domingo, 27 de outubro de 2013

Sua reputação não lhe pertence - JOÃO LUIZ MAUAD

O Globo - 27/10/2013

Quando alguém escolhe a vida pública,
qualquer que seja o ramo de atividade,
deveria saber que tal escolha carrega
bônus e ônus. Não dá para depender
do voto do eleitor ou do ingresso da plateia e, ao
mesmo tempo, ter resguardada a privacidade.
Grande parte das pessoas que votam num político
quer conhecer não só as suas ideias, mas
também a sua conduta privada. Em menor medida,
o mesmo raciocínio vale para quem compra
um CD de música ou uma entrada de cinema,
teatro ou jogo de futebol, em relação aos artistas
e atletas de sua preferência.

A História é escrita ou narrada sem autorização
dos personagens nela destacados. É evidente
que a calúnia, a injúria, a difamação,
enfim, a mentira que causa dano deve ser punida
com rigor. Para isso existe a Justiça. Ademais,
a mentira é uma violação do contrato
implícito entre o escritor e o leitor, independentemente
de se uma reputação é prejudicada
ou não. Porém, se a reputação é prejudicada
por meio da verdade, é difícil reivindicar
qualquer injustiça nisso. Não dá para censurar
livros ou reportagens jornalísticas, publicando-
se somente aquilo que seja do interesse
das figuras públicas e/ou de suas famílias.
Isso não existe em lugar nenhum do mundo
dito civilizado.

A ideia de cobrar direitos autorais, então, beira
o absurdo. Já imaginaram quanto deveria ser
pago às famílias de um Churchill, de um Hitler,
de um Leonardo Da Vinci ou de um Pelé, caso
essa teoria maluca vingasse? Queiram ou não,
todos aqueles que escolhem a vida pública ou
se destacam de alguma maneira em suas respectivas
atividades passam a fazer parte do rol
de personagens históricos, e como tais serão
tratados, para o bem ou para o mal.

Outro ponto importante nessa polêmica diz
respeito à questão da reputação, algo considerado,
de forma completamente equivocada, como
uma propriedade da personagem destacada.
Na realidade, você não possui a sua reputação.
Ela é o acúmulo do que outras pessoas pensam
e acham de você. Em outras palavras, sua
reputação consiste de projeções realizadas por
outras pessoas. Você não pode controlar isso,
embora possa ter alguma influência. Simplesmente,
não há direito de propriedade em jogo
quando se fala de reputação.

Suponha que João seja um sujeito tímido,
com enorme dificuldade de relacionamento.
Ainda que seja um cara boa praça, pode acabar
sendo visto, injustamente, como arrogante, altivo,
presunçoso, vaidoso, superior, etc. pelas
pessoas com quem se relaciona. Portanto, são
as outras pessoas, principalmente aquelas com
as quais João convive, que decidem quão valiosa
é a sua reputação. Dizer que alguém é dono
da própria imagem é dizer que ele possui o pensamento
e as opiniões alheias, o que é um rematado
absurdo. Quando os marqueteiros falam
em construir uma imagem, estão falando eufemisticamente
de formar opiniões favoráveis —
de um produto, uma empresa, um político, um
artista, etc.

Por outro lado, os indivíduos podem ter má
reputação por diversas razões, a maioria das
quais plenamente justificáveis. Por conseguinte,
disseminar informações e opiniões pode ser
uma forma de evitar danos a terceiros no futuro
(novamente, supondo que não há mentiras envolvidas).
Longe de ser simplesmente algo malicioso,
falar mal de alguém pode até vir a ajudar
outras pessoas. Por exemplo, suponha que um
famoso deputado seja processado e condenado
por danos materiais e morais a um vizinho. Ou
que um certo ator de TV tenha a fama de bater
em mulher. Tais informações, longe de serem
meras fofocas maliciosas, certamente poderão
ajudar pessoas que venham a conviver com os
mesmos lá na frente.

Biografias, ainda elas - Martha Medeiros

Zero Hora - 27/10/2013

É uma discussão de difícil consenso: liberdade de expressão x direito à privacidade. Dois pilares indispensáveis para uma sociedade civilizada. Como equilibrar os interesses?

Em 2005, publiquei uma pequena novela que tratou desse tema. Em Selma e Sinatra, uma jornalista entrevista uma famosa cantora a fim de escrever sua biografia, e durante suas conversas a cantora deixa escapar que teve um rápido affair com Frank Sinatra, mas não quer que isso seja revelado, pois era casada na época. A jornalista surta com o veto. E abre-se o debate entre elas: o que torna, afinal, uma vida interessante aos olhos dos outros?

Não condeno quem tenta preservar sua intimidade. Se um engenheiro não gostaria que falassem sobre seus porres, se um desembargador evita admitir que fumava baseados na adolescência, se uma publicitária não quer que vasculhem sua sexualidade, se uma professora não deseja que saibam que ela teve um caso extraconjugal, por que um artista deveria se sentir confortável com a exposição disso tudo?

Muitos responderiam: porque ele tem uma vida pública. Como se fosse um acerto de contas: “Já que você é rico, célebre e bem-sucedido, entregue seus podres em troca”. Mas em troca de quê? De ter realizado um trabalho que o deixou em evidência? É alguma espécie de punição por ser reconhecido nas ruas?

Sou uma leitora voraz de biografias e considero que toda história de vida é ficção. Quando leio livros sobre Marylin Monroe, Patti Smith ou Nelson Rodrigues, entendo que o autor, por mais que tenha pesquisado, por maior que seja sua boa fé, não tem como saber toda a verdade: as suposições contracenam com os fatos.

O biografado se torna um personagem – bem realista, mas um personagem. Até mesmo quem escreve a própria biografia maquia um pouquinho a si mesmo. Ninguém se deixa conhecer 100%. O leitor experiente tem consciência disso e rende-se à criação e à qualidade do texto.

Ou seja, em vez de discutir legislação, o ideal seria que lêssemos mais e melhor para mudar nossa mentalidade de abelhudos, entendendo que há diferenças entre uma matéria de revista e um livro: as revelações que o livro traz situam o biografado num contexto histórico e social, ultrapassando as fofocas íntimas, que podem ser curiosas, mas não têm essa relevância toda.

Se estivesse bem clara a diferença entre um livro e a Caras, artistas cujas vidas despertam interesse editorial talvez não tivessem tantos melindres, pois confiariam na inteligência do leitor. Mas o que este prefere? Um relato com pimenta ou sem pimenta? Bem embasada ou contada com sensacionalismo? Aí é que entra a questão da mentalidade, que se não se refinar, continuará a gerar o desconforto dos biografados.

Literatura nenhuma deve ser censurada, coibida, mas também não deve ser lida com avidez apenas por causa de detalhes mundanos. Houvesse segurança no discernimento do leitor, essa polêmica talvez nem tivesse iniciado.

AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA » No caminho da floresta‏

Estado de Minas: 27/10/2013 






No avião para o Acre, ao meu lado, um rapaz moreno lia um livro de sonetos de Pablo Neruda. Mas havia também um grupo de franceses e francesas. Quando os vi sonolentos no aeroporto de Brasília, pensei: “De onde estão vindo e para onde vão esses gringos?”. Pareciam equipados para viagens estranhas, estavam apinhados de mochilas e com um ar de hippies de meia-idade.

Embarcamos para Rio Branco. No avião, o rapaz do livro com sonetos de Neruda dormia. Só ao chegar perto da capital do Acre pegou o livro do poeta. E lia. Enquanto isso os franceses estavam agitados como colegiais em férias.

Desci em Rio Branco, onde me esperava o pintor Fernando França, que nasceu aqui, mas vive no Ceará. Os cearenses vieram para cá no final do século 19 fugindo da seca e participaram do ciclo da borracha. Fernando veio assistir a minha conferência e me mostrar a boneca do livro que fará a partir dos poemas de  O homem e sua sombra.

Enquanto almoçávamos, falei do bando de franceses que vi no avião. Falou-me então que nessa época ocorre o popular festival dos índios yawanawa, em que se bebe ayahuasca. Vocês se lembram: nos anos 1970 e 80 do século passado, aquela bebida era tomada por artistas e hippies brasileiros em busca da revelação de suas fraquezas e fortalezas.

Hospedam-me no hotel que tem o nome de Galvez, aquela figura que virou romance e novela. Revejo a história do tipo: Luiz Galvez Rodrigues de Arias (1864 – 1935), que proclamou a Republica do Acre entre 1899 e 1900 e misturou interesses pessoais, sexuais e nacionais. Figura rocambolesca.

O Brasil com essa mania de ser grande não tem bem consciência de si mesmo. Os franceses estão indo ao encontro dos yawanawas. E levei 10 horas para chegar aqui. O Brasil é longe do Brasil. E aquele desconhecido, talvez apaixonado, lê sonetos de Neruda no avião.

O que sabemos desta parte do país conquistada à Bolívia? O que sabemos dos yawanawas e dos kaxinawa? Depois da conferência na esplêndida e espaçosa biblioteca pública, a jornalista Andréa Zílio (que fez reportagens sobre a nova história do povo yawanawas) me conta coisas dessa gente. Essa gente que os franceses foram ver. Esses gringos terão que enfrentar ainda oito horas de viagem de navio. Enfim, chegarão lá na mata, onde participarão dos festivais sagrados daquela tribo.

Aqui também sou meio gringo. Enquanto autografava meus livros no imponente shopping da cidade, na Livraria Nobel, achava estranho que leitores comprassem Barroco do quadrado à elipse. Dizia a eles: o barroco parece tão distante de vocês, parece coisa de Minas e da Bahia, outro mundo. O mundo aqui é a floresta, as seringueiras e Xapuri. Chico Mendes é um símbolo.

E no restaurante onde estamos, Gregório Filho, que criou aqui tantas Casas da Leitura na floresta, me diz apontando umas árvores: “Plantei aquelas seringueiras aqui há quase 30 anos”. Levanta-se e vai abraçar uma delas, como se abraçasse uma amiga visceral. Fernando França registrou e eu digo: “Bota isto no Facebook”.

O livro e a floresta. Alguns índios dessa região foram até fazer cursos nos Estados Unidos. Algumas tribos têm internet. Querem salvar suas tradições registrando-as nas nuvens. A civilização avança sobre a floresta. Outro dia acharam uma tribo que se recusa a ser assimilada. Não deixam os indigenistas atravessarem o rio.

Nós os olhamos como índios. Em compensação, os americanos e europeus nos olham, a nós, que escrevemos livros, como índios. Vi isso há dias na Feira de Frankfurt, na Alemanha. Lembram que andaram dizendo, profeticamente, nos anos 1960, que o mundo seria uma aldeia global?

Os franceses que vi no avião devem a estas horas estar tomando da bebida sagrada dos yawanawas. Terão alucinações assustadoras, libertando seus anjos e demônios.

O seminário sobre a América no imaginário europeu não termina nunca.


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Tereza Cruvinel - Relatividades‏

É preciso relativizar as pesquisas precoces, que captam humores do eleitorado sujeito a fortes oscilações nos próximos 11 meses


Tereza Cruvinel

Estado de Minas: 27/10/2013 



Pesquisas eleitorais a 11 meses do pleito captam humores do eleitorado que ainda serão afetados por muitos fatores. Afora os econômicos, inclua-se, entre os de natureza propriamente política, o nível de conhecimento de cada candidato e a empatia criada com o eleitorado, suas propostas e prioridades, as alianças partidárias, as disputas estaduais. No curso da campanha, pesará o dinheiro e a eficiência dos programas de televisão. No fim da novela, o eleitor decidirá, pesando satisfação ou frustração, entre mudar ou manter no poder um governante ou seu partido. Por tudo isso, é preciso relativizar as pesquisas precoces, apuradas na ausência de ventos fortes sobre a opinião pública, como foram as manifestações de junho. É o caso da última pesquisa Ibope/Estadão, divulgada na semana passada, suscitando leituras precipitadas em todos os quadrantes.

Em relação à presidente Dilma, por exemplo, é açodado dar como certa sua vitória no primeiro turno, que só não ocorreria, segundo a pesquisa, se Marina Silva e José Serra, numa grande reviravolta, fossem candidatos. O PT trombeteou o resultado, mas trabalha mesmo é com o cenário de dois turnos. Mas é também precipitada a conclusão dos adversários de que Dilma já “bateu no teto” e não cresceria mais. A recuperação pós-junho de fato desacelerou-se, mas, em 11 meses, muitas águas rolarão, a favor e contra sua reeleição. No programa de TV da semana passada, o PT mostrou que irá com gana para a disputa, reivindicando o legado de 12 anos no governo, especialmente no social, e com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no papel de grande eleitor. Não é pouco, mas os ofendidos com Dilma também são uma legião, que inclui boa parte do empresariado.

Outra leitura apressada foi a de que o provável candidato do PSDB, Aécio Neves, teve sua candidatura ferida pela emergência da dupla Campos-Marina. Para começar, os tucanos estranharam os 14% de referência do candidato, comparados aos 21% obtidos pela Vox Populi 10 dias antes, e aos 21% do Datafolha, 12 dias antes. Discrepâncias entre institutos podem reforçar a posição dos que, no Congresso, defendem o projeto que proíbe a divulgação de pesquisas nos 15 dias anteriores ao pleito. Aliados de Eduardo Campos (PSB) registraram também a diferença entre os 15% obtidos há 15 dias no Datafolha e os 10% apontados pelo Ibope, invertendo sua tendência de alta. Mas a primeira foi realizada em cima do lance de sua união com Marina, o que pode explicar a diferença. Mas, voltando a Aécio no Ibope, apressaram-se também os socialistas a prever que ele será ultrapassado por Campos até o fim do ano, situação em que poderia ser substituído por José Serra. A ultrapassagem, mesmo que ocorra, não muda o fato de que Aécio tem hoje pleno controle sobre o PSDB. Na hora H, a estrutura, a capilaridade e os palanques que o PSDB terá nos estados farão diferença. Hoje, o PSB/Rede é deficitário nesses quesitos.

Eduardo e Aécio têm espaços semelhantes para se tornar mais conhecidos e crescer. Ainda não está devidamente avaliado o grau de transferência de apoios de Marina para ele. Certo é que, doravante, a camaradagem inicial entre Aécio e Eduardo dará lugar à disputa pela segunda posição. Reflexo disso, a retração na tendência anterior de montarem palanques duplos nos estados. Eduardo, neste momento, viaja tentando montar uma palanque de terceira via para as disputas locais.


Agora vai?
Eleições presidenciais e insatisfações federativas nunca foram uma boa combinação. Na semana passada, depois de longa peleja, prefeitos e governadores viram finalmente aprovado o projeto que altera os juros e o indexador de suas dívidas. O governo comemorou e a medida deve beneficiar governadores e prefeitos de todos os partidos, inclusive os da oposição. Não será o bastante, entretanto, para garantir o desenvolvimento regional sem recurso à predatória guerra fiscal. O Senado retomará agora o esforço para aprovar a unificação das alíquotas do ICMS, que só acontecerá se o governo concordar com outras três medidas: a homologação dos incentivos atuais pelo Confaz, a criação do fundo de compensação para os que tiverem arrecadação reduzida, e o fundo de desenvolvimento regional para projetos estratégicos, que podem custar R$ 40 bilhões à União. “É agora ou não será no ano eleitoral de 2014. Os estados estão no limite”, avisou o senador Walter Pinheiro (PT-BA) a um faminto Guido Mantega, na sexta-feira, após quatro horas de debate. O ministro da Fazenda, porém, não se comprometeu com os fundos. Logo depois, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), anunciou a votação do projeto sobre a autonomia do Banco Central. Pode ser um bode, a ser retirado se o governo sentar para negociar os termos da minirreforma tributária.

Agenda da Rede
Amanhã e depois, os recém-casados Rede e PSB começam a discutir a plataforma política comum. Só então o acordo pragmático passará a ser programático. Marina Silva destacou o deputado Alfredo Sirkis (PSB-RJ) para representar a Rede na simultânea Conferência RioClima, preparatória da 19ª Conferência sobre Mudanças Climáticas, que será realizada em novembro, em Varsóvia. Em pauta, os temas da verdadeira agenda nova do mundo, como uma política tributária que favoreça a economia do baixo carbono e a atribuição de valor econômico aos serviços prestados pelos ecossistemas de cada país. Por exemplo, quanto vale o benefício proporcionado ao mundo pela floresta amazônica? Sua preservação não devia ser obrigação de todos?