domingo, 6 de abril de 2014

Herói sem rosto? [Tiradentes] - Ana Clara Brant

Herói sem rosto?
 
Tiradentes e sua história desafiam pesquisadores e jornalistas que trabalham em livros sobre sua vida e atuação política. Joaquim José da Silva Xavier também inspira filme e série de TV


Ana Clara Brant
Estado de Minas: 06/04/2014



Imagem de Tiradentes produzida para o livro 1789, de Pedro Doria, feita a partir de depoimentos de época: longe do estereótipo   (Nova Fronteira/Reprodução  )
Imagem de Tiradentes produzida para o livro 1789, de Pedro Doria, feita a partir de depoimentos de época: longe do estereótipo



Quem de fato foi Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746-1792)? Mesmo sendo um personagem mais famoso e estudado da Inconfidência Mineira, ele ainda é envolto em mistério e sombras. Não se sabe ao certo onde nasceu ou como era o seu rosto, mas dois livros escritos por jornalistas prometem revelar um pouco mais dessa emblemática figura histórica.

O primeiro deles é 1789 – História de Tiradentes – Contrabandistas, assassinos e poetas que sonharam a independência do Brasil (Editora Nova Fronteira), que está chegando às livrarias, do jornalista Pedro Doria. Na publicação, o autor mostra a luta dos inconfidentes por um Brasil independente e traz o rosto daquele que ficou conhecido como o grande herói do movimento. “Pelos relatos da época e de historiadores, Tiradentes era um homem alto, grisalho, a barba benfeita, bigodes bem-aparado. E sempre levava a tiracolo os inseparáveis ferrinhos de arrancar dentes, um espelho e não uma, mas duas navalhas. Aquela imagem com a barba grande, assemelhando-se a Jesus Cristo, é do início do século 20 e foi como a história oficial o registrou”, declara.

Doria, que passou um ano pesquisando, dedica um capítulo inteiro a Joaquim José intitulado “Um homem chamado liberdade” e tem a sua versão sobre ele. Tiradentes seria uma pessoa extremamente empolgada, muito popular na tropa e carismático. Para o jornalista, o alferes acabou sendo o mais lembrado entre os inconfidentes, porque foi o único enforcado e condenado à morte e, sobretudo, o único réu confesso. “Nenhum outro se declarou culpado, mas todos também tiveram destinos bem trágicos. As penas foram pesadas e ninguém teve vida fácil. Degredo na África, prisões. O fim de Cláudio Manoel da Costa até hoje é enigmático. Um suicídio que alguns defendem que foi assassinato. Provavelmente, ele foi o nosso primeiro Vladimir Herzog”, compara, referindo-se ao jornalista morto em 1975 nas dependências do DOI-Codi, no 2º Exército, em São Paulo.

Doria não tem dúvidas de que Tirantes foi uma peça fundamental na conspiração, mas lembra que ela não foi iniciativa de um homem só. Em seu livro, ele destaca a presença de três grupos importantes: o primeiro formado pelos poderosos e ricos das Gerais, que financiavam a revolta e tinham interesses econômicos caso ela fosse bem sucedida, já que suas dívidas com a Coroa seriam canceladas; o segundo constituído pelos intelectuais, do qual faziam parte padre Rolim, Tomás Antônio Gonzaga, Alvarenga Peixoto e Cláudio Manoel da Costa, que conheciam as ideias iluministas surgidas na Europa e eram os pensadores; e o terceiro grupo, os militares, sem o quais não se faria um golpe. Era neste último que estava incluído Tiradentes. “A Inconfidência Mineira é um momento-chave da história do nosso país. Por muito pouco ela não deu certo. Se tivesse se concretizado, o Brasil teria sido muito diferente e vivido uma revolução liberal. Teríamos conquistado uma independência por nós mesmos, e não algo concedido pela família real. Isso mudaria tudo”, defende.

Autor também de 1565 – Enquanto o Brasil nascia, dedicado às origens do país, Doria diz que seu novo livro traz a descrição dos protagonistas, mapas da região de Minas Gerais e um colorido caderno de fotos. Constam nele cartas, documentos, escrituras e imagens de figuras históricas, além do retrato de Tiradentes feito a partir de relatos de contemporâneos. Para o escritor, o mais surpreendente do trabalho é a quantidade de detalhes que a história proporciona, até porque o material de pesquisa, sejam os documentos e livros, como os Autos da devassa e A devassa da devassa, do historiador britânico Kenneth Maxwell, são extremamente ricos de informações. “Há tantos diálogos registrados que você consegue produzir uma narrativa que é ao mesmo tempo aventura e romance, com momentos de conspiração, prisões e dramas – tudo isso sem precisar de uma vírgula de ficção. Cada aspas que está em 1789 realmente foi dita por aqueles personagens. Acaba virando um livro muito gostoso de ler e sem inventar absolutamente nada. A gente aprende a história de uma maneira muito interessante”, garante Pedro Doria.



"É possível produzir uma narrativa que é ao mesmo tempo aventura e romance, com conspirações, prisões e dramas, sem precisar de uma vírgula de ficção" ( Pedro Doria, autor de 1789)



"Estará chutando quem disser como era Tiradentes, se branco ou mestiço, se tinha ou não barba. Há muita informação sobre sua vida, mas não sobre sua aparência" ( Lucas Figueiredo, jornalista, trabalha em biografia de Tiradentes)



Homem por trás do mito

O mártir da Conjuração Mineira também vai ganhar em breve uma biografia exclusiva, escrita pelo jornalista Lucas Figueiredo. Com previsão de lançamento para 2015, pela Companhia das Letras, o livro vai contar a vida de Tiradentes de seu nascimento até a morte, ou seja, muito além de sua participação no movimento político. “Contará, por exemplo, como ele foi chamado para comandar o combate aos temidos bandos criminosos que assolavam Minas no século 18. A própria rainha de Portugal, dona Maria I, escreveu a ele dando-lhe ordens nesse sentido. Uma missão perigosa que foi coberta de êxito, mas que nunca foi reconhecida pela Coroa portuguesa. Enfim, será uma biografia clássica: o homem e sua história”, adianta Lucas.

O interesse do jornalista pelo personagem se deu quando fazia a pesquisa de seu livro Boa Ventura!, que conta a saga da corrida do ouro no Brasil do século 18. Nessa época, acabou reunindo um vasto material do período vivido por Tiradentes, já que pesquisou em arquivos de Portugal e da França e passou alguns anos desenvolvendo o projeto. Este ano, vai se dedicar a garimpar mais documentos em Minas, Rio de Janeiro e talvez volte a Lisboa e Paris.

Apesar de Joaquim José da Silva Xavier ser personalidade presente na vida de todo brasileiro desde os tempos de colégio, há pontos obscuros em sua trajetória. “Nas escolas, salvo honrosas exceções, ensina-se a história de uma maneira mecânica. Dá-se muita importância para a decoreba de datas, mas pouca atenção para os personagens. Estudamos um pouco sobre Tiradentes, um pouco sobre Aleijadinho, mas sempre de forma estanque. Quase nunca associamos que Tiradentes e Aleijadinho viveram na mesma época e na mesma cidade, o que nos faz pensar que Ouro Preto era uma sociedade fascinante no século 18”, observa.

Ao contrário do colega Pedro Doria, que em seu novo livro apresenta um retrato do inconfidente mineiro feito a partir de relatos, Lucas Figueiredo acredita que não há evidências conclusivas que nos permitam dizer como era realmente o seu rosto. Outro aspecto impreciso da vida do mártir é o local exato de seu nascimento. “Estará chutando quem disser como era Tiradentes, se branco ou mestiço, se tinha ou não barba. Um fato curioso, aliás, pois há muita informação sobre praticamente toda a sua vida, mas não sobre sua aparência. Já com relação ao lugar onde nasceu, estou justamente trabalhando nesse assunto agora, mas prefiro não me adiantar no tema, pois ainda não fechei a pesquisa”, explica.

O autor de livros como Morcegos negros e O operador, sobre temas contemporâneos, Lucas é um entusiasta do seu biografado e, mais do que rotular Tiradentes, quer contar a vida de um personagem interessante, de carne e osso. “Vilão certamente ele não foi. Herói para muitos, mas não para todos, depende da visão de cada um. Sem dúvida, ele deu a vida por uma causa, o que o torna um mártir. Órfão de pai e mãe, que se fez mascate, minerador, proprietário de terras, dentista, empreendedor, militar, caçador de bandidos e militante político. E que, estando num prostíbulo, era capaz de inflamar-se quando discorria publicamente sobre as vantagens da República. Que foi pai, mas nunca se casou; que chamou para si a tarefa mais controversa da Inconfidência, mesmo entre os inconfidentes: o assassinato do governador”, conclui.

enquanto isso...

...Cinema e tv


Tiradentes não estará apenas nas páginas dos livros, mas também na telona e na telinha. A REC Produtores, de Pernambuco, responsável por Tatuagem, de Hilton Lacerda, vai levar para o cinema Um certo Joaquim, ficção sobre o herói da Inconfidência Mineira. O projeto foi aprovado pela Ancine e custará R$ 3 milhões.

O filme, que terá direção e roteiro de Marcelo Gomes e coprodução da produtora espanhola Wanda Films, deve começar a ser rodado no segundo semestre e terá locações em Minas.
Já o dramaturgo e poeta mineiro Geraldo Carneiro está trabalhando em projeto com o qual sonha há muitos anos, Inconfidência, para a TV Globo. A série deve ir ao ar em 2015. A direção será de Daniel Filho. 

Cesárea "forçada" e o direito à vida - Luciana Dadalto

Estado de MInas: 06/04/2014 



Nos últimos dias, a mídia brasileira tem repercutido a decisão judicial proferida pela juíza plantonista Liniane Maria Mog da Silva, que depois de acatar um pedido do Ministério Público de Torres (RS), determinou que Adelir Carmen de Goes, na 42ª semana de gestação, fosse submetida a uma cesariana contra sua vontade. O caso é polêmico, pois parece, à primeira vista, que o Poder Judiciário invadiu a vida privada da gestante para decidir, em nome dela, se o parto seria normal ou cesárea. Analisado dessa forma, isso seria absurdo e inconstitucional, uma vez que a Constituição garante o direito à liberdade, conhecido, no âmbito das relações privadas, como direito à autonomia privada.

Entretanto, é preciso conhecer as minúcias desse caso, sobre as quais o noticiário, infelizmente, não nos conta. O que se sabe, até agora, é que a gestante estava na 42ª semana de gestação, em sua terceira gravidez, que o feto pesava mais de três quilos e estava sentado. Assim, com base nessas informações, a médica entendeu que haveria risco de morte para a mãe e para o bebê, razão pela qual entendeu ser necessário fazer uma cesárea, o que foi recusado pela gestante. Diante de tal negativa, a médica acionou o Ministério Público, que ajuizou um pedido de medida protetiva para o feto.

Ora, se os fatos até agora conhecidos forem verdade, parece óbvio que a decisão judicial foi acertada, uma vez que a proteção ao menor é assegurada pela Constituição, que prevê expressamente, em seu artigo 227, que “é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida...”.
Por essa razão, soa despropositado o “barulho” feito por ativistas que estão se utilizando desse fato para levantar a bandeira da falta de autonomia da mulher na sociedade brasileira, da violência contra a mulher e, ainda, da necessidade de se dar prioridade ao parto normal. Todos esses fatos são verídicos. Vivemos em um país com altos índices de violência contra a mulher e um dos maiores índices de cesárea do mundo.

Todavia, antes de utilizarmos o caso para defender essas questões – que sem dúvida, merecem ser defendidas –, precisamos saber, em detalhes, o que realmente ocorreu. Para que fique claro: se os fatos que foram divulgados pela mídia são verdadeiros, não há espaço para discussão. A cesárea era imprescindível, pois era o único meio hábil de garantir a vida da gestante e da criança. A autonomia individual deve ser preservada desde que não coloque em risco a vida e a saúde de outras pessoas. Dessa forma, se estivéssemos diante de um caso de recusa de um procedimento, sem que a mulher fosse gestante, a coerção ao procedimento seria ilegal.

Entretanto, no episódio narrado, a paciente que negou o procedimento estava grávida e, portanto, a negativa colocava em risco a vida de um ser que deveria ser protegido por ela, pela sociedade e pelo Estado. A decisão da médica em chamar o Ministério Público foi para proteger o bebê, assim como a decisão do órgão público em ajuizar a ação também buscou assegurar a vida ao feto. A decisão da juíza foi para proteger a criança. Qualquer coisa que se fale diferente disso deve ser provada por fatos que ainda não foram veiculados e que, portanto, são argumentos ideológicos diante de um triste caso de irresponsabilidade materna.

Luciana Dadalto
Advogada coordenadora do departamento de direito médico da Ivan Mercêdo Moreira Sociedade de Advogados

Eduardo Almeida Reis-Mistério‏

Mistério 
 
Por que me lembrava do cantor, compositor e músico americano, que nunca ouvi? Ora, porque entre os seus pertences espalhados pelo chão havia uma caixa de charutos cubanos... 
 
Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 06/04/2014


Escrevo na tarde de quinta-feira, 27 de março, depois de tomar um susto. Sempre que posso assisto ao programa Estúdio i com Maria Beltrão e seus convidados. A bancada tinha como convidada a atriz Fernanda Machado e os jornalistas Arthur Xexéo, Flávia Oliveira e Diego Pose, especialista em futebol.

Não sei se já aconteceu com o leitor, mas de vez em quando tenho a impressão de estar ficando maluco. Hoje, tive a certeza. Explico: fiquei achando que já conhecia a entrevista com Fernanda Machado, lembrava-me de trechos inteiros, problemas com o autismo de sua cunhada, que chorou quando levada ao teatro numa peça em que Fernanda dialogava com uma falsa autista – e todos os atores choraram.

Mais adiante, Xexéo disse que já teve cabelos. Melhor que isso: rabo de cavalo que alcançava sua cintura. Também me lembrava dessa confissão feita ao crítico de arte Marioti, que falava de Paris sobre a exposição de fotos sobre Kurt Cobain (1697-1694). Por que me lembrava do cantor, compositor e músico americano, que nunca ouvi? Ora, porque entre os seus pertences espalhados pelo chão havia uma caixa de charutos cubanos, utilizada, segundo a reportagem, para guardar drogas.

Quinze minutos antes de terminar o programa vim para o computador certo de que assistira àquele Estúdio.

Já estou escrevendo na manhã do dia 28 de março, ainda sem explicação para o programa de ontem. Li os jornais e não vi notícia da repetição. Entendo e louvo que certos programas semanais sejam repetidos em outros dias e horários, mas um programa diário?

Especialista

Pintou num Manhattan Connection de março jovem brasileiro narigudo, que já teria trabalhado em diversos países e hoje é um dos colaboradores da revista Forbes, especializado em entrevistar bilionários. Disse coisas interessantíssimas, como por exemplo: os bilionários franceses não gostam de aparecer e moram quase todos na Suíça. Quanto aos norte-americanos, que são muitos, depois do governo Obama passaram a queixar-se de que têm sido malvistos pela sociedade.

Dos que entrevistou, disse que não há padrão comportamental: alguns têm um caminhão de namoradas enquanto outros estão casados com as colegas de escola e felizes para sempre. Bill Gates casou-se com uma funcionária de sua empresa Microsoft e aparentemente (a observação é minha) o casamento vai muito bem, obrigado.

Todos, sem exceção, dizem preocupar-se com a filantropia, sem que o repórter possa garantir que todos sejam filantropos. Mas ficou impressionado com o foco, com a atenção dos bilionários nele, entrevistador. Sentiu-se importantíssimo e disse que Bill Clinton também é assim: a pessoa que conversa com Clinton fica encantada e se sentindo muito importante.

Falou pouco dos bilionários brasileiros, que têm aumentado nos últimos anos. Se ouvi direito, a Forbes tem 400 funcionários pesquisando o palpitante assunto, estudando empresas, balanços, paraísos fiscais, testas de ferro, sinais exteriores de riqueza, essas coisas.

Nunca vi de perto um Gates, um Slim, um Buffett, mas tenho visto mineiros abonados, alguns já na faixa dos jatinhos de US$ 50 milhões, que fazem BH-Miami sem reabastecimento de combustível. Têm uma característica: nunca levam dinheiro nos bolsos.

Por via de consequência, como gostava de dizer o nosso muito saudoso Aureliano Chaves, as gorjetas nos restaurantes e as gratificações dos flanelinhas ficam por conta dos remediados que se metem a acompanhar os ricaços. Remediado nunca sai de casa sem uns cobrinhos nos bolsos.

O mundo é uma bola


Em 6 de abril de 648 a.C. ocorre o mais antigo eclipse solar registrado pelos gregos. Posso imaginar a sensação deles: até hoje, fico encantado nas noites de lua cheia. Em 1385, as Cortes de Coimbra aclamam João I rei de Portugal, o primeiro da Dinastia de Avis. João I era filho natural de el-rei Pedro I.

Hoje, como termo jurídico, filho natural é filho concebido fora do casamento, por pessoas que não possuem impedimento algum que as proíba de casar, ou filho concebido depois de se haver extinguido o vínculo conjugal. Onde se lê “hoje”, leia-se: no dia em que o Houaiss eletrônico foi editado, que as coisas estão mudando numa velocidade assombrosa.

Em 1830, organizada a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, conhecida como igreja dos Mórmons, doutrina protestante, fundada nos EUA por Joseph Smith (1805-1844) e disseminada pela América do Sul e Central, Europa e algumas regiões do extremo Oriente. Entre outras coisas, admite a poligamia, o fim do mundo, o batismo etc.

Ruminanças

“O ruim de ser rico é viver com pessoas ricas” (Logan Pearsall Smith, 1865-1946).

JOSÉ WILKER » Coração mata o ator José Wilker

Com quase meio século de carreira, o artista encantou o Brasil como Vadinho, Roque Santeiro e o divertido Giovanni Improtta



Estado de Minas: 06/04/2014







"A melhor coisa que pode acontecer a um personagem é ver suas falas serem apropriadas pelo público"  José Wilker, ator e diretor

Rio de Janeiro – O Brasil perdeu um de seus artistas mais queridos: José Wilker, de 66 anos, teve um enfarte agudo do miocárdio ontem de manhã, no apartamento da namorada, a jornalista Claudia Montenegro, no Rio de Janeiro. O corpo será cremado hoje à tarde, no Memorial do Carmo, na zona portuária da capital fluminense. Wilker deixa duas filhas: Mariana, com a atriz Renée de Vielmond, e Isabel, fruto da relação com a atriz Mônica Torres.

Querido do público e respeitado pela crítica, o cearense José Wilker foi um artista completo, apaixonado por seu ofício. Ator e diretor, jogava em todas – cinema, teatro e televisão. Tornou-se popular com papéis como o de Vadinho, no filme Dona Flor e seus dois maridos (1976), de Bruno Barreto, fenômeno das telas nacionais. O bordão “felomenal” de seu impagável Giovanni Improtta, contraventor da novela Senhora do destino (2004), e Mundinho Falcão, o galã da novela Gabriela (1975), são apenas duas facetas de um homem que atravessou décadas no coração do público.

Rádio Cearense de Juazeiro do Norte, José Wilker descobriu o amor à arte por meio do rádio. Quando tinha 13 anos, seus pais se mudaram para Pernambuco, onde ele começou a trabalhar como radialista e ator. Interessado em política (dizia-se comunista ainda na infância), fazia peças para difundir as ideias revolucionárias do pedagogo Paulo Freire entre trabalhadores rurais e operários.

Chegou ao Rio de Janeiro aos 19, iniciando a carreira no cinema e no teatro. O primeiro filme foi A falecida (1965), em que fez apenas uma ponta. Nos palcos, integrava o elenco de Chão dos penitentes, com produção do Teatro Jovem, fez peças de vanguarda como A ópera dos três vinténs, de Bertolt Brecht, e O rei da vela, do Grupo Opinião. Ambas foram apresentadas no Teatro Ipanema – local de seu velório.

Estudante de sociologia na PUC Rio, José Wilker era ator engajado nos anos de chumbo, marcados pela ditadura militar. Fez peças-ícone da década de 1970, como Hoje é dia de rock e Hair, que discutiam as mudanças na sociedade. Ganhou prêmios respeitados na área de artes cênicas.

Wilker trabalhou também em quatro dezenas de filmes – entre eles, duas produções emblemáticas do diretor Cacá Diegues: Xica da Silva e Bye Bye Brasil. Ficou marcado por papéis como o político Tenório Cavalcanti, em O homem da capa preta, e Antonio Conselheiro, em A Guerra de Canudos.

Novelas Sua primeira novela foi Bandeira 2, em 1971. Em 1976, quando chamava a atenção como o carismático Vadinho no filme Dona Flor..., interpretou seu primeiro protagonista na telinha em Anjo mau, de Cassio Gabus Mendes. Em 1985, encarnou o inesquecível Roque Santeiro, protagonista da novela homônima exibida na TV Globo. E marcou presença nas duas versões de Gabriela, como o visionário Mundinho Falcão, em 1975, e o violento coronel Jesuíno no remake exibido em 2012.

Além do “felomelal”, outro bordão de Wilker ganhou as ruas. “Deite que vou lhe usar”, dizia o coronel à mulher Sinhazinha, papel de Maitê Proença. “Jesuíno é uma das melhores coisas que já fiz na minha carreira. A melhor coisa que pode acontecer a um personagem é ver suas falas serem apropriadas pelo público”, declarou ele.

Até janeiro, Wilker pôde ser visto na TV como o médico Herbert da novela Amor à vida. O ator fez vários personagens importantes em minisséries da Globo, como Anos rebeldes (1992), Agosto (1993), A muralha (2000) e JK (2006), no papel de Juscelino Kubitschek.

Ele dirigiu também sucessos da TV como o humorístico Sai de baixo (1996) e as novelas Louco amor (1983), de Gilberto Braga, e Transas e caretas (1984), de Lauro César Muniz. Na TV Manchete, dirigiu e atuou em Carmem (1987), de Gloria Perez, e Corpo santo (1987), de José Louzeiro.


JOSÉ WILKER » O cinéfilo de carteirinha 

Mariana Peixoto

José Wilker está no elenco de duas produções inéditas. A primeira a chegar aos cinemas será Isolados, thriller psicológico do cineasta Tomás Portella (assistente de direção do longa Giovanni Improtta), com previsão de estreia para 21 de agosto. Com roteiro de Mariana Vielmond, primogênita de Wilker, o filme é protagonizado por Bruno Gagliasso e Regiane Alves, que vivem o casal com distúrbios psicológicos que aluga casa em um lugar remoto para tentar reanimar a relação. Coisas estranhas começam a ocorrer por lá. Em pequena participação, Wilker interpreta o psiquiatra do personagem de Bruno.

Maior foi o papel do ator em outro inédito, este filmado na região de Diamantina. Inspirado no conto homônimo de João Guimarães Rosa, o longa-metragem A hora e a vez de Augusto Matraga, de Vinicius Coimbra, foi exibido em apenas uma sessão no Festival do Rio, em 2011, e ainda não tem previsão de estreia. O papel como o jagunço Joãozinho Bem-Bem deu a Wilker o prêmio de melhor ator coadjuvante na mostra Première Brasil. “Ele era um ator legítimo, que gostava de ser dirigido. No set do Matraga, ele dormia no sereno, brigava de faca e ficou por horas com o rosto colado no chão durante toda a sequência final”, conta Coimbra.

O ator tinha viagem marcada para o Recife no fim do mês, quando receberia homenagem pelo conjunto da obra (41 filmes) na 18ª edição do Cine PE – Festival do Audiovisual. Ano passado, Wilker foi ao evento para lançar Giovanni Improtta, o único longa que dirigiu. “Ele pôs a cara para bater naquele filme”, comenta o crítico Rubens Ewald Filho a respeito da adaptação cinematográfica do personagem da novela Senhora do destino. Fracasso de crítica e público – a renda não chegou nem à metade dos R$ 5 milhões investidos –, o filme foi defendido pelo ator e cineasta como uma crítica social “sem ser sisuda, carrancuda ou pagadora de regras”. Em entrevista ao EM, Wilker declarou: “Não quero dar lição para ninguém. Só quero que as pessoas percebam o que a gente faz. Estamos virando uma sociedade do excesso, temos coisas demais de que não precisamos”.

Oscar José Wilker dividia com Ewald Filho o posto de comentarista da transmissão do Oscar (o primeiro na Globo, o segundo na TNT). “Muitos achavam que éramos inimigos, mas não. Éramos amigos, com muito em comum. Ele tinha uma inteligência grande, humor muito forte e paixão genuína pelo cinema. Quando o DVD chegou ao mercado, Wilker doou todos os seus VHS para uma escola. Era um cinéfilo de verdade”, completa Ewald Filho, que em 2012 e 2013 dividiu a curadoria do Festival de Gramado com o ator – atuante também nos bastidores. Entre 2003 e 2008, Wilker dirigiu a Riofilme, a distribuidora de cinema do Rio de Janeiro.

Para o espectador de cinema, vão ficar os personagens das quatro dezenas de filmes em que Wilker atuou. Ele foi Vadinho em Dona Flor e seus dois maridos (1976), Lorde Cigano em Bye bye Brasil (1980), Tenório Cavalcanti em O homem da capa preta (1986), Tiradentes em Os inconfidentes (1987), Antônio Conselheiro em Guerra de Canudos (1997), e Zeca Diabo em O bem amado (2010).

“O Zé era o nosso primeiro nome, sempre. Sérgio pegava o roteiro e mandava para ele dizendo: ‘Zé, escolhe aí o que quer fazer’”, conta Mariza Leão, que produziu longas do marido, o cineasta Sérgio Rezende, que tinham Wilker no elenco (Canudos e O homem da capa preta entre eles). “Zé era apaixonado por cinema, um homem que nunca quis o lugar da celebridade, e sim o do ator”, conclui Mariza.

Repercussão

“Ator, crítico de cinema e exemplo de dedicação à arte, José Wilker nos presenteou com interpretações que se tornaram ícones do cinema e da TV.”
DILMA ROUSSEFF, PRESIDENTE DA REPÚBLICA

“Meu querido amigo, para sempre! Conheci o Wilker quando fui para o Rio com a peça Hair, em 1969, e me apaixonei loucamente por aquela pessoa linda. E por toda a minha vida continuei amando-o intensa e platonicamente.”
SÔNIA BRAGA, ATRIZ

“Wilker não foi só um grande ator, mas um bom amigo, fiel, solidário. Tinha um talento incomensurável – tudo o que fez vai ficar para sempre. Ele vai deixar muita saudade. Não era só ator, mas um ator-autor. Ele não só fazia o personagem, mas o construía.”
CACÁ DIEGUES, CINEASTA

“Não sei o que dizer. Eu o conheço desde os tempos do Movimento de Cultura Popular, em Pernambuco, em 1961! Fizemos dezenas de trabalhos juntos... Adeus, Zé. Desliguei os telefones. Não quero que me perguntem o que achei da morte dele. Estou triste. Morri um pouco.”
AGUINALDO SILVA, JORNALISTA E AUTOR DE NOVELAS

“Tive o privilégio, a alegria e a satisfação de ter sido dirigida por ele em Querida mamãe. Para ele, eu não diria adeus, mas até sempre. Foi um momento brilhante, afetivo e maravilhoso ter sido dirigida por José Wilker.”
EVA WILMA, ATRIZ

“Com Wilker em cena, se entendia o porquê de estar ali. Ele era uma inspiração para a minha carreira.”
MALU MADER, ATRIZ