sábado, 16 de agosto de 2014

Quando humor não é remédio

A morte de Robin Willians alerta para o fato de que depressão é coisa séria

Antônio Geraldo da Silva
Psiquiatra, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP)
Estado de Minas: 16/08/2014


A recente e trágica notícia sobre a morte do comediante americano Robin Williams, confirmada como suicídio por asfixia esta semana, traz à tona uma preocupação alarmante e que reflete muito da imagem que alguns transtornos mentais ainda recebem por parte da sociedade. Para alguns, um destempero; para outros, uma fraqueza. Mas a depressão é um transtorno mental dos mais graves e incapacitantes. Dentre as 10 principais causas de afastamento do trabalho em todo o mundo, cinco são decorrências de transtornos mentais. A depressão aparece em primeiro lugar. Combinada com o uso e o abuso de álcool e de outras drogas – como era o caso do ator – torna-se uma mistura bombástica. A prevalência de tentativas de suicídio na população geral é em torno de 4%. Entre alcoólatras, a prevalência de morte por suicídio pode chegar a 21%.

Para 46 milhões de brasileiros, segundo dados do Ministério da Saúde, a depressão é uma realidade: 20% a 25% da população já teve ou tem depressão ao longo da vida. A incapacitação profissional, a falta de interesse e de motivação para participar de atividades sociais rotineiras e de ter prazer nas coisas de que gosta e com as pessoas que ama, transformam dramaticamente o cotidiano dessas pessoas, o de seus familiares e amigos, trazendo consequências devastadoras. Essa falta de capacidade de se relacionar tem efeitos profundos e duradouros, que dificultam a reinserção social dos que tentam se recuperar de um episódio de depressão. Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que a depressão e os demais transtornos mentais atingem muitos brasileiros, o preconceito em torno deles é crescente na sociedade. Por que será que tantas pessoas ignoram a palavra e ainda têm tanto preconceito contra os transtornos psiquiátricos, em sua maioria livres de qualquer embasamento científico ou lógico? Foi com esses questionamentos em mente e com o intuito de unir a classe psiquiátrica e a sociedade sobre tão presente realidade enfrentada nos consultórios médicos de todo o Brasil, que a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) criou a campanha Psicofobia é crime. Já é hora de combater essa discriminação, como atualmente já se faz com os homossexuais, negros e mulheres. A expressão psicofobia expressa justamente o nefasto preconceito contra os doentes mentais e portadores de deficiência.

Se não se deve debochar ou subestimar de doenças como o câncer ou a diabetes, também não há razão para as doenças mentais não serem encaradas com a seriedade que pedem e seus portadores exigem. Há várias formas de preconceito, entre elas a própria negação da doença, considerando-a algo menor ou passageiro. Como disse Albert Einstein, lamentando a triste época em que vivia, “é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”. Em pleno 2014, ideias preconceituosas devem ser combatidas com ainda mais veemência. É chegada a hora de a sociedade olhar com maturidade e respeito para os portadores de transtornos mentais. A morte do comediante traz um alerta importante: depressão é coisa séria.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

TeVê

TV PAGA » Nova série no Max

Estado de Minas: 15/08/2014


 (HBO/Divulgação)


Estreia hoje, às 21h, no canal Max, a série The Knick (abreviatura de The Knickerbocker Hospital). Dirigida por Steven Soderbergh, a produção conta a história de enfermeiros e cirurgiões de um hospital de Nova York, nos anos 1900, que vão além dos limites da medicina em uma época com alto índice de mortalidade e sem antibióticos. Clive Owen (foto) está à frente do elenco.

Telecine Premium exibe suspense de Ridley Scott

Outra estreia de hoje é do suspense O conselheiro do crime, de Ridley Scott, com Cameron Diaz, Penélope Cruz e Michael Fassbender, às 22h, no Telecine Premium. Na Cultura, também às 22h, será exibido o drama Há tanto tempo que te amo, de Philippe Claudel, com Kristin Scott Thomas. No Megapix, o destaque é a saga dos vampiros adolescentes, com a exibição em sequência de Crepúsculo (15h30), Lua nova (17h50), Eclipse (20h15) e Amanhecer – Parte 1 (22h35). Na faixa das 22h, o assinante tem mais cinco opções: Nove crônicas para um coração aos berros, no Canal Brasil; O homem com punhos de ferro, no Telecine Action; Terapia de risco, na HBO 2; Django livre, no Max Prime; e Morto ao chegar, no TCM. Outras atrações da programação: O plano perfeito, às 19h50, no Space, e Zumbilândia, às 22h30, na TNT.

Canal History vai fazer  uma viagem no tempo

O History estreia hoje, às 20h, Panamá – O país que uniu o mundo. A série mostra os desafios, infortúnios e vitórias das pessoas que, bem intencionadas ou não, realizaram uma das obras de engenharia mais impressionantes de todos os tempos: o Canal do Panamá. A passagem tem 77,1 quilômetros de extensão e liga os oceanos Pacífico e Atlântico. Construído a partir de 1880, ele só foi inaugurado em 1913.

Muitos nazistas vieram se esconder na América

No canal Bio, o destaque de hoje é o especial Conspiração nazi, que explica como líderes nazistas se infiltraram em diferentes setores da sociedade latino-americana. Após a 2ª Guerra Mundial, e depois que centenas de líderes alemães fugiram para o continente americano, sempre se falou sobre a presença do nazismo na América Latina. Mas o plano que o Terceiro Reich tinha era de se infiltrar no continente muito antes do começo da guerra. Confira às 22h.

Curta! mostra estreia de  Calcanhotto no cinema

Dirigido por Allan Ribeiro, o curta-metragem Com vista para o céu marcou a estreia de Adriana Calcanhotto no cinema, fazendo uma reflexão sobre o cotidiano de duas pessoas em uma grande metrópole. O filme vai ao ar às 21h15, no canal Curta!, que exibe a seguir, às 21h30, o documentário No caminho da Expedição Langsdorff, reconstituindo a missão exploratória da região central do Brasil até a Amazônia, realizada em 1825. E às 23h30 é a vez de Amyr Klink – Mar sem fim, de Breno Silveira.



Golpe da barriga



Maria Ísis, personagem de Marina Ruy Barbosa, vai inventar que está grávida do amante   (Globo/Divulgação-8/7/13)
Maria Ísis, personagem de Marina Ruy Barbosa, vai inventar que está grávida do amante


A ruivinha “sweet child” do Comendador (Alexandre Nero), Maria Ísis (Marina Ruy Barbosa), vai contar uma mentira daquelas para o amado. Com medo de perdê-lo depois que a família do milionário entra em campo e aparece para tirar a paz dos pombinhos, a garota não pensa duas vezes e inventa que está grávida. Quando ele aparece no apartamento que mantém como ninho de amor, a jovem manda logo: “Estou esperando um filho seu”. José Alfredo se assusta e pergunta se ela tem certeza. Maria Ísis, temendo uma reação para lá de negativa, logo faz o jeitinho meigo. “Está desconfiando de mim? Se isso for verdade, dou meu jeito. Estou vendo nos seus olhos que não quer um filho meu. Está achando que posso ter engravidado de propósito. O famoso golpe da barriga... Mas fica tranquilo, isso não vai acontecer, eu dou meu jeito.” No entanto, o Comendador a tranquiliza. “Eu nunca vou abandonar minha ‘sweet child’. Adoro tudo que vem de você”, diz. Ele acrescenta que a história deles é uma coisa que quer que dure para sempre. Ela resmunga que não é verdade. José Alfredo se declara: “Acredita em mim, meu amor. Eu amo você. Mais do que tudo. E vou deixar de ser tão egoísta e vou começar a pensar no seu futuro, em te deixar mais segura. Independente dessa história de gravidez. Mas você precisa saber se isso é mesmo verdade, tem que fazer o teste, ir ao médico.” A garota fica aflita, pois percebe que pode ser pega numa tremenda mentira. Em tempo: o filho mais novo do Comendador, João Lucas (Daniel Rocha), ficará encantado por Maria Ísis e se interessará pela ninfeta, mesmo sabendo que é a amante de seu pai.

CONFIRA O QUE VEM POR AÍ
NA RODADA DO BRASILEIRÃO

O Alterosa esporte desta sexta-feira traz cobertura completa sobre a rodada do Campeonato Brasileiro, séries A e B, no fim de semana. Acompanhe com a apresentação de Leopoldo Siqueira e os comentários da bancada democrática.

CHEF FELIPE RAMEH ESTARÁ
EM ATRAÇÃO DO MAIS VOCÊ

O chef mineiro Felipe Rameh vai participar do quadro “Super chef celebridades”, do programa Mais você (Globo), nesta sexta-feira. Felipe dará um workshop especial para os candidatos Roberta Rodrigues, Thaíssa Carvalho, Paula Barbosa, Fábio Lago, Rodrigo Andrade, Thiago Mendonça e André Marques. Em sua aula, o chef adianta que passará algumas mensagens importantes para os aspirantes. “A comida tem que ser divertida e compartida; ingredientes considerados simplórios e corriqueiros podem ser transformar em verdadeiras maravilhas se bem trabalhados e, um prato naturalmente simples pode se tornar extremamente sofisticado de acordo com o olhar. Se eles aprenderem essas ‘lições’, se sairão bem no desafio”, adianta o professor.

NOVO QUADRO OFERECE
NORTE SOBRE PROFISSÕES

“Qual vai ser?” é o nome do quadro que estreia neste sábado no programa Como será? (Globo), que vai ao ar a partir de 6h. Toda semana, um estudante prestes a escolher sua carreira poderá experimentar três profissões: a de seus sonhos, a que seus pais gostariam que ele seguisse e a indicada por uma orientadora profissional. Na primeira edição, Vítor, de 16 anos, vai conhecer na prática três ofícios bem diferentes: engenharia civil, desenho industrial e pilotagem de aviões.


UM MEIO SORRISO

Em seu novo filme, Otto, o ator e diretor mineiro Ernane Alves viverá o palhaço Meio Sorriso (foto). Na trama, o garçom, Otto, interpretado por Ernane, é aspirante a poeta e também ganha a vida como palhaço, se apresentando nas ruas e praças da capital mineira. Às voltas com relacionamentos descompromissados, o rapaz se vê envolvido com a estudante de moda Samanta (Kícila Sá), com quem mantém uma relação movida a sexo, e Paula (Isabela Paes), uma jovem grávida, cujo namorado morreu recentemente. Dividido entre o desejo e o amor, Otto tenta trazer graça e sentido à sua rotina monótona entre o bar, onde trabalha, e seu apartamento no centro da cidade. Com referências do Neorrealismo italiano e Nouvelle Vague francesa, Ernane Alves busca em seus atores e em todo o universo fílmico de Otto um tom realista. O longa-metragem, que ainda não tem data de estreia, conta com as participações especiais de Eduardo Moreira (Grupo Galpão) e Rodrigo Robleño (ex-Cirque du Soleil).

VIVA

Paulo Vilhena é um ator que amadureceu e vem construindo, finalmente, uma carreira com bons papéis e desempenho à altura. Foi assim na série A teia e o mesmo se vê, agora, como o esquizofrênico Salvador, presidiário em Império.

VAIA

Globo derrapa feio ao não priorizar cobertura sobre a morte de Eduardo Campos, mantendo novelas no ar, no horário da tarde de anteontem, quando o telespectador esperava notícias do fato que chocou o país. Outros canais fizeram o que devia. 

Baile de cores

Novo disco da cantora Mônica Salmaso resgata antigas parcerias de Paulo César Pinheiro com Guinga. Poesia, melodia e harmonia sofisticadas revelam o que a MPB tem de melhor


Ana Clara Brant
Estado de Minas: 15/08/2014



Mônica Salmaso lança Corpo de baile, cujo repertório reúne algumas canções guardadas por 40 anos (Dani Gurgel/divulgação)
Mônica Salmaso lança Corpo de baile, cujo repertório reúne algumas canções guardadas por 40 anos

É impossível ficar indiferente à bela voz de Mônica Salmaso, seja num bate-papo descontraído por telefone ou, principalmente, no disco que ela acaba de lançar, Corpo de baile (Biscoito Fino). Com 14 preciosidades, fruto da parceria de Guinga com Paulo César Pinheiro, o CD começou a ser gestado há uma década. “Sabia que essas composições existiam, mas estavam guardadas. Ouvi a maioria delas naquela época e, ao longo do tempo, foram surgindo outras. Não estava pronta para encará-las há 10 anos, mas hoje sim. É como se estivesse me preparando esses anos todos para gravar esse repertório, mesmo sem saber disso. Foi um desafio”, afirma a cantora.

Boa parte das faixas é inédita, inclusive a que dá nome ao CD. Algumas surgiram há 40 anos. Outras são desconhecidas do grande público. A única exceção é Bolero de Satã, que Elis Regina gravou no disco Essa mulher. “Corpo de baile é um nome bem brasileiro, resume muito essa coisa de Brasil que o trabalho tem”, salienta.

Um dos destaques do novo trabalho é a gama variada de colaboradores. Mônica convidou nomes de peso para assinar os arranjos: Dori Caymmi, Tiago Costa, Nailor Proveta, Luca Raele, Nelson Ayres, Paulo Aragão e o marido, Teco Cardoso, responsável pela produção e pela direção musical.

Cor “As canções têm densidade musical, poética, melódica e harmônica. Achei que precisava colorir o repertório, esse baile de cores, com diferentes arranjadores para que uma faixa não pesasse sobre a outra. Discutimos minuciosamente cada música. Foi um trabalho a várias mãos, com muita antecedência, como se eles vestissem um arranjo em mim”, explica.

Satisfeita com as críticas elogiosas a Corpo de baile, a cantora está feliz com o que ouviu de Guinga e Paulo César Pinheiro. Mônica conta que os dois se emocionaram com o CD. “Esse projeto foi feito com o maior dos caprichos, com muito amor pela música. A força que esse disco tem, ainda mais com canções guardadas há 40 anos, é para emocionar mesmo”, destaca.

MPB pobre Em recente entrevista, Mônica Salmaso provocou alvoroço ao afirmar que a MPB “está pobre e nivelada por baixo”. Caetano Veloso chegou a declarar: “Entendo Mônica, uma cantora tão dotada e dedicada. Mas não tendo a pensar assim. De Guinga a Ivete Sangalo, de Valesca Popozuda a Thiago Amud, há todo um leque de possibilidades. Sou tropicalista. Se se nivela ‘por baixo’, tenho culpa no cartório. Ainda estou celebrando os fenômenos da axé music (meu favorito), da invasão do litoral pelo sertanejo e do baile funk, que em geral são vistos como meios de nivelar por baixo. Mas não posso viver sem Mônica.”

Para a cantora, a diferença de posições é normal. “Cada um tem o seu ponto de vista. Foi legal Caetano reconhecer o meu lado e eu entendo o lado dele. Adorei o final, quando ele diz que não pode viver sem mim”, comenta ela, rindo. “Obrigada, Caetano”, enfatiza.

Mônica Salmaso, que não frequenta as redes sociais, recebeu muitos comentários a apoiando e a criticando. A cantora diz que muita gente não compreendeu suas declarações. “Não generalizei. Desde o começo, minha carreira foi independente da grande indústria fonográfica. Nunca tive música em trilha de novela, por exemplo. Quando me referi à pobreza da MPB, falei da pobreza da produção musical em larga escala, que não valoriza o que a música tem de melhor. Tem um monte de coisas bonitas e legais, gente que está começando. Mas, infelizmente, muitos não compreenderam o que eu disse”, conclui.

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Corpo de baile foi capaz de “juntar” dois compositores que não se falam há mais de 20 anos. No livro A letra brasileira de Paulo César Pinheiro – Uma jornada musical!, a pesquisadora Conceição Campos explica a ruptura. Em 1991, em entrevista ao jornalista João Máximo, Guinga disse: “Cometi um erro ao acreditar que, sendo parceiro de um letrista consagrado, tudo aconteceria naturalmente. Mas não. Paulinho tinha a carreira dele e custei a perceber que precisava ter a minha própria. Ele era um parceiro com outra cabeça. Por exemplo, achava minhas músicas difíceis, herméticas, nada populares. Não acreditava nelas. É mais ou menos como ficar 21 anos num emprego e o patrão não te dar o mínimo valor. Um dia, você muda de emprego e novo patrão te acha o maior”.Chateado com essas declarações, Pinheiro considerou encerradas a amizade e a parceria. Entretanto, apesar de ex-amigos, um elogia o trabalho musical do outro. E ambos ficaram satisfeitos com o disco de Mônica Salmaso.

 Clássico instantâneo - Kiko Ferreira

 (Biscoito Fino/divulgação)

Quando Mônica Salmaso cita Zizi Possi e Nana Caymmi como referências, facilita o trabalho do ouvinte e dos resenhistas. Como Zizi, ela dialoga com os músicos, aprende com eles, participa do arranjo com um tipo de intimidade que antes era atribuído apenas a Alaíde Costa. Talvez, Rosa Passos. Por outro lado, quem identifica seu grave sem pressa, sua atitude quase solene na lida com melodias, harmonias e letras, pode se lembrar do clima do dueto de Nana Caymmi e Milton Nascimento em Sentinela – ao mesmo tempo sólido e místico, emocionado e etéreo, sangue e alma. Vísceras líricas expostas com elegância e densidade.

Não é difícil classificar seu 10º disco, Corpo de baile, como o melhor da carreira. Aqui o excepcional corpo de arranjadores, formado por Dori Caymmi, Nailor Proveta, Luca Raele, Nelson Ayres, Teco Cardoso (também produtor), Tiago Costa e Paulo Aragão, estrutura o instrumental para aproveitar o potencial e a maturidade da cantora. Os músicos seguem partituras e intenções com habilidade e paixão necessárias. Como elemento principal, a voz de Mônica alia técnica e disponibilidade para defender notas e palavras como fossem suas filhas prediletas e inseparáveis.

O repertório é, antes de tudo, revelador. São 14 canções compostas pela dupla Guinga e Paulo César Pinheiro entre as décadas de 1970 e 1980. O jovem Guinga, então na casa dos 20 anos, dividido entre a odontologia e a música, já revelava a veia atemporal que a maioria conhece a partir de seu disco de estreia, Simples e absurdo (1991), e da frutífera parceria com Aldir Blanc. Com exceção do clássico Bolero de Satã, que Elis Regina gravou no disco Essa mulher, em célebre dueto com Cauby Peixoto, o restante é conhecido de shows ou gravações pouco divulgadas. Cinco canções são inéditas – resultado do garimpo feito nas gavetas de antigos cassetes na casa de Pinheiro. Obras de quase juventude, mas com sustância de quem tem maior vivência.

Dono de um estilo clássico, que fez parte da crítica compará-lo a Tom Jobim e Sérgio Mendes e dizer que ele seria uma mistura de Cole Porter e Villa-Lobos, Guinga está bem representado nesta seleção com valsas (Nonsense, Corpo de baile), marcha (Rancho das sete cores), fado (Navegante), modinha (Sedutora), choro- canção (Fim dos tempos) e toada (Curimã).

Já as letras de Paulo César Pinheiro, um dos maiores da história recente da MPB, soam épicas e fazem justiça à sua experiência e habilidade técnica. Destaque para Fim dos tempos (“nossos rastros/ largam lastros/ soltam todos”), Bolero de Satã (“você me deixou como o fim da manhã”) e Nonsense (“acorda/ e no torpor se lança/ e no ar/ quer ver seu corpo/ que morre/ voar”). Pena que a dupla esteja separada.

O disco conta com participações preciosas, como o Quinteto Sujeito a Guincho, de clarinetas, e o acordeom de Toninho Ferragutti. Traz ainda Marlui Miranda, com longa tradição de música ligada aos índios. Ela participa da faixa Curimã contando uma história de pescaria dos suruís gapgires e aparece em foto com cabelo curto, à la Romeu, que contrasta com sua tradicional imagem de longa cabeleira.

CORPO DE BAILE
De Mônica Salmaso
Biscoito Fino
Preço sugerido: R$ 31,90

Uns caras legais

Uns caras legais
Paralamas do Sucesso completa 30 anos de carreira e lança CD e DVD gravados ao vivo. Álbum traz hits da carreira da banda carioca, com citações de Led Zeppelin e do Police

Mariana Peixoto
Estado de Minas: 15/08/2014


João Barone, Bi Ribeiro e Herbert Vianna mantêm a mesma formação da banda desde a estreia com Cinema mudo (Maurício Valladares/Divulgação)
João Barone, Bi Ribeiro e Herbert Vianna mantêm a mesma formação da banda desde a estreia com Cinema mudo

Dá para fazer diferente sendo o mesmo? Por certo que sim, como comprovam, mais uma vez, Herbert Vianna, João Barone e Bi Ribeiro. Os Paralamas do Sucesso – 30 anos, CD e DVD que registram a turnê comemorativa que a banda vem fazendo desde 2013, traz extenso material de toda a trajetória do grupo. Não há nada inédito, muitas das canções foram gravadas anteriormente em outros projetos ao vivo. Mesmo assim, há vigor na interpretação, o que por si só justifica o projeto.

São 28 canções no DVD, 10 a menos no CD. O show foi gravado em outubro de 2013, no Citibank Hall, no Rio. Ao contrário de outros projetos ao vivo dos Paralamas, este vem marcar o fim da turnê. “Tem gente que lança um DVD ao vivo no início, mas preferimos o contrário, até porque não vamos passar o resto da vida celebrando os 30 anos. Como o show está funcionando muito bem, vamos esticar um pouco mais a corda. A ideia é mantê-lo com um show-padrão dos Paralamas, sem o carimbo dos 30 anos. O Paul McCartney não faz isso com a turnê Out there?”, comenta Barone.

Ainda que a trajetória dos Paralamas tenha começado bem na virada da década de 1970 com a de 1980, a banda considera 1983 o ano-marco, por causa do lançamento do álbum de estreia, Cinema mudo. “Muita gente confunde, achando que é O passo do Lui (1984). Aproveitamos esse show então para voltar a tocar músicas que não tocávamos há muito, como Patrulha noturna e a própria Cinema mudo”, continua Barone.

Como todas as fases dos Paralamas estão registradas, há uma linha evolutiva que vai contando essa história. Um imenso telão no fundo do palco traz imagens da banda em edição rápida, acompanhada por uma jam instrumental (o chamado Vulcão dub), que serve como cartão de apresentações do show. Cada nova canção vem acompanhada com sua própria coleção de imagens.

“A montagem do repertório ocorreu de maneira muito harmônica. A ideia era experimentar sequências de músicas (que têm relação entre si). Os reggaes de um lado, rocks mais pesados do outro. Ao longo da turnê fizemos sutis mudanças no repertório, alguns arranjos diferentes. Tentamos fugir de qualquer coisa mais monótona”, acrescenta o baterista.

Entre sucessos como Quase um segundo, Meu erro, Lanterna dos afogados, Ela disse adeus, A novidade, Melô do marinheiro, Uma brasileira, entre várias outras, há algumas firulas. Uma citação de Whole lotta love, do Led Zeppelin, antecede a execução da roqueira O calibre; Vital e sua moto é emendada por Don’t stop so close to me e Every breath you take, do Police, uma das referências primeiras dos Paralamas. “A gravação foi feita da maneira mais fiel possível. Teve um ou outro erro, mas isso faz parte do realismo. Quando você erra, você geralmente se lembra do show. Fazer uma coisa impecável pode acabar ficando pasteurizada.”

Manter uma banda por três décadas e com a mesma formação não é para qualquer um. Há algum tempo os Paralamas se dão ao luxo de escolher bem os shows que vão fazer. De acordo com Barone, o número de apresentações mensais não passa de meia dúzia. “Se dependesse do Herbert, a gente faria um show por dia. Mas sabemos que uma das razões da longevidade da banda é controlar os shows. Temos que ser coerentes para não haver um desgaste maior que o necessário.” Entre os últimos shows desta turnê, a banda já está de olho no futuro. Os encontros entre os três Paralamas para trabalhar novas canções estão ocorrendo desde o início do ano. Quando houver uma boa coleção de músicas, gravam um novo álbum. Sem pressa, como manda a cartilha “paralâmica”.


 (Multishow/Reprodução)

TRABALHOS AO VIVO



. D (1987)
Quarto álbum da banda, foi gravado durante show da banda no Festival de Jazz em Montreux, na Suíça.


. Vamo batê lata (1995)
Álbum duplo, foi um sucesso de público – até então, o maior da banda – após o fracasso comercial do trabalho do ano anterior, Severino. Tinha quatro inéditas, incluindo Uma brasileira.


. Acústico (1999)
Gravado no Parque Lage, Rio, diferenciou-se dos projetos congêneres da época por trazer um repertório que enfatizava os lados B.


. Uns dias (2004)
Também duplo, o álbum reúne sucessos da banda, trouxe também uma série de convidados, como Edgard Scandurra, Dado Villa-Lobos, Roberto Frejat, Djavan, Nando Reis e Paulo Miklos.


. Ao vivo hoje (2006)
Registro da turnê do álbum lançado no ano anterior. Diferentemente dos trabalhos anteriores, esta gravação ao vivo ocorreu em estúdio, sem plateia.

. Rock in Rio 1985 (2007)
Trabalho que recupera a performance da banda em início de carreira, na primeira edição do Rock in Rio.

. Paralamas e Titãs juntos e ao vivo (2008)
Para marcar os 25 anos de carreira de cada uma das banda, foi realizada uma turnê conjunta. O registro foi feito na Marina da Glória, no Rio.

. Multishow ao vivo Brasil afora (2011)
Mais um registro da turnê de um álbum autoral (Brasil afora, de 2009, o mais recente trabalho de estúdio do grupo), o show conta com a participação de Zé Ramalho e Pitty.