quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Em paz com Portinari‏ - Ailton Magioli

O painel Civilização mineira, instalado no Palácio dos Despachos, é desmontado para ser restaurado e protegido dos cupins. Alvo de polêmicas em BH, seu autor conquista a cidade



Ailton Magioli


Estado de Minas: 24/10/2013 



Restauradores trabalham no Palácio dos Despachos (Maria Tereza Correia/EM/D. A PRESS)
Restauradores trabalham no Palácio dos Despachos


Principal atração da temporada cultural de BH – o Cine Theatro Brasil-Vallourec exibe sua monumental obra Guerra e paz –, Candido Portinari (1903 –1962) é um velho conhecido da cidade. Foi ele quem pintou painéis, passos da via-sacra e os azulejos da fachada da Igreja de São Francisco, na Pampulha. O paulista de Brodowski assinou também trabalhos instalados no Pampulha Iate Clube, no Iate Tênis Clube e no Palácio dos Despachos.

Pintado em 1959 para a sede carioca do Banco Agrícola Hipotecário de Minas Gerais, o painel Civilização mineira está sendo oportunamente restaurado. Nele, Portinari retrata a transferência da capital de Ouro Preto para Belo Horizonte. Formado por 12 chapas de madeira compensada (234cm x 814cm), o painel chegou a BH em 1967, mas ficou fechado na sede do Banco do Estado de Minas Gerais (Bemge), na Praça 7, até ser transferido definitivamente para o Palácio dos Despachos, que vai abrigar a Casa Fiat de Cultura a partir de junho.

Depois de passar, há uma década, por restauro estético para conservação e limpeza, Civilização mineira foi desmontado pela primeira vez. Isso permite à equipe do Grupo Oficina de Restauro, responsável pelo trabalho, descobrir detalhes da técnica de montagem até então desconhecidos.

“A definição final da montagem ainda está em discussão”, explica Rosangela Reis Costa, que lidera a equipe técnica responsável pela restauração do painel. Um dos temas discutidos é a moldura em jacarandá baiano escuro (material usado nas escadas do Palácio dos Despachos, projetado por Luciano Amedée Peret). Ela tem três camadas de tinta em tom bege-esverdeado, mas Portinari não aprovava esse tipo de intervenção em seu trabalho. O pintor preferia a borda pintada de branco diretamente no painel.

“Na verdade, não há nada muito organizado em relação ao painel, o de maiores dimensões em Belo Horizonte. Como apenas pequenos documentos o citam, somente agora ele terá sua história devidamente escrita”, comemora Rosangela. Todo o projeto vem sendo documentado e exaustivamente debatido, reforça a especialista. Nada será apagado, obedecendo ao princípio de reversibilidade da restauração.

Equipe de quatro técnicos liderada por Rosangela comanda a desmontagem do painel. A escovação é etapa importante, pois permite remover resquícios deixados por cupins. “É uma verdadeira chuva de cupim”, comenta Rosangela, enquanto assiste ao escovamento da madeira da parede frontal da entrada do Palácio dos Despachos. Além dos restauradores, integram o grupo historiadores, artistas plásticos, químicos e fotógrafos especializados em luz.

“As técnicas são as mesmas empregadas no Guerra e paz, trabalho comandado pelos restauradores Cláudio Valério e Edson Mota Filho”, informa Rosangela, lembrando que Civilização mineira foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha/MG). Os estudos começaram no início de 2012, mas só em setembro os trabalhos de restauro foram iniciados. A conclusão está prevista para o ano que vem, quando a Casa Fiat de Cultura, atualmente instalada no Belvedere, funcionará no Palácio dos Despachos. A reabertura está prevista para junho.
Painel remete à mudança da capital de Ouro Preto para BH (Casa Fiat/divulgação)
Painel remete à mudança da capital de Ouro Preto para BH


Orgulho

Ana Vilela, gestora da Casa Fiat de Cultura, diz que é motivo de orgulho o governo mineiro ter confiado patrimônio de tal importância à instituição. “É o reconhecimento do trabalho de sete anos que desenvolvemos. Um de nossos objetivos é valorizar, preservar e difundir o patrimônio histórico, artístico e cultural”, garante.

De acordo com ela, a restauração de Civilização mineira, orçada em R$ 317 mil, foi viabilizada pela Lei Rouanet graças à parceria entre Ministério da Cultura, governo do estado e Iepha-MG. “Isso só vem reforçar a política cultural da empresa, trazendo a possibilidade de o público desfrutar da obra do grande mestre do modernismo brasileiro”, diz Ana.

A gestora lembra que o painel, além de remeter à transferência da capital de Ouro Preto para Belo Horizonte, traz a alegoria da Inconfidência Mineira, “referência da identidade dos brasileiros”.
São Francisco, padroeiro da polêmica igrejinha da Pampulha (Auremar de Castro/EM/D.A Press - 5/7/05)
São Francisco, padroeiro da polêmica igrejinha da Pampulha


Haja confusão

Olag, motivo de espanto em 1944 (Arquivo)
Olag, motivo de espanto em 1944


A onda modernista que atualmente contamina Belo Horizonte não se limita a resgatar a importância da cidade para o movimento artístico que tem o conjunto da Pampulha como um de seus símbolos. Ela também restaura – em boa hora – a relação da capital com Candido Portinari. Criadas para a Igreja de São Francisco, obras do pintor geraram uma batalha político-religiosa. Na época, o arcebispo de Belo Horizonte, dom Antônio dos Santos Cabral, rejeitou o conjunto modernista, condenando “fantasias de artistas” e “extravagâncias que podem muito bem ficar em salões de arte”.

Inaugurada em 1945, a igreja ficou fechada por 14 anos. Só foi aberta aos fiéis em 1959, três anos depois de Portinari pintar os painéis Guerra e paz para a sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Comunista assumido, o artista plástico brasileiro não conseguiu visto de entrada nos Estados Unidos.

Outra polêmica mineira envolvendo Portinari se deu em 1944. Seu quadro abstrato Cabeça de galo, exibido na Exposição de arte moderna de Belo Horizonte, provocou intensos debates na capital. Boa parte do público rejeitou a obra, ironicamente apelidada como Olag.

Dor e palavra - Carlos Herculano Lopes

A escritora Eliane Brum usa seu faro jornalístico para investigar as delicadezas da vida. Hoje à noite, ela autografa A menina quebrada... e conversa com o público na capital


Carlos Herculano Lopes

Estado de Minas: 24/10/2013 



A autora gaúcha Eliane Brum diz que escrever transforma a vida   (Lilo Clareto/divulgação)
A autora gaúcha Eliane Brum diz que escrever transforma a vida


Integrante da boa safra de escritores gaúchos surgida a partir da década de 1960, a jornalista Eliane Brum navega com competência por romances, crônicas e livros de reportagem. Hoje à noite, ela vem a BH fazer palestra e autografar seu último trabalho, A menina quebrada e outras colunas (Editora Arquipélago).

Nascida em Ijuí, no interior gaúcho, Eliane conta que escreve desde a infância para tentar converter a dor em palavra. “Essa possibilidade foi transformadora e me permitiu criar uma vida com sentido. Não é só dor o que percebo no mundo, mas também abissal delicadeza”, afirma.

 Para poder dedicar mais tempo à literatura, ela abriu mão do jornalismo diário, mas não perdeu o faro para boas reportagens e para perceber as sutilezas que rendem boas crônicas. “Como era repórter escrevendo uma coluna de opinião, usava parte do processo de reportagem na produção de minhas crônicas. Cada uma delas partia de um espanto e seguia uma investigação movida pelas dúvidas”, observa.

Eliane Brum vai conversar com o público às 19h30, no Centro de Convenções do Hospital Mater Dei (Rua Mato Grosso, 1.100, Santo Agostinho). Entrada franca. Informações: www.sempreumpapo.com.br.

CRIANÇAS » Associação teme redução de adoções‏

CRIANÇAS » Associação teme redução de adoções 

Luana Cruz

Esatado de Minas: 24/10/2013

A Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção (Angaad) criticou a decisão judicial que ordenou a devolução da menina M.E, de 4 anos e 5 meses, aos pais biológicos. Ela havia sido adotada por uma família de Contagem, na Grande BH. Por enquanto, o retorno da criança está suspenso, conforme decisão, em caráter liminar, do desembargador Caetano Levy. Ele acatou o pedido dos advogados da família adotiva e suspendeu a entrega da criança aos pais biológicos. O caso está no Tribunal de Justiça para ser reavaliado. O desembargador Belisário de Lacerda, autor da primeira decisão de devolução, poderá referendar ou não a liminar.

“A devolução de qualquer criança à família biológica após tal lapso de tempo reconhecidamente provocará danos psicológicos profundos e indeléveis”, afirma a Angaad, em manifesto divulgado ontem. A entidade entende que a repercussão da disputa judicial causou temor e insegurança a famílias adotivas e outras que pretendem adotar, pondo em risco futuras adoções.

Segundo a associação, “os habilitados no cadastro nacional de adoção, que aguardam ser chamados, passaram a recusar crianças ainda não destituídas do poder familiar, por medo de perdê-las após anos de amor, cuidado e dedicação”.

JUSTIÇA A história da menina M. E. ganhou evidência em 2009, depois de denúncias de maus-tratos dos pais biológicos, Robson Ribeiro Assunção e Maria da Penha Nunes. O Ministério Público solicitou à Justiça a destituição da guarda e com 2 meses de idade a criança foi encaminhada para um abrigo, onde ficou por dois anos até ser adotada por Valbio Messias da Silva e Liamar Dias de Almeida.

Ao longo do processo, entretanto, os pais biológicos recorreram à Justiça comprovando que a família estava reestruturada. Dessa forma, em decisão unânime, três desembargadores da 7ª Câmara Civil do TJMG entenderam que a criança deveria voltar para a família biológica, onde viveria com os novos pais e seis irmãos. No dia 17 de outubro, durante audiência no Juizado da Infância e Juventude de Contagem, ficou definido prazo de cinco meses para a entrega da menina aos pais biológicos, depois de processo de adaptação. Mas dois dias depois, o desembargador Caetano Levy concedeu liminar suspendendo a devolução da criança.

PRÉ-SAL » Sem alta na bomba‏

Preço de gasolina não será reajustado para pagar R$ 6 bi devidos pela Petrobras pelo Campo de Libra, diz Foster


Paulo Silva Pinto

Estado de Minas: 24/10/2013 



Brasília – Depois de passar duas horas reunida com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, no gabinete dele, em Brasília, a presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, disse que a empresa não terá dificuldades para pagar os R$ 6 bilhões devidos até o próximo mês pela assinatura do contrato de exploração do Campo de Libra. "O caixa da Petrobras está muito bem. Vai chegar ao final do ano conforme planejado no início do ano. Tem como pagar os R$ 6 bi", afirmou. "Nossa produção começa a aumentar no quarto trimestre. E quem produz mais petróleo precisa buscar menos recursos no mercado (financeiro)." Mantega é presidente do Conselho de Administração da Petrobras, que se reúne no Rio de Janeiro na sexta-feira, quando será divulgado o balanço trimestral da empresa. 

Ao falar com jornalistas após o encontro, Graça Foster descartou a necessidade de aporte de capital de seu acionista controlador, o Tesouro Nacional, para o pagamento do bônus. Disse que tampouco será preciso fazer algo que é frequentemente reivindicado por ela: reajustar os preços cobrados nas refinarias e repassados pelos postos aos consumidores. "Não tratamos do assunto aumento de combustíveis. Tratamos de Libra", desconversou ela.

O adiamento da decisão de mexer nos valores cobrados nas bombas por parte do governo, com o objetivo de segurar a inflação, é apontado por analistas como um dos principais fatores responsáveis pela queda nas margens de lucro da Petrobras, o que tem elevado seu endividamento. Ainda assim, Graça Foster disse que, em duas horas de conversa com Mantega, nem um minuto sequer foi dedicado a isso. As ações ordinárias da empresa, com direito a voto, caíram ontem 1,78%. As preferenciais, priorizadas na distribuição de dividendos, fecharam em baixa de 1,18% em relação à véspera.

O campo de Libra, o primeiro do pré-sal brasileiro a ser oferecido ao mercado, foi leiloado na segunda-feira e teve apenas uma proposta, do consórcio formado por Petrobras, a francesa Total, a anglo-holandesa Shell e as estatais chinesas CNPC e CNOOC. A Petrobras, que já seria a operadora do consórcio e ficaria com 30% de participação, independentemente do resultado, ampliou a fatia em 10 pontos, elevando-a para 40%. A Total e a Shell ficaram cada uma com 20%. As chinesas, separadamente, com fatias de 10%.


INVESTIMENTOS Para o governo, foi um alívio ver duas empresas europeias com 40% do consórcio vencedor. Além da credibilidade, pela tradição, o que agrada é o fato de que essas empresas são movidas pela maximização de lucros. Com isso, tentarão tirar o óleo de Libra o mais rapidamente possível. Empresas estatais asiáticas, sobretudo chinesas, costumam ser movidas por outros propósitos além da rentabilidade. Têm, sobretudo, interesses geopolíticos, que incluem a manutenção de reservas estratégicas de petróleo para consumo no longo prazo.

Para Mantega, a demanda por equipamentos para a exploração do pré-sal vai elevar significativamente a taxa de investimentos no Brasil. Somente no caso das sondas de perfuração, com custo unitário de mais de US$ 1 bilhão, será necessária ao menos uma dezena.