sábado, 2 de novembro de 2013

Programa Ciência sem Fronteiras-À espera de mais brasileiros‏

Estado tem o segundo maior número de bolsistas do programa Ciência sem Fronteiras. Mudança de regras fez alunos recorrerem à Justiça para garantir chance de estudar e viver em outro país



Flávia Ayer


Estado de Minas: 02/11/2013 



"É a realização de um sonho estudar no exterior, aprender um terceiro idioma e conhecer outra cultura", diz Arthur Belisário, que faz intercâmbio na Alemanha


A velha história de que os mineiros não conseguem transpor as montanhas e vivem enraizados na própria terra não faz sentido para 6.725 estudantes, que literalmente romperam barreiras. Minas Gerais é segundo estado com maior número de participantes do Ciência sem Fronteiras (CsF), programa do governo federal que financia bolsas de estudos em 27 países. Os mineiros representam 17,5% dos 38.272 estudantes que estão fora do Brasil ou já retornaram do intercâmbio, incluindo alunos de graduação e pós-graduação. E para garantir a oportunidade de aprender ou aperfeiçoar outro idioma em instituições de excelência, muitos apelam à Justiça. Pelo menos 30 do estado carimbaram o passaporte para o programa por meio de liminar. No Brasil, foramcerca de 300 bolsistas.

O impasse começou na abertura das chamadas para o intercâmbio, em junho, quando a nota mínima de 600 pontos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) a partir de 2009 passou a ser cobrada como requisito obrigatório para participar do CsF, e não apenas como critério de desempate. Em outubro, quando o resultado foi publicado, estudantes sem o Enem não ganharam bolsas. “O governo mudou as regras três dias antes do fim do prazo de inscrição de o Enem e não deu ampla publicidade a esse critério. Há estudantes que entraram na universidade antes do Enem se tornar um requisito”, afirma o advogado Diego de Araújo Lima, que cuida de vários casos nessa situação.

Em decisão sobre um dos casos, o juiz Márcio Barbosa Maia, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, por exemplo, afirma que a alteração no regramento deveria levar em conta tempo suficiente para quem “ingressou no curso superior por outra via (que não o Enem), ou que se submeteram ao Enem anteriormente a 2009, pudessem se submeter ao exame, com tempo hábil para obter avaliação e assim participar do programa”, afirmou o magistrado.

Aluno de engenharia mecânica do Centro Universitário Newton Paiva, Arthur Campolina conseguiu na Justiça uma bolsa para a Austrália. “Eu só tinha o Enem de 2008 e, de repente, me vi prestes a perder a oportunidade. Havia me dedicado muito para conseguir o intercâmbio, mudei a minha grade na faculdade e fiquei o semestre inteiro estudando inglês”, contou o estudante. Mesmo com a liminar, ele fez o Enem deste ano, apesar de o resultado estar previsto apenas para o início de 2014. Com quase 90% do curso concluído, esta seria a última chance para Arthur participar do CsF. Ele embarca em fevereiro, quando começa o curso de inglês. Depois de cinco meses, fará teste de aptidão para a cursar um ano na Universidade do Sul da Austrália (Unisa), em Adelaide. “Jamais teria a oportunidade de estudar no exterior. Foi como ganhar na Mega-Sena”, disse.


Luís Felipe Simão considerou a estrutura e os laboratórios excelentes na Inglaterra, onde ficou um ano e aprimorou a fluência em inglês (CRISTINA HORTA/EM/D.A PRESS)
Luís Felipe Simão considerou a estrutura e os laboratórios excelentes na Inglaterra, onde ficou um ano e aprimorou a fluência em inglês


DEFESA “Estamos contestando todos os casos que entram na Justiça. Uns ganharam, outros perderam, mas ainda não houve julgamento decisório”, informou Glaucius Oliva, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), instituição que gere o programa com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Segundo ele, o Enem é o critério nacional e republicano encontrado pelo governo para comparar estudantes.

Até o fim do ano, o programa chegará a 55 mil bolsas, com meta de mandar para o exterior até 2015 101 mil estudantes de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado. Além da mensalidade em moeda local, são concedidos auxílio-instalação, seguro-saúde, passagens aéreas e auxílio-material didático, para compra de computador portátil ou tablet.

Com investimentos de R$ 5 bilhões, o CsF foi lançado em 2011 para fomentar o intercâmbio de universitários brasileiros em estudos e pesquisas nas áreas de tecnologia, inovação, ciências, saúde e meio ambiente. “Temos atingido média de interessados correspondente a três vezes o número de selecionados. Quem participou tem taxa de satisfação acima de 90%”, ressalta Glaucius, que destaca a participação dos mineiros. “As universidades têm motivado bastante o programa.”



Arthur Campolina recorreu à Justiça para conseguir estudar na Austrália, depois que o governo federal  mudou as regras na última hora (RAMON LISBOA/EM/D.A PRESS)
Arthur Campolina recorreu à Justiça para conseguir estudar na Austrália, depois que o governo federal mudou as regras na última hora

OPORTUNIDADE Direto de Berlim (Alemanha), Arthur Belisário, de 21, aluno de engenharia mecânica da UFMG, incentiva estudantes a participarem. Ele chegou em julho ao país e tem se dedicado ao curso de alemão para, em fevereiro, ingressar por um ano numa instituição de ensino superior local. “O processo para conquistar a vaga foi moroso e o candidato deve estar sempre atento às datas, e-mails, prazos e requisitos”, conta o estudante. Mas o esforço compensa: “É a realização de um sonho estudar no exterior, aprender um terceiro idioma, viver em um país como a Alemanha. A principal dificuldade é o idioma, mas é questão de tempo superar”. E Arthur ainda dá a receita: “Nada melhor para se adaptar do que estar de mente aberta para novos aprendizados e uma nova cultura”. Mesmo no início do intercâmbio, ele já alimenta ambições: “A maioria dos estudantes têm desejo de aprender como são os países desenvolvidos e  transformar o Brasil. Talvez seja um sonho, mas iremos tentar.”

O estudante do 5º período de engenharia elétrica da UFMG Luís Felipe Simão, de 23, está se adaptando à volta ao Brasil, depois de um ano na Universidade de Brigthon (Inglaterra). “Foi uma experiência sensacional. A estrutura é excelente, laboratórios ótimos e ainda tive a oportunidade de fazer estágio numa empresa que prestava serviços para o Ministério da Defesa britânico”, conta.  “O intercâmbio abrirá muitas portas”, imagina.

SANDUÍCHE Terminam no dia 29 as chamadas para graduação-sanduíche do Ciência sem Fronteiras no Reino Unido, Bélgica, Canadá, Holanda, Finlândia, Austrália, Nova Zelândia, Coreia do Sul, Espanha, EUA, Alemanha, França, Itália, Suécia, Noruega, Irlanda, China, Hungria, Japão e Áustria. A bolsa  custeará o aluno por até 12 meses em tempo integral. Na China, a permanência é de até 24 meses. Mais informações no www.cienciasemfronteiras.gov.br.


ESTUDOS NO EXTERIOR

São Paulo envia mais e EUA recebem mais bolsistas

EXIGÊNCIAS

» Ter nacionalidade brasileira

» Apresentar perfil de aluno de excelência, baseado em bom desempenho acadêmico

» Ter cumprido no mínimo 20% e no máximo 90% do currículo      previsto para seu curso no momento do início da viagem de estudos

» Nota do Enem igual ou acima de 600, emteste feito a partir de 2009

» A inscrição deve ser feita na instituição de ensino superior do aluno

PRINCIPAIS ORIGENS        PRINCIPAIS DESTINOS

São Paulo.............8.493        Estados Unidos.....8.863
Minas Gerais.........6.725        França.................4.320
Rio de Janeiro.......3.448        Canadá................3.795
Rio Grande do Sul....3.441     Reino Unido............3.702
Paraná..................2.496        Austrália..............3.028


À espera de mais brasileiros

No topo do índice de desenvolvimento humano, Suécia pretende abrir cerca de 2 mil vagas de graduação, mestrado e doutorado em 26 universidades até o ano que vem

Flávia Ayer*


Pernambucana Madyana Torres faz design gráfico na Umea University e considera o laboratório excelente (FOTOS: FLÁVIA AYER/EM/D.A PRESS)
Pernambucana Madyana Torres faz design gráfico na Umea University e considera o laboratório excelente


Estocolmo, Lund, Jönköping, Umeå – A Suécia quer encurtar a distância e estimular estudantes brasileiros a atravessarem o Atlântico até chegarem bem perto do Ártico. Um dos parceiros do Ciência sem Fronteiras (CsF), programa do governo federal, o país nórdico está de portas abertas para oferecer até o ano que vem cerca de 2 mil vagas em 26 universidades. E adianta: a língua está longe de ser um entrave. Apesar de não ser o idioma oficial da Suécia, quase 90% da população fala inglês fluentemente. O país é um dos  têm a maior oferta de cursos de graduação, mestrado e doutorado em inglês entre os de língua não inglesa.

Com 9 milhões de habitantes, a Suécia está no topo do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e pretende estreitar laços com os países em desenvolvimento. “O Brasil tem uma economia em crescimento e está se tornando cada vez mais importante. O intercâmbio é uma forma de cooperação”, avalia Niklas Tranaeus, gerente de marketing do Swedish Institute, agência pública que promove o país no exterior. Apesar dos esforços, apenas 147 estudantes brasileiros participantes do CsF foram para a Suécia, na 16ª posição no ranking de países mais procurados do programa.

“O país ainda não é um destino de educação conhecido. Aqui, os estudantes podem encontrar um ambiente de estímulo à criatividade, inovação, autonomia, num clima bastante informal”, afirma Tranaeus. Embora ainda desconhecidas pelos brasileiros, as universidades suecas estão entre as melhores do mundo e têm como meta aumentar o número de estrangeiros.

“É fundamental a interação com outros países. Queremos atrair bons estudantes e temos a responsabilidade de espalhar conhecimento pelo mundo”, ressalta Jan-Olov Höög, professor do Karolinska Institutet, em Estocolmo, uma das mais renomadas universidades na área de saúde do mundo, responsável pelo anúncio do Prêmio Nobel de Medicina. O intercâmbio pelo CsF inclui bolsa mensal de 870 euros, além de seguro-saúde, auxílio-instalação e material didático.

Há pouco mais de três meses a pernambucana Madyana Torres, de 22 anos, aluna de design gráfico da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), começou o intercâmbio na Universidade de Umeå, no Norte da Suécia, e nem o fato de ter quebrado a perna ao cair de bicicleta tirou o entusiasmo. A cada dia, ela se depara com  uma estrutura bem diferente das universidades brasileiras.

Na faculdade de design, Madyana compartilha escritório com outros estudantes, com tempo e espaço de sobra para desenvolver seus projetos: “Na universidade, trabalhamos em projetos com grandes companhias como BMW e Samsung. Também tenho excelente estrutura de laboratório disponível 24 horas por dia”, explica a estudante, para quem a língua não é uma dificuldade: “Aqui todo mundo fala inglês”.

OUTRA REALIDADE Aluna de engenharia mecatrônica da Escola de Engenharia Mauá, em São Caetano do Sul (SP), Estela Santana, de 21, também está em lua-de-mel com a Suécia. Ela estuda robótica na Universidade de Umeå e, além do conhecimento acadêmico, vive uma realidade bastante diferente. No Brasil, ela trabalhava num empresa sueca e não teve dúvida de que o país seria boa opção. “Aqui não tem trânsito ruim, os carros param para você na rua, os ônibus têm espaço e as bicicletas são opção de transporte”, afirma, animada.

A organização e a qualidade de vida que o país oferece, como educação gratuita universal, saúde e igualdade social, são impressionantes. Ainda no início de sua jornada na Suécia, Estela pretende aprender dentro e fora da sala de aula. “Quero experimentar ao máximo. Essa experiência vai fazer muita diferença no meu currículo”, disse.

O maior desafio é o inverno rigoroso do Norte, com pouca luz solar e temperaturas negativas. Para isso, ela está de equipando: “Aqui é uma cidade de alto custo e, por isso, recebemos 1.270 euros por mês de auxílio. Aproveitei e comprei um casaco reforçado”.

Incentivado pela irmã, que já morou na Suécia, Fernando Biberg, estudante de engenharia civil da Universidade Anhamguera-Uniderp, em Campo Grande (MS), elegeu a Universidade de Jönköping, como destino para fazer a graduação-sanduíche. Durante um ano, ele se dedicará ao curso de desenvolvimento de produtos e materiais e, além das aulas, pretende conseguir logo um estágio. Há três meses no país, ele está empenhado em aprender sueco. “As aulas são em inglês, mas acho que aprender um terceiro idioma será um diferencial”, disse. A estrutura da instituição de ensino não deixa dúvida de que ele realmente está num país desenvolvido. “A biblioteca disponibiliza quase todos os arquivos em versões virtuais. Tudo é muito organizado e eles valorizam muito a igualdade”, destacou o brasileiro.

*A repórter viajou a convite do Swedish Institute (Instituto Sueco)



Paulista Estela Santana estuda robótica e está impressionada com Umea e a qualidade de vida na Suécia (FOTOS: FLÁVIA AYER/EM/D.A PRESS)
Paulista Estela Santana estuda robótica e está impressionada com Umea e a qualidade de vida na Suécia
 
 

ENSINO DE EXCELÊNCIA

Principais universidades da Suécia

Stockholm University

Com 60 mil alunos, é uma das maiores do país e está entre as 100 melhores instituições de ensino superior do mundo, prezando pelo estímulo à criatividade e à inovação. Cercado de verde, o câmpus, em Estocolmo, tem ambiente agradável de estudo. A internacionalização está estampada nos acordos de intercâmbio com 500 universidades em 60 países e a presença de 1,5 mil  estudantes estrangeiros em 2012.

Karolinska Institutet

É a mais conceituada universidade sueca na área de saúde e realiza 40% das pesquisas médicas do país. Os vencedores do Prêmio Nobel de Medicina são escolhidos por assembleia composta por 54 professores da instituição. O instituto fica em Estocolmo e acaba de inaugurar nova sede, edifício modernista de última geração. Em 2017 pretende inaugurar o novo hospital reunindo todas as especialidades médicas.


Jönköping University

Dos 10 mil alunos, cerca de 1,5 mil são estrangeiros. Situada em Jönköping, no Sul do país, tem cursos de administração e negócios como carro-chefe, já que o estímulo ao empreendedorismo é uma de suas marcas. A atuação dos alunos no mercado de trabalho é estimulada por parceria com 800 empresas. É uma das poucas universidades privadas do país, o que, na prática, tem pouco impacto, já que o país arca com a educação de todos, mesmo em instituições particulares.

Lund University

Na charmosa cidade de Lund, no Sul, fica a universidade mais antiga do país, fundada em 1666. São 47 mil alunos (6 mil estrangeiros). Está entre as 100 melhores universidades do mundo, com mais de 100 programas de mestrado, cinco de graduação e 500 disciplinas isoladas, ministradas em inglês. A instituição investe R$ 1,5 bilhão por ano em pesquisas. Em Lund, foram feitas descobertas célebres, como  o sistema bluetooth e o exame de ultrassom. Uma vantagem da instituição é o clima: em Lund, o inverno não é tão rigoroso como no restante da Suécia. A temperatura vai de 5 graus negativos a  3 positivos.

Umeå University
Situada em Umeå, no Norte da Suécia, eleita a capital europeia da cultura em 2014, com 117 mil habitantes. Oferece cursos em áreas diversas, mas se destaca em design, arquitetura e meio ambiente. São 34 mil estudantes de 40 países e 19 centros de pesquisa. Em outubro, a faculdade de design conquistou pelo segundo ano consecutivo o primeiro lugar no ranking Red Dot Design, um dos mais prestigiados do setor. Mais de 500 disciplinas e 30 cursos são ministrados em inglês.


Finalistas de minas

Dois estudantes de instituições mineiras de ensino superior estão na final da disputa por duas bolsas de estudos e estágio remunerado nas universidades de Chalmers or Linköpings University, na Suécia. Rodrigo Barbosa Lima, do Centro Universitário de Itajubá, e Igor Assis, da UFMG, concorrem ao prêmio, que será anunciado no dia 11, em São Paulo. Eles passaram por maratona de testes de conhecimento, com ênfase em inovação. O desafio é promovido pela Student Competitions para estudantes do último ano de engenharia, arquitetura e ciências naturais ou jovens profissionais dessas áreas.

Paternidade responsável - Vivina do C. Rios Balbino

Nova lei dará à mulher autonomia para registrar seu filho, nomeando o pai caso ele não possa comparecer ao cartório


Vivina do C. Rios Balbino
Psicóloga, mestre em educação, professora da Universidade Federal do Ceará e autora do livro Psicologia e psicologia escolar no Brasil

Estado de Minas: 02/11/2013



Projeto de lei em andamento equipara mãe e pai no registro do filho. Dessa forma, a mulher agora terá autonomia plena para registrar o seu filho, nomeando o pai caso ele não possa comparecer ao cartório. O projeto segue para sanção da presidente Dilma Rousseff e certamente será aprovado. A lei colocará as mulheres em pé de igualdade com os homens na hora da declaração de nascimento da criança. O pai pode até contestar, mas terá que provar por DNA que não é o pai da criança. Uma conquista excepcional. A mulher deixará de ser dependente do homem, procurando muitas vezes por pais omissos e irresponsáveis que não querem assumir a paternidade. Agora, eles é que têm que correr para provar caso não sejam os pais. A mulher já tem o ônus da gestação, passar pelo parto e criar de perto o filho.

Cabe agora ao homem assumir também com responsabilidade o filho: registro, pensão alimentar, atenção e afetividade na educação da criança. O bom relacionamento entre os pais é fator importante na formação da personalidade saudável. Sobre a omissão do pai já temos jurisprudência – Justiça condenou um pai omisso por décadas a pagar indenização de R$ 200 mil à filha.

Que um futuro projeto criminalize também homens machistas e oportunistas que em pleno século 21 ainda chantageiam e/ou obrigam companheiras grávidas a abortar para se livrar da paternidade assumida. São atitudes criminosas e que violam o direito da mulher. Esses projetos de lei representam a democrática igualdade de direitos e de deveres entre mulheres e homens agora no sexo. A paternidade responsável será a solução para uma grande dívida social – milhões de crianças crescem sem saber quem é o pai, sofrendo abandono físico e afetivo e muitos preconceitos. Dados do Conselho Nacional de Justiça de 2011 apontam que há 5,5 milhões de crianças brasileiras sem o nome do pai na certidão de nascimento. Hoje, certamente, o número é maior. O estado do Rio de Janeiro lidera o ranking, com 677.676 crianças sem filiação completa, seguido por São Paulo, com 663.375 crianças com pai desconhecido. O estado que apresentou menos crianças sem o nome do pai na certidão foi Roraima, com 19.203 registros.

Iniciativas pela paternidade responsável no Brasil existem desde 2002. A ONG Brasil Sem Grades é uma organização não governamental que tem como missão despertar a consciência da população para o combate às causas da criminalidade. Além de outros projetos, a paternidade responsável busca reduzir o número de crianças sem identificação do pai. O direito à paternidade é garantido pela Constituição Federal de 1988. O projeto Pai presente, da Corregedoria Nacional de Justiça, criado em 2010, aproveita os 7.324 cartórios de registro civil do país para o reconhecimento de paternidade tardia. A partir da indicação do suposto pai, a Justiça o localiza e intima para que se manifeste, sendo feita a ação investigatória e a família obtém o novo documento. Esse programa possibilitou o reconhecimento voluntário de paternidade de pelo menos 9.851 pessoas, que não tinham o nome do pai na certidão de nascimento. Mais de 10 mil audiências foram realizadas em diferentes estados brasileiros para cumprir essa importante missão. Importante que esse projeto seja mais divulgado na grande mídia e não restrito apenas à busca de dados nas escolas.

A educação dos filhos é responsabilidade de pais e mães, devendo ter a participação dos dois na educação e na orientação dos seus filhos. Pesquisa da Universidade de San Diego (EUA) mostra que convivência e diálogo saudáveis de crianças e adolescentes com os pais diminui em até 80% os casos de evasão escolar, uso de drogas, delinquência juvenil, vandalismo, roubos e prostituição. Importante que o governo eduque também para o sexo responsável na mídia, atingindo o maior número possível de pessoas de todas as idades. O número de estupros e de pedofilia é assustador no Brasil. O Ministério da Saúde, o Ministério da Educação, a Unesco e o Unicef, em parceria, desenvolvem o programa Saúde e Prevenção nas Escolas (SPE), mostrando a importância do uso do preservativo para evitar a gravidez não planejada e/ou precoce, infecção por doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e pelo HIV. É necessário que o governo avalie sempre a eficiência desses programas e o impacto deles nas graves questões sociais e de saúde envolvidas. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Poema de Sete Faces - Carlos Drummond de Andrade


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

A história refém da memória - DENISE ROLLEMBERG

O Globo - 01/11/2013

Seguindo o lúcido raciocínio pode-se dizer que difamações e invasão de privacidade falam dos biógrafos, não dos biografados

O historiador que estuda a ditadura
civil-militar já conhece o debate
que agora ganha maior amplitude
devido à expectativa em relação à
decisão judiciária sobre a ação movida por
editores, questionando a faculdade de os biografados
ou seus herdeiros proibirem biografias.
Para o pesquisador, historiador, jornalista
etc, ter acesso à documentação produzida
pelos órgãos de informação e de repressão,
na qual alguém estivesse citado, era
necessária autorização do mesmo ou da família,
caso já tivesse falecido. As restrições
criaram, assim, graves distorções observadas
sem maiores dificuldades, justamente e sobretudo,
nas biografias, fossem escritas por
historiadores ou jornalistas.

O debate atual, independentemente da época
em que o biografado viveu ou vive, enfrenta aspectos
semelhantes.

Não há como negar que a autorização interfere
na autonomia e na independência de que
o pesquisador precisa para escrever, ainda
mais, um texto biográfico. No acordo estabelecido
entre biografado e biógrafo, estabelecese
uma espécie de dívida que pode comprometer
interpretações que venham na contracorrente
do que o biografado ou sua família
esperam ou desejam ver publicado. O biógrafo
torna-se refém do biografado.

Se assim não for, ele, o biógrafo, parece ter
quebrado a confiança que nele fora depositada,
para não falar do impedimento da publicação
de seu trabalho.

Seja quem for o biografado, é certo que sua vida e
sua obra estarão permeadas por aspectos de todo
tipo, dos mais aos menos nobres, para não entrar
aqui nos casos de personagens tais como ditadores,
genocidas etc. O fato é que há uma enorme dificuldade
de se enfrentar o lado escuro da Lua, os aspectos
pouco edificantes na vida de quem quer que seja,
como se as trajetórias humanas não fossem feitas
também de desacertos, equívocos, misérias.

Assim, para se obter a autorização, não raramente
se fica — ou se pode ficar — refém de
uma relação cujo compromisso nem sempre se
baseia na produção do conhecimento, mas, frequentemente,
na construção e/ou preservação
de determinada memória.

No confronto entre a memória e a história, a
história tem perdido. A memória é seletiva, apaziguadora,
maleável às vontades do presente. A história,
não. Releva o personagem sem retoques, em
sua grandeza e sua pequeneza, e tudo mais que
existe entre os dois extremos. Muitas das biografias
autorizadas são hagiografias e, portanto, nenhum
interesse têm para quem quer conhecer a
história de homens e mulheres cujas trajetórias tiveram
— ou têm — importância em sua época. A
narrativa dessas vidas não pode ser acessível a
uns e não a outros. Ninguém deve se tornar guardião
da memória, dono da história. Nem da própria
história, principalmente quem se colocou no
mundo através da política, da arte, do esporte etc.,
expressando suas ideias e posições, deixando,
portanto, nele seu registro.

É exatamente a possibilidade de narrar a história
de homens e mulheres dignos de biografias,
abordando-os em sua dimensão humana,
em suas contradições e tensões, do tempo e deles
mesmos, a maior homenagem que se lhes
pode fazer. O desrespeito seria deformá-los como
seres perfeitos, mantendo-os desconhecidos
e isolados do mundo no qual atuaram.

No mais, quando ouço o argumento segundo
o qual o biografado se vê vulnerável a difamações
e invasão de privacidade, lembro-me de
Theodor Adorno que disse ser uma ofensa procurar
nos judeus a razão da perseguição dos nazistas.
O problema, defendeu o filósofo alemão,
não estava nos judeus, e sim nos nazistas, nos
perseguidores, e não nos perseguidos. Seguindo
o lúcido raciocínio, pode-se dizer que difamações
e invasão de privacidade falam dos biógrafos,
não dos biografados