domingo, 10 de agosto de 2014

Leite - Eduardo Almeida Reis‏

Leite


Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 10/08/2014


Do latim dies dominìcus “dia do Senhor”, o domingo continua sendo um problemão da roça por ser o dia consagrado, entre os católicos e outros cristãos, à oração e ao descanso. Nas fazendas leiteiras está ficando impossível arranjar empregados que não exacerbem seu cristianismo no dies dominìcus, daí o fato de muita gente estar vendendo as vacas e parando com o leite.

Com os preços hoje recebidos pelo produtor, cada retireiro custa cerca de 80 litros/dia: dois salários mínimos, férias e décimos-terceiros. Tem casa, luz, pomar da sede, galinhas no terreiro, engorda um porquinho, escola rural para os muitos filhinhos. Não há um só obreiro que não tenha motocicleta para “viajar” de casa para o estábulo e vice-versa ao contrário. Pode não ser o paraíso terrestre, mas é dez mil vezes melhor do que morar nos subúrbios das grandes cidades com os nossos transportes coletivos.

Quanto ao fazendeiro, que insiste na produção de leite, é vicio melhor que os outros, crack, coca, nicotina e álcool, mas é vício: um mau negócio em que você trabalha com bichos abençoados. Num dos meus livros calculei o crescimento de um lote de 10 vacas mestiças, adaptadas ao meio, estabelecido o fato de que a eficiência reprodutiva do rebanho normalmente não chega aos 100% ao ano, metade machos, metade fêmeas.

No primeiro ano temos 10 vacas e 5 bezerras = 15 fêmeas. No segundo ano, 10 vacas, 5 garrotas (bezerras de sobreano) e 5 bezerras = 20 fêmeas. No terceiro ano, 10 vacas, 5 novilhas de dois anos, 5 garrotas e 5 bezerras = 25 fêmeas. No quarto ano, 15 vacas, 5 novilhas, 7 garrotas e 7,5 bezerras = 32,5 fêmeas. No quinto ano, 20 vacas, 5 novilhas, 7,5 garrotas e 10 bezerras = 42,5 fêmeas.

A partir do sexto ano, ainda com as 10 primeiras vacas perfeitamente “operacionais”, o negócio se transforma numa loucura: são 25 vacas, 7,5 novilhas, 10 garrotas e 12,5 bezerras = 55 fêmeas. Sete anos, mesmo na roça, passam muito depressa. É claro que você vendeu fêmeas refugadas e perdeu fêmeas acidentadas, picadas de cobras, coisas que acontecem. É claro, também, que lápis e papel aceitam qualquer coisa, mas que a vaca é um bicho abençoado, é. Se você começar com 30 vaquinhas, terá 165 no mesmo período.

O que atrapalha é o leite. Se fosse possível inventar uma pecuária leiteira com vacas adaptadas ao meio, sem vender leite, estaríamos diante de um dos melhores negócios do mundo. E tem mais uma coisa: no primeiro ano, nasceram 5 machinhos, mais 5 no segundo ano e 5 no terceiro, quando você já tinha 5 bois para vender ao açougueiro. Quanto às 7,5 bezerras que pintaram no pedaço impresso, paciência: a exemplo do lápis e do papel, o computador aceita quase tudo.

Rebanho adaptado ao meio, criado com um mínimo de cuidados, tem um crescimento extraordinário: a partir do sétimo ano tem vaca e bezerra que não acaba mais. Diante disso, não chega a causar espanto que tanta gente se vicie no negócio leiteiro.

Sonhos

Sem ser onirócrita, peço licença para exercitar a onirocrisia, que é a arte, a técnica de interpretar e analisar os sonhos, mesmo os maus sonhos chamados pesadelos. E o pacientíssimo leitor, que me conhece faz tempo, sabe que não sou de deixar para amanhã as palavras que aprendo hoje, caso de onirocrisia e onirócrita.

Deu-se que dormi mal à beça e à bessa, quatro horas depois de ter comido pouquíssimo e não ter bebido mais que água mineral sem gás. Como explicar a sucessão de pesadelos? Sonhos bons são ótimos, ao contrário dos sonhos maus, que me deixam encucado. Lembro-me dos dois últimos da tal noite maldormida.
Sem exercitar a onirologia, não me custa recordar ao leitor do Estado de Minas que a primeira edição de A Interpretação dos Sonhos, em 1899, o mais importante trabalho de Freud, que lhe rendeu exatos 209 dólares, só se esgotou depois de oito anos. Edição de escassos 600 exemplares, sobre um assunto que o autor dizia: “Uma inspiração como esta só vem uma vez na vida”. Vendeu menos que o meu Bumerangue, romancinho da melhor supimpitude.

O mundo é uma bola

10 de agosto de 258: Lourenço de Huesca (225-258), um dos setes primeiros diáconos (guardiães dos tesouros da igreja cristã sediada em Roma) foi martirizado. O cargo de diácono era de grande responsabilidade e consistia no cuidado com os bens eclesiais e na distribuição de esmolas aos pobres. No ano 257, o imperador romano Valeriano decretou a perseguição aos cristãos, detendo e decapitando no ano seguinte o papa Sisto II. Lourenço foi grelhado, canonizado e hoje é nome de município sul-mineiro, terra do excelente Eugênio Ferraz.
Em 1500, depois de dobrar o Cabo da Boa esperança, Diogo Dias encontrou uma ilha à qual deu o nome de São Lourenço, hoje Madagáscar. Em 1965 nasceu Eduardo Henrique Accioly Campos, candidato à presidência da República Federativa do Brasil.

Zoológicos, sim ou não?‏

Zoológicos, sim ou não?
 
Nascimento de filhote de gorila acirra debate sobre existência dos zoos, com argumentos exacerbados contra ou a favor dessas instituições

Tiago de Holanda
Estado de Minas: 10/08/2014


O nascimento do filhote dos gorilas Leon e Lou Lou no Zoológico de Belo Horizonte, primeiro da espécie a vir à luz na América do Sul, foi muito celebrado por moradores da capital. O fato, porém, reacendeu uma antiga polêmica. Muitas pessoas usaram as redes sociais para criticar zoológicos e defender que sejam extintos, alegando que os ambientes oferecidos por eles causam sofrimento aos animais. O Conselho Regional de Medicina Veterinária de Minas (CRMV-MG) afirma que as instituições são importantes centros de pesquisa e conservação ambiental. Em meio à controvérsia, a quantidade de zoológicos em Minas caiu 80,6% nos últimos 25 anos, passando de 62, na década de 1990, para 12, segundo a superintendência mineira do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama/MG).

O debate nas redes sociais esquentou logo após ser divulgada a notícia do nascimento do filhote, na terça-feira. O fundador do Núcleo Fauna de Defesa Animal, Franklin Oliveira, por exemplo, compartilhou no Facebook matéria do Estado de Minas sobre o fato e escreveu um lamento: “Mais uma pobre criatura para viver uma vida toda presa sem conhecer a natureza e a liberdade”. A publicação acabou virando um fórum de discussão, com dezenas de comentários calorosos, a maioria contrária à existência de zoológicos.

Essas opiniões são reforçadas por uma líder do Movimento Mineiro pelos Direitos Animais, Adriana Cristina Araújo. “A gente fica feliz em saber que mais um animal nasce, mas lamenta que nasce para ser escravizado, para viver aprisionado em um lugar muito limitado”, afirma sobre o parto ocorrido em BH. Ela critica a ideia de que zoológicos sirvam para estimular o cuidado com o meio ambiente, argumento usado por representantes do setor. “Esses lugares deseducam as pessoas, que se acostumam a ver animais presos. Eles devem ser vistos na natureza”, alega. Ela defende a ampliação dos espaços destinados aos bichos e a criação de restrições à visitação pública: “Os visitantes devem estar em grupos pequenos. Monitores devem acompanhá-los, para passar informações e garantir que ninguém faça algo que possa estressar os animais, como barulho”.

EDUCAÇÃO AMBIENTAL O presidente do CRMV-MG, Nivaldo da Silva, afirma que os zoológicos ajudam a educar a população. “Eles permitem que as pessoas tomem conhecimento da existência de determinadas espécies, podendo ver de perto algumas que nem existem na fauna nacional”, afirma. As instituições que cumprem normas previstas na legislação tomam providências para evitar que visitantes descuidados ou mal-intencionados prejudiquem os bichos. “Para manter o bem-estar dos animais, eles são mantidos a uma distância de precaução, de segurança, dos seres humanos”, alega. “Esses locais são úteis para conservar espécies ameaçadas de extinção e para a realização de estudos. Em cativeiro, podem-se observar melhor comportamentos, fisiologias. Muitas vezes, as informações obtidas contribuem para que os animais que vivem em seu hábitat sejam mantidos em condições mais adequadas”, aponta.


Exigências cumpridas Zoo de BH é o único em Minas que tem dever de atuar na conservação das espécies. Defensores dos direitos animais criticam as condições de confinamento dos bichos

Tiago Padilha

Excursão escolar visita recinto dos elefantes: projeto pedagógico para desenvolver consciência ecológica   (Leandro Couri/EM/D.A Press)
Excursão escolar visita recinto dos elefantes: projeto pedagógico para desenvolver consciência ecológica


Em Minas, apenas o Zoológico de Belo Horizonte tem a obrigação legal de desenvolver programas de pesquisa para a conservação de espécies, segundo a superintendência mineira do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama/MG). Maior dos 12 zoos existentes no estado, é o único classificado na categoria A, que apresenta as exigências mais rigorosas no país. “A instituição é um modelo a ser seguido no Brasil e no mundo”, avalia o presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV-MG), Nivaldo da Silva. Por outro lado, ativistas pelos direitos animais criticam o local por ter recintos pequenos e não garantir sossego aos bichos. Um projeto de lei em tramitação na Câmara Municipal estabelece restrições à visitação pública.

Segundo o Ibama/MG, 10 zoológicos no estado são da categoria C, que apresenta menos exigências. Um particular em Ipatinga é da classe B e, como obrigações extras, deve “possuir programas de estágio supervisionado nas diversas áreas de atuação” e “literatura especializada disponível para o público”, define a Instrução Normativa 169 do Ibama, de 2008. Independentemente do tipo, as instituições têm de desenvolver programas de educação ambiental. O Zoo de BH, entre outros preceitos, precisa “promover intercâmbios técnicos nacionais e internacionais”, como todos da classe A. “Temos parcerias com várias universidades, como a UFMG e a PUC Minas”, afirma o diretor, Gladstone Corrêa, que ressalta convênio com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) para concessão e pagamento de bolsas de iniciação científica.

A instituição belo-horizontina abriga 3,7 mil animais de cerca de 270 espécies, segundo Gladstone. “Dessas, 24 são brasileiras ameaçadas de extinção, das quais 15 se reproduziram nos últimos 10 anos no zoológico, como o cachorro-do-mato-vinagre e o tamanduá-bandeira. Uma delas, a ararinha-azul, foi extinta na natureza e hoje só existe em zoológicos, que são aliados da conservação”, afirma. A maior parte dos animais que chegam a essas instituições foi apreendida de traficantes pela polícia ou resgatados, ressalta a bióloga Vivian Teixeira Fraiha, da seção de mamíferos. “Também há bichos excedentes de outros zoológicos. Nunca são simplesmente capturados da natureza”, diz. Alguns nascidos em cativeiro chegam a ser introduzidos em hábitat.

EXCURSÕES O zoológico da capital recebe diariamente excursões de escolas públicas e particulares. Na quarta-feira, por exemplo, o local foi visitado por um grupo de 20 alunos de 4 e 5 anos do Instituto Cecília Meireles, que funciona no Bairro Santo Agostinho, Região Centro-Sul da cidade. “Todos os anos, turmas de 2 a 6 anos vêm para cá. A visita é o trabalho de campo de um projeto pedagógico que envolve todas as disciplinas. É importante para que desenvolvam o zelo pelos animais”, explica a coordenadora da educação infantil, Maize Borges.

A professora aposentada da Faculdade de Letras da UFMG Maria Antonieta Pereira, coordenadora do programa Adote um Amigo, que, em convênio com a PBH realiza a castração de animais e incentiva a adoção deles, acredita que a visita a zoológicos é deseducativa. “As pessoas devem observar os bichos em seu habitat natural, não presos. A própria visitação é um fator de estresse para eles”, defende. “Os zoológicos promovem a espetacularização dos animais, que ainda sofrem com desrespeitos do público, que faz barulho, joga lixo”, critica uma representante do Movimento Mineiro pelos Direitos Animais, Adriana Cristina Araújo. Ela cita o fato de um elefante africano ter morrido na instituição de BH em 1995 após ingerir garrafas plásticas jogadas por visitantes. Em junho, uma girafa morreu ao se enforcar acidentalmente com a corda usada para prender o seu alimento.

O Projeto de Lei 87, de 2013, aprovado em primeiro turno na Câmara Municipal, define que o zoológico da capital tenha entre suas tarefas recuperar animais silvestres para posterior reinserção na natureza, incluindo a possibilidade de animais apreendidos pela polícia, hoje encaminhados ao Ibama, sejam entregues à instituição. “O nascimento de um gorila é um exemplo espetacular do bom trabalho feito pela instituição, mas hoje sua função prioritária é mostrar animais para as pessoas. Ela precisa mudar seu foco. A função de recuperar animais apreendido se tornaria a principal. A visitação ficaria restrita a fins acadêmicos”, diz o autor do projeto, vereador Leonardo Mattos (PV).


ENQUANTO ISSO... » ...Dieta caprichada


 (Leandro Couri/EM/D.A Press  )


Cuidar bem da família de gorilas chefiada pelo macho Leon é uma das preocupações dos veterinários e nutricionistas do zoológico de BH, principalmente depois do nascimento do filhote de Lou Lou. Legumes e verduras frescas são servidos fartamente aos primatas, para reforçar a alimentação da fêmea, que está amamentando, e da outra gorila, Imbi, que está grávida e deve dar à luz até o fim de setembro.

Doenças que viajam‏

Doenças que viajam
 
Epidemia de ebola chama a atenção para outras doenças infectocontagiosas que podem se espalhar.


Carolina Cotta
Estado de Minas: 10/08/2014




A classificação da epidemia de ebola no oeste africano como emergência pública sanitária internacional preocupou ainda mais a população mundial. Na sexta-feira, a Organização Mundial de Saúde (OMS) determinou que os países afetados – Libéria, Guiné, Serra Leoa e Nigéria (nesse último, os casos ainda não foram confirmados) – adotem, entre outras medidas, exames para detectar o vírus em aeroportos, portos e postos de fronteira em todas as pessoas que apresentarem febre e outros sintomas semelhantes aos do ebola. Mas outras doenças infectocontagiosas, caso da malária e da febre chikungunya, são mais preocupantes para os mineiros e brasileiros.

A malária, por exemplo, só em Belo Horizonte, tem média de 300 casos suspeitos por ano, e entre 50 e 60 confirmados. Segundo Argus Leão Araújo, infectologista do Serviço de Atenção à Saude do Viajante da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, trata-se de uma doença de fácil diagnóstico, potencialmente sequelante e com grande risco de óbito se não tratada. “Todos os anos, temos casos de malária na capital mineira, todos eles ‘importados’, trazidos por pessoas originárias de áreas de risco, caso da Amazônia legal brasileira e África”, explica.

Já a febre chikungunya é uma doença de origem africana que até pouco tempo estava restrita a África e Sudeste Asiático, mas que em dezembro de 2013 foi levada para o Caribe, onde já é uma epidemia, com 300 mil casos confirmados. Provavelmente, chegou com alguém doente, que tinha o vírus circulando no sangue e foi picado por um mosquito como o Aedes aegypti, o mesmo que transmite a dengue. “Como no Brasil, e principalmente em Minas Gerais, tem muito Aedes aegypti, a introdução dessa doença aqui talvez seja nossa maior preocupação agora. Se entrar em nossa região, há grandes riscos de disseminação. É uma doença difícil de controlar”, alerta o especialista, segundo o qual outros estados brasileiros já têm casos.

O intenso trânsito internacional propicia um maior risco para disseminação dessas e de outras doenças infecciosas, endêmicas ou epidêmicas, que por isso ganham atenção nos serviços de medicina do viajante. No caso do ebola, que tem sua maior epidemia desde que foi descrito, em 1976, o Ministério da Saúde criou um protocolo e orientou cada cidade, em função de sua realidade, a fazer planos de contigência para tentar impedir a chegada do vírus. “A primeira medida é identificar casos suspeitos. Quem chegar de um desses países com febre nos últimos 21 dias (o período de incubação do vírus é de dois dias a três semanas) deve ser mantido em isolamento. Depois, deve ser feito um rastreamento de todas as pessoas com quem ele manteve contato nesse período”, explica.

Apesar dessa região africana não ser turística, há um risco constante da doença se espalhar porque existem várias empresas que mandam funcionários brasileiros para atuar em minas e construção civil pesada. Apesar de a transmissão não ser tão fácil, essas pessoas estão sob risco. Se alguém adoecer numa equipe, demora até que se descubra a causa, porque muitas doenças infecciosas têm sintomas semelhantes ao ebola, caso da malária e do cólera. “Um operário na Guiné, por exemplo, depois de entrar em contato com o vírus, pode demorar até 21 dias para desenvolver a doença. E nesse período ele pode transmitir o vírus para outra pessoa”, alerta o médico.

Vacinas
O Serviço de Atenção à Saude do Viajante da PBH é responsável pela emissão do Certificado Internacional de Vacinação e Profilaxia, exigido para entrar em alguns países. Todo viajante que procura o serviço também pode se vacinar contra febre amarela; sarampo, rubéola e caxumba (Tríplice viral); difteria e tétano (DT); hepatite B; e poliomielite. Um terceiro foco de ação são consultas médicas com orientações de como se prevenir para pessoas que vão viajar para áreas de risco de algumas doenças, ou para aquelas que chegaram dessas regiões com algum sintoma importante. As consultas são gratuitas para os viajantes, mas é preciso ligar antes para agendamento nos telefones (31) 3246-5026 ou 3277-5300.

SAIBA MAIS
EPIDEMIA X ENDEMIA
Doenças endêmicas são aquelas habitualmente identificadas em uma região e já esperadas em determinado período. É o caso da dengue em Minas Gerais, que tem surtos ou epidemias (uma doença pode ser endêmica e epidêmica ao mesmo tempo) esperados com a chegada do verão e do período chuvoso. Outro exemplo é a gripe, comum nos meses de inverno; e a malária, que é endêmica na Região Amazônica. Já a Aids é endêmica em todo o mundo e a tuberculose, no Brasil. As epidemias são um aumento de casos acima do esperado para uma doença em determinada região. A diferença para um surto é que esse último é muito localizado, ao contrário das epidemias, que são algo disseminado.


DOENÇAS INFECTOCONTAGIOSAS EPIDÊMICAS E ENDÊMICAS

Publicação: 10/08/2014 04:00
» EBOLA
O vírus pode ser contraído tanto de humanos como de animais e é transmitido por meio do contato com sangue, secreções e fluidos corporais. A doença é frequentemente caracterizada pelo início repentino de febre, fraqueza, dor muscular, dores de cabeça e inflamação na garganta, seguida de vômito, diarreia, coceiras, deficiência nas funções hepáticas e renais e, em alguns casos, sangramento interno e externo. Os sintomas podem aparecer de dois a 21 dias após a exposição ao vírus. Ainda não há vacina nem tratamento específico aprovado, limitando os cuidados médicos a uma terapia de apoio.

» CORONAVÍRUS
Uma nova variante do coronavírus, denominada MERS-CoV, pode ser transmitida de pessoa para pessoa em caso de contato próximo. O vírus também pode ser contraído por animais. Causa pneumonia e provoca falência renal rápida. Os sintomas – que começam a aparecer dez dias após a infecção – são febre, tosse, dificuldade de respirar e falta de ar. Não existe vacina contra o coronavírus para seres humanos. Cuidados de higiene ao espirrar, tossir ou assoar o nariz, lavagem das mãos após usar o banheiro e antes das refeições e isolamento de casos suspeitos ou confirmados podem prevenir o contágio.

» MALÁRIA
A infecção, causada por parasita, é transmitida de pessoa para pessoa através da picada da fêmea do mosquito Anopheles infectado, que, geralmente, pica entre o anoitecer e o amanhecer. A malária começa como uma gripe, com os primeiros sintomas surgindo entre nove e 14 dias após a infecção. Os sintomas incluem febre (podem ocorrer ciclos típicos de febre, calafrios e suor em grande quantidade), dor nas articulações, dores de cabeça, vômitos frequentes, convulsões e coma. O tratamento mais eficiente para malária é uma terapia combinada à base de artemisinina.

» FEBRE CHIKUNGUNYA
A febre chikungunya é uma doença viral, parecida com a dengue, sendo, inclusive, transmitida pelo mesmo mosquito, o Aedes aegypti, entre outros. Na fase aguda, os sintomas são febre alta, que aparece de repente e vem acompanhada de dor de cabeça, dor muscular, erupção na pele, conjuntivite e dor nas articulações. Esse último é o mais característico da enfermidade e pode perdurar por até dois anos, chegando a impedir os movimentos. Não existe vacina contra febre chikungunya e a prevenção consiste em adotar medidas simples no próprio domicílio e arredores para combater a proliferação do mosquito.


» GRIPE AVIÁRIA DA CHINA (H7N9)
O H7N9 é um subtipo do vírus influenza. Desde o ano passado, a China tem notificado infecções em seres humanos e aves domésticas com uma nova cepa do vírus, que até então não se disseminava entre pessoas. A hipótese é que as pessoas foram contagiadas após contato com aves infectadas, que podem disseminar o vírus da influenza por seus dejetos e muco. Os sintomas iniciais são febre alta e tosse e muitos casos progrediram para pneumonia grave, síndrome de desconforto respiratório agudo, choque séptico e falência múltipla de órgãos, que podem evoluir para o óbito.

» POLIOMIELITE (PARALISIA INFANTIL)
Causada pelo poliovírus (sorotipos 1, 2, 3), que pode infectar crianças e adultos através do contato direto com as fezes ou com secreções expelidas pela boca de pessoas infectadas. A poliomielite foi praticamente erradicada nas áreas desenvolvidas do mundo com a vacinação sistemática das crianças, mas o vírus ainda está ativo em alguns países da África e da Ásia. Na maioria dos casos, a infecção pode ser assintomática, mas quando se manifestam, os sintomas variam de acordo com a gravidade. A prevenção está atrelada a hábitos de higiene.

Os três grupos decisivos

Os três grupos decisivos
Estado de Minas: 10/08/2014


Brasília – Estrategistas da campanha presidencial recortam cenários, públicos-alvos e afinam o discurso para melhor atingir os eleitores. De acordo com o cientista político César Romero, três grandes grupos precisam ser atendidos em uma corrida presidencial, pois têm o poder de decidir uma eleição: a classe média escolarizada, os moradores das periferias das grandes cidades, e os habitantes dos chamados grotões brasileiros.

Pesquisa feita pelo Estado de Minas nos programas de governo dos três principais presidenciáveis – Aécio Neves (PSDB), Eduardo Campos (PSB) e Dilma Rousseff (PT) – mostra que eles estão antenados com essas demandas. E, segundo especialistas, são necessidades específicas: nos grotões, a tendência é uma atenção maior aos programas sociais do governo, embora as políticas agrárias também sejam importante. Nas periferias, as queixas mais latentes envolvem a questão de mobilidade urbana e o acesso aos serviços públicos essenciais, como saúde e educação.

Já a classe média escolarizada, que normalmente está em escolas particulares e utiliza menos os serviços públicos, sente mais proximidade com as propostas mais conceituais, como a reforma política, as políticas de inovação em ciência e tecnologia ou os discursos ambientalmente sustentáveis. O que não evita, naturalmente, que as carências e demandas permeiem os três grupos.

Para o líder do PSDB na Câmara, Antonio Imbassahy (BA), é natural que as campanhas se debrucem sobre essas realidades distintas. “São grupos específicos de eleitores que, evidentemente, buscam a ascensão social por caminhos alternativos e que precisam ser percebidos pelos candidatos”, defendeu o parlamentar tucano. Imbassahy acredita que a escolha da proposta adequada faz com que as ideias do candidato se espalhem de maneira mais ágil e clara. “Por isso, é fundamental a clareza do discurso”, completou.

Um interlocutor da campanha presidencial de Dilma afirmou que o PT trabalha as estratégias voltadas para grupos específicos e considera, embora respeite os pontos de vistas apresentados pelo cientista político da PUC, que existem outros recortes eleitorais que precisam ficar no radar dos candidatos, sobretudo os presidenciais.

Ele cita como exemplo desse cuidado os trabalhadores e os jovens. “São públicos distintos, com linguagem e formas de abordagem específica, mas que permeiam todos os grupos sociais, inclusive os citados pelo cientista da PUC”, completou o estrategista dilmista.

Candidato a vice-governador em São Paulo na chapa de Geraldo Alckmin (PSDB) e um dos aliados mais fieis do presidenciável Eduardo Campos (PSB), o deputado Márcio França, também do PSB, afirma que, além dos pontos levantados por Romero, o partido ainda adota uma outra estratégia de discurso. “O cientista político fez um recorte geográfico. Nós nos baseamos também em um recorte social”, disse ele.

Por esse paradigma, o comando de campanha do PSB divide os eleitores em classes A+B; C; D+E. O primeiro grupo (A+B), segundo França, representa 21% do eleitorado; a classe C engloba 54% dos votos e as classes D e E somam 25%. O socialista adiantou ainda que o principal alvo são os eleitores da classe C.

A primeira justificativa, óbvia, é numérica. As outras têm uma conotação política e social mais refinada. “As pesquisas mostram que quem decide o voto nas famílias da classe C são os jovens, um público que, em tese, está mais próximo de nós por causa da Marina (Silva, candidata a vice de Eduardo)”, disse França. Outros dois fatores pesam consideravelmente nessa estratégia. “Apenas 15% desse público é próximo ao PT. Os demais 85% têm ojeriza aos partidos políticos e engrossam as filas dos indecisos e daqueles que votam branco ou nulo.”