A tarde - 02/11/2013
Pelo segundo ano consecutivo, passei todo o mês de outubro em Madri, cidade adorável, a mais animada domundo: as ruas do centro agitadas como as festas de largo da Bahia, cheias de gente civilizada batendo perna, meia-noite parece meio-dia. Restaurantes, cervejarias e cafeterias lotados.
Salvador e Madri têm praticamente a mesma população, uns três milhões de habitantes. Madri, fundada pelos mouros no século IX, capital da Espanha desde 1561; Salvador, fundada em 1549, foi capital do Brasil até 1763. Madri tem 12 linhas de metrô, 319 estações, 2.310 vagões. Transporta mais de 650 milhões de passageiros por ano! Metrô limpo, rápido, fácil de viajar, todo mundo lendo um livro ou fuçando seu aparelho digital. O serviço de ônibus, maravilhoso: tem até cadeira especial para bebês. Com o equivalente de 150 reais, reduzido a 40 reais para os idosos, compra-se um vale-transporte mensal que permite usar livremente qualquer transporte coletivo. É o mesmo valor gasto mensalmente por minha empregada para ir e voltar de Pernambués aos Barris, viajando de pé, mais de uma hora de engarrafamento. O metrô de Salvador, nossos ônibus... uma desgraça!
Anda-se por toda Madri até de madrugada em total segurança, sem medo de assaltos: lá 50 assassinatos por ano, aqui, mais de 1.500 anuais! Em Salvador e no Brasil em geral, todo mundo trancado dentro de casa com medo de assalto, sem coragem sequer de passear pelo centro histórico.
Apesar da atual crise das economias europeias, o abastecimento na Espanha é de altíssima qualidade, padrão primeiro mundo: nos maravilhosos supermercados, dos grandões como El Corte Inglés, aos pequeninos incrustados em quarteirões residenciais, fantástica variedade e qualidade de produtos nem sempre mais caros que na brasilândia. Frutas do mundo todo. O salário mínimo espanhol é três vezes mais alto que o brasileiro. Com os mesmos 30 mil reais pagos ao nosso carro mais simples, compra-se lá veículo muito mais equipado e potente.
Viva a Espanha! Visite Madri!
Luiz Mott
Professor titular de Antropologia da Ufba
luizmott@oi.com.br
sábado, 2 de novembro de 2013
Virgildásio Senna: 90 anos de dignidade - JC Teixeira Gomes
A Tarde 02/11/2013
Jornalista, membro da Academia de Letras da
Bahia
jcteixeiragomes@hotmail.com
Amanhã, dia três, estará completando 90 anos de idade Virgildásio Senna, ex-prefeito de Salvador e deputado federal constituinte. Dignidade: eis a palavra que lhe define a trajetória. Dignidade como homem, como político e como cidadão.
Em 1964, foi deposto pelos militares do cargo de prefeito eleito de Salvador. Tendo notado que sua residência no Campo Grande estava sitiada por uma operação militar, resolveu comparecer pessoalmente ao quartel da VI Região Militar, onde o general Mendes Pereira o deteve. Foi levado, então, para a Base Naval, e contra ele os golpistas iniciaram um dos habituais processos por subversão, do qual nada resultou, tendo sido, muitos anos depois, sustado pelo advogado Raul Chaves.
Ninguém tinha dúvidas de que Virgildásio seria o mais eficiente prefeito da capital baiana, pois, engenheiro de profissão, era também um planejador meticuloso, que já ocupara cargos de relevo na gestão Heitor Dias, quando iniciou a dinamizar o sistema viário da cidade. Esse trabalho credenciou-o a eleger- se prefeito pelo
PTB em 1962. Empossando-se em abril de 63, somente ficou no cargo até abril de 64. Já antes, trabalhara com Anísio Teixeira na gestão Octávio Mangabeira, ajudando inclusive a construir a Escola Parque.
Cidade de topografia acidentada, intermitência de morros e vales, nossa capital foi concebida pelos portugueses como uma fortaleza contra índios e invasores estrangeiros. A escarpa sobre uma montanha, recheada de vielas, becos, ruas estreitas e caminhos de problemático acesso, traduzia uma cidadela defensiva, preparada para repelir ou dificultar a vida de agressores.
Essa realidade, responsável pelo encanto de Salvador, mas também geradora de empecilhos para sua modernização, exigia um planejador com competência e conhecimentos específicos da fisionomia característica da nossa capital. Era o que Vigildásio Senna já revelara no primeiro ano da sua administração, eleito que fora com expressivo apoio popular. Sua retirada compulsória do cargo estancou um projeto que não mais foi retomado pois a desfiguração progressiva da capital baiana resultou, substancialmente, do despreparo, das improvisações e dos interesses de muitos dos prefeitos que o sucederam, sobretudo da chusma dos biônicos impostos pelos militares. Mas não apenas deles, pois manda a verdade que se diga que os dois piores foram eleitos: referimo-nos a Fernando José e João Henrique, este último apelidado de “prefeito-tsunami”, pois ajudou a devastar Salvador com sua política de solo, disseminando espigões e ajudando a conflagrar o tráfego, além de ter sucessivas contas reprovadas. Nunca tanto atraso em tão poucos anos.
Tendo ido residir no Rio após a deposição e de ter sido cassado pelo Ato Institucional nº 5, Virgildásio Senna, após a anistia, voltou a Salvador e candidatou- se a prefeito em 1988, com o apoio de Waldir Pires, perdendo o pleito para Fernando José, que usou as suas facilidades de radialista. Mas antes, em 1982 e 1986, obtivera duas importantes vitórias políticas: elegeu-se, respectivamente, deputado federal e deputado federal constituinte. Coerente com a linha das suas convicções, em 1988 ajudou a fundar o PSDB, tendo sido um dos dissidentes do PMDB, criado para fazer oposição ao golpe de 64 e que, progressivamente, se desfigurara, causando a rebelião partidária.
Eis aqui, em poucas linhas, a vida política de um dos homens públicos mais competentes e estimados da Bahia, que chega a uma idade rara, na esteira de uma trajetória de lutas e realizações. Pela determinação com que se lançou à retomada da sua vocação política, após a perda traumática do cargo de prefeito, merece todas as honrarias. Em abril de 1964, tendo ido comprar jornais na praça Tomé de Souza, fui testemunha involuntária do cerco da prefeitura pelos militares para depor Virgildásio. Era um domingo e ele não se encontrava no prédio. A violência se consumou por outros meios, em outro local. Mas, pela sua dedicação como administrador e pela sua coerência como político,
será sempre para os baianos “o prefeito que nunca será esquecido”.
Jornalista, membro da Academia de Letras da
Bahia
jcteixeiragomes@hotmail.com
Pela determinação com que se lançou à retomada da sua vocação política, após a perda traumática do cargo de prefeito em 1964, merece todas as honrarias
Amanhã, dia três, estará completando 90 anos de idade Virgildásio Senna, ex-prefeito de Salvador e deputado federal constituinte. Dignidade: eis a palavra que lhe define a trajetória. Dignidade como homem, como político e como cidadão.
Em 1964, foi deposto pelos militares do cargo de prefeito eleito de Salvador. Tendo notado que sua residência no Campo Grande estava sitiada por uma operação militar, resolveu comparecer pessoalmente ao quartel da VI Região Militar, onde o general Mendes Pereira o deteve. Foi levado, então, para a Base Naval, e contra ele os golpistas iniciaram um dos habituais processos por subversão, do qual nada resultou, tendo sido, muitos anos depois, sustado pelo advogado Raul Chaves.
Ninguém tinha dúvidas de que Virgildásio seria o mais eficiente prefeito da capital baiana, pois, engenheiro de profissão, era também um planejador meticuloso, que já ocupara cargos de relevo na gestão Heitor Dias, quando iniciou a dinamizar o sistema viário da cidade. Esse trabalho credenciou-o a eleger- se prefeito pelo
PTB em 1962. Empossando-se em abril de 63, somente ficou no cargo até abril de 64. Já antes, trabalhara com Anísio Teixeira na gestão Octávio Mangabeira, ajudando inclusive a construir a Escola Parque.
Cidade de topografia acidentada, intermitência de morros e vales, nossa capital foi concebida pelos portugueses como uma fortaleza contra índios e invasores estrangeiros. A escarpa sobre uma montanha, recheada de vielas, becos, ruas estreitas e caminhos de problemático acesso, traduzia uma cidadela defensiva, preparada para repelir ou dificultar a vida de agressores.
Essa realidade, responsável pelo encanto de Salvador, mas também geradora de empecilhos para sua modernização, exigia um planejador com competência e conhecimentos específicos da fisionomia característica da nossa capital. Era o que Vigildásio Senna já revelara no primeiro ano da sua administração, eleito que fora com expressivo apoio popular. Sua retirada compulsória do cargo estancou um projeto que não mais foi retomado pois a desfiguração progressiva da capital baiana resultou, substancialmente, do despreparo, das improvisações e dos interesses de muitos dos prefeitos que o sucederam, sobretudo da chusma dos biônicos impostos pelos militares. Mas não apenas deles, pois manda a verdade que se diga que os dois piores foram eleitos: referimo-nos a Fernando José e João Henrique, este último apelidado de “prefeito-tsunami”, pois ajudou a devastar Salvador com sua política de solo, disseminando espigões e ajudando a conflagrar o tráfego, além de ter sucessivas contas reprovadas. Nunca tanto atraso em tão poucos anos.
Tendo ido residir no Rio após a deposição e de ter sido cassado pelo Ato Institucional nº 5, Virgildásio Senna, após a anistia, voltou a Salvador e candidatou- se a prefeito em 1988, com o apoio de Waldir Pires, perdendo o pleito para Fernando José, que usou as suas facilidades de radialista. Mas antes, em 1982 e 1986, obtivera duas importantes vitórias políticas: elegeu-se, respectivamente, deputado federal e deputado federal constituinte. Coerente com a linha das suas convicções, em 1988 ajudou a fundar o PSDB, tendo sido um dos dissidentes do PMDB, criado para fazer oposição ao golpe de 64 e que, progressivamente, se desfigurara, causando a rebelião partidária.
Eis aqui, em poucas linhas, a vida política de um dos homens públicos mais competentes e estimados da Bahia, que chega a uma idade rara, na esteira de uma trajetória de lutas e realizações. Pela determinação com que se lançou à retomada da sua vocação política, após a perda traumática do cargo de prefeito, merece todas as honrarias. Em abril de 1964, tendo ido comprar jornais na praça Tomé de Souza, fui testemunha involuntária do cerco da prefeitura pelos militares para depor Virgildásio. Era um domingo e ele não se encontrava no prédio. A violência se consumou por outros meios, em outro local. Mas, pela sua dedicação como administrador e pela sua coerência como político,
será sempre para os baianos “o prefeito que nunca será esquecido”.
João Paulo - De perto, de longe
Estado de Minas: 02/11/2013
Andamos tão preocupados com o tempo que estamos perdendo a noção de espaço. O que é perto e longe deixou de ser referência em razão de uma falsa anulação das distâncias: viajamos rápido, compartilhamos em tempo real experiências em vários cantos do mundo, temos a falsa ideia de habitar o coração do planeta.
Há algum tempo, quando as distâncias imperavam, havia uma espécie de hierarquia: o que importava, até mesmo por nossa capacidade de intervenção, era o que estava mais próximo. O gesto de liberdade era demarcado pelo arco formado por um homem com os braços abertos. Aquilo que dizia respeito aos contextos mais distantes tinha seu valor, mas era considerado com o peso dado pelo afastamento.
A proximidade não era uma condenação, mas destino. Como diziam os antigos filósofos existencialistas, somos nós e nossa circunstância. Por isso, quanto mais ligados ao nosso entorno, mais nos definimos como humanos. A proximidade nos humaniza. A dialética entre perto e longe, o balanço entre as duas situações se torna uma espécie de modo de ser no mundo. Somos contemporâneos do todo, mas conterrâneos do próximo.
Essa situação se apresenta a todo momento na vida das sociedades contemporâneas. Estamos perdendo o sentimento de vizinhança. Uma das consequências desse movimento é a diminuição do sentido de singularidade em troca da percepção que alguns chamam de globalizada. Em outros termos, cada parte do todo sacrifica o que tem de único em razão de uma falsa centralidade que atende apenas aos interesses de mercado.
São muitas as situações em que se percebe essa tendência. Na mais prosaica delas, a cobertura dos jogos de futebol pela TV, os torcedores locais precisam entregar sua paixão ao interesse do mercado patrocinador. Assim, jogos de São Paulo e Rio de Janeiro, quando não de Madri e Berlim, são mais importantes que a peleja de seu time do coração.
Pode parecer pouca coisa, mas é um sinal significativo de esvaziamento da diferença. O resultado a longo prazo, como se vê hoje com certa frequência, aponta para crianças que torcem para o Barcelona, quando não se alienam ainda mais usando camisas de times de basquete norte-americano e torcendo para um esporte que faz com a mão o que os pés realizam com astúcia no futebol.
A mesma realidade vivida com os esportes também se torna operacional no caso do jornalismo. Não deveria haver, até por definição, nada mais jornalístico que o fato local. Notícia é o que afeta a vida, o que nos permite tomar a melhor decisão. Se uma pessoa liga a televisão e se depara com um engarrafamento em São Paulo (todos parecem saber quantos quilômetros de paralisação SP registra nos dias de chuva), não vai se sentir mais bem aparelhada para se movimentar em Belo Horizonte.
Mais que o dado pragmático, o trânsito ruim em BH é diferente daquele de outras localidades e tem outras razões: incompetência de planejamento, viadutos que ligam dois engarrafamentos, falta de metrô, obras arrastadas e malfeitas. A saída política de Sampa será necessariamente diferente da nossa. Outra deverá ser também a mobilização.
O que trânsito e jogo de futebol têm em comum, nesse caso, é o fato de ganharem dimensão pública por um modelo de TV que deixa de lado a particularidade. Existe saída: a regionalização da programação de televisão. No entanto, como o debate sobre o tema entra sempre na pauta da regulação, acaba sendo vendida como intervenção no setor.
Os projetos de regionalização da produção televisiva patinam há muitos anos no Congresso. Há desde percentuais definidos e horários a serem reservados para programação local até o incentivo à produção desse tipo de programa. Como muitos parlamentares são concessionários de rádio e TV, o debate não avança.
O que se vê, para cumprir a cota hoje existente, é a venda de espaço para programação religiosa, que, independentemente da fé professada, é sempre muito ruim, preconceituosa, chata e alienante. Ou, o que é pior, programas políticos obrigatórios, que, além de contar ponto para a cota local com suas mentiras encadeadas por interesses eleitorais, dão isenção fiscal às emissoras.
Como se vê, torcer para o Barcelona ou ficar preocupado com o tráfego na Marginal Tietê é o menos pior da política concentracionista da comunicação no Brasil. Se de perto ninguém é normal, na TV brasileira de perto ninguém sequer existe.
Coletivos
Outra situação que denuncia a incapacidade da gestão da proximidade é perceptível no setor cultural de BH. Há anos se repetem as mesmas políticas, os mesmos critérios de alocação de recursos, a mesma incapacidade de avanço gerencial. A cidade vive empurrada por grandes festivais, que, em outro registro, parecem repetir a mesma lógica da exclusão da diferença. Como Sísifo, a cada jornada começa tudo de novo sem sequer o benefício da memória para lhes apaziguar os equívocos.
O que falta no setor público parece brotar nos novos artistas da cidade. Pode-se perceber uma saudável tendência política centrífuga, militante e em rede, que tem aproximado coletivos de vários estilos e motivações ideológicas. A mais recente novidade – que merece apoio e atenção – é o Espaço Comum Luiz Estrela.
Localizado em Santa Efigênia, num edifício sem função da Fundação Hospitalar de Minas Gerais, o espaço foi ocupado por artistas e ativistas, passando a oferecer programação cultural para a localidade. Fruto de iniciativa politicamente ordenada e inteligente, a ocupação conquistou a adesão da vizinhança, que percebe o potencial da arte para melhorar seu cotidiano.
A programação inclui aulas de artes orientais, ioga, dança, música, apresentações circenses e debates. As atividades começam com a manhã e se encerram à noitinha, sem atrapalhar o descanso dos cidadãos do bairro. O casarão, até então abandonado, terá gestão coletiva e será restaurado colaborativamente. Tudo é surpreendente na conquista do espaço, menos a reação do poder público, que se apressou a cobrar na Justiça a posse da qual se descurou por décadas.
Os ativistas da cultura em BH têm sabido habitar a cidade em sua valorização da proximidade: o carnaval que se pulveriza em bloquinhos; a ocupação dos espaços do Centro para as atividades que congregam a convivência entre as comunidades mais distantes (como no Duelo de MCs); a mobilização para a derrubada de cercas nas praças públicas.
Outra atitude que também recupera a dimensão de proximidade é o fortalecimento da participação dos segmentos cidadãos do Conselho Municipal de Cultura, que, postergado até o limite, vem ganhando força política e cobrando maior transparência na gestão e na definição da política cultural para o município. Os conselhos, com seu poder deliberativo, são instâncias que defendem a diminuição das distâncias.
Precisamos ficar mais perto dos bons. Em momentos difíceis, nada melhor do que achar a turma certa.
jpaulocunha.mg@diariosassociados.com.br
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| A antiga unidade da Fhemig em Santa Efigênia nem imaginava que viveria um destino tão festivo |
Andamos tão preocupados com o tempo que estamos perdendo a noção de espaço. O que é perto e longe deixou de ser referência em razão de uma falsa anulação das distâncias: viajamos rápido, compartilhamos em tempo real experiências em vários cantos do mundo, temos a falsa ideia de habitar o coração do planeta.
Há algum tempo, quando as distâncias imperavam, havia uma espécie de hierarquia: o que importava, até mesmo por nossa capacidade de intervenção, era o que estava mais próximo. O gesto de liberdade era demarcado pelo arco formado por um homem com os braços abertos. Aquilo que dizia respeito aos contextos mais distantes tinha seu valor, mas era considerado com o peso dado pelo afastamento.
A proximidade não era uma condenação, mas destino. Como diziam os antigos filósofos existencialistas, somos nós e nossa circunstância. Por isso, quanto mais ligados ao nosso entorno, mais nos definimos como humanos. A proximidade nos humaniza. A dialética entre perto e longe, o balanço entre as duas situações se torna uma espécie de modo de ser no mundo. Somos contemporâneos do todo, mas conterrâneos do próximo.
Essa situação se apresenta a todo momento na vida das sociedades contemporâneas. Estamos perdendo o sentimento de vizinhança. Uma das consequências desse movimento é a diminuição do sentido de singularidade em troca da percepção que alguns chamam de globalizada. Em outros termos, cada parte do todo sacrifica o que tem de único em razão de uma falsa centralidade que atende apenas aos interesses de mercado.
São muitas as situações em que se percebe essa tendência. Na mais prosaica delas, a cobertura dos jogos de futebol pela TV, os torcedores locais precisam entregar sua paixão ao interesse do mercado patrocinador. Assim, jogos de São Paulo e Rio de Janeiro, quando não de Madri e Berlim, são mais importantes que a peleja de seu time do coração.
Pode parecer pouca coisa, mas é um sinal significativo de esvaziamento da diferença. O resultado a longo prazo, como se vê hoje com certa frequência, aponta para crianças que torcem para o Barcelona, quando não se alienam ainda mais usando camisas de times de basquete norte-americano e torcendo para um esporte que faz com a mão o que os pés realizam com astúcia no futebol.
A mesma realidade vivida com os esportes também se torna operacional no caso do jornalismo. Não deveria haver, até por definição, nada mais jornalístico que o fato local. Notícia é o que afeta a vida, o que nos permite tomar a melhor decisão. Se uma pessoa liga a televisão e se depara com um engarrafamento em São Paulo (todos parecem saber quantos quilômetros de paralisação SP registra nos dias de chuva), não vai se sentir mais bem aparelhada para se movimentar em Belo Horizonte.
Mais que o dado pragmático, o trânsito ruim em BH é diferente daquele de outras localidades e tem outras razões: incompetência de planejamento, viadutos que ligam dois engarrafamentos, falta de metrô, obras arrastadas e malfeitas. A saída política de Sampa será necessariamente diferente da nossa. Outra deverá ser também a mobilização.
O que trânsito e jogo de futebol têm em comum, nesse caso, é o fato de ganharem dimensão pública por um modelo de TV que deixa de lado a particularidade. Existe saída: a regionalização da programação de televisão. No entanto, como o debate sobre o tema entra sempre na pauta da regulação, acaba sendo vendida como intervenção no setor.
Os projetos de regionalização da produção televisiva patinam há muitos anos no Congresso. Há desde percentuais definidos e horários a serem reservados para programação local até o incentivo à produção desse tipo de programa. Como muitos parlamentares são concessionários de rádio e TV, o debate não avança.
O que se vê, para cumprir a cota hoje existente, é a venda de espaço para programação religiosa, que, independentemente da fé professada, é sempre muito ruim, preconceituosa, chata e alienante. Ou, o que é pior, programas políticos obrigatórios, que, além de contar ponto para a cota local com suas mentiras encadeadas por interesses eleitorais, dão isenção fiscal às emissoras.
Como se vê, torcer para o Barcelona ou ficar preocupado com o tráfego na Marginal Tietê é o menos pior da política concentracionista da comunicação no Brasil. Se de perto ninguém é normal, na TV brasileira de perto ninguém sequer existe.
Coletivos
Outra situação que denuncia a incapacidade da gestão da proximidade é perceptível no setor cultural de BH. Há anos se repetem as mesmas políticas, os mesmos critérios de alocação de recursos, a mesma incapacidade de avanço gerencial. A cidade vive empurrada por grandes festivais, que, em outro registro, parecem repetir a mesma lógica da exclusão da diferença. Como Sísifo, a cada jornada começa tudo de novo sem sequer o benefício da memória para lhes apaziguar os equívocos.
O que falta no setor público parece brotar nos novos artistas da cidade. Pode-se perceber uma saudável tendência política centrífuga, militante e em rede, que tem aproximado coletivos de vários estilos e motivações ideológicas. A mais recente novidade – que merece apoio e atenção – é o Espaço Comum Luiz Estrela.
Localizado em Santa Efigênia, num edifício sem função da Fundação Hospitalar de Minas Gerais, o espaço foi ocupado por artistas e ativistas, passando a oferecer programação cultural para a localidade. Fruto de iniciativa politicamente ordenada e inteligente, a ocupação conquistou a adesão da vizinhança, que percebe o potencial da arte para melhorar seu cotidiano.
A programação inclui aulas de artes orientais, ioga, dança, música, apresentações circenses e debates. As atividades começam com a manhã e se encerram à noitinha, sem atrapalhar o descanso dos cidadãos do bairro. O casarão, até então abandonado, terá gestão coletiva e será restaurado colaborativamente. Tudo é surpreendente na conquista do espaço, menos a reação do poder público, que se apressou a cobrar na Justiça a posse da qual se descurou por décadas.
Os ativistas da cultura em BH têm sabido habitar a cidade em sua valorização da proximidade: o carnaval que se pulveriza em bloquinhos; a ocupação dos espaços do Centro para as atividades que congregam a convivência entre as comunidades mais distantes (como no Duelo de MCs); a mobilização para a derrubada de cercas nas praças públicas.
Outra atitude que também recupera a dimensão de proximidade é o fortalecimento da participação dos segmentos cidadãos do Conselho Municipal de Cultura, que, postergado até o limite, vem ganhando força política e cobrando maior transparência na gestão e na definição da política cultural para o município. Os conselhos, com seu poder deliberativo, são instâncias que defendem a diminuição das distâncias.
Precisamos ficar mais perto dos bons. Em momentos difíceis, nada melhor do que achar a turma certa.
jpaulocunha.mg@diariosassociados.com.br
Páginas da vida - João Paulo
Safra de biografias que chegou
recentemente às livrarias demonstra a importância do gênero para vários
campos do conhecimento e para a formação cultural do leitor não
especializado
João Paulo
Estado de Minas : 02/11/2013
João Paulo
Estado de Minas : 02/11/2013
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‘‘Que os biógrafos penem e labutem, não vamos
facilitar demais para eles.” Quando Sigmund Freud escreveu essa
maldição, em 1885, em carta à noiva, ela havia acabado de queimar
correspondência e manuscritos que julgava menores ou indignos de sua
trajetória até aquele momento, preservando apenas os escritos mais
familiares. Freud, que conhecia a alma humana – inclusive a própria –,
sabia que escrever uma biografia era tarefa árdua e fadada a enganos.
Mas, como bom iluminista, não pensou em nenhum momento em atacar sua
importância. Ele mesmo escreveu sobre a vida de seus pacientes, acerca
de passagens da infância de Leonardo da Vinci, sobre a relação de
Dostoiévski com o pai e sobre algumas obsessões de Shakespeare.
Tratava-se sempre de momentos sensíveis das existências de seus
biografados.
Pode-se argumentar que nem todo biógrafo é Freud ou que o que ele fazia era ciência. Além disso, não deve ser esquecido que ele mesmo escreveu sua autobiografia (mais que isso, baseou sua teoria em sua própria existência diurna e sonhada) e que incentivou o discípulo Ernst Jones a produzir algo próximo de uma biografia autorizada, em três grandes volumes. Não foi suficiente: a posteridade foi pródiga em biografias de Freud, que se contam às dezenas – apenas entre as muito boas. Os biógrafos devem ter penado, mas fizeram um bom trabalho, do qual até hoje nos beneficiamos.
No entanto, mesmo com todas as reservas, é bom voltar a Freud e ver que, burguês cioso de sua intimidade, em nenhum momento se julgou defeso do interesse de outros homens, seja em seus momentos públicos ou mesmo em segredos de alma. Tentou dificultar a vida de seus biógrafos queimando documentos, mas não passou por sua cabeça o recurso da censura. Na mesma carta, registra com certo humor que, ao pôr fim aos documentos que julgava chinfrins, estava “quase completando um empreendimento que algumas pessoas ainda não nascidas, mas destinadas ao infortúnio, vão sentir seriamente”. Freud sabia (coisa que Roberto Carlos nem desconfia mergulhado em seu narcisismo primário) que ninguém domina a verdade sobre a própria vida.
Em toda a polêmica sobre as biografias, um tema que tem ficado de fora são as próprias biografias, não o gênero, mas o produto em si, o livro que conta a vida de um personagem real. Por que não ir até as biografias para lhes avaliar os méritos e riscos? O gênero está bem das pernas, tem produzido excelentes trabalhos, informado muitos leitores e aberto portas para outros formatos de estudos, sejam eles históricos, literários ou científicos. As biografias, em sua articulação do geral e do particular, em sua capacidade de desenhar o contexto e mergulhar no indivíduo, são um instrumento privilegiado de acesso ao sujeito e à sociedade. Além disso, a grande tradição das biografias literárias e históricas ganhou muito com a chegada do método jornalístico, com sua obsessão pelo fato e pela apuração exaustiva. Não se pode esquecer também que esse tipo de estudo tem sido por muito tempo um modelo de acesso ao conhecimento por quem não é especialista em algum campo do saber. Quantas vocações científicas foram despertadas pelas biografias de Darwin e Einstein?
Sem esticar ainda mais a falsa diatribe entre direito à liberdade de expressão e direito à intimidade, é bom lembrar apenas um preceito lógico que defende que, em caso de pares aparentemente contraditórios, a solução possível para ambos convivam e sejam exercidos em sua integridade é dar precedência ao que não anula o outro, permitindo que as ações a posteriori corrijam os equívocos de origem. Assim, quando se parte da preservação do direito à intimidade antes do direito à liberdade de expressão, este ficou prejudicado e não poderá ser exercido. No caso inverso, a liberdade de manifestação de pensamento pode até ferir a privacidade, mas esta pode ser retomada em função de correções legais pertinentes.
Assim, há dois caminhos que devem pautar os debates na vida prática: o bom senso que previne os enganos (que só é conquistado na prática, não no silêncio) e os mecanismos de controle e ressarcimento dos erros de fato (que aponta para instrumentos legais e para mecanismos institucionais que tornem a Justiça mais rápida e eficaz, com indenizações mais significativas). Entre duas verdades, deve-se ficar com as duas. A grande questão não é filosófica, mas processual. Isso, é claro, se se trata a questão como um problema ético (em que os dois lados têm razão) e não uma questão de mercado. Se o problema é dinheiro, a questão sai do terreno da ética para adentrar no campo das conveniências. Pelo nível dos contendores – com as exceções notáveis –, até prova em contrário, ainda não chegamos lá.
A equação é simples: uma cultura de biografias gera um mercado mais responsável, editores mais zelosos e biógrafos mais equilibrados. Por outro lado, cria um aparato jurídico mais eficiente, justo e célere. Como em todo setor, a liberdade é instrumento de aprimoramento e as restrições apenas reforçam a regressão e a desconfiança.
Por fim, há uma questão social relevante. As biografias não miram apenas artistas – que hoje se agrupam em defesa do direito da intimidade e parecem se julgar os mais interessantes tipos humanos sobre a Terra –, mas todas as pessoas, como políticos, filósofos, cientistas, esportistas, ladrões, celebridades, generais, ditadores, empresários, escritores, revolucionários, entre outros. O que, legalmente, valer para um, vale para todos, como é próprio da impessoalidade da lei. Portanto, sob o argumento de dar ao biografado ou à sua família o direito de veto de conteúdos, a sociedade não fica apenas sem informações banais ou íntimas, como por exemplo sobre a vida sexual de seus personagens, mas sem a substância histórica inegociável – inclusive acerca de situações que precisam ser denunciadas.
Revoluções O melhor argumento em favor das biografias encontra-se nas livrarias e prateleiras de bibliotecas. Apenas a título de exemplo, seguem algumas indicações de livros lançados nos últimos meses, que merecem ser lidos e refletidos pelo seu valor intrínseco e pelo que simbolizam como forma de ampliação do universo de referências do leitor. Ao ler sobre a vida de Tolstói, Jango, Malcolm X e Zhang Dai, aprendemos sobre a Rússia do século 19, sobre a política brasileira e o tabu em torno da morte suspeita de um presidente, sobre a resistência dos negros americanos e sua luta pelos direitos humanos no país, e acerca da dinastia Ming na China clássica do século 17.
Sobre a vida de Tolstói foram lançados nos últimos meses no Brasil dois livros importantes. O primeiro é Tolstói – A biografia, de Rosamund Bratlett (Biblioteca Azul, 640 páginas, R$ 69,90), um trabalho soberbo, que articula a vida e obra do escritor russo. A autora retrata a infância do romancista numa família aristocrática, a juventude impulsiva e o início de sua vida literária. A obra estuda ainda a concepção dos grandes romances, como Guerra e paz e Anna Kariênina, além de mostrar a estreita vinculação com a sociedade russa, da qual se tornaria a figura arquetípica. O livro trata ainda das ideias sociais e religiosas de Tolstói e de como elas, mais que construções ideológicas, ganharam carne em sua vida e se tornaram modelo para o mundo.
Outra excelente biografia sobre Tolstói recém-lançada no Brasil é Tolstói – A fuga do paraíso, de Pável Bassinski (Editora Leya, 480 páginas, R$ 59,90). Nesse caso, o autor partiu dos 10 últimos dias do escritor, depois que ele, aos 82 anos, em 1910, abandona suas propriedades e a família e parte em busca de sua verdade derradeira. Uma atitude tolstoiana, de fuga disparada por uma crise espiritual, que leva o homem, já combalido pela existência de dissipações, a sair para conquista de uma nova vida, mais pura e consciente. O biógrafo, no entanto, não faz uma leitura literária do gesto de Tolstói, construindo sua obra com cuidadosa pesquisa em cartas e diários do escritor e de seus seguidores na viagem final. Curiosamente, o próprio escritor se dava conta da dimensão pública de sua vida, não fazendo questão de esconder de ninguém suas ambiguidades às portas da morte. Um gigante até o último momento, capaz de viver e morrer como um homem que não teme o juízo de outros homens, já que prestava contas apenas a si mesmo.
Teria sido Jango assassinado? Jango – A vida e a morte no exílio, de Juremir Machado da Silva (Editora L&PM, 372 páginas), é outra biografia de “últimos dias”, marcada por muito mistério e capacidade de derrubar mitos. O autor, que já havia publicado uma biografia romanceada de Getúlio Vargas (Getúlio), retorna à política nacional numa investigação eletrizante sobre a vida no exílio e a morte de Jango. O presidente deposto em 1964 morreu na Argentina, com saudades do Brasil, e em circunstâncias que ainda hoje geram dúvidas. Juremir vai atrás de milhares de documentos e dos arquivos de dois personagens uruguaios, Foch Diaz e Neira Barreto, que lançaram dúvidas sobre a morte natural do ex-presidente e revelaram um complô para matá-lo. Uma investigação que se lê como um romance policial, mas que deixa o travo da verdade ainda a ser revelada à nação.
Prêmio Pulitzer de 2012, a biografia Malcolm X – Uma vida de reinvenções, de Manning Marable (Editora Companhia das Letras, 650 páginas), acompanha as metamorfoses vividas por Malcolm Little até assumir o papel de porta-voz da revolta dos descendentes de escravos no país mais rico do mundo. O historiador americano, com elegância e erudição, segue de perto o homem que foi chamado de Homeboy, Jack Carlton, Detroit Red, Big Red e Satan, até assumir a identidade islâmica como Malachi Shabazz, Malik Shabazz e El-Hajj Malik. A ligação com os movimentos de esquerda, o ativismo político e encontro definitivo com o Islã não passam por cima das dificuldades da vida de Malcom X, que o levaram a agir como ladrão, explorador de prostitutas e viciado em drogas. Uma aula de história americana contemporânea a contrapelo, mostrando o avesso de uma sociedade e a força moral de um homem capaz de se reinventar para se tornar um gigante na luta pelos direitos humanos.
O Ocidente tem o hábito de virar as costas para o Oriente. Por isso, de tempos em tempos, é surpreendido por uma cultura antiga, rica e sofisticada, que sua ignorância voluntária ajudava a esconder. Ou então, como ocorre hoje em dia, se assusta com a força econômica capaz de mudar todas as certezas dos autodenominados países do capitalismo central. Por isso é tão rica a leitura de O retorno à Montanha do Dragão, de Jonathan Spence (Editora Record, 280 páginas, R$ 40). Especialista na cultura chinesa, Spence escolhe como personagem o escritor e historiador Zhang Dai, um dos mais importantes nomes da Dinastia Ming, nascido em 1597. Há mais de 200 anos no poder, sua dinastia, marcada pela estabilidade econômica e força cultural, começava o processo inevitável de decadência, que se completa com a invasão dos manchus, em 1644. O aristocrata Zhang Dai, depois de perder a fortuna, passa a registrar sua vida, reconstruindo o que seu país via submergir com as mudanças. São esses escritos a base do trabalho de Spence. O leitor, além de aprender sobre uma cultura sofisticada, passa a compreender o sentido da mudança na China do século 17 e o papel das transformações numa escala de tempo que vai além das ideologias.
O que os adeptos do Procure Saber precisam saber é aquilo que Freud explica. Não somos os melhores juízes de nossos atos nem os melhores narradores de nossa história. O outro nome para esse reconhecimento pode ser chamado simplesmente de humildade.
Pode-se argumentar que nem todo biógrafo é Freud ou que o que ele fazia era ciência. Além disso, não deve ser esquecido que ele mesmo escreveu sua autobiografia (mais que isso, baseou sua teoria em sua própria existência diurna e sonhada) e que incentivou o discípulo Ernst Jones a produzir algo próximo de uma biografia autorizada, em três grandes volumes. Não foi suficiente: a posteridade foi pródiga em biografias de Freud, que se contam às dezenas – apenas entre as muito boas. Os biógrafos devem ter penado, mas fizeram um bom trabalho, do qual até hoje nos beneficiamos.
No entanto, mesmo com todas as reservas, é bom voltar a Freud e ver que, burguês cioso de sua intimidade, em nenhum momento se julgou defeso do interesse de outros homens, seja em seus momentos públicos ou mesmo em segredos de alma. Tentou dificultar a vida de seus biógrafos queimando documentos, mas não passou por sua cabeça o recurso da censura. Na mesma carta, registra com certo humor que, ao pôr fim aos documentos que julgava chinfrins, estava “quase completando um empreendimento que algumas pessoas ainda não nascidas, mas destinadas ao infortúnio, vão sentir seriamente”. Freud sabia (coisa que Roberto Carlos nem desconfia mergulhado em seu narcisismo primário) que ninguém domina a verdade sobre a própria vida.
Em toda a polêmica sobre as biografias, um tema que tem ficado de fora são as próprias biografias, não o gênero, mas o produto em si, o livro que conta a vida de um personagem real. Por que não ir até as biografias para lhes avaliar os méritos e riscos? O gênero está bem das pernas, tem produzido excelentes trabalhos, informado muitos leitores e aberto portas para outros formatos de estudos, sejam eles históricos, literários ou científicos. As biografias, em sua articulação do geral e do particular, em sua capacidade de desenhar o contexto e mergulhar no indivíduo, são um instrumento privilegiado de acesso ao sujeito e à sociedade. Além disso, a grande tradição das biografias literárias e históricas ganhou muito com a chegada do método jornalístico, com sua obsessão pelo fato e pela apuração exaustiva. Não se pode esquecer também que esse tipo de estudo tem sido por muito tempo um modelo de acesso ao conhecimento por quem não é especialista em algum campo do saber. Quantas vocações científicas foram despertadas pelas biografias de Darwin e Einstein?
Sem esticar ainda mais a falsa diatribe entre direito à liberdade de expressão e direito à intimidade, é bom lembrar apenas um preceito lógico que defende que, em caso de pares aparentemente contraditórios, a solução possível para ambos convivam e sejam exercidos em sua integridade é dar precedência ao que não anula o outro, permitindo que as ações a posteriori corrijam os equívocos de origem. Assim, quando se parte da preservação do direito à intimidade antes do direito à liberdade de expressão, este ficou prejudicado e não poderá ser exercido. No caso inverso, a liberdade de manifestação de pensamento pode até ferir a privacidade, mas esta pode ser retomada em função de correções legais pertinentes.
Assim, há dois caminhos que devem pautar os debates na vida prática: o bom senso que previne os enganos (que só é conquistado na prática, não no silêncio) e os mecanismos de controle e ressarcimento dos erros de fato (que aponta para instrumentos legais e para mecanismos institucionais que tornem a Justiça mais rápida e eficaz, com indenizações mais significativas). Entre duas verdades, deve-se ficar com as duas. A grande questão não é filosófica, mas processual. Isso, é claro, se se trata a questão como um problema ético (em que os dois lados têm razão) e não uma questão de mercado. Se o problema é dinheiro, a questão sai do terreno da ética para adentrar no campo das conveniências. Pelo nível dos contendores – com as exceções notáveis –, até prova em contrário, ainda não chegamos lá.
A equação é simples: uma cultura de biografias gera um mercado mais responsável, editores mais zelosos e biógrafos mais equilibrados. Por outro lado, cria um aparato jurídico mais eficiente, justo e célere. Como em todo setor, a liberdade é instrumento de aprimoramento e as restrições apenas reforçam a regressão e a desconfiança.
Por fim, há uma questão social relevante. As biografias não miram apenas artistas – que hoje se agrupam em defesa do direito da intimidade e parecem se julgar os mais interessantes tipos humanos sobre a Terra –, mas todas as pessoas, como políticos, filósofos, cientistas, esportistas, ladrões, celebridades, generais, ditadores, empresários, escritores, revolucionários, entre outros. O que, legalmente, valer para um, vale para todos, como é próprio da impessoalidade da lei. Portanto, sob o argumento de dar ao biografado ou à sua família o direito de veto de conteúdos, a sociedade não fica apenas sem informações banais ou íntimas, como por exemplo sobre a vida sexual de seus personagens, mas sem a substância histórica inegociável – inclusive acerca de situações que precisam ser denunciadas.
Revoluções O melhor argumento em favor das biografias encontra-se nas livrarias e prateleiras de bibliotecas. Apenas a título de exemplo, seguem algumas indicações de livros lançados nos últimos meses, que merecem ser lidos e refletidos pelo seu valor intrínseco e pelo que simbolizam como forma de ampliação do universo de referências do leitor. Ao ler sobre a vida de Tolstói, Jango, Malcolm X e Zhang Dai, aprendemos sobre a Rússia do século 19, sobre a política brasileira e o tabu em torno da morte suspeita de um presidente, sobre a resistência dos negros americanos e sua luta pelos direitos humanos no país, e acerca da dinastia Ming na China clássica do século 17.
Sobre a vida de Tolstói foram lançados nos últimos meses no Brasil dois livros importantes. O primeiro é Tolstói – A biografia, de Rosamund Bratlett (Biblioteca Azul, 640 páginas, R$ 69,90), um trabalho soberbo, que articula a vida e obra do escritor russo. A autora retrata a infância do romancista numa família aristocrática, a juventude impulsiva e o início de sua vida literária. A obra estuda ainda a concepção dos grandes romances, como Guerra e paz e Anna Kariênina, além de mostrar a estreita vinculação com a sociedade russa, da qual se tornaria a figura arquetípica. O livro trata ainda das ideias sociais e religiosas de Tolstói e de como elas, mais que construções ideológicas, ganharam carne em sua vida e se tornaram modelo para o mundo.
Outra excelente biografia sobre Tolstói recém-lançada no Brasil é Tolstói – A fuga do paraíso, de Pável Bassinski (Editora Leya, 480 páginas, R$ 59,90). Nesse caso, o autor partiu dos 10 últimos dias do escritor, depois que ele, aos 82 anos, em 1910, abandona suas propriedades e a família e parte em busca de sua verdade derradeira. Uma atitude tolstoiana, de fuga disparada por uma crise espiritual, que leva o homem, já combalido pela existência de dissipações, a sair para conquista de uma nova vida, mais pura e consciente. O biógrafo, no entanto, não faz uma leitura literária do gesto de Tolstói, construindo sua obra com cuidadosa pesquisa em cartas e diários do escritor e de seus seguidores na viagem final. Curiosamente, o próprio escritor se dava conta da dimensão pública de sua vida, não fazendo questão de esconder de ninguém suas ambiguidades às portas da morte. Um gigante até o último momento, capaz de viver e morrer como um homem que não teme o juízo de outros homens, já que prestava contas apenas a si mesmo.
Teria sido Jango assassinado? Jango – A vida e a morte no exílio, de Juremir Machado da Silva (Editora L&PM, 372 páginas), é outra biografia de “últimos dias”, marcada por muito mistério e capacidade de derrubar mitos. O autor, que já havia publicado uma biografia romanceada de Getúlio Vargas (Getúlio), retorna à política nacional numa investigação eletrizante sobre a vida no exílio e a morte de Jango. O presidente deposto em 1964 morreu na Argentina, com saudades do Brasil, e em circunstâncias que ainda hoje geram dúvidas. Juremir vai atrás de milhares de documentos e dos arquivos de dois personagens uruguaios, Foch Diaz e Neira Barreto, que lançaram dúvidas sobre a morte natural do ex-presidente e revelaram um complô para matá-lo. Uma investigação que se lê como um romance policial, mas que deixa o travo da verdade ainda a ser revelada à nação.
Prêmio Pulitzer de 2012, a biografia Malcolm X – Uma vida de reinvenções, de Manning Marable (Editora Companhia das Letras, 650 páginas), acompanha as metamorfoses vividas por Malcolm Little até assumir o papel de porta-voz da revolta dos descendentes de escravos no país mais rico do mundo. O historiador americano, com elegância e erudição, segue de perto o homem que foi chamado de Homeboy, Jack Carlton, Detroit Red, Big Red e Satan, até assumir a identidade islâmica como Malachi Shabazz, Malik Shabazz e El-Hajj Malik. A ligação com os movimentos de esquerda, o ativismo político e encontro definitivo com o Islã não passam por cima das dificuldades da vida de Malcom X, que o levaram a agir como ladrão, explorador de prostitutas e viciado em drogas. Uma aula de história americana contemporânea a contrapelo, mostrando o avesso de uma sociedade e a força moral de um homem capaz de se reinventar para se tornar um gigante na luta pelos direitos humanos.
O Ocidente tem o hábito de virar as costas para o Oriente. Por isso, de tempos em tempos, é surpreendido por uma cultura antiga, rica e sofisticada, que sua ignorância voluntária ajudava a esconder. Ou então, como ocorre hoje em dia, se assusta com a força econômica capaz de mudar todas as certezas dos autodenominados países do capitalismo central. Por isso é tão rica a leitura de O retorno à Montanha do Dragão, de Jonathan Spence (Editora Record, 280 páginas, R$ 40). Especialista na cultura chinesa, Spence escolhe como personagem o escritor e historiador Zhang Dai, um dos mais importantes nomes da Dinastia Ming, nascido em 1597. Há mais de 200 anos no poder, sua dinastia, marcada pela estabilidade econômica e força cultural, começava o processo inevitável de decadência, que se completa com a invasão dos manchus, em 1644. O aristocrata Zhang Dai, depois de perder a fortuna, passa a registrar sua vida, reconstruindo o que seu país via submergir com as mudanças. São esses escritos a base do trabalho de Spence. O leitor, além de aprender sobre uma cultura sofisticada, passa a compreender o sentido da mudança na China do século 17 e o papel das transformações numa escala de tempo que vai além das ideologias.
O que os adeptos do Procure Saber precisam saber é aquilo que Freud explica. Não somos os melhores juízes de nossos atos nem os melhores narradores de nossa história. O outro nome para esse reconhecimento pode ser chamado simplesmente de humildade.
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