sexta-feira, 8 de março de 2013

Marina Silva

folha de são paulo

Se nos deixam falar
Dois dias em Santiago, no Chile, para debater possibilidades de avanço da democracia, e me deparo com memórias remotas e recentes de nossa sofrida América Latina. Talvez a experiência dos chilenos seja mais traumática, é difícil avaliar, mas, no vigor de sua juventude, vejo a mesma superação de velhos paradigmas que ocorrem em outros países.
Essa é, afinal, a novidade que está sendo pouco considerada no debate político, atualizado pela morte de Hugo Chávez. Mais que vencer discussões, interessa solidarizar-se com o povo venezuelano na busca de novos caminhos.
Hoje, ainda vigoram antigas polaridades e uma nomenclatura do século passado: populismo, neoliberalismo, estatização, privatização, caudilhismo... Esses termos expressam realidades e significados ainda presentes em nossos sistemas políticos, como feridas abertas ou cicatrizes recentes. Mas a superação das fragilidades de nossa democracia, sua inserção definitiva na cultura e sua universalização não acontecerão só com a derrota de um dos polos em disputa, a eleição de um novo líder ou a ascensão de um partido. Ela será, sobretudo, obra da sociedade, fruto cultivado de sua determinação.
Conversei com líderes estudantis que agitaram o Chile e trouxeram à política latino-americana algum alento contra a estagnação. Também me reuni com um coletivo de jovens do Techo ("Um teto para meu país"), organização que tem incríveis resultados práticos na superação da miséria em vários países. Um grupo que desenvolve o mesmo projeto em São Paulo participou da reunião e me fez perguntas por vídeo. As fronteiras, definitivamente, não são mais as mesmas e esses jovens mostram que seus sonhos de democracia são bem maiores que as nossas urnas.
As novas experiências políticas não são só virtuais, espalham-se no tecido social e geram mutações reais. Também não cabem num recorte setorial: são econômicas e culturais, sociais e políticas, ambientais e éticas. Os jovens do Techo começaram construindo casas e logo viram que era necessário trabalhar com educação, saúde, informática, tudo. Muitos projetos que vemos no Brasil começam com arte, esporte ou uma ação social e logo diversificam suas ações. Atuam tanto na comunidade quanto na esfera institucional, sempre dando visibilidade e fazendo contatos nas redes virtuais.
É nessa nova superfície que se inscrevem os projetos identitários contemporâneos, a democracia emergente, em que a sustentabilidade política do futuro se assenta. Seu debate, amplo e profundo, supera os limites do modelo representativo atual para se dar em novos termos e novas linguagens, que só podem ser percebidos por uma escuta mais atenta. E o mais, quem viver, ouvirá.

    Ruy Castro

    folha de são paulo

    Inverno à distância
    RIO DE JANEIRO - Em setembro de 1965, Frank Sinatra lançou um LP intitulado "September of My Years". A canção-título, escrita para ele por Jimmy Van Heusen e Sammy Cahn, referia-se àquela quadra da vida em que, pelo visto, as pessoas começam a enxergar o fim do túnel. Ao gravá-la, Sinatra ainda estava a dois meses de completar 50 anos. Como só morreu em 1998, aos 82, conclui-se que se afobou -ainda teria grandes outubros e novembros para viver.
    Também em setembro, mas de 2012, em entrevista a Luciana Leiderfarb, do jornal português "Expresso", o escritor americano Paul Auster, 65 anos recém-feitos, declarou: "Agora sou um homem mais velho. Meus dias estão contados e não sei quantos me restam. Certamente menos do que aqueles que já vivi. Estou literalmente no inverno da minha vida. Se dividirmos a vida em quatro estações, cheguei à quarta estação".
    Bem, tendo também completado 65 há alguns dias, e pulado fogueiras brabas nos últimos anos, entendo o que Auster quis dizer. Mas não acho que me diga respeito, nem à gente bronzeada do hemisfério Sul. Nossa quarta estação do ano não é o inverno, mas o verão, quando os fluidos se assanham e querem sair por aí, misturando-se a fluidos outros. E, perdão, Frank, mas, para nós, setembro não anuncia folhas secas e caídas, e sim a explosão de cores e cheiros.
    O ator Marco Nanini, a apresentadora Marília Gabriela, a ministra do STF Rosa Weber, a dramaturga Gloria Perez, o designer Hans Donner e o treinador e linguista Joel Santana, todos terão 65 anos em 2013. Outros que há muito se despediram dos 65 e acabam de fazer ou farão 70 são Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Nei Lopes, Dori Caymmi, Leny Andrade, Edu Lobo, Marcos Valle e Turibio Santos, para ficarmos só na música.
    Pergunte-lhes se estão no inverno de suas vidas.

    Terra se aproxima de maiores temperaturas em 11 mil anos


    SALVADOR NOGUEIRA
    COLABORAÇÃO PARA A FOLHA de São Paulo

    Um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual do Oregon e da Universidade Harvard, ambas nos EUA, reconstruiu a temperatura média da Terra nos últimos 11,3 mil anos para compará-la aos níveis atuais.
    A boa notícia: a Terra hoje está mais fria do que já esteve em sua época mais quente desse período. A má: se os modelos dos climatologistas estiverem certos, atingiremos um novo recorde de calor até o final do século.
    O trabalho, publicado na revista "Science", reuniu dados de 73 localidades ao redor do mundo para estimar a temperatura global (e local) no período geológico conhecido como Holoceno, que começou ao final da última era do gelo, há 11 mil anos.
    Depois de consolidar todas as informações, em sua maioria provenientes de amostras de fósseis em sedimentos oceânicos, num único quadro --além de usar técnicas matemáticas para preencher os "buracos" encontrados nas diversas fontes usadas para estimar a temperatura no passado--, os cientistas puderam recriar uma "pequena história da variação climática da Terra".
    Diz-se pequena porque os resultados não permitem enxergar a variação ocorrida em uns poucos anos. É como se cada ponto nos dados representasse a temperatura em um período de 120 anos.
    Editoria de arte/Folhapress
    A HISTÓRIA
    Os dados confirmam uma velha desconfiança dos cientistas: a de que a Terra passou por um período de aquecimento que começou cerca de 11 mil anos atrás. Em 1,5 mil anos, o planeta esquentou cerca de 0,6ºC e assim se estabilizou, durante cerca de 5.000 anos.
    Então, 5,5 mil anos atrás, começou um novo processo de esfriamento --que terminou há 200 anos, com o que ficou conhecido como a "pequena era do gelo". O planeta ficou 0,7ºC mais frio.
    Entram em cena a industrialização acelerada e o século 20. O planeta volta a se esquentar. No momento, ele ainda não bateu o recorde de temperatura visto no início do Holoceno, mas já está mais quente que em 75% dos últimos 11 mil anos.
    Assim, o estudo confirma que a temperatura da Terra está subindo em tempos recentes e mostra que a subida é muito mais rápida do que se pensava.
    "Essa pesquisa mostra que já experimentamos quase a mesma faixa de mudança de temperatura desde o início da Revolução Industrial que foi vista nos 11 mil anos anteriores da história da Terra --mas essa mudança aconteceu muito mais depressa", comenta Candace Major, diretor da divisão de Ciências Oceanográficas da Fundação Nacional de Ciência dos EUA, que financiou o estudo.
    Por outro lado, a baixa resolução temporal do estudo (é impossível distinguir efeitos de poucos anos) dificulta a comparação com o atual fenômeno de aquecimento.
    Para a mudança climática atual se tornar relevante na escala de tempo analisada pelo modelo de reconstrução dos últimos 11 mil anos, ela precisa continuar no próximo século. Segundo os modelos do IPCC (Painel Intergovernamental para Mudança Climática), da ONU, é isso que vai acontecer.
    Contudo, ainda há incertezas sobre a magnitude do fenômeno. De toda forma, mesmo pelas estimativas mais otimistas, quando chegarmos a 2100, se nada for feito, provavelmente estaremos vivendo o período mais quente dos últimos 11 mil anos.

    Derretimento no Canadá pode ser irreversível
    DA REUTERS
    As geleiras canadenses, terceiro maior depósito de gelo depois da Antártida e da Groenlândia, podem estar sofrendo um derretimento sem volta que deve aumentar o nível do mar, afirmaram cientistas.
    Cerca de 20% das geleiras no norte do Canadá podem desaparecer até o fim do século 21, num derretimento que pode acrescentar 3,5 cm ao nível do mar.
    Segundo artigo na revista "Geophysical Research Letters", o derretimento de geleiras brancas exporia a tundra escura, que tende a absorver mais calor e acelerar o derretimento.
    A ONU estima um aumento do nível do mar entre 18 cm e 59 cm neste século ou mais se a cobertura de gelo da Antártida e da Groenlândia começar a derreter mais rápido.
    A projeção de perda de 20% do volume de gelo no Canadá se baseou em um cenário com aumento de temperatura médio de 3ºC neste século e de 8ºC no Ártico canadense, dentro das previsões da ONU.

    Barbara Gancia

    folha de são paulo

    Inflação nunca mais!
    Com a independência do Banco Central, conquista sagrada dos brasileiros, não se brinca
    O BEN Affleck certamente concordaria comigo: há "Argo" de errado em uma economia que cresce recessivos 1% ao ano e ostenta níveis de pleno emprego. Que empregos são esses? Penteador de macaco? Lambedor de sabão? É esse o prestador de serviço tapuia, o autônomo emergente que toda pesquisa de marketing define como "a nova classe C"?
    Vamos combinar que Dilma não está sendo admirada mundo afora como uma tremenda administradora. E eu não estou falando apenas da implicância da revista "The Economist". A má vontade da comunidade internacional parece vir dos cargos que ela ocupou em ambas as gestões anteriores do PT.
    Mais do que o malfadado negócio da plataforma de petróleo no Texas, "Argo" me diz que o sacrilégio cometido ao interferir na independência do Banco Central, uma conquista sagrada dos brasileiros que trazem viva na memória a lembrança do sacrifício que foi derrotar o inimigo da inflação, pode custar muito caro à presidente, não é mesmo, Ben Affleck?
    Foi a partir dessa bisbilhotice que se começou a questionar a atuação da presidente, a despeito de sua popularidade entre mineiros e goianos, gregos e troianos. O país mudou de cara com os programas sociais de Lula e Dilma. Mas a volta do fantasma da inflação começa a assustar os não beneficiados pelos programas sociais.
    O efeito psicológico não há de ser desprezado. E nem o quadro das esperanças prometidas há dez anos que ainda não decolaram, seja por inabilidade política (vide o mensalão), por falta de visão ou por dar preferência a um modelo industrial eleitoreiro e falido.
    Em vez do visionário PAC, nós continuamos a financiar carroças para que o mercado interno circule em uma inexistente malha viária com gasolina subsidiada. Nossa "oitava potência econômica" existe apenas no papel, fabricada por efeito contábil e sustentada por exportações de commodities para a China. Somos uma Venezuela gorducha que ainda não extraiu seu petróleo nem se deu conta de que irá precisar de tecnologia de fora para fazê-lo.
    Enquanto isso, nosso IDH continua raquítico. Produzir empregos não qualificados como manicures e produtores de mel e distribuir cisternas no Nordeste é tapar o sol com a peneira. É claro que o Bolsa Família alivia o desespero e é melhor tê-lo do que jogá-lo no incinerador. Mas o que realmente mudou o cenário, até Renato Paes de Barros, o economista gênio que implantou o Bolsa Família saberia reconhecer, foi o Plano Real.
    Antes dele, trabalhadores recebiam reajustes salariais abaixo da inflação, o que promovia achatamento dos salários, impossibilidade de que esses assalariados obtivessem acesso à educação e uma demanda maior por mão de obra qualificada, que era paga com salários maiores -o que promovia inclusive o aumento da desigualdade.
    Note que, nos últimos dez anos, ninguém estava nem aí que renda fosse um "indicador imperfeito" de bem-estar. Bastou Dilma começar a querer manipular os índices da economia -ao mesmo tempo em que deu para peitar bancos, construtoras e concessionárias do setor hidrelétrico para que começasse a chiadeira.
    Pelamor! Ou um ou outro! Tudo ao mesmo tempo não vai dar!
    Fora que foi um parto construir nossas instituições econômicas. Mas dá para perceber que há algo errado quando metade do país viaja para comprar enxoval, pasta de dente e toda aquela quinquilharia, né não?
    De positivo mesmo, só a mudança de meta estabelecida pela presidente, de 5% para 10% dos investimentos do PIB em educação até 2020, sendo que serão mais de R$ 3 bilhões só em alfabetização, em 2013/14.