sábado, 22 de março de 2014

A origem do método - José Castello

O Globo - 22/03/2014

“FELIZ ANO NOVO” NOS MOSTRA UMA ESPÉCIE DE MARCO ZERO DE UMA VIOLÊNCIA QUE, APESAR DOS LONGOS ANOS DE DEMOCRACIA, AINDA SE ENCENA NO PAÍS

Fixo-me em “Feliz ano novo”, o
conto que empresta título ao já
lendário livro que Rubem Fonseca,
cuja obra vem sendo relançada
pela editora Agir, publicou em
1975. Não só, provavelmente, é o
mais cruel relato da coletânea, mas uma das
narrativas mais violentas produzidas pela literatura
brasileira dos anos 1970. O conto guarda
uma estranha síntese dos métodos da ditadura,
que se espalharam pela entranhas da sociedade
brasileira na ordem de uma peste — o livro
de Fonseca seria censurado no ano seguinte ao
seu lançamento. Antes de tudo, a violência, arbitrária,
indiferente ao sentido, cruel que, na
narrativa de Fonseca, deixa os cárceres do poder
para penetrar na penumbra do dia a dia e se
transformar em um método de ação. Contra a
violência, mais violência. Contra a miséria,
mais miséria. O método nefasto da duplicação
e da retaliação.

É bom recordar a terrível história que Rubem
Fonseca inventou como um espelho invertido
da ordem ditatorial vigente. Espelho
que, de resto, já estava infiltrado em toda a realidade
brasileira, espalhado por ela, duplicado
em suas dobras mais íntimas. Numa noite de
ano novo, sem ter coisa melhor para fazer, desesperados,
cheios de fome, um bando de criminosos
resolve assaltar uma mansão de São
Conrado, no Rio de Janeiro, onde 25 pessoas
comemoram a noite de réveillon. Não querem
só roubar: querem chocar e tripudiar, isto é,
impor uma nova forma de poder sem limites.
Antes de planejar o assalto, seu projeto era almoçar,
no dia seguinte, os restos dos despachos
de macumba armados nas encruzilhadas
cariocas. Mas era muito pouco, e eles decidem
querer mais.

O mais miserável dos miseráveis é Pereba,
“vesgo, preto e pobre”, e que vive atordoado
não só pela fome de comida, mas de sexo. “Ele
falava devagar, gozador, cansado, doente”. O
personagem indica a presença ostensiva de
dois elementos centrais na violência total: a
doença e o humor negro. A presença de Pereba
empresta à trama de Fonseca uma estranha
forma de delicadeza: a delicadeza do desespero.
Invadem a mansão de São Conrado, mas como
não têm só fome de dinheiro, mas sobretudo
de poder sem limites, se põem a praticar as
mais sórdidas barbaridades. Dias antes, Zequinha
e Pereba perambulavam pela boca do lixo
de São Paulo, bebendo e namorando, gastando
os “lucros” de um assalto a um supermercado
do Leblon, no Rio. Eram dois homens normais —
dentro dos imensos limites que abarcam aquilo
que, por falta de coragem para encarar a diversidade
do mundo, chamamos de normalidade.
Agora se transformam em dois monstros — os
mesmos monstros que carregavam dentro de si
nos dias em que foram apenas homens distraídos
e felizes. Rasgão fundo, dupla ferida no coração
do humano.

Uma sombra da ditadura — com seus cárceres,
seus rituais de tortura, sua brutalidade, sua total
cegueira — se derrama agora
sobre o estilo requintado de
crueldade praticado pelos assaltantes,
que se estendem
muito além de seus objetivos
pragmáticos. Não basta cometer
o crime: é preciso que ele
seja escandaloso e que imponha
uma noção de poder associada
ao desempenho e à vaidade.
Um poder total, que se
sobreponha a qualquer traço
de cultura, ou limite civilizatório.
O que os move? Em parte,
as vítimas anteriores da violência
policial — de Estado — que
aniquilou alguns de seus comparsas, como o
Bom Crioulo, morto com dezesseis tiros (um só
não seria suficiente para promover a morte?). Como
o Tripé, dublê de boneco de pano em quem
os policiais atearam fogo. O Vevé, simplesmente
morto estrangulado. Ou o Minhoca, lançado dentro
do rio Guandu como um entulho. Há um “estilo”
de poder total que se espalha pelos dois lados
da cena: policiais e criminosos o cumprem à risca,
e com grande requinte. A ideia central é: poder
tudo. O desejo: exibir este poder que não tem freios.
Um poder sem fronteiras.
Por isso agora — trocando o plano de roubar
um banco pelo assalto à mansão na noite do réveillon
— eles matam a esmo, quase “por esporte”,
comparando estilos e métodos, equiparando
competências, medindo forças e estratégias.
Por isso agora já não basta a violência,
mas é preciso que ela venha decorada pelos
horrores da escatologia e do deboche amargo.


Por isso eles matam brutalmente Maurício, o
convidado bem educado, que se oferece como
intermediário: para demonstrar
que não existe mediação,
que a realidade está partida
ao meio para sempre e a única
forma de contato entre seus
dois lados é o choque brutal.
Há uma “arte de matar” que
Zequinha e seu bando aprimoram
com afinco, “arte”
que, em vez de conferir sentido
à morte, a envolve ainda
mais em arbitrariedade e mais
horror. “Vê como esse vai grudar.
Zequinha atirou. O cara
voou, os pés saíram do chão,
foi bonito, como se tivesse dado
um salto para trás. Bateu com estrondo na
porta e ficou grudado”. A morte como esporte,
terreno de medição e competição da pura força,
tudo realizado na mais absoluta impessoalidade
— como se não existissem sujeitos dentro
daqueles corpos. Como se fossem fantoches do
poder totalitário, que os manipula para cá e para
lá, unicamente para se divertir e se afirmar
como total.

Para culminar, o estupro — a violência invadindo
o terreno da mais íntima sensibilidade. A
moça luta, tenta resistir, mas Zequinha dá uns
murros nela e ela sossega, não tem escolha.
Atravessa a cena de olhos abertos, olhando para
teto, como que crucificada na própria dor.
No fim, ainda o deboche: “Muito obrigado pela
cooperação de todos”. Ninguém responde, pois
o que fica depois de violência só pode mesmo
ser o silêncio. O vazio. Tudo se foi naquele teatro
em que os assaltantes, além de assaltar, ou
ainda mais que assaltar, encenam seu poder
sem limites, impõem seu estilo, manipulam
outros corpos, transformando-os em símbolos
da ausência do humano.


Não é de espantar, ainda, que “Feliz ano novo”
nos fique como uma espécie de marco zero
de uma violência — de irracionalidade, de
mascarados, de anonimato, da brutalidade total
— que ainda hoje, apesar dos anos já longos
de democracia, ainda se encenam em algumas
ruas do país. Uma espécie nacional de ovo da
serpente. Tudo está ali sintetizado: a aprendizagem
do terror, o poder invadindo com suas
garras as intimidades, os métodos de domínio,
de sujeição e de gozo. Deles se valeu, a seu
tempo, a ditadura — para dominar, para oprimir,
para aterrorizar, para submeter. Deles se
valem ainda hoje, aqueles que encaram o poder
como uma espécie de capa malévola cuja
função é encobrir toda a realidade para transformá-
la em uma eterna noite. Mudam os tempos,
as realidades políticas, as conjunturas, os
personagens, as classes sociais — tudo se altera,
menos a violência que permanece como
uma bala intacta a oprimir nossa alma.


Hoje, quando leio na imprensa o caso de uma
pobre mulher arrastada por um carro de polícia,
constato que, infelizmente, “Feliz ano novo”
não terminou. Não: na realidade dos fatos, o
conto de Rubem Fonseca continua a ser narrado.
Talvez ele seja uma marca tardia do mal original
incrustado no humano. O mal como algo
de que, infelizmente, por mais que lutemos, não
podemos nos livrar. Mal de que as ditaduras se
aproveitam e no qual investem para fixar e expandir
seu poder total. Mal do que os desesperados
se valem para ultrapassar a si mesmos e
impor aos outros o mesmo inferno em que vivem.
Vingança, gozo com a morte, celebração
da dor. Podemos chamar como quisermos esse
quisto que se infiltra no destino humano. Fonseca
foi, com seu conto, um dos mestres em sua
detecção e sua denúncia. Ajudou-nos a ver
aquilo que só com muito sofrimento conseguimos
ver. E que, no entanto, é preciso ver, ou não
sobrevivemos.

João Paulo - Uma vida não fascista‏

Uma vida não fascista 
 
Assim como Foucault foi buscar sua turma no mundo antigo, precisamos encontrar amigos dispostos a virar a mesa 
 
João Paulo
Estado de Minas: 22/03/2014


Michel Foucault detestava o poder. Ele estava certo: o poder é detestável (Michele Brancilhon/Divulgação)
Michel Foucault detestava o poder. Ele estava certo: o poder é detestável

Houve um tempo em que parecia mais fácil tomar decisões: o certo e o errado eram atravessados por juízos de natureza moral e política bastante universais e unívocos. Todos são contra a violência, o preconceito, a discriminação e a injustiça. E a favor da liberdade, da tolerância e do progresso. Ser adversário do nazismo, durante a guerra, era uma posição nobre, mas altamente compartilhável. Hoje, com o cenário mais complexo e o fim das identidades mecânicas, deixou de existir um inimigo comum. A forma como escolhemos viver, é responsabilidade que nasce com cada um.

O que parece uma observação simples, na verdade carrega um grande potencial transformador. Poucas vezes na história o homem teve tanta liberdade para erigir seu próprio destino. E é por isso que a observação do pensador francês Michel Foucault (1926-1984), instigando as pessoas a viver a vida de forma artística, é tão pertinente. Não precisamos ser gado, submetido às demandas da coletividade, nem muito menos individualistas desconectados dos projetos sociais mais abrangentes. Existe saída entre esses dois equívocos.

Foi na introdução que escreveu para o livro O anti-Édipo, de Gilles Deleuze e Felix Guattari, que Foucault defendeu o que chamou de “uma vida não fascista”. Para o pensador, que foi o maior crítico do poder do nosso tempo, o fascismo se insinua no tecido da vida cotidiana, enfraquecendo a existência, tirando a seiva da criatividade, impondo o reino da repetição, da obediência e da norma. Não existe receita para fugir do fascismo dos dias comuns a não ser a coragem de inventar modos de vida, de esculpir a trajetória com projetos individuais e coletivos que engrandeçam nossa presença no mundo.

Há um caminho de mão dupla nessa história toda. Como sujeito, precisamos ser capazes de honrar a vida com exercícios de dignidade coletiva. A política é uma das formas mais elaboradas de construção do destino pessoal. Por outro lado, como participantes de um terreno de compartilhamento social, não podemos aceitar as regras sem que elas passem pelo crivo de nossa afetividade. A própria democracia precisa ser enriquecida com críticas e confrontada com seus limites.

Por isso, para Foucault, a crítica ao poder é um estágio necessário à invenção de novos modos de existência. O pensador demonstrou como somos contidos em nossos impulsos pela disciplina, pela submissão e pela docilidade. Mostrou como as regras existem para afirmar o poder, como o corpo se torna sede de projetos de dominação e de que forma o próprio saber tem elementos autoritários. Seu pensamento tratou de mostrar esses vínculos e propor formas de descontruí-los. Fez isso com a psicologia, a medicina e o direito. Deixou para o fim o maior dos desafios: tirar as nódoas do poder da vida do indivíduo.

Em sua obra, curiosamente, ao chegar ao tema do cuidado de si e dos projetos de existência artística, o pensador volta no tempo, buscando inspiração na Roma e na Grécia Antiga. Seus últimos livros, os três volumes da História da sexualidade, defendem a força expressiva do sexo, muito além do discurso tradicional da repressão. Foucault vai se alinhar a diversos projetos libertários no campo do comportamento e da política. Para isso, precisou destronar os comissários do poder, dos militantes sombrios aos técnicos do desejo (entre eles os orgulhosos psicanalistas e semiólogos). O filósofo foi procurar sua turma. E incitou quem desejava uma vida livre e autônoma a fazê-lo por suas próprias pernas e ideias. O não fascista é um sujeito que se arrisca.

QUE FAZER Qual seria, hoje, um programa de sobrevivência não fascista na selva do mundo do consumo? Em primeiro lugar, a recusa destemida da invasão operada pelos meios de comunicação digital, as ditas redes sociais. Eles não são radiais – já que têm um centro de onde partem ordenamentos poderosos – e muito menos sociais, já que existem exatamente para elidir o contato humano. Mas o conteúdo propriamente fascista desses instrumentos está em sua tendência à invasão da privacidade e transformação da intimidade em mercadoria.

O Facebook, por exemplo, nada mais é que uma plataforma de exibicionismo de vidas fracas, que permite ao seu proprietário negociar com informações que geram expectativa de consumo. Ao se submeter voluntariamente ao poder, na forma de mercadoria para listagens de consumidores virtuais, o “Face” deixa de ser uma ferramenta de contato para ser um banco de dados acessável apenas em uma das pontas. Sempre que o poder viaja em mão única e é capaz de submeter o outro sem possibilidade de defesa, se instaura uma relação de tipo fascista.

Outro elemento fascista do cotidiano é a uniformização da estética corporal. A atual exigência de corpo magro e flexível, que ideologicamente regride à época da eugenia higienista, instaura uma pedagogia totalitária sobre o corpo. O chamado bem-estar, além de se tornar uma mercadoria rentável, tem se transformado em matéria de políticas públicas, com tudo que carregam de judicativas e redentoras. Além de discriminar os diferentes corpos, jogam sobre os que fogem ao padrão comercial a pecha de preguiçosos e fracassados. A vigilância sobre os corpos, assim, deixa de ser estética e santiária para se revelar política.

Não é casual que essas políticas ganhem sempre o nome militar de “campanhas”. Elas se estruturam em bloco, como numa guerra, reunindo setores da educação e da cultura, incorporando a defesa do estilo de vida a comportamentos típicos da sociedade competitiva: combate aos vícios de toda a natureza (inclusive o ócio, tomado como defeito moral), estímulo a derrotar o próximo, capacidade renovável de produção. O corpo magro, ativo e consumista (das proteínas sintetizadas que transformam alimento em remédios aos exames de chek-up que assumem caráter de classe, quanto mais rico maior o protocolo), cria padrões inviáveis e operativos para o mercado. A revolução que se aproxima não perdoa nem mesmo o DNA, propondo até mesmo a extirpação de órgãos sadios em nome de uma eventualidade estatística.

A vida não fascista abrange vários outros campos do cotidiano. Está presente nas estratégias de desobediência civil; na recusa de rebaixar o cidadão a consumidor; na crítica de certos tratamentos psicoterápicos que reforçam a arrogância; na defesa da política como forma civil de amizade; na recusa obstinada de servir; no enfrentamento de todas as estratégias elementares de poder. Até mesmo na recusa em torcer para times de futebol que trocaram a arte pelo comércio; em assistir filmes testados por público adolescente; ou no comportamento altivo de quem se recusa a comprar mercadorias produzidas por empresas desleais, exploradoras dos trabalhadores, poluidoras ou que foram privatizadas contra o interesse público.

Assim como Foucault foi buscar sua turma no mundo antigo, precisamos encontrar amigos dispostos a virar a mesa.

A provocação de Foucault acerca da boa vida já foi tema de um seminário realizado em 2008 na Unicamp. Gerou um livro interessante e provocador, Para uma vida não-fascista, organizado por Margareth Rago e Alfredo Veiga-Neto, lançado pela Editora Autêntica, com quase 500 páginas de boas ideias libertárias. Vale a pena. 

Segredos do porão - João Paulo‏

Segredos do porão 
 
Livro de contos de Otto Lara Resende, Boca do inferno é um mergulho no lado sombrio da infância. Romances sobre jovens desajustados permitem olhar atento sobre o mundo 
 
João Paulo
Estado de Minas: 22/03/2014


Otto Lara Resende publicou poucos livros, mas deixou obra madura, que desafia os leitores  (Alécio de Andrade/IMS/Reprodução-1972)
Otto Lara Resende publicou poucos livros, mas deixou obra madura, que desafia os leitores
 A paisagem é idílica, o interior mineiro, possivelmente São João del-Rei, com sua proximidade com a natureza, sensação de tempo estagnado e gentilezas do passado. Um cenário pré-urbano que resume o mundo a uma rua de calçamento e quintais. O ambiente moral é marcadamente religioso e os personagens dos sete contos são todos crianças. Essa súmula exterior de Boca do inferno, de Otto Lara Resende (1922-1992), não poderia ser mais enganadora.

O livro, lançado em 1957, teve reação negativa da crítica e dos intelectuais da época (se tornou quase um caso, mais que um livro). Com poucas vozes em sua defesa e até mesmo o episódio – meio mítico – da troca de longas cartas entre o escritor e seu pai, que julgou a coletânea de histórias indignas de um educador, Otto ficou agastado, esbravejou com os amigos e decidiu nunca mais editar o livro em vida.

Em 1998, seis anos depois da morte do contista, o volume ganhou nova edição. A repercussão foi outra: tratava-se de obra-prima dada à luz antes do tempo, o que explicava a rejeição emocional. Agora, novamente de volta às livrarias, em edição da Companhia das Letras com direito a um importante ensaio de Augusto Massi, Boca do inferno pode ser lido privado da incompreensão ideológica e literária da época de seu lançamento, e de certo caráter redentor de sua primeira reedição póstuma.

O que causou tanto espanto no livro, de modo a convocar tanta ira dos críticos e comportamento evasivo por parte do autor? Otto Lara Resende ataca, de uma vez só, várias certezas estéticas e, sobretudo, humanas. Seus personagens, embora muito jovens, são capazes de extremos de maldade, chegando a crimes e perversões. Não se trata de momentos da narrativa, mas do tema em si de todos os contos.

As sete histórias têm em seu centro um momento marcante de passagem entre o destino biológico e as demandas da cultura. As crianças amadurecem sempre em meio a eventos traumáticos, com desfechos inapelavelmente trágicos e violentos, seja em relação ao outro ou a si mesmo. A tensão vai sendo construída com cuidado, sem julgamentos, com frieza quase clínica levada a cabo pela mera observação exterior.

Para o romancista Cristóvão Tezza, que fez uma das boas leituras de Boca do inferno, “cada um dos contos flagra uma criança num momento-limite de transformação, uma espécie de rito de passagem do puro ‘ser biológico’, fisicamente integrado ao mundo (...) para o ‘ser ético’, aquele que numa situação extrema escolhe o que fazer, empurrado por uma rede agressiva de circunstâncias”.

Otto Lara Resende não era autor estreante, já havia publicado outra reunião de contos em 1952, O lado humano. Do primeiro livro, o que ficou foi a linguagem clássica, o senso de observação, a sensibilidade para o ambiente moral. Mas Boca do inferno traz transformações importantes além da escolha dos personagens, que é sua face mais visível. Em primeiro lugar na ambientação, quase rural (o primeiro livro era urbano), como forma de esvaziar as contingências do tempo, num cenário onde nada acontece.

E, ainda, pelo estilo mais sofisticado, capaz de flagrar o inferno da infância sem julgamentos e sem contar com a reflexão dos próprios personagens, ocupados em viver, não em narrar. Tudo é conciso demais, cada palavra pesa no conjunto da narrativa e pode ser a única oportunidade de compreender os rumos imprevistos da ação. Nesse sentido, quase não há psicologia, o que seria uma invasão em território até então definido pelo espanto da descoberta dos limites do bem e do mal.

Não é possível resumir as histórias, já que elas se constroem com uma integridade que qualquer artifício destruiria. São pequenas joias de areia, onde o brilho e a opacidade se dão nas sutilezas da linguagem. O conto que abre o livro, “O filho do padre”, como indica o título, traz uma história que remete à formação brasileira, com sua implícita vocação para a ilegitimidade, mas o fim aponta outras características nem sempre consideradas nessa tradição, sobretudo nas certezas pedagógicas fundadas na violência.

“Namorado morto” descreve a paixão de uma jovem de 11 anos por um colega, em meio a um erotismo feito de símbolos e da presença da morte. “Três pares de patins”, também em cenário que evoca cemitérios e igrejas, descreve com sutileza sutis relações de poder que conduzem à perversão sexual. Há nas outras histórias muitos segredos e mentiras, que se consumam em violências, castração, crime, incesto e suicídio.

No conto mais bem realizado, “O porão”, Otto Lara Resende, com cuidado e sem pressa, refaz o teatro da relação do homem com seus limites, numa narrativa de encontro entre dois jovens no momento da revelação de um segredo ou de uma demasia da vida. O que nos outros contos é sociologia do Brasil arcaico ou psicologia da adolescência, em “O porão” se revela como metafísica da perversidade.

A se destacar na nova edição o excelente posfácio de Augusto Massi, “Narrador de tocaia”. São quase 70 páginas de informações (um estudo completo da recepção do livro), literatura comparada e fina análise de cada conto, com uso de recursos da estilística, da filosofia e da psicanálise, sem o menor peso acadêmico ou pretensão. Uma aula de crítica literária, dessas – muito raras – que se somam à obra e passam a fazer parte dela.

DELINQUENTES O jovem delinquente e perverso é bom personagem não é de hoje. Eles rendem histórias alegóricas sobre o mal, como O senhor das moscas, de William Golding; de perversão, como Lolita, de Nabokov; de distopia social, como Laranja mecânica, de Anthony Burgess; de descoberta do mal, como O condenado, de Graham Greene; ou de pura descrição objetiva da amoralidade, como Sangue na neve, de Georges Simenon.

Mas o filão não cessa e vai ganhando novas características a cada tempo. É o caso de dois romances lançados recentemente no Brasil. O primeiro é As leis da fronteira, do espanhol Javier Cercas. Ambientado em Girona, o livro narra a história de um delinquente célebre nos anos 1970, Zarco, que tem sua vida pesquisada por um escritor, que pretende escrever um livro sobre ele.

Para isso, o autor vai atrás dos amigos de Zarco, entre eles o advogado Ignácio Cañas, companheiro de fliperama a badernas. Mesmo companheiros, há uma distinção de origem social, que não só separa os amigos como determina de certa forma seus destinos. Preso, Zarco se torna uma espécie de celebridade, paparicado por jornalistas, além de permanecer como símbolo de uma era, não sem certa aura de romantismo

Ao retroceder no tempo, o livro, que vai sendo montado à frente do leitor, investiga tanto os aspectos humanos do personagem como a passagem do tempo, a mudança da sociedade espanhola no período (do pós-guerra ao pós-modernismo) e a força corrosiva dos meios de comunicação, em sua sanha de erigir heróis e inimigos públicos. A busca da verdade acaba por criar um clima de ambiguidade, não apenas sobre o passado que se quer reconstruir, mas sobre as próprias bases que parecemos escolher para sustentar nosso presente.

Outro romance que se aproxima de personagens jovens e arruaceiros é Lionel Asbo, do inglês Martin Amis. O sobrenome do herói da trama diz tudo: Asbo é uma sigla em inglês para “condição de comportamento antissocial”. Lionel mora no distrito fictício de Diston Town, tem 21 anos, vive de pequenos crimes e adora distribuir porrada em quem atravessa seu caminho, que costuma trilhar sempre na companhia de dois pitbulls, Joe e Jeff, suas “ferramentas de trabalho”. Lionel é apenas um dos Pepperdine. São todos da pesada.

A continuidade do clã está na mão de Desmond, sobrinho de Lionel, que tem sua iniciação sexual com a avó (que é muito jovem) e, aos 15 anos, está maduro o suficiente para entender toda a família. E se preocupar com ela, sobretudo com tio criminoso. Tudo muda com a entrada em cena de um prêmio de loteria, com a capacidade agregadora (é claro que não pelos bons motivos) e dissipadora do dinheiro numa sociedade de consumo e aparência.

Em tom de sátira, Amis revela uma Inglaterra que trocou a tradição pelos tabloides e hordas de hooligans (numa simbiose perfeita entre os dois, diga-se de passagem). Há algo de dickensiano em Lionel Asbo, seja na narrativa em forma de crônica da dissipação de valores, seja na escolha dos personagens marginalizados, tratados com uma simpatia cabotina. Quem defende que o dinheiro traz felicidade não vai ser acossado por argumentos moralistas. Na verdade, vai confirmar suas suspeitas.

Não é um acaso que personagens assim estejam em alta. Eles são parte de nossa história humana. A forma como são representados hoje, em meio a um misto de horror e atração, sobretudo quando entram em cena valores como celebridade e grana, é que diz melhor de nosso tempo. Não são os delinquentes que nos definem. Está bem perto de ser exatamente o contrário.


BOCA DO INFERNO
. De Otto Lara Resende
. Editora Companhia das Letras, 190 páginas, R$ 32


AS LEIS DA FRONTEIRA
. De Javier Cercas
. Biblioteca Azul, 430 páginas, R$ 49,90

LIONEL ASBO
. De Martin Amis
. Editora Companhia das Letras, 354 páginas, R$ 49

Orelha

Orelha
Estado de Minas: 22/03/2014

Criador da psicanálise influenciou a filosofia contemporânea (AFP/Files)
Criador da psicanálise influenciou a filosofia contemporânea

Negação de Freud

A negação, um dos artigos mais importantes de Freud, escrito em 1925, e que incorpora a descoberta da pulsão de morte, ganha edição comentada pela Cosac Naify em pequeno volume em capa dura e importante aparato crítico. O texto freudiano, de pouco mais de 10 páginas, tem interesse tanto para a psicanálise quanto para a filosofia. A tradução original do alemão é da psicanalista Marilene Carone (1942-1987), responsável também pela introdução e notas. O volume traz ainda ensaio do filósofo Vladmir Safatle (que destaca a leitura feita por Lacan) e dois textos de Newton da Costa e Andrés R. Raggio, sobre as relações entre a psicanálise e a lógica paraconsciente (que, como a dialética, admite a contradição em termos).


Nazareth imortal

Considerado um dos grandes nomes da música brasileira, autor de choros, maxixes e valsas, Ernesto Nazareth (1863-1934) tem seus manuscritos considerados patrimônio cultural da humanidade. Eles agora integram a categoria Memória do mundo, da Unesco. Disponíveis no site da Biblioteca Nacional Digital, os manuscritos passam a fazer parte de conjunto de 300 artefatos já tombados pelo órgão, entre eles a Bíblia de Gutenberg e a Nona sinfonia de Beethoven.

 (Mauro Homem/EM)

Nava e Egon

O quinto volume das memórias de Pedro Nava (foto), Galo das trevas, acaba de ser relançado pela Companhia das Letras. Dividido em duas partes, “Negro” e “Branco e marrom”, a obra viaja pelo tempo e espaço, tratando tanto do passado e da formação do médico como do momento em que Nava escrevia o texto, nos anos 1980. O livro abre ainda a voz para a terceira pessoa, por meio do personagem José Egon de Barros Cunha, alter-ego de Nava, e acompanha o retorno do autor a Belo Horizonte com seu testemunho de como a Revolução de 30 marcou a vida da capital mineira.


Futebol polêmico

Na linha que vem fazendo sucesso com os leitores brasileiros, a Editora Leya lança no mês que vem o Guia politicamente incorreto do futebol, dos jornalistas Jones Rossi e Leonardo Mendes Júnior. Os autores, como em outros livros da série (sobre a história do Brasil e da América Latina), defendem opiniões divergentes e jogam por chão mitos do esporte. Vem polêmica por aí.


Huxley completo

A Editora Globo, por meio do selo Biblioteca Azul, dá continuidade ao projeto de reedição das obras de Aldous Huxley (1894-1963), com três novos volumes. O mais importante deles é o romance Contraponto, obra-prima do autor inglês, em tradução de Erico Veríssimo e Lino Vallandro. Os outros livros são a distopia Admirável mundo novo e Contos escolhidos. Já foram lançados pela mesma série Os demônios de Loudun, A situação humana e Também o cisne morre.


Biografia precoce

Dia 4 de abril chega às livrarias a biografia da jornalista Ana Paula Padrão, O amor chegou tarde em minha vida, pelo selo Paralela. No livro, além de uma reflexão sobre sua carreira e os momentos marcantes de sua trajetória, Ana Paula Padrão faz contundente análise sobre a condição atual e o futuro da mulher brasileira a partir de pesquisas e de seu trabalho no portal Tempo de Mulher.

 (Jackson Romanelli/Divulgação)


Adélia em Poços

Mais uma confirmação na programação da Flipoços, que vai de 26 de abril a 4 de maio. A poeta Adélia Prado (foto) participa do evento no dia 3 de maio, com a conferência intitulada ‘‘Afeto’’, às 20h, no Teatro da Urca, em Poços de Caldas. A poesia marca presença também na abertura, com Ferreira Gullar, patrono da 9ª edição do festival literário. A programação completa pode ser conferida no site www.fliplocos.com.


Lançamento

Será lançado hoje, das 9h ao meio-dia, o livro A história da literatura em Ponte Nova, na Galeria de Arte Paulo Campos Guimarães da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa (Praça da Liberdade, 21 Funcionários). A pesquisa é de Luciano Sheikk, que organiza o volume com Miracy Real e Marisa Godoy.