segunda-feira, 7 de abril de 2014

Vacina anti-HPV para os meninos protege contra verrugas genitais e câncer

Vacina anti-HPV para os meninos
 
Estudos mostram que a imunização protege a população masculina contra verrugas genitais e câncer no pênis, no ânus e na garganta. Cidades brasileiras já aplicam a dose em garotos


Bruna Sensêve
Estado de Minas: 07/04/2014



Diversas pesquisas apontam que indivíduos com a vida sexualmente ativa terão contato, pelo menos uma vez, com o vírus do papiloma humano (HPV). Porém, nacionalmente, apenas as meninas de 11 a 13 anos estão sendo vacinadas contra a infecção pelo patógeno. A distinção entre os sexos para a imunização acende dúvidas em pais, educadores e até mesmo crianças e adolescentes, que são o alvo da campanha. Se a transmissão é sexual, por que não vacinar também os homens, que poderão passar o vírus para suas parceiras e sofrer consequências do contágio? De fato, a cada momento, são maiores as evidências de que a imunização é eficaz para proteger jovens do sexo masculino do desenvolvimento de verrugas genitais e cânceres do tipo peniano, anal e de garganta.


Com base nesses resultados, a medida começa a ser aplicada em alguns países e também em cidades brasileiras. Na semana passada, meninos de 11 a 13 anos começaram a ser vacinados contra o HPV em Campos de Goytacazes (RJ). A cidade se une a Taboão da Serra (SP), que adotou a prevenção no ano passado, e a Farroupilha (RS), município pioneiro em incluir o imunizante no calendário de vacinas para o sexo masculino. Cada um desses dois municípios espera vacinar pelo menos 3 mil adolescentes este ano, repetindo a meta de 2013.

Em Campos dos Goytacazes, o objetivo é maior: aplicar as doses em12 mil garotos. O secretário de Saúde do município fluminense, doutor Chicão, diz que a intenção é fazer uma ação permanente, que será continuada nos próximos anos. Lá, as meninas de 11 a 15 anos são protegidas desde 2010. “Somente agora o Ministério da Saúde começou a vacinar as meninas com idades entre 11 e 13 anos. Nós vacinamos um público bem maior”, afirma.

A vacina adotada no Sistema Único de Saúde (SUS) é a chamada de quadrivalente, por ser eficaz contra quatro tipos de HPV: 6, 11, 16 e 18. Essa é também a única forma aprovada atualmente para o uso em meninos. A idade mais favorável à imunização, para ambos os sexos, está entre 9 e 13 anos. Nesse período, a vacina tende a garantir maior proteção, pois é mais provável que os adolescentes não tenham iniciado a vida sexual e, assim, não se expuseram ao vírus.

Informação Segundo o professor e chefe do Setor de Doenças Sexualmente Transmissíveis da Universidade Federal Fluminense (UFF), Mauro Romero Leal Passos, a abordagem da campanha de vacinação atual levou a uma interpretação de que o HPV é uma doença de mulheres, com um foco principal no desenvolvimento de câncer. “Sabemos que é uma doença de homens e mulheres que pode causar também a verruga genital, mas talvez não quisessem evidenciar a questão venérea para facilitar a aceitação”, avalia.

Passos acredita que as informações precisam ser mais claras. Ele conta um episódio ocorrido com sua família, para exemplificar o problema. Suas filhas adolescentes lhe disseram que, na escola em que estudam, meninas com mais de 14 anos e garotos foram excluídos de uma palestra educativa sobre o HPV porque não faziam parte do público a ser vacinado. “Ou seja, só vou dar informação para quem for se vacinar? São alguns equívocos que acabam reforçando a ideia de que o HPV só afeta as mulheres. Temos até meninos reclamando”, detalha o especialista.

De acordo com nota oficial do Ministério da Saúde, como o objetivo da estratégia adotada pelo governo federal é reduzir casos e mortes ocasionadas pelo câncer de colo do útero, a vacinação inicialmente é restrita ao sexo feminino. “Estudos comprovam que os meninos passam a ser protegidos indiretamente com a vacinação no grupo feminino (imunidade coletiva), havendo drástica redução na transmissão de verrugas genitais entre homens após a implantação da vacina contra o HPV como estratégia de saúde pública”, finaliza o texto.

Eficiência confirmada A primeira evidência científica de que a vacina contra o HPV é efetiva em homens surgiu em fevereiro de 2011, com a publicação de um artigo no renomado New England Journal of Medicine, produzido pelo Centro de Câncer H. Lee Moffitt e pela Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), ambos nos Estados Unidos. O estudo confirmou as suspeitas de proteção do imunizante contra o desenvolvimento de verrugas genitais e cânceres anais, peniano e de garganta na população masculina.

As taxas de cobertura encontradas foram bastante altas. Cerca de 90% para as verrugas genitais quando a vacina foi oferecida antes da exposição do indivíduo aos quatro tipos de HPV combatidos pelas doses. Essa eficácia atingiu 66% na população geral de homens jovens independentemente da exposição prévia às diferentes cepas do vírus. Além da prevenção contra verrugas, a vacina impediu também a infecção pelo HPV efetivamente persistente em 86% dos voluntários sem exposição prévia.

O ensaio clínico durou quatro anos e incluiu 4.065 homens saudáveis com idades entre 16 e 26 anos, abrangendo 71 cidades em 18 países. Desses participantes, 85% relataram ter exclusivamente parceiros sexuais femininos, sendo que o restante afirmaram ter relações sexuais com homens. Todos foram testados no início do trabalho para exposição prévia a cada tipo de HPV e, então, selecionados aleatoriamente para receber um placebo ou a vacina quadrivalente. Aqueles com histórico de verrugas ou lesões genitais ou anais foram excluídos. Após as doses, os pacientes fizeram seis exames de acompanhamento ao longo de três anos para avaliação da eficácia da medida.

“Isso mostra que, se vacinarmos meninos cedo o suficiente, devemos ser capazes de prevenir a maioria dos casos de verrugas genitais externas nessa população”, observa o professor de medicina da UCSF Joel Palefsky, um dos líderes da pesquisa. Os dados iniciais, antes da publicação do trabalho, levaram a agência de vigilância sanitária norte-americana (Food and Drug Administration – FDA) a aprovar a vacina para meninos em 2009. O pesquisador acredita que a vacina também é uma arma importante contra a transmissão do HPV para mulheres, uma vez que cerca de 60% a 70% das adolescentes americanas não receberam as três doses recomendadas. Na época da publicação do trabalho de Palefsky, ainda faltavam evidênicas que garantissem a prevenção ao câncer anal, genital e da garganta. Não demorou muito até que elas aparecessem.

Mortes evitadas Em pouco mais de oito meses, Palefsky publicou, na mesma revista, outro ensaio clínico internacional indicando que a vacina contra HPV é segura e eficaz para prevenir o câncer anal. “Nos EUA, quase 6 mil pessoas são diagnosticadas a cada ano com câncer anal, e mais de 700 pessoas morrem da doença. O ensaio mostra que esses tumores e mortes poderiam ser prevenidos”, lamenta Palefsky, que também é fundador da Anal Neoplasia Clinic, no Centro de Câncer Helen Diller Family Comprehensive, da UCSF, primeira clínica do mundo dedicada à promoção da investigação, sensibilização, prevenção e rastreamento do câncer anal.

O estudo envolveu 602 homens com idades entre 16 e 26 anos, que fazem sexo com homens, da Austrália, do Brasil, do Canadá, da Croácia, da Alemanha, da Espanha e dos Estados Unidos. Eles afirmaram ter tido pelo menos um e não mais que cinco encontros sexuais. Conforme descrito no artigo, a vacina reduziu a incidência de lesões precursoras de câncer em cerca de 75% dos que não foram previamente expostos a qualquer um dos tipos de HPV presentes na vacina. Entre aqueles que sofreram exposição, o imunizante reduziu a incidência das lesões pré-cancerígenas em 54%.


Prevenção familiar

Os meninos são mais propensos a receber a vacina quadrivalente contra o papilomavírus humano (HPV4) se suas mães tomam cuidados com a própria saúde, buscando medidas como vacinas contra a gripe ou exames de Papanicolau, de acordo com um estudo publicado no American Journal of Public Health. O trabalho examinou os registros de saúde de mais de 250 mil meninos com idades entre 9 e 17 anos, inscritos no Plano de Saúde Kaiser Permanent Southern California, e descobriu que um total de 4.055 deles (ou 1,6% dos membros nessa faixa etária) iniciaram a vacina HPV4 entre outubro de 2009 e dezembro de 2010. Os pesquisadores notaram que a taxa de vacinação foi 16% maior nos garotos cujas mães receberam a vacina contra a gripe no ano anterior, quando comparados aos filhos de mulheres não imunizadas. Além disso, a taxa de vacinação era de 13% maior naqueles cujas mães tinham feito um exame de Papanicolaou nos últimos três anos.

Eduardo Almeida Reis - Babás‏

Babás 
 
Encontrei solução mais inteligente, quando expliquei: "Estou mandando você embora porque me apaixonei por você". 
 
Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 07/04/2014

A notícia de que há babás brasileiras ganhando por mês R$ 14 mil ou mais, com adicionais expressivos sempre que acompanham seus patrões em viagens internacionais, me lembra uma governanta que pintou na roça trirriense, jovem senhora de bom aspecto, com duas malas novas. Invenção da avó de minhas filhas, com medo de que as netas ficassem muito roceiras.

A governanta se apresentou ao dono da quitanda e foi logo dizendo que pretendia orientar a cozinheira, a excelente Josefa, no sentido de produzir dieta hipocalórica, proteica, nos conformes daquilo que havia aprendido num curso sei lá de quê.

Passam-se os dias e percebi que a governanta estava orientando as meninas contra o pai, que nunca foi o melhor pai do mundo, mas foi e é bem razoável. Chamei a jovem senhora num canto e lhe disse: “Fecha as malas, que você vai embora daqui a cinco minutos”. O diabo é que a fazenda distava uma hora do ponto do ônibus por estrada de terra e a picape já estava com a caçamba cheia de sacos de farelinho, além de um empregado em cima da pilha, que era para abrir as porteiras do caminho. Destino do farelinho: uma invernada próxima do ponto dos ônibus intermunicipais.

Na cabine, o motorista furioso e a governanta emburrada, as duas malas em cima dos sacos de farelinho. Pensei: vou passar uma hora sentado ao lado desta jararaca doido para lhe dar uns cascudos. Encontrei solução mais inteligente, quando expliquei: “Estou mandando você embora porque me apaixonei por você”.

A fera se desmanchou, disse que também estava apaixonada por mim e perguntou por que levei um empregado em cima do farelinho, espiando o que se passava na cabine da picape. Ainda assim, rolou um clima e a morena queria despejar o empregado numa curva da estrada empoeirada, o Pingolim, coitado, que teria seus 16 anos e era filho do Zé Ribeiro.

Cozinhei o love em banho-maria, enquanto ela escrevia num bloquinho seus telefones no Rio. Deixei-a no ponto do ônibus prometendo visitá-la dali a dois dias e não escapei de um beijo furioso, que, a bem da verdade, não foi dos piores. Babás caras e bonitas podem ser problemáticas na vida de um homem sério.

Explotación de ponedoras

O número 700 da revista A Lavoura, editada pela Sociedade Nacional de Agricultura, SNA, tem matéria sobre como vencer os desafios do verão na avicultura. A SNA foi fundada em 1897. Alguns anos depois de 1897, meti-me a explorar galinhas poedeiras na Baixada Fluminense, região quentíssima.

Os galpões recomendados pelos órgãos oficiais deveriam ser de tijolos emboçados e caiados, retangulares, telados na face que dava para o nascente, cobertos de telhas de barro. Coberturas de cimento-amianto exigiam forros de madeira.

Estudei o assunto dias e dias para concluir que em Itaguaí, RJ, as galinhas metidas naqueles galpões morreriam de calor. Ousei, então, abrir janelas de ventilação dando para o poente. Palpiteiros e especialistas disseram que minhas galinhas morreriam de pneumonia ou coisa parecida. Não morreram de frio, mas a produção de ovos era complicada e o negócio nunca foi brilhante.

Poucos anos depois, em toda aquela região e noutras igualmente muito quentes, os galpões passaram a contar com imensos ventiladores e as paredes de tijolos foram substituídas pelas telas. Surgiram também as gaiolas, que os livros espanhóis chamam de explotación de ponedoras en jaulas.

Bom mesmo é criar galinhas no Pantanal, também muito quente, ao ar livre, área com o contorno telado. A cachorrada de caça espanta os predadores que chegam por terra. De vez em quando mata-se um jacaré não muito grande, que é arrastado para o galinheiro e coberto de lenha: churrasco de jacaré. Antes mesmo de o fogo apagar as galinhas se atiram sobre o finado réptil crocodiliano num entusiasmo indescritível. Jacaré torrado deve ter qualquer nutriente que falta às galinhas pantaneiras.

O mundo é uma bola

 7 de abril de 1348: fundação da Universidade de Praga. Repito: em 1348. Em 1795, a convenção francesa estabelece o Sistema Métrico Decimal. Parece que hoje somente três nações não adotam oficialmente o Sistema Internacional de Unidades como sistema principal ou único de medição: Estados Unidos, Mianmar e Libéria. Deve ser por isso que o pote do meu sorvete predileto informa que o conteúdo líquido é One Pint. Pint é quartilho, que pode ser diferente na Inglaterra, nos EUA e no Canadá. No Norte de Portugal é a quarta parte de uma canada, atualmente meio litro.

Em 1831, o imperador Pedro I, do Brasil, abdica em favor de seu filho Pedro de Alcântara, então com 5 anos, e nomeia José Bonifácio de Andrada e Silva tutor do futuro Pedro II.

Em 1943, Albert Hofmann sintetiza o LSD, dietilamida do ácido lisérgico, que andou fazendo sucesso no Brasil. Em 1948, a ONU cria a OMS, Organização Mundial da Saúde.

Ruminanças

 “Está bem pago quem satisfeito está” (Shakespeare, 1564-1616).

Uma cultura morrendo de sede‏ -

Uma cultura morrendo de sede
 
Degradação do Rio Jequitinhonha pouco abaixo da nascente sufoca comunidades e mata costumes como os dos quilombolas e das lavadeiras, cujos cânticos estão desaparecendo

Mateus Parreiras (texto) e Leandro Couri (fotos)

Estado de Minas: 07/04/2014
Cicatriz no Vale do Jequitinhonha: garimpo clandestino contamina com dejetos humanos manancial que é a marca de toda uma região (Leandro Couri)
Cicatriz no Vale do Jequitinhonha: garimpo clandestino contamina com dejetos humanos manancial que é a marca de toda uma região
Moradora de remanescente de quilombo sobre o córrego que agora os habitantes evitam: vidas desviadas (Leandro Couri)
Moradora de remanescente de quilombo sobre o córrego que agora os habitantes evitam: vidas desviadas


Serro – Doenças, redução da oferta de água para consumo e queda da geração elétrica são o resultado de anos de degradação das bacias hidrográficas e de uma rede de nascentes desamparada. Mas, no município do Serro, no Vale do Jequitinhonha, despejos de esgoto doméstico, comercial e detritos de matadouros nos mananciais produzem uma devastação que extrapola o prejuízo ambiental: começa a degradar a cultura de povos tradicionais, na bacia em que convivem um dos maiores bolsões de pobreza do país e expressões culturais das mais ricas e genuínas. A devastação do Jequitinhonha, cenário que inspira música, artesanato e formas de cultivo, avança em direção à cabeceira, que começa a ser castigada pouco mais de um quilômetro depois de brotar nos chapadões do cerrado mineiro, onde o rio começa sua saga de mazelas ambientais e sociais até chegar à Bahia e desaguar no mar, nam altura do município de Belmonte.

O isolamento manteve praticamente intocada a nascente do Rio Jequitinhonha, no Serro, a 320 quilômetros de Belo Horizonte. Mas o córrego de águas translúcidas, que é imagem presente na cultura local, desce sem a ação nociva do homem por apenas 1.300 metros. Já nessa altura, o igarapé precisa transpor a canalização do aterro da rodovia BR-259, onde recebe resíduos carreados da via, como combustível, óleo e cargas que vazam pelas canaletas de drenagem. Passados mais 10 quilômetros, a paisagem da nascente dá lugar ao fluxo intenso de esgoto do distrito de Pedro Lessa, que é carregado pelo Córrego Acabassaco e mancha o manancial com mais poluentes.

A derrubada das matas que levavam até a área da nascente do Rio Jequitinhonha e o lançamento de esgoto, lixo e animais mortos no Córrego Acabassaco afetaram o modo de vida de quilombolas da região, como os descendentes de escravos fugidos ou alforriados do povoado do Baú, a 35 quilômetros da sede do município do Serro. Homens e mulheres da comunidade atravessavam as trilhas no mato pela nascente do Jequitinhonha para caçar, coletar frutas e ir a outros povoados. Nas margens do Acabassaco, se reuniam para lavar roupas, utensílios domésticos e obter água para beber e cozinhar.

Nos últimos anos, o mau cheiro e a imundície têm descido as corredeiras do Córrego Acabassaco com cada vez mais volume, o que afastou os quilombolas de muitas de suas atividades. “A gente se juntava para lavar roupa no rio, cantando as canções que os antigos nos ensinaram. Mas agora, se a gente usa essa água fica com dor de barriga, adoece e pega mancha na pele”, reclama uma das líderes da comunidade do Baú, a lavradora e artesã Clemilde da Conceição Reis Vitor, de 56 anos. “A gente só cantava quando ia para a plantação e um ajudava o outro ou na beira do rio. E isso está acabando”, lamenta.

Outro problema é o êxodo impulsionado por problemas como esses. “Nossos jovens estão indo embora. Não querem ficar onde não dá para plantar e onde a gente não tem tantas opções”, lamenta a artesã Vera Vicentina da Conceição Paulino, de 50. Só na casa dela seis filhos emigraram para São Paulo, atrás de mais oportunidades de vida, abandonando suas raízes. “Antigamente, a gente passava por uma estrada de terra para chegar à nascente do Rio Jequitinhonha. Hoje tem asfalto. As fazendas e a cidade estão derrubando as matas que a gente conhecia. Os pássaros que a gente via e depois bordava nas colchas e panos, os peixes que enfeitavam nossas rendas, tudo está acabando aos poucos. Como é que uma pessoa que nunca viu um pássaro vai bordar um?”, indaga Vera.

Quem pede aos quilombolas para ouvir um pouco de suas canções descobre que muitos não sabem mais as letras e os ritmos, apesar de alguns se mostrarem visivelmente tímidos, o que é típico daquele povo. Para essas ocasiões, mandam chamar o agricultor Luiz de Gonzaga Costa, de 59, um dos que ainda sabem os catopês, congados e canções tradicionais do Baú, porque os canta quando há festejos nas comunidades vizinhas ou reuniões no centro comunitário construído na comunidade.

Basta que Luiz entoe os primeiros versos, de frente para a pinguela que atravessa o Córrego Acabassaco, para atrair a atenção de quem está disperso: “Minha virgem do Rosário, hoje é o vosso dia/ que iremos festejar com prazer e alegria”. Outra canção, que mistura frases de origem africana a um manso sotaque caipira, faz alguns recordarem tempos passados, nas vozes de pais e avós: “No caminho do sertão/ Encontrei Mané João/ Com seu laço na garupa/ Tocando sua boiada/ Ê, kombiendi. A, kombiendá. Nangá-iangá, nocalungá/ Ê, kombiendi. A, kombiendá”. Se depender do agricultor, as canções continuarão a ser transmitidas, por serem muito importantes. “Esses catopês são nossos, aqui do povoado do Baú e do Ausente. Então, não podem acabar enquanto a gente estiver aqui”, disse, como quem teme que uma fonte muito importante seque de repente.


O vale vítima de suas riquezas Dona das águas que se degradam com mais rapidez em Minas, bacia do Jequitinhonha sofre com garimpeiros que revolvem leitos atrás de ouro e diamantes, sem critérios nem fiscalização

Mateus Parreiras (textos) e Leandro Couri (fotos)
Enviados especiais


Da mina de água cristalina que sustenta animais e seres humanos à mina de ouro que ainda está espalhada pelo leito e atrai garimpeiros, o Jequitinhonha sofre pelo que oferece a uma região de contrastes
Da mina de água cristalina que sustenta animais e seres humanos à mina de ouro que ainda está espalhada pelo leito e atrai garimpeiros, o Jequitinhonha sofre pelo que oferece a uma região de contrastes


Diamantina, Couto de Magalhães de Minas e Serro – A estreita faixa de mata ciliar que protege a nascente do Rio Jequitinhonha é tão densa que as tramas de espinhos e árvores do cerrado impedem até indentificá-la de fora da vegetação. Para ter acesso ao ponto onde a água aflora, é preciso subir pela calha do córrego até a cabeceira. O esforço é recompensado pela paisagem lacrada na vegetação agreste. Nela, pássaros pousam nas margens e bebem da água límpida que desce pelo leito de seixos brancos e redondos. Mas toda essa pureza dura pouco, já que o Jequitinhonha é o rio que mais tem sido degradado nos últimos anos em Minas. O trecho mais preocupante fica a 140 quilômetros da cabeceira, entre os municípios de Diamantina e Couto de Magalhães de Minas, no garimpo ilegal de Areinha. Um lugar tão devastado que as margens são de areia extraída do fundo do manancial, o curso natural foi seguidas vezes desviado e as águas se tornaram tão vermelhas que lembram sangue.

O garimpo de Areinha se esconde após extensas plantações de eucalipto, em um labirinto de estradinhas. Com o auxílio de um GPS e do mapeamento da região, a equipe do EM conseguiu chegar ao local em um fim de tarde. A estratégia de se deslocar sem guia da região e de seguir nesse horário se deu justamente para evitar a rede de alertas dos trabalhadores. Eles usam rádios acionados por motoqueiros que passam o dia trafegando por aquelas vias. Qualquer sinal da polícia ou de fiscalização ambiental dispara o alarme para que equipamentos sejam escondidos e metais preciosos, guardados.

A primeira cena que se vê do garimpo surge depois de uma curva de mata fechada. É uma imagem aterradora: o curso de água vermelha se perde no meio de uma larga mancha de areia que foi revolvida do fundo do Rio Jequitinhonha por dezenas de dragas. O leito natural é desviado em vários pontos, formando novos braços e poços onde tratores e  caminhões são usados para separar diamante e ouro de terra e detritos. São 2 mil garimpeiros se espremendo em uma área de 1,4 hectare, o que compreende um homem a cada 7 metros quadrados nas barrancas. Se somados os pontos de garimpo além de Areinha, o Jequitinhonha tem manchas de areia escavada e braços de rio desviados que somam 16,8 hectares só nessa região, o equivalente a 5,6 vezes a cava de Serra Pelada, no Pará.

De perto, a devastação é ainda mais impressionante. Os garimpeiros transformaram as margens em desfiladeiros para processar pedras e cascalho em suas máquinas. O diamante ainda é separado no balanço da bateia. Atividade que  Clóvis Fernandes Silva Lopes, de 27 anos, conhece desde a infância. “Quem é do ramo sabe onde está dando ouro e diamante. A gente vai atrás, procurando achar um ‘pedrão’ para resolver a vida. Enquanto não consegue licença, vai trabalhando na surdina, porque é daqui que sai nosso sustento”, disse. A aglomeração dos garimpeiros, que vivem amontoados em barracas sem as mínimas condições sanitárias, também se reflete nas águas do rio que eles próprios consomem. A reportagem do Estado de Minas coletou uma amostra na região, na qual a análise de laboratório detectou a presença de coliformes fecais 374% acima do limite do Conama, resultado dos despejos de esgoto sem tratamento.

Areinha é uma área que foi fechada pela mineração Rio Novo e invadida por garimpeiros há cerca de seis anos. Fica em uma parte do  Jequitinhonha, que em tese foi protegida pela Lei Estadual 15.082, de 2004, que considera que é de preservação permanente o curso d’água e seus afluentes até a altura do Rio Tabatinga, entre os municípios de Carbonita e Engenheiro Navarro.

Muitas justificativas
e nenhuma solução

O problema do garimpo de Areinha não se restringe aos danos ambientais. Desde 2007, todas as vezes que a fiscalização ambiental lacrou as máquinas e os garimpeiros tiveram de retornar para Diamantina, a cidade experimentou uma onda de criminalidade. Setores como a prefeitura local e a Cooperativa Regional Garimpeira de Diamantina querem que a atividade seja liberada de forma sustentável, com recuperação de áreas que forem degradadas pela extração mineral. O Ministério Público considera a proposta inviável, já que a área está protegida por lei, e tenta conseguir que a Justiça obrigue a mineradora a recuperar o que deixou para trás.

A empresa alega que isso não é possível, devido à presença dos garimpeiros. A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável informou que o garimpo não tem licenciamento, mas que pelo fato de a situação estar sub judice e de ter um lado social delicado, ainda aguarda definições. Enquanto isso, garimpeiros arrancam o máximo que podem antes que suas máquinas sejam lacradas pela polícia. O secretário de Meio Ambiente de Diamantina, Rodrigo Canuto, afirma que a atividade minerária no Jequitinhonha seria interessante para a cidade, mas reconhece que a lei estadual esvazia essa possibilidade. “Mas não podemos desconsiderar os fatores social e inclusive o de segurança pública. Mantemos atividades de conscientização, orientando o uso de bacias de decantação e cuidados para com a vigilância sanitária.”

DEGRADAÇÃO
A bacia do Jequitinhonha é a que tem apresentado a degradação mais acentuada nos últimos anos, de acordo com o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam). Em 2012, os índices de qualidade da água médio e ruim eram 49% em sua extensão, sendo o parâmetro bom quantificado em 51%. Já no ano passado, a soma do conceito ruim e médio saltou para 60%. A primeira estação de medição, na localidade de São Gonçalo do Rio das Pedras, não registrou o resultado de análises em 2013. A última amostragem é referente ao fim de 2012 e já indica que a acidez do curso d’água se encontra alterada a 30 quilômetros da nascente.

O motivo apontado pelo Igam são os lançamentos de esgoto, descartes de lixo e de efluentes de matadouros. Mas, mais adiante, o impacto das mineradoras aparece mais uma vez, próximo a Virgem da Lapa, onde amostras colhidas no ano passado revelaram contaminação por manganês 136% acima do limite considerado tolerável pelo Conama, o que é apontado pelo relatório do Igam como efeito de atividades minerárias predatórias.

Falta educação, sobra violência - Wilson Campos

Falta educação, sobra violência 
 
Wilson Campos
Advogado, presidente da Comissão de Defesa da Cidadania e
dos Interesses Coletivos da Sociedade da OAB/MG

Estado de Minas: 07/04/2014

A falta de investimentos na educação gera a crescente disparidade social, que, por sua vez, agrega valores negativos à personalidade humana, como a ignorância intelectual, a desqualificação profissional, a falta de perspectivas e, por fim, a decepção, a raiva, a violência e a criminalidade.

A culpa da violência incontrolada é de quem administra os destinos da nação, o governo. A incompetência é, com certeza, do Estado. A sociedade, no máximo, pode e deve participar do combate à barbárie, mas jamais ser responsabilizada por uma catástrofe que nunca convocou para si.

Os índices de aproveitamento escolar da maioria das crianças e jovens carentes são baixíssimos, ao contrário do que anunciam as propagandas governamentais. A precariedade do sistema educacional tem explicação nos fenômenos da desigualdade social, evasão escolar, má gestão pública dos recursos financeiros, corrupção e impunidade.

A omissão do Estado abre precedentes perigosos na leitura dos direitos sociais, uma vez que a desigualdade e a falta de investimentos robustos na educação empurram os cidadãos para longe dos livros e os coloca à mercê dos exploradores de mentes desocupadas.

Os piores inimigos da sociedade civilizada são fenômenos igualmente preocupantes, posto que advindos da segregação e da desigualdade e, justamente pela falta de educação intelectual, quais sejam: desemprego, fome, conflitos civis, pobreza, racismo, violência e criminalidade.

A correção de rumo não depende de licitação para ser colocada em prática. Essa desculpa burocrática para justificar gastos públicos não merece recepção no caso específico da educação escolar. As crianças estão nascendo e crescendo na mais covarde das anomalias sociais, qual seja a do sacrifício em vida da população. No entanto, para driblar essas afirmações alarmantes, salvam-se as exceções, quiçá de grande significativo para a moralidade humana, que são os não violentos, portadores de traços individuais valorosos e inseridos na harmonia da sociedade, embora submetidos à mesma desigualdade social contemporânea.

A falta de efetividade dos direitos causa a violência. Os grupos mais frágeis da sociedade são atingidos pela violência institucional, que por ação ou omissão do Estado ainda são obrigados a assistir à violação da democracia, englobando nesse rol de péssima prestação de serviço público a falta de acesso a serviços essenciais e à proteção individual e familiar.

A luta contra qualquer tipo de violência está atrelada invariavelmente à luta pelo indeclinável respeito aos direitos humanos. O ambiente saudável no país é requisito básico para a instauração da educação almejada, não bastando apenas às crianças e adolescentes a escola pura e simples, mas a educação e o aprendizado. A frequência escolar tem que se tornar atraente para as crianças. A obrigação de transformar esse sonho em realidade é do Estado, ficando sob a responsabilidade da sociedade a colaboração voluntária, posto que é preciso buscar mecanismos para acabar com o “apartheid educacional” existente, diante da diferença gritante na qualidade da educação oferecida pelas escolas públicas e privadas no país.

Já passou da hora de o Estado reconhecer e proteger efetivamente os direitos sociais fundamentais previstos no Art. 6º da Constituição da República.