quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Brasileiros d'além-mar - Paula Cesarino


PAULA CESARINO COSTA
Brasileiros d'além-mar
RIO DE JANEIRO - Difícil andar nas pedras portuguesas que calçam boa parte do Rio sem ouvir língua estrangeira. Inglês, francês, espanhol, italiano. E aquele português luso, que dá, por segundos, a dúvida sobre qual idioma está a ser falado.
Entre num elevador no centro e terá ao lado engravatados discutindo em norueguês. Suba a ladeira de uma favela e ao fim encontrará um casal elogiando a vista em francês. Num restaurante ouvirá mulheres a discutir o cenário das artes plásticas brasileiras, com sotaque lusitano.
Desde os degredados enviados para cá no século 16, recebemos nossos "colonizadores". Vieram ainda comerciantes, homens em busca de ouro, nobres que acompanharam a corte -portugueses de muitos perfis. Em várias épocas, motivados pela crise.
A história se repete, hoje. Em busca de dinheiro, de esperança ou só de alegria, estão aqui, de passagem ou de mudança. A situação lá é crítica.
Nesta semana, escritores portugueses atravessaram o oceano, subiram o morro dos Prazeres, em Santa Teresa, para falar de literatura no primeiro festival literário numa favela, lançaram seus livros no centro da cidade (onde o Rio é quase Lisboa) e debateram na universidade. A literatura, parece, não entrou em crise.
João Ricardo Pedro e Nuno Camarneiro são engenheiros que se apaixonaram pela literatura. Patrícia Portela parte do teatro e da multimídia. Sandro William Junqueira se divide entre a escrita e aulas de dramatização. Patrícia Reis começou no jornalismo e não se lembra de não escrever.
Não se surpreenderam com a cidade -já viram toda nas novelas. Perderam-se nas estantes com autores brasileiros que lá não chegaram.
Patrícia Reis, que lança "Por este Mundo Acima", resumiu: "Se colocarmos o mapa do Brasil em cima da Europa alargada, o Brasil é maior. É um continente". Todos que vieram, diz, têm um mesmo sentimento de pertença: também somos brasileiros.

Vil metal e vil prisão - Eliane Catanhêde


ELIANE CANTANHÊDE
Vil metal e vil prisão
BRASÍLIA - Enquanto eram os PPP (pobres, pretos e prostitutas) jogados desde sempre nas cadeias, estava tudo muito bem. Bastou o Supremo decretar dez anos e dez meses de prisão para José Dirceu para todo mundo acordar e discutir a realidade penitenciária brasileira.
Se o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, classifica as prisões do país como "medievais" e prefere a morte a ficar preso no Brasil, o que a sociedade e principalmente os próprios condenados podem dizer?
Com a autoridade de quem atuou efetivamente para melhorar esse estado de coisas, retirando das prisões milhares de presos ilegais à época em que presidiu o STF e o CNJ, Gilmar Mendes concordou com a crítica de Cardozo, mas ironizou: "Lamento que ele fale só agora".
Depois da pena de Dirceu à prisão, também entrou em pauta no Supremo o debate sobre penas pecuniárias versus privação de liberdade. Ou seja, multas em vez de prisão.
Estridente, Dias Toffoli disse que o intuito dos crimes (do mensalão) era financeiro, e não atentar contra a democracia ou partir para a violência, e resumiu: "Era o vil metal. Que se pague então com o vil metal".
E houve uma inversão. Antes, o revisor Ricardo Lewandowski abria o debate e Toffoli o acompanhava. Ontem, Toffoli puxou a questão e Lewandowski foi o primeiro a aderir à tese, com uma ressalva: desde que de acordo com as posses do réu.
Soou como uma tentativa de negociação típica de advogados, não de juízes: já que estão condenados, que paguem em dinheiro, não em dias na cadeia. Tudo, menos levar réus tão ilustres para a prisão?
A dinâmica do julgamento, porém, segue a lei e a tradição: uma coisa não elimina a outra. Condenados devem pagar com o bolso e, dependendo do caso, com a liberdade.
Que a condenação de poderosos não seja em vão nem só vingança. Além de resgatar a Justiça, que possa também tornar mais justas as prisões medievais dos brasileiros comuns.

    Sequência de erros - Rogério Gentile


    ROGÉRIO GENTILE
    Sequência de erros
    SÃO PAULO - A crise na segurança pública de São Paulo já é comparável à de 2006 (quando a facção criminosa PCC promoveu três ondas de ataques no Estado), mas, mesmo assim, o governo Geraldo Alckmin continua a cometer um erro atrás de outro na condução do problema.
    O primeiro foi subestimar a quadrilha, inebriado pelo sucesso obtido na redução dos casos de homicídios dos últimos anos. "O que eles têm são 30, 40 pessoas que controlam o tráfico em larga escala", disse mais de uma vez o secretário da Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto. Pois esse "grupelho" promoveu uma verdadeira matança de policiais militares neste ano. Desde janeiro, 94 PMs foram assassinados, quase o dobro de 2011 (51) e um pouco menos do que em 2006 (104).
    Alckmin também demorou muito para agir, temendo prejudicar a campanha eleitoral de José Serra a prefeito. Esperou o fechamento das urnas para realizar uma operação em Paraisópolis, local onde foi tramada a morte de vários policiais. O detalhe é que o governo de São Paulo já sabia do envolvimento de criminosos dessa favela nos assassinatos desde pelo menos o mês de agosto, quando a Polícia Federal prendeu um deles em Santa Catarina.
    Só depois da eleição, também, o governador resolveu montar ações em conjunto com o governo federal. E, ainda assim, cometeu a imprudência de mandar um dos chefes da quadrilha para uma penitenciária em Rondônia.
    No passado, medidas como essa ajudaram a organização criminosa a se estabelecer em outras regiões do país, como várias autoridades já reconheceram. Hoje, estima-se que o PCC atue em pelo menos 15 Estados, além de São Paulo.
    Minimizando o problema e demorando a tomar providências, o governo paulista perdeu controle sobre uma parte da Polícia Militar, que partiu para um contra-ataque fora da lei, matando quem vê pela frente, criminoso ou não.

      'PIB sonolento' [Editorial Folha SP]


      PIB sonolento
      Passada a letargia do primeiro semestre, parece confirmar-se o prognóstico de lenta recuperação do PIB neste final de ano, até o ritmo de 3,5% anualizados, que, espera-se, poderá se manter em 2013.
      Os dados da indústria e das vendas no varejo apontam melhora desde o terceiro trimestre, sobretudo no setor de automóveis.
      Seria um erro, porém, considerar o dinamismo setorial um indicativo forte do restante da economia. Um fator importante para o crescimento anda fraco: o crédito ao consumidor está estagnado, e a capacidade de endividamento das famílias parece chegar ao fim.
      Os estímulos ao consumo, úteis como medida pontual para sustar a desaceleração, não têm, contudo, restaurado o funcionamento da máquina produtiva. As evidências indicam que, agora, o gargalo está na capacidade de produção.
      Custos crescentes dificultam o investimento privado. A inflação salarial de 10% ao ano, fruto de um mercado de trabalho apertado, está bastante acima dos ganhos de produtividade e explica em parte o decepcionante desempenho da indústria. A produção de bens de capital teve queda de 12,4% de janeiro a setembro deste ano, na comparação com 2011.
      Os indicadores de confiança empresarial até têm melhorado, mas nada muito animador. Sem a retomada forte do investimento, dificilmente o PIB superará, de forma sustentável, os 3,5% esperados.
      A combinação de escassez de mão de obra e consumo pressionado resulta em mais inflação. Não há perda de controle, mas um crescimento do PIB de 2% ao ano (média de 2011 e 2012) e uma inflação de 6% começam a compor o cenário mais temido: a economia patina, mas os preços sobem.
      No curto prazo, a queda recente dos preços agrícolas e a expectativa de redução nas tarifas de eletricidade permitem projetar inflação na marca de 5,5% ao ano.
      Não se pode descartar, porém, uma escalada para cerca de 6,5%, teto da meta de inflação. Se isso ocorrer, com o PIB em 3,5%, o governo terá mais dificuldade para manter a economia em ordem.
      A melhor forma de minimizar tal risco é insistir em medidas que reduzam os custos e aumentem a produtividade. O governo dá sinais de que atenta para esses imperativos, ao reduzir preços de energia e desonerar a folha de pagamento em alguns setores, mas os resultados ainda tardarão. O clima não melhorará tão cedo a ponto de despertar o espírito animal dos empresários da hibernação.