quinta-feira, 20 de março de 2014

Fusão editorial une Objetiva e Cia das Letras

O Globo 20/03/2014

Penguin Random House, líder mundial no setor, compra selos do grupo espanhol Santillana por € 72 milhões

ANDRÉ MIRANDA
andre.miranda@oglobo.com.br
MAURÍCIO MEIRELES
mauricio.meireles@oglobo.com.br

A onda de fusões de grandes editoras
do mundo tem mais um capítulo, e
mais uma vez com reflexos no Brasil. O
conglomerado editorial Penguin Random
House, o maior do mundo, anunciou
ontem a compra de selos e editoras
do grupo espanhol Santillana, em
uma transação fechada por € 72 milhões.
É um negócio que repercute em
todo o mercado livreiro de língua espanhola
e que, no Brasil, promoverá a
união de duas das maiores casas editoriais
do país: a Companhia das Letras,
que já fazia parte da Penguin desde
2011, e a Objetiva, cujo sócio majoritário
era a Santillana desde 2005. Juntas,
elas serão a terceira maior editora brasileira
em vendas para livrarias, com
6% do mercado, atrás do Grupo Editorial
Record e da Sextante.

A aquisição dos selos da Santillana pela
Penguin Random House se restringe
ao segmento de obras gerais — do qual a
Objetiva faz parte, assim como Alfaguara
e Suma de Letras. O segmento de livros
didáticos, que representou 87% das vendas
do grupo espanhol em 2013 e cujo
braço no Brasil é a editora Moderna,
continua sob controle da Santillana.

O fundador da Objetiva, Roberto Feith,
vendeu a participação de 24% que ainda
detinha na empresa para a Penguin Random
House, mas vai manter seu cargo de
diretor editorial. A Companhia das Letras,
por sua vez, não terá sua composição
acionária afetada pelo negócio: o
fundador e diretor-geral, Luiz Schwarcz,
permanece com seus 55% da editora.
Schwarcz também será o representante
da Penguin Random House Brasil, empresa
que acaba de ser formada com o anúncio
da aquisição.

Mas a intenção das editoras brasileiras,
de acordo com Schwarcz e Feith, é
que elas sigam como empresas diferentes,
com catálogos próprios.

— Foi uma história cheia de idas e
vindas. Em dado momento da negociação
com a Santillana, a Penguin Random
House cogitou até não incluir a
operação brasileira — afirma Luiz
Schwarcz. — Mas os catálogos seguem
independentes. A Objetiva continua
com sede no Rio, e a Companhia das
Letras, em São Paulo.

A história se complicou quando a Penguin,
que já era sócia da Companhia das
Letras desde dezembro de 2011, se fundiu
com a Random House, numa negociação
encerrada no meio do ano passado.

— A Random House já negociava
comprar a Santillana desde 2012, antes
mesmo de se fundir com a Penguin.
Naquela ocasião, surgiu a tese de comprarem
a minha parte da Objetiva, e me
perguntaram se eu venderia. Eu disse
que sim, porque achava uma oportunidade
boa para a editora — diz Feith.

Com a união de Companhia das Letras
e Objetiva, a empresa carioca deve
passar a agenciar autores brasileiros no
mercado internacional — trabalho que
a paulista já faz há alguns anos. Além
disso, as duas terão acesso privilegiado
aos originais de autores agenciados pela
Penguin Random House.

— Sempre gostei de vender nossos
autores para fora. Fiz isso com Rubem
Fonseca, Moacyr Scliar e outros. Não
via como um negócio, mas agora encaramos
assim. O departamento de direitos
da Penguin é muito importante para
o faturamento da editora. E um dia
também será para Objetiva e Companhia
das Letras — diz Schwarcz.

A transação também pode levar a
uma aproximação das áreas comercial
e de distribuição de Objetiva e Companhia
das Letras, que passariam a ter
mais força para negociação com pontos
de venda e uma dinâmica maior para a
distribuição de seus livros. Outra mudança
que deve ser percebida nos próximos
anos é o fortalecimento de um
movimento que já vinha se desenhando
nas duas editoras, de maiores apostas
em obras de caráter mais comercial.

— No âmbito internacional, as grandes
editoras vão perceber que precisam
de uma estratégia de participação global.
Já no Brasil, Ediouro, Record, Rocco
e outras tendem a perder terreno se também
não se consolidarem ou encontrarem
um parceiro internacional — afirma
o economista Carlo Carrenho, criador
do Publishnews, boletim de notícias do
mercado editorial brasileiro.


PRESENÇA FORTE NA AMÉRICA LATINA

Hoje o mercado editorial mundial é
concentrado em cinco grandes grupos.
Além da Penguin Random House, o
maior deles, há Hachette, Simon and
Schuster, Harper Collins e Macmillan.
Para Carrenho, na esteira do que aconteceu
com Santillana e Penguin, outros
grupos internacionais podem chegar
ao mercado brasileiro. Casos recentes
foram o da editora portuguesa Leya,
que chegou ao Brasil em 2009 e, este
mês, adquiriu o controle completo da
carioca Casa da Palavra; e da espanhola
Planeta, que chegou ao Brasil em 2003.

O negócio anunciado ontem consolida
a Penguin Random House como líder no
mercado de língua espanhola. A empresa
já havia adquirido, no ano passado, o
controle total da Random House Mondadori,
joint venture formada em 2001 entre
a editora americana e a italiana Arnoldo
Mondadori, que tem forte presença nos
países latinos e que tinha como uma de
suas maiores concorrentes justamente a
Alfaguara.

— A Alfaguara tem um prestígio muito
grande, e essa aquisição vai fortalecer
muito a presença da Penguin Random
House na América Latina — afirma
Felipe Lindoso, consultor de políticas
de livro e leitura.

Marina Colasanti - Dentro das leis de mercado‏

Dentro das leis de mercado 
 
Marina Colasanti
Estado de Minas: 20/03/2014




Mais de 400 PMs, além das tropas do Bope e do Choque, partiram para retomar o Alemão depois dos ataques às UPPs.

Toda vez que chego do Galeão ou da montanha, olho à minha direita aquela massa de moradias que se estende a perder de vista por cima de morros e vales, compacta, sem uma pausa de verde, sem um ponto de respiro, parede contra parede, tudo no osso, tijolo e carne à mostra, e me pergunto como se deixou isso acontecer, e como se administra.
Falo de coisas que pouco sei, mas vejo homens armados avançando, e enterros, e carcaças de ônibus incendiados. E sei que isso me diz respeito. Tateio, pois, com cuidado.

O consumo de cocaína aumentou brutalmente no Brasil. Consumimos hoje quatro vezes mais do que a média mundial. É uma tremenda demanda. E pelas leis de mercado, toda vez que existe uma demanda muitos se apresentam para atendê-la, disputando as fatias da torta.

Nenhum grande mercado, hoje, é apenas nacional. No caso da cocaína, importamos a matéria-prima, ou pasta, processamos uma parte para consumo interno, a outra exportamos. Está aí armada – a palavra vem a calhar – uma multinacional. O dinheiro resultante disso tudo é, para mim, inimaginável.

Pensando do ponto de vista empresarial, se há produto e se há demanda tem que haver pontos de venda. Quanto mais, melhor. O jogo do bicho, por exemplo, sabe disso muito bem: por qualquer lado que eu saia da minha casa em Ipanema, sou levada a passar por um ponto, espécie de escritório móvel, em que um funcionário sentado em cadeira ou banquinho atua de forma visível na calçada.

Os pontos de venda de tóxicos sempre funcionaram nas comunidades. Lembro-me de que quando amamentava minha filha mais jovem, acordando de três em três horas, via pela janela o movimento com que, a noite inteira, usuários eram atendidos no sopé do Pavão/Pavãozinho. O comércio do ilícito atua com eficiência, porém não com a maciez de um shopping center. E, correndo por fora da lei, essa eficiência só se mantém graças ao estabelecimento de outro código.

É onde mora o desastre.

Agora os policiais invadem o Alemão para, proteger os habitantes. Fecham-se os pontos de venda. Os funcionários e responsáveis pelos pontos tentam resistir, depois emigram. Um clima civilizatório pousa sobre o Alemão.

Mas nas festas, nos escritórios, nos banheiros, nas casas, fileiras de pó branco continuam sendo estendidas sobre superfícies polidas e cheiradas através de canudinhos de papel. Como se os usuários não tomassem conhecimento ou não tivessem nada a ver com o que acontece do outro lado, a demanda continua inalterada. Ou, certamente, aumentando.

Nisso tudo, o tráfico acaba sendo bom de marketing. O espaço que ocupa na mídia é grandioso. Contam a favor da sua imagem de poder as notícias e fotos de comércio fechado por sua ordem nas comunidades, cenas de protesto contra mortes por bala perdida, divulgação de enterro de policiais assassinados, e até mesmo o noticiário da força militar necessária para enfrentá-lo.

Não vejo espaço equivalente sendo ocupado por campanhas ou ações contra o consumo. Pelo contrário, tudo nos diz que as drogas continuam na crista da moda.

Com a demanda a mil, é impossível acabar com o fornecimento. Conseguiremos, se tanto, obrigar mudança de pouso para pontos de venda.

TeVê

TV paga

Estado de Minas: 20/03/2014



 (TV Bandeirantes/Divulgação)

NOVA TEMPORADA


Estreia às 22h30 a nona temporada de Bones (foto). A equipe do Jeffersonian investiga o assassinato de Jason Siedel, um contador do Departamento de Estado cujos restos mortais foram encontrados no ar-condicionado de um hotel. Quando Booth encontra seu ex-colega de Exército e agente da CIA Danny Beck limpando as evidências no apartamento da vítima, ele começa a perceber que o assassinato de Siedel pode ter mais suspeitos do que ele imaginava. Booth também procura Aldo Clemens, seu amigo e ex-padre da época em que eram militares, em busca de conselhos sobre seu relacionamento com Brennan.

FILME SOBRE CORUJAS
GUERREIRAS NO ÁRTICO


Estreia às 17h no +Globosat o documentário Corujas – Rainha do Norte. A luta pela sobrevivência de um casal de corujas brancas para criar seus filhotes no Círculo Polar Ártico é a trama do programa inédito. Elas enfrentam ursos-polares, milhões de mosquitos e até atravessam a nado o Rio Tundra. O diretor Matt Hamilton e o cinegrafista Michael Male passam por diversos desafios para encontrar um casal dessa espécie, como viajar sobre o mar por geleiras derretendo no curto verão do Ártico.

CANTORA TIÊ ESTARÁ
NO ZOOMBIDO DE HOJE


A cantora Tiê é a convidada de Paulinho Moska no programa Zoombido, que está em sua oitava temporada. Na entrevista, ela fala sobre suas referências musicais, do medo da composição no início de carreira e ainda canta Passarinho, Pra alegrar meu dia e Sweet jardim. Às 21h30, no Canal Brasil.

INFLUÊNCIAS DE MARCEL
CAMUS MUNDO AFORA


O documentário Living with Camus será apresentado às 23h, no canal Curta!. Albert Camus é hoje o escritor francês do século 20 mais lido ao redor do mundo e esse programa vai em busca de seus leitores apaixonados. Os admiradores de Camus formam uma grande comunidade, que ultrapassa fronteiras. Um grupo animado e improvável, como cantores de rock, um padre bretão, um abolicionista americano, um procurador de Chicago, um calígrafo japonês e uma dançarina de Yaoundé.

O TEMPERO DE
RODRIGO HILBERT


No Tempero de família, às 22h30, no GNT, Rodrigo Hilbert mostra que é um cozinheiro de mão cheia e compartilha as receitas que aprendeu com a mãe e a avó no interior de Santa Catarina, onde nasceu. Nesta semana, recebe amigos para uma partida de futebol, em mais um típico domingo em sua fazenda. No cardápio, uma churrascada completa feita no fogo de chão, tradição típica do Sul. De sobremesa, banana na brasa com sorvete de creme.

KEVIN COSTNER NUM
MUNDO CHEIO DE ÁGUA


Waterworld – O segredo das águas, filme dirigido e estrelado por Kevin Costner, vai ao ar às 16h40 no canal Universal. Em um futuro em que o gelo polar derreteu e a maior parte da Terra está abaixo d’água, um marinheiro mutante combate a fome e os fumantes fora da lei e, contra sua vontade, ajuda uma mulher e uma garota a encontrarem terra seca.



CARAS & BOCAS » Atração fatal
Simone Castro

Helena (Júlia Lemmertz) não resistirá à paixão e vai transar com Laerte (Gabriel Braga Nunes) (Paulo Belote/TV Globo)
Helena (Júlia Lemmertz) não resistirá à paixão e vai transar com Laerte (Gabriel Braga Nunes)

Nos próximos capítulos de Em família (Globo), Helena (Júlia Lemmertz) não conseguirá mais esconder o amor que sente por Laerte (Gabriel Braga Nunes). E ele, já envolvido em um romance com Luiza (Bruna Marquezine), filha da protagonista, não conseguirá tirar a antiga noiva do pensamento. Resultado: eles terão uma recaída e transarão na sala da casa em que ela vive com o marido, Virgílio (Humberto Martins), desafeto do músico. Tudo começa quando os primos se encontram na casa dela. Laerte vai atrás de Luiza. Revoltada, Helena o ataca e o acusa de tentar destruir a vida dela. De repente, eles estão se beijando e, sem conter a atração, entregam-se ao sentimento que os persegue há mais de 20 anos. A partir daí, Helena começará a disputa com a filha pelo amor do homem que nunca esqueceu.

IRMÃ DE MÉDICO VOLTA
EM EPISÓDIOS DE SÉRIE


A atriz Caterina Scorsone voltará a encarnar a neurocirurgiã Amelia Shepherd, irmã de Derek (Patrick Dempsey), nos episódios da 10ª temporada da série Grey's anatomy, segundo o site TV guide. A personagem deixou a série em temporadas passadas e migrou para o elenco de Private practice, que já terminou. No Brasil, a série é exibida no canal Sony (TV paga).

MULHER TOMA DECISÃO
EXTREMA EM NOVELA


Ainda na trama de Em família (Globo), as cenas envolvendo a personagem Juliana (Vanessa Gerbelli) prometem. Abalada emocionalmente – ela até raptou uma criança – e sem medir esforços para ter a pequena de Bia (Bruna Faria), a tia de Helena (Júlia Lemmertz) tomará uma decisão extrema: vai se casar com Jairo (Marcello Melo Jr.), pai da criança. Para tanto, realizará um jogo de sedução com o malandro e eles acabarão "ficando". Ela proporá que ele e a filha se mudem para a sua casa. Esperto, ele quer mais. E dirá que só casando. E Juliana, claro, topará na hora.

CARNAVAL VAI EMBALAR
ATRAÇÃO DE HORROR


A nova temporada de American horror story vai voltar à cena em ritmo de folia. Segundo a Variety, o escritor Douglas Petrie revelou, sem querer, pois os episódios estão cercados de sigilo, que a trama poderá se passar durante o carnaval. "Ainda não temos um título, mas a ideia é mais ou menos essa", ele teria dito sem entrar em mais detalhes. No Brasil, a série é transmitida pela Fox (TV paga).

HUMOR GARANTIDO

Uma ausência foi sentida no lançamento, anteontem, no Rio, da terceira temporada da série Pé na cova (Globo): Marília Pêra não vai participar, pois terá que fazer um tratamento de saúde. Uma decepção, sem dúvida, para os fãs da maravilhosa personagem Darlene, que ela interpreta no programa de Miguel Falabella. Ele deixou claro que se a atriz se recuperar a tempo, tem retorno garantido. Miguel falou sobre as novidades da temporada e apresentou os jovens atores que entram no elenco para interpretar os personagens na juventude e que aparecerão logo no primeiro episódio, em cenas de flashback. "O Ruço (vivido por Falabella) viverá a histeria da juventude eterna. Tudo começa quando um amigo, que regula em idade com ele, morre. Aí, ele percebe que também está ficando velho", adianta. Também estará presente na temporada o ator Diogo Vilela, um médico especialista em tudo. A estreia será em 8 de abril.

VIVA
CQC (Band) voltou com tudo na estreia da temporada 2014. E na bancada, Dani Calabresa já mostrou a que veio.

VAIA
Volpina (Paula Burlamaqui) e Arlindo (Marcos Caruso) em Joia rara (Globo): namorico só para encher linguiça. 

Tereza Cruvinel - Lorotas da planície‏

Tereza Cruvinel - Lorotas da planície
 
Esta semana, o governo recuou de três posições que antes adotou como dogmas. Um sinal de que a presidente começa a compreender melhor a natureza da relação com o Congresso

 

Estado de Minas: 20/03/2014


O que há de verdade nas informações difusas sobre a possibilidade de o ex-presidente Lula vir a ser vice de Dilma e Fernando Henrique vice de Aécio Neves? Se tal cenário se realizasse, a polarização PT-PSDB, que há 20 anos marca a política brasileira, teria chegado a seu estado mais cru, com os dois ex-presidentes duelando em favor de seus projetos políticos, relegando aos candidatos o papel de coadjuvantes, o que para eles, seria péssimo. E por que razão figuras que já ocuparam o mais alto posto da República, e hoje desfrutam de confortáveis cadeiras no barco da história, iriam agora se jogar ao mar, entrando numa luta renhida para ocupar um lugar menor, quase decorativo? E por que tanto Dilma quanto Aécio aceitariam tal situação que os diminuiria, como se precisassem de fiadores, muletas ou tutores? Não ficaria bem para ninguém.

No entorno de Lula, a ideia é considerada esdrúxula. Mas sabe-se como ela surgiu. Na semana passada, no auge da crise com o PMDB, alguns petistas deram uma resposta desaforada: se vocês quiserem mesmo romper, vamos lançar uma bomba atômica, a imbatível chapa Dilma-Lula. O desaforo começou a ser repetido e virou notícia. Os mais próximos de Lula recomendam que não se aposte um centavo nessa hipótese. O papel que ele vai cumprir, novamente, é o de grande cabo eleitoral e fiador da reeleição de Dilma. Fará todo o esforço para que ela ganhe no primeiro turno, ciente de que vencer no segundo dará mais trabalho. A recomposição com Eduardo Campos no segundo turno foi descartada pelos eventos recentes: ele marchou rapidamente demais para a oposição e o PT passou a tratá-lo como adversário. Se não chegar ao segundo turno, apoiará Aécio. Se chegar, terá o apoio tucano. Mas, diziam ontem auxiliares de Lula, ele não disse o nome de Eduardo, que foi seu ministro e que pensou em apoiar como candidato a presidente em 2018, quando falou dos perigos de uma candidatura que surja do nada, correndo por fora como Collor em 1989. Mas, neste momento, não há nenhum outsider na disputa.

No círculo mais próximo de Aécio, não se ouve nada diferente. Apenas o adjetivo para a ideia passa de esdrúxula para estapafúrdia. Lembra o dirigente tucano, reservadamente, que o recurso a FHC como vice seria algo desastroso para Aécio. Não pela imagem de Fernando Henrique, que teria de fato passado por importante reabilitação, mas pela de Aécio, que seria visto como um candidato tutelado. Ademais, Fernando Henrique estaria descendo do olimpo em que convive com importantes estadistas mundiais para uma refrega na planície que só o diminuiria. Mas, criada a lenda, Aécio teve que dizer que se sentiria honrado, e o próprio FHC também não pôde desqualificar a ideia que, além de tudo, expressa uma descortesia para com o DEM e o Solidariedade, aliados com os quais Aécio vem tratando de consolidar a aliança.

Recuar é fazer política

Esta semana, em três pontos que antes considerava inegociáveis com o Congresso, o governo deu meia-volta, volver. Aceitou recompor, por meio de algum projeto complementar, a lei sobre a criação de municípios, vetada pela presidente Dilma. Depois de ter proclamado a tática de isolar o líder rebelde Eduardo Cunha, do PMDB, ministros o chamaram para negociar o Marco Civil da Internet, quebrando o gelo para a reaproximação com a bancada. E, por fim, o governo cedeu num ponto do Marco Civil que também era tido como intocável: a armazenagem dos dados de comunicações de brasileiros em datacenters instalados no próprio país. Para a questão da neutralidade de rede, chegaram a uma fórmula ainda pouco clara de regulamentação, assegurando a votação na semana que vem. Cada um deve ter cedido um pouco: governo, PMDB e teles.

Esses movimentos indicam não exatamente uma capitulação, mas a maior compreensão da presidente sobre a natureza das relações com o Congresso, que não é um ministério, mas um outro Poder. Em tal relação, governos que adotam postura impositiva acabam sempre pagando um preço alto. Não importa se seus integrantes são santos ou demônios. Foram postos lá pelo povo, e nessa condição são negociadores legítimos, goste-se ou não. Menos mal para Dilma, que na semana passada teve uma mostra dos efeitos nefastos da queda de braço.

Memória do golpe: a vingança

Seguindo com nossa minissérie de notas sobre os 50 anos do golpe civil-militar de 1964, o ato formal da ruptura institucional representou uma das mais calculadas, ferinas, sofisticadas, porém malignas vinganças da história política brasileira. Os golpistas já haviam dominado a situação militar quando o presidente João Goulart, na noite de 1º de abril, voou para Porto Alegre onde Brizola e o general Ladário Telles, comandante do II Exército, o chamavam para resistir. Ele ainda voava quando o senador Auro de Moura Andrade, presidente do Congresso, embora informado do deslocamento por Darcy Ribeiro, chefe do Gabinete Civil, declarou vaga a Presidência da República e empossou o presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli.

Auro se vingava com requinte. Em 1961, ainda sob o parlamentarismo, Jango o convidara para ser primeiro ministro, mas exigira uma carta de renúncia não datada. Se eles tivessem divergências graves, o presidente poderia demiti-lo divulgando a carta de renúncia. Logo depois de nomeado, Auro divergiu de Jango sobre a formação do ministério. Foi surpreendido pela notícia de que pediu demissão. Jango o demitiu divulgando a carta. No golpe, ele o demitiu, e com isso abriu as portas para a ditadura.