sábado, 2 de agosto de 2014

Partilha da África entre China e Ocidente prenuncia nova crise no horizonte internacional


Partilha da África entre China e Ocidente prenuncia nova crise no horizonte internacional

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro



  • Paballo Thekiso/AFP
    18.nov.2010 - O então vice-presidente da China Xi Jinping participa das comemorações do 10º aniversário do Fórum de Cooperação China-África, em Pretória (África do Sul)
    18.nov.2010 - O então vice-presidente da China Xi Jinping participa das comemorações do 10º aniversário do Fórum de Cooperação China-África, em Pretória (África do Sul)
Num prestigioso programa do canal de TV americano CBS, a ex-secretária de Estado Madeleine Albright resumiu a atual situação internacional numa fórmula abrupta: "o mundo está uma bagunça!".
Albright se referia à multiplicidade de conflitos que pipocam e se prolongam em várias partes do mundo, ao lado dos novos enfrentamentos militares na Palestina e na Ucrânia.
Há, porém, outras crises surgindo no horizonte. Uma delas, de bom tamanho, decorrerá da nova partilha da África entre os interesses da China e dos países ocidentais.
Um infográfico publicado no jornal de Hong Kong "South China Morning Post" ilustra a estratégia do governo de Pequim e seu desejo de inscrever os sucessos atuais do país nas etapas gloriosas do passado chinês.
Mostrando o traçado transcontinental da célebre Rota da Seda, que durante mais de dois milênios uniu a China ao Ocidente, trazendo, além da seda, invenções chinesas que revolucionaram a história mundial, como a pólvora e a bússola, o infográfico sobrepõe o itinerário da Rota Marítima da Seda.
Proposto pelo presidente Xi Jinping, o plano desta rota sai do porto de Guangzhou (ou "Cantão" no português tradicional) e vai até o golfo Pérsico, passando pelo estreito de Malaca e Colombo (no Sri Lanka). Singrada pelos navios da China, que já é atualmente o maior operador mundial de marinha mercante, esta rota – que traz muitíssimo mais que seda – expande o poderio chinês para o oceano Índico, o Médio Oriente e os portos da África Oriental.
Obviamente, no Oriente Médio, os chineses se interessam pelo petróleo. Mas, no caso da África, os objetivos vão além das matérias primas e agora visam a mão de obra barata africana.
Uma reportagem divulgada pela agência Bloomberg tem um título que resume essa nova realidade: "A Etiópia se torna a China da China na busca global pela mão de obra barata". País pobre, com baixos salários, mas com eletricidade relativamente barata, a Etiópia está atraindo indústrias chinesas com uso intensivo de trabalho, como a indústria de sapatos, de camisas esporte e de bolsas.  Assim, enquanto o salário industrial mensal na China é, em média, US$ 560, na Etiópia o salário beira US$ 40.
A imprensa e o governo americano seguem de perto a nova redistribuição de cartas na África causada pela presença chinesa. Todos esses assuntos serão certamente discutidos, em público ou discretamente, em Washington na próxima semana quando se reúnem em volta do presidente Obama quase todos os chefes de Estado africanos na Cúpula Estados Unidos – África.

LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO

Cientista político e historiador, professor titular da Universidade de Paris-Sorbonne e professor convidado na FGV-Escola de Economia de São Paulo. É membro da Academia Europaea.

Curdos do Iraque são o último bastião contra o Estado islâmico

Curdos do Iraque são o último bastião contra o Estado islâmico

Rémy Ourdan
  • AP
    Em junho, iraquianos fugiram da violência para acampamento em Irbil, no Curdistão; milhares saíram de Mossul depois de a cidade ter sido invadida por jihadistas
    Em junho, iraquianos fugiram da violência para acampamento em Irbil, no Curdistão; milhares saíram de Mossul depois de a cidade ter sido invadida por jihadistas
Ela é a segunda frente do Iraque diante do Estado Islâmico, menos evidenciada pela mídia do que aquela onde a cada dia têm se enfrentado os jihadistas sunitas e os soldados xiitas do exército governamental, uma vez que o próximo objetivo anunciado do Estado Islâmico é tentar conquistar Bagdá. No entanto, ela é ampla e estratégica: é a frente curda.
Arte/UOL
Cidades iraquianas sob poder ou ameaça de insurgentes
É impressionante a história do Curdistão do Iraque, martirizado por décadas, tendo conquistado sua autonomia ao longo das guerras perdidas de Saddam Hussein, em 1991 e 2003, e que acaba de dobrar sua área em uma noite. Enquanto o Estado Islâmico se apossava, no dia 10 de junho, de Mossul e das regiões sunitas, os peshmergas (combatentes curdos) aproveitaram o colapso do exército iraquiano para conquistar, sem combates, os "territórios disputados" que eles vêm reivindicando há dez anos.
Hoje, dos 1.050 quilômetros da nova linha de demarcação entre o Curdistão autônomo e o resto do Iraque, só restam 50 quilômetros em comum com as forças governamentais. Os peshmergas enfrentam os jihadistas por 1.000 quilômetros. O Curdistão se tornou o principal bastião, e o único militarmente viável, contra o califado de Abu Bakr al-Baghdadi.
Ampliar

Iraque: ofensiva rebelde lembra invasão dos EUA7 fotos

1 / 7
Montagem mostra as semelhanças entre a invasão norte-americana à cidade de Mossul, no Iraque, em abril de 2003 (à esquerda), e a ocupação da cidade em junho de 2014 por forças rebeldes sunitas (à direita). Dez anos depois da ocupação norte-americana no país, o Iraque vive uma onda de violência que ameaça o governo central do país Leia mais Joseph Barrack, Ho, e Welayat Salauddin/AFP
Terra de ninguém
Na linha de frente da região de Gobjalil, entre Erbil e Mossul, os peshmergas fazem a vigília. No talude de terra que uma escavadeira criou no meio da estrada, a bandeira curda sopra ao vento, ao lado de uma metralhadora pesada. É possível ver a bandeira negra do Estado Islâmico a 500 metros de lá. Ao longo do dia, entre os dois postos de controle, táxis circulam na terra de ninguém e transportam refugiados. Às vezes, à noite, os jihadistas vêm de Mossul e fazem uma demonstração de força, sem abrir fogo.
Ao sul da estrada, nos arredores da cidade cristã de Hamdaniya (às vezes chamada pelo seu antigo nome turco, Karakosh), os peshmergas consolidam suas posições. Em toda parte, eles criam embriões de fortificações, taludes, abrigos subterrâneos. Morteiros e metralhadoras permanecem apontados para as fazendas que abrigam os combatentes do califado. "Durante três dias, as pessoas do Da'ech [Estado Islâmico]nos atacaram para tomar Hamdaniya. Elas queriam conquistar a cidade para, em seguida, assumir posições na estrada que leva a Erbil, ameaçando nossa capital", conta o general peshmerga Askender Haji, comandante da força Zerawany ("os guardiães"). Eles tinham armas tomadas do exército iraquiano. Os combates foram intensos, duríssimos. Não os deixamos avançar nenhum metro." No quarto dia, em 28 de junho, véspera da proclamação do califado, depois de terem disparado algumas salvas de projéteis de morteiro, os jihadistas recuaram.
Dos 1.000 quilômetros da frente entre o Curdistão e o Estado Islâmico, as frentes mais ativas atualmente são as do noroeste do Iraque, nas regiões de Tal Afar e de Sinajar, pelo controle da fronteira com a Síria, e as do leste do país, em Jalawla, perto da fronteira com o Irã. "Após o confronto do exército iraquiano, que desapareceu, abandonando suas armas no Da'ech, nós, os peshmergas, estamos na linha de frente. Nós resistimos bem às suas primeiras ofensivas, mas nossa capacidade militar é limitada. Precisamos de ajuda estrangeira", acredita o general Askender Haji. "A comunidade internacional deveria considerar seriamente nos ajudar, pois os homens do Da'ech não são perigosos somente para nós, são para o mundo inteiro".
Ampliar

Avanço de jihadistas leva Iraque a nova onda de violência94 fotos

94 / 94
22.jul.2014 - Soldados iraquianos carregam suas armas antes de uma patrulha na Universidade de Tikrit, onde as forças especiais entraram em confronto com combatentes jihadistas em junho Reuters
Declaração
O discurso oficial curdo, desde a grande revolução provocada pelo Estado Islâmico, é orientado na direção de dois objetivos. De um lado, fazer o Iraque e a comunidade internacional entenderem que há uma chance histórica para o Curdistão ao seu alcance: de ter, nos próximos meses ou anos, uma declaração de independência que seria inevitável. Do outro, explicar que os peshmergas são o último bastião contra o jihad.
As palavras do general Askender e de todos os oficiais curdos encontrados na linha de frente lembram as do comandante Massud antes do 11 de setembro, quando o líder rebelde afegão repetia incessantemente que o mundo deveria ajudar no combate à Al-Qaeda antes que a organização jihadista ficasse poderosa demais e enviasse seus combatentes para todo o planeta. Ahmed Chah Massoud não foi ouvido, e o resto da história todos conhecem.
"Nesse momento, nossas ordens são de jamais atacar o Da'ech. Só estamos nos contrapondo às suas ambições territoriais e defendendo aquilo que consideramos ser o território do Curdistão", explica o general. "Mas se algum dia houver um consenso internacional para atacar o Da'ech, estou convencido de que nossos líderes decidirão participar dessa guerra. Poderíamos ser suas pontas de lança".

Nenhum país -a começar pelos Estados Unidos, após a trágica década que se seguiu à invasão iraquiana de 2003 - tem, por enquanto, a intenção de ir combater o Estado Islâmico, nem no Iraque nem na Síria. Mas, se algum dia isso acontecer, os peshmergas estarão efetivamente na linha de frente. Na outra frente, seria difícil contar com um exército iraquiano sem credibilidade militar, que se tornou exclusivamente xiita e estreitamente ligado ao vizinho iraniano, e cujos soldados e milicianos usam métodos que, às vezes, não ficam devendo nada aos de seu inimigo -assassinatos, torturas, prisões arbitrárias, punições coletivas- contra a população sunita.
Retrocesso
Ao longo dos anos 2000, foi necessário um colossal esforço militar e político dos Estados Unidos para vencer a Al-Qaeda no Iraque. Mais do que com o exército governamental, os americanos contaram com os chefes de tribos sunitas que, depois de terem resistido à invasão estrangeira, por fim foram convencidos de que se eles libertassem seus territórios do domínio jihadista, os Estados Unidos acabariam deixando o Iraque. Foi exatamente o que aconteceu, tanto graças à vitória contra a Al-Qaeda quanto à nova política americana adotada por Barack Obama.

Hoje, o Iraque sofreu um retrocesso de cinco anos. A principal diferença é que o movimento sunita anti-jihadista Sahwa (Movimento do Despertar) é hoje totalmente marginalizado em relação aos grupos sunitas aliados ao Estado islâmico. A outra diferença é o fato de que a comunidade internacional, a exemplo de Washington, quer permanecer afastada desses campos de batalha.

Askender Haji, rodeado por seus homens, sorri. "As ambições do Da'ech não têm limites. É o próprio princípio do califado", acredita o general curdo. "É uma ameaça global". O oficial sabe que, com algumas reviravoltas da História, o Curdistão agora está no centro do mapa e do jogo regional.
A mudança em relação ao passado é que, ainda que a razão de ser e o objetivo dos peshmergas seja o Curdistão, e unicamente o Curdistão, as populações árabes cristãs, xiitas e, às vezes, até mesmo sunitas agora estão vindo se refugiar na região curda. É o único lugar, no Iraque e na Síria, onde elas estão relativamente protegidas da guerra, das ditaduras governamentais e do furor jihadista.
Entenda a violência no Iraque
  • O que está acontecendo?
    Desde que as tropas americanas saíram do Iraque, em 2011, o grupo islâmico EIIL vem rapidamente ocupando cidades do país. Desde 6 de junho, já tomou Mosul, segunda maior cidade e bastião da resistência à ocupação dos EUA e aliados, e partes de Tikrit, cidade de Saddam Hussein próxima da capital Bagdá. Desde então, cerca de 500 mil pessoas fugiram da região.
  • Qual o tamanho do confronto?
    O governo, que tem forte apoio xiita, perdeu o controle de grande parte de norte e oeste do Iraque, e agora pede que civis peguem em armas para lutar contra a milícia. O Exército de 930 mil integrantes, que, em tese, seria suficiente para derrotar o grupo, não conseguiu barrar o EIIL em outras cidades já tomadas. Até agora, mais de 4.700 iraquianos foram mortos só neste ano, segundo a ONU.
  • Quem está atacando?
    O EIIL (Estado Islâmico do Iraque e do Levante), um grupo islamita sunita que quer criar um califado no país e no Levante (parte de Síria e Líbano). Seu principal líder foi Abu Musab al-Zarqawi, morto em 2006. Hoje a liderança tem vários nomes, mas o principal é Abu Bakr al-Baghdadi. Surgiu da união de grupos que lutaram contra a ocupação do Iraque pelos EUA.
  • Qual a força do EIIL?
    O grupo, que recebe grandes doações ocultas de dinheiro, tem milhares de militantes, inclusive "jihadistas" americanos e europeus, e se aproveita da disputa entre o governo de Maliki, apoiado pelos xiitas, e a minoria sunita para conquistar espaço. Acredita-se que seja patrocinado por governos da região. Embora seja considerado um braço da Al-Qaeda, se rebelou e foi expulso pelo líder Al-Zawahiri.
  • O que é um califado?
    É uma forma de governo centrada na figura do califa, que seria um sucessor da autoridade política do profeta Maomé, com atribuições de chefe de Estado e líder político do mundo islâmico. O Estado, que seguiria rigorosamente a lei do Islã, compreenderia a região entre o mar Mediterrâneo e o rio Tigre.
  • O Iraque pode se dividir?
    O governo central de Bagdá ainda controla oficialmente as províncias do país. Mas a divisão do Iraque entre árabes sunitas e xiitas e curdos já está bem avançada.

João Paulo - Tire a mão do meu teatro‏

Tire a mão do meu teatro
João Paulo
Estado de Minas: 02/08/2014


Antônio Nóbrega sabe que o bailarino popular dança para manter viva a beleza do movimento (SescTV/Divulgação)
Antônio Nóbrega sabe que o bailarino popular dança para manter viva a beleza do movimento

O maior inimigo da cultura não é a burrice, mas a ganância. De tal forma nos acostumamos com o valor da ambição que consideramos normal que teatros e cinemas fechem em nome dos interesses financeiros de seus donos. O mais recente exemplo vem de São Paulo, com a ameaça de encerramento das atividades do Teatro Brincante, de Antônio Nóbrega. Não é preciso esforço para defender Nóbrega e seus brincantes: trata-se de uma das mais consistentes propostas culturais do país, que corre o risco de se encerrar em razão da especulação imobiliária.

Depois de se destacar no Quinteto Armorial, fundado por Ariano Suassuna, quando ainda era um jovem violinista de orquestra, Nóbrega logo se torna uma das figuras de proa do Movimento Armorial. Contribuiu para isso seu conhecimento da cultura popular do Nordeste, o talento musical extraordinário, o dom para a pesquisa, o acervo de conhecimento sobre o teatro popular e, sobretudo, a incorporação da dança ao movimento. Nóbrega, bom em tantas artes, vinha nos últimos 30 anos construindo um repertório de movimentos do que um dia vai se chamar dança popular brasileira. Ao lado de tudo isso, mostrou capacidade de agregar, construir e mobilizar, com seu espaço que se tornou ponto de encontro entre o popular e o erudito, o passado e o presente, a arte e a reflexão.

A história de fechamento de endereços culturais, infelizmente, não é nova nem patrimônio de São Paulo. Quem já passou dos 50 anos se lembra bem do fim do Cine Metrópole, em Belo Horizonte, e da onda que se seguiu de extinção dos cinemas de rua até o deserto que hoje define o horizonte. Foram todos transformados em templos, lojas populares e estacionamentos. A sensação de perda se tornou ainda maior pela aparente naturalidade do processo, como se coubesse apenas ao dono do lugar dar o destino de sua propriedade, independentemente do interesse dos cidadãos e das responsabilidades do setor público.

O caso do Metrópole foi ainda mais triste em função da grande mobilização de pessoas dispostas a defendê-lo. O poder público se eximiu e apenas articulou um acordo no fio do bigode com o Bradesco, que levou à criação de um teatro, o Klauss Vianna, no alto da Avenida Afonso... que vai ser fechado no mês que vem. Desapropriado, o edifício que hoje abriga o teatro (que é um patrimônio da população de BH) passou ao Tribunal de Justiça, que o considera seu e não parece disposto a manter o funcionamento do equipamento cultural em suas dependências.

A situação é tão explícita e grave que gerou um movimento, em várias cidades do país, que propõe que se deixem os teatros em paz. Por sua natureza localizados onde há grande circulação de pessoas, os espaços se tornam atrativos para o setor imobiliário, sem que esse reconheça o que fica ali de história. Foi o movimento dos teatros e cinemas que levou para vários lugares da cidade o valor que hoje se torna moeda. A arte valorizou as regiões degradadas e hoje são expulsas do lugar que ajudaram a criar com seu estoque de méritos.

O maior prejuízo da especulação imobiliária que atinge a cultura em cheio, no entanto, é a cidade como um todo. O que vem se perdendo não são apenas casas de espetáculos e salas de exibição, mas um modo civilizado de habitar o mundo. Mesmo que os negócios em si sejam particulares e por isso afeitos às regras de mercado, há um substrato público na cultura: ela tem potencial agregador e crítico que cabe ao poder público defender e promover.

Shoppings e circuitos Curiosamente, em vez de acompanhar um processo de valorização da ocupação de todo tecido social, o que se vê é uma tendência concentracionista, seja dirigida pela iniciativa privada – por meio dos shoppings –, seja do poder público, em projetos como o Circuito Cultural da Praça da Liberdade, uma ilha dentro da ilha, em termos de urbanismo excludente e negação dos encontros de classes sociais. Trata-se de um espaço público que foi privatizado, destinado a um genérico “todos” que são apenas alguns.

Essa lógica, é claro, se traduz também nos conteúdos, com propostas que são sempre marcadas pelo lucro (cinemas de shopping só passam filmes para adolescentes de todas as idades) ou pela visão encastelada de cultura (que tende para o estereótipo, ainda que distinto). O que vem se estabelecendo nesses espaços é, ainda, um falso modelo de interatividade, que nada mais é que uma interpassividade mediada por computadores.

Com isso, no modelo único de centros culturais patrocinados com verba pública (que levam a marca privada de seus donatários na fachada e no nome) o que se consolida é um circuito altamente lucrativo, operado por curadorias de alto valor de mercado, com seus nomes de excelência a validar os projetos. As marcas passeiam sobre a cultura e dão nome a tudo. Não é mais preciso dialética para flagrar o fetichismo da mercadoria: desavergonhadamente, ela se mostra e até se vende em brindes encontrados nas “lojinhas”.

Por isso os espaços culturais de rua, espalhados por toda a cidade, têm um papel agregador e de confirmação da cidadania. E é exatamente por se situar de forma autônoma (não em shoppings ou circuitos) que criam uma identidade própria, que realiza a dimensão plural da cultura. Ao se cerrarem as portas de cinemas, teatros e galerias de rua, a cidade fica mais estática, se movimenta menos, perde a dinâmica que atrai pessoas diferentes e faz conviver a diversidade.

Em Belo Horizonte, nos últimos anos, estamos vivendo os estertores desse tipo de cultura. É claro que há reações. Grupos de teatro, por exemplo, estão criando seus espaços, que permitem habitar regiões geográficas da cidade e latitudes estéticas da arte (que se contrapõe ao modelo canônico dos editais), inclusive no Hipercentro, com resultados muito importantes para a vida cultural e para a mobilização política do setor.

Outro modelo agregador tem sido o dos coletivos, o que viabiliza o aspecto material, mas avança também para o sentido compartilhado da criação, em contraponto ao culto da celebridade e da carreira individual fundada no mercado de bens. E, com mais consistência e combatitividade, as ocupações de espaços adormecidos da cidade, que vêm ganhando uma rica dinâmica criativa e de circulação de ideias.

Mobilização Voltando a São Paulo, a mesma cidade que é exemplo de insensibilidade com a ameaça do fim do Brincante em razão da especulação, deu provas recentes da capacidade de se articular para recuperar o Belas Artes, um histórico espaço de cinema de repertório, que estava fechado há muitos anos. Reduto do cinema chamado de arte, o Belas Artes foi objeto de intensa mobilização popular para que fosse recuperado e entregue novamente ao uso da população.

O movimento popular precisou – sempre precisa – de capacidade política tanto na organização como no desenho de um projeto viável. Entram em cena, nessa hora, não apenas o interesse do dono do imóvel, mas da municipalidade, que tem por dever proteger os direitos do cidadão, sendo a cultura um dos mais valiosos. A solução encontrada envolveu poder público, proprietário do espaço, setores organizados do meio cinematográfico e população.

Nessa hora se estabelece um novo jogo de forças, capaz não apenas de reverter situações dadas como definidas, como de avançar na reposicionamento de cada setor envolvido. O que fica patente no caso do Belas Artes de São Paulo é que o setor público não precisa se abater aos valores do mercado, mesmo que legítimos, e deve se dirigir pelo que responde de forma mais completa aos interesses da sociedade. Cabe ao dirigente púbico a sensibilidade para buscar soluções que viabilizem a vitalidade da cidade e melhore a vida de seus cidadãos.

Outra constatação é que há saída, dentro do mercado, que preserve o funcionamento dos cinemas de rua. Entregue à população em meados de julho, o Belas Artes de São Paulo tem acompanhado um significativo sucesso de público e já ensaia investimentos em novos projetos de ampliação de espectadores. Para isso são fundamentais parcerias que reúnam todos os interesses em nome de um propósito básico de viabilização do espaço, o que significa que cada área aprende com a outra.

Além disso, um dos maiores gargalos da indústria cinematográfica do país, a exibição, passa a ter um novo caminho, já que se trata de um conglomerado de salas, com vocação para público mais permeável ao novo e com grande repercussão no campo da formação de opinião. As dezenas de produções que estrearam em festivais e aguardam salas, têm, certamente, nos cinemas de rua e em propostas como a do Belas Artes, sua melhor via para chegar ao público.

Uma conta em que todo mundo ganha é sempre resultado da boa política. O que exige determinação, capacidade de organização e conhecimento técnico. O poder, como ensinou Michel Foucault, não é algo fixo, que troca de mãos entre os mais fortes a cada momento do jogo político. Poder é uma situação que se cria, um momento da vida social que coloca em xeque o estabelecido em nome de um horizonte mais ampliado de direitos e liberdade.

Belo Horizonte ainda tem alguns de seus esqueletos de cinema de rua recuperáveis, o Pathé, o Royal, o Odeon, o Roxy, o Nazaré, o Regina, o Santas Tereza, o Art-Palácio, entre outros. O mesmo vale para teatros que deixaram a população menos servida de arte, que foram agonizando até que todos se esquecessem deles. Outros morrem aos nossos olhos, sob promessas sempre procrastinadas, como o Marília e o Clara Nunes, em obras permanentes, sempre fechados.

Muitos já se perderam de forma irrecuperável. Um movimento para revitalizar esses espaços, dando a eles viabilidade inclusive econômica, não é um desvario, mas a retomada viável de um tempo perdido. O que falta, por exemplo, para o Cine Pathé voltar a ser um cinema e deixar de ser um estacionamento inútil, que espera apenas a hora certa de jogar o prédio no chão? A se confirmar esse “the end”, a atual gestão da cidade e as próximas ficarão marcadas pela leniência em responder a essa pergunta.

São Paulo está perdendo um teatro, mas recuperou cinemas de rua e, talvez, com sua mobilização cultural amadurecida pelo embate, ainda consiga salvar o Brincante, para bem da cultura brasileira. Aqui em BH, estamos apenas na coluna das perdas, das ameaças e das portas fechadas. Salvar o Klauss Vianna e reabrir o Pathé como cinema talvez sejam bons começos para despertar o amor pela arte que nos faz melhores e, quem sabe, no futuro próximo, mais fortalecidos e menos entregues ao desejo cego do mercado. 

O homem multiplicado - João Marcondes

O homem multiplicado
 
Mafra Carbonieri, escritor ainda pouco conhecido pelo leitor brasileiro, vem construindo obra que vai da poesia ao romance, com alto grau de inventividade e erudição, que chama a atenção de colegas de ofício


João Marcondes
Especial para o EM
Estado de Minas: 02/08/2014



Assim como Fernando Pessoa, seu poeta preferido, Mafra Carbonieri se desdobra em transcriaturas com personalidade própria para escrever suas obras (João Marcondes/Divulgação  )
Assim como Fernando Pessoa, seu poeta preferido, Mafra Carbonieri se desdobra em transcriaturas com personalidade própria para escrever suas obras

São Paulo – Anos 30. Botucatu é uma pequena e aconchegante cidade do interior paulista, com 30 mil habitantes. Povoada por imigrantes italianos, que trocam seus grãos, embutidos e demais secos e molhados no empório central aos sábados. Toda a sorte de aromas ataca os sentidos do menino José Fernando Mafra Carbonieri.

Ele mora com os pais na Rua Curuzu (nome remete à batalha na Guerra do Paraguai), onde existem nada menos de 40 pianos em diferentes casas. Atraído por melodias, o garoto passeia por aquele universo musical. Aprende a tocar o instrumento, do qual nunca vai se separar.

O pai, funcionário público, o ensina a ler e admirar os livros. A descoberta da língua escrita por Mafra, na tenra idade, coincide com uma experiência definidora. As primeiras palavras que se desvendam para o menino vêm dos jornais, que na época não têm outro assunto senão a Segunda Guerra Mundial. A realidade é sanguinária: o mundo é um lugar em conflito. Os italianos, seus ascendenti, são vilões, junto aos alemães. Como se colocar nesse mundo?

José Fernando seguiu o script. Dedicado aluno, escolheu a carreira de direito, fez concurso público, foi promotor, juiz (da vara criminal) e por fim desembargador em São Paulo. Uma vida de méritos. Mas, e o homem em conflito? Este se transfigurou em um escritor tão brilhante quanto pouco conhecido: Mafra Carbonieri. Sua obra inclui livros de contos, romances, infantis e poesia. Mafra é um homem e muitos.

A escrita de Carbonieri é marcada pela lapidação incessante da palavra. Grande obsessão, iniciada, ainda criança, lendo a obra de Monteiro Lobato, em especial Emília no país da gramática. “Ali, descobri que a palavra tem sons, identidade, voz, volume”, explica ele, que hoje, aos 79 anos, é membro atuante da Academia Paulista de Letras (ao lado de Lygia Fagundes Telles e Maurício de Souza), onde coordena um clube de leitura. “A palavra tem muitas utilidades, mas só é estética para o escritor.” Mafra abomina as acusações de racismo (“sem contexto”) de seu ídolo e referência, Lobato. “Tudo que é politicamente correto é culturalmente incorreto”, vaticina.

Na segunda metade da década de 1970, Mafra publicou livros de contos seminais como Os gringos e Arma e bagagem, onde arrancava dos processos criminais detalhes minuciosos, perversos, sexuais, de casos de polícia, brigas matrimoniais, paixões insidiosas e aprofundava-os com dilemas existenciais delicados e profundos, caminhando tangencialmente a escritores como Rubem Fonseca e Dalton Trevisan.

Nessa época, o jovem Marçal Aquino tornou-se um leitor assíduo ao descobrir o conto “Tônio Olivares” (de Homem esvaziando os bolsos), que retrata os últimos momentos de um assaltante encurralado pela polícia. Assim como o Mafra juiz criminal, o Marçal repórter policial também veio à superfície, e as duas obras criaram uma conexão afetiva, quiçá espiritual. Uma novela que Aquino está escrevendo, Como se o mundo fosse um bom lugar,  será dedicada a Mafra Carbonieri. “Modesta homenagem”, diz o autor premiado de Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios.

“Sinceramente, não tenho a menor ideia de o porquê um escritor com esse grau de excelência não tem o reconhecimento público que lhe é devido e merecido. Nunca sei por que acontece esse tipo de coisa. É certo apenas que o Mafra não está sozinho nessa galeria, e está em muito boa companhia, por sinal”, pontifica Marçal Aquino.

O escritor Marcelo Nocelli, editor de Mafra pela Reformatório, também tem suas teses. “Não sei se deveria dizer isso, mas acho que o Mafra é bom demais para ser conhecido”, opina. Nocelli refere-se ao alto grau de sofisticação e erudição da obra de Carbonieri, muito influenciada, por exemplo, pelo argentino Jorge Luis Borges e seus mundos inventados, intricados e, muitas vezes, de difícil navegação

Mafra diz que, antigamente, mais jovem, sonhava em ver seus livros expostos nas vitrines de livrarias. Passeava pelo centro paulista e não encontrava. Até que uma vez viu um exemplar, na parte de dentro de uma loja. Mas, surpresa, não estava entre autores brasileiros e sim italianos, como Alberto Moravia. “Hoje não tenho mais esse tipo de preocupação (de aparecer em vitrines), mas quero ser reconhecido como brasileiro”, brinca.

Forjado em grande erudição, com múltiplas bibliotecas (em casa) que vão desde leis portuguesas do século 15 a exemplares raros de filosofia (e toda a história da literatura), Mafra é um escritor dotado de grande humanismo. Uma frase que o marcou profundamente foi escrita por Platão (e atribuída a Sócrates): “O cidadão é o cadáver do homem”. E explica: “O homem institucionalizado, o homem formado pela sociedade, perde a criatividade, os objetivos e a individualidade”.

Carbonieri também lecionou literatura enquanto estudava direito. Foi o primeiro professor no Brasil a relacionar o nome de Fernando Pessoa em um plano de curso de literatura e a ministrá-lo em aulas sequenciais. O português é ídolo de Mafra e aí está uma de muitas chaves para entender a parte mais recente e, segundo o próprio escritor, mais relevante de sua literatura, a obra poética (anos1990 e 2000). O poeta, não nos esqueçamos, é famoso por seus heterônimos, como Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caieiro.

Invenção Certa vez, os editores de Mafra, Marcelo Nocelli e Rennan Martens, chegaram à sua ampla e arborizada casa no agradável Bairro do Planalto Paulista, em São Paulo. Queriam algo para publicar. De chofre, Mafra os perguntou: “Vocês conhecem o poeta Bradford Williams?”. Eles vacilaram, engasgaram. “Meio sem jeito, envergonhado pela ignorância, disse que não”, diz Martens. Mafra respondeu com um riso discreto: “Ah, ele não existe, eu inventei”.

Mas quem se aventurar pela obra de Mafra lerá as pérolas de Williams em várias epígrafes do paulista de Botucatu, misturadas a citações de Gregório de Matos e Carlos Drummond de Andrade. “Eu o imagino como porteiro do Museu Britânico, alto, meio curvo, calvo e com hemorroidas. Atribuo a ele a criação de alguns poemas em inglês que estou tentando escrever.”

Em um conto dos anos 1970, Carbonieri fala sobre o enterro de um compositor popular, Conrado Honório. “Posteriormente, quis criar a obra (musical) desse compositor.” Músicas e poesias brotaram de sua mente fértil, acompanhadas com destreza por seus dedos no piano da infância. O livro foi lançado em 1997, Cantorias de Conrado Honório, e foi finalista do Prêmio Jabuti. Honório voltaria a aparecer em outras obras, em epígrafes com frases marcantes. “Uma espécie de Dorival Caymmi”, sugere.

A sofisticação desse método chega às dedicatórias. Um de seus heterônimos é o jornalista desvairado Malavolta Casadei e o livro é dedicado a “Ana Malavolta Casadei e Hermes Basílio Casadei”. Mas Mafra corrige: “Tenho transcriaturas e não heterônimos. Qual a diferença? Minhas transcriaturas aparecem antes como criaturas ou personagens, em contos, romances, sermões, epígrafes. Como uma de frei Eusébio: ‘Há momentos em que a plenitude da alma pouco significa ante o alívio dos intestinos’”.

O religioso é “autor” de Diálogos e sermões do Frei Eusébio do Amor Perfeito, seu lançamento mais recente (2013), pela Reformatório, uma pequena editora paulista que trata livros com grande esmero, finalmente à altura de Mafra. “Nosso sonho é publicar suas obras completas”, confidencia Marcelo Nocelli. Incluirá o relançamento do romance O motim da Ilha dos Sinos (fora de catálogo e premiado na Itália, onde teve tradução), um inédito (Abismo) e outro a ser terminado. O mundo aguarda e agradece.

TRECHOS
» De diferentes transcriaturas


“Na história recente ou antiga, alguém acredita em dinheiro, sem pecado concebido.”
Bradford Williams


“Não há autores recusados. Há editores em Frankfurt. Não há poetas herméticos. Há leitores herméticos. Não há poesia profana. Há deuses heréticos. Não há Nietzsche. Kant. Ou mesmo Spencer. Mas há pesquisadores no Playcenter.”
Orso Cremonesi

“Que culpa eu tenho se culpa não sinto.
Que culpa eu sinto se culpa não tenho.
De que me acusam se eu não me acuso
Por que me recusam se me abstenho.”
Frei Eusébio do Amor Perfeito

“Minha cantoria
eu chorava e ela ria
sapateando no meu peito
um desamor que não cabia.”
Conrado Honório

 (Reprodução/Reformatório)

Obras de Mafra Carbonieri

» Poesia

1997 – Cantoria de Conrado Honório
1998 – Modas de Aldo Tarrento
2001 – A lira de Orso Cremonesi

» Literatura infantil

1985 – A flauta lógica
1997 – A flauta lógica, farsa 1
1997 – O menino de letras, farsa 2
1998 – Absurdo mundo, farsa 3

» Conto, novela e romance

1973 – Os gringos – Novelas e contos
1973 – Arma e bagagem – Novelas e contos
1977 – Homem esvaziando os bolsos – Novelas e contos
1997 – O motim na Ilha dos Sinos – Romance
 (Reprodução/Reformatório)