sábado, 5 de abril de 2014

João Paulo - Acontece que são baianos‏

Acontece que são baianos
Gilberto Gil lança disco com canções que foram eternizadas por João Gilberto. Álbum é uma antologia de sambas que ganham camadas de sentido, sem deixar de reverenciar a tradição
João Paulo
Estado de Minas: 05/04/2014



Gilberto Gil torna suas as canções que foram recriadas pela arte de João Gilberto: não pode haver respeito maior

Gilberto é o primeiro nome de Gil e o segundo de João. Por isso o plural: Gilbertos. O disco tem ainda sobrenome, Samba. Ficou assim: Gilbertos Samba. O álbum é uma homenagem de baiano para baiano, de Gilberto Gil para João Gilberto. Ao somar seu nome ao do artista que o inspira desde o começo da carreira, Gil foi sagaz. É disco de seguidor, mas que, em honra ao mestre, inventou seu próprio caminho. Gil canta ao seu jeito canções que são de João.

A ideia de homenagear João Gilberto parece fazer parte do projeto de todo cantor brasileiro a partir da bossa nova. O canto joão-gilbertiano é um padrão: voz límpida, divisão perfeita, balanço, acompanhamento sofisticado ao violão. Não sobra nada. Tudo que João toca se torna ele mesmo. Um estilo. Caetano às vezes canta como João Gilberto, outras compõe pensando nele. Mas todas as homenagens podem se tornar pequenas, afinal de contas, a perfeição não tem parâmetros.

Por isso, Gilberto Gil fez um disco tão original. Ele não quis imitar ou emular João. Seu alvo era outro: o Gilberto que é comum aos dois. Compositor plural, cantor criativo e excelente violonista (dos poucos da música popular capazes de se comparar com João), Gilberto Gil decidiu gravar um disco de sambas, com repertório de temas de João Gilberto e duas composições inéditas, a instrumental Um abraço no João e a programática canção Gilbertos.

Para levar adiante o projeto, Gil escolheu como produtores o filho Bem e o filho de Caetano, Moreno. Tudo parecia indicar o caminho natural do banquinho e violão, que Gil já havia trilhado (de forma sublime, é bom relembrar, em Gil luminoso). Mas Gil nunca foi de ir pelo caminho mais fácil. Convidou Domenico para tocar em todas as faixas – percussão e eletrônicos, além de palmas e ruídos –, ao lado de instrumentistas de diferentes escolas e inclinações musicais: Mestrinho (acordeão), Nicolas Krassik (violino), Pedro Sá (guitarra), Danilo Caymmi (flauta), Dori Caymmi (violão) e Rodrigo Amarante, que assina um arranjo, além do naipe de sopros em algumas faixas.

O resultado é um disco de sonoridade rica, mas profundamente fincado no jogo de voz e violão. Os instrumentos entram para acentuar intenções e até para destacar o silêncio, que em João Gilberto é sempre funcional. Assim, as palmas, sons de lixa e faca raspando no prato atuam no contratempo, marcando ritmo apenas sugerido pelo violão em João Gilberto, como na faixa de abertura, Aos pés da cruz (Marino Pinto e Zé da Zilda).

Em Desafinado (Tom Jobim e Newton Mendonça), o silêncio do violão de  João ecoa no bumbo longínquo de Domenico. Canção que, com Chega de saudade (que não está no disco), ajudou a definir a ética da bossa nova, Desafinado chega cheia de histórias e provocações, inclusive com guitarras. De manifesto de uma nova sensibilidade, já suficientemente incorporada, ela ganha outro sentido. O que permite inclusive uma feição mais amorável, flexível, como se convocasse todas as formas de distorção, tolerante, relaxada.
A voz e o canto de Gilberto Gil são outros aspectos que dão ainda mais força a Gilbertos Samba. Tudo que em João mira para o minimalismo, como a ausência de vibratos, notas pouco elásticas e a flecha que atinge o alvo da concisão em seu risco calculado, em Gilberto Gil permite expansão, ensaio e, inclusive, erro. Gil é cantor de rock e baião, o que enriquece sua voz de possibilidades expressivas. No novo disco, ele arrisca nos agudos e exibe graves no limite da musicalidade, como Em desde que o samba é samba (Caetano Veloso). Em vários momentos, ele é totalmente antiJoão, ao amaciar a voz e cantarolar melodias suaves para desfazer a tensão.

Em Eu sambo mesmo (Janet de Almeida), a percussão rascante, quase um ruído, parece comentar a letra que extravasa da melodia, dando um jeito recitado e anguloso ao canto, que é suavizado pelas passagens melódicas marcadas pela flauta. Uma afirmação do samba como singularidade, que ganha comentário na própria forma como é apresentado, mais uma herança metalinguística de João. Já a indefectível O pato (Jaime Silva e Neza Teixeira), tem introdução com escala dissonante que logo é capturada pelo ritmo da canção, com síncopas características.

Orquestra Em outros momentos, como em Você e eu (Lyra e Vinicius), a sonoridade, ainda que inusitada, funciona como nas orquestras de Claus Orgeman, criando climas que acentuam a condução da canção pela voz e o violão. O arranjo de Rodrigo Amarante é o mais trabalhado de todo o disco e faz uma ponte entre gerações, com Gil representando ao mesmo tempo a tradição e a modernidade. Mais JG, impossível.

As canções de Dorival são lembradas com dupla reverência, ao compositor e ao intérprete. Em Milagre, Gil conduz a canção como um canto de trabalho; Doralice parece brincar com a versão jazzística de Stan Getz (no álbum Getz/Gilberto), com o acordeão fazendo o sax, trazendo uma sombra de baião soprado do pé das serras da memória. Uma orquestra fantasma.

Eu vim da Bahia, do próprio Gil, traz Bem Gil na guitarra e tem arranjo com baixo, bateria, acordeão e violino. A música, que havia sido recriada por João, ganha sonoridade tropicalista, classificada por Caetano no encarte como uma composição reduzida a um “modalismo primitivista”. Gil só pode se assenhorar da própria canção porque ela passou pelas mãos de João Gilberto. O outro, o mesmo.

No capítulo das inéditas de Gil, boas surpresas. Na instrumental Abraço no João (que evoca Abraço no Bonfá, de JG), a percussão é quase um metrônomo, que faz uma moldura rítmica para o violão que alterna blocos de acordes com trechos melódicos, que vão sendo sutilmente variados. Em Gilbertos, que fecha o disco, o destaque é o violão em ponteados, como nos sambas de roda – sem esquecer a percussão no prato, mais uma herança do Recôncavo.

Com tudo isso, Gilbertos Samba é um disco para se ouvir muitas vezes, atento a detalhes da interpretação, à inteligência dos arranjos, ao virtuosístico violão de Gilberto Gil, tão inspirado e tão diferente do de João Gilberto. A cada faixa, a primeira tentação é a de buscar as semelhanças e diferenças em relação ao original, até que Gil se impõe e mostra porque o plural é a concordância mais acertada para cada canção.

Humilde, no fim do programa, em Gilbertos, Gil aceita o julgamento de Caymmi, que vaticinou que nasce um Gil a cada 25 anos. Mas reforça que, noutro patamar, surgem gênios de 100 em 100. Como o próprio Dorival e João, absolutos no panteão dos baianos. É ótimo que os gênios existam, mas é fundamental que os grandes aprendizes continuem de onde eles pararam.

Gil, consciente e luminoso, segue “ampliando-lhe a voz e o violão”.


Gilbertos

Gilberto Gil

Aparece a cada cem anos um
E a cada vinte e cinco um aprendiz
Aparece a cada cem anos um mestre da canção no país

Foi Dorival Caymmi quem nos deu
A noção da canção como um liceu
A cada cem anos um verdadeiro mestre aparece entre nós
E entre nós alguns que o seguirão ampliando-lhe a voz e o violão

É assim que aparece mestre João e aprendizes professando-lhe a fé
Um Francisco, um Caetano algum Roberto e a canção foi mais feliz

Aparece a cada cem anos um
E a cada vinte e cinco um aprendiz
Aparece a cada cem anos um.

ORELHA

Orelha 
 
Estado de Minas: 05/04/2014


Mary Shelley foi do terror às histórias românticas com final feliz (Wikipedia/Reprodução)
Mary Shelley foi do terror às histórias românticas com final feliz

Aventura humana

Mary Shelley (1797-1851) foi uma mulher extraordinária. Filha do filósofo William Godwin e da escritora Mary Wollstonecraft, defensora da igualdade feminina, ela foi ainda mulher do poeta romântico Percy Shelley e autora de uma das mais conhecidas histórias de terror de todos os tempos, Frankenstein ou o moderno Prometeu, de 1818. Dois anos depois de seu livro mais famoso, Mary Shelley lançaria uma breve história juvenil, Maurício ou a cabana do pescador, que acaba de ser lançada no Brasil pela Editora Graphia, em tradução de Luciana Viégas. A narrativa, bem ao molde romântico, tem como personagens um menino que foge da violência do pai e chega a um pequeno povoado do litoral inglês, um velho pescador viúvo e um homem em busca de seu filho, desaparecido ainda criança. A edição é muito caprichada, com ilustrações de época e interessante posfácio da tradutora.


Ditadura

Memória, justiça e verdade – A parte visível, organizado por Virgílio de Mattos, foi lançado esta semana em Belo Horizonte. O livro é resultado dos encontros do grupo de pesquisas que se reúne semanalmente, há cerca de um ano, na Faculdade Estácio de Sá, em Belo Horizonte. Entre os temas debatidos estão os processos ditatoriais no Cone Sul. O volume traz a última entrevista de Universindo Diaz Rodriguez, militante uruguaio sequestrado em Porto Alegre, um dos raros casos de documentação da Operação Condor, que morreu em consequência das torturas sofridas no Brasil.

 (Adalberto Roque/AFP)

Padura

O romancista cubano Leonardo Padura (foto) estará no Brasil entre os dias 12 e 16 para lançar o celebrado O homem que amava os cachorros (Boitempo). Leon Trótski e Ramón Mercader são personagens centrais do thriller histórico, que tem como contraponto o fictício Ivan Cárdenas Maturell, um aspirante a escritor. Sucesso de público e crítica em todo o mundo, o livro parece ter surpreendido a própria editora brasileira: está difícil encontrar o romance nas livrarias. Padura participa de agenda em Brasília, na 2ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, e de lançamentos em São Paulo e no Rio de Janeiro.


Flusser

O pensamento do filósofo tcheco Vilém Flusser, que viveu 30 anos no Brasil e é autor de importantes reflexões sobre a questão da imagem no mundo contemporâneo, é tema de livro organizado a partir de seminário internacional realizado na UFMG. Imagem, imaginação, fantasia – 20 anos sem Vilém Flusser é organizado pelos professores Rodrigo Duarte, Alice Serra e Romero Freitas. O livro será lançado no dia 12, às 11h, na Livraria Quixote, Rua Fernandes Tourinho, 274. A edição é da Relicário.


Cultura


Corpos pagãos – Usos e figurações na cultura brasileira (1960-1980), de Mario Cámara, é o novo título da Editora UFMG. O livro coloca em relação as artes plásticas, a literatura e a música de um período inovador e polêmico da cultura brasileira, marcado por obras de Glauco Mattoso, Hélio Oiticica, Lygia Clark, Jorge Mautner, Roberto Piva, Torquato Neto, Waly Salomão e Paulo Leminski.


Torquato

E por falar na geração que mudou a cara da cultura brasileira, quem ganha biografia é o poeta e compositor Torquato Neto. O autor da aventura é o jornalista curitibano Toninho Vaz, que já escreveu a biografia de Paulo Leminski (que está fora de circulação por interferência da família do poeta). A biografia de Torquato Neto oferece não só um retrato de corpo inteiro do artista quando jovem, mas também uma visão do espírito libertário que animou toda uma geração. O livro sai pela Nossa Cultura.


Quadrinhos

Pode parecer fácil, mas fazer HQ no padrão profissional não é para qualquer um. Pensando nisso, a Editora Martins Fontes lança o livro Como desenhar quadrinhos no estilo Marvel, de Stan Lee e John Buscerna. Lee é cocriador de Homem-Aranha e X-Men, entre outros; e Buscerna é o artista por trás do Surfista Prateado e Conan, o bárbaro. Com muitos diagramas e dicas, o livro revela segredos e ferramentas para quem deseja criar seu próprio gibi.


Lançamento

A obra de ficção medieval A fabulosa terra de Lúmens, do jovem escritor mineiro Tiago Leão Barbosa, será lançada segunda-feira, às 19h, na Biblioteca Estadual Luiz de Bessa – Praça da Liberdade, 21, Funcionários, em Belo Horizonte. É o primeiro de quatro livros que será publicado pela portuguesa Chiado Editora. O autor tem apenas 22 anos, é natural de Belo Horizonte e cursa comunicação social na PUC Minas.

Faz sentido sentir - André di Bernardi Batista Mendes

Faz sentido sentir 
 
Professor de literatura na USP, Alcides Villaça lança Ondas curtas, seu quarto livro de poemas. Autor diz que trabalho criativo não compete com a crítica 
 
André di Bernardi Batista Mendes
Estado de Minas: 05/04/2014


Rain room (2012), mostra apresentada no Museu de Arte Moderna de Nova York (Timothy Clary/AFP)
Rain room (2012), mostra apresentada no Museu de Arte Moderna de Nova York

Depois de O tempo e outros remorsos, de 1975, Viagem de trem, de 1988, e do infantil O invisível, de 2011, o poeta e crítico literário Alcides Villaça lança Ondas curtas, pela Editora Cosac Naify. Alcides capta a poesia que sugere um resumo de silêncios, fala de palavras que servem para remendar, fala dos nossos sustos diários. Alcides, que não compõe livros, mas simplesmente escreve poemas, transita com desenvoltura nas ambiguidades do mundo. Os poemas de Ondas curtas estão dispostos em seções temáticas: “Câmara de eco”, “Suas sombras”, “Playback”, “Notícias” e “Surdina”. Os vínculos e o ofício do professor, o amor pela música e pela literatura, lembranças da infância, tudo serve para a poesia deste bom poeta.

Em sua nova aventura literária, Alcides não atormenta o verso, não interfere no voo dos pássaros. O poeta aprendeu, com o tempo, com a experiência, a vivenciar a poesia no que ela traz de mais amplo. O poeta, assim, encontra similaridades, por exemplo, entre um cão e um menino, dentro do tempo, da memória, do sentimento: “o olhar do menino/ o olhar pensativo do menino/ sentado no cachorro.// (o menino sentado no cachorro/ esperou cinquenta anos/ para se olhar pensativo/sentado no cachorro)”.

Alcides não faz distinção entre alto e baixo, tudo são alturas, no plural, cão e menino, pedra e pau, fauna e floras. Mais é mais, faz de conta, pois faz sentido sentir, até aprendermos a navegar por aí. Alcides capta ondas de altas voltagens. Dos hinos todos, ficam somente as lembranças, uma sensação de pertencimento; mas isso é pouco, “nada nos explica”, já disse Drummond. Mais, ficarão os versos, quando fortes. Os poemas de Alcides não levantam bandeiras, mas sugerem ventos.

Intercalando grandes momento com alguns deslizes (bem poucos), os poemas de Ondas curtas mostram a força de um poeta pronto para o bom combate. Dizer que todo poeta sente é o mesmo que aceitar que a pedra dura. O poeta descaça rumos, finge de égua, ele fala de águas, conclama “os passarinhos do mundo/ que só quando cantam sabem de alimentar”.

O poeta faz brilhar quando renasce em nós nossas coisas esquecidas. Ele vai atrás do rumo que tomou o vento. A poesia de Alcides guarda armadilhas, joga sementes dentro de uma suposta e natural simplicidade. “A missão da poesia/ é muito precisamente/ ser/ o que/ não há/ fora/ da poesia”. É difícil lançar luzes sobre algo que não morre. Cabe também a música nesse rol de encontros e sortilégios.

Isso porque Alcides percebeu que tudo tem uma certa função no mundo. O poeta não impõe hierarquias e não desmerece as coisas poucas, que não são nada poucas. Alcides ensina que as almas são necessariamente carregadas de sumos. O poeta bebe dessa fonte, e fala, dentro de um êxtase, sobre tudo que respira. Alcides inventa para seus poemas musicalidades, acordes que dançam pelos meandros de uma subjetividade nada complicada, mas profunda: “o coração da poesia/ são as metáforas// Para inventá-la/ há que evitá-las”. O poeta não precisa do objeto em si, e confunde o leitor numa trama de rosas: “O assunto da poesia/ é outra coisa// Quanto mais idêntica a si mesma/ Mais familiarmente estranha”.

Ondas são apenas ondas, curtas, médias, altas de sal, sol e maresia. Barcos não são apenas barcos. A poesia de Alcides é inclassificável. É orgânica, vem do instinto, da lucidez que só o discernimento poético pode alcançar. É preciso um bom tempo de espera e maturação para que as maldades do mundo se transformem em dádivas. O poeta de Ondas curtas sabe que existem águas turvas, ruídos e “mil imagens calorosas”.

Alcides não é um só. Ele trabalha dentro do mistério: ele, assim , solta e fecha, ele tem humor, é notívago, é faminto, sonâmbulo, é pintor, com seus “dedos de água”, é sutil e seco, é ambíguo, e puro. Eis a síntese dessas ondas de mares, de alcance indefinido. O poeta tem certeza, mas só quando descobre o mundo. Alcides viu: existem signos que nunca se movem. Se existe pedra sobre pedra, o poeta deixa pedra sobre pedra. Não parece óbvio acatar, dizer que existe uma parcela de dor, que empurra o ir das horas. Poesia nunca foi e nunca será adorno. A poesia revela: somos feios, sujos e malvados. A poesia amplia as cores, conserva as árvores, renova, recria o que ainda não existe. A poesia regula, atualiza a máquina de produzir agoras, nada mais do que “a mecânica do livre respirar”. Alcides Villaça nasceu em Atibaia, em 1946. Cursou letras na USP, onde é professor de literatura brasileira desde 1973. É dele também o livro de ensaios Passos de Drummond, lançado em 2006.

ONDAS CURTAS
• De Alcides Villaça
• Editora Cosac Naify


Quatro perguntas para...

Alcides Villaça
Poeta e professor

Você, além de poeta, é crítico e professor de literatura. De que forma essas outras funções interferem na sua poesia?

Sou sobretudo professor de literatura, interessado tanto em compreender objetivamente a poesia como em fazê-la cantar com a beleza que lhe é própria. Às vezes o poeta que dorme em mim interfere um tanto sentimentalmente no trabalho do professor, e às vezes o professor e crítico tira um pouco do impulso mais natural do poeta. Mas não brigam muito, não.

De que forma você lida com as demandas do dia a dia e da inspiração? Você escreve diariamente, tem alguma rotina fixa voltada para a literatura, para a poesia?
Fiquei muito tempo sem escrever quase nada de poesia. Meu livro Ondas curtas compreende poemas que foram escritos espaçadamente ao longo dos últimos 20 anos. Agora estou escrevendo mais regularmente, interessado em compor algo mais orgânico e regular.

Você costuma reler ou, ainda, refazer os seus poemas?
Não como seria necessário. Não sigo o conselho de Drummond: conviver com os poemas, até lhes dar a forma definitiva.

Você tem trabalhos sobre Carlos Drummond e Ferreira Gullar. Quem são os grandes poetas brasileiros de hoje?
Depois da geração do Gullar, poeta que ainda está em franca atividade, surgiu muita gente boa, mas ainda é cedo pra falar em “grandes poetas brasileiros”, poetas “federais” (como já os chamou Drummond). Entre as dezenas de poetas que poderia citar como realizadores já provados destaco o nome de Orides Fontela, que nos deixou há alguns anos e nos legou uma poesia de rara concisão, beleza e profundidade.

Infância sem lar - Adalgisa Arantes Campos

Infância sem lar 
 
O historiador Renato Franco estuda o abandono de recém-nascidos na Vila Rica do século 18. Livro analisa o destino dos enjeitados na sociedade 
 
Adalgisa Arantes Campos
Estado de Minas: 05/04/2014


Jantar no Brasil, de Debret, aquarela que integra a série Viagem pitoresca e histórica ao Brasil (Fundação Biblioteca Nacional/Reprodução)
Jantar no Brasil, de Debret, aquarela que integra a série Viagem pitoresca e histórica ao Brasil

Renato Franco principia A piedade dos outros - o abandono de recém-nascidos em uma vila colonial, século XVIII, obra recentemente editada pela FGV, a partir de relato inusitado, o de Cipriana, criança branca criada pela escrava Joana de Videira, preta mina que deliberadamente matara seu recém-nascido porque ele era muito escuro, e como ela queria “conservar a amizade com o dito seu senhor”, tratou de dar um fim àquele rebento, matando-o afogado, e colocando em seu lugar uma enjeitada branca. Assim, a Cipriana, “filha de mulher branca e honrada que a enjeitou por não padecer infâmia na sua honra”, viveu como escrava por duas décadas. A partir desse exemplo dramático, Renato Franco introduz o tema do abandono de recém-nascidos na época moderna (1500-1800), que, embora fosse condenado moralmente, constituía uma alternativa menos cruel em relação ao infanticídio.

Nessa introdução, o autor retoma os estudos bibliográficos sobre a história da criança, bem como das Misericórdias, instituição responsável pela “roda de expostos”, móvel específico que girava entre o exterior e o interior, garantindo a privacidade de quem depositava a criança e, ao mesmo tempo, sua segurança. De imediato, fica anunciado que, em Vila Rica, sede da Capitania das Minas Gerais, não foi instalada uma roda de expostos tal como existiu em Salvador e no Rio de Janeiro, e que a Irmandade da Misericórdia foi tardia (quarta década do século 18) e ineficaz, por não haver criado a dita roda. Ademais, o abandono não se restringiu às crianças brancas, que poderiam ser motivos de “infâmia” para os genitores. Mais ainda, havia um segredo, uma verdadeira cumplicidade dos conhecidos e vizinhos em torno da origem das crianças expostas, conluio que permitiu, inclusive, que Cipriana, nascida livre, fosse reduzida ao cativeiro. Esse silêncio em relação à fraqueza alheia pode ser interpretado também como o zelo em não pecar com a língua, pois o que nós criticamos no alheio pode nos atingir também (Epístola de Tiago).

Como chegar a relatos tão personalizados e circunstanciados historicamente e, ao mesmo tempo, trabalhar com exaustivas cifras sobre o abandono de crianças, taxas de ilegitimidade, quantias gastas com os criadores com o sustento dos abandonados? A bibliografia utilizada – bastante exaustiva – foi lida diligentemente. As fontes históricas usadas nessa obra são variadas – legislação sinodal, ordenações filipinas, editais do Senado da Câmara e, sobretudo, uma série contínua, sistemática, de atas de batismo da Paróquia de Nossa Senhora do Pilar de Vila Rica. Tão logo a criança era encontrada, necessitava ser batizada, e nesse documento consta a sua “condição de exposta”, que poderia ser resgatada se seus genitores chegassem a se casar, o que acontecia, mas era ínfimo diante das grandes quantias de exposição.

Por sua vez, os registros de óbito, com surpreendente continuidade, atestam o quão difícil era superar o período da lactação e, por fim, as atas de casamento nos mostram expostos que finalmente conseguiram chegar à idade adulta e até realizar um matrimônio auspicioso, com ascensão social. Essas três séries paroquiais, que constituem um raro patrimônio da Paróquia de Nossa Senhora do Pilar, de Ouro Preto, foram cotejadas, os dados foram cruzados e devidamente circunstanciados com uma documentação variada.

Vejamos como o autor continua expondo sua admirável pesquisa nessa obra que nos dói na alma por tratar de recém-nascidos abandonados em horas desertas nas soleiras de domicílios de Vila Rica, sede da Capitania das Minas Gerais, na expectativa de que fossem encontrados por pessoa disposta ao imediato acolhimento ou a providenciar um acolhimento nas vizinhanças e, nessa impossibilidade, que fosse a entrega definitiva dos pequenos desvalidos ao Senado da Câmara para o encaminhamento legal. Daí o título A piedade dos outros..., que nos entretém com sofreguidão na leitura, numa esperança de que haja um pouco de sanidade e felicidade na história humana, mas que nos desilude com dados e informações objetivas a indicar que boa parte daqueles inocentes falecia já no período de lactação, virando anjinho no céu, crença vigente para nos confortar das perdas. Em muitos casos, a capa de compaixão é desnudada com o concomitante interesse financeiro do criador ou criadora, que não deixava de comparecer ao Senado para o recebimento daquela bolsa, digo, daquela espórtula.

Sobrecarregada com o aumento das despesas, a Câmara não consegue manter seus compromissos com aqueles que detinham a criação dos enjeitados. Em princípio, o ressarcimento pela criação dizia respeito à criança branca, mas em um contexto escravista, com altas cifras de ilegitimidade e miscigenação, a Câmara foi instada a atender também as crianças negras e mestiças. A decepção aumenta ao constatarmos que essa abertura das autoridades régias, com a ampliação do tributo, conduziu paradoxalmente ao aumento das cifras de exposição, embora não tenha atingido uma formalização da função de criador. Passamos a ter um pouco de clemência ao considerar que aquelas mães escravas queriam uma sorte melhor, uma vida fora do cativeiro, ainda que sob o risco de morte.

Criar temporária ou definitivamente uma criança abandonada consistia prática costumeira, compartilhada pelas gentes coloniais. E, assim, muitas crianças iam passando de casa em casa, algumas com a possibilidade de alcançar a afeição, um acolhimento de fato cristão; outras vezes, não passando de agregados a contribuir no serviço e nas receitas do lar respectivo. A partir dessa leitura, podemos ver nos agregados listados pelo Recenseamento de Vila Rica (1804) como um potencial exposto. Renato Franco documenta exaustivamente a flutuação das cifras de abandono vila-riquenhas, aumentadas vertiginosamente a partir de 1740, quando de fato a Câmara passa a assumir o sustento dos inocentes negros e mestiços, legalização do tributo que acaba suscitando o aumento substantivo do abandono. A Câmara passou a assumir, isso não que dizer que ela passou a pagar de fato ao conjunto de criadores.

Compaixão O professor Renato Pinto Venâncio, estudioso da criança, mas não da exposição em si, muito traquejado em fontes arquivísticas, é autor do texto da orelha do livro, construído a partir da explicitação do sentido do termo compaixão, passando pelas motivações que levavam ao abandono e ao temor coetâneo de que a criança não fosse batizada, em uma sociedade que era escravista, bastante miscigenada e católica.

Como professora de história da arte, destaco que Jean-Baptiste Debret, professor de pintura histórica, que esteve no Brasil entre 1816 e 1830, embora fosse considerado excelente professor e tenha formado gerações de artistas por meio de suas aulas na Escola Imperial de Belas Artes, teve uma pintura medíocre, como também era a produção de seus contemporâneos, marcados pelo neoclassicismo e concomitante sistema de mecenato (dom Pedro II financiava a escola).

Por sua vez, suas aquarelas continuam reveladoras da vida cotidiana, sendo difícil encontrar naquele período quem a ele se iguale. De maneira que a primeira parte da apresentação feita pelo colega Luciano Figueiredo não se aplica ao conteúdo da aquarela e muito menos ao artista que nos deixou a utilíssima Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, empregada inevitavelmente para ilustrar os livros didáticos e acadêmicos. Na segunda parte da apresentação, o tom é literário, assim, o colega deixou uma oportunidade ímpar para analisar o que entende tão bem, a história de Minas colonial.

Adalgisa Arantes Campos é professora do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)


A piedade dos outros - o abandono de recém-nascidos em uma vila colonial, século XVIII
• De Renato Franco
• Editora FGV
• 256 páginas, R$ 38