “adaptação perfeita” entre os dois, já que tudo que Vinicius gostava de fazer ele também gostava. “Tocar violão, curtir os temas que iam saindo, comer bem, viver a noite ao lado de amigos e mulheres bonitas”, lista o cantor, compositor e instrumentista, com quem Vinicius teve sua parceria mais positiva.

“Dessa relação profissional e humana resultaram muitas histórias, que deram origem a tantas canções. Colocávamos a vida sempre na frente da arte. Nosso cotidiano, prazeroso e fértil, era a principal inspiração. Os temas das canções nasciam desse cotidiano, do prazer de viver. Compúnhamos naturalmente, sem sacrifícios, nossa música é caracterizada pela simplicidade. É harmoniosa, agradável de ouvir”, avalia Toquinho.

Quando começou a trabalhar com o Poetinha, em 1970, Vinicius ainda evitava viajar de avião. “Então fomos para a Argentina de navio. Sentia uma sensação estranha, não sabia direito o que eu ia fazer lá. De repente, estava a bordo de um navio junto com Vinicius de Moraes, um ser humano grandioso de quem só conhecia o que ele tinha escrito e cantado por aí. Sei que na primeira noite no navio eu passei muito mal, no meu quarto, enjoado, com tudo a balançar por todos os lados. E Vinicius sentado na escrivaninha, segurando o copo para que ele não caísse, conversando naturalmente, sem se alterar”, recorda o cantor, salientando que o Poetinha ficou lá, ao lado dele, não como pai, mas alguém com pretensões de se fazer amigo.

“Nossa relação começou assim e, logo de cara, passei a vê-lo um pouco como irmão, porque ele não sabia ser velho, o que na realidade ele não era. Vinicius sempre se cercou de pessoas jovens, tanto mulheres quanto parceiros. Isso o renovava, talvez fosse o grande combustível de sua poesia. E não demorou muito para as canções começarem a brotar”, diz Toquinho. Ao ser questionado sobre o rendimento da parceria dos dois, ele afirma que transportavam, simplesmente, a vida para a arte. “Compor, para nós, era uma brincadeira exercida com seriedade. Nesse diapasão criativo, fizemos mais de 100 canções, gravamos em torno de 26 discos e montamos mais de mil shows. Dificilmente se construirá outra parceria igual”.

A primeira canção composta pela dupla começou a nascer em junho de 1970, exatamente na volta da Argentina, onde eles haviam feito uma série de shows na boate La Fusa com a participação de Maria Creuza. Toquinho havia deixado com Vinicius um tema de Albinoni, transformado por ele em samba, que ganharia letra do poeta em setembro daquele ano, durante viagem para Salvador. “Aí, sim, nasceu a nossa primeira canção: Como dizia o poeta, que cantamos nos shows da Bahia, já sentindo a reação positiva das pessoas’’. Geralmente, de acordo com o cantor, Vinicius colocava letra em suas melodias.

Ouvido interno
“Quando juntos, trabalhávamos às vezes música e letra. Ou então eu deixava gravado um tema e ele colocava letra no momento que achasse mais adequado. Musiquei poucos poemas dele. Prefiro fazer a melodia antes”, observa Toquinho que, antes mesmo de trabalhar com Vinicius, já fazia uma música simples, porém harmoniosa e agradável aos ouvidos. “Quando comecei a compor com ele, essa característica se acentuou, porque Vinicius não tinha medo do lugar comum. Vinicius tinha um ouvido interno muito aguçado”, explica.

Toquinho recorda momentos criativos ao lado do poeta. “Muitas vezes, eu improvisando no violão, e ele me alertava: ‘Toco, tem uma melodia aí que você acaba de passar por ela’. Então eu recuperava o acorde e saía outra canção. Cada palavra tem um som que se ajusta à melodia. Vinicius era mestre nisso. Usar a palavra exata para cada acorde. Aprendi a valorizar esse detalhe, tão importante na composição final”, explica. Ele conta que não havia cobrança de parte alguma na parceria dos dois.

“A junção melodia e letra dava-se naturalmente, pela capacidade de ambos em ajustar as coisas. Afora outras facetas ligadas à música, como comandar um espetáculo, a escolha do repertório, a dinâmica de um show, o jeito de tratar as pessoas, tudo isso foi sendo incorporado por mim durante a parceria com Vinicius e aprimorado na sequência de minha carreira”, garante Toquinho.

Nas palavras dele, no trabalho dos dois há canções insinuantes, que chegavam já dominando e se apoderando dos sentidos, enquanto outras, mais comedidas, tiveram de ser tratadas com mais demora. “Há que perceber essas condições. Não deixar escapar o momento certo ou não apressar o tempo do aprimoramento”, justifica, lembrando que não havia exigências entre eles. “Predominavam a espontaneidade e a percepção do que fazer e de como fazer para atingir a beleza do entrosamento”, conclui. (AM).


Parceiros juravam fidelidade

Mesmo apontado por muitos como o parceiro por meio do qual Vinicius de Moraes melhor se expressou, Carlos Lyra, que integra a chamada “Santíssima Trindade” (ao lado de Tom Jobim e Baden Powell), acredita que Vinicius fez canções belíssimas tanto com os três quanto com Toquinho, cada qual com seu estilo particular.

Exigente consigo mesmo, o músico carioca contabiliza cerca de 25 composições ao lado de Vinicius, diante da “capacidade de jogar fora o que acho que não é excelente, guardando apenas as melhores”. A parceria, recorda, nasceu no dia em que “cheio de coragem, liguei para a casa de Vinicius, me apresentando. Ele disse que já tinha ouvido falar de mim e perguntou o que eu queria. Respondi: ‘Umas letrinhas!’. E ele me mandou ir à casa dele imediatamente”, recorda.

“Ele me recebeu, me mostrou seu gravador e pediu que eu colocasse todas as melodias lá e fosse para minha casa aguardar, que em uma semana as letras estariam prontas. Uma semana depois, ele me liga dizendo que já havia feito todas e me chamou para ouvi-las. Quando ouvi a série de letras que Vinicius havia feito pra mim, fiquei boquiaberto com a qualidade e com a facilidade com a qual ele sentia o que minha música queria falar. Fiquei sem palavras e atônito, de uma maneira que ele pensou que não estava gostando. Imagina, eu estava bobo”, conta Carlos Lyra.

Na opinião do músico, o produto da parceria dos dois seria a mistura dos gêneros clássico e romântico, porque ele é um compositor neoclássico e Vinicius de Moraes um poeta romântico. A primeira canção com a assinatura da dupla foi Você e eu e a segunda Coisa mais linda. “Exatamente como expliquei sobre o início da nossa parceria”, recorda Carlos Lyra. Ao contrário dos dias de hoje, quando parcerias são feitas inclusive via e-mail, além do telefone, naquela época as pessoas costumavam se encontrar pessoalmente para trabalhar. “Hábitos antigos, presumo”, ironiza Lyra, salientando que ele e Vinicius costumavam fazer no máximo duas canções a cada encontro.

 “Como ocorreu em uma tarde, quando terminamos a Marcha da Quarta-feira de Cinzas e o Hino da UNE (União Nacional dos Estudantes)”, revela o parceiro do Poetinha. Segundo Carlos Lyra, o sistema mais utilizado pela dupla era ele fazer as melodias, que demoravam o tempo que fosse. “Quando tinha uma boa quantidade, ia à casa de Vinicius e deixava-as no gravador. Ele então letrava uma por uma”, acrescenta. Afinal, Vinicius era um parceiro exigente? “Não, era exatamente o inverso. Os parceiros como eu e Tom Jobim é que cobrávamos dele a excelência. Quanto ao tempo, ele era rápido, uma vez que a música o inspirasse”. De acordo com Lyra, como era extremamente ciumento, a única exigência de Vinicius era de que não mostrassem músicas com outros parceiros.

Juntos, Lyra e Vinicius bateram recorde ao escreverem uma comédia musical com 11 composições, em uma única semana. Trata-se de Pobre menina rica, de 1962. O espetáculo estreou no ano seguinte, no Rio de Janeiro, com Vinicius de Moraes na leitura da sinopse, além de Carlos Lyra, Nara Leão e o conjunto de Roberto Menescal na interpretação das canções, algumas das quais se tornaram clássicos da MPB.

Valsa de Francis
Francis Hime já conhecia Vinicius de Moraes desde 1956, quando em uma festinha na casa da mãe, a pintora Dália Antonina, em 1964, tocou para ele a sua valsa Eurídice. Encantado com a energia dos 16 anos do rapaz, o Poetinha disse para a mãe que o filho deveria seguir carreira musical. Passado o impacto daquele encontro, Francis e Vinicius trataram de se encontrar para fazer algo juntos, inaugurando a parceria com Sem mais adeus, cuja “letrinha” estava escrita em um “guardanapinho de papel”, bem ao gosto do poeta.

Desde então, Francis fazia a música primeiro e depois Vinicius colocava letra nas composições. “O que acontecia com uma facilidade enorme, já que Vinicius era muito musical”, ressalta o compositor, lembrando que a exceção no processo foi uma melodia feita simultaneamente pelos dois – O sequestrador – que veio ganhar letra de Adriana Calcanhotto anos depois. Para os estudiosos da obra de Vinicius, Hime foi o parceiro que mais investiu na alma romântica do poeta.

 Eles fizeram cerca de 20 canções, a maioria produto dos encontros constantes que mantinham. “Em geral eu ia para a casa dele e ficava tocando as músicas no piano ou no violão, e ele, com a máquina de escrever, esboçando a letra, até que surgisse algo que o encantasse.” A única vez que fizeram duas músicas em uma mesma noite foi com Anoiteceu e Tereza sabe sambar. Além da amizade que exigia dos parceiros, Vinicius também cobrava fidelidade. (AM)

Balada de Ouro Preto Hóspede titular do Pouso do Chico Rey, o Poetinha manteve história de amor com a cidade mineira. Carlos Bracher conta que Vinicius concordou em posar nu para retrato, que não chegou a ser pintado 

Ailton Magioli


 (Arquivo EM)


...De nada adianta
Ficar-se de fora
A hora do sim
É um descuido do não...

Carlos Bracher e Vinicius de Moraes, em Ouro Preto, em 1974;   pintor mineiro destaca o poder de sedução do poeta (Acervo pessoal)
Carlos Bracher e Vinicius de Moraes, em Ouro Preto, em 1974; pintor mineiro destaca o poder de sedução do poeta

Quarto nº 1 do Pouso do Chico Rey, hoje batizado com o nome do poeta (Maria Tereza Correia/EM/D. A Press)
Quarto nº 1 do Pouso do Chico Rey, hoje batizado com o nome do poeta


Ricardo Correia de Araújo, atual proprietário da pousada,   na janela do quarto de Vinicius: vista para o Teatro Municipal (Maria Tereza Correia/EM/D. A Press)
Ricardo Correia de Araújo, atual proprietário da pousada, na janela do quarto de Vinicius: vista para o Teatro Municipal


Se nas passagens por Belo Horizonte, onde cativava principalmente o circuito universitário, ele era insuperável, imagine o que Vinicius de Moraes não provocou na histórica Ouro Preto? Hóspede constante do quarto nº 1 do Pouso do Chico Rey, aposento hoje batizado com seu nome, das janelas do andar superior do casarão de 1790, Vinicius vislumbrava, à direita, a lira de pedra que decora a fachada do primeiro Teatro Municipal da América do Sul (1770, ainda em atividade) e, à esquerda, a Igreja do Carmo (1772).

Amigo pessoal do casal proprietário da pousada, Lilli e Pedro Luiz Correia de Araújo, o letrista e poeta carioca se tornou verdadeira atração da cidade histórica mineira, onde teria morado por seis meses, na década de 1960, para evitar maiores problemas com o governo militar, depois de afastado da carreira diplomática e aposentado compulsoriamente pelo Ato Institucional nº 5 (AI-5). “Dizem que a ideia de deixá-lo aqui por um tempo foi do então governador mineiro Israel Pinheiro”, revela Carlos Bracher, que acabou se tornando amigo de Vinicius de Moraes em Ouro Preto.

 “Interessante: ele vem pra cá com a atriz Domitila do Amaral, que teve ideia de criar a Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop), depois da realização de um festival de arte na cidade”, acrescenta o artista plástico. Atual proprietário do Pouso do Chico Rey, Ricardo Correia de Araújo, o neto do casal Lilli e Pedro Luiz, era menino na época, mas lembra que a simples chegada de Vinicius na pousada era motivo de festa. “Um evento”, nas palavras do hoteleiro. “Ele vinha cheio de presentes, mas a vovó não gostava de deixar a gente perto quando ele falava de política. Em geral, no entanto, era uma festa, com muito uísque, carteado e samba, que o Vinicius tocava na caixa de fósforo”. Às vezes, para disfarçar, o poeta chegava à cidade de chapéu e capa pretos, além de usar óculos escuros.

 “Em Ouro Preto/ Mostrei-te o Pouso do Chico Rey/ Onde a amiga Lilli/ Deu-te uísque a beber/ Depois fomos comer lá no Pilão/ Galinha ao molho pardo”, poetiza Vinicius no livro História natural de Pablo Neruda – A elegia que vem de longe, no qual fala da visita à pousada ao lado do amigo e poeta chileno, em agosto de 1974. Referências a Vinicius no local, aliás, não faltam. Além das cartas que ele endereçava sempre a Lilli – algumas delas devidamente emolduradas e espalhadas pelas paredes da pousada –, há fotos e outras lembranças. Vinicius acabou por se transformar em uma espécie de relações públicas do Pouso do Chico Rey, que indicava aos amigos.

“Querida Lilli e Ninita (sócia da proprietária). Meu amigo David Zingg – um dos maiores fotógrafos que conheci – vai a Ouro Preto para uma reportagem ...”, anuncia na apresentação do norte-americano que viveu no Brasil e registrou momentos importantes da bossa nova. “Mil saudades. Logo que Garota de Ipanema estiver terminado, darei um pulo aí...”, diz a respeito do filme que Leon Hirszman dirigiu, em 1967, inspirado na célebre parceria com Tom Jobim, de 1962. Vinicius assinou o roteiro do longa-metragem ao lado do diretor.

Em outra correspondência, de 1972, à “minha Lilli muito querida”, Vinicius fala das amigas Alba e Maria Helena, que estavam indo a Ouro Preto, além de anunciar que vai se apresentar em Belo Horizonte ao lado de Marília Medalha e do Trio Mocotó. Na mesma correspondência, ele manifesta o desejo de fazer “um espetáculo (um só), numa matinée, aí no teatrinho de Ouro Preto, a preços bem populares. Uma coisa mais afetiva do que qualquer sentido de lucro, que poderia, talvez, ser no dia seguinte ao do nosso último show em Belo Horizonte”.

Além de Vinicius de Moraes, Carlos Scliar, Alberto da Veiga Guignard, Elizabeth Bishop, Burle Marx, Norma Benguel, Pablo Neruda e muitos outros artistas se hospedaram na pousada, cujo livro de hóspedes foi inaugurado pelo poeta, em 1968, com poema em homenagem à proprietária. “Amiga, dizer nem ouso/ De certa coisa que sei/ Desde então acho-me em gozo/ Das coisas que sempre amei”. Pouco tempo depois, ele fecharia o primeiro de tantos outros livros que ainda resistem no estabelecimento: “Lilly, minha princesa. Com estas palavras eu não termino: começo um novo livro de hóspedes”.

Homem nu

Do desejo manifestado de adquirir uma casa em Ouro Preto à ideia (consentida, mas não concretizada) de pintar o poeta nu, Carlos Bracher guarda boas lembranças de Vinicius de Moraes em Ouro Preto. “Era um homem de tremendo afeto e doçura, amabilíssimo com todos. Uma coisa extraordinária e marcante”, diz o artista plástico, sem poupar adjetivos.

A casa em Ouro Preto, que Vinicius acabou não adquirindo, seria transformada em miniteatro para apresentações, segundo o sonho do poeta. A pintura, inspirada na escultura Um grande homem desnudado, que Rodin fez de Victor Hugo, também acabou não ocorrendo, mesmo que Bracher tenha conseguido, em 1975, pintar um retrato de Vinicius.

Apesar de ter conhecido Gesse Gessy e convivido com Martita, duas das ex-mulheres do poeta, o artista plástico não lembra de tê-lo visto amando na cidade histórica mineira. “Só namoricos da hora, não do dia. Ele tinha a das 8h, a das 9h”, revela, salientando nunca ter visto um homem com tanto charme. “Vinicius foi um sedutor, as meninas avançavam, pulavam e se abraçavam nele”, recorda.

No ateliê, certa vez, ao lado de Vinicius e Martita, o artista plástico foi surpreendido com a declaração do poeta à mulher, logo depois da entrada da menina Blima, filha de Carlos Bracher. “Vinicius, você gosta de criança?”, perguntou Martita. “Teoricamente, sim”, respondeu o poeta.

Samba com João

Certa noite, um rapaz bateu na porta do Pouso do Chico Rey, pedindo para falar com Vinicius de Moraes, que o recebeu. Tratava-se do então estudante de engenharia metalúrgica João Bosco Mucci, que imediatamente lhe apresentou uma melodia.

Do encontro naquela noite nasceria o Samba do Pouso, além do conselho do poeta para que o então iniciante músico se mudasse para o Rio de Janeiro. O samba romântico, que inaugurou a parceria dos dois, ganhou registro do próprio João Bosco e do grupo Os Cariocas no disco dois do Songbook Vinicius de Moraes, que a Lumiar Discos lançou em 1993.

 Parceiro bissexto do poeta, João Bosco compôs com Vinicius Viva o amor, Rosa dos ventos e O mergulhador. Adepto da parceria bissexta, além de João Bosco, Vinicius desenvolveria trabalhos com Fagner, Carlinhos Vergueiro e Vicente Barreto, entre outros.

Em nome da liberdade

“Tem hotel e uísque bons? Então, compra as passagens de ida e volta do Vera Cruz (trem que fazia o percurso Rio-BH), aluga o quarto de hotel e providencia dois litros de uísque, que não vou cobrar nada pelo show”. O diálogo entre Vinicius de Moraes e Augusto José Vieira Neto, o Bala Doce, então diretor de arte e cultura do Centro Acadêmico Afonso Pena (Caap) da Faculdade de Direito da UFMG, dá a dimensão do quanto Vinicius cultivava a juventude na década de 1960. No dia e hora marcados, com Vinicius já na cidade, o show não pôde ser realizado no salão nobre da Escola de Direito, na Avenida Álvares Cabral, conforme estava agendado, diante da presença de soldados do Exército em frente ao prédio. Bala Doce conseguiu transferir o espetáculo para a grande área plana, já revestida de cimento, na qual estava sendo construído o novo prédio da faculdade, localizado na esquina das avenidas João Pinheiro e Álvares Cabral. De bata branca, o Poetinha entrou em cena aclamado por mais de 700 universitários, fazendo conferência sobre a liberdade antes de começar o show, que transcorreu sem qualquer interferência policial. Mais uma vez, os estudantes driblavam a ditadura militar que amordaçava o Brasil.

CEM ANOS DE PAIXÃO » Um tom acima da vida

CEM ANOS DE PAIXÃO » Um tom acima da vida 

Walter Sebastião

Estado de Minas: 19/10/2013


Eu quis amar mas tive medo
E quis salvar meu coração
Mas o amor sabe um segredo
O medo pode matar o seu coração



O poeta com os rebentos Pedro, Georgiana, Luciana e Susana: um pai amoroso, mas que não levava  os filhos ao dentista (Arquivo O Cruzeiro/EM)
O poeta com os rebentos Pedro, Georgiana, Luciana e Susana: um pai amoroso, mas que não levava os filhos ao dentista



Um homem sensível que ousou viver como um poeta. Católico na juventude e adepto do candomblé ao morrer. Um escritor erudito, reconhecido e premiado no meio literário que, no fim da vida, é um dos ícones da música popular brasileira, à qual se entregou de corpo e alma. Um lírico que se esparrama afetuosamente pelos mais diversos gêneros literários sem perder verve e sofisticação. Dele se disse: “Se fosse um só, seria Vinício de Moral, mas ele é Vinicius de Moraes”. Quem recorda tudo isso é o jornalista José Castello, autor de Vinicius de Moraes – O poeta da paixão (Companhia das Letras), o mais completo ensaio biográfico sobre o artista.

José Castello desconfia do apelido Poetinha, que o próprio Vinicius adorava. O receio do jornalista é que a palavra, apesar de simpática, reduza o significado da obra e do escritor. “Ele foi grande poeta e de uma geração de ouro: a de Carlos Drummond, Jorge de Lima, João Cabral de Melo Neto, Murilo Mendes, entre outros”, observa, avaliando que não se trata de escritor menor nem menos importante que os pares. “Vinicius gostava de ser chamado de Poetinha porque, como todos nós, e talvez com voracidade acima da média, adorava ser amado. Não sabia viver a vida senão apaixonadamente. Vivia um tom acima”, afirma o biógrafo, suspeitando que o gosto pelo álcool tenha contribuído para o temperamento do escritor.

Vinicius de Moraes, continua José Castello, teve paixões a vida inteira. Por mulheres, mas também por amigos, parceiros, criadores, gêneros literários e musicais. Romantismo cultivado que se soma ao espírito rebelde e libertário, e que encontra na poesia e boemia o modo de catalisar diversidade de interesses. “Enquanto Drummond ou João Cabral tinham carreira pública certinha, Vinicius deixou a poesia invadir a vida dele, não faz dela apenas trabalho intelectual. Ele ousa viver como poeta, não há como imaginar a existência dele sem a arte”, garante. Perfil que faz de Vinicius de Moraes não só um criador, mas um dos grandes personagens da literatura brasileira. “Foi uma metamorfose ambulante”, arrisca.

A face alegre, solar, de bem com a vida, explica Castello, é a dominante do escritor. “Mas ele não é só isso. Há outros aspectos pouco observados”, pondera. A lírica amorosa, de fato, compõe grande parte da obra do poeta, mas há poemas engajados, como Operário em construção, e textos dramáticos, como Elegia na morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, poeta e cidadão, meditação sobre a morte do pai. Especulações metafísicas e angustiadas também podem ser lidas nos poemas da juventude, quando o poeta era católico fervoroso. Ponto comum, cruzando toda obra, é o lirismo “que dá corpo à alma e alma ao corpo”, sintetiza Castello.

O homem cujo herói literário era o francês Arthur Rimbaud foi na juventude um conservador – formado para ser intelectual de direita, diz o próprio Vinicius –, mas se torna progressista depois de se casar com Beatriz Azevedo de Mello, mulher de esquerda. O mistério, brinca Castello, é como um boêmio pode sustentar carreira diplomática, e não o inverso. “Mal e porcamente”, conta. “E não por acaso, na época que as pessoas perdiam os cargos por motivos políticos, Vinicius foi expulso por mau comportamento”, sem afastar as motivações políticas para a exoneração do escritor, em 1968. Também é difícil imaginá-lo como militante político tradicional.

 “Vinicius não teve medo da vida. Pelo contrário, queria sorver de tudo e da forma mais intensa possível. E o fez”, afirma José Castello. O poeta foi influenciado e influenciou os ambientes que frequentou. Se o primeiro casamento fez com que deixasse de lado posições conservadoras, a união com Lila Maria Bôscoli será incentivo para imersão no mundo musical. “A música, vale recordar, estava na alma dele”, pondera José Castello, lembrando que a participação do escritor, ainda adolescente, em banda no colégio veio antes da decisão pela poesia.

“Para Vinicius, poesia é música”, afirma o biógrafo, lembrando a musicalidade intrínseca dos textos. Pesando na dedicação do escritor à música popular esteve a amizade com Tom Jobim. “Sensível, querendo fazer tudo, Vinicius percebe muito cedo a genialidade daquele jovem cabeludo, para quem escreveria várias letras”. O jornalista não gosta de falar em herdeiros estéticos de Vinicius de Moraes, ainda que detecte sinais de sua poesia em muitos autores contemporâneos. “Grandes poetas são singulares, não podem ser copiados”, avalia.

Pai generoso
“Vinicius nunca foi de levar filhos ao dentista, mas era pai generoso”, conta Susana de Moraes, a mais velha dos cinco filhos dos nove casamentos do poeta. “O que ele nos deu foram valores: humor, eternidade, maneiras ver as coisas de forma sensível, lúdica, entendendo a complexidade da vida e do mundo. Foi homem de visão abrangente e essa foi a grande herança que ele deixou não só para nós, filhos, mas para todos os brasileiros”, acrescenta.

Susana de Moraes conta também que Vinicius de Moraes foi homem “extremamente tolerante”, que tinha o dom de tirar das pessoas o melhor. “Meu pai tinha uma capacidade incrível de se comunicar com as pessoas, sem preconceitos ou ideias preconcebidas”, conta. “Tinha paciência até com gente que achávamos chata. E que, na conversa com ele, se tornava interessante”, diz. Confirma que o poeta foi namorador. Gostava tanto de namorada que, dizia brincando, tinha várias ao mesmo tempo. “Sempre admirei a capacidade dele de amar e viver intensamente o amor. Ele não tinha casos, mas namorava, casava, montava casa”, recorda.

Qualidades humanas que, para a filha, se somam às artísticas. “Foi escritor, compositor, performer. Quebrou fronteiras e categorias de erudito e popular”, observa. Exemplo disso pode ser o próprio projeto Arca de Noé, que ganhou nova edição, com interpretações de outros artistas em produção coordenada por Susana de Moraes, Adriana Calcanhotto, Leonardo Netto e Dé Palmeira. “É criação que me emociona. São textos diretos, divertidos, sem tatibitate”, afirma.

Foi para Susana e o irmão Pedro que Vinicius escreveu o livro Arca de Noé, que depois ganharia música, primeiro para um disco italiano, nos anos 1950, depois, nos anos 1980, no Brasil. Ele se tornaria uma das obras mais conhecidas do escritor. O poema – e canção – favorito de Susana de Moraes, no Arca de Noé é A casa.

Entra hoje no ar a nova versão do site oficial de Vinicius de Moraes (www.viniciusdemoraes.com.br). Coordenado pelas filhas do poeta, Maria e Susana de Moraes, reúne fotos inéditas, discografia e bibliografia completa. E o melhor: as obras completas do escritor estão disponibilizadas para leitura.



Na telinha

O Canal Brasil, da TV paga, promove hoje uma maratona de filmes dedicados a Vinicius de Moraes. Serão exibidos os longas Orfeu negro (1959), às 19h; Orfeu (1999), às 18h30; Para viver um grande amor (1984), às 22h; e o documentário Vinicius (2005), à 0h15.

Canções e histórias

A Editora Leya está lançando mais um volume da série História de canções dedicado ao compositor. Wagner Homem e Bruno de La Rosa contam os casos por trás de clássicos das parcerias com Tom, Baden, Lyra e Toquinho.

Prosa, cinema e teatro - João Paulo

O poeta e compositor foi autor de crônicas e contos e levou sua paixão para o cinema e o teatro. Filme Orfeu negro, baseado em musical para o palco, foi premiado com a Palma de Ouro e o Oscar


João Paulo

Estado de Minas: 19/10/2013 



 (Pedro Moraes/divulgação)


...Às vezes quero crer mas não consigo
É tudo uma total insensatez
Aí pergunto a Deus: escute, amigo
Se foi pra desfazer, pra que é que fez?...


Oscar Niemeyer, Vinicius de Moraes, Tom Jobim e Lila de Moraes: ao fundo, o cartaz de Djanira para Orfeu da Conceição (José Medeiros/Jobim Music)
Oscar Niemeyer, Vinicius de Moraes, Tom Jobim e Lila de Moraes: ao fundo, o cartaz de Djanira para Orfeu da Conceição


A força da poesia e a da música na vida e obra de Vinicius é tão intensa que nublou outras realizações do artista. O prosador, por exemplo, autor de crônicas reunidas em dois livros, Para viver um grande amor e Para uma menina com uma flor, ficou marcado por uma avaliação incorreta. Pelo título dos livros, e pelo fato de intercalar poemas e textos em prosa, ficaram para a história como sendo volumes reunidos às pressas, com escritos de circunstância, vazados por uma prosa poética descompromissada. Livro para jovenzinhas sonhadoras dadas a suspiros.

Mesmo com textos publicados na imprensa a partir dos anos 1940, os livros merecem ainda hoje leitura atenta. Vinicius mescla vários subgêneros, da crônica a contos fantásticos. O escritor, que sempre foi muito vaidoso, no mais egocêntrico dos gêneros (todo cronista adora falar com o próprio umbigo), dá lições aos colegas de ofício, introduzindo um ensaísmo leve em seus textos. Influência inglesa que, em alguns momentos, se parece com o estilo de outro brasileiro admirador da sutileza e do humor britânico, Machado de Assis.

No entanto, o melhor das crônicas de Vinicius são os exercícios de memória. O escritor fala sobre a viagem a Ouro Preto na companhia de Rodrigo Melo Franco de Andrade; faz pequenos retratos de amigos, como Caymmi, Guignard e Antonio Maria; relembra o Rio de sua infância. Mas o cronista também sabe pôr o dedo na ferida, ao descrever um Rio de favelas, falta d’água e enchentes. Uma cidade que tem de um lado a garota de Ipanema e de outro o cheiro da miséria do Morro do Pinto.

Outra arte que sempre interessou Vinicius de Moraes foi o cinema. Em 1947, chegou a estudar com Orson Welles e Greg Tolland. No mesmo ano, com Alex Viany, fundou a revista Filme. Escrever sobre cinema ajudava a equilibrar o orçamento do poeta. Entre 1941 e 1953, publicou críticas de filmes nos jornais A Manhã, Diário Carioca e Última Hora. Seus escritos sobre a sétima arte foram reunidos na antologia O cinema de meus olhos – Textos sobre cinema, organizado por Carlos Augusto Calil em 1991, e publicado pela Companhia das Letras.

Sua maior aproximação ao cinema, como não podia deixar de ser, se deu pela via da música. Suas canções fazem parte da trilha de dezenas de filmes (cerca de 70 longas-metragens de várias nacionalidades), entre eles produções dirigidas por David Lynch e Pedro Almodóvar. No Brasil, sua primeira canção ouvida na tela grande foi Eu não existo sem você, no filme Pista de grama, de 1958.

Mas a grande experiência de Vinicius com o cinema foi sem dúvida o filme Orfeu negro, de Marcel Camus, de 1959, livremente adaptado da peça Orfeu da Conceição. O filme ganhou os dois mais importantes prêmios do cinema mundial, a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro. Vinicius não gostou do filme. E nem podia gostar. Trata-se de cinema para gringo ver, cheio de exotismos. Os estrangeiros adoraram (a mãe de Obama era fã do filme de Camus) e os brasileiros até hoje torcem o nariz.

O cineasta Cacá Diegues, que 40 anos depois dirigiria seu próprio Orfeu, se referiu da seguinte forma ao filme de Marcel Camus: “Apesar de seu sincero encantamento pela paisagem humana e geográfica do Rio de Janeiro, apesar mesmo de um certo carinho pelo que estava registrado, o filme enveredava por visão exótica e turística da cidade, o que traía o sentido da peça e passava muito longe de suas fundadoras e fundamentais qualidades. Embora hoje, depois de revisões mais recentes, reconheça que há naquele filme certas qualidades indecifráveis para mim na época, saí do cinema sentindo-me pessoalmente ofendido”.

Outro filme com a digital de Vinicius de Moraes no argumento e roteiro é Garota de Ipanema, de Leon Hirszman. Para fechar uma história de amor com o cinema, o Poetinha foi tema do documentário Vinicius, de Miguel Faria Júnior, de 2005. É, até hoje, documentário com uma das maiores bilheterias no Brasil, com mais de 270 mil pagantes.


Sempre vivo
 (Jobim Music/Reprodução)
Um mito grego adaptado para o cenário de uma favela carioca, escrito em decassílabos. A ideia não era assim tão nova. Muitos escritores foram seduzidos pela história do lendário Orfeu, um dos mais misteriosos personagens da mitologia. Orfeu foi recriado por Virgílio, Ovídio, Calderón de la Barca, Lope Vega, Corneille, Pierre de Ronsard, Shelley e Rilke. Tornou-se personagem de ópera de Monteverdi e Gluck e cantatas de Haydn, Rameau e Offebnbach. A lista é infinita. Vinicius está em boa companhia.

O texto do poeta carioca foi publicado em 1954, na revista Anhembi. Em 1956, ganhou música de Tom Jobim, apresentado a Vinicius por Lúcio Rangel especialmente para o trabalho. Numa das gafes mais repetidas da história da cultura brasileira, Tom teria perguntado: “Tem um dinheirinho nisso?”. A encenação, com direção de Leo Jusi e cenário de Oscar Niemeyer, lotou o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que, pela primeira vez, viu subir ao palco atores negros como protagonistas. A primeira temporada ficou em cartaz de 25 a 30 de setembro daquele ano.

Os mil exemplares do programa, desenhado por Carlos Scliar, foram distribuídos no foyer do teatro e se esgotaram na primeira récita. Hoje, são peças de colecionador. Em 1º de outubro, a Odeon lançou uma bolacha de 10 polegadas, com Roberto Paiva cantando temas de Orfeu no lado A (os discos, como a vida, tinham sempre dois lados), e uma overture e recitativo de Vinicius com a Valsa de Eurídice ao fundo, no lado B.

A peça voltaria ao cartaz no Teatro de República, mas com cenários menores de Fernando Pamplona, encerrando a experiência de Niemeyer com o teatro por excesso de beleza. O cenário do arquiteto – uma crítica que se tornaria recorrente entre os ignorantes – era bonito demais para ser prático. As opiniões sobre o espetáculo foram em geral positivas, com comparações com Porgy e Bess, de Gershwin, e exaltações à poesia de Vinicius e à música de Tom, por nomes como Jorge Amado e Radamés Gnatalli. Manuel Bandeira defendeu que a história ficaria melhor no cinema. Treze anos depois, Camus pôs a ideia em prática. Não se sabe o que o poeta pernambucano achou do filme.

Vinicius de Moraes escreveu outras peças de teatro: Procura-se uma Rosa, baseada em uma história de jornal, com a colaboração de Pedro Bloch; Cordélia e o peregrino (texto dos anos 1930 retomado em 1965); e As feras. Em 1995, foi publicado o livro Teatro em versos, organizado por Carlos Augusto Calil (Companhia das Letras).
Homem de muitos instrumentos, Vinicius garantia que era hábil com as panelas (Arquivo Pessoal)
Homem de muitos instrumentos, Vinicius garantia que era hábil com as panelas


Água na boca  

Em matéria de prazer, nada ficava de fora na vida de Vinicius. Pensando nisso, Daniela Narciso e Edith Gonçalves organizaram o livro Pois sou um bom cozinheiro (Companhia das Letras), com histórias gastronômicas ligadas a diferentes momentos da vida do Poetinha. Com direito a receitas inspiradas na vida do compositor, criadas por chefs como Alex Atala, Flávia Quaresma e Claude Troisgros, entre outros. Minas e as temporadas em Ouro Preto não ficam de fora, sem falar da célebre visita de Vinicius e Neruda ao Tavares, em BH, restaurante especializado em caça, onde os dois poetas se deliciaram com a variedade de pimentas da casa.