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O cantor Cauby Peixoto em registro de 1961.
Hoje, aos 84 anos, ele é tema do documentário Cauby - Começaria tudo
outra vez, que estreia na quinta
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O que mais
fascina o documentarista Nelson Hoineff, de 66 anos, em Cauby Peixoto,
84, é o eterno recomeço do cantor, que, não por acaso, está de volta à
cena em variadas frentes, depois do susto pregado pela diabete, que o
levou a uma internação recente.
Hoineff é o diretor do
documentário Cauby – Começaria tudo outra vez, que estreia na próxima
quinta-feira em cinco capitais, incluindo Belo Horizonte. Apesar da
demora de quase uma década para a conclusão do filme, o título se
manteve todo o tempo na cabeça do cineasta – e sempre pertinente.
Hoineff
decidiu abordar a trajetória do cantor – um dos raríssimos
remanescentes da era de ouro do rádio brasileiro, ao lado de Angela
Maria, 86, confrontando permanentemente o artista e o personagem que ele
criou para si.
“O recomeço constante é um desejo do próprio
Cauby, que, além das inúmeras plásticas (nunca admitidas), renova o
repertório com uma enorme frequência, às vezes para melhor, às vezes
para pior”, afirma Hoineff, que diz encontrar paralelos da trajetória do
cantor apenas em nomes como os de Beth Carvalho, Caetano Veloso e João
Gilberto. “Além do dom vocal, nos shows eles praticamente contam uma
história.”
NOVO DISCO Não só a estreia de Cauby – Começaria tudo
outra vez está jogando novas luzes sobre o cantor, cujos fãs vão de “uma
velinha de 90 anos até um casal de 20 anos”, como observa Hoineff. Até o
fim do mês, deve ser lançado o disco Cauby sings Nat King Cole, com
shows no Rio de Janeiro e em São Paulo. Mais: recuperado da crise
provocada pela diabete, o eterno intérprete de Conceição voltará a se
apresentar no Bar Brahma, no Centro de São Paulo, onde cumpre temporada
semanal há 12 anos.
No filme, Cauby surge literalmente brilhante,
vestindo um blaser de tecido resplandescente. A canção escolhida para
abrir o documentário é Minha voz, minha vida, composta especialmente
para ele, por Caetano Veloso. Ao longo dos 90 minutos de exibição, o
público se assenta em três pilares: além da ideia do eterno recomeço, o
modelo de interpretação atemporal de Cauby Peixoto e a sinergia entre
ele e a plateia, que transcende gerações.
No início do filme, o
espectador é levado para o subúrbio carioca (Olaria) onde vive Tadeu
Kebian, de 15 anos. Fã incondicional do cantor, que conhece na infância
por influência de seu avô, ao ficar sabendo da realização do
documentário, ele tomou a iniciativa de entrar em contato com a
produção.
Que ninguém vá assistir a Cauby – Começaria tudo outra
vez em busca de revelações. Figura historicamente contraditória e dúbia,
o cantor até se expressa sobre a sexualidade, admitindo experiências
homossexuais na infância. Mas acaba manifestando preconceito sobre o
tema, além de se atribuir um romance com a atriz Dorinha Duval, que a
própria nega no decorrer do filme.
DUALIDADES Como lembra o
biógrafo Rodrigo Faour, em depoimento no filme, ao longo de sua
trajetória, o cantor se destacou pelas dualidades: chique e brega,
popular e sofisticado, masculino e feminino. Segundo Thiago Marques
Luiz, produtor musical de Cauby Peixoto, ele gostou do filme, assim como
do musical Cauby! Cauby!, de Flávio Marinho, protagonizado por Diogo
Vilela, e da biografia Bastidores – Cauby Peixoto – 50 anos da voz e do
mito, de Faour.
Com farto material televisivo de arquivo (TVs
Excelsior, Tupi, Globo, Record, CNT e TVE) à sua disposição, Hoineff
leva para a tela cenários antológicos como o auditório da Rádio Nacional
e a Confeitaria Colombo, além de trazer à tona personagens como Edson
Di Veras (1914-2015), o também famoso empresário do cantor, que não
poupou esforços para transformá-lo em ídolo. Veras mandou extrair toda a
arcada dentária de Cauby, aos 20 anos, para trocá-la por uma prótese, e
contratou as famosas “macacas de auditório” que acompanhavam o artista
das emissoras de rádio às ruas, sempre aos gritos.
Entre os
momentos mais consagradores da carreira do cantor, Nelson Hoineff
destaca a volta de Cauby ao Rio, nos anos 1950, depois da temporada
americana, onde, além de se encontrar com Nat King Cole, Louis
Armstrong, Bing Crosby e Carmen Miranda, fez um único filme em Hollywood
(Jamboree, de Roy Lockwwod); e a gravação de um disco com composições
originais de Caetano Veloso (Minha voz, minha vida) e Chico Buarque
(Bastidores), entre outros astros da MPB, já nos anos 1980. Ainda nos
1950, ele foi o primeiro a interpretar e dançar um rock (Rock’n ’roll em
Copacabana), que gravaria a seguir.
Preparando-se para voltar a
encenar, no ano que vem, o musical em homenagem a Cauby, Diogo Vilela
diz que será a primeira remontagem da carreira dele. “E como disseram
que Cauby estava desanimadinho, acho que será uma boa homenageá-lo em
vida”, diz o ator.
Para Vilela, trata-se de “um intérprete
precioso de canções, que faz parte do inconsciente coletivo brasileiro”,
a exemplo do mineiro Ary Barroso, que ele também interpretou no teatro,
além de Nelson Gonçalves. “Temos de parar com a nossa falta de memória e
aprender a gostar da gente mesmo. No Brasil, vive-se o mito do
importado”, afirma Vilela, detentor dos prêmios Shell e da Associação
Paulista de Críticos de Arte (APCA) pelo espetáculo. Ele ficou dois anos
estudando canto e se aperfeiçoando para viver Cauby.