quinta-feira, 3 de abril de 2014

Calculadas as idades da Lua e da Terra - Isabela de Oliveira

Estado de Minas: 03/04/2014 

A partir do surgimento da Lua, pesquisadores estimaram a formação do Planeta Azul (Amr Abdallah Dalsh/Reuters - 19/10/13)
A partir do surgimento da Lua, pesquisadores estimaram a formação do Planeta Azul

Algumas histórias, como a da Lua, não são contadas facilmente. Não há manuscrito, hieróglifo ou registro ocular que revele como o único satélite da Terra surgiu. Até porque isso seria impossível, já que o processo ocorreu há bilhões de anos, em meio à formação do Sistema Solar. As pistas deixadas pela natureza são difusas e circunstanciais – basicamente, são indícios que permitem a dedução do que ocorreu. O consenso é de que a Lua nasceu de uma colisão violenta sofrida pela Terra, que estava em processo de formação. Mas até hoje ninguém sabe quando isso ocorreu exatamente.

Uma previsão recente, publicada na edição de hoje da revista Nature, parece ter resolvido o mistério sobre o nascimento da Lua. E, por tabela, possibilita o cálculo mais preciso da idade da Terra. A pesquisa liderada pelo Observatoire de la Côte d’Azur, na França, estima que a Lua surgiu 40 milhões de anos depois do nascimento do Sistema Solar, que tem 4,567 bilhões de anos. Depois do impacto, o Planeta Azul continuou seu desenvolvimento, que durou mais 50 milhões de anos.

Para chegar à idade estimada da Lua e da Terra, os cientistas utilizaram dois conjuntos de simulações. No total, consideraram 259 cenários que reproduziram as condições iniciais do Sistema Solar, com Júpiter e Saturno já posicionados onde estão hoje. A essa altura, ambos planetas já estavam relativamente formados. Na região onde a Terra orbita, os pesquisadores incluíram uma quantidade de embriões de planetas (planetesimais) cujas dimensões variam entre as da nossa Lua e de Marte.

Equações matemáticas foram aplicadas a ambos modelos. Elas simularam, por computador, o que poderia ter acontecido em cada uma das situações. Aos poucos, os planetesimais se aglutinaram e formaram os grandes planetas. Os resultados das simulações foram relacionados com a quantidade de elementos que vêm do espaço, como o irídio e a platina, encontrados hoje na Terra.

Esses elementos derivados de grandes colisões têm mais afinidade com o ferro e, por isso, são abundantes no núcleo do planeta. A partir dessas medições geoquímicas, os cientistas chegaram à conclusão de que a Lua surgiu em meio à formação da Terra, num processo que durou 90 milhões de anos.

Seth A. Jacobson, principal autor do estudo, diz que é a primeira vez que se data um evento do início da história do Sistema Solar sem medir o decaimento radioativo de alguns elementos. Até agora, essa era a única forma de compreender o início da cronologia. “O nosso método é independente de outros anteriores, e nos permitiu verificar que a Lua foi formada mais tarde. Isso também significa que o último grande impacto da Terra não ocorreu quando pensávamos. Nossos resultados convergem com a ideia de que a formação dos planetas é lenta. Exige condições especiais no disco protoplanetário e implica em como era a primeira atmosfera da Terra, o mar e o início das placas tectônicas”, demonstra Jacobson.

Paulo Eduardo de Brito, professor de Física da Universidade de Brasília, observa que o trabalho de Jacobson não contribui apenas para o entendimento da origem da Lua, mas também do nosso próprio planeta. “É importante conhecer a história da Terra e sua origem porque, ao saber como foi sua formação, podemos prever um pouco de sua evolução nos próximos milhares de anos. Entender onde você mora, e há quanto tempo existe, é importante para sabermos como aproveitar melhor nossos recursos”, avalia Brito, que não participou do estudo. 

Pesquisa revela os segredos do cérebro‏

Pesquisa revela os segredos do cérebro Beneficiados por programa lançado há um ano por Obama, cientistas publicam atlas da comunicação de células nervosas. Estudo pode desvendar mecanismos por trás de distúrbios 
 
Paloma Oliveto
Estado de Minas: 03/04/2014


Brasília – O cérebro humano é tão complexo quanto uma galáxia. De fato, estima-se o número de neurônios em 100 bilhões, a mesma quantidade de estrelas da Via Láctea. Esse misterioso e imenso universo compreendido no crânio comanda o corpo inteiro: de atos complexos, como pensamentos, a ações automáticas, como um piscar de olhos. Para isso, as células cerebrais trabalham todo o tempo em sintonia. Falhas na comunicação entre elas podem acarretar problemas variados, que vão de depressão a esquizofrenia.

Apesar da importância das conexões dos neurônios, elas ainda não foram completamente esclarecidas. “Estudar e entender melhor o cérebro é essencial para elucidar os mecanismos que estão por trás de inúmeros distúrbios do neurodesenvolvimento. O que tínhamos até agora, porém, não fornecia o grau de detalhamento que necessitamos para começar a desvendar a complexidade cerebral”, observa Ed S. Lein, pesquisador do Instituto de Ciência Cerebral Allen, de Seattle, nos Estados Unidos. Ele é um dos autores de uma pesquisa publicada na revista Nature que revelou o primeiro atlas com dados em larga escala do cérebro mamífero.

“Essa é uma iniciativa pioneira e revolucionária que nos fornecerá dados sobre como o sistema nervoso processa todo tipo de informação”, acredita. Há um ano, o presidente americano Barack Obama lançou a Iniciativa Cérebro, um projeto de US$ 100 milhões para financiamento de pesquisas com o objetivo de traçar um panorama completo de como se pensa, aprende e recorda. Um dos focos é o combate ao Alzheimer, doença neurodegenerativa que afeta mais de 35 milhões de pessoas em todo o mundo, com perspectiva de atingir o dobro desse número a cada 20 anos, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. A pesquisa publicada na Nature foi uma das contempladas com o patrocínio do governo.

O Atlas da Conectividade do Cérebro Roedor contém mais de 1,8 petabytes de dados, o equivalente um vídeo em alta definição com duração de 23,9 anos, e pode ser acessado gratuitamente online pela comunidade científica. As primeiras informações foram inseridas em novembro de 2011, e as mais recentes são do mês passado. Apesar do já robusto volume de dados, ele não está fechado e será atualizado à medida que forem realizadas mais descobertas sobre as conexões dos neurônios. O atlas pode ser acessado no endereço www.brain-map.org.


Erros genéticos O Instituto de Ciência Cerebral Allen realizou dois mapeamentos do funcionamento do cérebro. Um deles identificou alguns dos processos de expressão dos genes no órgão humano em desenvolvimento. Ed S. Lein, principal autor dessa pesquisa, explica que é ainda na fase embrionária e fetal que erros genéticos acabam provocando problemas na comunicação futura dos neurônios. “Esse ainda é um passo inicial, mas conseguimos, entre outras coisas, encontrar as regiões de expressão de muitos genes associados a distúrbios neurológicos e psiquiátricos”, diz.

O atlas, contudo, foi elaborado sobre dados de outro mamífero, o rato. Embora o cérebro do animal seja menor que o humano, com 75 milhões de neurônios, sua estrutura é muito semelhante ao nosso. Acredita-se que a comunicação entre as diferentes áreas cerebrais seja muito parecida nas duas espécies, o que torna o roedor um importante modelo de estudo do cérebro. Até agora, o único mapemaento completo de conexões cerebrais disponíveis era o do verme C. elegans, um organismo microscópico com apenas 302 neurônios.

Depois de coletar imagens com resolução menor que 1 micrômetro de mais de 1,7 mil cérebros, cada um deles dividido em 140 secções, os cientistas do Instituto Allen criaram um diagrama da atividade elétrica dos neurônios, chamado por eles de “connectome”. “É como o mapa da fiação elétrica de um edifício”, compara Hongkui Zeng, diretor de pesquisa da instituição. Em um software, as informações se transformaram em um mapa tridimensional da rede de comunicação do sistema nervoso central. “Isso nunca tinha sido feito antes. Temos detalhes sem precedentes de como as estruturas estão conectadas dentro do cérebro. O atlas é um passo crucial na compreensão da forma como o cérebro codifica as informações”, comemora Zeng.

Em nota, David Anderson, professor de biologia e pesquisador do Instituto de Tecnologia da Califórnia, que também participou do estudo, disse que o atlas é um mapeamento das “estradas” do cérebro no nível de rodovias estatuais. “Estradas menores e suas interseções com as interestaduais serão nosso próximo passo, seguido de mapas das ruas em diferentes municípios”, comparou. “Essa informação vai fornecer um ‘padrão de tráfego’ das informações que navegam pelo cérebro durante várias atividades, como tomada de decisões, aprendizado, lembranças e outros processos cognitivos e emocionais”, disse.

Também por meio de um comunicado de imprensa, Thomas R. Insel, diretor do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA, disse que o atlas é uma “ferramenta de valor inestimável” para toda a comunidade científica. “Esse mapa já está transformando a maneira como os cientistas enxergam o desenvolvimento do cérebro e de distúrbios do neurodesenvolvimento”, considerou. 

Hora certa para hábitos saudáveis - René Berindoague

Hora certa para hábitos saudáveis


René Berindoague
Diretor técnico do Instituto Mineiro de Obesidade e Cirurgia
Estado de Minas: 03/04/2014



É comum ouvirmos amigos e familiares dizerem “na segunda-feira, inicio a dieta”; “depois do Natal, começo as atividades físicas”; “depois do Carnaval, diminuo a ingestão de bebidas alcoólicas”; ou “depois da Páscoa, paro de comer tanto açúcar”. Nesse sistema, entra e sai mês, os hábitos saudáveis são postergados, quando, de fato, a ação não depende de uma data, mas apenas da iniciativa, vontade e disciplina de cada um. A hora certa de iniciar uma vida saudável, com prática de exercícios físicos e ingestão de dieta equilibrada, é agora.

O que observamos nos consultórios é que, depois de passar uma vida de adiamento dos hábitos saudáveis, quando as pessoas procuram ajuda médica, quase sempre já estão com a saúde comprometida. Sobrepeso, obesidade, obesidade mórbida, diabetes, problemas cardiovasculares, respiratórios e, até mesmo, envelhecimento precoce são resultados de uma vida cheia de “depois”.

Realmente, na vida moderna, há uma série de dificuldades que vão contra os hábitos saudáveis. Em média, uma pessoa em vida produtiva acorda às 6h para sair de casa às 7h e chegar ao trabalho às 9h. Provavelmente, toma o café da manhã por volta das 6h30 (pão com café). Ao chegar ao serviço, nem sempre consegue se lembrar de se alimentar por volta das 10h. Quando se dá conta, são 12h30 e o estômago pede uma alimentação de peso. Lá vai o prato com muita massa, fritura, quase nenhuma salada. No período da tarde, possivelmente, a rotina corrida não permitirá a ingestão de uma fruta, ou um suco. O retorno para casa se dá por volta das 20h. Em tempos de violência, não são todos que se permitem sair de casa após esse horário para a prática de uma atividade física, como caminhadas ou mesmo exercícios numa academia. Dessa forma, dia após dia, a vida saudável nunca acontece.

Embora existam, as dificuldades são maiores devido à falta de prática. O organismo não conhece as substâncias saudáveis, como as endorfinas, resultantes das atividades físicas e de uma dieta equilibrada. A preguiça e as desculpas vencem. Quando falo em dieta balanceada, não é sobre pratos apenas com salada ou cortar integralmente o consumo de doces. Mas, sim, sobre uma alimentação composta de alimentos realmente necessários ao organismo, bem equilibrada, sendo distribuídos ao longo do dia, de forma que não se chegue a sentir fome.

É preciso mudar o modo de ver a própria rotina. Mesmo com uma rotina tão intensa como a anteriormente citada, uma pessoa pode acordar 40 minutos mais cedo, por exemplo, e caminhar 30 minutos antes de ir para o trabalho. Ou, em vez de enfrentar o trânsito caótico das 18h, levar um tênis e fazer uma caminhada de 30 a 45 minutos nas imediações do serviço. Diversos estudos comprovam que essa prática, de 5 a 7 dias por semana, reduz o risco de ataque do coração em mais de 30%. Os idosos com mais de 75 anos e que caminham sempre têm até 45% menos chances de infarto. A mesma medida reduz o risco de câncer de mama, melhora a qualidade do sono, ajuda a conquistar e a manter o peso ideal, reduz o afinamento dos ossos, fortalece as articulações e diminui o estresse.

Sobre a alimentação, nem sempre temos opções saudáveis na rua para os lanches do dia. O melhor é levar esses alimentos de casa: frutas como laranja, banana, maçã, entre outras que não são caras se compradas em sacolão. É necessário disciplina para manter os horários de alimentação. Lembre-se que sua saúde deve estar em primeiro lugar. Como dito anteriormente, o melhor momento para se iniciar esses hábitos é agora. Com certeza, os resultados valerão o esforço. O investimento será muito menor que o valor gasto com remédios quando os problemas de saúde começam a aparecer.

STF vota contra doações de empresas a candidatos‏

STF vota contra doações de empresas a candidatos Para a maioria dos ministros, o financiamento feito pelo setor privado desequilibra a disputa eleitoral. Julgamento ainda não foi concluído e falta decidir se a regra já valerá para outubro 
 
Isabella Souto
Estado de Minas: 03/04/2014




"O poder financeiro acaba tendo influências sobre as decisões políticas do país. (O financiamento empresarial) macula todo o processo político desde a base de formação de alianças partidárias até o resultado das eleições deliberativas" - Marco Aurélio Mello, ministro do STF

As campanhas eleitorais bilionárias podem virar coisa do passado no Brasil. A maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu ontem pelo fim das doações feitas pelas empresas a partidos e candidatos. Para se ter uma ideia, nas eleições de 2012, 55 mil empresas doaram R$ 1,8 bilhão. Ao retomar ontem o julgamento de ação proposta pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) questionando a modalidade de doação, mais dois ministros votaram pela alteração na legislação que permite a participação de pessoas jurídicas nas campanhas. Apenas um deles votou contrariamente à opinião dos colegas.

O julgamento ainda não foi concluído, porque o ministro Gilmar Mendes fez um pedido de vista, mas como Marco Aurélio Mello e Ricardo Lewandowski pediram a antecipação do voto, a parcial já aponta pela declaração de inconstitucionalidade da lei que permite a doação por parte de empresas: seis votos favoráveis e um contrário. Não há um prazo legal para a continuidade do julgamento. E apenas depois do voto dos 11 ministros eles decidirão qual será a modulação dos efeitos da decisão – ou seja, a partir de quando a regra começa a valer. Relator da ação, o ministro Luiz Fux chegou a propor um prazo de dois anos para que o Congresso Nacional aprovasse uma lei estabelecendo critérios de doações. Caso em 18 meses nenhuma mudança seja feita, sugeriu que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) crie uma regra provisória.

Ainda faltam votar Cármen Lúcia, Celso de Mello, Gilmar Mendes e Rosa Weber, e até o final do julgamento todos os ministros ainda podem mudar os votos – embora a possibilidade seja remota. Pelo menos a julgar pelos argumentos apresentados pelos ministros ao proferirem seus votos. Presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Marco Aurélio Mello ressaltou a importância de uma definição sobre a regra em razão da proximidade do período eleitoral. “O poder financeiro acaba tendo influências sobre as decisões políticas do país. (O financiamento empresarial) macula todo o processo político desde a base de formação de alianças partidárias até o resultado das eleições deliberativas”, afirmou.

Ricardo Lewandowski, que concordou com o voto da maioria, foi enfático. “O financiamento de partidos e campanhas por empresas fere profundamente o equilíbrio dos pleitos, que nas democracias deve se reger pelo princípio do one man, one vote. A cada cidadão deve corresponder um voto, com igual peso e idêntico valor. As doações milionárias feitas por empresas a políticos claramente desfiguram esse princípio multissecular”, discursou

Caixa dois O ministro Gilmar Mendes, que pediu para adiar o seu voto, justificou que esta é uma “questão complexa”. Para Mendes, somente os partidos menores e os candidatos com menos recursos seriam prejudicados com o fim das doações de empresas. Além disso, ressaltou que a medida não vai impedir o repasse ilegal para os comitês, o chamado caixa dois.

“Os partidos que estão no poder e que já têm recursos só precisam de mais algumas centenas de milhares de CPFs para novas distribuições. Certamente haverá pessoas pobres que doarão seu salário porque receberão dinheiro para isso. Basta ver o fenômeno de doação para saber como isso opera. Os partidos que tiverem base de raiz vão operar com essa lógica e já operam. O dinheiro não é problema. O problema é encontrar CPFs para fazer essa distribuição”, argumentou Gilmar Mendes.

Atualmente, o financiamento de campanhas eleitorais no Brasil é público e privado. Políticos e partidos recebem dinheiro do Fundo Partidário (formado por recursos do Orçamento, multas e doações), de pessoas físicas (até o limite de 10% do rendimento) e de empresas (limitada a 2% do faturamento bruto do ano anterior ao da eleição).