domingo, 17 de agosto de 2014

MARTHA MEDEIROS - O invariável

Zero Hora 17/08/2014

Outro dia escutei uma mulher separada decretar o fim da mesmice: resolveu se esbaldar na vida. Disse ela que não queria mais saber de relação fixa e que saía quase todas as noites a fim de se divertir apenas. Tem conhecido muitos caras diferentes, com alguns chega às vias de fato, e é isso aí, adeus à monotonia.

Mas o olhar dela não soltava faíscas, ao contrário, parecia bem opaco.

Naquele momento, lembrei uma frase do blog de um amigo paulista, o Eduardo Haak. Ele recentemente escreveu: “Nada é mais invariável do que as supostas variedades”. De primeira, quando li, me bateu uma estranheza, fiquei na dúvida se ele estava sendo irônico ou o quê, até que, ouvindo a moça baladeira contar de seus recordes de revezamento, me dei conta de que a situação dela era ilustrativa: toda variação que se torna sistemática também é mais do mesmo.

Ou seja, nada impede que a busca de um amor a cada sexta-feira se torne uma situação igualmente sujeita ao tédio. Virar refém da variedade pode ser uma atitude tão rotineira quanto dedicar-se a uma única pessoa por anos – arrisco até dizer que, ao dedicar-se a uma única pessoa, a chance de se ter uma vida mais dinâmica dispara.

Por quantas fases passa uma relação? O frio na barriga inicial, a paixão febril, as surpresas a cada nova revelação, as descobertas feitas a dois, a aproximação dos corpos, a intimidade cada vez maior, os amigos e a família agregando-se, cada viagem uma lua de mel, a troca de confidências, as diferenças aparecendo, os acordos feitos para manter a coisa funcionando, ajustes necessários, a paixão virando amor, a segurança da companhia um do outro, as fotografias se acumulando, planos sendo feitos a longo prazo, a primeira briga, as saudades, a consciência de que aquela pessoa é essencial, o reatamento, as juras, os cuidados para que não desande nunca mais, todos os cinemas, cafés da manhã, leituras compartilhadas, risadas, os comentários de fim de festa, as piadas internas, a confiança, os cafunés, os pedidos de conselho, a hora de ser amigo, a hora de ser bandido, o sexo evoluindo, o amor se fortalecendo, a passagem do tempo trazendo novos desafios, o orgulho pelo que está sendo construído, os estouros, os gritos, os beijos de novo... ufa, alguém aí me alcança um copo d’água?

Amar não é para amadores, e quando a relação é honesta, sólida e os protagonistas têm algum tutano, duvido que o enfado dê as caras.

É a variedade de parceiros que evita o aborrecimento? Nunca funcionou comigo. Nem no amor, nem fora dele. A alucinada atualização de notícias, a velocidade das redes sociais, os dias pulsando em ritmo supersônico, tudo o que não permite foco e entrega, hoje em dia, só me causa bocejos. Aprofundar-se é que é a verdadeira vertigem.

TeVê

TV paga

Estado de Minas: 17/08/2014


 (Roberto Braga/Divulgação )

Memória Fernando Faro recebe a cantora carioca Cláudya em mais um programa Ensaio, hoje, às 23h, na Cultura. A convidada relembra de cara seu maior sucesso, Jesus Cristo, de Roberto e Erasmo Carlos, e conta casos do auge da bossa nova e da parceria com o japonês Sadao Watanabe. Para fechar, outro grande sucesso: o tema da ópera Evita.

Clássicos Dois mineiros participam da segunda eliminatória do programa Prelúdio, às 12h, na Cultura: o violista Iberê Carvalho, de 21 anos, e o regente Neylson Crepaldi, de 27. Os outros dois concorrentes são a trompista Tayanne Selpulveda, de 21 anos, e o violinista Guido Sant’Anna, de apenas 9 anos.

Documento O NatGeo anuncia para hoje, às 22h45, o documentário Os monstros de Hitler, revelando detalhes dos planos nazistas da conquista militar dos países europeus. Goering e Himmler empregaram alguns dos melhores cientistas da Alemanha para lançar um ambicioso programa para mudar o curso da própria natureza.

De olho na telinha

Simone Castro


Ângela Mahler (Patrícia Pillar) e Carlos Braga (Tony Ramos): adoráveis inimigos (Estevam Avellar/TV Globo )
Ângela Mahler (Patrícia Pillar) e Carlos Braga (Tony Ramos): adoráveis inimigos
Suspense envolvente

O rebu (Globo) entra na reta final. Em breve, o telespectador ficará sabendo quem é o assassino que pôs fim à vida do ousado e ambicioso Bruno, personagem de Daniel de Oliveira, que apareceu morto, logo no primeiro capítulo, na piscina da mansão de uma megaempresária, durante uma festa luxuosa. Ela é Ângela Mahler, interpretada por Patrícia Pillar, que tem uma relação de cão e gato com o sócio e desafeto Carlos, do grande Tony Ramos.

Só com esse trio já se tem uma teia intrincada. Mistério e suspense dobram quando a ele se juntam um punhado de outros personagens, muitos com os motivos para praticar o ato insano. Mas, é entre Ângela e Carlos que se estabelece o fio condutor que permeia todo o remake da obra original de Bráulio Pedroso, exibida em 1974, agora com livre adaptação de George Moura, numa direção primorosa de José Luiz Villamarim. A série é nervosa, mantém uma tensão do começo ao fim dos capítulos e envolve completamente o telespectador.

Não, a narrativa não é para qualquer telespectador e os mais apressados talvez já tenham desistido faz tempo. Além do horário ingrato – vai ao ar às 23h – que pode afastar grande parte da audiência, o vaivém com muitos flashbacks e o ritmo ágil, à semelhança de séries americanas, requerem atenção redobrada. Do contrário, pode-se perder o fio da meada e metade da graça do programa. Afinal, não se trata apenas de decifrar o "quem matou?". Em um trabalho de muita qualidade, são muitas as cartas na mesa.

Além da trama instigante, com uma base poderosa que é a história criada por Bráulio Pedroso, O rebu tem um elenco precioso, formado por gente talentosa, do tipo que arregaça as mangas e faz um salto sem rede porque também amparada por personagens brilhantes. A empresária Ângela, dissimulada e misteriosa; Carlos, o empresário canalha e capaz de tudo; Bruno, um jovem ambicioso e cheio de manobras; Duda (Sophie Charlotte), socialite com dramas existenciais; Gilda (Cássia Kis Magro), advogada que dá nó em pingo d'água, mas foi a nocaute com a paixão pelo belo Bruno.

E quantos nomes mais? Oswaldo (Júlio Andrade), com sua loucura; Alain (Jesuíno Barbosa) e sua dubiedade; Lídia (Bel Kowarick, grata surpresa); Roberta (Mariana Lima); Maria Angélica (Camila Morgado); Vic Garcez (Vera Holtz, impagável); Rosa (Dira Paes, sempre correta); Camila (Maria Flor); Bernardo (José de Abreu); Severino (Cláudio Jaborandy); Pierre (Jean Pierre Noher) e Pedroso, o galã Marcos Palmeira, que foi logo lançando charme para Ângela na mesma intensidade de sua linha de investigação. O rebuliço está armado e suas consequências vão explodir a cada novo episódio que ainda vem por aí. Aproveite!

PLATEIA

VIVA
- Quadro "Superchef celebridades", do Mais você (Globo).

VAIA - Letícia Birkheuer, como a jornalista Érica, em Império (Globo).


Caras & Bocas
Simone Castro
simone.castro@uai.com.br

 (João Cotta/Globo  )
Mente psicopata

Dupla identidade (Globo), nova série de Glória Perez com estreia prevista para setembro, vai mostrar o universo oculto de psicopatas. O ator Bruno Gagliasso (foto) viverá o serial killer Edu, um homem acima de qualquer suspeita. No elenco estão também Débora Falabella, que será Ray, uma jovem batalhadora que se envolverá com Edu; e Luana Piovani, no papel de Vera, uma policial e psicóloga forense que se dedica a desvendar a mente de assassinos. O diretor teatral Aderbal Freire Filho vai interpretar o senador Oto. A atração conta ainda com Marisa Orth (Sílvia), Marcello Novaes (Dias), Paulo Tiefenthaler (Nelson) e Cris Nicolotti (Stela). Glória Perez explicou que para criar o personagem de Bruno fez um levantamento de assassinos seriais americanos. A produção, que será exibida nas noites de sexta-feira, terá 13 episódios. Também está em fase de produção um webdocumentário sobre a série para o Gshow, portal de entretenimento da Globo. Pela primeira vez o conteúdo exclusivo terá abordagem documental para destrinchar o tema retratado na telinha. Os episódios vão narrar casos reais e mostrar o trabalho de composição do elenco, a rotina dos profissionais que atuam nas linhas de investigação e a evolução da medicina e da psicologia no tratamento dos distúrbios de personalidade. Tudo recheado com entrevistas com a autora, o elenco, especialistas e consultores, como a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa e a psicóloga forense Ilana Casoy.

SANTANA DO RIACHO É O
DESTINO DO VIAÇÃO CIPÓ


Neste domingo, às 10h, na Alterosa, a Viação Cipó vai até Serra do Cipó, para mostrar a bela Santana do Riacho. O telespectador confere a tradicional Fazenda Cipó, a bela Lapinha da Serra, uma urna que esconde segredos eleitorais e uma cavalgada, além da música do quilombo e os rios da região.

FERNANDA SOUZA FARÁ
ENTREVISTAS EM REALITY


A atriz Fernanda Souza foi escalada para substituir Miá Mello como repórter do The voice Brasil (Globo). Aualmente Miá está envolvida com os ensaios da peça Meu passado me condena, baseada na série homônima do Multishow (TV paga) e na sequência participará de mais um filme.

PROTAGONISTA CAFETINA
AINDA NÃO FOI DEFINIDA


A microssérie baseada na vida da cafetina Eny Cezarino, batizada de Dama da noite e que será produzida pela Globo, foi esticada em mais um capítulo. A previsão era de quatro. Os autores Walther Negrão e Suzana Pires voltaram ao projeto para criar um novo episódio. As atrizes Alinne Moraes e Bárbara Paz estão cotadas para protagonizar a atração.

ATRIZ E NOVELISTA VÃO
FORMAR NOVA PARCERIA


Lícia Manzo prepara nova trama para as 18h, na Globo. No mesmo horário ela escreveu a ótima A vida da gente. E voltará a trabalhar com Ana Beatriz Nogueira, que fez uma mãe complicada na trama passada. Recentemente, Ana fez o papel de Selma, na novela Em família. Em Sete vidas viverá uma professora da rede pública, mãe solteira de um jovem, que mora na periferia de Belo Horizonte.

SBT E BAND CONCORREM
COM ATRAÇÃO CULINÁRIA


Sob pressão, versão brasileira do reality show culinário Hell’s kitchen, vai ao ar em outubro no SBT/Alterosa, e não em setembro como anunciado anteriormente. A atração deve competir com Master chef, que segue a mesma linha, apresentada por Ana Paula Padrão na Band.

PEDIDOS DE CASAMENTOS
AGITAM PROGRAMA da ELIANA

 (Artur Igrecias/SBT)

E edição de hoje do quadro “Quer casar comigo?”, do Programa Eliana, promete. A emoção deve rolar solta quando três garotas forem surpreendidas com pedidos de casamento em locais inesperados, como uma roda gigante, um supermercado e a plateia da atração. Nesse caso, a cena contará com a participação da dupla Marco & Mário. O clima de romance continua no quadro “Namoro com Diego”, que apresenta as oito garotas selecionadas pelo rapaz no domingo anterior. Elas passaram por diversas provas para que ele ficasse com apenas três felizardas. As moças farão uma viagem com o pretendente na próxima semana. Daí sairá a decisão, com o anúncio da escolhida. Confira às 15h, no SBT/Alterosa.

EM DIA COM A PSICANáLISE » Um encontro interessante‏

EM DIA COM A PSICANáLISE » Um encontro interessante
A desafiadora complexidade da vida convoca a psicanálise a se confrontar com dilemas, provocações e impasses 
 
Regina Teixeira da Costa
Publicação: 17/08/2014




O trauma revisitado será o tema da 32ª Jornada do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais. Essa foi a questão que norteou todo o ano de estudos e os resultados serão apresentados aos interessados durante o encontro.

Desde o século 19, o trauma é motivo de pesquisa e estudos. Sigmund Freud já se interessava por ele e, em busca de aprofundar seu conhecimento, estagiou com o renomado professor Jean-Martin Charcot no famoso Hospital da Salpêtrière, momento em que histeria e trauma estavam articulados.

Do interesse inicial, Freud traçou um caminho, partindo da suposta sedução da criança pelo pai até a constatação da existência da realidade psíquica e da fantasia. Isso apontava para o fato de o trauma ser uma questão de estrutura, estava presente no ser humano.

Depois da realidade factual da sedução ocupar papel determinante como causa da neurose e de ser relegada ao segundo plano, quando a fantasia a substituiu como fator central etiológico, o surgimento das neuroses traumáticas causadas pelo advento da Primeira Guerra Mundial, houve um afastamento da questão da sexualidade, tema até então central na teoria do trauma.

Esse fato favoreceu uma mudança que apontava para a importância do contingencial na vida das pessoas. Seres traumatizados por excelência, somos também assujeitados aos acontecimentos da vida, ao acidental, ao traumático de experiências desorganizadoras. Encontro com um real que pode ser avassalador, ou não.

O trauma volta hoje à tona, acenando para um lugar de destaque. Não se passa uma semana sem que alguém próximo tenha sofrido algum tipo de acidente traumático (assaltos, roubos, sequestros relâmpagos, acidentes de trânsito, etc.).

A violência não é um fato novo, as grandes guerras o demonstram, mas hoje ela é disseminada nas ruas em qualquer lugar, contra qualquer um, e atinge níveis alarmantes, com o agravante de que todas as estratégias para contê-la se mostram insuficientes.

A modernidade está mais exposta ao traumático, pois nem toda a racionalização cartesiana pode evitar restos, ambiguidades inclassificáveis e os afetos. O homem racional da modernidade não sabe lidar com o que sobra dessa sua tarefa classificatória.

Segundo Luiz Cláudio Figueiredo, “podemos reconhecer no traumático a figura exemplar da paixão; o sujeito é repentinamente apassivado pelo impacto de um objeto cujo dinamismo excede em muito a sua capacidade de enfrentamento e domínio (prático ou simbólico); no trauma, a vontade do sujeito é submetida à sua sensibilidade, aos seus afetos; se a linguagem dos afetos padece sempre da equivocidade, para falar o trauma não há, rigorosamente, linguagem alguma disponível”.

O afeto (este quantum da pulsão que busca representação) não tem lugar na modernidade cartesiana, será sempre da ordem do ambíguo e do contingente e, portanto, passível de destino traumático.

A crescente e desafiadora complexidade da vida contemporânea convoca a psicanálise a se confrontar com dilemas, provocações e impasses que se apresentam em cenários variados – desde as ruas de nossas cidades até a cobertura jornalística diária e as redes digitais disponíveis na internet –, para além dos limites e das possibilidades dos nossos consultórios e instituições.

Ao escolher o trauma psíquico como tema dessa jornada, além da bem-vinda revisão teórica, há a proposta de que sejam revisitadas, por meio do olhar do nosso tempo, quando é preciso entender e atender à clínica contemporânea, e nesse viés buscar alternativas de sobrevivência ao trauma nosso de cada dia.

Com certeza, um encontro muito proveitoso, com as presenças de Joel Birman e Ana Maria Rudge, ambos psicanalistas e pesquisadores do tema, além dos trabalhos dos colegas que se debruçaram sobre o tema. O Círculo Psicanalítico de Minas Gerais convida a todos para os debates.

32ª Jornada do Círculo Psicanalítico
Dias 28 e 29, no Centro de Conferências do Hospital Mater Dei. Informações: (31) 3223-6115 e 3287-1170;
e-mail cpmg@cpmg.org.br; site www.cpmg.org.br.  

Quero Mais!

Trailers aguçam a curiosidade para lançamentos no cinema e batem recorde na internet. Cenas de poucos minutos de 50 tons de cinza colocaram o livro novamente nas vitrines


Mariana Peixoto
Estado de Minas: 17/08/2014

50 tons de 
cinza (2015)
Seis meses antes de o filme chegar às salas, o trailer foi visto na internet mais de 50 milhões de vezes  (Reprodução internet)
50 tons de cinza (2015) Seis meses antes de o filme chegar às salas, o trailer foi visto na internet mais de 50 milhões de vezes

Em pleno agosto, não é nada precipitado dizer que o vídeo mais assistido de 2014 já foi lançado na internet. Impressionantes 53 milhões é o número de visualizações do trailer de 50 tons de cinza, a adaptação cinematográfica do romance açucarado pornô que fez a britânica E.L. James se tornar o maior fenômeno editorial deste início de década. No Brasil, a repercussão daqueles dois minutos e 20 segundos foi tanta que o livro, que havia deixado a lista de best-sellers há alguns meses, voltou a vender que nem pão quente. Como o longa-metragem só estreia em fevereiro, outros novos trailers deverão vir a público, aumentando a curiosidade em torno do longa. É justamente essa a função do filminho curto feito para divulgação.

“Não existe uma receita de bolo, mas a premissa básica de um bom trailer é não revelar tudo. Você tem que fazer surpresa de alguns pontos dramáticos e encontrar o que o longa tem de mais atraente, seja elenco, trama ou efeitos especiais”, afirma Marcos Horácio Azevedo, da Tatuí Filmes, uma das poucas empresas brasileiras dedicadas à produção de trailers, teasers (vídeos com no máximo 30 segundos), spots (comerciais) e virais (produzidos exclusivamente para a internet). A Tatuí assinou os trailers dos longas nacionais Alemão, Getúlio, O tempo e o vento e Serra Pelada, entre outros.

Ao assistir ao trailer de 50 tons..., dá para perceber os pontos que Azevedo destaca. O sucesso do best-seller se deve principalmente a altas doses de sadomasoquismo dos dois jovens – o que é explorado, mas com cortes rápidos, na parte final do filmete. Ou seja, o espectador tem acesso a uma pequena dose do que o longa promete. A internet só fez crescer a veiculação desses vídeos, que, segundo Azevedo, são o produto audiovisual mais visto nas redes virtuais.

Mercados “Trailer é também material fundamental para divulgar uma produção”, acrescenta Bruno Wainer, da Downtown Filmes. Ainda que o mercado brasileiro seja muito menor do que o norte-americano – nos EUA, há ao menos 40 trailer houses (empresas especializadas no produto); no Brasil, atuam apenas a Tatuí e a Movietrailer –, essa mídia é tão importante aqui quanto lá.

“O trailer foi fundamental para que Alemão, um filme com orçamento menor, vendesse quase 1 milhão de ingressos”, informa Wainer, que distribuiu o longa-metragem de José Eduardo Belmonte. O diretor deve ficar fora da criação do material de divulgação. “É impossível o cineasta fazer um bom trailer de seu próprio filme”, garante Wainer.

A Tatuí assinou o material de Alemão. “A gente deve valorizar o que um filme tem de bom. Isso, de certa forma, implica em desviar de alguns obstáculos. Alemão é um longa claustrofóbico (quase toda a ação ocorre no porão de uma pizzaria no morro). Tive a preocupação de manter a tensão, mas dando uma arejada”, explica Marcos Horácio Azevedo. Ou seja: boa parte das poucas cenas externas aparece no trailer, tirando um pouco do ambiente fechado em que a trama se passa.

Para Wainer, tudo depende da maneira como o distribuidor pretende comercializar seu filme. “Se você quer vendê-lo como uma comédia, pede que o trailer tenha mais piadas, mesmo que elas sejam poucas no roteiro. O mesmo ocorre com um filme de ação.”

Legião Karen Levy, da Movietrailer, assinou o material de divulgação de Minha mãe é uma peça, Não pare na pista, O lobo atrás da porta, Cine Holliúdy, Cilada.com e Faroeste caboclo, este um dos trailers mais assistidos da história do cinema nacional – tem 3,4 milhões de visualizações no YouTube. A música da banda Legião Urbana aparece na segunda metade do trailer – no filme, a gravação original só é ouvida quando os créditos aparecem.

“Não há regra, quem decide o que mostrar é o distribuidor e o produtor. Mas todos os nossos trailers têm roteiro, chamamos os roteiristas de acordo com o tipo do filme (autoral, documentário, blockbuster).” Para Karen, esse mercado, aos poucos, passou a ser valorizado no país. “Estão começando a comprar músicas especialmente para o trailer e filmando cenas específicas para divulgação”, explica.


Moscou (2009)
Avesso a trailers, Eduardo Coutinho se surpreendeu com o resultado do material de divulgação do documentário que ele rodou com o Grupo Galpão  (Videofilmes/divulgação
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Moscou (2009) Avesso a trailers, Eduardo Coutinho se surpreendeu com o resultado do material de divulgação do documentário que ele rodou com o Grupo Galpão

As empresas brasileiras especializadas em trailers trabalham, em grande parte, com a produção nacional. Os blockbusters internacionais já chegam com o material de divulgação pronto, embora haja adaptações. “Nem sempre o que é bom para o mercado europeu é bom para o Brasil. Às vezes, algumas cenas não são engraçadas para o nosso público e pedimos para trocá-las. Ou aquilo divertido no Brasil pode ser ofensivo em outro país”, explica César Pereira da Silva, diretor-geral da Paramount Pictures Brasil. A quantidade de produtos de divulgação de cada filme vai depender de seu orçamento.

De acordo com o executivo da Paramount, blockbusters geralmente têm dois trailers e um teaser, enquanto filmes menores têm apenas um trailer. Com a digitalização das salas de cinema, eles são distribuídos em pen drives. “No passado, produzíamos de 300 a dois mil trailers de um único filme”, acrescenta Pereira da Silva.

PROPAGANDA Ainda que seja produto criado para a divulgação de um filme, há como enxergar o trailer sob um outro ângulo. “Nada é cinema, mas mercado: propaganda, publicidade, venda de produto. É duro, mas é simples assim. No entanto, não deixa de ser um trabalho extremamente artístico”, afirma Jordana Berg, montadora reconhecida principalmente no meio documental – trabalhou intensamente com Eduardo Coutinho – e que atua na criação de trailers.

A partir de Peões (2004), Jordana assinou trailers de todos os longas do documentarista, que lhe delegava completamente a função. “Coutinho não participava da montagem dos trailers. Achava aquilo além da compreensão dele. Perto do final, eu mostrava o que tinha proposto, ele fazia um muxoxo, duas ou três sugestões e pronto. Raramente ele se encantava, como quando mostrei o trailer de Moscou, que começava com um anjo subindo uma escada e terminava com um tiro. Um pouco nonsense, como o próprio filme. Posso dizer que ele curtiu”, revela Jordana. 


Alemão (2014)
O trailer do policial de José Eduardo Belmonte não carregou no 
clima claustrofóbico do filme, garantindo sucesso à produção (Páprica Filmes/divulgação
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Alemão (2014) O trailer do policial de José Eduardo Belmonte não carregou no clima claustrofóbico do filme, garantindo sucesso à produção

Cartilha do trailer

Um trailer dura de 1 minuto e 30 segundos
a 2 minutos e 30 segundos; um teaser, de 15 a 30 segundos
Nos cinemas, um trailer geralmente chega oito semanas antes da estreia do filme; o teaser antecipa o trailer
À medida que se aproxima o lançamento do filme, o número de exibições do trailer aumenta nas salas de cinema
Trailers de filmes brasileiros costumam ter, em média, 500 mil visualizações na internet
Blockbusters têm dois trailers; filmes de orçamento mediano, apenas um
Assim como os filmes, trailers recebem classificação indicativa. Nos cinemas, só podem ser exibidos com produções que tenham a mesma classificação ou superior