sábado, 16 de agosto de 2014

Getúlio e as eleições - João Paulo

Estado de Minas: 16/08/2014 


O presidente Getúlio Vargas e seu guarda-costas, Gregório Fortunato: dois brasis em uma imagem (Arquivo EM)
O presidente Getúlio Vargas e seu guarda-costas, Gregório Fortunato: dois brasis em uma imagem


A publicação do terceiro e último volume de Getúlio (Companhia das Letras), do jornalista Lira Neto, merece atenção por vários motivos. O primeiro deles é o fato de completar, em alto nível, com direito a informações até então inéditas, a biografia do mais importante político brasileiro de todos os tempos. O biógrafo, no período que vai de 1945 a 1954 abarcado pelo terceiro tomo, traça um retrato vivo dos melhores e mais dramáticos momentos do homem e do estadista Getúlio Vargas.

O suicídio de Vargas, em 24 de agosto de 1954, ganha a perspectiva histórica de um político que várias vezes, como se acompanha no livro, teve em mente a ideia de sacrifício pessoal. Muito já se disse do suicídio do presidente, fato que há 60 anos é um marco na história brasileira. Teria adiado o golpe de 64 em 10 anos, rearticulado as forças populares e a oposição em momento de crise, além de estabelecer um padrão político, para alguns ainda vigente na vida nacional.

Ao sair da vida para entrar na história, Getúlio, de certa maneira, reescreveu sua trajetória, permanecendo como um mito. O grande esforço da biografia de Lira Neto foi exatamente dar dimensão histórica e humana ao personagem criado pelo imaginário nacional. O encerramento da trilogia deixa para o leitor elementos para debates que se mantêm na realidade brasileira. Não é um acaso que, quando foi lançado o segundo volume de Getúlio, a edição trouxesse na contracapa depoimentos de Fernando Henrique Cardoso e Lula. O primeiro se jactou de superar o varguismo, o segundo é visto como um de seus herdeiros. De uma forma ou de outra, Getúlio é uma presença.

O que o livro de Lira Neto em seus três volumes nos ensina é que, sob a capa do mito Getúlio Vargas existia um estadista seduzido pelo poder, mas com sentimento público, que soube responder às provocações de seu tempo, que foi capaz de idealizar um projeto para o país. Mas que não foi homem isento de contradições, chegando ao poder por meio de uma revolução, sendo eleito pelo voto, que apelou para a força de um golpe e de uma projeto autoritário para, novamente, ser eleito alguns anos depois. Por isso não há apenas uma herança varguista, que passaria de mão em mão, mas um patrimônio político dinâmico.

O suicídio, de alguma maneira, funcionou como uma atitude que por sua coragem moral destacou os avanços para relevar os momentos de atraso. A história de Getúlio, no período tratado pela extensa reportagem biográfica de Lira Neto, de 1882 a 1954, representa a trajetória pública do Brasil naquele longo e decisivo período de nossa formação, por meio da inflexão na vida de seu mais importante personagem. É o que garante o grande interesse nos momentos que põem fim à trajetória de Vargas e que ainda ecoam no presente.

Ontem e hoje O segundo aspecto de grande significado do terceiro volume da biografia de Vargas é exatamente esse: sua atualidade. O cenário de crise, os traços de conturbação social, a divisão da sociedade, os interesses em disputa, o presença do Estado, as acusações de corrupção, a emergência do moralismo, a inspiração partidária da imprensa, a discordância acerca do aumento do salário mínimo, a contestação dos direitos trabalhistas – tudo que de certa forma se liga aos momentos finais de Getúlio – são fatos que se repetem com matizes distintos no atual momento político-eleitoral brasileiro.

São problemas semelhantes, mas vividos em outro momento. E que trazem à tona o mesmo cenário de divisão que marca a história política brasileira. O que nos faz, com todas as distinções, herdeiros de questões que parecem insuperadas em nossa tradição política. São várias semelhanças em jogo: a questão do petróleo (que vai da defesa do monopólio aos novos modelos de atuação da iniciativa privada); a remessa de lucros (hoje traduzida no cenário de financeirização que privilegia os rentistas); as acusações de corrupção com acento nitidamente eleitoral; a recrudescência de certa imprensa fincada em propostas moralistas e ideológicas.

Um dos grandes pilares da crise que levou Getúlio Vargas ao suicídio foi o aumento do salário mínimo em 100%. Os empresários chiaram, acusaram o governo de contribuir para quebrar a indústria e, como reação, se aliaram aos setores militares descontentes. Com outro viés, mas bastante simbólico e rico em homologia, foi a declaração de Armínio Fraga, mentor econômico do PSDB, de que o salário mínimo cresceu muito e precisa ser contido. O mesmo argumento é sacado quando entra em cena qualquer negociação salarial, com os empresários jogando contra os direitos em nome de uma suposta “modernidade”. Não há nada na história da humanidade mais moderno que a ampliação de direitos. Mais ainda: que a criação de direitos.

Os debates em torno da eleição deste ano vão trazer de volta vários temas que têm âncora no período getulista. Não se trata de segui-lo ou romper com seu legado. Getúlio Vargas deixou uma herança em termos de projetos (nacionalismo, industrialização e proteção do trabalho), que respondia às demandas de sua época. Mas consagrou um estilo, centralizador, populista e autoritário, que não é viável com a democracia moderna. Há o conteúdo e a forma. Não é mais possível aceitar um em troca do outro. O varguismo está findo. Os problemas do país permanecem. Ler Getúlio é uma boa forma de lidar com os dois lados de nossos dilemas políticos.

Orelha

Estado de Minas: 16/08/2014 



O romancista Carlos Heitor Cony será homenageado na Felit
 (Ana Paula Migliari/Divulgação)
O romancista Carlos Heitor Cony será homenageado na Felit


Encontro de gerações

O escritor Carlos Heitor Cony é o homenageado na oitava edição do Festival de Literatura de São João del-Rei e Tiradentes (Felit), que será realizado entre os dias 3 e 6 de setembro, no Teatro Municipal de São João del-Rei e no Centro Cultural Yves Alves, em Tiradentes. Além de Cony, o Felit terá entre as atrações o escritor angolano José Eduardo Agualusa. Em sua oitava edição, o festival realiza um pré-evento, dia 2 de setembro, no câmpus Dom Bosco da Universidade Federal de São João del-Rei. O escritor Zuenir Ventura será sabatinado por estudantes dos cursos de jornalismo e de letras sobre a arte da escrita. Participam ainda da programação os autores Raphael Dracon, Carolina Munhóz, Cristovão Tezza e Leila Ferreira.

Inédito de Dupas

Desafios da sociedade contemporânea, de Gilberto Dupas, chega em breve às livrarias pela Editora Unesp. O livro reúne 35 artigos publicados na imprensa paulista, entre 1985 e 2009. Intelectual público, Gilberto Dupas (1943-2009) tem seus textos divididos em duas seções, “O ontem, o hoje” e “O amanhã”, com artigos que tratam da crítica do capitalismo, das relações internacionais, da globalização e dos impasses da sociedade contemporânea.

Novos talentos

A Editora Record está lançando livros com os vencedores do Prêmio Sesc de Literatura de 2014. Parafilias, de Alexandre Marques Rodrigues traz as histórias vencedoras da categoria contos. O autor nasceu em Santos, em 1979, e todas as suas narrativas têm forte componente erótico. Entre os romances, o premiado foi Enquanto Deus não está olhando, que marca a estreia de Débora Ferraz no gênero. A narrativa, de acordo com Eneida Maria de Souza, “convida a repensar sobre a solidão e o desamparo” e acerca da ausência de saída para os dramas humanos.

Sempre atual
 (AP Photo/Sothebys)


Oscar Wilde (foto) está de volta em dose dupla. Pela Tordesilhas, acaba de ser lançada nova edição de De profundis, com tradução de Cássio Arantes e posfácio de Munira H. Mutran, professora da USP e fundadora da Associação Brasileira de Estudos Irlandeses. Publicado originalmente cinco anos depois da morte do autor, De profundis é uma extensa carta escrita por Wilde durante sua estadia na prisão, endereçada a Bosie – apelido do amante –, que faz um relato da conturbada relação de amor e ódio entre os dois e apresenta uma profundo autoanálise de consciência, revelando uma faceta completamente diferente do Wilde extravagante conhecido pelo grande público. Pela Editora Landmark, em edição bilíngue, chega às livrarias a primeira versão da obra-prima do escritor, o romance O retrato de Dorian Gray. A tradução é de Doris Goettems.

O Brasil e a guerra

O mundo recorda os 100 anos da Primeira Guerra Mundial e um livro, que está sendo lançado pela Rocco, ajuda a entender o impacto do conflito na América Latina e, especialmente, no Brasil. Trata-se de Adeus à Europa – A América Latina e a Grande Guerra, de Olivier Compagnon, professor da Universidade de Sorbonne-Nouvelle. O autor mostra, por meio de fontes surpreendentes como canções, romances e manifestos, que a guerra mexeu como imaginário nacional e impactou a vida política do Brasil e Argentina, que deixaram a posição de neutralidade para apoiar os aliados. Além disso, há uma mudança de paradigma, com o fortalecimento do nacionalismo político na região, criando novo polo de identificação com os Estados Unidos.

Vida e morte

 (Jackson Romanelli/Divulgação)


Freio Betto (foto) está com dois novos títulos nas livrarias, a coletânea de textos Reinventar a vida (Vozes), que trata de temas como a amizade, o consumismo e o meio ambiente; e o infantil Começo, meio e fim (Rocco), que leva às crianças uma reflexão sobre a morte. Frei Betto, que está perto de completar 70 anos, está ainda com dois títulos no prelo, Oito vias para ser feliz e Um Deus muito humano. Com os novos volumes, ele chega à marca dos 60 livros publicados.

Lançamentos

Paula Pimenta lança versão em quadrinhos da série teen Fazendo meu filme. Hoje, às 15h, na Leitura Pátio Savassi (Av. do Contorno, 6.061, Funcionários).

Marcia Tiburi participa de debate e lança o livro Filosofia prática – Ética, vida cotidiana, vida virtual. Segunda-feira, às 19h30, na Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes. Promoção do Sempre um Papo.

O fotógrafo Gustavo Lacerda lança o fotolivro Albinos, terça-feira, às 19h30, no Multiespaço Oi Futuro, Av. Afonso Pena, 4.001, dentro do projeto Foto em Pauta.

Mulheres no poder - Valf

Mulheres no poder - Valf 

  Último aviso, álbum da artista alemã Franziska Becker, inaugura o selo Barricada, que terá linha editorial voltada para quadrinhos críticos e com pegada política




Estado de Minas: 16/08/2014 04:00

 (Boitempo/Reprodução)


Jardim do Éden. Em meio a uma vasta vegetação e animais de todos os tipos, o Criador, em tom grave, dá um ultimato. Caso os dois moradores do paraíso não passassem a se comportar direito, sofreriam as consequências de seus atos e seriam punidos. Mas nada de maçã e anjos com espadas flamejantes expulsando-os do paraíso. Como penalidade, um desses moradores seria transformado em homem. Sim. Duas mulheres, Ada e Eva, recebem a reprimenda de uma figura divina, também do sexo feminino.

Último aviso, título do recém-lançado álbum de cartuns e histórias em quadrinhos da alemã Franziska Becker, curiosamente também é o nome desse cartum que serve como capa da edição. É um irônico cartão de visitas da artista, que em suas mais de 120 páginas, percorre com seu olhar feminino/feminista as mais variadas facetas da sociedade e extrai delas uma visão ácida, crítica e bem-humorada.

Nascida na cidade alemã de Mannheim, em 1949, ela foi criada em uma família liberal. Começou seus estudos em um curso de egiptologia. Porém, a pressão familiar a fez optar por uma carreira mais estável e totalmente diferente, tendo concluído o curso de formação técnica em assistência médica. Por fim, acabou entrando para a academia de artes. Politizada, uniu-se a movimentos feministas no começo dos anos 1970.

Em uma das reuniões dos grupos de que participava, conheceu a editora Alice Schwarzer, que viria a fundar algum tempo depois a revista Emma, onde começaria a colaborar desde o lançamento da primeira edição. O nome da revista é uma espécie de redução da palavra emancipation, ou, em tradução livre, liberação. A busca desta emancipação ocupa grande parte do seu trabalho. Seus cartuns, sátiras a convenções sociais e situações do cotidiano ganham força no humor e na crítica quando confrontam o limite e o choque entre os universos masculino e feminino.

Critica a vaidade e a descabida busca do corpo perfeito em uma estória em quadrinhos, numa sequência em que a protagonista, começando ainda adolescente e indo até a idade adulta, ano após ano, continuamente inconformada com a aparência, tenta sempre uma mudança, buscando a grande novidade cosmética e estética revolucionária disponível na época. Cada quadrinho desta procura por aceitação vem sempre pontuado pelo valor da operação ou tratamento envolvido. E, no final, uma busca que acaba se mostrando em vão.

Em outra estória, uma gama variada de ex-namorados problemáticos aparece em uma crônica sobre as desilusões amorosas de uma amiga e traz uma discussão sobre a tentativa do encontro do par perfeito (ou quem sabe, menos imperfeito) e os limites da amizade. Se, por um lado, como já falado, a busca da perfeição física se torna um tormento e é alvo de crítica, por outro o desleixo masculino com a forma é igualmente ironizado.

Em um cartum, duas mulheres conversam sobre uma onda de calor e como ficariam felizes se ela acabasse. Não pela temperatura. Na rua, vários homens fora de forma andam de bermuda, camiseta ou mesmo sem camisa. Despreocupados. Até mesmo com a aparência. Mercado de trabalho, religião, consumismo, tecnologia, criação dos filhos e seus pais de primeira viagem. Todos esses temas são debatidos, passam pelo olhar atento e pelo crivo da artista e ganham o merecido comentário de sua pena.

Está, entretanto, na inversão de papéis, sua melhor crítica. Com maestria, Franziska confronta nossa percepção, deixando uma espécie de riso nervoso no final. Recoloca mulheres em circunstâncias que, normalmente sendo protagonizadas por homens, seriam questões densas, sem a menor abertura para o humor. E assim, em uma espécie de espelho invertido, não só expõe como amplifica o que é engraçado, absurdo ou mesmo patético nas situações.

Em uma estória em quadrinhos, dois enfermeiros conversam. Um deles alerta o outro para tomar cuidado com as possíveis investidas de uma médica e não aceitar carona em seu Porsche, correndo assim o risco de se tornar mais uma de suas inúmeras conquistas. Depois de assediar pacientes e enfermeiros, a médica pede para que um outro médico mais novo a encontre durante o turno da noite em seu escritório, com o pretexto de discutirem questões que poderiam alavancar sua carreira dentro do hospital. Ao fundo, um enfermeiro, aos prantos, desabafa com outro companheiro, contando a ele que a médica havia prometido divorciar-se. E quando um paciente enfurecido ataca a médica culpando-a por um erro de procedimento em uma operação, o comentário de um colega de profissão é que aquele rompante de fúria se devia a algum possível problema hormonal.

A premiada autora alemã (recebeu em 1988 o prêmio Max und Moritz de melhor cartunista da Alemanha e em 2012, pelo conjunto de sua obra, o Prêmio Göttinger), depois de mais de 20 álbuns, faz sua estreia no mercado nacional, sendo lançada pelo recém-criado selo de quadrinhos Barricada, da Editora Boitempo. Uma excelente oportunidade para conhecer o trabalho da artista e sua peculiar visão, tanto sobre a sociedade quanto a fragilidade de ambos os lados da guerra dos sexos.

ÚLTIMO AVISO
. De Franziska Becker
. Editora Barricada, 126 páginas

Alice e os átomos - João Paulo

O jornalista Bernardo Kucinski estreou maduro na ficção com trama política e agora enfrenta o desafio do romance policial ambientado na universidade


João Paulo
Estado de Minas: 16/08/2014


Para B. Kucinski, a narrativa de suspense não deixa de ser um instrumento de crítica social (Carolina Ribeiro/Divulgação)

Para B. Kucinski, a narrativa de suspense não deixa de ser um instrumento de crítica social

Bernardo Kucinski sempre teve o poder de incomodar, no bom sentido, exigindo dos outros que fossem mais sérios com seus propósitos. No jornalismo, foi autor de livros importantes sobre jornalismo revolucionário, alternativo e econômico e assessor do presidente Lula no primeiro mandato. Formado em física, trabalhou na imprensa brasileira e internacional.

Levou suas exigências para a universidade, território onde percorreu pacientemente todas as vias. Um belo dia, já na casa dos 70, percebeu que a literatura poderia trazer a liberdade sem abrir mão dos compromissos com o mundo real. Estreou com o romance K, que teve acolhida surpreendente do público e da crítica para uma estreia, e, em seguida, publicou o volume de contos Você vai voltar para mim.

Os dois livros tratam do período da ditadura militar, sendo que o romance leva para a ficção a experiência pessoal do autor, que teve uma irmã, Ana Rosa Kucinski, sequestrada e morta pela ditadura. Professora da USP, seu corpo nunca foi encontrado. Bernardo aponta o dedo para a covardia da instituição, que não a defendeu. Acadêmicos e academia não saem bem de sua avaliação. Ele esperava a hora de voltar à carga.

Os primeiros livros – a coletânea de contos e o romance – têm ainda em comum o sentido fragmentário da narrativa. Em K, o foco muda a cada capítulo, gerando um discurso plural. Como se várias narrativas confluíssem para tentar aclarar um mistério anunciado. A força da circunstância e o teor dos acontecimentos, afinal de contas, são mais importantes que uma possível busca de coesão. Em primeiro lugar, há algo a ser dito.

Bernardo Kucinski volta agora com um romance policial, Alice, que sai pela Rocco. Estão de volta algumas características das primeiras ficções, sobretudo o senso crítico em relação às instituições sociais, da universidade à polícia. No entanto, pelas características próprias da literatura policial, a estrutura é mais firme, a narrativa precisa ao mesmo tempo avançar e deixar mistérios, os personagens devem ser desenhados com mais cuidado.

Alice é um típico livro policial clássico. O leitor fica sabendo do crime logo no começo e é desafiado a acompanhar um investigador na busca do motivo e do modo como o assassinato foi cometido. Além disso, o meio no qual o crime se deu, um laboratório de física da USP, ganha uma importância decisiva. O autor usa toda a sua experiência com a academia para explicar tanto a vaidade humana como as diatribes burocráticas que cercam a vida dos cientistas e professores.

Mas trata-se de um livro de crime. B. Kucinski conhece bem a tradição em que se meteu: a todo momento cita clássicos da literatura policial e seus autores canônicos, às vezes para esclarecer o leitor sobre os rumos da investigação, outras vezes para confundi-lo. São nomeados, entre outros, Georges Simenon, Agatha Christie, Nero Wolfe e Conan Doyle. Um recurso de metalinguagem que poderia ser dispensado sem afetar a narrativa. Afinal, a grande ambição de um romancista policial deve ser criar uma voz própria, e não emular o cânone.

Física Alice é um romance com muitos méritos. A história do assassinato de uma jovem cientista, de origem japonesa, bonita e solitária, que é objeto de inveja de colegas menos talentosos, tem elementos de interesse. Além do mistério do assassinato, que vai se tornando cada vez mais complexo com a entrada de informações científicas – tratadas com clareza –, a crônica da vida universitária é bem conduzida.

O leitor aprende, de forma quase didática, como são construídas carreiras, como se dá a disputa de poder, como as publicações se tornam um caminho artificial para alavancar recursos para laboratórios e pesquisas, de que forma os servidores se aproveitam das regras para dirigir licitações, como o assédio moral e sexual dá as cartas nas relações. A comparação entre a universidade e as conhecidas fragilidades da polícia é pedagógica. Por vezes, o autor se torna didático demais, o que tira interesse da trama para dar mais peso à circunstância.

Mas Kucinski lida bem com todas as variáveis, sobretudo com os personagens, dos centrais aos secundários, que são bem descritos e ajudam a dar veracidade ao quebra-cabeça que vai sendo montado. São eles: o delegado Magno, um policial humanista com seus dramas de consciência; o professor Zimmerwald, um cientista banido pelos militares, que mescla senso ético e estético (inspirado em Mario Schenberg); o orientando Rogério, com sua devoção ingênua. E ainda o professor Akira, com arraigados valores morais nipônicos; o administrador carreirista Bruno Figueiroa; e, finalmente, a protagonista, a infeliz Alice Nakamura, que é a sombra de uma vida promissora que conquista o leitor mesmo começando a narrativa morta em seu laboratório, com o sangue escorrendo até formar uma poça no chão.

O autor fez bem a passagem do jornalismo para a literatura. Agora, parece preocupado em expandir seus instrumentos expressivos, enfrentando um gênero difícil (as citações dos clássicos mostram que ele tem ambições altas) e feito para profissionais. Mesmo com algumas escorregadas e explicações em excesso, Alice segura o interesse até o fim e dá ao leitor a sensação de que aprendeu algo. O que não deixa de ser uma reação comum em narrativas policiais.

O melhor fica mesmo para a fusão equilibrada de diversão e crítica social, tendo mais uma vez a universidade como alvo. O livro é uma sociologia selvagem (como há psicanálise selvagem) da academia. Nisso, K e Alice se aproximam: o pior do homem não escolhe lugar para se manifestar. Talvez apenas os átomos e as entidades matemáticas, como conceitos e idealidades, sejam isentos do comezinho interesse humano e suas derivações. Mas os que os manipulam, ficamos sabendo com Alice, são gente como a gente.

ALICE

• De B. Kucinski
• Editora Rocco
• 192 páginas, R$ 27,50