sábado, 29 de março de 2014

Ética das imagens [Sebastião Salgado]

Ética das imagens 
 
Fotógrafo mineiro Sebastião Salgado refaz sua impressionante trajetória de descoberta do homem e do planeta no livro Da minha terra à Terra 
 
Ângela Faria
Estado de Minas: 29/03/2014


Sebastião Salgado traz a Belo Horizonte, em maio, seu mais recente projeto, Gênesis (Jairo Goldflus/Divulgação)
Sebastião Salgado traz a Belo Horizonte, em maio, seu mais recente projeto, Gênesis

Ninguém tem o direito de se proteger das tragédias de seu tempo”, diz o fotógrafo Sebastião Salgado em seu pequeno livro de memórias, Da minha terra à Terra (Paralela), escrito em parceria com a jornalista Isabelle Francq. Esse mineiro dedicou 40 de seus 70 anos à fotografia. Fez de Leicas e Pentaxs “armas” de uma guerrilha particular contra a injustiça social. Refugiados, trabalhadores do mundo globalizado, vítimas de atrocidades na África, movimento dos sem-terra no Brasil – não há pobres “invisíveis” no planeta Salgado. “A fotografia é uma escrita”, diz ele. Luz é linguagem.

Aos 15 anos, o mineiro Sebastião deixou a fazenda da família em Aimorés, no Vale do Rio Doce, para estudar em Vitória, capital do Espírito Santo. Ralou como todo jovem remediado, formou-se em economia, engajou-se em movimentos antiditadura militar ao lado da mulher, a arquiteta Lélia. Na mira do temido SNI, o jovem casal esquerdista teve de fugir para a França. Sebastião se apaixonou pela África, mas em vez de relatórios e números, gostava mesmo era de fotografar o continente. “Reencontrei meu paraíso”, rememora.

Com o apoio de Lélia, o jovem e promissor tecnocrata largou tudo: apê bacana em Londres, carro do ano, conforto e estabilidade para se aventurar como fotógrafo. Os dois foram morar num minúsculo chambre de bonne parisiense, sem banheiro. A França ensinou solidariedade aos jovens expatriados: banho, só na casa de amigos.

Salgado fez nus, esportes e retratos. Fotojornalista, integrou as equipes das respeitadas agências Sygma e Gamma. Foi o único a registrar o atentado que o presidente norte-americano Ronald Reagan sofreu em 1981 – o furo ajudou a Magnum, onde o mineiro trabalhou por 15 anos, a superar dificuldades financeiras. Deixou a agência para apostar no projeto Êxodos, contundente relato da brutal migração humana. Naquela década de 1990, nada menos de 200 milhões de pessoas trocavam o campo pela cidade.

Salgado dedicou seis anos a Êxodos: fotografou gente da Índia à América Latina. Testemunhou também o drama de desabrigados, acompanhou tragédias causadas por guerras e “limpezas” étnicas, suas imagens denunciaram o genocídio em Ruanda. Num campo de refugiados, dois milhões de pessoas tentavam sobreviver à guerra entre hutus e tútsis. Abalado, o fotógrafo viu o corpo atacado por seus próprios estafilococos. Teve de ir a Paris para se tratar. Mas voltou para a África.

Em 1994, ele e a mulher criaram a agência Amazons Images. Os projetos – reportagens visuais que levam anos para ficar prontas – deram origem a vários livros. Entre eles, Trabalhadores, África, Êxodos, Retratos de crianças do êxodo e Terra – frutos de parcerias com entidades humanitárias e movimentos sociais.

Trabalho do fotógrafo Sebastião Salgado: elefantes perseguidos por caçadores na Zâmbia (Sebastião Salgado/Divulgação)
Trabalho do fotógrafo Sebastião Salgado: elefantes perseguidos por caçadores na Zâmbia


Gênesis Em Da minha terra à Terra, o fotógrafo confessa: chegou a perder a esperança no homem diante das atrocidades que presenciara. Ficou deprimido. Só redescobriu o mundo ao se dedicar ao projeto Gênesis, que deu origem ao belo livro lançado no ano passado. Em maio, as fotos ficarão expostas no Palácio das Artes e no Parque Municipal, em Belo Horizonte.

Homenagem de Sebastião e Lélia ao planeta, Gênesis mostra o quanto nos faz falta a sabedoria dos animais, dos vegetais e dos minerais. Não é exagero afirmar: foi quase uma jornada bíblica. Salgado chegou a andar 850 quilômetros na Etiópia; teve os pés lavados e beijados em aldeias habitadas por gente que se diz descendente da rainha de Sabá; aguentou 40 graus negativos para registrar a vida dos nenetses, na Sibéria; rastejou para se comunicar com tartarugas e iguanas; percorreu o Saara a pé às vésperas de se tornar setentão; passou dois meses entre os índios z’oés, na Amazônia.

Para nos contar tudo isso, o fotógrafo abdicou da cor. Para ele, só o preto e branco expressa a densidade do mundo. E que não se tache de “estética da miséria” a obra de Sebastião Salgado, sobretudo os projetos que expuseram a miséria humana. “Não me venham falar de voyeurismo!”, reage o mineiro zen, acusando políticos e o Conselho de Segurança das Nações Unidas pelos assassinatos que presenciou na África. “Fiz essas imagens porque tinha obrigação moral, ética de fazê-las”, escreve.

Para ele, todos somos responsáveis. “A sociedade de consumo da qual participamos explora e pauperiza enormemente os habitantes do planeta”, defende, dizendo que é dever do cidadão se manter informado a respeito das tragédias causadas pela desigualdade. “Esse é o nosso mundo, precisamos assumi-lo”, convoca.

DA MINHA TERRA À TERRA
• De Sebastião Salgado
• Com Isabelle Francq
• Editora Paralela
• 152 páginas, R$ 24,90

Cinema e preconceito [Comédia e Musical]

Cinema e preconceito 
 
Desprezados por parte do público intelectualizado, as comédias e os musicais podem ser eficientes instrumentos de crítica social e política. Ou, apenas, um bom, saudável e necessário entretenimento
 
Lúcia Helena Monteiro Machado
Estado de Minas: 29/03/2014


O cineasta Billy Wilder, gênio da comédia capaz de reflexões finas e divertidas sobre a estupidez humana (Cartman/Reprodução)
O cineasta Billy Wilder, gênio da comédia capaz de reflexões finas e divertidas sobre a estupidez humana

Tenho observado uma espécie de desprezo pelas comédias por parte de pessoas que amam o cinema. Consideram-nas um gênero menor. Valorizam somente os filmes “sérios”, aqueles que supostamente contêm uma mensagem ou levem à reflexão.

Lendo recentemente O prazer dos olhos, de François Truffaut, encontrei o seguinte texto: “Discute-se muito a propósito do que deve ser conteúdo de um filme: devemos nos ater ao divertimento ou informar o público sobre os grandes problemas sociais do momento? Fujo dessas discussões como o diabo da cruz. Acho que todas as individualidades devem se exprimir e que todos os filmes são úteis, sejam formalistas, barrocos ou engajados, trágicos ou ligeiros, modernos ou obsoletos, em cores ou em preto e branco, em 35mm ou em super-8, com estrelas ou desconhecidos, ambiciosos ou modestos... Só conta o resultado, isto é, o bem que o diretor faz a si próprio e o bem que faz aos outros”.

Em outro trecho, completa a argumentação: “Todos os gêneros são permitidos, exceto o gênero maçante”. Eu acrescentaria: há apenas filmes bons e filmes ruins. O gênero não determina a qualidade de um filme. Há filmes que mereceram da maioria dos críticos e dos amantes do cinema o título de clássicos. Ora, o termo clássico vem do grego e quer dizer perfeito. Merecem tal classificação filmes de várias categorias: o famoso Cidadão Kane, que revolucionou o cinema; o romântico Casablanca; o musical Cantando na chuva; a comédia Quanto mais quente melhor; a ficção científica 2001 – Uma odisseia no espaço; o faroeste No tempo das diligências, além de outros que poderiam entrar nas categorias de policial ou documentário. São filmes perfeitos, que não perderam sua qualidade com o passar do tempo. Como as grandes obras da literatura, de Romeu e Julieta a Don Quixote, são eternos.

Entra aqui a questão do gosto. Cada um tem suas preferências, que devem ser respeitadas. Eu, por exemplo, não gosto de filmes com efeitos especiais. É tão banal o que se pode fazer hoje com computadores que, para mim, isso não é cinema. Reconheço ser um preconceito.

E é sobre preconceitos que estou falando. Preconceitos determinados por uma posição intelectual deformada. Ora, alguns dos filmes mais sérios que já vi são comédias. Não há nenhuma comédia do genial Billy Wilder que não contenha uma excelente crítica da sociedade e dos costumes. E nenhum de seus filmes perdeu com o tempo, porque tratam de valores humanos fundamentais e permanentes. O fato de nos fazer rir o tempo todo é apenas a maneira que ele usa para nos dizer o que quer. E ele sempre quer ir fundo nas questões importantes para a humanidade.

Tomemos A primeira página. Foi baseado numa peça de teatro escrita por Bem Hecht e fez tanto sucesso que teve quatro versões para o cinema. A de Wilder é, de longe, a melhor. Estrelada por Jack Lemmon e Walter Matthau, se passa quase inteiramente na sala de imprensa de uma delegacia. Como se situa na década de 1950, ainda não havia celulares, evidentemente. Cada repórter tinha seu próprio telefone, com o qual se comunicava diretamente com seu jornal. Um condenado à morte, na véspera da execução, depende de um provável indulto do governador. Como era época de eleição, o prefeito da cidade tinha interesse no caso.

A primeira crítica de Billy Wilder é dirigida à imprensa, hoje chamada de mídia. Quando surgia um fato novo, cada jornalista se apressava em ligar para seu jornal dando a notícia. Ocorre que a notícia, supostamente verdadeira, mudava completamente, dependendo da linha adotada pelo jornal. Será que isso acontece hoje? Claro que sim. E acreditamos piamente no que nos está sendo transmitido pelo jornal que lemos, o que nem sempre é a verdade dos fatos, mas sim a interpretação dada pela linha do jornal.

Em seguida vem o comportamento corrupto do prefeito e do chefe da polícia, que estão pensando apenas em ser reeleitos e não na justiça ou não de enforcar um pobre diabo, sem mesmo tentar saber se ele é culpado ou inocente. Fica claro no filme que o prefeito recebe dinheiro para sua campanha e oculta fatos para se livrar de problemas. É diferente hoje? A pena de morte é questionada. Um homem pode ser executado apenas para satisfazer parte da opinião publica.

A psicanálise merece do genial diretor o tratamento mais irônico do filme. O psiquiatra austríaco só é capaz de raciocinar em termos psicanalíticos os mais banais, concluindo que o condenado cometera o crime por ter complexo de Édipo. Para dar realismo às teorias, entrega ao condenado um revólver carregado para fazer a reconstituição do crime. O resultado é hilário. Vale lembrar: Billy Wilder é austríaco.

Nos comentários finais, o diretor do jornal, um corrupto que seria capaz de matar a mãe para conseguir um furo jornalístico, se aposenta e vai fazer palestras sobra a ética no jornalismo! O filme é de 1972 e, como se vê, não perdeu em nada sua atualidade.

Diversão

O preconceito contra musicais, por não serem considerados “sérios”, é outro julgamento inaceitável. Como em relação a Cantando na chuva, que tem lindas canções, excelentes números musicais, ótimas interpretações, perfeito ritmo cinematográfico... O que quererem mais? O que as pessoas têm contra a diversão?

Com a comédia ocorre o mesmo. Por que, para lembrar do ditado, recusar um remédio que não tem efeitos colaterais? Provocar o riso é arte extremamente difícil. Fazer rir sem cair no deboche, no mau gosto, na simples caricatura é uma arte só alcançada pelos gênios. O que queria Carlitos, nas suas comédias curtas, o que queriam o Gordo e o Magro, senão fazer rir? Fazer chorar com recursos piegas é bem mais fácil.

Alguns filmes que são simples comédias, sem intenções de crítica social ou política, são também excelentes. Como Os eternos desconhecidos, de Mario Monicelli, de 1958. Estrelado por Vittorio Gassman, Marcello Mastroiani e Totó, conta a história hilariante de um grupo de assaltantes que resolve roubar uma joalheria e tudo dá errado. É para rir do princípio ao fim. Foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Não ganhou porque dificilmente uma comédia ganha o prêmio. Preconceito?

Um certo intelectualismo, que anda meio generalizado, tende a desprezar filmes que não tenham o chamado “papo cabeça”, que não levantem questões existenciais, sociais ou políticas. Ora, uma boa comédia pode levantar todas essas questões simplesmente usando o riso, ou pode ser uma diversão inteligente sem perder seu valor como obra de arte.

Volto a dizer: os filmes são simplesmente bons ou ruins, seja qual for a forma pela qual atingem o público que os aprecia. Uma simples comédia pode ser genial, assim como um filme pretensioso e intelectualizado pode ser apenas maçante.

Lúcia Helena Monteiro Machado é escritora.

Antes das palavras

Antes das palavras 
 
Aracataca, cidade natal de Gabriel García Márquez, evoca a história e os fantasmas de Macondo, a localidade mítica da Colômbia onde se passa a ação do romance Cem anos de solidão 
 
Carolina Braga
Estado de Minas: 29/03/2014

 (Álvaro Delgado/Divulgação)

Aracataca, uma cidade dividida entre o passado mítico e as demandas do presente (Álvaro Delgado/Divulgação)
Aracataca, uma cidade dividida entre o passado mítico e as demandas do presente


Aracataca (Colômbia) – Na parede branca, de rodapé azul, bem ao lado da janela com grade, algumas marcas conhecidas. Twitter, YouTube, Yahoo, Skype dividem um lado da fachada. Do outro aparecem Facebook, Google. O traço é imperfeito. Estão ali pintadas à mão. Na loja do lado, outra marca globalizada. Desta vez, produto para emagrecimento. Coisa de mundo em que basta olhar para saber o que é. A bicicleta verde, velha, de guidão enferrujado, estacionada na porta, é um contraste. Sinal de tempo. E que tempo!

De uma época bem anterior à invenção desse meio de transporte de duas rodas. Imagina, então, da internet. Quando aquele lugarejo não deveria ter mais do que 20 casas de barro e taquara. Em que o mundo era tão recente que, aí sim, era preciso nomear tudo e ainda apontar com os dedos para saber exatamente do que se estava falando. Onde a invenção do gelo surgiu com o sonho de fazer dali uma cidade invernal. O calor, porém, continua infernal e ainda assim ninguém tira daquele lugar o clima de realismo fantástico.

Pois mesmo com borboletas amarelas desenhadas nas paredes coloridas, ruas de concreto, mototaxistas por todos os lados, loja de produtos chineses e venda de créditos de celular, no imaginário de quem vive em Aracataca a cidade nunca vai deixar de ser Macondo. O município no interior da Colômbia, a 255 quilômetros de Cartagena, serviu de inspiração para a vila fictícia criada por Gabriel García Márquez em Cem anos de solidão. Será Macondo para sempre, porque há uma nova geração de cataqueños preparada para cuidar disso.

“Nossa cidade entrou na história por esse grande personagem ter nascido aqui, no dia 6 de março de 1927”, explica a estudante Valéria Sofia, de 10 anos. “Foi em um domingo, às 8h30”, completou Marlys Claro, de 11. Elas sabem mais coisas sobre a vida de Gabo de cor. Sobre os livros também. Valéria tem Diário de um náufrago como predileto, enquanto Marlys prefere Cem anos de solidão. Por mais que ela nunca tenha tido a chance de chegar perto de Gabriel García Márquez – a última vez em que ele esteve na cidade a estudante tinha apenas 4 anos –, um dos cenários do livro que escolheu para a cabeceira tem a ver com a família dela. O avô de Marlys mora duas casas depois daquela em que nasceu Gabriel, o Gabo. Não há dúvidas de que é o local mais emblemático de Aracataca.

Tal como o próprio romancista descreve a sala de José Acardio Buendía, o local onde moravam os avós – o coronel Nicolás Ricardo Márquez Mejía, a quem os netos chamavam Papalelo, e a avó Tranquilina Iguarán, tratada carinhosamente de Mina, também tem uma saleta ampla e bem-iluminada. Do mesmo modo, a sala de jantar é em forma de terraço, com flores de cores alegres no corredor. A casa existe dessa forma hoje em Aracataca, porque foi totalmente reconstruída, com o apoio de Gabo. A iniciativa partiu do compositor Jorge Carrillo Gusman.

Dois anos depois de o escritor ganhar o Nobel de Literatura, o autor do hino de Aracataca decidiu procurá-lo para propor a reconstrução de sua memória no município. “Busquei em Cartagena, no jornal El Universal, em que ele tinha trabalhado, até conseguir localizá-lo.” Como conta Gusman, Gabo vibrou com a ideia, enviou arquitetos de outros locais para conhecer o terreno. A casa reproduzida tal qual está registrada na lembrança hoje abriga o Museu Gabriel García Marquez.

A arquitetura segue o modelo antigo e os móveis e objetos que ali estão são exemplares da mesma época, porém não são originais. Gabriel García Márquez saiu de Aracataca aos 8 anos e nunca mais voltou a morar ali. No primeiro capítulo da autobiografia Viver para contar, ele narra a viagem que fez com a mãe ao lugarejo, na tentativa de vender a casa. Para Gusman, a inauguração do museu coincidiu com um movimento nas escolas de Aracataca de valorização da literatura de García Marquez.

“Houve um empoderamento de algo que se desconhecia e parecia utópico. Hoje as crianças já conhecem a literatura dele, inclusive têm uma disciplina dedicada a isso”, explica Gusman. O trabalho na sala de aula surgiu em um momento em que a relação entre o escritor e a cidade precisava ser vista de outro modo. Andava meio estremecida.

Contraste Se a nova geração de Aracataca hoje demonstra orgulho ao falar sobre García Márquez, os mais velhos sempre deixam transparecer certa mágoa do escritor. “Gabo não para aqui, mas é uma pessoa muito correta. Há uma quantidade de histórias sobre ele, umas boas outras más. Prefiro as boas”, despista o pedreiro Daniel Molina, enquanto compra uma sacola lotada de bananas verdes. Entre uma conversa e outra sobre as plantações de banana, Molina dá mais detalhes. Ele diz que há quem culpe o escritor por Aracataca não ter evoluído.

“Quando ele veio aqui, não consegui chegar perto, mas meu irmão foi o motorista do carro no qual ele andava. Contou que Gabo ficou superorgulhoso. Ele não pensava que Aracataca ia crescer tanto. Os políticos locais é que têm culpa de o povoado ainda estar atrasado. García Márquez queria que tivesse desenvolvido”, defende o pedreiro Victor Meriño. Assim como Daniel Molina, ele acha exagerada a cobrança dos veteranos.

Há mesmo ainda muita simplicidade e dificuldade no modo de viver por lá. À parte o tempo úmido e quente, nem água encanada é uma realidade para todos os moradores. Por isso, é comum que no banheiro das casas se encontrem grande galões. Apenas por um momento do dia a água pinga dos canos. É hora de encher o reservatório para depois tomar banho, escovar os dentes e lavar as mãos. Tudo de cuia. 

Se o município ainda necessita de infraestrutura básica para quem vive ali, imagine para receber visitantes. É praticamente inviável. O único albergue que existia em Aracataca fechou há poucos dias. Era mantido por um europeu, que, inclusive, adotou por conta própria o sobrenome de Buendía, tal como os herdeiros de Aureliano, personagem de Cem anos de solidão. Tem restaurante, repleto de referências ao personagem ilustre, mas ainda com estrutura muito caseira.

“Tem pessoas que são ressentidas pelo fato de Gabo não vir mais aqui. Para quê? Um Prêmio Nobel nascido em Aracataca é a mais bonita representação da cidade no mundo todo”, defende a professora Dora Osório. “Somos de Aracataca e queremos que este lugarejo fique melhor, tenha melhores ruas e outras condições. Gabriel já fez o que podia. Ganhou o Nobel e já nos fez aparecer internacionalmente”, completa a também professora Yadira.

O escritor Gilberto Tejeda credita a ausência de García Márquez em Aracataca ao enorme assédio. Gabo é um homem de hábitos simples, tal como seus conterrâneos, como diz Tejeda. “Aracataca é um lugarejo onde todos os escritores, pintores e poetas são silvestres, como as borboletas amarelas.” Com um livro que ele mesmo editou debaixo do braço, o cataqueño garante que ali é um lugar onde o incrível parece realidade. “Gabo narra isso com uma clareza impressionante. Aracataca tem muita história para contar. Leve este livro e leia-lo”, diz, entregando o exemplar de Los amores de um cabron soñador.

*A repórter viajou com a bolsa de jornalismo cultural oferecida pela Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano. 

Orelha

Orelha
Estado de Minas: 29/03/2014

Documentário de Eduardo Coutinho ganha edição com direito a inéditos (Sesc SP/Divulgação)
Documentário de Eduardo Coutinho ganha edição com direito a inéditos

Filme e livro


Chega hoje ao mercado nova edição do DVD do documentário Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho (1933-2014). O lançamento inclui dois filmes inéditos do realizador, produzidos pelo Instituto Moreira Salles em parceria com a Videofilmes: Sobreviventes de Galileia (Brasil, 2013) e A família de Elizabeth Teixeira (Brasil, 2013). Além desses dois filmes inéditos, o DVD conta com uma faixa comentada, com a participação de Eduardo Coutinho, Eduardo Escorel, montador do filme, e Carlos Alberto Mattos, crítico de cinema. Como parte integrante do material, foi produzido um livreto de 74 páginas com um depoimento de Coutinho e seleção de críticas publicadas no Brasil e no exterior à época do lançamento do filme, nos anos 1980.

Clássico hindu

Um caso raro no mercado brasileiro: a edição bilíngue português/sânscrito. Trata-se do lançamento do livro Da palavra, do filósofo e gramático Bhartrhari, que viveu no século 6 a.C. Considerada fundamental para a cultura escrita hindu, a obra continua sendo lida e muito citada entre os indianos até os dias atuais. O autor entrelaça com tranquilidade diferentes temas, como ética, filosofia e linguística, adotando divisões conceituais muito diferentes das ocidentais. Pela Editora Unesp.

Brasil em Bolonha

O ilustrador brasileiro Roger Mello foi o ganhador do Prêmio Hans Christian Andersen deste ano, considerado o Nobel da literatura infantil, na categoria ilustração, pelo conjunto de sua obra. O anúncio foi feito na Feira do Livro Infantil de Bolonha, na Itália. Roger é o primeiro ilustrador brasileiro a ganhar o troféu. Na categoria autor, o Brasil já havia sido contemplado com Lygia Bojunga, em 1982, e Ana Maria Machado, em 2000. A autora premiada foi a japonesa Nahoko Uehashi.

Pai e filhos

O psicanalista Renato Mezan lança ainda este mês pela Companhia das Letras a coletânea de ensaios O tronco e os ramos – Estudo de história da psicanálise. O autor enfrenta uma das grandes questões do campo dos estudos psicanalíticos: a relação entre Freud e seus seguidores. Mezan analisa a correspondência do pai da piscanálise com seus discípulos diretos – Ferenczi, Abraham, Jung e Fliess –, além de levar o debate às gerações seguintes, com autores como Winnicott, Melanie Klein, Bion e Lacan.

Duas vezes Beatles

Mais livros sobre os Fab Four chegam ao mercado brasileiro. Pela Verus, chega Love me do – 50 momentos marcantes dos Beatles, do jornalista Paolo Hewitt. Uma biografia da banda, recheada de fotos, em 50 momentos definidores, do nascimento do grupo, nos anos 1960 à década de 1990. Já a Editora SM tem como objetivo o público infantojuvenil com o álbum em quadrinhos Os Beatles, de Mick Manning e Brita Granström.

Sarau poético

Bruno Brum e Leo Gonçalves são os convidados de hoje do programa Sarau no Memorial, em sessão dupla, às 11h e às 13h. Ambos comemoram 10 anos de lançamento dos livros de sua autoria, Mínima ideia e Das infimidades. O sarau terá ainda leitura de poemas de Leopoldo Maria Panero, uma das vozes mais inovadoras da poesia espanhola contemporânea; dos norte-americanos Jerome Rothenberg e Allen Ginsberg; e do argentino Juan Gelman. No Memorial Minas Gerais Vale, na Praça da Liberdade.

Lançamento

A Editora UFMG e a Ateliê lançam dia 31 o livro Edição e revolução – Leituras comunistas no Brasil e na França. Jean-Yves Mollier e Marisa Midori Deaecto fazem palestra sobre o tema da publicação, em mesa-redonda coordenada por Luiz Carlos Villalta. No auditório Professor Baesse, na Faculdade de Filosofia e Ciências da UFMG, câmpus Pampulha. Às 19h.