quarta-feira, 26 de março de 2014

Frei Betto - O golpe‏

O golpe
Uma simples suspeita ecoava como denúncia e servia de motivo para um cidadão ser preso, torturado ou mesmo assassinado

Frei Betto

Estado de Minas: 26/03/2014

São vivas minhas lembranças da quartelada de 1964. Desde 1962 eu trocara Belo Horizonte pelo Rio. Jânio Quadros, em agosto de 1961, havia renunciado à presidência da República. Jango, seu vice, tomou posse. O Brasil clamava por reformas de base: agrária, política, tributária etc. No Rio Grande do Sul, o deputado federal e ex-governador daquele estado, Leonel Brizola, cunhado de Jango, advertia sobre o perigo de um golpe de Estado.

Em Pernambuco, Miguel Arraes contrariava usineiros e latifundiários e imprimia a seu governo um caráter popular. Em Angicos (RN), Paulo Freire gestava sua pedagogia do oprimido. O Movimento de Educação de Base (MEB) dava os primeiros passos apoiado pela ala progressista da Igreja Católica. A União Nacional dos Estudantes (UNE) multiplicava, por todo o pais, os Centros Populares de Cultura (CPC).

Novo era o adjetivo que consubstanciava o Brasil: cinema novo; bossa nova; nova poesia; nova capital. A luta heroica dos vietnamitas, o êxito da Revolução Cubana (1959) e o fracasso dos EUA ao tentar invadir Cuba pela Baía dos Porcos (1961) inquietavam a Casa Branca. “A América para os americanos”, rezava a Doutrina Monroe. A maioria dos ianques não entende que está incluído no termo “América” todo o nosso Continente, mas só eles são considerados “americanos”.

Era preciso dar um basta à influência comunista, inclusive no Brasil. E tudo que não coincidia com os interesses dos EUA era tachado de “comunista”, até mesmo bispos como dom Hélder Câmara, que clamava por um mundo sem fome. Foi apelidado de “o bispo vermelho”.

Trouxeram dos EUA o padre Peyton, pároco de Hollywood. De rosário em mãos e bancado pela CIA, ele arrastava multidões nas Marchas da Família com Deus pela Liberdade. Manipulava-se o sentimento religioso do povo brasileiro como caldo de cultura favorável à quartelada.

Em 13 de março de 1964, Jango promoveu um megacomício na Central do Brasil, no Rio, defronte o prédio do Ministério do Exército. Ali, ovacionado pela multidão, assinou os decretos de apropriação, pela Petrobras, de refinarias privadas, e desapropriação, para fins de reforma agrária, de terras subutilizadas. As elites brasileiras entraram em pânico.

Em 31 de março, terça-feira, as tropas do general Olímpio Mourão Filho, oriundas de Minas, ocuparam os pontos estratégicos do Rio. Jango, após passar por Brasília e Porto Alegre, deposto da presidência, refugiou-se no Uruguai. Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados, assumiu o comando do país e, pressionado pelos militares, convocou eleições indiretas. A 11 de abril, o Congresso Nacional elegeu o marechal Castelo Branco presidente da República. Estava consolidado o golpe.

A máquina repressiva começou a funcionar a todo vapor: Inquéritos Policiais Militares (IPM) foram instalados em todo o país; a cassação de direitos políticos atingiu sindicalistas, deputados, senadores e governadores; uma simples suspeita ecoava como denúncia e servia de motivo para um cidadão ser preso, torturado ou mesmo assassinado.

Os estudantes e alguns segmentos da esquerda histórica resistiram nas ruas do Brasil. Foram recebidos a bala. A reação da ditadura acuou seus opositores na única alternativa viável naquela conjuntura: a luta armada. Em dezembro de 1968, o governo militar assina o Ato Institucional nº 5, suprimindo o pouco de espaço democrático que ainda restava e legitimando a prisão, a tortura, o banimento, o sequestro e o assassinato de quem lhe fizesse oposição ou fosse simplesmente suspeito.

Muitos são os sinais de que se vivia sob uma ditadura. Esse foi insólito: há no centro do Rio uma região conhecida como Castelo. E, na Zona Norte, um bairro chamado Muda (porque, outrora, ali se trocavam as parelhas de cavalos que puxavam os bondes que ligavam a Tijuca ao Alto da Boa Vista). Em 1964, no letreiro de uma linha de ônibus carioca, a indicação: Muda-Castelo. Os milicos não gostaram: o marechal viera para ficar. Pressionada, a empresa inverteu o letreiro: Castelo-Muda. Ficou pior. Cancelaram a linha.

O corpo grita - Augusto Pio

O corpo grita 
 
Mal funcionamento de um órgão, uma agressão ou a somatização de fatos, tristezas e estresse podem desencadear dores diversas. Estudo indica a percepção dos brasileiros sobre o tema 
 
Augusto Pio
Estado de Minas: 26/03/2014


A dor pode ser entendida como um sintoma de que algo não está bem em nosso corpo ou e que está havendo alguma agressão potencialmente prejudicial. "É muito importante como fator de proteção, por exemplo, quando pisamos em uma pedra e retiramos o pé para não aumentar o ferimento. Também nos alerta no caso de uma doença, como quando temos uma dor torácica durante o infarto do miocárdio. Podemos classificar as dores por tempo de dor: agudas e crônicas; por intensidade: leve, moderada ou forte; e por fisiopatologia: somática e visceral (dores nociceptivas), neuropática, mista", explica a coordenadora da oncologia clínica do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, Maria del Pilar.

Segundo a International Association for the Study of Pain (Associação Internacional para Estudos da Dor, na tradução da sigla em inglês), a dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável associada com danos reais ou potenciais em tecidos, ou percepcionada como dano. É importante ressaltar que a dor tem um grande impacto social, pois é debilitante e leva a diversos prejuízos sociais e econômicos. Uma pesquisa encomendada pela farmacêutica Mundipharma e aplicada pela empresa Cristina Panella Planejamento Pesquisa, de São Paulo, traçou um extenso mapa da dor nos brasileiros e revelou que as principais dores são as de cabeça, as abdominais e as dores musculares.

O levantamento mostrou também que a população que vive na Região Sudeste é a mais consciente sobre o tratamento da dor. Os 66% da população residente nessa região afirmaram ter uma lembrança recente do problema ou estar sentindo dor, e 74% garantiram que procuram um médico ao sentir o primeiro sintoma. Porém, esses dados contrastam com os de outras regiões, com a Sul e a Centro-Oeste, onde a porcentagem não passa dos 7% (de pessoas que procuraram médico ao sentir dor).

De acordo com Maria del Pilar, os dados da pesquisa demonstram como as pessoas da Região Sudeste estão mais conscientes da importância de buscar um médico logo no início de uma dor. "A dor aguda e não tratada pode levar a outras complicações clínicas, dificultar um diagnóstico de algo mais sério ou mesmo se tornar uma situação crônica, podendo afetar drasticamente a qualidade de vida do indivíduo", alerta. A médica salienta que o nível de detalhamento do estudo demonstra os problemas de percepção da população em algumas regiões.

A chefe de Serviço de Clínica Médica da Santa Casa de Belo Horizonte e professora de medicina da Unifenas, Télcia Vasconcelos Barros Magalhães, doutora em clínica médica, esclarece que a dor é um sinal de alerta que ajuda a proteger o corpo de danos maiores e é essencial à sobrevivência. "A sensação de dor origina-se na ativação de pequenos terminais nervosos localizados em vários tecidos corporais por estímulos térmicos, mecânicos ou químicos intensos. Se está ocorrendo algo, precisamos cuidar de nosso corpo", diz Télcia. Ela salienta que a dor é uma sensação subjetiva que só a própria pessoa pode definir e sentir. "Pode ser um problema de saúde e também está muito relacionada a experiências vividas pelo indivíduo, suas emoções, crenças, atitudes e valores. Por isso, o profissional médico é o mais credenciado para avaliar o paciente que vem se queixando de dor e fazer um diagnóstico do problema.”

Apesar de ser considerada bastante subjetiva, a dor pode ser medida seguindo várias escalas, conforme explica a oncologista Maria del Pilar, sendo uma delas a escala numérica, em que é dada uma nota de 0 a 10, na qual zero é sem dor e 10 a pior dor que o paciente pode sentir. "Sempre deve ser perguntado ao paciente que nota ele daria, pois, como o caráter da dor é subjetivo, só ele pode identificar corretamente o tipo de dor que o acomete."

TRATAMENTO PARA CADA CASO Para cada dor, um tratamento. Pelo menos é o que a medicina tenta resolver. "Hoje, com o avanço da ciência médica, temos condição de atender qualquer pessoa com problemas de dor. Mas, isso não é mágica; não é comprar aquele remédio que tal amigo usou e foi ótimo ou aquele novo maravilhoso de que se falou na TV. Para isso, o médico tem que consultar o paciente, fazer a anamnese e o exame clínico completos, pedir os exames necessários e depois analisá-los, refletir, pensar e estudar o caso do paciente, sabendo das suas dificuldades e ansiedades. Somente assim, com o diagnóstico certo, ele vai indicar o tratamento adequado para o paciente", esclarece a médica Télcia Magalhães.

A oncologista Maria del Pilar ressalta que para tratar a dor podem ser usados diversos medicamentos. "Há os analgésicos opioides e os não opioides, os anti-inflamatórios, medicamentos que chamamos de adjuvantes, anticonvulsivantes e antidepressivos, que têm ação em quadros de dor principalmente neuropáticas e, eventualmente, anestésicos. A fisioterapia e acupuntura também são tratamentos que compõem o arsenal para dar fim à dor. Em casos específicos, em que não houve um bom controle com essas estratégias, podem ser utilizados procedimentos cirúrgicos para o controle da dor. A abordagem psicológica também pode ajudar a controlar quadros de dor, particularmente em casos com maior tempo de doença", acrescenta Del Pilar.

DADOS DO ESTUDO

BRASILEIROS
» Mais de 80% dos brasileiros sentem dor de cabeça
» 34% sentem dores psicológicas
» 54% sentem dores abdominais
» 39% sentem dores musculares
» 72% sofrem de dores nas mãos e nos braços
» 64% sofrem de dores nas costas
» 6% lembram-se da dor, e ela é recente
» 70% dos entrevistados são sedentários
» A dor atrapalha a vida social de 46% dos entrevistados.

HOMENS
» 58% dos homens sofrem de dores psicológicas

MULHERES
» 61% das mulheres sofrem de dores musculares

Angústia, uma dor psicológica

O psiquiatra e psicanalista Norton Caldeira, ex-presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática, explica que a dor psicológica é a angústia por excelência, que pode ser apresentada ao ser humano por uma falta, um vazio ou um trauma, ou seja, uma incapacidade de preencher ou resolver simbolicamente acontecimentos ou necessidades psicológicas tanto existenciais quanto experienciais. "As frustrações e impossibilidades também produzem dor psicológica, que podem ser remetidas ao corpo físico sob variadas formas: uma dor abdominal sem causa orgânica, uma dor óssea, dores musculares e articulares, dor crônica sem componente orgânico detectável", explica.

Ele salienta que doenças orgânicas, com dor ou não, principalmente de origem autoimune, podem ser deflagradas tendo como fator desencadeante um componente psicológico importante mesclado a outros fatores ambientais e fragilidades genéticas em potencial. "Como exemplo disso temos doenças de órgãos e sistêmicas como o lúpus, a esclerose mútipla, a artrite reumatoide, a colite ulcerativa, a diabetes tipo 1, a tireoidite e o próprio vitiligo.

Alterações no organismo como gastrites, diarreias e vômitos também podem ter seu componente psicológico e, nesses casos, ocorrem com uma frequência considerável. Essas alterações consideradas como psicossomáticas podem ocorrer em qualquer idade, no entanto a dor aguda ou crônica de origem psicológica é mais comum no adulto, sendo que no idoso ela pode ter outros componentes desconhecidos e decorrentes do envelhecimento."

O especialista reforça que os afetos, as emoções, os sentimentos, a ansiedade, o estresse psicológico e a imaginação ocorrem dentro do organismo e provocam mudanças no mesmo e, dependendo da intensidade, do tempo e da suscetibilidade, levam a somatizações diversas. "A dor física de origem psicológica pode ser diagnosticada quando no exame e na anamnese se revelam componentes psíquicos de natureza muito marcante e relacionados ao início do processo. Consequentemente, têm cura, e a descrição dos relatos existenciais somados à habilidade em escutá-los por um psicoterapeuta durante uma psicoterapia torna possível sua solução e mesmo sua cura definitiva", avalia. 

Cientistas e comissões dos países-membros da ONU se reúnem no Japão e divulgam prévia de relatório com algumas das consequência‏

Cenário para lá de pessimista 
 
Cientistas e comissões dos países-membros da ONU se reúnem no Japão e divulgam prévia de relatório com algumas das consequências previstas, causadas pelas mudanças climáticas 

Estado de Minas: 26/03/2014

Sul da Ásia é uma das regiões mais vulneráveis em relação às mudanças do clima, com várias populações expostas à fome, tempestades e seca extrema (ASIF HASSAN/AFP %u2013 9/9/10)
Sul da Ásia é uma das regiões mais vulneráveis em relação às mudanças do clima, com várias populações expostas à fome, tempestades e seca extrema

Lago Badovc, que abastece Pristina, capital do Kosovo, totalmente seco (Armend Nimani %u2013 22/1/14)
Lago Badovc, que abastece Pristina, capital do Kosovo, totalmente seco


Yokohama/Paris – Agravamento de fenômenos meteorológicos extremos, queda da sobrevivência de espécies animais e vegetais, modificação dos rendimentos agrícolas, evolução das doenças, deslocamento de populações: essas são algumas das consequências previstas, causadas pelas mudanças climáticas, que desestabilizarão os equilíbrios atuais. A advertência foi dada por especialistas reunidos em Yokohama, no Japão, para a reunião do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), organizado pela ONU. A abertura da reunião do IPCC, ontem, coincidiu com a publicação de um relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) que alerta para o risco de poluição do ar, que em 2012 provocou a morte de 7 milhões de pessoas no mundo.

O cenário nada animador é o desenhado por cientistas de todo o mundo que compõem o IPCC, caso não sejam reduzidas as emissões de dióxido de carbono (CO2). Eles vão passar a semana debatendo vários dos estudos desenvolvidos em diversos centros de pesquisas e vão elaborar um relatório do próximo informe global para determinar políticas e orientar negociações nos próximos anos. Em 13 de abril, o IPCC divulgará, em Berlim, seu terceiro volume sobre estratégias para fazer frente às emissões de gases de efeito estufa. “Temos uma imagem mais clara do impacto e das consequências, inclusive as consequências para a segurança”, disse Chris Field, da americana Carnegie Institution, que chefia a pesquisa. Algumas repercussões transfronteiriças das mudanças climáticas – redução das zonas geladas do planeta, as fontes de água compartilhadas ou a migração dos bancos de peixes – “têm o potencial de aumentar a rivalidade entre os países”, diz o informe.

O rascunho desses debates veio a público ontem, seis meses depois do primeiro volume do V Relatório de Avaliação do IPCC, no qual os cientistas deixaram claro sua certeza irrefutável de que o aquecimento global tem a mão do homem. No informe era previsto um aumento das temperaturas entre 0,3 e 4,8 graus centígrados neste século, 0,7 grau Celsius acima da média desde a Revolução Industrial. O nível dos oceanos aumentará entre 26 centímetros e 82cm até 2100, segundo suas estimativas. De acordo com o novo documento, os danos serão disparados a cada grau adicional, embora seja difícil quantificá-los. Um aumento nas temperaturas de 2,5 graus com relação à era pré-industrial – meio grau Celsius a mais que a meta fixada pela ONU – reduzirá os ganhos mundiais anuais entre 0,2% e 2%, o que corresponde a centenas de bilhões de dólares. “É certo que as avaliações que podemos fazer atualmente ainda subestimam o impacto real da mudança climática futura”, disse Jacob Schewe, do Instituto Postdam para a pesquisa das Mudanças Climáticas na Alemanha, que não participou da elaboração do rascunho do IPCC.

AR SUJO MATA 7 MILHÕES Enquanto os cientistas divulgam dados do IPCC, a OMS publicou ontem um estudo mostrando que a poluição do ar mata cerca de 7 milhões de pessoas em todo o mundo a cada ano. A organização destacou que a poluição do ar é a causa de uma em cada oito mortes e se tornou agora o maior risco ambiental à saúde dos seres humanos. Um dos principais riscos desse tipo de poluição é de que pequenas partículas se infiltrem nos pulmões, causando irritação, e também prejudiquem o coração, causando problemas crônicos ou ataques cardíacos. A OMS estimou que ocorreram cerca de 4 milhões de mortes em 2012 causadas por poluição do ar em ambientes fechados, a maioria de pessoas que cozinham dentro de casa usando fogões a lenha e carvão na Ásia. O relatório apontou ainda níveis maiores de exposição em mulheres do que homens em países em desenvolvimento. “Mulheres e crianças pobres pagam um preço alto por poluição dentro de ambientes fechados, já que passam mais tempo em casa respirando fumaça e fuligem de fogões a lenha e carvão com vazamentos”, disse Flávia Bustreo, diretora-geral adjunta da OMS para saúde de famílias, mulheres e crianças, em comunicado.

PERIGOS

Dados do rascunho
divulgado ontem do IPCC

» INUNDAÇÕES
As emissões crescentes de gases de efeito estufa aumentarão "significativamente" o risco de inundações, às quais Europa e Ásia estarão particularmente expostas. Se confirmado o aumento extremo de temperaturas, três vezes mais pessoas ficarão expostas a inundações devastadoras.

»SECA
A cada 1º adicional na temperatura, outros 7% da população mundial terão reduzidas em um quinto as fontes de água renováveis.

»AUMENTO DO NÍVEL DOS MARES
Se nada for feito, em 2100 "centenas de milhões" de habitantes das regiões costeiras serão levados a se deslocar. Os pequenos países insulares do leste, sudeste e sul da Ásia verão suas terras reduzidas.

»FOME
Os cultivos de trigo, arroz e milho perderão em média 2% por década, enquanto a demanda de cultivos aumentará 14% em 2050, devido ao aumento da população mundial. Os mais prejudicados serão os países tropicais mais pobres.

»DESAPARECIMENTO
DAS ESPÉCIES
Grande parte das espécies terrestres e de água doce correrá risco de extinção, pois as mudanças climáticas destruirão seu hábitat. 

O abortamento de repetição - Marco Melo

Estado de Minas: 26/03/2014



Os três primeiros meses da gestação, normalmente, são os mais delicados. Uma preocupação constante nesse período é o risco de abortamento. Cerca de 15% a 25% das gestações evoluem para a interrupção espontânea, antes de completar 22 semanas. Uma parte das mulheres ainda convive com outra situação ainda mais angustiante: abortamento por diversas vezes. Recentemente, a Sociedade Americana de Reprodução Assistida divulgou novas condutas médicas para serem adotadas em casos conhecidos como abortamento de repetição, visando orientar especialistas na investigação do problema.

A principal causa de perdas gestacionais são as alterações cromossômicas dos embriões que não são compatíveis com a evolução natural da gestação, ou seja, não geram vida. O abortamento de repetição pode ser definido como a ocorrência de três ou mais perdas gestacionais, antes de 20 semanas consecutivas. A incidência é de 1% a 2%, entre as mulheres na idade fértil. Entretanto, com duas perdas consecutivas, a procura por um especialista já é indicada para iniciar uma investigação para descobrir a causa.

Os dados interessantes são as probabilidades envolvidas no problema. Depois da ocorrência de dois ou três abortamentos, a paciente apresenta 30% de chance de ocorrência de uma nova perda gestacional. Cerca de 85% dos casos ficam sem diagnóstico na investigação das possíveis causas. Se isso é desalentador, pelo menos pode-se dizer que há 70% de chance de uma nova gestação evoluir bem nos casos sem causa definida. Nós, médicos, acompanhamos essa realidade, e sabemos o quão angustiante é esse quadro clínico para o casal. As incertezas são muitas e existe uma grande divergência entre os especialistas sobre quais exames solicitar e como tratar a doença.

A grande novidade, gerada pelos estudos mais recentes sobre o abortamento de repetição, está nas possíveis origens. Baseado em trabalhos científicos, hoje, consideram-se apenas duas doenças, sendo uma delas a de causas genéticas, que são alterações genéticas e cromossômicas dos embriões, e que representam até 68% dos casos. A outra é a síndrome anticorpo antifosfolípide, que aumenta a probabilidade de formação de trombose e coágulos na circulação da placenta, reduzindo a chegada de sangue ao feto, provocando sua morte. O problema representa entre 10% e 15% das causas de abortamento de repetição.

Outros problemas que podem estar relacionados são as alterações do útero, como miomas; trombofilias congênitas, propensão a desenvolver trombose por anomalia no sistema de coagulação; problemas endócrinos, infecciosos e autoimunes, pouco prováveis.

O estudo gerou um impacto grande na rotina do médico especialista que trabalha com essa situação. Antes, solicitavam-se numerosos exames e prescrevia-se medicação, sem a comprovação de efeitos benéficos à paciente, fatos que encareciam os tratamentos e expunham as pacientes a medicações desnecessárias. Por meio dessa nova orientação, será possível direcionar melhor os exames para diagnóstico e avaliação de tratamento.