domingo, 30 de junho de 2013

Mônica Bergamo

folha de são paulo

Atriz Maria Ribeiro, integrante do 'Saia Justa', encara a 'patrulha' ao falar o que pensa

A atriz Maria Ribeiro, 37, já avisou à analista que a atende há 17 anos, duas vezes por semana. Se um dia ela lhe der alta, não vai aceitar. "Amor, não viveria sem análise. Acho que deveria ter no SUS [Sistema Único de Saúde], é muito importante", diz. "Tem gente que fala: 'Mas isso é uma muleta'. Sim, amor. Chocolate também é. Preciso de muletas pra viver."
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Os anos no divã a fazem ver com clareza que há um preço a pagar quando diz o que pensa. Ainda mais na televisão, na frente de milhares de pessoas, como faz desde março no "Saia Justa", do canal pago GNT. "Estou bancando desagradar", diz à repórter Lígia Mesquita.
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No camarim da produtora onde grava a atração, em SP, carrega uma sacola reciclável com três jornais, três revistas e um caderno cheio de anotações. Enquanto folheia uma das publicações, salta à vista o dedo envolto em um bandeide. "Quebrei a unha escalando uma pedra com meu filho. Coloquei Super Bonder, mas não adiantou", diz, antes de entrar no estúdio com as colegas Astrid Fontenelle, Barbara Gancia e Mônica Martelli.
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O tema do "Saia" daquele dia era intolerância. Maria revela que julga muito pela aparência e que já teve preconceito ao ver a empregada de shortinho. E diz achar "uma pena que na nossa dramaturgia não haja casais de velhos, só de jovens", como o de idosos do filme "Amor", do diretor Michael Haneke.
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Mas ela tem noção de que é arriscado bancar algumas opiniões em tempos de patrulha nas redes sociais. "Tem muito patrulhamento. Fico dividida entre falar 'caramba, não tô nem aí, acho isso uma caretice' e querendo ser querida", afirma. "Ator ama ser querido. Às vezes fico com uma rebordosa do que falei, mas não dá pra ficar com o freio de mão puxado."
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A atriz acha "irritante" o fato de muitos colegas não opinarem sobre nada. "As pessoas que eu admiro falam o que pensam. E eu não sou tão importante assim, não me levem tão a sério. Senão você começa a acreditar que sua opinião importa mais do que outra." Para ela, muitos se calam por causa de interesses comerciais. "As pessoas pensam: 'Não vou falar porque não vou agradar'. Cara, sou atriz, não um produto."
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Seu trabalho como atriz pode ser visto atualmente na série "Copa Hotel", também do GNT, que já tem segunda temporada confirmada. E se prepara para começar a ensaiar a peça "Os Irmãos Karamázov", ao lado do marido, o ator Caio Blat.
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Maria ainda arranja tempo para dois projetos cinematográficos. A atriz de "Tropa de Elite" finaliza agora a edição de seu segundo documentário, sobre a banda Los Hermanos --o primeiro foi "Domingos" (2011), em que fala do diretor, ator e dramaturgo Domingos de Oliveira.

A atriz Maria Ribeiro finaliza filme sobre Los Hermanos

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Eduardo Knapp/Folhapress
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A atriz Maria Ribeiro integra o programa "Saia Justa" (GNT) desde março
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Ela também está escrevendo um roteiro de ficção: a história de uma garota filha de exilados brasileiros na França que busca suas origens. "Quero ter mais domínio de todas as etapas de trabalho, do processo criativo todo. Quero ser o Domingos. Mais alto ainda, o Woody Allen, um cara que atua em suas próprias coisas."
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Mas não descarta voltar a fazer folhetins. "Me dá um pouco de irritaçãozinha quando um ator fala: 'Agora não quero mais fazer novela'. Eu ralei tanto pra chegar aonde cheguei. Eu quero que me chamem pra novela, que tirem foto comigo na rua", diz. Ela foi do elenco da Record até o fim de 2012.
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Sem contrato com nenhuma emissora de canal aberto, diz que dá para viver assim. "Não dá pra viajar de [classe] executiva, nem ter bolsa Louis Vuitton. Mas vivo muito bem." De uma família de classe média alta do Rio, conta que já gastou R$ 3.000 num mês em roupas nacionais. "Não tenho essa parada [fetiche] com marca gringa." Hoje, afirma se divertir comprando na Zara.
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Quando a gravação do "Saia" termina, ela vai para a mesa com comidinhas. "Minha barriga está roncando." Pega um pedaço de torta de ricota e toma suco de pêssego. Confere o celular. "Estou viciada nessa merda, em ficar conectada."
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Interrompe a conversa porque precisa ir para o aeroporto. O filho caçula, Bento, 3, do casamento com Blat, está com uma virose. Ela também é mãe de João, 10, do relacionamento com o ator Paulo Betti, 23 anos mais velho. "Paulo achava um mico ser casado com uma mulher muito mais nova. E eu achava cafona uma mulher de 20 com um cara de 40, mas me apaixonei perdidamente. E aí?"
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Maria não gostaria que os herdeiros seguissem a mesma carreira abraçada pelos pais. "Preferia que eles fossem médicos, ou escritores", diz. "Acho que hoje virou algo 'mega yeah' ser artista. É perigoso você acreditar [que tem tanta importância], ficar mal ou bem por estar ou não fazendo sucesso. Mas o sucesso é você."
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A conversa da atriz com a coluna é retomada duas semanas depois, em um domingo à noite. Dessa vez, no restaurante Spot, em SP. Ela está no local confraternizando com as colegas do "Saia Justa". Toma uma taça de vinho tinto e pede uma terrine de queijo de cabra e cogumelos.
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Tira da mochila o laptop para mostrar um trecho promocional do filme "Los Hermanos - Esse É Só o Começo do Fim da Nossa Vida" (título provisório). Ela pretende apresentar o longa no Festival do Rio, em setembro.
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Assim que o vídeo começa a rodar e sobe o som dos primeiros acordes da música "O Vencedor", cantarola um trecho: "Olha lá, quem vem do lado oposto/ vem sem gosto de viver/ Olha lá, que os bravos são/ Escravos são e salvos de sofrer".
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Na tela, os músicos estão em ação em um dos shows da turnê de aniversário de 15 anos da banda, que ficou anos sem tocar. A atriz foi a dez apresentações em sete cidades. Só ela e mais um câmera captaram todas as imagens. Dos R$ 60 mil que custou a produção, bancou metade. A outra parte teve como investidor um amigo.
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"Fiquei três anos atrás deles pedindo para fazer entrevistas, mostrar cenas de shows. Quando eles anunciaram a turnê de volta, tentei de novo, falei com o [Marcelo] Camelo, e eles toparam", conta. "No fundo, falar desses caras, dos Hermanos, é falar sobre mim, da passagem do tempo. Mostrar até que ponto é possível continuar fazendo o que você acredita à medida que vai se profissionalizando e o tempo passa."
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Aos 37, acha que o tempo tem sido um bom aliado. "Fui totalmente infeliz jovem, era muito angustiada. Agora já sei quem eu sou, que tem coisas que não sou capaz de fazer. Sei que não vou à Índia, não vou à praia. Me cobro muito menos", afirma.
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Moradora do Itanhangá, na zona oeste do Rio, ela diz que é "anticarioca". "Odeio praia, odeio calor, odeio o jeito descompromissado dos cariocas", diz. Mas, quando vai à praia, não é "aquela mulher seguríssima com o corpo".
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Há três anos, ela declarou em uma entrevista à revista "TPM" que queria ser gostosa. Mas seu projeto não foi adiante.
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"Não dou tanta importância pra malhação, senão eu fazia", afirma. "Morro de inveja de quem sai pra comer e pede só uma saladinha. Agora, tô querendo voltar a ser inteligente."
Mônica Bergamo
Mônica Bergamo, jornalista, assina coluna diária publicada na página 2 da versão impressa de "Ilustrada". Traz informações sobre diversas áreas, entre elas, política, moda e coluna social. Está na Folha desde abril de 1999.

Maior estilista do Brasil, Alexandre Herchcovitch pensa em pedir asilo político em outro país - Chico Felitti

folha de são paulo
REVISTA SERAFINA
Alexandre Herchcovitch, 41, não sabe se ama o Brasil ou deixa-o. O maior estilista do país estava no protesto que tomou pontes e marginais de São Paulo em 17 de junho. Mas cogita pedir asilo político a outra nação. "São ideias", desconversa -que há tempo cruzam sua cabeça.
"Não tenho nenhum apego por SP. Absorvi tudo o que a cidade poderia dar como influência", disse há um ano, em entrevista a um site.

Ainda assim, foi às ruas com o povo paulistano. "Andei no máximo um quilômetro, fora as duas horas na concentração." Na manhã seguinte, sua conta no Twitter causou tumulto virtual. A frase publicada era: "Por que não acontecem manifestações no Norte e Nordeste? É lá que elegem os políticos corruptos."
Ele disse que a mensagem veio de um hacker que invadira seu perfil, agora desativado. "Não quero mais expor minha vida dessa forma."

Alexandre Herchcovitch

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Daniel Klajmic
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Raio-x do estilista Alexandre Herchcovitch feito especialmente para a Serafina, no dia 18 de junho de 2013
Talvez o distanciamento da identidade nacional seja um dos ingredientes que o levaram a ser grande na moda. "Ele foi o primeiro a ter dimensão internacional no estilo. Não que fosse um estilo brasileiro, porque não é. É universal", avalia a consultora de moda Costanza Pascolato.
Para ela, Alexandre poderia fazer moda aqui ou em qualquer lugar do mundo. Até porque o sobrenome se passa com desenvoltura por gringo, ainda que seja abrasileirado. Vem do original Herchcovic, da Polônia, onde também é lido "rérchcoviti". A seção "Erramos" daFolha já corrigiu quatro vezes o nome, com nove consoantes para três vogais.

SPFW verão 2014 - Alexandre Herchcovitch

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Edson Lopes Jr./Folhapress
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Desfile de Alexandre Herchcovitch no quarto dia da São Paulo Fashion Week primavera-verão 2013/2014, na Bienal do Ibirapuera Leia mais
PAGANDO BEM...
Mas a ideia não era vestir só criaturas da noite. Alexandre queria estudar fora. Com 14 anos, começou a juntar dinheiro vendendo lenços, camisetas e mochilas. Ainda menor de idade, viajou a Nova York e pediu uma entrevista na renomada escola de moda Fashion Institute of Technology, onde queria se formar.
"Disseram que, para ir para lá, eu precisaria estar na faculdade aqui." Passou pelo curso de artes plásticas da Faap antes de descobrir que existia a graduação em moda na faculdade Santa Marcelina. Mudou de curso, mas saiu pouco antes de terminar, quando começou a pegar trabalhos grandes.
"Quando eu estava para me formar, o Paulo Borges me chamou para fazer um desfile no Phytoervas Fashion." Era 1994, e ele foi um dos três costureiros a estrear o evento que viria a se tornar a São Paulo Fashion Week.
Há uns dez anos ("por aí, não lembro bem"), prestou vestibular de novo. "Achei que não ia passar." Passou, fez a matéria de linguagem instrumental que faltava no currículo e se formou.
A família apoiou o estilista, na profissão e em decisões pessoais. A mãe foi convencida pelos filhos, ainda adolescentes, a fazer uma tatuagem. Os três foram juntos, e cada um tatuou um inseto na mão. Ao chegar em casa, esperavam o ralho do pai. Não veio e hoje Benjamin tem uma caveira, parecida com o símbolo da marca, tatuada em cada braço.
A progenitora e o irmão mais novo, Arthur, começaram a trabalhar para o estilista em 1994. Mas a família foi afastada da marca depois que o conglomerado InBrands o arrematou, em 2008, por um número de milhões não revelado. "Não era esperado. Eu tinha trabalhado com o Alê desde o começo", diz a mãe. "Mexeram muito na empresa que já existia. Hoje, vejo que não precisava ter sido assim", diz ele, que chegou a ter 30% de sua marca antes de se desfazer de toda propriedade que leva seu nome.
Alexandre Herchcovitch vende. E também empresta seu nome a produtos de cama, mesa e banho. Em 15 anos de licenciamento, já foi marca de isqueiro, de band-aid, de óculos, de caderno, de mochila, de skate, de celular. No total, sua equipe produz 1.500 itens por ano, calcula. Não sabe o quanto é roupa e o quanto é o resto. "Já fiz produtos só pelo dinheiro, é claro, não vou mentir."
Mas não é qualquer proposta que o convence. "Eu digo mais não do que sim", afirma. E não tem medo de banalizar a marca. "Cheguei a pensar que [o mercado] saturava, mas não parei." Ainda sonha criar azulejos, um carro e um hotel.
Licenciar significa dinheiro para a grife, e ele tem metas de faturamento para bater. Vem conseguindo. Depois de cinco anos como diretor criativo da marca que leva seu nome, seu contrato chegou ao fim neste ano. Foi renovado. "Aprendi a negociar." No começo, era a mãe que pegava o telefone para dizer o preço das peças para os clientes. "Eu ficava com vergonha e pedia menos. Hoje, sei cobrar bem. Sei o meu valor."

Alexandre Herchcovitch

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Zanone Fraissat - 21.mar.2013/Folhapress
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O crânio da moda
O estilista Alexandre Herchcovitch comemora 20 anos da marca que leva seu nome complicado e da qual hoje não é mais dono, e sim empregado. E ainda pensa em criar azulejos, um carro e um hotel, quer se casar e deixar o país
CHICO FELITTIDE SÃO PAULOAlexandre Herchcovitch, 41, não sabe se ama o Brasil ou deixa-o. O maior estilista do país estava no protesto que tomou pontes e marginais de São Paulo em 17 de junho. Mas cogita pedir asilo político a outra nação. "São ideias", desconversa ""que há tempo cruzam sua cabeça. "Não tenho nenhum apego por SP. Absorvi tudo o que a cidade poderia dar como influência", disse há um ano, em entrevista a um site.
Ainda assim, foi às ruas com o povo paulistano. "Andei no máximo um quilômetro, fora as duas horas na concentração." Na manhã seguinte, sua conta no Twitter causou tumulto virtual. A frase publicada era: "Por que não acontecem manifestações no Norte e Nordeste? É lá que elegem os políticos corruptos." Ele disse que a mensagem veio de um hacker que invadira seu perfil, agora desativado. "Não quero mais expor minha vida dessa forma."
Talvez o distanciamento da identidade nacional seja um dos ingredientes que o levaram a ser grande na moda. "Ele foi o primeiro a ter dimensão internacional no estilo. Não que fosse um estilo brasileiro, porque não é. É universal", diz a consultora de moda Costanza Pascolato.
Para ela, Alexandre poderia fazer moda aqui ou em qualquer lugar do mundo. Até porque o sobrenome se passa com desenvoltura por gringo, ainda que seja abrasileirado. Vem do original Herchcovic, da Polônia, onde também é lido "rérchcoviti". A seção "Erramos" da Folha já corrigiu quatro vezes o nome, com nove consoantes para três vogais.
TAPA NA PANTERA
Quando começou a aparecer na imprensa, nos anos 1990, recebeu o aposto de "o estilista da Márcia Pantera". Drag queen que reinava em inferninhos paulistanos, Pantera hoje tem 43 anos e continua batendo ponto em boates como a Nostro Mondo, onde Alexandre a conheceu.
"Ele falou que gostava de mim e que queria me fazer uma roupa. Pensei: Tá boa que essa bicha vai fazer roupa para mim?!'", lembra Pantera. Pois fez um macacão de renda branca. E depois mais 300 peças, das quais só restam 15."Passei uns anos perdida na noite. Deixei de falar com ele. Tinha vergonha do que eu tava fazendo. O Alê é caretíssimo."
Na sua única loja em São Paulo, nos Jardins, ele conta que quis criar um modelo para um travesti para "vestir uma pessoa diferente das amigas que usavam minha roupa". A conversa é interrompida por um barulho no andar de baixo. "Eles precisam falar tão alto?", pergunta em voz baixa para o coordenador de marketing da marca, que desce para ver a razão da balbúrdia.
Ao voltar, Daniel Raad diz: "É ela". "Ela quem?", pergunta o estilista. Márcia Pantera em pessoa, que passou para ver como anda o figurino do show de comemoração dos seus 25 anos de carreira. O estilista não faz menção de pedir que a musa original suba para encontrá-lo. Tampouco desce para recebê-la.
Depois de começar a vestir Pantera, a clientela abundou e desbundou, conta a família. "Era um tal de garota de programa ligando aqui em casa", diz Regina Herchcovitch, 67, que cedeu a sala do apartamento no Sumaré, onde ainda mora, para o ateliê do primogênito.
A casa já era de moda antes disso. Dona Regina tinha uma confecção de lingeries, depois de ter deixado a carreira no banco. Era do seu estoque que o filho se nutria. "Quando eu fazia roupa de renda, não é que fosse um fetiche. Era o material que eu tinha em casa", conta ele.
"Eu tava assistindo ao Jornal Nacional' e passava uma prostituta na frente da TV, entrava no meu quarto e ia usar o espelho, para ver como a roupa tinha ficado", conta Benjamin Herchcovitch, 68, engenheiro, pai e ator ""ele atuou como pai de Alexandre num seriado da HBO, em que o filho interpretava... um estilista homossexual e judeu.
PAGANDO BEM...
Mas a ideia não era vestir só criaturas da noite. Alexandre queria estudar fora. Com 14 anos, começou a juntar dinheiro vendendo lenços, camisetas e mochilas. Ainda menor de idade, viajou a Nova York e pediu uma entrevista na renomada escola de moda Fashion Institute of Technology.
"Disseram que, para ir para lá, eu precisaria estar na faculdade aqui." Passou pelo curso de artes plásticas da Faap antes de descobrir que existia a graduação em moda na faculdade Santa Marcelina. Mudou de curso, mas saiu pouco antes de terminar, quando começou a pegar trabalhos grandes. "Quando estava para me formar, Paulo Borges me chamou para fazer um desfile no Phytoervas Fashion." Era 1994, e ele foi um dos costureiros a estrear o evento que viria a se tornar a São Paulo Fashion Week.
Há uns dez anos, prestou vestibular de novo. Passou, fez a matéria de linguagem instrumental que faltava no currículo e se formou.
A família apoiou o estilista, na profissão e em decisões pessoais. A mãe foi convencida pelos filhos, ainda adolescentes, a fazer uma tatuagem. Os três foram juntos, e cada um tatuou um inseto na mão. Ao chegar em casa, esperavam o ralho do pai. Não veio e hoje Benjamin tem uma caveira, parecida com o símbolo da marca, tatuada em cada braço.
A progenitora e o irmão mais novo, Arthur, começaram a trabalhar para o estilista em 1994. Mas a família foi afastada da marca depois que o conglomerado InBrands o arrematou, em 2008, por um número de milhões não revelado. "Não era esperado. Eu tinha trabalhado com o Alê desde o começo", diz a mãe. "Mexeram muito na empresa que já existia. Hoje, vejo que não precisava ter sido assim", diz ele, que chegou a ter 30% de sua marca antes de se desfazer de toda propriedade que leva seu nome.
Alexandre Herchcovitch vende. E também empresta seu nome a produtos de cama, mesa e banho. Em 15 anos de licenciamento, já foi marca de isqueiro, de band-aid, de óculos, de caderno, de mochila, de skate, de celular. No total, sua equipe produz 1.500 itens por ano, calcula. Não sabe o quanto é roupa e o quanto é o resto. "Já fiz produtos só pelo dinheiro, é claro, não vou mentir."
Mas não é qualquer proposta que o convence. "Eu digo mais não do que sim", afirma. Não tem medo de banalizar a marca. "Cheguei a pensar que [o mercado] saturava, mas não parei." Ainda sonha criar azulejos, carro e hotel.
Licenciar significa dinheiro para a grife, e ele tem metas de faturamento para bater. Vem conseguindo. Depois de cinco anos como diretor criativo da marca que leva seu nome, seu contrato chegou ao fim neste ano. Foi renovado. "Aprendi a negociar." No começo, era a mãe que pegava o telefone para dizer o preço das peças para os clientes. "Eu ficava com vergonha e pedia menos. Hoje, sei cobrar bem. Sei o meu valor."
Desde que virou funcionário de seu próprio nome, ele diz trabalhar menos. Chega ao escritório às 8h. Almoça ao meio-dia. Às cinco da tarde, começa a pensar: "Já posso ir embora?" Parte e deixa a equipe de sete pessoas, que usam a mesma caneta que ele, para os desenhos ficarem semelhantes uns aos outros.
"Não é complicado ser chefe", garante.
Um ex-subordinado ensina que o silêncio desse chefe diz muito. "Quando ele gosta de algo, retorna rápido, falando que tá lindo. Se passou um dia e ele não respondeu, pode sentar e recomeçar o trabalho, pois não está bom. Mas isso não vai ser dito explicitamente."
SEM DILMA
"Por favor, não corta aqui embaixo. E depois dá uma aparada na sobrancelha?", pede o estilista ao barbeiro, numa sala privativa do salão de Celso Kamura, na rua da Consolação. Os dois se conheceram num concurso de Miss Travesti Brasil há 20 anos. Kamura, 54, faz os cabelos e a maquiagem de seus desfiles até hoje.
A dupla foi escalada em 2010, pelo marqueteiro João Santana, para cuidar do visual da então ministra Dilma Rousseff, que se candidataria à presidência. Enquanto Kamura ainda vai ao Palácio do Planalto navalhar os cabelos da presidente, a parceria com o estilista mirrou.
Não foi falta de empenho, ele garante. Alexandre voou até Brasília, pegou peças do guarda-roupa dela e as reproduziu, "com poucas modificações". "Fiz um par de camisas, umas duas calças e mais outras peças. Ela nem provou nada."
Já Kamura define sua fama como AD/DD (antes de Dilma e depois de Dilma). "As pessoas me reconhecem na rua agora. Fui para o interior da Bahia uma vez e vieram me perguntar se eu era eu. É babado!" Alexandre não lamenta o que poderia ter ganhado com a parceria. "Ela não quis, eu sei que fiz um bom trabalho." Diz lidar bem com a rejeição, assim como tira de letra críticas ruins.
"Não me afeta." Dá como exemplo uma crítica de Gloria Kalil, que havia considerado "infantis" as modelagens da temporada de junho de 2004, inspiradas em bonecas russas. "Foi a coleção que mais vendeu até agora."
Se tivesse olhado para o lado no salão de Kamura, teria visto a própria Gloria Kalil, esperando para fazer uma escova. "O Alexandre é um criador, não só um estilista. É um desestabilizador. Propõe o inesperado. O esquisito."
Trajetória similar à do estilista inglês Alexander McQueen, que se suicidou em 2010, aos 40 anos. As semelhanças não param no nome, na idade e no fato de os dois terem adotado a caveira como símbolo, acredita. "A gente estava na faculdade no mesmo período. E chamavam os dois de enfant terrible'."
"Oublions l'enfant!", sentencia em francês Gloria Kalil. A frase quer dizer "esqueçamos o menino". Mas o terrível fica. "Ele não é mais menino. Cresceu."
Fez parte do processo de crescimento sossegar o facho. Conhecido como estilista dos clubbers na década de 1990, ele não é mais da noite. "Nem na década de 1990 eu saía muito. Era uma vez por semana, duas." Hoje, nem isso.
Sua diversão é viajar. A negócios, vai para Nova York ao menos duas vezes por ano, para a semana de moda onde desfila e para arejar o apartamento que comprou lá. Ruma uma vez por ano para Tóquio, onde teve uma loja. Mas diz que só relaxa mesmo quando vai para uma praia deserta. "É o único momento em que não trabalho."
Sua antiga companhia de diversão não está mais lá. Ele e o DJ Johnny Luxo foram o Batman e Robin da moda brasileira. Johnny era modelo nos primeiros desfiles do amigo. Quando Alexandre foi eleito pela Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil) o melhor estilista de 2000, subiram os dois no palco: o estilista num escarpim rosa salto quatro e Johnny numa bota de salto 18.
"Não o vejo mais porque a vida dele tomou outros rumos. O Alexandre continua com a loja, os 50 mil licenciamentos dele e o namorado", diz Johnny.
Namorado, não: marido. É assim que o estilista se refere a Fábio Souza, 36, dono do brechó À La Garçonne, que reabriu na rua Oscar Freire, no último 15 de junho.
Os dois estão juntos há sete anos e moram numa cobertura em Higienópolis. Fizeram contrato de união estável em 2010, num cartório da praça da Sé. Têm cinco cachorros de pequeno porte. Dois são "chinese cresteds", raça que já ganhou o concurso World's Ugliest Dog (cão mais feio do mundo).
O casal planeja agora uma festa de casamento no sentido estrito do termo. Fábio já fez uma lista. Alexandre negocia para reduzir a um jantar. """E tá bom, né?"
O estilista perdeu dez quilos nos últimos meses, cortando doces e porções. E acabou de fazer uma nova tatuagem, uma versão estilizada dos ossos da mão direita. Como se o esqueleto estivesse se pronunciando sobre a pele. Estaria ele virando a caveira que escolheu como logomarca? "Não é por causa da marca."
O crânio tampouco tem a ver com a cena clássica de "Hamlet", de Shakespeare. Nasceu no clube A Hebraica, da comunidade judaica paulistana. "Tinha uns 15 anos, e encontrei o [hoje stylist] David Pollak. Ele disse que queria uma camiseta de caveira. Eu fui e desenhei a caveira." Identidade por encomenda. "Não é assunto para análise. Ainda uso como estampa porque vende bem."

    Mauricio Stycer

    Folha de São Paulo
    Proteste já
    Recolhi essas propostas de espectadores de TV que, como eu, comentam tudo que veem no Twitter
    De: Colunista de TV
    Para: Organização do protesto
    Assunto: Temas para passeata
    Caros, seguem algumas sugestões de temas que podem ser mencionados em cartazes na próxima manifestação pacífica no centro da cidade. Não reparem a confusão e a falta de foco. Recolhi estas propostas de espectadores de televisão que, como eu, comentam tudo que veem no Twitter. Fiquem à vontade para sugerir outros assuntos e, também, para melhorar a rima destas palavras de ordem. Os cartazes são por nossa conta. Obrigado.
    Mais criatividade! Menos repetição!
    Mais diversão! Menos anão!
    Aviãozinho de dinheiro = humilhação!
    Quer fazer uma pegadinha na TV? Teste antes com algum familiar seu!
    Ô, Globo, vê se me explica: como é que pode o Ronaldo comentarista?
    Ei, ei, ei, libera o beijo gay!
    RedeTV!, o que deu em você?
    Marcelo Tas: Ernesto Varela e Professor Tibúrcio estão com saudades de te ver.
    Que deselegante! Sandra Annenberg chamar Fátima Bernardes de Fatinha!
    Menos João Sorrisão! Mais informação!
    Pelo fim do assistencialismo em programas de auditório.
    Reformar uma casa por mês eleva a audiência, mas não resolve nada.
    Dance o "quadradinho de oito" na frente do espelho antes de fazer na televisão!
    Mais "Avenida Brasil"! Menos "Guerra dos Sexos"!
    Faustão, contrate uma figurinista!
    Pelo fim da propaganda religiosa disfarçada em "Amor à Vida".
    Fala que eu te escuto: pela proibição da venda de horários para pregação religiosa na televisão.
    Bonner, pare de olhar para a Poeta!
    Gugu, cadê você? Não estou triste de não te ver mais por aqui!
    Gugu, cadê você? Quem é o próximo a deixar a nossa TV?
    Por que só as loiras podem ser apresentadoras de TV? Queremos cotas para morenas e ruivas.
    Quem é Ticiane Pinheiro?
    O povo não é bobo, abaixo a Gloria Perez!
    Quer iludir o público? Tudo bem, mas seja talentoso. Aprenda com João Kléber!
    O Brasil quer saber: quem precisa de tanto reality show?
    Gosto de bons programas ruins!
    Datena + Marcelo Rezende = "Apocalipse Now"!
    Ei, Adnet, saiu da MTV pra quê?
    Ei, Russomanno, não liguei a TV para te ver!
    Ei, Galisteu, faz um programa bom pra gente ver!
    Cala a boca, Galvão!
    Mais televisão, menos enganação!

      A vez do povo desorganizado - Ferreira Gullar

      folha de são paulo
      A vez do povo desorganizado
      Os políticos se tornaram uma casta que se apropriou da máquina do Estado em seu próprio benefício
      As manifestações de protesto ocorridas nas últimas semanas em numerosas cidades brasileiras são, sem sombra de dúvida, um fenômeno novo na vida política do país, nos últimos 20 anos.
      Causou surpresa a muita gente --inclusive a mim-- que o aumento de R$ 0,20 nas tarifas de transporte urbano tenha provocado tamanha revolta e mobilizado tanta gente.
      É que essas manifestações traziam consigo outras motivações que não se revelaram no primeiro momento. Logo pôde-se ver que o aumento das tarifas foi apenas o detonador de um descontentamento maior que põe em questão o próprio sistema político que nos governa.
      Ouvi e li opiniões segundo as quais trata-se de um fenômeno internacional, uma vez que, em vários países, protestos populares têm se repetido com frequência. Trata-se, creio eu, de uma opinião equivocada, já que as razões desses protestos são diferentes de país para país. O que há de comum neles é a influência das redes sociais, que possibilitam mobilizações em tal escala.
      No caso do Brasil, por exemplo, está evidente que a revolta é contra os políticos em geral, sejam de que partidos forem, pertençam ao governo ou à oposição. Isso se tornou evidente em diversos momentos quando militantes deste ou daquele partido tentaram se manifestar: foram vaiados e até espancados. Foi o caso do PT que, oportunista como sempre, tentou tirar vantagem da situação e se deu mal.
      Mas de onde vem esse horror aos políticos? A resposta é óbvia: eles se tornaram uma casta que se apropriou da máquina do Estado em seu próprio benefício.
      Essa máquina, que é mantida com o dinheiro de impostos escorchantes, eles usam para empregar seus parentes e companheiros de partido, para enriquecer a si e a seus familiares, manipulando licitações e contratos de obras públicas --e usam isso, sobretudo, para se manter no poder.
      Essa situação tornou-se particularmente insuportável depois que Lula assumiu o governo e pôs em prática uma política populista que veio agravar ainda mais aqueles fatores negativos da vida política brasileira. Quem nele acreditava viu, decepcionado, que ele ignorou os compromissos éticos assumidos e aliou-se a figuras como Maluf e o bispo Macedo --sem falar na compra, com dinheiro público, de partidos corruptos.
      Essa aliança, com o submundo político, de um líder que surgiu como uma esperança de renovação, só poderia conduzir as pessoas em geral --e particularmente os que confiaram nele-- à desesperança total quanto ao futuro da nação.
      O mais grave é que, somando-se isso à política assistencialista que adotou, tornou-se eleitoralmente imbatível. Assim, sem outra saída, os inconformados foram para as ruas. Nessa rejeição ao poder constituído e aos políticos em geral, o povo descontente pode não saber ainda por onde vai, mas sabe por onde não vai.
      Não por acaso, a maioria desses manifestantes é de classe média. Não foram os pobres dos subúrbios que vieram para as ruas protestar, pois recebem Bolsa Família e melhoraram de vida. Quem está insatisfeita e revoltada é a parte da sociedade que só perdeu com o populismo lulista, uma vez que o dinheiro público, em lugar de ser investido em hospitais, escolas e serviços públicos, foi e é usado em programas assistencialistas e demagógicos.
      Por outro lado, o lulismo cooptou as entidades representativas dos trabalhadores e dos estudantes (a CUT e a UNE), que, contrariamente a suas origens e à sua história, agora impedem manifestações contrárias ao governo. Desse modo, tanto os trabalhadores quanto os estudantes não têm quem os represente na luta por suas reivindicações.
      Por isso, meses atrás, afirmei nesta coluna que a única solução possível seria o povo desorganizado ir para as ruas, já que não conta com as organizações que deveriam representá-lo. É o que acontece agora: o povo desorganizado está nas ruas. Desmascarada, a CUT tentou juntar-se aos manifestantes, mas foi repelida por eles.
      Sem alternativa, a presidente Dilma promoveu uma reunião com governadores e prefeitos para aparecer como porta-voz dos inconformados, e propôs medidas que não se sabe quando nem se serão mesmo postas em prática.