sábado, 29 de março de 2014

João Paulo - O século de Octavio‏

O século de Octavio
João Paulo
Estado de Minas: 29/03/2014

O mexicano Octavio Paz faz parte dos grandes intérpretes da identidade latino-americana (Gorka Lejarcegi/Divulgação)
O mexicano Octavio Paz faz parte dos grandes intérpretes da identidade latino-americana

Um homem que assumiu na carne os destinos de seu país, da poesia e de seu tempo. Que escreveu alguns dos mais importantes poemas do século 20, que refletiu sobre a identidade latino-americana com método e profundidade pouco comuns, que ajudou o Ocidente a compreender a dinâmica cultural da Índia e do Japão. Um criador alimentado pela inteligência crítica, que refletiu sobre a poesia de forma poética e que percorreu com radicalidade – não sem contradições – os tortuosos caminhos da política. Que, ao fim da vida, revelou a dupla chama do amor e do erotismo. O dono de vida tão intensa e universal, o escritor e pensador mexicano Octavio Paz (1914-1998) faria 100 anos na segunda-feira.

Numa era de excessiva tendência à especialização, Paz foi um dos raros exemplos de humanista capaz de dedicar-se a todo o espectro de interesse humano. Dono de cultura ampla e universal, era ainda dotado de curiosidade que o levava a ir da estética à política, das questões morais aos mitos, das investigações da ciência aos dilemas da arte. Além da inteligência, era também tocado pela graça da criação, com uma obra poética que influenciou escritores muito além do México, chegando ao Brasil, com destaque para os irmãos Campos. Haroldo, que colaborou em várias publicações dirigidas por Paz, foi tradutor do poeta mexicano, editando no Brasil Transblanco, a partir do longo poema Blanco.

O que chama a atenção na obra de Octavio Paz, no entanto, é exatamente a capacidade de reunir tantos interesses sob um domínio comum, quase um método pessoal, que alimenta a reflexão de poesia e a criação lírica de inteligência. Há sempre um eu, um ponto de partida, um jeito pessoal, quase confessional, de se aproximar das pessoas, das ideias e do mundo. Paz não vê o mundo de fora. Isso ajuda a entender ainda sua vocação para a política, seu interesse nas questões de seu tempo e de seu país e, no sentido mais amplo, da América Latina como uma comunidade de destinos compartilhados a partir de um passado de violências execráveis.

Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1990, de certa forma ele se tornou para o mundo um intérprete autorizado da consciência de seu país. De fato, entre as obras de Paz, a mais conhecida e influente, O labirinto da solidão, publicada em 1950, segue a linha dos livros de pesquisa da identidade nacional, com método e estilo que ainda hoje encantam e fazem pensar. Trata-se de um gênero fortemente ligado à América Latina e ao seu destino, tendo no Brasil exemplos como Casa grande e senzala, de Gilberto Freyre, e Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Hollanda (Silviano Santiago escreveu um livro, As raízes e o labirinto da América Latina, em que analisa de forma comparativa e complementar os ensaios de Sérgio e Octavio).

O labirinto da solidão, que ganha nova edição pela Cosac Naify, tem como propósito compreender o mexicano. O que hoje parece meio deslocado no tempo – a literatura da busca da identidade – era talvez a mais profunda das questões postas aos latino-americanos, a meio do caminho entre as próprias raízes e a inserção num mundo do qual faziam parte sempre de forma subsidiária e enviesada. Octavio Paz quer pegar com a mão os motivos históricos e psicológicos que definem o homem de seu país. Sua mais importante matéria é a herança cultural, o laço particular que une o mexicano ao seu destino. Para isso, o ensaísta escolhe seu tipo ideal, o “pachuco”, o pária, o excluído, aquele que preserva na alma o que o colonialismo tentou extirpar.

Alimentado por mitos, narrativas simbólicas e interpretação inusitada e rica, o ensaio vai operando para desfazer as máscaras que toldam a percepção do que é ser mexicano. Logo no início do livro, Octavio Paz reconhece no mexicano um homem fechado, defeso, silencioso, que tem respeito e temor de certas palavras e expressões, entre elas as chulas e os xingamentos. Para o ensaísta, o México moderno padece de uma reserva em relação às suas origens violentas, sobretudo a violação de indígenas pelo conquistador. Filhos da Malinche (a amante de Cortés e símbolo das mulheres violentadas), os mexicanos seriam fruto da violência inominável contra seus mais profundos valores humanos. A saída foi resguardar-se atrás de uma máscara. O labirinto da solidão é um instrumento feito para arrancar máscaras, ainda que das feridas jorrem sangue.

A interpretação da história real e simbólica de seu país e de seus irmãos dá ao livro uma força de revelação intelectual e de redenção política. Cada momento da história mexicana tem a dupla face da submissão (das tradições, crenças e deuses) e da revolta (por meio das rupturas reais da Independência e da Revolução Mexicana e até, em fato posterior ao livro, da revolta estudantil do fim dos anos 1960). Se há um acento político libertário, ele não foi suficiente para preservar Octavio Paz dos ataques da esquerda, que o perseguiria até o fim da vida, sobretudo por sua defesa do Partido Revolucionário Institucional, o PRI, que atravessou o século no poder.

Homem revoltado A relação de Paz com a esquerda nunca foi fácil. Sem nunca ter sido comunista, num período de alinhamento de muitos intelectuais com o partido, Paz foi crítico do stalinismo, dirigiu revistas literárias que se batiam contra a censura ideológica e defendiam o pluralismo, e nunca aceitou o dilema que parecia deixar apenas uma resposta para a contradição entre fascismo e comunismo. Sua posição, nesse sentido, talvez se aproxime da de Albert Camus e de seu “homem revoltado”, também duramente atacada. Paz foi ainda crítico dos rumos da revolução cubana (e de sua perseguição aos escritores), o que acabou por carimbar para sempre o selo de reacionário em sua identidade política.

No entanto, além das ideias, Paz deu provas de sua defesa da liberdade em atos corajosos. Em 1968, por exemplo, quando era embaixador de seu país na Índia, ele romperia com o PRI e se afastaria do cargo em razão da violenta repressão aos estudantes em Tlateloco. Sua atitude, e a coragem em levá-la a todos os debates, mostrou uma coerência que ia além das estratégias meramente partidárias ou das definições ideológicas. Nos termos de seu livro mais célebre, a revolta estudantil apontou a derrubada de mais uma máscara da violência, desta vez amparada na retórica do partido no poder. Para se manter coerente com suas ideias, Paz rompeu com a conveniência de sua situação pessoal.

A política levaria o pensador a outros esforços de interpretação da mutante realidade de seu país, da América Latina e do mundo. Em O ogro filantrópico, reunião de ensaios sobre questões políticas, Octavio Paz, no texto que dá nome ao livro, analisa as proposta de reforma política em discussão no México no fim dos anos 1970. Uma lúcida visão do autoritarismo latino-americano, em sua incapacidade de avançar até os mais simples valores da modernidade política, traz observações sobre o papel e composição do Estado que parecem escritas hoje, para situações muito próximas da realidade brasileira: “Característica notável do Estado mexicano: apesar de ter sido agente principal da modernização, ele mesmo não conseguiu se modernizar inteiramente. Em muitos aspectos, sobretudo no trato com o público e na maneira de conduzir os assuntos, continua sendo patrimonialista”.

A análise política de Paz não se circunscreveu apenas aos temas mexicanos. Tanto O ogro filantrópico como Tempo nublado trazem ensaios e artigos sobre questões referentes aos Estados Unidos, União Soviética, Irã e Israel. Num exercício de análise histórica, que amplia o olhar além da conjuntura, o ensaísta trabalhou com temas como participação dos intelectuais na arena pública, a crítica ao terrorismo e o renascimento das culturas locais.

O ensaísta Octavio Paz deixou ainda livros preciosos sobre a Índia, país em que serviu como diplomata e cuja cultura conhecia em profundidade. Escreveu sobre religião, misticismo, filosofia e, de forma desimpedida, sobre o corpo e os prazeres sob a ótica oriental, com sua alquimia sexual e cortesia erótica. Foi também estudioso atento da cultura japonesa e, sobretudo, de sua poesia, trazendo para o Ocidente um novo horizonte lírico, que dialogava com seu conhecimento da tradição e das vanguardas.

Sem nunca deixar esgotar seu interesse pelos temas da poesia e da política, da beleza e da arte da convivência, dos imperativos da estética e das cobranças da ética, Octavio Paz se debruçou ainda em estudos de antropologia e etnologia, tendo escrito um pequeno e luminoso livro sobre a obra do estruturalista Claude Lévi-Strauss, O novo festim de Esopo. Tudo que é excessivamente formal e quase impenetrável na lógica dos mitos de Lévi-Strauss se reveste de um interesse humano próximo, na busca do lugar do homem no sistema da natureza.

Amor e erotismo Depois de lançar a obra que talvez seja sua mais profunda realização, Soror Juana Inês de la Cruz – As armadilhas da fé, sobre a religiosa e poeta barroca do século 17 mexicano, misto de biografia, ensaio histórico, reflexão filosófica e pesquisa literária, Octavio Paz resolve se dedicar ao maior e mais universal de todos os dilemas, o amor. Seu livro A dupla chama – Amor e erotismo, escrito já na altura dos 80 anos, traz de novo à cena a relação sempre presente de poesia e erotismo. Passeando pela história, mitos e pela própria existência, o poeta dá as mãos ao humanista para falar do amor com quem se pacifica das tribulações da vida. O fogo da paixão e do erotismo, com sua chama vermelha, revela a sustentação do brilho azul do amor. “Pelo amor, vislumbramos nesta vida, a outra.”

Em seu Dicionário amoroso da América Latina, o colega de Nobel, o peruano Mario Vargas Llosa, escreveu: “Paz viveu mais de 84 anos, mergulhado no turbilhão de seu tempo e devorado até o fim por uma curiosidade juvenil. Participou de todos os grandes debates históricos e culturais, movimentos estéticos ou revoluções artísticas, sempre se engajando e explicando suas escolhas em ensaios de estilo e lucidez brilhantes. Não foi um diletante nem uma simples testemunha, foi sempre atuante, apaixonado pelo que se passava ao seu redor, sem nunca temer estar na contracorrente e enfrentar a impopularidade”.

Paz é um dos maiores poetas do século 20. Foi também um de seus pensadores mais corajosos e honestos. Não se pode querer mais de um humanista: ser universal na mais pessoal das manifestações da alma e sincero no território onde a verdade é reformada a cada estação. Para Paz, poesia e política eram manifestações do homem em suas possibilidades e contradições.

O centenário é sempre uma provocação para um olhar prospectivo, para aquilo que vai permanecer além do tempo. Às vezes, no entanto, em vez de olhar o que fica de um homem, talvez seja melhor examinar como viveu, essa temporalidade que não permite mistificação. Octavio Paz foi poeta e pensador que enfrentou o labirinto da solidão com suas armas e que convida seus leitores a fazer o mesmo. Ainda que o labirinto não tenha saída.

Ética das imagens [Sebastião Salgado]

Ética das imagens 
 
Fotógrafo mineiro Sebastião Salgado refaz sua impressionante trajetória de descoberta do homem e do planeta no livro Da minha terra à Terra 
 
Ângela Faria
Estado de Minas: 29/03/2014


Sebastião Salgado traz a Belo Horizonte, em maio, seu mais recente projeto, Gênesis (Jairo Goldflus/Divulgação)
Sebastião Salgado traz a Belo Horizonte, em maio, seu mais recente projeto, Gênesis

Ninguém tem o direito de se proteger das tragédias de seu tempo”, diz o fotógrafo Sebastião Salgado em seu pequeno livro de memórias, Da minha terra à Terra (Paralela), escrito em parceria com a jornalista Isabelle Francq. Esse mineiro dedicou 40 de seus 70 anos à fotografia. Fez de Leicas e Pentaxs “armas” de uma guerrilha particular contra a injustiça social. Refugiados, trabalhadores do mundo globalizado, vítimas de atrocidades na África, movimento dos sem-terra no Brasil – não há pobres “invisíveis” no planeta Salgado. “A fotografia é uma escrita”, diz ele. Luz é linguagem.

Aos 15 anos, o mineiro Sebastião deixou a fazenda da família em Aimorés, no Vale do Rio Doce, para estudar em Vitória, capital do Espírito Santo. Ralou como todo jovem remediado, formou-se em economia, engajou-se em movimentos antiditadura militar ao lado da mulher, a arquiteta Lélia. Na mira do temido SNI, o jovem casal esquerdista teve de fugir para a França. Sebastião se apaixonou pela África, mas em vez de relatórios e números, gostava mesmo era de fotografar o continente. “Reencontrei meu paraíso”, rememora.

Com o apoio de Lélia, o jovem e promissor tecnocrata largou tudo: apê bacana em Londres, carro do ano, conforto e estabilidade para se aventurar como fotógrafo. Os dois foram morar num minúsculo chambre de bonne parisiense, sem banheiro. A França ensinou solidariedade aos jovens expatriados: banho, só na casa de amigos.

Salgado fez nus, esportes e retratos. Fotojornalista, integrou as equipes das respeitadas agências Sygma e Gamma. Foi o único a registrar o atentado que o presidente norte-americano Ronald Reagan sofreu em 1981 – o furo ajudou a Magnum, onde o mineiro trabalhou por 15 anos, a superar dificuldades financeiras. Deixou a agência para apostar no projeto Êxodos, contundente relato da brutal migração humana. Naquela década de 1990, nada menos de 200 milhões de pessoas trocavam o campo pela cidade.

Salgado dedicou seis anos a Êxodos: fotografou gente da Índia à América Latina. Testemunhou também o drama de desabrigados, acompanhou tragédias causadas por guerras e “limpezas” étnicas, suas imagens denunciaram o genocídio em Ruanda. Num campo de refugiados, dois milhões de pessoas tentavam sobreviver à guerra entre hutus e tútsis. Abalado, o fotógrafo viu o corpo atacado por seus próprios estafilococos. Teve de ir a Paris para se tratar. Mas voltou para a África.

Em 1994, ele e a mulher criaram a agência Amazons Images. Os projetos – reportagens visuais que levam anos para ficar prontas – deram origem a vários livros. Entre eles, Trabalhadores, África, Êxodos, Retratos de crianças do êxodo e Terra – frutos de parcerias com entidades humanitárias e movimentos sociais.

Trabalho do fotógrafo Sebastião Salgado: elefantes perseguidos por caçadores na Zâmbia (Sebastião Salgado/Divulgação)
Trabalho do fotógrafo Sebastião Salgado: elefantes perseguidos por caçadores na Zâmbia


Gênesis Em Da minha terra à Terra, o fotógrafo confessa: chegou a perder a esperança no homem diante das atrocidades que presenciara. Ficou deprimido. Só redescobriu o mundo ao se dedicar ao projeto Gênesis, que deu origem ao belo livro lançado no ano passado. Em maio, as fotos ficarão expostas no Palácio das Artes e no Parque Municipal, em Belo Horizonte.

Homenagem de Sebastião e Lélia ao planeta, Gênesis mostra o quanto nos faz falta a sabedoria dos animais, dos vegetais e dos minerais. Não é exagero afirmar: foi quase uma jornada bíblica. Salgado chegou a andar 850 quilômetros na Etiópia; teve os pés lavados e beijados em aldeias habitadas por gente que se diz descendente da rainha de Sabá; aguentou 40 graus negativos para registrar a vida dos nenetses, na Sibéria; rastejou para se comunicar com tartarugas e iguanas; percorreu o Saara a pé às vésperas de se tornar setentão; passou dois meses entre os índios z’oés, na Amazônia.

Para nos contar tudo isso, o fotógrafo abdicou da cor. Para ele, só o preto e branco expressa a densidade do mundo. E que não se tache de “estética da miséria” a obra de Sebastião Salgado, sobretudo os projetos que expuseram a miséria humana. “Não me venham falar de voyeurismo!”, reage o mineiro zen, acusando políticos e o Conselho de Segurança das Nações Unidas pelos assassinatos que presenciou na África. “Fiz essas imagens porque tinha obrigação moral, ética de fazê-las”, escreve.

Para ele, todos somos responsáveis. “A sociedade de consumo da qual participamos explora e pauperiza enormemente os habitantes do planeta”, defende, dizendo que é dever do cidadão se manter informado a respeito das tragédias causadas pela desigualdade. “Esse é o nosso mundo, precisamos assumi-lo”, convoca.

DA MINHA TERRA À TERRA
• De Sebastião Salgado
• Com Isabelle Francq
• Editora Paralela
• 152 páginas, R$ 24,90

Cinema e preconceito [Comédia e Musical]

Cinema e preconceito 
 
Desprezados por parte do público intelectualizado, as comédias e os musicais podem ser eficientes instrumentos de crítica social e política. Ou, apenas, um bom, saudável e necessário entretenimento
 
Lúcia Helena Monteiro Machado
Estado de Minas: 29/03/2014


O cineasta Billy Wilder, gênio da comédia capaz de reflexões finas e divertidas sobre a estupidez humana (Cartman/Reprodução)
O cineasta Billy Wilder, gênio da comédia capaz de reflexões finas e divertidas sobre a estupidez humana

Tenho observado uma espécie de desprezo pelas comédias por parte de pessoas que amam o cinema. Consideram-nas um gênero menor. Valorizam somente os filmes “sérios”, aqueles que supostamente contêm uma mensagem ou levem à reflexão.

Lendo recentemente O prazer dos olhos, de François Truffaut, encontrei o seguinte texto: “Discute-se muito a propósito do que deve ser conteúdo de um filme: devemos nos ater ao divertimento ou informar o público sobre os grandes problemas sociais do momento? Fujo dessas discussões como o diabo da cruz. Acho que todas as individualidades devem se exprimir e que todos os filmes são úteis, sejam formalistas, barrocos ou engajados, trágicos ou ligeiros, modernos ou obsoletos, em cores ou em preto e branco, em 35mm ou em super-8, com estrelas ou desconhecidos, ambiciosos ou modestos... Só conta o resultado, isto é, o bem que o diretor faz a si próprio e o bem que faz aos outros”.

Em outro trecho, completa a argumentação: “Todos os gêneros são permitidos, exceto o gênero maçante”. Eu acrescentaria: há apenas filmes bons e filmes ruins. O gênero não determina a qualidade de um filme. Há filmes que mereceram da maioria dos críticos e dos amantes do cinema o título de clássicos. Ora, o termo clássico vem do grego e quer dizer perfeito. Merecem tal classificação filmes de várias categorias: o famoso Cidadão Kane, que revolucionou o cinema; o romântico Casablanca; o musical Cantando na chuva; a comédia Quanto mais quente melhor; a ficção científica 2001 – Uma odisseia no espaço; o faroeste No tempo das diligências, além de outros que poderiam entrar nas categorias de policial ou documentário. São filmes perfeitos, que não perderam sua qualidade com o passar do tempo. Como as grandes obras da literatura, de Romeu e Julieta a Don Quixote, são eternos.

Entra aqui a questão do gosto. Cada um tem suas preferências, que devem ser respeitadas. Eu, por exemplo, não gosto de filmes com efeitos especiais. É tão banal o que se pode fazer hoje com computadores que, para mim, isso não é cinema. Reconheço ser um preconceito.

E é sobre preconceitos que estou falando. Preconceitos determinados por uma posição intelectual deformada. Ora, alguns dos filmes mais sérios que já vi são comédias. Não há nenhuma comédia do genial Billy Wilder que não contenha uma excelente crítica da sociedade e dos costumes. E nenhum de seus filmes perdeu com o tempo, porque tratam de valores humanos fundamentais e permanentes. O fato de nos fazer rir o tempo todo é apenas a maneira que ele usa para nos dizer o que quer. E ele sempre quer ir fundo nas questões importantes para a humanidade.

Tomemos A primeira página. Foi baseado numa peça de teatro escrita por Bem Hecht e fez tanto sucesso que teve quatro versões para o cinema. A de Wilder é, de longe, a melhor. Estrelada por Jack Lemmon e Walter Matthau, se passa quase inteiramente na sala de imprensa de uma delegacia. Como se situa na década de 1950, ainda não havia celulares, evidentemente. Cada repórter tinha seu próprio telefone, com o qual se comunicava diretamente com seu jornal. Um condenado à morte, na véspera da execução, depende de um provável indulto do governador. Como era época de eleição, o prefeito da cidade tinha interesse no caso.

A primeira crítica de Billy Wilder é dirigida à imprensa, hoje chamada de mídia. Quando surgia um fato novo, cada jornalista se apressava em ligar para seu jornal dando a notícia. Ocorre que a notícia, supostamente verdadeira, mudava completamente, dependendo da linha adotada pelo jornal. Será que isso acontece hoje? Claro que sim. E acreditamos piamente no que nos está sendo transmitido pelo jornal que lemos, o que nem sempre é a verdade dos fatos, mas sim a interpretação dada pela linha do jornal.

Em seguida vem o comportamento corrupto do prefeito e do chefe da polícia, que estão pensando apenas em ser reeleitos e não na justiça ou não de enforcar um pobre diabo, sem mesmo tentar saber se ele é culpado ou inocente. Fica claro no filme que o prefeito recebe dinheiro para sua campanha e oculta fatos para se livrar de problemas. É diferente hoje? A pena de morte é questionada. Um homem pode ser executado apenas para satisfazer parte da opinião publica.

A psicanálise merece do genial diretor o tratamento mais irônico do filme. O psiquiatra austríaco só é capaz de raciocinar em termos psicanalíticos os mais banais, concluindo que o condenado cometera o crime por ter complexo de Édipo. Para dar realismo às teorias, entrega ao condenado um revólver carregado para fazer a reconstituição do crime. O resultado é hilário. Vale lembrar: Billy Wilder é austríaco.

Nos comentários finais, o diretor do jornal, um corrupto que seria capaz de matar a mãe para conseguir um furo jornalístico, se aposenta e vai fazer palestras sobra a ética no jornalismo! O filme é de 1972 e, como se vê, não perdeu em nada sua atualidade.

Diversão

O preconceito contra musicais, por não serem considerados “sérios”, é outro julgamento inaceitável. Como em relação a Cantando na chuva, que tem lindas canções, excelentes números musicais, ótimas interpretações, perfeito ritmo cinematográfico... O que quererem mais? O que as pessoas têm contra a diversão?

Com a comédia ocorre o mesmo. Por que, para lembrar do ditado, recusar um remédio que não tem efeitos colaterais? Provocar o riso é arte extremamente difícil. Fazer rir sem cair no deboche, no mau gosto, na simples caricatura é uma arte só alcançada pelos gênios. O que queria Carlitos, nas suas comédias curtas, o que queriam o Gordo e o Magro, senão fazer rir? Fazer chorar com recursos piegas é bem mais fácil.

Alguns filmes que são simples comédias, sem intenções de crítica social ou política, são também excelentes. Como Os eternos desconhecidos, de Mario Monicelli, de 1958. Estrelado por Vittorio Gassman, Marcello Mastroiani e Totó, conta a história hilariante de um grupo de assaltantes que resolve roubar uma joalheria e tudo dá errado. É para rir do princípio ao fim. Foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Não ganhou porque dificilmente uma comédia ganha o prêmio. Preconceito?

Um certo intelectualismo, que anda meio generalizado, tende a desprezar filmes que não tenham o chamado “papo cabeça”, que não levantem questões existenciais, sociais ou políticas. Ora, uma boa comédia pode levantar todas essas questões simplesmente usando o riso, ou pode ser uma diversão inteligente sem perder seu valor como obra de arte.

Volto a dizer: os filmes são simplesmente bons ou ruins, seja qual for a forma pela qual atingem o público que os aprecia. Uma simples comédia pode ser genial, assim como um filme pretensioso e intelectualizado pode ser apenas maçante.

Lúcia Helena Monteiro Machado é escritora.

Antes das palavras

Antes das palavras 
 
Aracataca, cidade natal de Gabriel García Márquez, evoca a história e os fantasmas de Macondo, a localidade mítica da Colômbia onde se passa a ação do romance Cem anos de solidão 
 
Carolina Braga
Estado de Minas: 29/03/2014

 (Álvaro Delgado/Divulgação)

Aracataca, uma cidade dividida entre o passado mítico e as demandas do presente (Álvaro Delgado/Divulgação)
Aracataca, uma cidade dividida entre o passado mítico e as demandas do presente


Aracataca (Colômbia) – Na parede branca, de rodapé azul, bem ao lado da janela com grade, algumas marcas conhecidas. Twitter, YouTube, Yahoo, Skype dividem um lado da fachada. Do outro aparecem Facebook, Google. O traço é imperfeito. Estão ali pintadas à mão. Na loja do lado, outra marca globalizada. Desta vez, produto para emagrecimento. Coisa de mundo em que basta olhar para saber o que é. A bicicleta verde, velha, de guidão enferrujado, estacionada na porta, é um contraste. Sinal de tempo. E que tempo!

De uma época bem anterior à invenção desse meio de transporte de duas rodas. Imagina, então, da internet. Quando aquele lugarejo não deveria ter mais do que 20 casas de barro e taquara. Em que o mundo era tão recente que, aí sim, era preciso nomear tudo e ainda apontar com os dedos para saber exatamente do que se estava falando. Onde a invenção do gelo surgiu com o sonho de fazer dali uma cidade invernal. O calor, porém, continua infernal e ainda assim ninguém tira daquele lugar o clima de realismo fantástico.

Pois mesmo com borboletas amarelas desenhadas nas paredes coloridas, ruas de concreto, mototaxistas por todos os lados, loja de produtos chineses e venda de créditos de celular, no imaginário de quem vive em Aracataca a cidade nunca vai deixar de ser Macondo. O município no interior da Colômbia, a 255 quilômetros de Cartagena, serviu de inspiração para a vila fictícia criada por Gabriel García Márquez em Cem anos de solidão. Será Macondo para sempre, porque há uma nova geração de cataqueños preparada para cuidar disso.

“Nossa cidade entrou na história por esse grande personagem ter nascido aqui, no dia 6 de março de 1927”, explica a estudante Valéria Sofia, de 10 anos. “Foi em um domingo, às 8h30”, completou Marlys Claro, de 11. Elas sabem mais coisas sobre a vida de Gabo de cor. Sobre os livros também. Valéria tem Diário de um náufrago como predileto, enquanto Marlys prefere Cem anos de solidão. Por mais que ela nunca tenha tido a chance de chegar perto de Gabriel García Márquez – a última vez em que ele esteve na cidade a estudante tinha apenas 4 anos –, um dos cenários do livro que escolheu para a cabeceira tem a ver com a família dela. O avô de Marlys mora duas casas depois daquela em que nasceu Gabriel, o Gabo. Não há dúvidas de que é o local mais emblemático de Aracataca.

Tal como o próprio romancista descreve a sala de José Acardio Buendía, o local onde moravam os avós – o coronel Nicolás Ricardo Márquez Mejía, a quem os netos chamavam Papalelo, e a avó Tranquilina Iguarán, tratada carinhosamente de Mina, também tem uma saleta ampla e bem-iluminada. Do mesmo modo, a sala de jantar é em forma de terraço, com flores de cores alegres no corredor. A casa existe dessa forma hoje em Aracataca, porque foi totalmente reconstruída, com o apoio de Gabo. A iniciativa partiu do compositor Jorge Carrillo Gusman.

Dois anos depois de o escritor ganhar o Nobel de Literatura, o autor do hino de Aracataca decidiu procurá-lo para propor a reconstrução de sua memória no município. “Busquei em Cartagena, no jornal El Universal, em que ele tinha trabalhado, até conseguir localizá-lo.” Como conta Gusman, Gabo vibrou com a ideia, enviou arquitetos de outros locais para conhecer o terreno. A casa reproduzida tal qual está registrada na lembrança hoje abriga o Museu Gabriel García Marquez.

A arquitetura segue o modelo antigo e os móveis e objetos que ali estão são exemplares da mesma época, porém não são originais. Gabriel García Márquez saiu de Aracataca aos 8 anos e nunca mais voltou a morar ali. No primeiro capítulo da autobiografia Viver para contar, ele narra a viagem que fez com a mãe ao lugarejo, na tentativa de vender a casa. Para Gusman, a inauguração do museu coincidiu com um movimento nas escolas de Aracataca de valorização da literatura de García Marquez.

“Houve um empoderamento de algo que se desconhecia e parecia utópico. Hoje as crianças já conhecem a literatura dele, inclusive têm uma disciplina dedicada a isso”, explica Gusman. O trabalho na sala de aula surgiu em um momento em que a relação entre o escritor e a cidade precisava ser vista de outro modo. Andava meio estremecida.

Contraste Se a nova geração de Aracataca hoje demonstra orgulho ao falar sobre García Márquez, os mais velhos sempre deixam transparecer certa mágoa do escritor. “Gabo não para aqui, mas é uma pessoa muito correta. Há uma quantidade de histórias sobre ele, umas boas outras más. Prefiro as boas”, despista o pedreiro Daniel Molina, enquanto compra uma sacola lotada de bananas verdes. Entre uma conversa e outra sobre as plantações de banana, Molina dá mais detalhes. Ele diz que há quem culpe o escritor por Aracataca não ter evoluído.

“Quando ele veio aqui, não consegui chegar perto, mas meu irmão foi o motorista do carro no qual ele andava. Contou que Gabo ficou superorgulhoso. Ele não pensava que Aracataca ia crescer tanto. Os políticos locais é que têm culpa de o povoado ainda estar atrasado. García Márquez queria que tivesse desenvolvido”, defende o pedreiro Victor Meriño. Assim como Daniel Molina, ele acha exagerada a cobrança dos veteranos.

Há mesmo ainda muita simplicidade e dificuldade no modo de viver por lá. À parte o tempo úmido e quente, nem água encanada é uma realidade para todos os moradores. Por isso, é comum que no banheiro das casas se encontrem grande galões. Apenas por um momento do dia a água pinga dos canos. É hora de encher o reservatório para depois tomar banho, escovar os dentes e lavar as mãos. Tudo de cuia. 

Se o município ainda necessita de infraestrutura básica para quem vive ali, imagine para receber visitantes. É praticamente inviável. O único albergue que existia em Aracataca fechou há poucos dias. Era mantido por um europeu, que, inclusive, adotou por conta própria o sobrenome de Buendía, tal como os herdeiros de Aureliano, personagem de Cem anos de solidão. Tem restaurante, repleto de referências ao personagem ilustre, mas ainda com estrutura muito caseira.

“Tem pessoas que são ressentidas pelo fato de Gabo não vir mais aqui. Para quê? Um Prêmio Nobel nascido em Aracataca é a mais bonita representação da cidade no mundo todo”, defende a professora Dora Osório. “Somos de Aracataca e queremos que este lugarejo fique melhor, tenha melhores ruas e outras condições. Gabriel já fez o que podia. Ganhou o Nobel e já nos fez aparecer internacionalmente”, completa a também professora Yadira.

O escritor Gilberto Tejeda credita a ausência de García Márquez em Aracataca ao enorme assédio. Gabo é um homem de hábitos simples, tal como seus conterrâneos, como diz Tejeda. “Aracataca é um lugarejo onde todos os escritores, pintores e poetas são silvestres, como as borboletas amarelas.” Com um livro que ele mesmo editou debaixo do braço, o cataqueño garante que ali é um lugar onde o incrível parece realidade. “Gabo narra isso com uma clareza impressionante. Aracataca tem muita história para contar. Leve este livro e leia-lo”, diz, entregando o exemplar de Los amores de um cabron soñador.

*A repórter viajou com a bolsa de jornalismo cultural oferecida pela Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano.