sábado, 19 de abril de 2014

Militante do real

Pesquisadora Mariana Tavares lança estudo sobre a obra da cineasta Helena Solberg. Livro será lançado em julho, durante realização, em BH, do festival É tudo verdade


Mariana Peixoto
Estado de Minas: 19/04/2014



Para Mariana Tavares, a obra de Helena Solberg foi ganhando em abrangência ao tratar de temas como a relação da mulher com a sociedade (Leandro Couri /EM/D.A Press
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Para Mariana Tavares, a obra de Helena Solberg foi ganhando em abrangência ao tratar de temas como a relação da mulher com a sociedade

Na edição de 1994 do Festival de Brasília, no início da chamada retomada do cinema nacional, um longa-metragem dominava as discussões da competição: Louco por cinema, de André Luis de Oliveira, ficção que propunha uma metáfora sobre a dificuldade de se produzir no país. Só se falava deste filme, até que houve a sessão do documentário Carmen Miranda: bananas is my business, de Helena Solberg. O foco de atenção mudou – os dois longas acabaram recebendo vários prêmios, cabendo ao de Solberg quatro deles, como o de melhor filme pelo júri popular, especial do júri e da crítica.

Na plateia do festival, estava a jornalista, documentarista e pesquisadora mineira Mariana Tavares, que comungou do furor causado pelo documentário. Impressionou-se tanto pela qualidade do filme de Solberg como também por nunca ter ouvido falar dela. Não era a única. Solberg, então, era uma cineasta brasileira pouco conhecida em seu próprio país, já que estava radicada nos Estados Unidos há décadas. Para muitos, aquele foi seu cartão de apresentação. Só que Solberg vinha de uma história muito mais produtiva do que se imaginava.

A partir desse primeiro contato, Mariana começou a se envolver com o trabalho da cineasta. Durante seu mestrado, defendido na Escola de Belas Artes da UFMG, conheceu melhor a obra – sua dissertação girou em torno dos processos para criação de vários documentaristas. Quando foi pensar no doutorado, defendido na mesma escola, foi o marido, o também jornalista Marcos Barreto, quem lhe sugeriu: por que não Helena, já que uma tese demanda ineditismo? “Havia uma inexistência de qualquer coisa escrita sobre o trabalho dela”, comenta Mariana. Defendida em 2012, a tese acabou resultando no livro Helena Solberg: do Cinema Novo ao documentário contemporâneo.

A edição da obra foi realizada pelo É tudo verdade – Festival Internacional de Documentários, que realizou no Rio e em São Paulo, este mês, retrospectiva com oito dos 15 filmes de Solberg. Foi a primeira vez que a cinematografia dela ganhou mostra do gênero. O festival, que tem versão itinerante, ganha edição em Belo Horizonte de 24 a 27 de julho, no Oi Futuro, quando Mariana vai fazer noite de lançamento do livro – como a versão mineira é bem menor do que a original, deverão ser exibidos apenas dois filmes de Solberg. A jornalista ainda pretende fazer, este ano, um seminário e uma mostra mais extensa dos filmes da cineasta.


Ludmila Dayer em Vida de menina, estreia de Helena Solberg em longa-metragem de ficção (Pedro Farkas/Divulgação
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Ludmila Dayer em Vida de menina, estreia de Helena Solberg em longa-metragem de ficção

Com apresentação de Arnaldo Jabor e prefácio de Hernani Heffner, a obra de Mariana abrange toda a obra de Solberg, chegando até mesmo a um projeto ainda em andamento, a ficção A visita. “A Helena vai fazer 76 anos em junho. É a única mulher brasileira de sua geração que continua em atividade”, comenta Mariana, que dividiu seu livro de acordo com as fases da obra da cineasta.

Nova mulher O momento inicial foi o do Cinema Novo (foi a única mulher a fazer parte do movimento), de que fizeram parte dois filmes: A entrevista (1966) e Meio-dia (1970). O primeiro representa sua estreia em documentários, e o segundo, seu único curta de ficção. Filha de norueguês com brasileira, em 1971 ela se muda para Washington. É quando produz a chamada Trilogia da mulher: A nova mulher (1974), A dupla jornada (1975) e Simplesmente Jenny (1977), todos frutos do movimento feminista.

Já na década de 1980, tem início sua fase militante, com seis documentários que investigam a relação dos EUA com as ditaduras latinas. São seis filmes, todos realizados pelo sistema público de televisão norte-americana, que só vieram a público no Brasil com a retrospectiva do É tudo verdade. Para os filmes militantes, a jornalista chama a atenção de Nicarágua hoje (1982), ganhador de um Emmy (o Oscar da TV americana) – “que mostra a reconstrução da Nicarágua pós-sandinismo do ponto de vista de uma família” – e A conexão brasileira (1982/1983), sobre a dívida externa.

Depois destes, realiza Bananas is my business e, de volta ao Brasil, lança em 2004 Vida de menina, sua estreia em longas de ficção. Adaptação de Minha vida de menina, diário de Helena Morley, pseudônimo com que Alice Dayrell Caldeira Brant escreve suas memórias de garota na Diamantina do final do século 19. Mais recentemente, Solberg lançou os documentários Palavra (en)cantada (2009) e A alma da gente (2013), este último ainda participando do circuito de festivais.

“Dizem que os cineastas sempre falam dos mesmos temas. No caso da Helena, ele vai se alargando. No começo, em A entrevista, ela fala da mulher de classe média, suas contemporâneas de escola. Depois vem a mulher latino-americana; mais tarde a política. Com Carmen, mostra a questão da mulher e as relações de boa vizinhança. Ou seja, política e economia latino-americanas se mantêm no cinema dela, com um olhar especial para personagens femininas”, finaliza Mariana.

Um outro olhar

Mariana Tavares comenta as fases da obra de Helena Solberg




"Helena sempre foi muito conectada com o que está acontecendo, seu cinema é dinâmico", revela Tavares

A dupla jornada


“Helena sempre foi muito conectada com o que está acontecendo, seu cinema é dinâmico. Depois dos dois primeiros filmes, realiza três sobre o movimento feminista. E diferentemente do cinema antropológico, em que o cineasta não interfere, tem a câmera fixa, ela gosta de ter controle” (na foto, a diretora com Cristine Burrill, na Bolívia, durante as filmagens de A dupla jornada, sobre as mulheres trabalhadoras na América Latina) 


Cena de
Cena de "Bananas is my business", de Helena Solberg

Bananas is my business

“Helena usa ficção para fazer um documentário, em 1994, com uma sofisticação de linguagem e técnica que pouco se via no cinema brasileiro da época. Antes dela, só Lúcia Murat havia feito algo parecido com Que bom te ver viva (1989). É um marco do documentário brasileiro. Um artista transformista representa a Carmen adulta; a Letícia Monte (irmã de Marisa) faz a Carmen adolescente. Além disso, o filme traz a voz da Helena em of., reflexiva, falando da relação dela com a cantora.” 


"A alma da gente (2013) foi realizado em duas partes. A 1ª em 2002, e a 2ª, 10 anos mais tarde", conta Tavares

A alma da gente

“A alma da gente (2013) foi realizado em duas partes. A primeira, em 2002, e a segunda, 10 anos mais tarde. Ela abordou adolescentes que fizeram parte do projeto Dança das Marés (coordenado por Ivaldo Bertazzo no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro). Ela volta mais tarde para ver a possibilidade de transformação na vida daqueles adolescentes. É um filme que dialoga com Cabra marcado para morrer (1985, de Eduardo Coutinho), pois traz dois momentos na vida dos personagens.” 

TeVê

tv paga


Estado de Minas: 19/04/2014


 (Paramount Pictures/Divulgação)


A saga continua

Espaço, a fronteira final. Audaciosamente indo onde nenhum assinante jamais esteve, o Telecine Premium promove hoje a estreia de Além da escuridão – Star Trek, mais uma aventura do capitão Kirk, Spock e a tripulação da Enterprise. Nessa nova missão, eles são enviados a um planeta primitivo, que está prestes a ser destruído por um vulcão. Confira às 22h.

Boas alternativas na
HBO e Telecine Cult

Também às 22h, a HBO estreia Um golpe perfeito, com Colin Firth e Cameron Diaz nos papéis principais. Enquanto isso, o Telecine Cult exibe o drama A caça, com Mads Mikkelsen no papel de um professor acusado de abusar sexualmente de uma criança. Já o Megapix emenda três filmes de terror: 30 dias de noite 2 – Dias sombrios (18h05), Possuída (19h55) e O último trem (22h). No Universal Channel continua a maratona de Páscoa, e o destaque de hoje é Meu monstro de
estimação, às 21h30.

São muitas as opções
no pacote de cinema

Na faixa das 22h, são mais 10 boas dicas: As três Marias, no Canal Brasil; Inocência, no Futura; Bossa nova, no Sony Spin; Habemus papam, no Max; Looper – Assassinos do futuro, no Max Prime; Guerra dos mundos, na MGM; Invictus, na Warner; O ilusionista, no A&E; O último grande herói, no Comedy Central; e Paixão obsessiva, na HBO HD. Outras atrações da programação: Era uma vez, às 21h, no AXN; Poder sem limites, às 22h30, no FX; Os agentes do destinos, também às 22h30, no Space; e Uma longa viagem, às 23h, na Cultura.

Canal NatGeo aposta
em histórias da Bíblia

 O NatGeo também preparou uma programação especial de Páscoa, reservando para hoje os documentários Mulheres bíblicas, A história de Jesus e O poder de Jesus, a partir das 21h35. No canal Are 1, outro documentário em destaque: Belezas seculares, sobre restauração de esculturas em locais públicos pelo Brasil afora.

Bis exibe documentário
sobre Kurt e Courtney

Na programação musical, um dos destaques é o documentário Kurt & Courtney, às 21h30, no canal Bis, mostrando o conturbado relacionamento do astro Kurt Cobain com a cantora e atriz Courtney Love e a morte do roqueiro, 20 anos atrás. Na Cultura, mais duas dicas: o grupo Rapa da Godoy em Manos e minas, às 17h; e a banda Apanhador Só em Cultura livre, às 18h.

 filmes



14h40 na Globo

ATÉ QUE A SORTE NOS SEPARE
Brasil, 2012. Direção de Roberto Santucci, com Leandro Hassum, Danielle Winits e Kiko Mascarenhas. Tino e Jane ficam ricos com um prêmio da loteria, mas após 15 anos de ostentação eles conseguem gastar todo o dinheiro e ficam pobres novamente.

15h15 na Record

A ERA DO GELO 2
(Ice age 2: the meltdown) – EUA, 2006. Direção de Carlos Saldanha. Desenho animado. A era glacial chega ao fim e o mamute Manfred, o tigre Diego e o bicho-preguiça Sid logo descobrem que toneladas de gelo estão prestes a derreter e inundar o vale em que vivem.

20h30 na Record

HOP – REBELDE SEM PÁSCOA
(Hop) – EUA, 2011. Direção de Tim Hill. Dezsenho animado. Junior é um coelho que adora tocar bateria e sonha em fazer sucesso com a música, mas seu pai deseja que ele dê continuidade à tradição de tornar-se o Coelho da Páscoa, seguida há 4 mil anos.

22h15 no SBT/Alterosa

SCOOBY-DOO
(Scooby-Doo) – EUA, 2002. Direlção de Raja Gosnell, com Fredie Prinze Jr., Sarah Michelle Gellar, MatthewLillar e Linda Cardellini. O grupo Mistério S/A investiga uma maldição que ataca os jovens frequentadores do Parque Ilha do Espanto.

22h20 na Bandeirantes

A ESPADA DO DRAGÃO BRANCO
(Flying dragon, leaping tiger) – Hong Kong, 2003. Direção de Allen, com Sammo Hung Kam-Bo e Pei-pei Cheng. Em um deserto na China feudal, um antigo mestre de artes marciais parte em busca de sua filha, ao lado de um ladrão de cavalos que luta como ninguém.

23h na Rede Minas

CORUMBIARA
Brasil, 2009. Direção de Vicent Carelli. Documentário que reúne depoimentos de testemunhas do massacre ocorrido em 1985, em Rondônia, quando uma comunidade indígena foi praticamente extinta e o indigenista Marcelo Santos denunciou o crime.

0h45 no SBT/Alterosa

UM ATO DE CORAGEM
(John Q) – EUA, 2001. Direção de Nick Cassavetes, com Denzel Washington, Robert Duvall e James Woods. Desesperado quando o filho precisa de um transplante do coração e o seguro não cobre, John Quincy faz reféns em um hospital e exige o tratamento.

1h10 na Bandeirantes

UMA GAROTA MISTERIOSA
(B. monkey) – Inglaterra/Irlanda do Norte, 1998. Direção de Michael Radford, com Asia Argento, Jared Harris e Rupert Everett. O professor Alan Furnace leva uma vida normal até que conhece a bela Beatrice, que o conduz numa perigosa e sexy jornada por Londres.

1h15 na Rede Minas

Romance da Empregada
Brasil, 1987. Direção de Bruno Barreto, com Betty Faria, Brandão Filho e Daniel Filho. A odisseia de Fausta,
que vive no subúrbio e ganha
a vida como doméstica. Enquanto se espreme em trens lotados, ela
sonha em ser Tina Turner e
comprar um barraco.

1h25 na Globo

SOB O DOMÍNIO DO MAL
(The manchurian candidate) – EUA, 2004. Direção de Jonathan
Demme, com Denzel Washington,
Meryl Streep e Liev Schreiber. Recuperado de processo de
lavagem cerebral, ex-soldado tenta evitar que um colega militar chegue a altos postos na política americana.

3h na Rede Minas

Hanami – Cerejeiras em Flor
(Kirschblüten – Hanami) – Alemanha, 2008. Direção de Doris Dörrie, com Elmar Wepper e Hannelore Elsner. Trudi esconde do marido Rudi que ele tem pouco tempo de vida e o leva a uma viagem ao Japão, aproveitando os últimos momentos juntos.

CARAS E BOCAS » Que papelão!

Estado de Minas: 19/04/2014




Cantor Belo não aparece em gravação do show de Raul Gil e vira boneco (Rodrigo Belentani/SBT)
Cantor Belo não aparece em gravação do show de Raul Gil e vira boneco



Depois de tudo pronto para a gravação de uma homenagem que receberia no Programa Raul Gil, o pagodeiro Belo simplesmente não apareceu. Alegou razões particulares. Dizem que não foi a primeira vez... Daí, o apresentador Raul Gil decidiu levar adiante a proposta do quadro. Então, vai ao ar hoje, no SBT/Alterosa, o “Homenagem ao artista” sem o artista. No lugar de Belo, um boneco. Quer saber? É assim que se faz. Afinal, programa pronto não era justo com os demais envolvidos, como vários artistas e amigos de Belo que contaram histórias sobre a carreira e vida pessoal do cantor, como Guilherme Arantes, Eliana, Paula Lima, Chrigor, Marcinho, Salgadinho, Sampa Crew, Regis Danese e Jorge Vercílio. Diga você se o homenageado fez falta. Profissional de primeira, Raul Gil se emocionou durante o quadro e disparou: “Eu te amo como se fosse meu filho. Se você estivesse aqui, você estaria como eu, emocionado”.


DOMINGO LEGAL ESTREIA
NOVO QUADRO AMANHÃ

Amanhã, às 11h, no SBT/Alterosa, o Domingo legal estreia o quadro “Na fazenda do Santos”, com a participação de Milene Pavorô e Babi Rossi. Entre outras atividades, que prometem ser engraçadas, comandadas pelo Santos, do Programa do Ratinho, elas vão apostar corrida em pôneis, dar comida aos avestruzes e pegar rãs.

CASAL SE RECONCILIA NA
CIRANDA DA NOVELA DAS 7

No capítulo de hoje de Além do horizonte (Globo), Kléber (Marcello Novaes) e Keila (Sheron Menezzes) finalmente vão se reconciliar. Antes, mais um estresse: ele decide deixar Tapiré, já que acredita que não tem mais chance com a amada. Na hora da partida, porém, ela aparece e pede que ele fique. Os dois seguem para casa e Keila diz que vai dar uma nova chance ao amor, mas impõe uma condição: quer que o marido se entregue à polícia, confesse todos seus crimes e pague por eles. E promete que o visitará todos os dias na cadeia. Ele concorda.

RATINHO E PAGODE VÃO
AGITAR HOJE O ARENA SBT

Diversão, informação e convidados especiais. É o que anuncia o Arena SBT, hoje, à meia-noite. No palco estarão o
apresentador Ratinho e o ex-jogador de futebol Amaral com suas opiniões sobre os esportes. O musical fica por conta
dos amigos do Pagode 90: Márcio Art, Salgadinho e Chrigor.

A MAGIA DE CHAPLIN EM
CARTAZ NO CINE MAGAZINE

Charles Chaplin nasceu em um bairro pobre de Londres em 16 de abril de 1889. Por causa dos problemas mentais da mãe, ele e seu irmão Sydney foram obrigados a viver em lares adotivos e orfanatos. Com seu talento, Charlie venceu a pobreza e se tornou um dos maiores gênios do cinema. O Cine magazine deste sábado, às 20h30, na Rede Minas, homenageia o gênio
de filmes como O grande ditador e O garoto.


BAFAFÁ NO CQC

A repórter Naty Graciano conferiu o lançamento do novo filme de Tony Ramos, Getúlio, no Rio de Janeiro. Por lá, ouviu dele e de outros famosos respostas para “twittes” mais escabrosos que estarão no quadro “Twitter delivery”. Ainda na capital carioca, o programa acompanha o lançamento do livro sobre os 25 anos do Prêmio da Música Brasileira e conversou com os cantores Ney Matogrosso e Zeca Pagodinho. O “Documento da semana” traz Ronald Rios e a história de um lutador de boxe que recupera ex-drogados com o esporte, transformando vidas e construindo sonhos. O CQC vai ao ar às segundas-feiras, às 22h30, na Band.

VIVA
Série Game of thrones,  na HBO (TV paga). Imperdível!


VAIA
Doce de mãe (Globo) vai ao ar muito tarde. Uma pena.

As riquezas de Guimarães Rosa

NOSSA HISTÓRIA » As riquezas de Guimarães Rosa Museu em Cordisburgo, onde está acervo do expoente da literatura, completa 40 anos e mostra objetos pessoais, diplomas e as primeiras edições de suas obras, como Grande Sertão: Veredas


Gustavo Werneck
Estado de Minas: 19/04/2014




Museu fica em Cordisburgo, na Região Central, e é o melhor destino para quem quer saber sobre vida e obra do autor (Ronaldo Alves/Museu Casa/Divulgação)
Museu fica em Cordisburgo, na Região Central, e é o melhor destino para quem quer saber sobre vida e obra do autor

Quarentão cheio de histórias, dono de rico acervo e sempre de portas abertas para receber visitantes e homenagear a memória de um dos maiores expoentes da literatura nacional. O Museu Casa Guimarães Rosa, em Cordisburgo, na Região Central, a 114 quilômetros de Belo Horizonte, completa quatro décadas como polo irradiador de cultura, difusor de educação patrimonial, enfim, destino certo para quem se interessa pela vida e obra do autor de Grande Sertão: Veredas e gosta de viajar pelas páginas de um bom livro. Para julho, está programada a Semana Roseana comemorativa, com exposição, palestras, mesa-redonda e outros eventos, diz Ronaldo Alves, coordenador do espaço vinculado à Superintendência de Museus e Artes Visuais da Secretaria de Estado de Cultura.

Andar pelos cômodos do casarão da Avenida Padre João, onde nasceu João Guimarães Rosa (1908-1967), é descobrir mais sobre o mineiro que ganhou o mundo servindo como diplomata e com a obra traduzida para vários idiomas. À mostra, estão exemplares das primeiras edições de Sagarana, Corpo de baile, Tutaméia; e, claro, Grande Sertão: Veredas; a coleção de gravatas-borboleta, traço inconfundível do figurino do escritor; o terno; a cartola; o diploma que recebeu ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras em 16 de novembro de 1967, “três dias antes do seu falecimento”, destaca Ronaldo; e o mobiliário – guarda-roupa, mesa do escritório, cadeira de balanço. Não poderia faltar jamais a máquina de escreve e ela está lá.

Na casa do fim do século 19 onde Guimarães Rosa nasceu e que pertence, hoje, ao Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha-MG), há muito mais para se ver e curtir durante boas horas. Ficam à disposição dos visitantes cerca de 700 documentos textuais, dentre os quais se destacam registros pessoais (certidões, correspondências, discursos, originais manuscritos ou datilografados, a exemplo de Tutaméia, última obra publicada) e do trabalho como médico e diplomata, além de fragmentos do universo rural presente na literatura roseana.

Segundo Ronaldo, o museu recebeu ano passado aproximadamente 30 mil pessoas, sendo 90% estudantes. Nesse mundo ocupado agora por objetos, papéis e móveis, havia os aposentos da família (quartos da bisavó materna, dos pais e das irmãs, esse último transformado em escritório do museu), sala de jantar e alcova. Inaugurado em 30 de março de 1974, o museu foi concebido como centro de referência da vida e obra do escritor e idealizado no contexto de acontecimentos: a morte repentina dele e a criação do Iepha em setembro de 1971 para preservar o patrimônio cultural.

SEU FULÔ
Em 1984, quando completava 10 anos, o museu ganhou um acréscimo que traz a marca da infância de Guimarães: a reprodução da venda de secos e molhados do Seu Floduardo, conhecido como seu Fulô, incorporada definitivamente à exposição. Quatro anos depois, entrou em cena a Semana Roseana, parceria do museu com a Academia Cordisburguense de Letras João Guimarães Rosa, reunindo pesquisadores e estudiosos de universidades de Minas, São Paulo e Rio de Janeiro. O evento abrange diferentes atividades, como oficinas literárias, música, artes plásticas (desenho e xilogravura), fotografia, palestras, apresentações teatrais, lançamento de livros, feira de artesanato e shows musicais. Ocorre, ainda, a caminhada ecoliterária, no itinerário urbano e rural registrado na literatura: a antiga estação ferroviária, a casa da infância, a Capela de São José, fazendas e cidades vizinhas.

Uma surpresa está reservada para quem chega de perto ou de longe. Trata-se do Grupo de Contadores de Estórias Miguilim, composto por mais de 30 jovens entre 11 e 18 anos que recebem formação permanente em técnicas de narração e sobre a vida e obra de Guimarães Rosa. “Sempre quando as pessoas chegam ao museu, podem ser apenas duas ou um grupo grande, elas são recebidas com a leitura de trechos de livros”, afirma Ronaldo. Criado em 1995, com o objetivo de prestar acompanhamento e enriquecer as visitas ao Museu, o grupo ultrapassou as fronteiras institucionais e adquiriu expressão regional e nacional. Além do espaço do museu, a turma tem se apresentado em diferentes localidades de Minas e do país, em universidades, congressos, seminários, escolas e instituições culturais e filantrópicas.


Portal Grande Sertão tem figuras humanas em bronze e fica na Praça Miguilim (Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press - 14/3/12)
Portal Grande Sertão tem figuras humanas em bronze e fica na Praça Miguilim



AMIGOS Nessa história, tem importância fundamental a Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa, fundada em 1994. A entidade filantrópica reconhecida como de utilidade pública municipal e estadual é mantenedora da Biblioteca Pública Riobaldo e Diadorim e do grupos Contadores de Estórias Miguilim e Melhor Idade Estrelas do Sertão. A associação incentiva a participação da comunidade nas atividades do museu e apoia projetos e eventos que fortaleçam a cultura local.

Serviço
Museu Casa Guimarães Rosa
Aberto de terça-feira a domingo, das 9h às 17h – Entrada: R$ 2
Av. Padre João, 744 – Centro, Cordisburgo
Telefone: (31) 3715-1425


SAIBA MAIS:
CIDADÃO DO MUNDO



Contista, novelista, romancista e diplomata, João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo em 27 de junho de 1908 e era filho de Florduardo Pinto Rosa e Francisca Guimarães Rosa. Aos 10 anos, chegou a Belo Horizonte para estudar e se formou em 1930 na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais. Tornou-se, então, capitão médico, por concurso, da Força Pública do Estado. A estreia literária ocorreu em 1929, com a publicação, na revista O Cruzeiro, do conto “O mistério de Highmore Hall”. Em 1936, a coletânea de versos Magma recebe o Prêmio Academia Brasileira de Letras. Diplomata por concurso que realizara em 1934, o mineiro ilustre foi cônsul em Hamburgo (de 1938 a 1942), secretário de embaixada em Bogotá (de 1942 a 1944) e ocupou outros cargos de relevância. A publicação de Sagarana, em 1946, deu-lhe destaque nacional, o que foi reiterado pelas obras Grande sertão: Veredas, traduzido para vários idiomas, Corpo de baile e outras. Rosa morreu no Rio de Janeiro (RJ) em 19 de novembro de 1967.


LINHA DO TEMPO

1974 – Em 30 de março, Museu Casa Guimarães Rosa, vinculado à Superintendência de Museus e Artes Visuais, é inaugurado em Cordisburgo

1984 –Museu Casa Guimarães Rosa é reinaugurado com a reconstituição da venda do seu Floduardo Rosa, pai do escritor

1988 –Academia Cordisburguense de Letras João Guimarães Rosa e Museu Casa Guimarães Rosa criam a Semana Roseana, que passa a ser realizada todos os anos

1994 – Em 3 de dezembro, é criada a Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa, entidade mantenedora da Biblioteca Pública Riobaldo e Diadorim

1995 –Criado o Grupo de Contadores de Estórias Miguilim, considerado o maior projeto de sociocultural do museu. Mais 30 jovens entre 11 e 18 anos recebem formação permanente em técnicas de narração

2010 – Em junho, é inaugurado o Portal Grande Sertão. Fica na Praça Miguilim e se compõe de representações de figuras humanas esculpidas em bronze

2012 –Começa o projeto Rosa dos Tempos, Rosa dos Ventos, com nova exposição de longa duração e parceria com a Associação dos Amigos do Museu

Revolução - Eduardo Almeida Reis

Em verdade vos digo: duro é sair do Google e voltar ao texto que você estava escrevendo, porque o mundo high-class é muito divertido


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 19/04/2014


Pouquíssimas coisas mudaram tanto o mundo quanto o Google, onde você encontra fatos e fotos de divulgação inimaginável há 15 anos. Traições, testes de paternidade, ménage à trois a montões, coisas que a gente sabia muito por alto surgem agora impressas: um espanto! No reino das celebridades, então, o negócio é de horrorizar e “faz parte”. A senhora Narcisa Tamborindeguy, socialite, escritora e advogada nascida no RJ, diz que sem escândalo não é high. E o Collins diz que high é alto.

Entre as pessoas de high-class, de high-level, os escândalos repercutem no Google com detalhes que horrorizam, o que não quer dizer que inexistam nas classes menos favorecidas. Há programas de tevê especializados no assunto.

E o certo é que dei com este velho costado no Google digitando o apelido de conhecida socialite, que foi casada com um presidente deste país grande e bobo. Só agora fiquei sabendo que apanhava tanto de sua excelência que chegou a ficar surda de um ouvido. A dois ambos, depois disso, casaram-se uma porção de vezes e tiveram uma penca de filhos. Passa um pouco das dez da noite e hoje acordei às quatro e vinte da manhã. Vou dormir. Prometo retomar o assunto descansado, com toda a cautela do mundo.

Voltei para explicar que digitei o nome da socialite porque fui vizinho, na roça fluminense, do irmão dela e de um dos seus maridos. Uma vez no Google high-level, o próprio buscador leva o intrometido consulente aos outros casos e o xeretar faz que você leia o resto, mesmo que não conheça os envolvidos. Em verdade vos digo: duro é sair do Google e voltar ao texto que você estava escrevendo, porque o mundo high-class é muito divertido.


Injustiça
Município que faz divisas com Muquem do São Francisco, Oliveira dos Brejinhos e Paratinga – Ibotirama, que em tupi significa flor promissora, de mbotyra (flor) e rama (promissor, futuro), teria tudo para se transformar em destino turístico internacional, não fosse a implicância da indústria do turismo mundial com os maravilhosos destinos brasileiros. Basta lembrar que a indústria, em sua implicância, considera Paris melhor destino turístico do que Belo Horizonte, e Florença melhor que Contagem.

As virtudes ibotiramenses não impediram, contudo, que a Justiça baiana cometesse tremenda injustiça ao condenar o senhor Paulo Alberto Magalhães a 12 anos de prisão, em regime fechado, pelo fato de enfiar 31 agulhas de costura no corpinho de um enteado de dois anos.

Paulo Alberto não negou o trabalho feito no corpo do enteado em 2009, mas disse que agiu por ordem do senhor Ogum. O senhor Ogum, como sabe o leitor, é orixá masculino estreitamente ligado a Exu, a quem mitos nigerianos atribuem a comunicação da metalurgia do ferro aos homens, com o que estes dominaram a natureza; manifesta-se na forma de um guerreiro.

Releva notar que Paulo Alberto, devoto de Ogum, teve o carinho de dopar o enteado com vinho para que o guri não sentisse dor ou incômodo durante o enfiar de cada agulha. Cumprindo ordens do orixá, o mínimo que se poderia esperar de uma Justiça realmente justa seria a condenação dos dois, de Ogum e do padrasto, aos 12 anos em regime fechado. É por essas e outras que a população brasileira anda fazendo justiça com as próprias mãos nos episódios que a imprensa resolveu chamar de barbárie.

No Oiapoque ao Chuí, pilhados em flagrante, ladrões, estupradores e homicidas vêm sendo amarrados aos postes e espancados neste ano da Copa das Copas, não raras vezes mortos a pontapés, socos ou golpes de lutas marciais.

Barbárie... concordo: qualidade, condição ou estado de bárbaro; barbarismo, selvageria. Mas cabe a pergunta: se o Estado nada faz, ou prende e solta em seguida, como devem proceder os bárbaros cidadãos que trabalham, pagam impostos e não cometem crimes, quando são roubados, estuprados e ameaçados de morte pelos bandidos?


O mundo é uma bola
19 de abril de 1506: massacre de judeus em Lisboa, também conhecido como Pogrom de Lisboa ou Matança da Páscoa. Uma multidão perseguiu, torturou e matou cerca de 3.000 judeus acusados de causarem a seca, a fome e a peste que assolavam o país. O pogrom aconteceu antes do início da Inquisição e nove anos depois da conversão forçada dos judeus em Portugal, em 1497, durante o reinado de Dom Manuel I, o Venturoso.

Expulsos em 1492 pelos reis católicos da Espanha, cerca de 90 mil judeus se refugiaram em Portugal, onde Manuel I se mostrou mais tolerante com eles. Pressionado pela Espanha, contudo, Portugal também exigiu que se convertessem a partir de 1497 para não serem mais humilhados e mortos em público.

Dia 19 de abril de 1506, um domingo, no Convento de São Domingos de Lisboa, quando os fiéis rezavam pelo fim da seca e da peste, alguém julgou ter visto no altar o rosto de Cristo iluminado, fenômeno que só poderia ser interpretado como milagre. Um cristão-novo, que participava da missa, tentou explicar que se tratava do reflexo de uma luz, mas foi calado e espancado pelos fiéis até morrer. O resto dá para imaginar. Hoje é o Dia do Exército Brasileiro e o Dia do Índio (no continente americano).


Ruminanças
 “Quem mata o tempo não é um assassino: é um suicida” (Millôr Fernandes, 1924-2012).