Lula e Temer não querem uma reprise das escaramuças de 1998 e de 2002 nas convenções do PMDB
Tereza Cruvinel
Estado de Minas: 20/10/2013
Na alianças e nas
disputas, quando as coisas se complicam, alguém apela: "Segure os seus
radicais que eu vou segurar os meus". Foi o que combinaram, em almoço na
sexta-feira, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o
vice-presidente Michel Temer, constatando a necessidade de uma freada de
arrumação nas escaramuças pré-eleitorais entre petistas e
peemedebistas. Acertaram na sobremesa a criação de um grupo de trabalho
com três ou quatro de cada lado para coordenar os arranjos nos estados.
Quando não for mesmo possível a composição, serão estabelecidas algumas
bases e limites da disputa no estado para preservar a aliança nacional.
O
que Lula e Temer sabem é que não basta, para a candidatura da
presidente Dilma, ter o apoio da maioria das bancadas ou das seções
estaduais do PMDB. A aliança terá que ser aprovada em convenção e nenhum
deles gostaria de ver a reedição das escaramuças do passado. Em 1998, o
partido dividiu-se entre os que queriam apoiar a reeleição de Fernando
Henrique Cardoso e os que preferiam Lula ou Ciro Gomes. O ex-presidente
Itamar Franco apresentou-se como candidato e foi derrotado, mas a
convenção não conseguiu formalizar apoio a ninguém. Em 2002, foi parar
no STF a briga para anular a convenção que havia oficializado o apoio ao
tucano José Serra, contra a candidatura do senador Roberto Requião. O
apoio formal a Serra garantiu-lhe a vice, Rita Camata, e o tempo na
tevê, mas as seções regionais mais importantes apoiaram Lula.
O
líder petista escalou-se para fazer a costura que Dilma tem evitado por
inapetência, e o PT porque ainda está zonzo com a jogada de Eduardo
Campos-Marina Silva. Sabe que Dilma precisa das duas coisas, do apoio
formal e do engajamento do partido nos Brasis remotos. O gongo soou
diante da ameaça do PMDB do Rio – que controla 15% dos convencionais –
de arregimentar forças contra a aprovação da aliança se for mantida a
candidatura do senador Lindbergh Farias (PT) a governador, contra o
candidato do governador Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão, ambos
peemedebistas. O Rio é o nervo exposto, mas a fervura está alta também
no Maranhão e no Ceará, afora estados onde nem se cogita composição,
como Bahia e Rio Grande do Sul. Esta semana, Lula e Dilma ligaram para o
ex-presidente José Sarney depois de notícias dando conta de que o PT
maranhense já havia decidido apoiar o candidato do PCdoB, Flávio Dino.
Nada resolvido, garantiram os dois, acalmando o leal e indignado aliado.
No Ceará, depois que os irmãos Gomes deixaram o PSB para ficar com
Dilma, o PT enfrenta a tentação de jogar ao mar a candidatura do líder
peemedebista no Senado, Eunício Oliveira. Se essas três seções,
ressentidas com a rejeição petista, forem à guerra na convenção, podem
fazer estrago.
Enquanto isso, o presidente do PSDB e senador por
Minas Gerais, Aécio Neves, percorre o país criticando a política
econômica para levar o tema ao debate eleitoral, e a coligação PSB/Rede
diverte a plateia fingindo que Marina Silva poderá ser candidata.
Duas viagens audiovisuais
A
coprodução da série de documentários O Dia que durou 21 anos foi um dos
projetos mais caros e significativos para os que estiveram comigo na
presidência inaugural da EBC/TVBrasil (2007–2010). Concebido e dirigido
por Camilo Tavares e ancorado na experiência e na consultoria de seu
pai, o jornalista, ex-preso político e exilado Flávio Tavares, a obra
resgata, com imagens, áudios e depoimentos inéditos, a gênese do golpe
de 1964 e a participação dos Estados Unidos na queda do Brasil na
ditadura. Na sexta-feira, a presidente Dilma Rousseff exibiu a obra para
público restrito no Palácio da Alvorada, valorizando a restauração da
memória, que ela instituiu criando a Comissão da Verdade, e também
graças à capacidade realizadora dos documentaristas e o papel da
televisão pública em iniciativas educativo-culturais.
O
documentário mostra as articulações golpistas de políticos, empresários e
militares brasileiros e os laços com a Casa Branca, que tinha como
principal operador o embaixador no Brasil, Lincoln Gordon. Ainda em
1962, o então presidente John F. Kennedy, num áudio obtido pelos
produtores, deu-lhe o sinal verde para apoiar ações contra o presidente
João Goulart. Os dólares correram em apoio à eleição de candidatos da
oposição e outras ações desestabilizadoras. Morto Kennedy, o presidente
em 1964 era Lyndon Johnson. Em conversa telefônica gravada com o
subsecretário de Estado George Ball, ele autorizou o envio de uma força
naval para a costa brasileira, em apoio ao golpe. Não precisou ser
usada. Foi a Operação Brother Sam.
Essas e outras provas foram
obtidas com a abertura dos documentos relativos às presidências
Kennedy/Johnson, entre outras fontes. A poderosa memória jornalística de
Flávio Tavares vai pontuando o antes e o depois. Camilo, que nasceu no
México, quis resgatar o que viveu e não compreendeu numa infância
atribulada, mas serve essencialmente à verdade.
Vozes d’África
Para
encurtar as distâncias com a África, não basta ao Brasil ajudar seus
povos ou estimular investimentos. O Brasil precisa também conhecer
melhor o continente que forneceu importantes pilares étnicos, econômicos
e culturais de sua formação. A TV Bandeirantes estreou ontem
Presidentes africanos, série de entrevistas conduzidas por Franklin
Martins, em sua volta ao vídeo como repórter e entrevistador, sob a
direção de Carlos Nascimbeni e Carlos Alberto Junior. A produção é do
Cine Group, única produtora brasileira com filial na África, onde atua
há seis anos. Na primeira fase, serão exibidos episódios com José
Eduardo dos Santos (Angola), Jacob Zuma (África do Sul), Armando Guebuza
(Moçambique), Goodluck Jonathan (Nigéria) e Joseph Kabila (República do
Congo).
domingo, 20 de outubro de 2013
Artes em diálogo - Carolina Braga
Inhotim anuncia construção de teatro ao
ar livre para 15 mil espectadores e projeto de oficinas de roteiro com o
Festival de Sundance. Antônio Grassi planeja trazer companhia de Pina
Bausch
Carolina Braga
Estado de Minas: 20/10/2013
Carolina Braga
Estado de Minas: 20/10/2013
![]() |
|
| Antônio Grassi, diretor-executivo do Inhotim, defende que a busca arte de qualidade deve ser a marca dos novos projetos do instituto |
Chamar simplesmente de
arena parecia pouco. Anfiteatro também não era a opção mais adequada.
Ficaria sem o charme e a modernidade que o local, de certa forma, já
carrega. Quando a cenógrafa e diretora Daniela Thomas veio a Minas
apresentar o novo projeto a ser construído no Inhotim, ainda não sabia
muito bem que nome dar. Até que Bernardo Paz, o idealizador do instituto
de arte contemporânea, soltou: “Grota dos Sonhos”. Bateu o martelo.
Até 2015, o museu e jardim botânico de crescente reputação internacional terá a sua primeira sala de espetáculos. Quer dizer, sala é modo de dizer. O espaço a ser erguido nas imediações do parque, com o palco construído dentro de um lago, condiz com a proposta de transversalidade do Inhotim. Ali dentro todas as artes podem – e devem – conversar.
“É um lugar em que você pode ter espaço para concertos, música, dança e ópera. Tem um palco que possibilita isso tudo e, ao mesmo tempo, é um espaço para que o público possa fazer piquenique”, detalha Antônio Grassi, atual diretor- executivo do centro de arte contemporânea erguido em Brumadinho. De acordo com o projeto, apenas o palco será coberto. O público ficará no gramado, em meio às árvores, numa área que poderá comportar de 1,5 a 15 mil pessoas. A entrada será tanto pelo parque, em ações integradas com as outras artes, quanto por uma passagem independente. Até sua inauguração, será construído um novo acesso ao local e área para estacionamento.
Mineiro de Belo Horizonte, desde 1980 Antônio Grassi vive fora de Minas Gerais. Em julho, decidiu deixar a Presidência da Fundação Nacional das Artes (Funarte), para entrar de cabeça no sedutor projeto de pensar, articular e realizar ações e propostas para incrementar as potencialidades do Inhotim em outras áreas, para além das artes plásticas e da botânica. “Ao chegar, a gente vê que tem muita coisa para trabalhar pela frente”, comenta.
Roteiros
Enquanto Daniela Thomas detalha o projeto da Grota dos Sonhos, também sob a supervisão de Grassi, representantes do Inhotim estão nos Estados Unidos articulando com profissionais do Festival de Sundance outra ideia ousada: a de realizar em Minas Gerais um laboratório para roteiristas, com inscrições abertas em todo o mundo.
“A gente precisa muito de roteiristas. Não existe estímulo a essa formação”, ressalta Grassi. Realizado anualmente em janeiro, o Festival de Sundance é uma das ações do Instituto Sundance, fundado pelo ator Robert Redford, em 1978. Além da mostra de filmes, a organização planeja também cursos e ações voltadas para a formação de novos cineastas e demais profissionais envolvidos na cadeia do cinema.
“Eles têm a ideia de se juntar ao Inhotim em nova safra desses laboratórios”, adianta. Os primeiros contatos foram feitos no Canadá e continuaram em reunião em Los Angeles. Em dezembro, representantes de Sundance vêm ao Brasil conhecer o Inhotim. Da forma como vem sendo conversado, o laboratório contaria com a participação de oito roteiristas, de várias nacionalidades.
De acordo com Antônio Grassi, a iniciativa pode ser vista também como um incentivo ao cinema de arte brasileiro. “As experiências bem-sucedidas comercialmente hoje tendem para a comédia. Nós poderíamos abraçar uma causa em um espaço do cinema de arte, que tem sido muito travado. O Inhotim pode criar um selo, que certamente teria uma personalidade”, diz.
O ator não esconde o entusiasmo com o formato dos laboratórios. Similiares ao de roteiro, também estão nos planos formações voltadas para arquitetura e literatura. “Dá para fazer de várias áreas com esse espírito inovador e experimental o que o Inhotim proporciona”, completa. No caso das artes cênicas, o plano não é menos ousado: trazer a companhia fundada pela bailarina alemã Pina Bausch.
Como parte da celebração dos 40 anos do Tanztheater Wuppertal Pina Bausch, o grupo passará pelo Brasil. “Em novembro de 2014 já existe uma possibilidade de eles estarem aqui para temporadas no Rio, na Cidade das Artes, e no Teatro Alpha, em São Paulo. Queremos inserir o Inhotim nesse roteiro. Nosso convite foi para que eles possam vir aqui e pensar como criar uma coisa especialmente para este lugar”, diz.
Acervo em mutação
Na quinta-feira serão abertas as novas exposições temporárias do Inhotim. Será a maior troca de acervo da instituição desde 2006. Todas as obras pertencem ao instituto. Nove telas com imagens domésticas, paisagens naturais, urbanas e abstratas do pintor Luiz Zerbini formarão a exposição Amor lugar comum, na Galeria Praça. Já na área central do mesmo espaço estará Imóvel instável (2011), de Marcius Galan.
A Galeria Fonte receberá variações de 13 artistas sobre o mesmo tema: a natureza morta. Entre eles estão Jorge Macchi, Mauro Restiffe e o minimalista Robert Morris. O baiano Marepe entra em exposição na Galeria Fonte com os trabalhos Olê ô picolé (2007) e A cabra (2007). A galeria Mata receberá instalações de Babette Mangolte e obras de Juan Araújo, que participa de um encontro com o público na terça-feira. O bate-papo será no Museu Mineiro (Avenida João Pinheiro, 342), com entrada franca.
Vem aí
» Grota dos Sonhos
Com projeto da cenógrafa e diretora Daniela Thomas, o teatro do Inhotim deverá ser construído dentro de um lago. O palco foi pensado para receber apresentações de artes cênicas e música. A plateia terá capacidade para receber até 15 mil espectadores.
» Laboratórios e residências artísticas
O americano Sundance Institut articula parceria com o Inhotim para a realização de laboratórios voltados para roteiristas do mundo todo. De carona nessa ideia, também são planejados encontros com profissionais internacionais voltados para arquitetura e literatura. O plano, em todos eles, é conseguir materializar um produto artístico, seja um filme, um projeto arquitetônico ou um livro.
» Inhotim TV
Dentro do projeto de registro de memória do que se passa dentro do instituto há também o projeto da TV Inhotim. O objetivo é exibir na internet e futuramente em um canal de televisão tudo que já foi feito no centro de arte contemporânea. Bastidores da instalação das obras de artistas como Adriana Varejão, Tunga e Cildo Meireles já estão registrados.
Até 2015, o museu e jardim botânico de crescente reputação internacional terá a sua primeira sala de espetáculos. Quer dizer, sala é modo de dizer. O espaço a ser erguido nas imediações do parque, com o palco construído dentro de um lago, condiz com a proposta de transversalidade do Inhotim. Ali dentro todas as artes podem – e devem – conversar.
“É um lugar em que você pode ter espaço para concertos, música, dança e ópera. Tem um palco que possibilita isso tudo e, ao mesmo tempo, é um espaço para que o público possa fazer piquenique”, detalha Antônio Grassi, atual diretor- executivo do centro de arte contemporânea erguido em Brumadinho. De acordo com o projeto, apenas o palco será coberto. O público ficará no gramado, em meio às árvores, numa área que poderá comportar de 1,5 a 15 mil pessoas. A entrada será tanto pelo parque, em ações integradas com as outras artes, quanto por uma passagem independente. Até sua inauguração, será construído um novo acesso ao local e área para estacionamento.
Mineiro de Belo Horizonte, desde 1980 Antônio Grassi vive fora de Minas Gerais. Em julho, decidiu deixar a Presidência da Fundação Nacional das Artes (Funarte), para entrar de cabeça no sedutor projeto de pensar, articular e realizar ações e propostas para incrementar as potencialidades do Inhotim em outras áreas, para além das artes plásticas e da botânica. “Ao chegar, a gente vê que tem muita coisa para trabalhar pela frente”, comenta.
Roteiros
Enquanto Daniela Thomas detalha o projeto da Grota dos Sonhos, também sob a supervisão de Grassi, representantes do Inhotim estão nos Estados Unidos articulando com profissionais do Festival de Sundance outra ideia ousada: a de realizar em Minas Gerais um laboratório para roteiristas, com inscrições abertas em todo o mundo.
“A gente precisa muito de roteiristas. Não existe estímulo a essa formação”, ressalta Grassi. Realizado anualmente em janeiro, o Festival de Sundance é uma das ações do Instituto Sundance, fundado pelo ator Robert Redford, em 1978. Além da mostra de filmes, a organização planeja também cursos e ações voltadas para a formação de novos cineastas e demais profissionais envolvidos na cadeia do cinema.
“Eles têm a ideia de se juntar ao Inhotim em nova safra desses laboratórios”, adianta. Os primeiros contatos foram feitos no Canadá e continuaram em reunião em Los Angeles. Em dezembro, representantes de Sundance vêm ao Brasil conhecer o Inhotim. Da forma como vem sendo conversado, o laboratório contaria com a participação de oito roteiristas, de várias nacionalidades.
De acordo com Antônio Grassi, a iniciativa pode ser vista também como um incentivo ao cinema de arte brasileiro. “As experiências bem-sucedidas comercialmente hoje tendem para a comédia. Nós poderíamos abraçar uma causa em um espaço do cinema de arte, que tem sido muito travado. O Inhotim pode criar um selo, que certamente teria uma personalidade”, diz.
O ator não esconde o entusiasmo com o formato dos laboratórios. Similiares ao de roteiro, também estão nos planos formações voltadas para arquitetura e literatura. “Dá para fazer de várias áreas com esse espírito inovador e experimental o que o Inhotim proporciona”, completa. No caso das artes cênicas, o plano não é menos ousado: trazer a companhia fundada pela bailarina alemã Pina Bausch.
Como parte da celebração dos 40 anos do Tanztheater Wuppertal Pina Bausch, o grupo passará pelo Brasil. “Em novembro de 2014 já existe uma possibilidade de eles estarem aqui para temporadas no Rio, na Cidade das Artes, e no Teatro Alpha, em São Paulo. Queremos inserir o Inhotim nesse roteiro. Nosso convite foi para que eles possam vir aqui e pensar como criar uma coisa especialmente para este lugar”, diz.
![]() | |
| Escultura Imóvel instável, de Marcius Galan, passa a ser exposta na quinta-feira |
Acervo em mutação
Na quinta-feira serão abertas as novas exposições temporárias do Inhotim. Será a maior troca de acervo da instituição desde 2006. Todas as obras pertencem ao instituto. Nove telas com imagens domésticas, paisagens naturais, urbanas e abstratas do pintor Luiz Zerbini formarão a exposição Amor lugar comum, na Galeria Praça. Já na área central do mesmo espaço estará Imóvel instável (2011), de Marcius Galan.
A Galeria Fonte receberá variações de 13 artistas sobre o mesmo tema: a natureza morta. Entre eles estão Jorge Macchi, Mauro Restiffe e o minimalista Robert Morris. O baiano Marepe entra em exposição na Galeria Fonte com os trabalhos Olê ô picolé (2007) e A cabra (2007). A galeria Mata receberá instalações de Babette Mangolte e obras de Juan Araújo, que participa de um encontro com o público na terça-feira. O bate-papo será no Museu Mineiro (Avenida João Pinheiro, 342), com entrada franca.
Vem aí
» Grota dos Sonhos
Com projeto da cenógrafa e diretora Daniela Thomas, o teatro do Inhotim deverá ser construído dentro de um lago. O palco foi pensado para receber apresentações de artes cênicas e música. A plateia terá capacidade para receber até 15 mil espectadores.
» Laboratórios e residências artísticas
O americano Sundance Institut articula parceria com o Inhotim para a realização de laboratórios voltados para roteiristas do mundo todo. De carona nessa ideia, também são planejados encontros com profissionais internacionais voltados para arquitetura e literatura. O plano, em todos eles, é conseguir materializar um produto artístico, seja um filme, um projeto arquitetônico ou um livro.
» Inhotim TV
Dentro do projeto de registro de memória do que se passa dentro do instituto há também o projeto da TV Inhotim. O objetivo é exibir na internet e futuramente em um canal de televisão tudo que já foi feito no centro de arte contemporânea. Bastidores da instalação das obras de artistas como Adriana Varejão, Tunga e Cildo Meireles já estão registrados.
Reforço na defesa cura o ebola - Vilhena Soares
Cientistas eliminaram a doença em macacos ao juntar terapias que usam anticorpos do vírus. Testes com humanos começarão em 2015
Vilhena Soares
Estado de Minas: 20/10/2013
Uma combinação de terapias pode ser a cura para uma das doenças mais letais da atualidade. Cientistas dos Estados Unidos e do Canadá conseguiram eliminar o ebola de macacos Rhesus dessa forma: unindo intervenções que tornaram as cobaias capazes de extirpar o vírus. Eles utilizaram anticorpos de macacos que sobreviveram ao mal infeccioso e um micro-organismo criado em laboratório, um adenovírus, que aumentou o número de células de defesa nos animais. A terapia surtiu efeito três dias depois da infecção.
Gary Kobinger, um dos autores da pesquisa e professor da Universidade de Manitoba, no Canadá, conta que um estudo realizado pela mesma equipe de cientistas no ano passado embasou a ideia de usar os anticorpos. “Esse experimento mostrou que os primatas não humanos que se salvaram da exposição ao vírus mortal do ebola ao serem vacinados tinham altos níveis de anticorpos específicos, mas os não sobreviventes apresentavam níveis baixos, quase indetectáveis, dessa substância”, detalha. “Pensamos que seria possível usar esses anticorpos em uma terapia. Fizemos isso e deu certo.”
Para maximizar a defesa do organismo dos macacos, os pesquisadores também trataram as cobaias com um adenovírus – vírus criado em laboratório e usado geralmente como ferramenta para potencializar a produção de substâncias no corpo. Nesse caso, a equipe quis aumentar a quantidade de interferon alfa, uma citocina produzida pelo sistema imunológico.
As cobaias foram tratadas com as duas estratégias três dias após ser infectadas pelo Zaile ebolavirus, um dos subtipos mais letais do vírus ebola. Após a terapia, elas foram totalmente curadas da doença. Os pesquisadores acreditam que os anticorpos ajudaram a neutralizar o vírus e que a maior produção de interferon alfa conseguiu combater de forma mais eficaz a doença. Isso porque, ao tratar macacos somente com o adenovírus, o mesmo resultado não foi obtido.
“No momento, estamos tentando entender exatamente como os anticorpos agem em nível molecular, mas ainda não temos todos os detalhes. Sabemos que podem bloquear a entrada do vírus, que são células sensíveis, mas suspeitamos que exista pelo menos mais um mecanismo que interfira na replicação do ebola”, destaca Kobinger. Os resultados da pesquisa foram publicados na revista Science Translational Medicine.
Estratégia certeira Para Gustavo Menezes, professor de biologia celular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o grande destaque do estudo foi utilizar o adenovírus, que não produziu malefícios ao organismo dos macacos e ainda aumentou os níveis de interferon alfa. “Eles utilizam um vírus para combater outro, além das substâncias do próprio agente infeccioso. O resultado foi totalmente positivo, 100% dos macacos testados obtiveram uma total melhora e mantiveram esse estado mais de 20 dias após o tratamento, o que expressa a eficácia”, observa.
Outro ponto de destaque da pesquisa, segundo Menezes, foi tratar o vírus dias após a infecção das cobaias. “O ebola, muitas vezes, pode ser diagnosticado tardiamente. Existem casos em que as pessoas estão em casa com os sintomas, mas não sabem que têm a doença. Ter tratado esses animais três dias após a infecção mostra que, até mesmo depois do diagnóstico, seria possível dar fim ao vírus”, ressalta.
Stefan Cunha, infectologista da Escola Paulista de Medicina, destaca que o uso de um dos subtipos mais letais do ebola também mostra o sucesso do experimento. “Essa é uma das variações mais cruéis da doença. Curá-la no terceiro dia mostra a eficácia do tratamento.” Para ele, a terapia será importante principalmente para as regiões em que o vírus provoca mais vítimas. “Felizmente, o ebola tem poucos risco de provocar uma pandemia, já que o contágio de pessoa para pessoa é mais difícil de ocorrer. Mas temos regiões na África com altos números de casos e a mortalidade chega a mais de 50% em alguns locais. Com um tratamento tão eficaz como esse, podemos ter a esperança de uma arma que combata essa doença com sucesso e reduza consideravelmente o número de mortes.”
Menezes acrescenta que a base da terapia tem sido abordada em tratamentos de outras doenças. Os anticorpos são usados, por exemplo, na terapia conta males não infecciosos, como a esclerose múltipla “Nesse caso, os remédios já são até vendidos na farmácia. Acredito que uma das maiores vantagens que podem surgir em tratamentos com essas substâncias é conseguir algo mais específico, ações que tratem a raiz dos problemas. Claro que ainda existem efeitos colaterais. Por isso, é necessário que os estudos continuem”, pondera.
Gary adianta que o próximo passo do grupo de cientistas será realizar testes com humanos — experimento programado para o início de 2015. Segundo ele, a equipe está bastante esperançosa com os resultados que serão alcançados. “A partir do fato de que podemos tratar os primatas não humanos e detectar o vírus no sangue de todos os animais, futuramente poderemos salvar todos eles de uma morte certa. Essa é uma possível cura da infecção do ebola”, aposta.
Saiba mais
Experimentos com nicotina
Em agosto, outra terapia também utilizou anticorpos para combater o ebola em macacos Rhesus. As três substâncias foram retiradas da nicotina e resultaram em um coquetel terapêutico chamado MB-003. O trabalho é fruto do esforço de pesquisadores da Divisão de Virologia do Instituto de Doenças Infecciosas do Exército dos Estados Unido (USAMRIID) e foi detalhado na Science Translational Medicine. Com a intervenção, eles conseguiram curar 43% das cobaias infectadas pelo vírus dois dias depois do contágio. A expectativa dos cientistas é que a droga esteja disponível para uso clínico até 2018.
Vilhena Soares
Estado de Minas: 20/10/2013
Uma combinação de terapias pode ser a cura para uma das doenças mais letais da atualidade. Cientistas dos Estados Unidos e do Canadá conseguiram eliminar o ebola de macacos Rhesus dessa forma: unindo intervenções que tornaram as cobaias capazes de extirpar o vírus. Eles utilizaram anticorpos de macacos que sobreviveram ao mal infeccioso e um micro-organismo criado em laboratório, um adenovírus, que aumentou o número de células de defesa nos animais. A terapia surtiu efeito três dias depois da infecção.
Gary Kobinger, um dos autores da pesquisa e professor da Universidade de Manitoba, no Canadá, conta que um estudo realizado pela mesma equipe de cientistas no ano passado embasou a ideia de usar os anticorpos. “Esse experimento mostrou que os primatas não humanos que se salvaram da exposição ao vírus mortal do ebola ao serem vacinados tinham altos níveis de anticorpos específicos, mas os não sobreviventes apresentavam níveis baixos, quase indetectáveis, dessa substância”, detalha. “Pensamos que seria possível usar esses anticorpos em uma terapia. Fizemos isso e deu certo.”
Para maximizar a defesa do organismo dos macacos, os pesquisadores também trataram as cobaias com um adenovírus – vírus criado em laboratório e usado geralmente como ferramenta para potencializar a produção de substâncias no corpo. Nesse caso, a equipe quis aumentar a quantidade de interferon alfa, uma citocina produzida pelo sistema imunológico.
As cobaias foram tratadas com as duas estratégias três dias após ser infectadas pelo Zaile ebolavirus, um dos subtipos mais letais do vírus ebola. Após a terapia, elas foram totalmente curadas da doença. Os pesquisadores acreditam que os anticorpos ajudaram a neutralizar o vírus e que a maior produção de interferon alfa conseguiu combater de forma mais eficaz a doença. Isso porque, ao tratar macacos somente com o adenovírus, o mesmo resultado não foi obtido.
“No momento, estamos tentando entender exatamente como os anticorpos agem em nível molecular, mas ainda não temos todos os detalhes. Sabemos que podem bloquear a entrada do vírus, que são células sensíveis, mas suspeitamos que exista pelo menos mais um mecanismo que interfira na replicação do ebola”, destaca Kobinger. Os resultados da pesquisa foram publicados na revista Science Translational Medicine.
Estratégia certeira Para Gustavo Menezes, professor de biologia celular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o grande destaque do estudo foi utilizar o adenovírus, que não produziu malefícios ao organismo dos macacos e ainda aumentou os níveis de interferon alfa. “Eles utilizam um vírus para combater outro, além das substâncias do próprio agente infeccioso. O resultado foi totalmente positivo, 100% dos macacos testados obtiveram uma total melhora e mantiveram esse estado mais de 20 dias após o tratamento, o que expressa a eficácia”, observa.
Outro ponto de destaque da pesquisa, segundo Menezes, foi tratar o vírus dias após a infecção das cobaias. “O ebola, muitas vezes, pode ser diagnosticado tardiamente. Existem casos em que as pessoas estão em casa com os sintomas, mas não sabem que têm a doença. Ter tratado esses animais três dias após a infecção mostra que, até mesmo depois do diagnóstico, seria possível dar fim ao vírus”, ressalta.
Stefan Cunha, infectologista da Escola Paulista de Medicina, destaca que o uso de um dos subtipos mais letais do ebola também mostra o sucesso do experimento. “Essa é uma das variações mais cruéis da doença. Curá-la no terceiro dia mostra a eficácia do tratamento.” Para ele, a terapia será importante principalmente para as regiões em que o vírus provoca mais vítimas. “Felizmente, o ebola tem poucos risco de provocar uma pandemia, já que o contágio de pessoa para pessoa é mais difícil de ocorrer. Mas temos regiões na África com altos números de casos e a mortalidade chega a mais de 50% em alguns locais. Com um tratamento tão eficaz como esse, podemos ter a esperança de uma arma que combata essa doença com sucesso e reduza consideravelmente o número de mortes.”
Menezes acrescenta que a base da terapia tem sido abordada em tratamentos de outras doenças. Os anticorpos são usados, por exemplo, na terapia conta males não infecciosos, como a esclerose múltipla “Nesse caso, os remédios já são até vendidos na farmácia. Acredito que uma das maiores vantagens que podem surgir em tratamentos com essas substâncias é conseguir algo mais específico, ações que tratem a raiz dos problemas. Claro que ainda existem efeitos colaterais. Por isso, é necessário que os estudos continuem”, pondera.
Gary adianta que o próximo passo do grupo de cientistas será realizar testes com humanos — experimento programado para o início de 2015. Segundo ele, a equipe está bastante esperançosa com os resultados que serão alcançados. “A partir do fato de que podemos tratar os primatas não humanos e detectar o vírus no sangue de todos os animais, futuramente poderemos salvar todos eles de uma morte certa. Essa é uma possível cura da infecção do ebola”, aposta.
Saiba mais
Experimentos com nicotina
Em agosto, outra terapia também utilizou anticorpos para combater o ebola em macacos Rhesus. As três substâncias foram retiradas da nicotina e resultaram em um coquetel terapêutico chamado MB-003. O trabalho é fruto do esforço de pesquisadores da Divisão de Virologia do Instituto de Doenças Infecciosas do Exército dos Estados Unido (USAMRIID) e foi detalhado na Science Translational Medicine. Com a intervenção, eles conseguiram curar 43% das cobaias infectadas pelo vírus dois dias depois do contágio. A expectativa dos cientistas é que a droga esteja disponível para uso clínico até 2018.
Saciados pelo olhar
Pesquisa mostra que observar muitas fotos de comida - como ocorre com
usuários do Instagram e do Pinterest- diminui o interesse pelos alimentos
Vilhena Soares
Estado de Minas: 20/10/2013
Brasília – Ao acessar redes sociais que têm como premissa as postagens de fotos, como o Instagram e o Pinterest, a possibilidade de ver imagens de comida é bem alta, devido ao costume de muitos usuários compartilharem imagens de pratos que estão prestes a saborear. Mas qual será o efeito – se é que ele existe – dessas imagens sobre o apetite das pessoas?
Um estudo realizado por cientistas americanos e publicado no Journal of Consumer Psichology buscou responder à pergunta e chegou à curiosa conclusão de que a exposição a várias dessas fotografias não aumenta a vontade de provar os alimentos. Pelo contrário, ela tende a reduzir o interesse pelas receitas. Os pesquisadores acreditam que olhar incessantemente a comida pode deixar o cérebro cansado, como se a pessoa já tivesse se alimentado. Dessa forma, supõem, a vontade de saborear as iguarias diminuiria.
Jeff Larson, coautor do estudo e professor do curso de marketing da Marriot School of Management, da Universidade Brighan Young (EUA), explica que o trabalho surgiu pelo interesse em desvendar como as sensações físicas afetam o pensamento humano. “Os psicólogos experimentais estão cada vez mais encontrando maneiras de mostrar como as sensações físicas interagem com a cognição, ou o ‘pensar’. Uma vez que um elemento básico da cognição é uma simulação física da experiência, nos ocorreu que simular o sabor de um alimento pode ter o mesmo efeito de quando você o prova”, diz.
Para investigar se o apetite humano poderia ser afetado pelas imagens das refeições, os cientistas recrutaram estudantes para participar de uma série de experimentos. Em um deles, por exemplo, os voluntários foram divididos em dois grupos, de 60 pessoas cada. O primeiro viu várias fotos de comidas doces, e o segundo, de pratos salgados. Depois, foi oferecido amendoim salgado para todos e perguntado o quanto cada um havia apreciado o tira-gosto.
Nas respostas, os estudantes que tinham olhado fotos de alimentos salgados relataram gostar menos dos amendoins do que os que haviam visto as fotos dos doces. Larson explica o resultado: “Quando você avalia a imagem de um alimento para determinar se o gosto é bom ou não, seu cérebro se engaja automaticamente em uma simulação, que ativa as mesmas áreas do cérebro que seriam estimuladas quando você come. Ou seja, você fica cansado do sabor desse alimento, como se o tivesse ingerido”.
Tédio Para o presidente do Departamento de Psiquiatria da Associação Paulista de Medicina, Kalil Dualibi, o trabalho corrobora uma suspeita que os cientistas já vêm abordando em outros estudos da área. “Esses pesquisadores induzem, por meio das fotos, a pessoa a ter consciência da satisfação. As imagens são um instrumento utilizado para estimular os caminhos da saciedade, e isso é fantástico. Essa estimulação cerebral torna nossa mente consciente”, destaca o médico, que não participou do experimento. “Existem muitos casos de pessoas que deixam de fumar e gostam de ficar só segurando o cigarro e colocá-lo (apagado) na boca, pois esse ato já as estimula e provoca uma série de sensações. Também temos casos de indivíduos que gostam de cozinhar, fazem isso o dia inteiro, mas que só provam a comida. Para elas, um pouco já é suficiente”, complementa.
Jeff Larson dá uma dica para quem quer evitar “enjoar” dos alimentos de que mais gosta. “Se você quiser desfrutar a experiência de consumo, evite olhar para muitas fotos de comida”, afirma. “Até me senti um pouco mal do estômago durante o estudo, depois de olhar para tantas imagens de doces”, conta. Ryan Elder, segundo autor do trabalho, destaca que a sensação de cansaço, definida por ele como “tédio sensorial”, só é provocada ao ver um grande número de imagens. “Não é que se você olhar para algo duas ou três vezes você vai obter esse efeito de saciedade. Isso é uma boa notícia para os entusiastas das fotos de comida, porque, vamos ser honestos, mostrar a todos a comida incrível que você está comendo é realmente legal”, afirma em um comunicado à imprensa.
Para Renata Morais, professora de comunicação digital do Centro Universitário Iesb de Brasília, o estudo utiliza para análise uma faceta já conhecida de usuários das redes sociais. “Esse costume de tirar fotos de alimentos incessantemente faz parte de um conceito que usamos em aula chamado design social. As mídias sociais têm esse poder. São as ferramentas que as pessoas utilizam para criar uma representação própria, uma autoimagem. Ao tirar fotos de pratos diversos, acredito que elas queiram mostrar um aspecto refinado, sua relação com a gastronomia”, explica.
Renata ressalta que estudos que envolvem o uso de novas mídias exigem alguns cuidados. “Quando falamos em tecnologia, tratamos de um assunto que muda rapidamente. Fazer estudos nessa área é difícil por conta dessa dinâmica. Qualquer coisa que digo agora sobre esse tema é sempre algo preliminar”, aponta. “Porém, é inegável que a nossa exposição cognitiva a essa overload (sobrecarga) sensorial de imagens, de estímulos visuais, como mostrado nesse estudo, faz com que a gente, de certa forma, esteja reconfigurando os nossos mecanismos de reação.”
Larson adianta que os próximos estudos realizados por ele e Elder continuarão a explorar a sensação de saciedade. “Gostaríamos de, em um seguinte, ver se nossos resultados formam uma base para um método de dieta eficaz. Se você tem uma fraqueza por um alimento em particular, será que podemos controlar o seu apetite ao fazer você pensar em comer aquele prato várias vezes?”, adianta.
Vilhena Soares
Estado de Minas: 20/10/2013
Brasília – Ao acessar redes sociais que têm como premissa as postagens de fotos, como o Instagram e o Pinterest, a possibilidade de ver imagens de comida é bem alta, devido ao costume de muitos usuários compartilharem imagens de pratos que estão prestes a saborear. Mas qual será o efeito – se é que ele existe – dessas imagens sobre o apetite das pessoas?
Um estudo realizado por cientistas americanos e publicado no Journal of Consumer Psichology buscou responder à pergunta e chegou à curiosa conclusão de que a exposição a várias dessas fotografias não aumenta a vontade de provar os alimentos. Pelo contrário, ela tende a reduzir o interesse pelas receitas. Os pesquisadores acreditam que olhar incessantemente a comida pode deixar o cérebro cansado, como se a pessoa já tivesse se alimentado. Dessa forma, supõem, a vontade de saborear as iguarias diminuiria.
Jeff Larson, coautor do estudo e professor do curso de marketing da Marriot School of Management, da Universidade Brighan Young (EUA), explica que o trabalho surgiu pelo interesse em desvendar como as sensações físicas afetam o pensamento humano. “Os psicólogos experimentais estão cada vez mais encontrando maneiras de mostrar como as sensações físicas interagem com a cognição, ou o ‘pensar’. Uma vez que um elemento básico da cognição é uma simulação física da experiência, nos ocorreu que simular o sabor de um alimento pode ter o mesmo efeito de quando você o prova”, diz.
Para investigar se o apetite humano poderia ser afetado pelas imagens das refeições, os cientistas recrutaram estudantes para participar de uma série de experimentos. Em um deles, por exemplo, os voluntários foram divididos em dois grupos, de 60 pessoas cada. O primeiro viu várias fotos de comidas doces, e o segundo, de pratos salgados. Depois, foi oferecido amendoim salgado para todos e perguntado o quanto cada um havia apreciado o tira-gosto.
Nas respostas, os estudantes que tinham olhado fotos de alimentos salgados relataram gostar menos dos amendoins do que os que haviam visto as fotos dos doces. Larson explica o resultado: “Quando você avalia a imagem de um alimento para determinar se o gosto é bom ou não, seu cérebro se engaja automaticamente em uma simulação, que ativa as mesmas áreas do cérebro que seriam estimuladas quando você come. Ou seja, você fica cansado do sabor desse alimento, como se o tivesse ingerido”.
Tédio Para o presidente do Departamento de Psiquiatria da Associação Paulista de Medicina, Kalil Dualibi, o trabalho corrobora uma suspeita que os cientistas já vêm abordando em outros estudos da área. “Esses pesquisadores induzem, por meio das fotos, a pessoa a ter consciência da satisfação. As imagens são um instrumento utilizado para estimular os caminhos da saciedade, e isso é fantástico. Essa estimulação cerebral torna nossa mente consciente”, destaca o médico, que não participou do experimento. “Existem muitos casos de pessoas que deixam de fumar e gostam de ficar só segurando o cigarro e colocá-lo (apagado) na boca, pois esse ato já as estimula e provoca uma série de sensações. Também temos casos de indivíduos que gostam de cozinhar, fazem isso o dia inteiro, mas que só provam a comida. Para elas, um pouco já é suficiente”, complementa.
Jeff Larson dá uma dica para quem quer evitar “enjoar” dos alimentos de que mais gosta. “Se você quiser desfrutar a experiência de consumo, evite olhar para muitas fotos de comida”, afirma. “Até me senti um pouco mal do estômago durante o estudo, depois de olhar para tantas imagens de doces”, conta. Ryan Elder, segundo autor do trabalho, destaca que a sensação de cansaço, definida por ele como “tédio sensorial”, só é provocada ao ver um grande número de imagens. “Não é que se você olhar para algo duas ou três vezes você vai obter esse efeito de saciedade. Isso é uma boa notícia para os entusiastas das fotos de comida, porque, vamos ser honestos, mostrar a todos a comida incrível que você está comendo é realmente legal”, afirma em um comunicado à imprensa.
Para Renata Morais, professora de comunicação digital do Centro Universitário Iesb de Brasília, o estudo utiliza para análise uma faceta já conhecida de usuários das redes sociais. “Esse costume de tirar fotos de alimentos incessantemente faz parte de um conceito que usamos em aula chamado design social. As mídias sociais têm esse poder. São as ferramentas que as pessoas utilizam para criar uma representação própria, uma autoimagem. Ao tirar fotos de pratos diversos, acredito que elas queiram mostrar um aspecto refinado, sua relação com a gastronomia”, explica.
Renata ressalta que estudos que envolvem o uso de novas mídias exigem alguns cuidados. “Quando falamos em tecnologia, tratamos de um assunto que muda rapidamente. Fazer estudos nessa área é difícil por conta dessa dinâmica. Qualquer coisa que digo agora sobre esse tema é sempre algo preliminar”, aponta. “Porém, é inegável que a nossa exposição cognitiva a essa overload (sobrecarga) sensorial de imagens, de estímulos visuais, como mostrado nesse estudo, faz com que a gente, de certa forma, esteja reconfigurando os nossos mecanismos de reação.”
Larson adianta que os próximos estudos realizados por ele e Elder continuarão a explorar a sensação de saciedade. “Gostaríamos de, em um seguinte, ver se nossos resultados formam uma base para um método de dieta eficaz. Se você tem uma fraqueza por um alimento em particular, será que podemos controlar o seu apetite ao fazer você pensar em comer aquele prato várias vezes?”, adianta.
Assinar:
Postagens (Atom)

