quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Minha vida em neon [Tacey Emin] - Silas Martí


Minha vida em neon
Artista Tracey Emin abre seu ateliê em Londres à Folha e fala sobre sua 1ª mostra no Brasil, na nova White Cube, em SP
Ben Stansall - 16.mai.11/AFP
Tracey Emin posa para retrato diante de suas obras na Hayward Gallery, em Londres
Tracey Emin posa para retrato diante de suas obras na Hayward Gallery, em Londres
SILAS MARTÍEM LONDRES
De cara para a porta do ateliê, um retrato de Tracey Emin recebe quem entra com a careta que virou marca registrada da artista britânica. "Esse quadro nós chamamos de 'a chefe'", diz ela. "No Natal, a gente acende umas luzinhas coloridas em volta dele."
Não há dúvida sobre quem manda no pedaço, e não existe parede de seu ateliê no East End londrino, a quadras do mercado de Spitalfields, sem o seu rosto ou seu corpo nu estampado em fotografias.
Emin, como ela mesma se classifica, é "imensa". Nome que despontou junto de Damien Hirst e os chamados jovens artistas britânicos na década de 1990, a artista é hoje uma das mais poderosas no circuito global -pelo preço das obras e prestígio entre críticos- e fará em dezembro a primeira individual no Brasil, abrindo o endereço paulistano da galeria White Cube.
"Tem artistas com personalidades gigantes, que engolem o trabalho, e tem aqueles medianos, irreconhecíveis", define Emin. "Eu faço parte do primeiro time, sou reconhecível, com uma personalidade enorme. As pessoas me veem na rua e sabem que eu sou 'aquela artista'".
Essa artista, aliás, fez fama e fortuna expondo a própria miséria. Sua obra se funde à história pessoal -Emin, 49, retrata em desenhos, instalações em neon, esculturas, bordados, fotografias e vídeos as desventuras de ter sido estuprada aos 13 e os abortos que fez até agora.
Sua infância e adolescência em Margate, "uma cidadezinha litorânea abandonada na costa da Inglaterra, onde não havia nada para fazer a não ser se misturar à decadência generalizada, trepar, brigar e gastar a vida", contrasta agora com sua posição de celebridade milionária.
Numa rara entrevista, Emin topou receber a Folha em seu ateliê em Londres. Ela e seus oito assistentes -entre arquivistas, assessores de imprensa, costureiros e montadores- ocupam um prédio inteiro. Por trás da fachada vitoriana, são três andares e o subsolo, onde Emin mandou construir uma piscina.
Mesmo imersa no luxo, ela mantém a casca grossa de quando vivia num quartinho em cima de um KFC com todos os pertences amontoados -uma cafeteira elétrica e saquinhos de sopa instantânea.
Emin, que já disse ter "mais testosterona no pé direito do que muitos homens têm no corpo todo", corta o entrevistador, rebate perguntas e reage a alguns comentários esgarçando a pele queimada de sol em caretas assustadoras.
MALDIÇÃO
"Não sei por que, mas as pessoas têm medo de mim", diz Emin. "Fui a uma cartomante em Nova York, e ela disse que eu tinha sido amaldiçoada, mas que a maldição já está quase passando."
Ela diz que não precisa sofrer para traduzir em obras de arte a sensação de fracasso no amor. "Sou inteligente o suficiente para saber que não preciso sentir dor para fazer o trabalho", diz. "Na verdade, gostaria de estar apaixonada e ser feliz, mas as pessoas não entendem isso."
Lembrando Van Gogh, que retratava o próprio quarto, Emin diz que não faz uma obra sobre si mesma e nega que seja uma artista introspectiva. "É o oposto disso", diz. "Você precisa estar fora de si para ver o que faz, senão a obra fica míope, pequena."
De fato, ela constrói sua obra misturando sua vida real a uma ficção calculada. Suas frases pinçadas de escritos pessoais febris viram aforismos universais quando bordadas em colchas de retalhos ou impressas em neon.
"Não podem ser frases rasas, precisam ser abertas, ter duplos sentidos", diz Emin. "Não pode ser algo como 'você me faz feliz'. É bem melhor algo como 'pensei que você pudesse me deixar feliz'."
Em São Paulo, Emin vai mostrar uma série de novos neons, entre eles um que diz "não acredito no amor, mas acredito em você". Também estarão na mostra desenhos de pegada expressionista, que costumam retratar a própria artista se masturbando.
Seu trabalho, não por acaso, sublinha essa vontade ensimesmada. Ela, que já disse preferir se masturbar a "partir o coração de alguém", parece anunciar orgulhosa que controla o próprio prazer.
"Tenho visões de uma figura isolada, sozinha", conta Emin. "Já tentei desenhar outras pessoas, mas isso só me fez enxergar mais o meu isolamento. Quando me desenho, eu não me olho no espelho. Fico muito perto do papel e quase não fica espaço entre mim e o desenho."
Essa clareza de visão, porém, demorou a surgir. Emin conta que depois do primeiro aborto, um "sacrifício" do qual diz não se arrepender, passou anos sem trabalhar.
"Parei de acreditar em arte, pensava que isso tudo era só um pedaço de plástico", lembra. "Mas depois a arte acabou voltando, voltou de um jeito forte e bom. E tem sido cada vez mais forte."

Contardo Calligaris


A fé no progresso
A ideia de progresso 'natural' é falsa. Na história, nada é garantido: tudo é, sempre, conquistado
ASSISTI A "Lincoln", o novo filme de Spielberg, no dia da estreia, na sexta-feira passada, numa lotadíssima sessão da tarde, em Manhattan. No Brasil, "Lincoln" chegará só no fim de janeiro.
O filme, que é uma obra-prima imperdível, se concentra sobre o esforço político de Lincoln para que a Câmara dos Representantes ratificasse, em 1865, a 13ª emenda da constituição dos EUA -a que aboliu a escravatura no país.
A escravatura era a aposta central da guerra, que durava havia quatro anos, entre o Norte e o Sul escravocrata. Mas, mesmo no Norte, nem todos eram abolicionistas, e muitos temiam que os negros liberados se tornassem um dia cidadãos e, pasme, pudessem votar.
Ninguém, naquela sala de cinema, na sexta passada, podia evitar de pensar que, três dias antes, o país reelegera seu primeiro presidente negro. Em menos de 150 anos, foi um progresso e tanto.
Falo de progresso só porque essa mudança promove valores nos quais aposto: quando eles avançam, acho que a gente progride. Não acredito na ideia de uma evolução "natural" da civilização (nota para os amigos filósofos: concordo com Voltaire, não com Condorcet, ainda menos com Saint-Simon).
Lembro-me de discussões intermináveis, no fim dos anos 1960, com Nicola, um jovem salernitano que fazia uma pós-graduação em geologia do petróleo em Genebra e que era decididamente anticomunista. A cada almoço, eu e meu amigo Enzo tentávamos convencer Nicola de que o futuro do socialismo seria radioso. Não funcionava.
Um dia, achei um escrito (filosoficamente duvidoso, mas de uma procedência que pareceu confiável a Nicola) segundo o qual, radioso o não, o futuro socialista era inelutável, previsto pelo marxismo "científico". Nicola acreditava na ciência, era ingênuo, e o texto o abalou. Não sei se ele se converteu, mas sumiu do restaurante universitário durante um tempo, e a gente se perdeu de vista.
Bom, Nicola, é um pouco tarde, mas talvez você esteja trabalhando numa plataforma do pré-sal e leia este jornal (o mundo é pequeno, mesmo). Nesse caso, aceite minhas desculpas: o marxismo "científico" é uma ideia calhorda, e o comunismo nunca foi inelutável. Já naquela época, aliás, eu sabia que nada acontece na história sem o engajamento subjetivo dos atores (por isso preferia, por exemplo, Henri Lefebvre a Louis Althusser -e por isso continuo gostando de Alain Badiou, porque ele nunca deixou de pensar que, sem engajamento dos sujeitos, não acontece nada, não há progresso algum).
Tudo isso parece óbvio? Vamos devagar: o sonho comunista pode estar morto, mas nossa (cômoda) crença num progresso "natural" e garantido continua bem viva.
Por exemplo, na semana passada, na eleição americana, junto com a vitória de Obama, aconteceu a derrota de dois candidatos a senador cuja oposição à legalização do aborto (mesmo em caso de estupro) era de um machismo e de uma estupidez ultrajantes. Na mesma eleição, houve também Estados que aprovaram o casamento de pessoas do mesmo sexo.
Nasci e cresci numa Itália em que a desigualdade de fato e de direito era sinistra, e o amparo era pouco. Nesse mundo, as mulheres estavam longe de ter direitos comparáveis aos dos homens, não existia divórcio, qualquer aborto era criminoso, o consumidor de droga era igualado ao traficante, e a homossexualidade era uma vergonha que era melhor esconder.
Para que essas realidades mudassem, lutei -ou seja, junto com muitos outros, votei, escrevi, desfilei, militei. Mesmo assim, tenho a estranha impressão de que fomos carregados por uma espécie de movimento "natural", ao qual era possível resistir, mas que sempre ganharia no fim -um progresso na direção do grande ideal cristão: a maior liberdade possível dos indivíduos sem renunciar à solidariedade.
Essa impressão de progresso "natural" é falsa e perigosa. Na história, nada é garantido: tudo é, sempre, conquistado.
O que nos separa de outros mundos possíveis (e horríveis) não é a inelutabilidade do progresso, mas a obstinação de pequenos grandes gestos. Entre nós e as trevas, há o corpo ferido de Malala Yousafzai, 14, baleada na cabeça pelo Talibã paquistanês porque promovia o "secularismo' (ou seja, queria ir para a escola e pensar com a sua cabeça).
Ou, a coragem da catarinense Isadora Faber, 13, que continua seu "Diário de Classe" on-line, embora hostilizada por professores, por administradores e talvez por um pintor negligente (Folha, 11 de novembro).

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Cazuza volta aos palcos em 2013 em 'versão holograma'


Cazuza volta aos palcos em 2013 em 'versão holograma'


LUCAS NOBILE

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
MATHEUS MAGENTA
DE SÃO PAULO
Cazuza morreu em 1990, aos 32 anos. Em 4 de abril 2013, quando completaria 55, ele volta aos palcos, na forma de um holograma. Será a primeira vez que um artista brasileiro revive por meio desse efeito especial.
A ideia de ressuscitar um músico por meio de um holograma chamou a atenção mundo afora em abril deste ano, quando o rapper americano Tupac Shakur (1971-1996), assassinado quase 16 anos antes, repareceu projetado em um show do também rapper Snoop Dogg, no festival Coachella, nos EUA.
O projeto que homenageia o cantor carioca, idealizado por Omar Marzagão e George Israel (do Kid Abelha e parceiro de Cazuza), terá shows de 90 minutos, em 20 dos quais a imagem do músico vai interagir com uma banda.
Estimado em R$ 3 milhões, o projeto prevê um show em São Paulo, dois no Rio, um em Belo Horizonte e outro em Brasília. Os idealizadores esperam captar R$ 2,5 milhões por meio de mecanismos de fomento à cultura via isenção fiscal, como a Lei Rouanet.
TECNOLOGIA
O desenvolvimento do holograma, que será baseado em fotos e vídeos de arquivo de Cazuza, é realizado pela empresa francesa 4Dmotion. O processo técnico, que deve durar seis meses, está em sua segunda fase (veja abaixo).
Na primeira, que levou dois meses, foi feita uma pesquisa sobre figurino, expressões faciais, gestos e trejeitos.
As imagens utilizadas para o projeto foram feitas principalmente nos anos de 1986 e 1987 -os idealizadores optaram pelo período pré-doença de Cazuza, que morreu em decorrência do vírus da Aids, para evitar a lembrança do artista debilitado.
Avani Stein/Folhapress
O cantor Cazuza, em foto de 1985
O cantor Cazuza, em foto de 1985
Com base na tecnologia de "motion capture", muito usada no desenvolvimento de videogames e efeitos especiais para o cinema, um dublê imitará a expressão corporal do músico. Sobre a face deste mesmo ator, será sobreposto um rosto virtual criado em 3D a partir de fotos de Cazuza.
O áudio dos shows será original, com registros vocais feitos pelo próprio cantor.
As imagens do Cazuza virtual são projetadas sobre uma superfície espelhada no chão, na parte posterior do palco, e refletidas numa espécie de "parede invisível" vertical -para que a plateia o veja ao lado de uma banda ao vivo.
A tela terá uma extensão de cinco metros, pela qual Cazuza poderá "passear", lembrando suas performances marcantes como a que fez no Rock in Rio de 1985, ao lado do Barão Vermelho.
A banda que irá "acompanhar" Cazuza ao vivo será formada por antigos parceiros dele, como George Israel, Arnaldo Brandão, Leoni, Guto Goffi e Rogério Meanda. O grupo deve interpretar 23 canções, sob direção musical de Nilo Romero, produtor e também parceiro do artista.
"O Cazuza fez música com muita gente. O Barão [Vermelho] vai estar ali, não tem como dissociar, mas não vai ser a banda do show", diz Romero. "Sobre o holograma, todos nós vamos estar de olho e dar palpites, mas vai depender muito do trabalho do diretor do show", completa.
Consenso entre os envolvidos no projeto para dirigir o espetáculo, Ney Matogrosso, responsável pelo último show de Cazuza, diz que sua participação depende ainda de seus compromissos, pois deve lançar seu novo álbum após o Carnaval.
Sobre o projeto de "ressuscitar" Cazuza no palco, a mãe dele, Lucinha Araújo, refuta a possibilidade de que a homenagem fique mórbida.
"Acho lindo. Como eu e meu marido somos sozinhos, só tivemos o Cazuza, para nós, vai ser como o renascer de um outro filho."
Editoria de Arte/Folhapress
O TEMPO NÃO PARA: Entenda o desenvolvimento do holograma do músico
O TEMPO NÃO PARA: Entenda o desenvolvimento do holograma do músico

MARTHA MEDEIROS - Brasília e as distâncias

Zero Hora - 14/11/2012 


Estive em Brasília na semana passada para um evento que me encheu de orgulho. Fui receber a medalha da Ordem do Mérito Cultural, entregue pelas mãos da presidente Dilma Rousseff em cerimônia realizada no Palácio do Planalto.

Aproveito para cumprimentar os outros dois premiados do Sul nessa festa que teve como principal homenageado Luiz Gonzaga: a professora e doutora em Educação Cleodes Ribeiro, que reside em Caxias, e a Fundarte, de Montenegro. Compartilhamos esse momento ao lado de Marieta Severo, Regina Casé, os irmãos Campana, Elba Ramalho, além de ilustres póstumos como Plínio Marcos, Mazzaropi, Jorge Amado, Herivelto Martins e outros nomes de igual estatura.

Éramos 40 representantes da cultura brasileira, entre pessoas físicas e jurídicas, vivas e falecidas, e, se me permitem a piada, em trânsito: Orlando Orfei, aos 90 anos, compareceu frágil em sua cadeira de rodas, comovendo a todos que tiveram infância.

Mas, afora essa introdução cabotina, quero falar sobre Brasília. Foi a sexta vez em que lá estive, e não consigo mudar minha impressão: não é uma cidade, e sim uma instalação a céu aberto com obras do magnífico Oscar Niemeyer. Não há como não ficar impactado com seu trabalho grandioso e atemporal. De resto, a Capital Federal é uma abstração.

Brasília é plana – e fruto de um plano, imagino: impor distância entre o governo e o povo. A localização parece estratégica no bom sentido (no centro do país, o que, em tese, promoveria uma aproximação democrática com todos os Estados), mas na prática Brasília está ilhada em meio ao cerrado, observando os brasileiros de binóculos.

Nada convida à aproximação. Imensos terrenos separam os prédios. A cidade é dividida em setores que não se comunicam com facilidade. Caminhar em Brasília é um desconsolo, uma travessia solitária em meio à geometria fria e monocromática das ruas.

A cerimônia de premiação se deu pela manhã, e no início da noite fomos convidados para um coquetel no Palácio da Alvorada, onde a presidente, junto a alguns ministros, recebeu-nos como uma dona de casa recebe: com alegria, afeto, descontração.

Havia quadros, tapetes, cortinas, um lindo jardim com piscina e a presença de Chambinho do Acordeon (protagonista do filme Gonzaga, de Pai Para Filho), que tocou xote, baião e promoveu um arrasta-pé no meio da sala. Dançamos, cantamos. Havia calor humano ali. Havia gente ali. Foi a única ocasião em que me senti numa cidade comum.

Vi quando alguém cumprimentou a presidente pela sua casa e ela respondeu: “Não é minha, e sim de todos os brasileiros”. Meu primeiro pensamento: “Hum, da próxima vez vou trazer meu biquíni”. O segundo: “Brasília inteira deveria ser a casa de todos os brasileiros”. O Rio é. Salvador é. Qualquer outra cidade do Brasil é.

Uma casa é onde seus moradores interagem, onde todos são vistos, onde a proximidade desmascara as mentiras e impõe a verdade. Uma casa é onde acontecem nossos dramas, comédias, rebeliões, discussões, abraços. É onde a vida germina e cresce. A capital de um país deveria estimular exatamente isso que Brasília dificulta: a convivência.