quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Alan Gripp

folha de são paulo
Herança maldita
SÃO PAULO - O roteiro é manjado. O protesto, seja lá contra o que for, começa pacífico até que um grupo mascarado, como se atendesse a um comando único, toma a frente da marcha e começa a quebrar tudo o que surge pela frente.
"Chegaram os black blocs'", costuma-se ouvir entre os manifestantes, num tom que mistura medo e um certo glamour da violência.
O "black bloc", na verdade, não é um movimento, e sim uma estratégia de protesto anarquista. Seus adeptos cobrem o rosto e se vestem de preto para dificultar a identificação e a fim de parecer uma massa única, criando uma aura revolucionária.
Esse método apareceu nos protestos antiglobalização no fim da década de 1990. Símbolos capitalistas são os alvos preferidos, mas a versão tupiniquim tem especial atração por semáforos, radares, cabines da PM e outros equipamentos públicos.
Por aqui, seus adeptos deram as caras nos primeiros atos pela redução da tarifa de ônibus, em São Paulo. De lá para cá, entretanto, muita coisa mudou. Os "black blocs", especialmente paulistas e cariocas, crescem em progressão geométrica, estão sempre preparados para a guerra e já organizam as suas pró- prias manifestações.
Anteontem, na avenida Rebouças, portavam martelos e marretas, usados para quebrar agências bancárias e carros de luxo de uma loja.
Há três semanas, num ato contra a TV Globo, usaram laptops e projetores para exibir mensagens gigantes nas fachadas de prédios.
Nesse mesmo dia, em "assembleia" assistida pela Folha, discutiram táticas para escapar da polícia, entre elas hospedar sites em servidores da Rússia ou de Taiwan, "impossíveis de derrubar".
As "vozes das ruas" produziram conquistas inegáveis. A principal delas foi dar à classe política a sensação de estar sendo constantemente vigiada. Nesse balanço, porém, pode-se dizer que os "black blocs" são a herança maldita dos protestos.

    Agosto de risco - Usina de atrasos - Editoriais FolhaSP

    folha de são paulo
    Agosto de risco
    Não bastassem os sinais de deterioração da economia brasileira, presidente vê-se ameaçada de perder o controle sobre a política
    A presidente Dilma Rousseff sabe que não são poucos nem pequenos os perigos que seu governo correrá neste mês de agosto.
    Oficialmente de volta aos trabalhos hoje, deputados e senadores devem encaminhar, a partir da próxima semana, a votação de diversos projetos que contrariam os interesses do Planalto.
    Entra nessa lista, por exemplo, a promessa, feita pela bancada do PMDB, de apresentar proposta de emenda constitucional a fim de reduzir de 39 para 20 o total de ministérios do governo Dilma.
    Premida pelos próprios aliados, a presidente decidiu liberar R$ 2 bilhões em emendas feitas pelos congressistas ao Orçamento da União --e outros R$ 4 bilhões devem ser autorizados em setembro.
    Salvo nos recorrentes episódios de corrupção, o dinheiro dessas emendas costuma ser aplicado pelos parlamentares no atendimento de demandas paroquiais. Verbas, portanto, cruciais para a sobrevivência eleitoral de quem já dispõe de uma cadeira no Congresso.
    Não seria difícil perceber nas entrelinhas dessa negociação o conhecido "toma lá, dá cá" que predomina nas relações entre Executivos e Legislativos. Dilma, porém, talvez por sua falta de disposição para o trato político, achou que seria o caso de explicitar todas as cláusulas desse contrato.
    Em reunião à qual compareceram ministros do PT, do PMDB, do PP, do PC do B e do PSB, a presidente avisou que eles deverão garantir a fidelidade das bancadas de seus respectivos partidos no Congresso --o que nem sempre tem ocorrido, embora essas siglas componham o primeiro escalão federal.
    Há dúvidas, no entanto, de que a operação possa alcançar os fins esperados. O Congresso já vinha se mostrando arisco mesmo quando Dilma se refestelava em níveis recordes de popularidade. Depois que os protestos de junho fizeram desabar a aprovação presidencial, seria imprudente apostar na lealdade dos aliados.
    Se prevalecer o espírito de vingança dos congressistas, o governo pode sair derrotado em votações de projetos importantes e potencialmente custosos, como o que define o destino dos recursos arrecadados com a exploração do petróleo; o que aumenta a alíquota dos royalties da mineração; e o que cria o passe livre para estudantes no transporte público de todo o país.
    Já não são poucos os sinais de deterioração da economia brasileira na gestão de Dilma Rousseff. A presidente, agora, vê-se ameaçada de perder também o controle da política nacional.
      EDITORIAIS
      editoriais@uol.com.br
      Usina de atrasos
      São pelo menos quatro as razões para considerar preocupante a notícia de que o Ibama poderá paralisar a polêmica hidrelétrica de Belo Monte em 2014, quando deveria iniciar-se o enchimento de seu reservatório.
      A ameaça, tal como revelado por esta Folha, consta de parecer do instituto sobre o terceiro relatório de acompanhamento das medidas sociais e ambientais com que o consórcio Norte Energia se comprometeu. Da lista de 23 precondições para a definitiva licença de operação da usina, sete estão sendo descumpridas.
      O primeiro motivo de preocupação decorre do porte de Belo Monte. A hidrelétrica no rio Xingu proverá uma média de 4.571 megawatts de eletricidade (embora sua capacidade seja de 11.233 MW).
      A potência total instalada para geração de energia elétrica no país, ao final de 2012, era de 121 mil MW. Belo Monte sozinha agregaria quase um décimo de capacidade a esse parque --e de energia limpa (renovável). Se não operar em 2015, como previsto, serão acionadas termelétricas movidas a energia fóssil (óleo, gás e carvão).
      Nesta altura, é incontornável construir Belo Monte, mas cabe fazê-lo de forma civilizada. Eis aqui a segunda fonte de preocupação.
      Erguer uma usina dessas na Amazônia e na vizinhança de centros urbanos como Altamira, com mais de 100 mil habitantes, implica considerável impacto social e ambiental. Dar mais prioridade para a obra que para obrigações nessa vertente só favoreceria os adversários do empreendimento.
      O Brasil deve a si mesmo uma prova de que é capaz de suprir as necessidades de desenvolvimento futuro sem reincidir no desprezo pelas populações e pelo ambiente.
      Ao apreciar o primeiro relatório de acompanhamento da Norte Energia, o Ibama multou a empresa em R$ 7 milhões --autuação sob recurso administrativo. No segundo relatório, novos descumprimentos, mas nenhuma punição.
      A agência ambiental deve por certo aguardar os esclarecimentos da empresa. Mas em algum momento sua dura avaliação terá de redundar em sanções, sob pena de reforçar a interpretação de que suas decisões são meramente políticas ­--o terceiro motivo de alarme.
      Por fim, mas não menos preocupante, há o impacto propriamente dito. Não é concebível duplicar a população de uma cidade, como se espera em Altamira, represar o rio que a serve e seguir lançando nele esgotos sem tratamento.
      Não se trata de empresa privada, cabe lembrar, mas de um consórcio dominado pela Eletrobras e por fundos de pensão de estatais, financiado pelo BNDES. Para o bem ou para o mal, Belo Monte é uma obra do governo Dilma Rousseff.

        Começa em SP maratona que apresenta todas as sinfonias de Beethoven em quatro dias

        folha de são paulo
        JOÃO BATISTA NATALI
        COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
        Ouvir o texto
        Com as três primeiras sinfonias, a Filarmônica de Câmara Alemã de Bremen inicia hoje a maratona de execução das sinfonias de Ludwig van Beethoven, regidas pelo estoniano Paavo Järvi.
        As récitas de hoje e amanhã serão no Theatro Municipal, e as de sábado e domingo, na Sala São Paulo, dentro da temporada do Mozarteum.
        Paavo Järvi, além de suas qualidades de maestro, tem o mérito de apresentar de uma só vez esse repertório encavalado entre os períodos clássico e romântico.
        Editoria de Arte/Folhapress
        Toda boa orquestra que se preze interpreta ou grava as sinfonias de Beethoven. É o caso da Osesp, com as nove já disponíveis em CD. A orquestra fará, entre 8 e 10 de agosto, três récitas com a "Sinfonia nº 5", regida por Rafael Frühbeck de Burghos.
        Beethoven (1770-1827) é o autor do maior e mais conhecido monumento na história da música sinfônica. Serviu de referência para sinfonistas seus contemporâneos, como Schubert (dez sinfonias), ou que o sucederam no romantismo ou pós-romantismo, como Mendellsohn (cinco), Schumann (quatro, mais uma quinta, inacabada), Brahms (quatro), Bruckner (nove, e mais uma renegada), Dvorák (nove) ou Mahler (nove, mais trechos da décima).
        Na Rússia, Tchaikovsky escreveu seis sinfonias, Prokofiev, sete, e Chostakovich, 15. Há dezenas de outros sinfonistas menos conhecidos.
        Mas na mesma genealogia, com raiz em Beethoven, estão os poemas sinfônicos de Liszt ou Richard Strauss.
        No Brasil, Villa-Lobos escreveu 12 sinfonias, Cláudio Santoro, 14, Camargo Guarnieri, sete, e José Siqueira, quatro e igual número de poemas sinfônicos.
        A ruptura com a estética de Beethoven só ocorreu no fim do século 19, com Debussy.
        As sinfonias se consagraram no classicismo, na segunda metade do século 18. Mozart escreveu 41, Haydn, que foi professor de Beethoven, 104. Mas nesses dois casos eram peças com instrumentação menos complexa, por vezes só entretenimento.
        Sobre Beethoven, circulam suposições incorretas. Uma acredita que as sinfonias foram escritas segundo um processo linear de aperfeiçoamento, pelo qual a "Primeira" (1800) seria menos bem escrita que a "Nona" (1824).
        Musicólogos têm outra visão. Alguns enxergam o apogeu de Beethoven entre a "Terceira" e a "Sexta" ("Pastoral"). A "Nona", também chamada "Coral", seria só a mais espetacular, por exigir coro e quatro solistas vocais.
        Ela é a mais conhecida entre todas as sinfonias até hoje escritas, em razão de dois chamativos: a beleza melódica (o último movimento, de tão popular, virou hino da União Europeia) e o número de músicos necessários a sua execução: geralmente, até 120 instrumentistas e mais um coral de centena de vozes.
        A "Sinfonia nº 5" é também popular. Até os menos iniciados conhecem as quatro notas em staccato do início do primeiro movimento.
        Outra suposição frágil aponta as sinfonias como centro da criatividade de Beethoven. Mais uma vez, e há bibliotecas inteiras a respeito, crê-se que ousadias e radicalismos formais estejam nas 32 sonatas para piano ou nos 16 quartetos de cordas. Entre eles, os cinco últimos são para se ouvir de joelhos.
        Costuma-se classificar a produção de Beethoven em três períodos. No primeiro (sinfonias 1 e 2), influência de Mozart e Haydn; no segundo, da "Sinfonia nº 3" até a "Oito", aparição de uma linguagem já romântica; no terceiro, a partir de 1815, plena maturidade. A "Nona" é de 1824.
        É a sinfonia mais longa. As mais curtas são a "Primeira" e a "Oitava", que, dependendo do maestro, têm menos da metade da duração dela.
        Beethoven é 'heavy metal' e 'demônio'
        Criação do compositor alemão foi a mais impactante de sua época, analisa o brasileiro Roberto Minczuk
        Para maestro, que regerá domingo homenagem aos 200 anos da 'Sinfonia nº 7', obra leva ao êxtase
        JULIANA GRAGNANICOLABORAÇÃO PARA A FOLHAA música do alemão Ludwig van Beethoven foi o heavy metal da época. Pelo menos na comparação do maestro brasileiro Roberto Minczuk, 46, que irá reger uma homenagem ao compositor no domingo, na Sala São Paulo.
        Titular da Orquestra Sinfônica Brasileira da Cidade do Rio de Janeiro e da canadense Filarmônica de Calgary, Minczuk dirigirá a Orquestra Sinfônica Brasileira, na Sala São Paulo.
        "Antes de Beethoven, nunca tinha se ouvido uma música tão forte, impactante. É o heavy metal da época. É de uma velocidade jamais atingida", diz o maestro.
        Hoje, a Filarmônica de Câmara Alemã de Bremen começa uma série de apresentações das sinfonias de Beethoven, com regência do estoniano Paavo Järvi.
        A apresentação dirigida por Minczuk, por sua vez, se concentrará só em uma sinfonia. O concerto acontecerá em celebração aos 200 anos da "Sinfonia nº 7", qualificada pelo compositor Richard Wagner (1813-1883) como a "apoteose da dança".
        Minczuk diz concordar com a classificação de Wagner. "Da primeira à última nota, a sétima é pra cima, uma verdadeira celebração. Ela cativa, tem força estonteante. Não tem como não entrar em êxtase quando é bem tocada."
        É com essa sinfonia que "O Discurso do Rei" (2010) resolve sua cena mais crítica: o momento em que o rei da Inglaterra George 6º, gago, tem de fazer um pronunciamento à nação. Ao fundo, está tocando o segundo movimento da "Sinfonia nº 7". A composição confere serenidade aos personagens, apesar da tensão do momento.
        "Beethoven foi um revolucionário. Ele fez a transição do período clássico ao período romântico", diz Minczuk.
        O maestro e arranjador brasileiro Júlio Medaglia, 74, fundador da Orquestra Amazonas Filarmônica, considera Beethoven o maior compositor de todos os tempos.
        "É o demônio da história da música. Ele a transformou em um grande veículo da alma humana. Até então, a música clássica era abstrata, cristalina,quase independente do ser humano. E ele colocou paixões e alegrias", diz.
        SINFONIA É NARRATIVA
        "A partir de Beethoven, o maestro é uma figura essencial. Ele regeu suas sinfonias, que são narrativas e precisam ter começo, meio e fim. Por isso, a orquestra precisa de uma unidade. Quanto mais unificada for, mais forte será o impacto", afirma Minczuk.
        Medaglia, que já regeu todas as sinfonias de Beethoven, diz nunca ter ficado satisfeito com as apresentações.
        "Não é frescura. Quando ouço as gravações, odeio. Temos a impressão de nunca revelar o que existe ali dentro de valor estético e humano."
        "As sinfonias de Beethoven sempre têm uma bomba atômica escondida debaixo de cada nota, é sempre um mistério. Existe uma vibração sonora incrível, parece que as notas estão realmente vivas."
        Ele afirma que considera importante toda a criação de Beethoven, mas diz que "Sinfonia nº 5" e a "Sinfonia nº 9" são as mais impactantes.
        São justamente essas as mais conhecidas na cultura popular. São facilmente reconhecíveis: o "dum dum dum dum", primeiro movimento da quinta, um staccato (notas separadas umas das outras), é tão popular que, em 1976, o compositor americano Walter Murphy adaptou a sinfonia para a música disco. A canção "A Fifth of Beethoven" ficou 19 semanas na lista do "Billboard Hot 100", tabela musical dos Estados Unidos que avalia as canções mais vendidas.
        Já a nona, com último movimento cantado, é trilha sonora de vários filmes. Entre eles, "Sociedade dos Poetas Mortos" (1989) e "Laranja Mecânica" (1971). Em uma das cenas mais famosas do filme, Alex, o personagem principal, é obrigado a assistir a vídeos de violência. Ele reconhece o quarto movimento da nona sendo usado como trilha sonora. "É um pecado!", berra, "usar o Ludvig van dessa maneira! Ele não machucou ninguém! Beethoven apenas compôs música!"
        O maestro cearense José Maria Florencio, 51, da Orquestra Capella Bydgostiensis, na Polônia, afirma que Beethoven é seu compositor predileto e que a nona sinfonia é a mais bela de todas.
        "Essa sinfonia foi um grito de esperança frente a uma vida terrivelmente atormentada, atordoada, cheia de problemas. No fim de sua vida, ele escreve essa obra que é uma chamada para que a humanidade se torne mais fraterna", interpreta.
        Para Florencio, as sinfonias de Beethoven expressam diferentes momentos de sua vida."Elas ocupam uma posição quase mística na história da música. Cada uma é um manifesto que muda o rumo do pensamento musical."

          Peças "Berro" e "Trem-Bala" estreiam em SP - Gabriela Mellão e Gustavo Fioratti

          folha de são paulo
          Peça 'Berro' discute sentido da existência
          GABRIELA MELLÃO
          COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

          Tennessee Williams, ignorado pelo Grupo Tapa durante mais de três décadas, tem se tornado, nos últimos anos, uma das mais constantes companhias deste tradicional grupo de teatro, célebre sobretudo por montar textos clássicos.
          "Berro", que estreia amanhã, é a terceira peça do escritor norte-americano (1911-1983) encenada pelo coletivo, depois de "Alguns Blues do Tennessee" (2011) e "Longo Adeus" (2013). A trupe também traduziu uma coleção de quatro volumes com sua obra teatral, publicada recentemente.
          "Tennessee Williams passou a me perseguir", brinca Eduardo Tolentino, diretor do Tapa. Segundo ele, "Berro" revela uma faceta obscura de Williams. "Ele é muito conhecido no Brasil por suas grandes peças realistas, mas tem obras inexploradas, nas quais experimentou muito", afirma.
          Divulgação
          Rubens Caribé e Mariana Muniz em cena em "Berro", peça dirigida por Eduardo Tolentino, que traz influências de Pirandello e Beckett
          Rubens Caribé e Mariana Muniz em cena em "Berro", peça dirigida por Eduardo Tolentino, que traz influências de Pirandello e Beckett
          O texto apresenta Feliz e Clara, irmãos condenados a representarem uma única peça, cujos personagens são um espelhamento deles próprios.
          Para Tolentino, o Williams que surge em "Berro" situa-se entre Luigi Pirandello (1867-1936) e Samuel Beckett (1906-1989). O metateatro presente na obra a aproxima do primeiro. O tom absurdo, que leva o espectador a duvidar da existência dos protagonistas, remete à obra do segundo. "A peça vai ganhando dimensões e, no meio delas, a sensação de que os personagens não são reais, mas uma metáfora da vida: representações de como cada um arranja histórias para que sua existência faça sentido", diz.
          Interpretados por Rubens Caribé e Mariana Muniz, os personagens/atores interrompem as apresentações para discutir sobre temas teatrais. Aparentemente, trata-se de uma peça sobre a arte do palco. O teatro, no entanto, é usado como pista falsa.
          "Como em Pirandello, a questão central é o papel que o homem desempenha na vida; o quanto ele é ator de sua própria existência, repete padrões que carrega desde a infância e adia a solução final que seria a morte", diz o diretor.
          Williams sugere, nesta peça, que só através da imaginação é possível suportar a vida. "A imaginação é um hábito. (...) Mágico é esse hábito da nossa existência", concluem os protagonistas de "Berro".
          BERRO
          QUANDO sex. e sáb., às 21h; dom., às 19h; de amanhã a 1º/9
          ONDE Teatro de Arena Eugênio Kusnet (r. Dr. Teodoro Baima, 94; tel.: 3256-9463)
          QUANTO R$ 20
          CLASSIFICAÇÃO 14 anos
          Montagem debate velhice em tom de comédia
          Espetáculo de Naum Alves de Souza retrata senilidade numa São Paulo em demolição
          DE SÃO PAULOHá alguns anos, o dramaturgo e diretor Naum Alves de Souza, 70, passou a pé por um ponto no centro de São Paulo onde estava habituado a cruzar uma praça.
          Por conta de obras da prefeitura, o lugar havia desaparecido, atesta ele. "São Paulo está sempre em demolição", prossegue, referindo-se a uma sensação que percorre as páginas de nova peça, "Operação Trem-Bala", que entra em cartaz com sua direção amanhã no Instituto Cultural Capobianco.
          O espetáculo é moldado a partir de um retrato da velhice, e a relação com São Paulo se estabelece principalmente na "sensação de delírio" de ver uma cidade sempre em transformação, prescindindo da preservação dos afetos moldados também na memória do espaço urbano.
          O personagem central (Marco Antônio Pâmio) é um político já senil que, em sua loucura, quer inaugurar um projeto de trem-bala na cidade. Seus herdeiros aproveitam o pretexto para embarcá-lo em outra viagem, junto com sua mulher (Ana Andreatta), rumo a um asilo. "Embora triste", diz Naum, "a história é tratada em tom de comédia, com personagens grotescos".
          FINITUDE
          "Os 70 anos dão para a gente um peso diferente", diz Naum, referindo-se à idade que completou no ano passado, meses antes de ser internado em um hospital por complicações causadas por miastenia, uma doença neuromuscular que "tira suas forças, tira sua energia", como ele próprio descreve.
          O período no hospital permitiu meditar sobre a condição "de finitude", diz, o que lhe deu elementos para escrever a peça. A opção por um protagonista poderoso (e rico) sustenta o atestado de que "velhice vem para todos."
          Com "Operação Trem-Bala", Naum dá continuidade ainda a um tema comum em sua obra, o das relações familiares, já tratado, por exemplo, em "No Natal a Gente Vem te Buscar", de 1979, e "A Aurora da Minha Vida (1981).
          Para plateia de 40 pessoas, com cadeiras de roda e andadores em cena, o espetáculo tem direção musical do compositor Lívio Tragtenberg.