domingo, 20 de abril de 2014

Do carnaval ao Mundial

PERFIL/MÁRCIO VICTOR / VOCALISTA E PERCUSSIONISTA » Do carnaval ao Mundial Cantor do sucesso Lepo lepo sonha em ver sua canção na comemoração de gols do Brasil


Ana Clara Brant
Estado de Minas: 20/04/2014



Conhecido como vocalista do Psirico, Márcio Victor já tocou com Caetano Veloso, Marisa Monte, Gloria Stefan e como tenor Luciano Pavarotti (Fred Pontes/Divulgação)
Conhecido como vocalista do Psirico, Márcio Victor já tocou com Caetano Veloso, Marisa Monte, Gloria Stefan e como tenor Luciano Pavarotti

Em menos de uma semana, a banda Psirico e seu líder Márcio Victor, de 34 anos, estiveram três vezes em Minas Gerais (Itaúna, Contagem e Sete Lagoas), estado que concentra pelo menos 80% dos shows da banda baiana. Essa relação forte com os mineiros é cultivada com muito carinho e nasceu quando eles se apresentaram pela primeira vez no Axé Brasil, em 2009. O grupo chegou a morar um mês num hotel da capital mineira, e Márcio conta que sente muita saudade daquele tempo. “Botamos fogo no hotel, de tanta festa que fizemos. A gente tocava, cantava. Os outros hóspedes participavam. Para você ter ideia, um dia fizemos uma legítima moqueca baiana dentro de um dos quartos e tinha até norte-americano comendo. Era um auê, mas sempre com muito respeito, sem fazer muita zoeira e sem atrapalhar a rotina. Não tivemos nenhuma reclamação”, assegura o artista, com o típico jeitinho baiano.

O vocalista conta que a parceria com a mineirada foi construída de grão em grão e não foi à toa que o Psirico chegou a ser eleito três vezes a melhor banda e o melhor show do Axé Brasil. No ano passado, durante o festival realizado no Mineirão, eles foram obrigados a interromper a apresentação já na segunda música, porque o contrato com o estádio prevê encerramento à meia-noite e como o Psi – como é afetuosamente chamado pelos fãs – já tinha ultrapassado 20 minutos do horário, decidiu retornar no dia seguinte para terminar o show. “O Mineirão inteiro pediu para a gente voltar e não teve como não atender. Não era justo. São anos de parceria com esse público. No começo da nossa carreira fizemos muitos eventos em festas de faculdades no interior e em escolas. Minas não é apenas mais um estado que a gente faz. É especial, assim como a Bahia. E sem falar que adoro a comida, o beijo das mineiras (risos). É de Deus, beijo perfeito”, diz.

Foi só depois de pôr o pé na estrada que Márcio Victor e os demais companheiros se deram conta do sucesso que o hit do carnaval Lepo lepo se transformou. É claro que, pela quantidade de entrevistas e programas que têm participado desde o fim da folia, eles imaginam o estrondo. Mas é no contato com o povo e nos shows que a coisa muda de figura. “Desde o começo de março, ficamos gravando no Rio e em São Paulo, dando entrevistas, aparecendo em programas de TV, mas só agora tivemos mesmo acesso à fama que o Lepo lepo proporcionou. E é uma coisa de louco! A gente está sendo muito assediado, não para de dar autógrafo, tirar fotos. A música só vem crescendo e deixou de ser o hit do carnaval e se prepara para ser o hit da Copa”, acredita Márcio Victor.

Na Copa O CD oficial da Fifa, que será lançado pela Sony Music em maio, terá Lepo lepo como uma das faixas e, pelo contato que Márcio Victor tem com alguns jogadores da Seleção, como Neymar, Daniel Alves e Jô, a canção-chiclete tem tudo para embalar o Brasil durante a comemoração nos jogos do Mundial. “Antes mesmo de a música estourar eles já dançavam o Lepo lepo em algumas partidas, não só da Seleção como dos times em que jogam. E como faço parte de um grupo de WhatsApp (aplicativo de troca de mensagens pelo celular) com eles, alguns já manifestaram essa vontade de torná-la a música do Brasil na Copa”, avisa o artista, que é torcedor do Bahia.

Quando o Psirico surgiu no ano 2000, com mistura de pagode, arrocha e axé, a marca registrada de Márcio Victor era o uso de um megafone durante suas apresentações, com o típico ruído de sirene que o aparelho produz. Hoje, o grupo abriu mão dessa parafernália, mas o cantor lembra daqueles bons tempos com ternura. “O megafone era uma forma de mostrar que a gente queria ser diferente, mas como não tínhamos muito recursos para plug-ins e para produzir efeitos tecnológicos, a solução era fazer isso utilizando a voz. Era a nossa maneira criativa de ser moderno. A gente sempre procurou inovar”, afirma.


Três perguntas para...
Márcio Victor
Cantor

1) Qual a razão desse sucesso tão arrebatador de Lepo lepo?
O povo está fazendo acontecer. A música já tem um ano de lançada e continua crescendo. É primeiro lugar nas rádios do Brasil e em algumas lá fora também. Já temos até pedidos para gravar em espanhol. Ela bombou com várias versões na internet, como a da Dilma, que ficou famosa, e isso ajudou também. Somos uma banda do povão, que adora falar do gueto e da periferia. O Lepo lepo é um grito ao não capitalismo, porque fala da realidade de 90% dos brasileiros. Do cara que já foi despejado, que não tem carro, não tem teto, é a representação do povo. É uma coisa de Deus. Só ele explica esse sucesso.

2)Mas o que é o Lepo lepo. O que significa afinal?
Lepo lepo é uma expressão baiana para designar o namoro, o amor, mas não era muito divulgada. A letra não é minha (a composição é de Felipe Escandurras e Magno Santana), só dei a ideia do refrão. Conta a história de um amor de verdade. Porque se quer ficar comigo é porque não liga para essas coisas materiais. O que importa é o sentimento. E ela pegou por isso. E é uma música que não enjoa. Até porque música boa não enjoa.

3)Quais são seus projetos para este ano?
Vamos lançar pela Som Livre um DVD gravado em Salvador, com regravações de grandes sucessos nossos, incluindo o Lepo lepo, e participações de gente muito especial, como Ivete, Preta Gil, Aviões do Forró e Saulo Fernandes. Queremos mostrar para o Brasil a história do Psirico. E já estamos preparando outro DVD, para o fim do ano, que terá um formato diferente. Ele será gravado em estúdio e vai mostrar os bastidores, o outro lado. Também terá convidados bacanas, como Gusttavo Lima, Luan Santana e Emicida.

De pagode a Pavarotti
Ana Clara Brant

Márcio Victor nasceu no Engenho Velho de Brotas, um dos bairros mais populosos de Salvador, e já aos 3 anos começou a demonstrar interesse pela música, principalmente pelos instrumentos de percussão. Foi nessa época que virou o mascote do bloco afro Badauê, na capital baiana, sua família fazia parte da diretoria. Em seguida, foi tocar no Araketu e, aos 9, foi parar na Timbalada, grupo em que seu tio Ninha era o vocalista. Ali passou a chamar a atenção de um dos principais nomes da música popular brasileira, Carlinhos Brown, com quem viria a ser percussionista anos depois.

E não foi só com o criador da Timbalada que Márcio mostrou suas habilidades rítmicas. Caetano Veloso – que chamou o vocalista do Psirico de “gênio”–, Daniela Mercury, Marisa Monte, João Bosco, Ivete Sangalo e até renomados artistas internacionais, como o tenor Luciano Pavarotti e a cantora e compositora cubana Gloria Stefan, tiveram Márcio ao lado em shows e gravações. “Tenho orgulho de ter trabalhado com essas pessoas. E sou muito querido por eles, o que é muito gratificante, e eles por mim. Todos sempre foram muito generosos comigo, sempre me deram aulas de como conduzir a vida artística. Faço questão de ouvir os conselhos e às vezes sou chato também, porque pergunto muito, quero aprender o tempo todo. A gente não pode tirar os pés do chão. Cresci muito, mas não abro mão da minha verdade”, frisa.

Mesmo se destacando nos vocais do Psi, ele faz questão de produzir, fazer os arranjos e, claro, tocar percussão nos discos e nos shows da banda, além de participar de projetos de outros colegas. “Recentemente, toquei no disco do Sorriso Maroto. Comigo, é assim. Passo pelo pagode, MPB, Pavarotti. Sou um aprendiz de Carlinhos Brown, do Paulinho da Costa, da música retrô. E isso me dá essa facilidade de transitar por vários estilos, mas sem deixar a minha marca de lado. A percussão que a gente faz no Brasil é uma percussão no mundo”, analisa.

Com os artistas das Gerais ele não teve muitas oportunidades de se apresentar, mas assegura que conseguiu absorver muito da música que é feita por aqui. Quando esteve pela primeira vez no Axé Brasil, há cinco anos, prestou uma homenagem a Clara Nunes, interpretando Ê baiana e vestindo uma camisa com uma foto da cantora. “Foi a mulher que mais cantou a música afro, que tinha a cara da Bahia. Já ouvimos e tocamos muito Clube da Esquina, Pato Fu, Jota Quest, Skank e também os sertanejos, como César Menotti & Fabiano. A gente trouxe e absorveu isso em nosso repertório e quando estamos em Minas, principalmente em BH, é mais forte ainda. Queria muito repetir aquela experiência de passar um mês na capital”, diz o cantor, que só deve retornar a BH no Axé Brasil 2014, em agosto. “A vida é isso. Ter foco, ir em busca dos objetivos, mas sempre celebrar, extravasar e fazer o que se gosta”, resume.

Clima - Eduardo Almeida Reis

Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 20/04/2014 



O clima e os acontecimentos nunca são do jeito que a gente quer. Ainda que eventualmente nos seja possível alterar a marcha dos acontecimentos, somos obrigados a aceitar a tirania do clima. Fala-se em aquecimento global e nas medidas que deveriam ser adotadas não apenas por você e por mim, mas por bilhões de pessoas. Tudo bem: façamos o recomendado e esqueçamos o fato de que as grandes alterações climáticas do planeta, florestas que se transformaram em desertos ou turfeiras, glaciações aqui e ali, continentes que se partiram e afastaram – tudo foi anterior à espécie humana ou, quando menos, uns poucos episódios foram contemporâneos de hominídeos que não tinham como interferir nas mudanças climáticas.

Claro que os veículos e as fábricas interferem na poluição dos ares de Pequim, Paris e São Paulo, mas estou falando do frio do princípio do outono mineiro, que já me fez buscar no armário o primeiro casaco de flanela. Princípio mesmo: quinto dia do outono. Fico furioso quando aquela baiana, linda moça casada com um dos donos da Friboi, fala do “friozinho gostoso” no telejornal noturno. E não perde o sotaque baianês, que deve agradar ao seu próspero marido e senhor.

Gostoso... para ela e muita gente que adora frio, detestável para telespectadores que devem ser respeitados. Dir-se-á que, detestando o frio, um bacharel deve mudar-se para Fortaleza ou para o Senegal. É, bebé? Vai arranjar emprego no estado pertencente aos irmãos Gomes; vai trabalhar num país em que se fala ulof, fulani, serere, diola e francês. Diz a Wikipédia que poucos senegaleses falam francês, informação irrelevante, pois também não falo. Se falasse idiomas, depois do inglês, escolheria o serere ou o ulof para me livrar das críticas das francófilas quando erro ao conjugar o verbo regretter.

Português

 Se quiser falar bonito sobre coisas feias, o leitor pode acusar cada ladrão de improbus administrator, ortoépia “impróbus administrãtor”: em latim soa melhor. Nos raros casos em que você pode recorrer ao adjetivo probo para falar de um administrador, deve dizer probo (ô), como aprendi em 28 de março ouvindo pelo rádio entrevista do ainda governador Antônio Augusto Junho Anastasia, caso raríssimo de administrador probo e alfabetizado.

Devo admitir que até hoje sempre disse probo (ó). Como é adjetivo pouco usado no Brasil, pronunciei com ó raras vezes. Devo ter aprendido assim; pelo visto e ouvido, aprendi errado. Na mesma semana, uma rede de tevê tentou ressuscitar um crime ocorrido em São Paulo. Atrás de pontos no ibope, as redes fazem os piores papéis.

Uma repórter chegou a afirmar que a senhora assassinada andava preocupada porque “tinha perdido um molho (ô) de chaves”. Realmente, deve ser um problema encontrar o tal molho, considerando que “chef Chaves” abundam no Google como abunda a pita, grande erva rosulada da família das agaváceas: Paula la chef Chaves, chef Felipe Chaves, Manuel chef Chaves – a lista é imensa e cada um deve preparar o seu “caldo em que refoga iguarias ou que as acompanha”.

De repente a repórter leu molho (ó) de chaves, penca de chaves, conjunto de coisas unidas, pensou no molho (ô) de tomate que despejou sobre a pizza comida na véspera (paulista adora pizza) e respingou o tomate no ouvido do telespectador, coitado. O pessoal anda impossível: dia 30 de abril meu provedor de internet manchetou: “O brasileiro Rogério Santos disse que um assessor parlamentar do Reino Unido o pagou para fazer sexo e o pedia drogas”.

O brasileiro Rogério Santos exerce a profissão de garoto de programa e o jornalista que escreveu “o pagou” e “o pediu” deve trabalhar na editoria auxiliar de limpeza do provedor, depois de ter sido educado na Freguesia do Ó, bairro localizado na região noroeste da cidade de São Paulo, que abriga a escola de samba Sociedade Rosas de Ouro, heptacampeã do carnaval paulistano.

O mundo é uma bola

20 de abril de 1233: o papa Gregório IX edita duas bulas que marcam o início da Inquisição, instituição da Igreja Católica Romana que perseguiu, torturou e matou vários dos seus inimigos ou quem entendesse como inimigos, os hereges.

Gregório IX, nascido Ugolini di Anagni, sobrinho do papa Inocêncio III, estudou direito em Paris e Bolonha. Seu pontificado estendeu-se de 1227 a 1241, quando morreu aos 96 anos. Amigo dileto de Francisco de Assis, organizou a Inquisição Pontifícia com o objetivo de reprimir as heresias promulgando a bula Licet ad capiendos dirigida aos dominicanos, que passaram a liderar o trabalho de investigação, julgamento e condenação ou absolvição dos hereges. Gregório IX tinha cara de anjo e canonizou seu amigo Francisco de Assis dois anos depois de morto.

Consta que Gregório IX foi visitado pelo Anjo Gabriel, que lhe falou de uma praga demoníaca que só poderia ser evitada pela conversão ao cristianismo de toda a costa da África do Norte. Pior do que o Anjo Gabriel, só mesmo o anjo da publicidade da Cemig. Hoje é o Dia do Disco e o Dia do Diplomata.

Ruminanças

 “Um diplomata que se diverte é menos perigoso do que um diplomata que trabalha” (Porto-Riche, 1849-1930).

EM DIA COM A POLíTICA » Tempos de barbárie?

EM DIA COM A POLíTICA » Tempos de barbárie? A violência crescente e a incapacidade dos governos de lidar com o problema da insegurança estão por trás de tudo isso.


Alessandra Mello
Estado de Minas: 20/04/2014



Ainda não há estatísticas oficiais, mas é fato que uma onda de linchamentos, espancamentos e casos de justiça feita por conta própria tem ganhado força no Brasil. Cada vez mais casos do gênero são noticiados e muitos contam com o apoio de uma parcela da população. O fenômeno não é restrito ao Brasil. Na Argentina, fatos semelhantes vêm acontecendo e suscitaram até mesmo manifestação recente do papa Francisco, que condenou, em carta, essa forma de violência.

O primeiro caso recente de repercussão no Brasil aconteceu no Rio de Janeiro, quando um adolescente acusado de assalto foi agredido e amarrado nu em um poste. Desde então, casos semelhantes ganharam força em todo o país. E para agravar o quadro, muitas das agressões são filmadas e exibidas nas redes sociais, sem nenhum constrangimento. Pelo contrário, as imagens e fotos são quase sempre postadas como um troféu por quem participa da barbárie.
A violência em alta e a incapacidade dos governos estaduais e federal de lidar com o problema da insegurança estão por trás de tudo isso. Mas não é só. As instituições do Estado sofrem de um descrédito crescente. A polícia mata sem dó nas periferias da cidade. As milícias agem livremente. A Justiça é lenta e quase sempre pune apenas os mais fracos. A segurança privada garante aos que têm dinheiro uma vida mais segura, enquanto a população pobre vive ao léu. Há anos o Congresso promete reformar a Justiça e as leis, mas tudo continua como antes. É nesse vácuo que essas manifestações de violência ganham corpo. São os tempos do olho por olho, dente por dente.

Em troca de apoio
Filiado ao PT e militante na causa agrária, Alcides Guerra Filho foi exonerado na semana passada do cargo de delegado do Ministério de Desenvolvimento Agrário em Minas Gerais. Em seu lugar, entrou o pastor e consultor de marketing Ricardo Sapi, filiado ao PRB. A exoneração de Alcides foi publicada em 7 de abril, como sendo “a pedido”. Dois dias depois, foi retificada no Diário Oficial da União: no texto, ficou apenas o verbo exonerar. A troca de comando aconteceu dias depois de o PRB anunciar apoio à candidatura de Fernando Pimentel (PT).

Lei Bernardo
A página criada no Facebook para tentar localizar o garoto Bernardo Boldrini continua no ar, mas agora com outra finalidade. Participantes da rede social transformaram a busca de notícias do garoto, encontrado morto no dia 14, em uma campanha pela alteração da legislação para garantir mecanismos mais eficientes para a proteção de crianças e adolescentes vítimas de maus- tratos e abusos cometidos pela família. A madrasta é acusada do crime, e a suspeita é de que ela tenha contado com a ajuda do pai do garoto, que está preso. Parentes do menino tentavam conseguir sua guarda, depois de denúncias de abandono e maus- tratos cometidos pelo pai e pela madrasta. O próprio garoto procurou a Justiça e pediu para deixar a casa do pai. 



 (Beto Magalhães/EM/D.A Press - 12/2/13)

Direitos iguais

Entrou em vigor uma resolução conjunta do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária e do Conselho Nacional de Combate à Discriminação que estabelece parâmetros para os homossexuais presos em unidades penitenciárias no Brasil. A norma garante direitos básicos como espaços específicos, direito à visita íntima e de ser chamado pelo nome social. O presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Travestis (ABLGT), Carlos Magno (foto), comemorou a norma, segundo ele, uma reivindicação de décadas. No entanto, ele considera que a luta por direitos iguais nos presídios ainda é longa, pois o texto não tem força de lei, ou seja, pode ou não ser seguido pelos estados. “É uma grande conquista, mas temos um longo caminho a percorrer para garantir que essa resolução saia do papel.” 

Senhor doutor
Depois do caso do sujeito que roubou duas galinhas avaliadas em R$ 40, o Supremo Tribunal Federal (STF) vai ter de decidir agora sobre uma ação em que um juiz de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, pede para ser chamado de doutor ou senhor pelo zelador do seu prédio. Durante a tramitação, que começou em 2004, o juiz chegou a ter algum sucesso, mas como acabou perdendo a ação, resolveu recorrer ao STF, alegando que o caso diz respeito à Corte por envolver princípios constitucionais da dignidade e igualdade. 

Homenagens a todo o vapor As votações na Câmara Municipal de Belo Horizonte andam para lá de lentas, mas as homenagens estão em ritmo frenético. Somente este ano, os vereadores já fizeram 21 sessões de homenagens das mais diversas. Para este mês ainda estão programadas mais 5. Muitas são entregas de títulos de cidadania honorária ou comenda de honra ao mérito a presidentes de partidos, integrantes do governo do estado e parlamentares estaduais e federais. 


Pinga Fogo
A militância petista na internet promoveu ontem, sábado de aleluia, uma malhação virtual do ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB). A desculpa é que ele traiu Dilma, ao passar para a oposição e fazer duras críticas ao governo federal. A hashtag, palavra ou expressão chave usada para marcar postagem com o mesmo conteúdo, era “Dudu traíra”.
O ministro da Secretaria de Aviação Civil, o peemedebista Moreira Franco, quer barrar no Rio de Janeiro o “Aezão”, dissidência do partido no estado que defende o voto no candidato do PSDB, Aécio Neves, e no governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, que concorre à reeleição.
A presidente da Confederação Nacional da Agricultura, senadora Kátia Abreu (TO-PMDB), publicou ontem um artigo em que defende “cidadania para os índios”. No texto, ela acusa a Fundação Nacional do Índio de ser ideológica e de incitar o Conselho Indigenista Missionário a travar uma luta contra o agronegócio, o lucro, o mercado e os produtores rurais. E finaliza dizendo que fez uma “homenagem pessoal aos povos indígenas” ao batizar seus filhos de Irajá, Iratã e Iana. É tanto amor pelos índios, não é senadora?
Enquanto o Judiciário no Brasil todo teve direito a feriadão prolongado, a Justiça Eleitoral não para. Cartórios eleitorais funcionaram durante todo o final de semana. É que vence em 7 de maio o prazo para quem quiser regularizar sua situação, mudar de domicílio eleitoral e tirar título para votar nas eleições de outubro.  

Tereza Cruvinel - Eleição do ceticismo

Esta parece ser a eleição do ceticismo: a aprovação do governo cai, os índices eleitorais da presidente também, mas a oposição continua perdendo para brancos e nulos


Tereza Cruvinel
Estado de Minas: 20/04/2014



Chamam a atenção, nas pesquisas eleitorais divulgadas no últimos dias, dois aspectos possivelmente interdependentes. O primeiro diz respeito às quedas da presidente Dilma Rousseff: o caso Petrobras e a Operação Lava-Jato conseguiram desgastá-la, mas não tanto quanto esperavam e desejavam os adversários. O outro dado, que não é novo, mas já deveria ter se alterado nesta altura da campanha, é o índice de votos brancos e nulos. Na pesquisa Ibope divulgada na quinta-feira, eles aparecem em segundo lugar, com 24%, logo depois de Dilma, com 37%.

Na pesquisa Datafolha divulgada no dia 5, a candidata Dilma perdeu seis pontos, caindo de 44% em fevereiro para 38%, embora ainda vencendo no primeiro turno. Na do Ibope, divulgada na última quinta-feira, a queda foi de três pontos. De 40% em março para 37% agora. São notícias ruins para ela, mas piores ainda para os adversários, que não escondem a frustração com o nível reduzido do desgaste produzido pela agenda negativa que o governo enfrenta desde o início do ano. Os problemas na economia se aprofundaram, com a renitência da inflação e a desconfiança dos mercados, e os da política foram se transfigurando.

Debelada a crise na coalizão governista, por conta de uma mal conduzida reforma ministerial, veio o escândalo da Petrobras, com enorme potencial de dano à própria Dilma. Ela já estava no centro da questionada compra da refinaria de Pasadena por ter autorizado a operação como presidente do Conselho de Administração da empresa. Puxou o assunto mais para si ao dizer que ela e os demais conselheiros não foram informados de todas as cláusulas do contrato, jogando a responsabilidade para gestões anteriores. O ex-diretor Nestor Cerveró, falando à Câmara na semana passada, confirmou ter omitido tais informações do chamado “resumo executivo” . Nem precisava, disse ele, pois tais cláusulas são de uso corrente, e por isso não foram informadas ao conselho. Mas alguém como ela, conhecida como exigente e espancadora de projetos, teria cobrado mais detalhes sobre uma operação de tão grande vulto, dizem os adversários, apostando na corrosão de sua imagem de boa gestora.

Passaram-se 30 dias desde a polêmica nota em que Dilma fez restrições à compra da refinaria, criticando como “falho e incompleto” o parecer da diretoria que embasou a autorização do conselho que presidia. Ao mesmo tempo vieram as revelações da Operação Lava-Jato sobre as conexões do ex-diretor da empresa Paulo Roberto Costa com o doleiro Albert Youssef, e as deste com grandes fornecedores da estatal. Deflagrou-se no Congresso a guerra entre oposição e base aliada em torno de uma CPI. Tanto chumbo deveria ter causado estrago maior, alegram-se os governistas e frustram-se os adversários, que já estariam formulando novas estratégias de combate. De todo modo, é cedo ainda: ninguém sabe o que pode surgir numa CPI, seja ela restrita à Petrobras ou destinada a investigar também a atuação do cartel dos trens e metrô nos governos tucanos de São Paulo e irregularidades no Porto de Suape, durante o governo Eduardo Campos. E, muito menos, que comportamento terá a inflação e outros indicadores econômicos em período tão afetado pelas expectativas eleitorais. Sem falar na Copa que vem aí. Dependendo do que acontecer, Dilma ganhará ou perderá mais pontos.

 Esta resiliência eleitoral da presidente pode ter relação com o mesmo ceticismo dos eleitores que alimenta as intenções de voto nulo ou em branco nas pesquisas. O eleitor pode estar querendo mudanças, mas, não credenciando os candidatos de oposição como agentes ideais para implementá-las, dividem-se entre o apoio a Dilma e o voto nulo ou em branco. Na pesquisa do Ibope, a presidente vem com 37%, seguida dos eleitores do ceticismo com 24% (soma de brancos e nulos), de Aécio Neves (PSDB), com 14%, e Eduardo Campos (PSB), com 6%. Como os chamados nanicos somam 5%, brancos e nulos praticamente empatam com a soma de todos os outros candidatos juntos (25%).

A preocupação dos governistas, entretanto, deveria ser menos com os indicadores eleitorais de Dilma e mais com as quedas na avaliação do governo, que vêm se repetindo e se ampliando a cada pesquisa, por força de uma incessante agenda negativa, em cuja construção a oposição vem tendo êxito, embora esteja perdendo para brancos e nulos. A disputa por estes votos do ceticismo se dará na campanha propriamente dita, com grande participação das armas do marketing.

Brasília e o sertão
Antecipo hoje, por não ter coluna amanhã, meu registro sobre os 54 anos que Brasília completa amanhã. A cidade já não é atacada como no passado como um lugar no fim do mundo. Hoje é a quarta metrópole nacional. Sua construção já não é apedrejada como foi, atingindo caluniosamente o presidente Juscelino. Ainda é muito confundida com os males da República, como se eles tivessem um DNA geográfico, e não moral e político. E ainda é parco o reconhecimento ao fato de que sua construção assegurou a soberania brasileira sobre esses sertões esquecidos e a Amazônia longínqua e misteriosa, cobiçados pelo olhar estrangeiro. Viva Brasília e os que a fizeram e vêm fazendo.

Gabo, o inesquecível

A morte não muda a dimensão de ninguém. Quando ela chega, tudo já foi feito e não há mais o que fazer. Mesmo assim, quando parte alguém especial, os que estão vivos param para revalorar o seu legado. É o que acontece agora com Gabriel Gárcia Márquez, quando o mundo inteiro reafirma o valor de sua obra ímpar e de sua personalidade admirável. Na Bienal do Livro, onde foi tão pranteado, Hamilton Pereira invocou um verso de Mario Quintana sobre os que, pelo que deixam, conseguem enganar a morte. Gárcia Márquez está mesmo entre estes.