domingo, 4 de agosto de 2013

'Breaking Bad' volta e pode fazer história - Luciana Coelho

folha de são paulo
CRÍTICA SERIAL
LUCIANA COELHO - coelho.l@uol.com.br
'Breaking Bad' volta e pode fazer história
Em sua escalada de perversão, Walter só pode ser parente do dr. Jekyll, de 'O Médico e o Monstro'
A temporada final de "Breaking Bad" só estreia nos EUA no próximo domingo, dia 11, mas Vince Gilligan --o criador do professor-de-química-com-câncer-convertido-em-chefão-do-tráfico que protagoniza a série-- já escreveu as palavras "the end".
O que ele não fez ainda foi deixar claro se há redenção para Walter White, o sujeito em questão.
Essa resposta pode ser um marco de amadurecimento na ficção de TV nos EUA, tão viciada em redimir, justificar ou punir os protagonistas no final. Há a finada "Sopranos", ok, mas sem grande companhia.
Faz cinco temporadas que Walter descobriu ter câncer e decidiu fabricar metanfetaminas para deixar um pé-de-meia para a mulher, o filho com paralisia cerebral e a filha bebê. Para isso, recorreu a Jesse Pinkman, ex-aluno que trocou a escola pelo tráfico, sem maior ambição.
A cada novo ciclo, o químico se distancia desse intuito inicial e se deixa corromper pelo próprio poder como traficante, adotando o nome "Heisenberg". E graças ao truque, assumido por Gilligan, de usar a família como motivação primeira do personagem, o espectador não consegue mais torcer contra.
Até agora, os traços originais do protagonista esmoreceram, mas não sumiram (dá para lembrar do Walter original nas cenas com os filhos).
Muito dele, entretanto, já deu lugar a um vilão frio, que se sente livre para ignorar limites diante da possibilidade de morrer de câncer, ainda que este esteja em remissão.
Gilligan cita como referência os diretores Sergio Leone e John Ford e diz que sua série é um "pós-western". Faz sentido, pois a história se passa em Albuquerque, Novo México, e o deserto vizinho ganha peso de personagem na reta final.
Mas seu repertório é bem maior.
Em sua escalada de perversão, Walter só pode ser descendente de Henry Jekyll, o médico de "O Médico e o Monstro", ainda que em 1886 as atrocidades imagináveis para um anti-herói fossem mais modestas.
Até o agente de transformação é semelhante: uma poção que só o anti-herói produz, no livro, e a metanfetamina que Walter faz melhor que ninguém, na versão de Gilligan.
Dúvidas? O "teaser" posto no ar nesta semana reforça a ligação com a soturna literatura inglesa do fim do século 18/começo do 19.
Nele, imagens do deserto são contrapostas à voz de Bryan Cranston, premiado e genial como Walter/Heisenberg, lendo "Ozymandias", de Percy Shelley (1792-1822).
O poema, assustador, descreve as ruínas de uma cidade desértica um dia dominada por um tirano.
Gilligan tem agora a metade final da última temporada que o canal americano AMC estrategicamente dividiu em duas, ou oito episódios, para definir se opta pelo preto-e-branco dos diretores de bangue-bangue ou pelo cinza dos ingleses.
A última cena exibida, com a incrível epifania do agente antidrogas Hank percebendo na dedicatória de um livro que seu cunhado Walter é o chefão que ele procurou o tempo todo, aponta para o primeiro. Os "teasers" sinistros, para o segundo.
Voto no segundo. Walter White não pode ter salvação.

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