sábado, 9 de agosto de 2014

João Paulo - Os dois heróis de Suassuna‏

Os dois heróis de Suassuna 
 
João Paulo
Estado de MInas: 09/08/2014


O mestre Ariano Suassuna e o sertão (Edu Simões/IMS/Divulgação)
O mestre Ariano Suassuna e o sertão

Ariano Suassuna foi um grande escritor. E foi um pensador de um tipo muito peculiar. Como acreditava na sabedoria do povo, fez de sua obra uma espécie de súmula poética do que aprendeu com a cultura popular. Pode parecer que é um simples populismo, uma condescendência em favor dos pobres, atitude muito próxima do esnobismo. Nada mais equivocado.

Na linha de criadores como Cervantes, Bach e Guimarães Rosa, Suassuna sabia que a força da inteligência não é atribuição do indivíduo, mas uma espécie de realização coletiva, que vai sendo sedimentada com o tempo. Assim, grandes sinfonias e romances ecoam muitas vezes gerações e gerações de artífices anônimos, filtradas pela capacidade do artista em lhe dar representação bela e elegante. Há um espírito coletivo, que por vezes é atributo do espírito, outra da emoção. Hegel e Jung, razão e inconsciente coletivo.

Essa compreensão da força criadora dos homens em situação não diminui em nada o indivíduo, mas o coloca em perspectiva. Como parte da família humana, muitas vezes precisamos deixar de lado os dois grandes continentes que definem o homem – a liberdade e a igualdade – para defender a terceira margem do rio, a solidariedade. Tanto na vida como na política.

Quem postula a liberdade, com seu alto grau individualista de ação – e potente força civilizadora – aposta em valores dirigidos não apenas pela possibilidade de querer (que levaria ao egoísmo), mas pelo poder de agir, tendo como limite a dignidade humana. Que a liberdade e o liberalismo, em economia e política, tenham levado a ideologias conservadoras é a afirmação d7e um princípio ético e político que precisa ser compreendido.

Por outro lado, os partidários da igualdade devem também ser entendidos como aqueles que, cientes das diferenças humanas, não concordam que elas se traduzam em desigualdades sociais. Que essa diretriz ética tenha gerado projetos políticos mais progressistas é também algo que merece atenção. A boa política, dos dois lados da roda da história, repercute sempre a disposição do homem em viver melhor.

No entanto, nem a liberdade nem a igualdade, por si sós, são capazes da grande síntese dos propósitos humanos em política. Para dar substância a esses dois polos é preciso defender uma terceira inclinação ética: a solidariedade. As lições de história no colégio nos acostumaram com a tripartição dos valores políticos em liberdade, igualdade e fraternidade (que pode ser o outro nome da solidariedade). Das três, a fraternidade é a mais ambiciosa e difícil. E, por seu turno, a menos valorizada.

A solidariedade, como define Fábio Konder Comparato em seu excelente Ética – Direito, moral e religião no mundo moderno (Ed. Companhia das Letras), amplia e complementa a liberdade e a igualdade como um “fecho de abóbada do sistema de princípios éticos”. Quando se seguem as vias da igualdade ou da liberdade, cada qual reivindica o que lhe é próprio. No plano da solidariedade, a convocação universal é para a defesa do que é comum. Há um sentido universal que ultrapassa interesses individuais, de grupos, nações, ideologias, em razão de um patrimônio que é comum a todos.

Como lembrava Montesquieu (1689-1755), se algo é bom para mim, mas ruim para a minha família, deve ser rejeitado; se agrada à minha família, mas confronta com interesses da comunidade, também deve ser posto de lado; se atende aos valores do Estado, mas desafia o gênero humano, se trata de um crime. Com outra retórica, mais irônica e ferina, é o mesmo que afirmava George Bernard Shaw (1856-1950) ao dizer que nada garante a verdade de um princípio pelo simples fato de ser da minha família ou de meu país. A defesa dos “valores da família” e o patriotismo,são, no limite, ações destrutivas da humanidade.

Em outras palavras, a hora de dividir, de guerrear e de competir deixam a cena quando os valores universais se apresentam. Há momentos em que só a solidariedade pode garantir a sobrevivência.

Sertão em Gaza Ariano Suassuna, com sua sabedoria nutrida na sagacidade do povo, chegou às mesmas conclusões. Sua obra, tanto no teatro de Auto da Compadecida como no romance A Pedra do Reino, defende que há dois tipos de heróis a habitar todas as lidas e sagas do mundo. O primeiro herói é aquele típico do romance de cavalaria, um homem nobre, para o qual a honra vale mais que todos os princípios. Um cruzado que não volta atrás à palavra dada, que prefere a morte à desonra. Este tipo de herói, todos sabem, de certa maneira habita nossa alma (somos todos orgulhos de nossos princípios e dispostos, em tese, a morrer por eles), só que parece viver numa escala exacerbada, como se tudo fosse um caso de vida ou morte e cada achaque do dia a dia um enfrentamento contra mil exércitos.

O outro herói, típico do romance picaresco, é o homem que preza sobretudo a vida. Mais que honra, o que conta para ele é a sobrevivência. Enfrentando uma batalha todos os dias, em situação de desvantagem persistente, o herói picaresco de raízes ibéricas apela para o jeitinho, para o adaptável espírito dos expedientes que lhe permitem dar a volta nas incompreensões do destino. É o típico herói de Suassuna, de João Grilo a Quaderna, mas o escritor conhece a cartilha do relativismo e sabe que, no limite, o idealismo exacerbado leva à morte ou à derrota; e a esperteza desmedida pode gerar um canalha satisfeito. É do pêndulo dessas inclinações que a vida é feita.

Há momento para os dois heroísmos na vida, sendo a indicação dada pela gravidade da situação. Em algumas situações, é necessário não transigir, não se curvar aos interesses, defender ações sempre universalmente válidas, como no caso dos direitos humanos, da preservação da natureza, da irreversibilidade dos direitos conquistados. Os heróis da radicalidade fazem o mundo avançar e são necessários. Muitas vezes, precisamos nós mesmos pôr em funcionamento nossa cota de heroísmo cavalheiresco e mirar nos radicais e sua coragem. Os moinhos estão aí para ser derrubados.

No entanto, há também a hora em que a sobrevivência fala mais alto, que é preciso, até para continuar lutando, dar um drible nas circunstâncias e aceitar que a perda é inevitável. Os “amarelos” de Suassuna sabem disso: se submetem ao poder, mas com astúcia para burlá-lo nas horas certas. Por vezes, uma pequena derrota dos dois lados é a única saída possível. É preciso coragem para sobreviver, mesmo que a princípio isso sugira uma derrota circunstancial.

O conflito em Gaza, no Oriente Médio, é um típico jogo em que os dois lados perdem. A se tomar as razões “heroicas” dos dois Estados, a morte será a grande vencedora. Em momentos assim, é preciso que, sem deixar de lado os valores que sustentam as duas nações, cada lado ceda em nome da sobrevivência de todos. Os heróis de Suassuna podem ser entendidos nessa hora, como comparou certa vez o escritor israelense Amós Oz, como representantes de Shakespeare e Tchekhov. Nas tragédias de Shakespeare, muitas vezes o final é um palco cheio de mortos em nome de grandes verdades. Nas histórias melancólicas de Tchekhov, perdedores dos dois lados têm como tarefa recomeçar a vida, mesmo humilhados e ofendidos.

João Grilo sabia das coisas. Venceu a morte e escolheu como prêmio voltar a viver mais um pouco em meio às mesmas demandas das quais tentava se livrar. Entre um momento e outro, viver é tudo que interessa. A política e a literatura vêm depois.

Embriagados pela beleza

Embriagados pela beleza 
 
Numa época cada vez mais marcada pela transformação das pessoas em mercadorias, a cirurgia plástica se torna uma técnica de reconhecimento social, a partir de padrões artificiais e geradores de ansiedade
Inez Lemos
Estado de Minas: 09/08/2014


Cabeça de mulher, um retrato de Dora Maar, de Picasso: a beleza como um desafio à sensibilidade do espectador     (Shoteby%u2019s/Art Digital/AFP)
Cabeça de mulher, um retrato de Dora Maar, de Picasso: a beleza como um desafio à sensibilidade do espectador


A celebrada sociedade do espetáculo, orientada no mercado, no individualismo e no avanço tecnológico, multiplica seus efeitos sobre o corpo, colocando em cena personagens cunhados no estilo publicitário. Como explicar o investimento na perfectibilidade, via ciência estética e biológica? Corpos manipulados por bisturis, corpos simulados, falsificados. A mídia testemunha que o Brasil ultrapassou os EUA e se tornou campeão em cirurgias plásticas. Estamos lidando com um cenário que parece negar tanto o humanismo quanto a transcendência, revertendo valores fundamentais. Mas o que a cirurgia plástica tem a ver com isso?

O corpo ganha primazia, torna-se o lugar de materialização do desejo, revelando a esperança de um futuro melhor: possibilidade de reconhecimento e sucesso. É onde o homem da era tecnológica produz a si mesmo. A trajetória do pensamento encurtou. O percurso da fantasia e da utopia simplificou. Hoje, o endereço dos jovens que seguem a cartilha da vida-espetáculo se resume numa clínica de cirurgia plástica. As notícias apontam para uma reificação do humano. Fashion é escolher um boneco como alter-ego. O meu duplo é um ser midiático, industrial. É nele que vou me espelhar. Os humanos não me interessam. O que eles têm para me oferecer? Prefiro o homem de borracha, que não me frustra, tampouco me decepciona.

Entre as reportagens que apontam mutações nas escolhas entre jovens e adolescentes, regulamentadas pelo espetáculo, via mídia, destaco: “Celso Santebanes, 20, quer ser uma celebridade de verdade. Se diz obcecado por beleza, sempre quis ser reconhecido, aparecer na mídia. Fez quatro cirurgias plásticas para ficar parecido com Ken, o companheiro da Barbie”. A imprensa confirma o deslocamento entre ciência, cultura e corpo. Mundo interno e externo, desejo e política, eu e o outro. Quem está agenciando o desejo humano? Por que a ciência segue os paradigmas da moda atual, produzida por uma indústria truculenta e perversa? Transformar o corpo humano em mercadoria é mais rentável, uma vez que o insere numa rede de consumo de produtos de beleza. Dermatologistas, plásticas, cosméticos, salões de beleza, spas do corpo.

A beleza hoje é normativa, produzida pelos empresários da moda, que ditam os rumos da estética. Eles definem o bonito e o feio. Contudo, importa investigar o que subjaz à busca desenfreada pelo corpo perfeito, à intolerância com a imperfeição e a incompletude. A tentativa de instaurar uma superfície brilhante revela a necessidade de fugir do real. Como suportar o abismo sombrio de uma existência sem sentido? Como enfrentar o feio, significante que nos remete à finitude? A velhice nos coloca lado a lado com o efêmero, estética trágica imposta pelo tempo. O medo da velhice, expresso na corrida incessante à beleza, expõe uma interioridade precária e moldada na superfície da existência humana. Além de deflagrar pobreza simbólica, aponta para um vazio de transcendência – empobrecimento afetivo e laços sociais inconsistentes.

O feio em nossa cultura torna-se insuportável quando revela uma conexão com o dentro, o sentir. Na verdade, o que não suportamos é a dimensão do humano. Ao eleger a aparência, o externo como campo privilegiado do brilho e do belo, estamos interessados em afastar as perturbações, os ruídos que a existência nos coloca. Ser humano é ser apaixonado, é se atormentar pela positividade da ilusão. Quão difícil seria atender as demandas internas, os urros da alma que não cessam de nos incomodar, exigir? Mais fácil é eleger falsos brilhantes, falsas esculturas, falsas ideias de felicidade, representações simuladas de hedonismo. A hedoné moderna trilha na tecnocultura.

Condição mortal


A rejeição do feio é um dos sintomas das sociedades midiáticas, que cultuam a imagem e a colocam acima de outros valores. O feio provoca conexão intensa com o sensível, por expor a vida como ela é. O belo convoca o brilho externo – luz, imagem, aparência, show, espetáculo. O feio convoca o dentro, por fora, ele não produz sedução alguma, apenas a repulsa. Talvez o apaziguamento esteja na aceitação do feio, uma vez que ele nos ajuda a enfrentar a frustração, a fazer as pazes com a falta. A feiura nos humaniza ao desvelar nossa condição de mortal e avisar que o tempo não é benevolente. A morte é esse outro que nos invade e confunde os sentidos. Ela exige que sejamos realistas, que cultivemos  mais os sentimentos, nos ocupemos com a intimidade, as vozes do coração. Para que trabalhar tanto, acumular riquezas, se amanhã morreremos?

O feio na era tecnológica, dos sorrisos espalhados no Facebook, é o espontâneo, o que escapa à produção, o que não foi elaborado, maquiado. Quase tudo merece intervenção: o rosto limpo, natural e imperfeito expõe o fantasma da falta – angústia ao enfrentar o real. O corpo como tributo de um novo tempo é o corpo-mercadoria, o corpo-máquina. As inovações tecnológicas trouxeram grandes transformações no campo da subjetividade.

Entre elas, destaco a percepção humana e o novo estatuto imaginário corporal. Entram em cena novos personagens, corpos portando objetos estranhos, desenhos, marcas simbólicas: aparelho nos dentes, unhas e cabelos postiços, fios de ouro nas rugas, silicone nos quadris, dentes encapados. A ciranda dos objetos se sobrepõe ao sujeito, que se apaga entre dietas e salões de beleza. O registro identitário é cunhado pela estética da transformação. Corpos mutantes, sujeitos opacos, desejos suspensos.

“A Junta Comercial do Rio de Janeiro revela que os salões de beleza cresceram 142% entre 2000 e 2013. Enquanto cresce a procura por tratamentos de beleza, diminui a demanda por livrarias, que recuaram 57%.” O corpo é o sintoma do homem. O que equivale dizer que a nossa sociedade prioriza o culto à estética e à aparência, em detrimento da essência, do conhecimento e do saber. Os holofotes estão direcionados para o externo, as luzes do Olimpo miram os belos penteados. As belas palavras definham no obscurantismo, nos templos de Salomão, entre dourados imitando ouro. Simulacro de beleza oca. Vivemos a derrocada do pensamento, e se o pensamento é uma forma de resistência, significa que estamos condenados ao fundamentalismo midiático, na estética ou nas religiões.

Prazer on-line


“A mãe jogou o filho de 2 anos na parede, matando-o. Alegou que a criança estava brincando com o seu celular, sem sua permissão.” O celular, nesse caso, corresponde ao objeto de desejo do filho, é ele que foi internalizado como parte do corpo da mãe. Desejá-lo é desejar uma parte da mãe que lhe faltou – mãe abandônica, ausente. Mães envolvidas entre tablets e smartphones, os novos objetos que fascinam. Brilhantes, sedutores, cobiçados. A internet é o ópio contemporâneo, age como substância tóxica, deixando a humanidade embriagada, viciada. Delírios provocados por uma caixinha, nada de fantasias ao vivo, o prazer é on-line. Precisa mais?

O eu não existe sem a alteridade. O outro da pós-modernidade é um objeto. Na nova dimensão psíquica, a criança, ao ser marcada nas relações parentais – mais por objetos que por carinho ou contato corporal –, segue uma orientação funcional. As relações são pautadas por agendas previamente estabelecidas. Os sentimentos devem seguir um plano de metas, que se traduz pelo imperativo de viver todas as formas de prazer em um só tempo. Se somos regulamentados por uma organização externa, é de se esperar que os desejos próprios sejam desviados. Se não fomos marcados por referências familiares sólidas, se não construímos laços sociais consistentes, sequer adquirimos uma mínima proteção afetiva e emocional. Um estofo básico que sustenta o sujeito diante das agonias da vida.

Ao privilegiar o externo, perdemos a conexão com o subterrâneo, lugar onde cochilam as perturbações humanas. Ser humano é se debater entre o trágico, o cômico, o belo e o feio. Todos são elementos fundantes da loucura humana. E não há nada mais sedutor que uma dose de loucura. É ela que introduz a paixão nas relações. Ao intervirmos no corpo em função de um modelo, retiramos dele as insígnias, os traços familiares. Desprovido do simbólico, o corpo-expressão se apaga. Abandona a memória viva, desejante, para encarnar a imagem fria de um cadáver. Corpo sem persona. O mundo do pastiche é desumano. Beleza confinada em corpo morto.

O filósofo Sócrates, exemplo de feiura, conduzia os discípulos ao paraíso, ao reino do saber, a sabedoria metaforizando o divino exercício do pensamento. A percepção da beleza que rege a existência exige tocar entranhas, desvendar os mistérios da aventura humana. O feio, ao mesmo tempo que provoca repulsa, fascina. Sedução, uma multidão de sentimentos, muito mais que obra de arte, escultura em praça vazia.

Inez Lemos é psicanalista.
E-mail: inezlemoss@gmail.com

Orelha

Orelha

Estado de Minas: 09/08/2014


Medo e indiferença

Zygmunt Bauman coloca em foco a insensibilidade moral do homem contemporâneo (Eloy Alonso/Reuters)
Zygmunt Bauman coloca em foco a insensibilidade moral do homem contemporâneo


No cenário sempre caótico do mundo contemporâneo, um novo livro do sociólogo Zygmunt Bauman sempre merece atenção. A Zahar está lançando esta semana o 34º título do autor no Brasil, Cegueira moral, um longo diálogo com o cientista político e filósofo Leonidas Donskis. O ponto de partida é a sensação de que, hoje, o mal não se restringe apenas às guerras e aos contextos extremos, estando presente de forma quase natural na vida das pessoas. A consequência é insensibilidade moral que parece tomar conta das consciências, traduzida na incapacidade de compreensão do sofrimento do outro e o desejo de controlar a privacidade alheia. O livro é dividido em cinco partes: “Do diabo a pessoas assustadoramente normais e sensatas”; “A crise política e a busca de uma linguagem da sensibildidade”; “Entre o medo e a indiferença: a perda da insensibilidade”; “Universidade do consumo: o novo senso de insignificância e a perda de critérios”; e “Repensando A decadência do Ocidente”.


Linguística

Últimas aulas no Collège de France – 1968 e 1969, de Émile Benveniste será lançado ainda este mês pela Editora Unesp. Esta é a primeira edição brasileira da compilação das últimas aulas do linguista e gramático francês. O livro foi editado na França há apenas dois anos. Últimas aulas insere-se entre os trabalhos do autor que permaneceram à sombra de seus textos mais consagrados, entre os quais o clássico Problemas de linguística em geral. O livro também carrega a marca intelectual de Benveniste, uma aguda capacidade de polemizar. Organizado e apresentado pelos linguistas Jean-Claude Coquet e Irène Fenoglio, com prefácio de Julia Kristeva e posfácio de Tzvetan Todorov, esta edição inclui textos inéditos, além de fotografias de notas preparatórias das palestras do pensador.


Mistério

 (AP/Files)


Os crimes do monograma é o título do novo romance de Agatha Christie (foto). Na verdade, trata-se obra escrita por Sophie Hannah, com autorização da família da dama do crime. A história de Os crimes do monograma começa em um café em Londres, onde Hercule Poirot é surpreendido por uma mulher que confessa que está prestes a ser assassinada. No Brasil, o livro sai pela Nova Fronteira.


Filosofia

A Editora UFMG lança a segunda edição do livro A ontologia da realidade, de Humberto Maturana. Os artigos que compõem a coletânea apresentam os fundamentos epistemológicos da obra do autor e alguns desdobramentos de seu mecanismo explicativo, explorando temas como a linguagem, a cognição, os fenômenos sociais, a mente e a autoconsciência. A organização é de Cristina Magor, Miriam Graciano e Nelson Vaz.


Silêncio

 (TV Brasil/Divulgação  )


Mais um volume da série Mutações, dirigida por Adauto Novaes, chega às livrarias, em edição do Sesc São Paulo. O silêncio e a prosa do mundo reúne 25 ensaios sobre o tema do discurso, em sua dimensão social, política, filosófica e estética. Entre os autores estão Francis Wolf, Renato Lessa, Vadimir Safatle, Jorge Coli, Francisco Bosco e Eugênio Bucci (foto), que escreve sobre o que chama de “rumor da mídia”.


Tesouro

Malba Tahan está de volta. O escritor brasileiro Júlio César de Melo e Souza, que encantou várias gerações com sus livros que mesclam aventuras exóticas e matemática, entre eles o clássico O homem que calculava, começa a ter sua obra reeditada. O selo infantil Galerinha, da Editora Record, está lançando O tesouro de Bresa, conto do autor que se torna livro independente, com ilustrações de Rafael Nobre.


Lançamentos

A economia como sistema da representação em Karl Marx, de Édil Guedes, será lançado hoje, as 11h às 14h, na Quixote Livraria (Rua Fernandes Tourinho. 274, Savassi, (31) 3227-3077). O livro é resultado da tese de doutorado em filosofia do autor. Édil Guedes é professor de economia e filosofia na PUC Minas e na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), onde atualmente conduz pesquisa sobre os fundamentos filosóficos das relações entre ética e economia.

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Adriano Bitarães Netto lança hoje, das 11h às 15h, o livro Poesia dos pés à cabeça. Na Livraria Mineiriana, Rua Paraíba, 1.419, Savassi. A edição é das Paulinas e o livro é ilustrado por Rubem Filho.


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Terça-feira, às 19h30, na sala Juvenal Dias do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro), Lilia Schwartz, André Botelho e Heloísa Starling participam de debate e lançamento da coletânea Agenda brasileira. No livro, estudiosos de diversas áreas reúnem ensaios com temas fundamentais para o Brasil, como a desigualdade social, a segurança pública, a luta contra o racismo, o reconhecimento da diversidade sexual, entre outros.

História dá samba

Livro de Maria Lucia Rangel e Tino Freitas mostra como a música popular apresenta personagens e reconta fatos marcantes do passado brasileiro


Ângela Faria
Estado de Minas: 09/08/2014


Ilustração de Ziraldo para o samba Heróis da liberdade, de Mano Décio, Silas de Oliveira e Manoel Ferreira     (Ziraldo/Reprodução)
Ilustração de Ziraldo para o samba Heróis da liberdade, de Mano Décio, Silas de Oliveira e Manoel Ferreira


Ele foi escrito para crianças, mas os adultos vão adorar a novidade. Aula de samba, assinado por Maria Lucia Rangel e Tino Freitas, com ilustrações de Ziraldo, rememora fatos e personagens de nossa história por meio de versos que empolgaram desfiles de carnaval cariocas. É o tipo de livro que papais, mamães e titios terão prazer em “filar” dos baixinhos.

Onze sambas-enredo celebram a abolição da escravatura, a Inconfidência Mineira, a Guerra de Canudos, o Dia do Fico, o fim da monarquia e a Batalha de Guararapes, entre outros fatos históricos, além de personagens como Tiradentes, Getúlio Vargas, dom Pedro I, José Bonifácio, Castro Alves, Aleijadinho e José do Patrocínio. Dona Beja, uma espécie de “protofeminista” que virou lenda em Minas Gerais, ganhou um capítulo só para ela. Em 1968, muito antes de Maitê Proença conquistar o Brasil naquela série da TV Manchete, um samba composto por Aurinho da Vila empolgou o Salgueiro. Ana Jacinta, a musa de Araxá que não se dobrou ao machismo, brilhou na avenida.

Xica da Silva, outra mineira boa de folia, ficou de fora do livro. Uma pena: ela reinou na passarela em 1963, quando o mesmo Salgueiro mudou a história do carnaval carioca. O povo viu um desfile inovador – o primeiro realizado na Avenida Presidente Vargas. O cineasta Cacá Diegues estava lá. E se inspirou ali para fazer seu famoso filme, estrelado por Zezé Motta e Walmor Chagas.

Aula de samba não é daqueles livrinhos tatibitates para crianças. Bem avisa Martinho Filho, herdeiro de Martinho da Vila, no prefácio: ele e as irmãs davam show em história e geografia nos boletins graças ao LP organizado pelo pai, uma coletânea de clássicos carnavalescos povoada de heróis, datas e fatos históricos. Batucada sempre foi melhor do que decoreba...

O CD que acompanha Aula de samba traz regravações nas vozes de Chico Buarque, Dona Ivone Lara, Simone, Lenine e Maria Rita, entre outros. Coube a Chico interpretar Exaltação a Tiradentes (Estanislau Silva/Mano Décio/Penteado) – aquele do “foi traído e não traiu jamais/ a inconfidência de Minas Gerais” –, enquanto o livro traz informações e curiosidades sobre o mártir e seu cantor. Você sabia que Chico Buarque recebeu a Medalha Tiradentes, concedida pela Assembleia Legislativa fluminense, durante um torneio de futebol doméstico? E que Tiradentes foi enforcado com cabelos e barba raspados, porque assim se evitava o ataque de piolhos aos presos?

Samba-enredo defendido em 1953 pela Cartolinhas de Caxias, Benfeitores do universo (Hélio Cabral) é praticamente uma apostila de história do Brasil. A letra fala de Carlos Gomes, Rui Barbosa, Oswaldo Cruz, Santos Dumont, Castro Alves e João Caetano, entre outros. Atualmente, a Cartolinhas faz parte da Acadêmicos do Grande Rio. Em 1956, o polêmico Getúlio Vargas, ditador e pai dos pobres, que ainda desperta paixão e ódio, ganhou samba composto por Padeirinho para a Mangueira. Quase dois anos depois de se matar, Gegê deixou a vida para entrar no carnaval como estadista, idealista e realizador.

Fico


A garotada vai adorar saber que dom Pedro I não era um mauricinho bocó. O príncipe, na verdade, estava mais para pivete. Brincava na rua com as outras crianças e os escravos, adorava boemia e música, compôs o Hino da Independência. Em 1962, Sua Alteza ganhou de Cabana Dia do Fico, cuja letra exaltava a data da “marcante vitória deste povo varonil”. Detalhe: Pedro, o pivete, nasceu em pleno Dia das Crianças.

Aquarela brasileira, o clássico de Silas de Oliveira que fez o Império Serrano levantar a avenida em 1964, canta as maravilhas dos cenários da Amazônia, do Rio de Janeiro, de Pernambuco, de Brasília, do Ceará, da Bahia e até da Ilha do Marajó. Ziraldo não podia mesmo deixar passar batido: no capítulo dedicado a Silas, desenhou um capiau desconfiado, que reclama: “Uai... Num tem Minas...”. Detalhe: aquela beleza de samba era homenagem à Aquarela do Brasil (1939) composta por Ary Barroso, mineiro de Ubá!

Ao lado do cantor Tony Garrido, dona Ivone Lara gravou Os cinco bailes da história do Rio. Em 1965, a carioca simpática quebrou um tabu: foi a primeira mulher a ingressar na ala de compositores de uma escola de samba. Coube à Império Serrano defender a parceria dela com Silas de Oliveira e Bacalhau. O trio se inspirou em festas que marcaram a trajetória da Cidade Maravilhosa – da fundação ao Baile da Ilha Fiscal, o canto de cisne da monarquia.

“Faz escuro/ mas eu canto”, diz o verso de Thiago de Mello. E está aí a lição mais tocante de Aula de samba à moçada. Durante os 21 anos da ditadura civil-militar imposta em 1964, o carnaval deu voz ao povo. Pouco depois da decretação do Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968, chegou a hora da folia. Em 1969, a Império Serrano decidiu celebrar o fim da escravidão e a ousadia dos inconfidentes com Heróis da liberdade (Mano Décio/Silas de Oliveira/Manoel Ferreira). A letra dizia assim: “Já raiou a liberdade/ A liberdade já raiou/ Essa brisa que a juventude afaga/ Essa chama que o ódio não apaga pelo universo/ É a evolução em sua legítima razão”.

Acuada, a Império foi obrigada por censores a trocar a palavra revolução por evolução. Teve de desfilar sob o voo rasante – em plena avenida! – de um avião da Força Aérea Brasileira (FAB). A escola de Madureira ficou em quarto lugar, mas ninguém se lembra disso. Fato é que a corajosa verde-branco entrou para a história. E deu uma aula de samba.

AULA DE SAMBA – A história do Brasil em grandes sambas-enredo
. De Maria Lucia Rangel, Tino Freitas e Ziraldo (ilustrações)
. Edições de Janeiro, 78 páginas, R$ 48,90