sábado, 31 de agosto de 2013

O futuro foi ontem - João Paulo

Livro de ensaios sobre a literatura brasileira contemporânea aponta impasses e caminhos possíveis para a prosa de ficção e para a crítica literária no país. Para novos autores, a tradição deve ser revista 


João Paulo

Publicação: 31/08/2013 04:00


Daniel Galera (Renato Parada/Divulgação  )
Daniel Galera

O contemporâneo é sempre um risco. É mais fácil falar do passado, das obras consagradas. O novo é um perigo. Sobretudo quando se trata de literatura, num momento em que os valores do passado estão sendo questionados e não se pode afirmar com clareza a composição de um novo cânone. A situação é ainda mais desafiadora quando a própria relação com o passado muda de figura. As promessas do modernismo não valem mais como única porta possível para o futuro. Nossa relação com o passado se tornou muito mais complexa. Nossas expectativas com o porvir muito mais diluídas.

Por essas e outras razões – como o impasse da crítica frente ao novo panorama –, o livro O futuro pelo retrovisor – Inquietudes da literatura brasileira contemporânea é tão importante. Ele marca uma aposta corajosa em relação à prosa de ficção que vem sendo feita no Brasil no século 21, a partir da constatação de um certo esgotamento das vertentes tradicionais e da invenção de novos modelos de relação com o passado. Em 17 ensaios são analisadas obras de autores contemporâneos, de Valêncio Xavier (1933-2008, o único que já morreu entre os selecionados) a Daniel Galera (nascido em 1979).
Michel Laub      Adriana Lunardi    Marcia Foletto/Divulgação    Luiz Ruffato    Adriana Vichi/Divulgação (Renato Parada/Divulgação)
Michel Laub Adriana Lunardi Marcia Foletto/Divulgação Luiz Ruffato Adriana Vichi/Divulgação
A maioria dos autores estudados nasceu nos anos 1960 e 1970, têm obras significativas, publicadas por grandes editoras, e repercussão nos meios críticos e em estudos acadêmicos. De certa forma compõem um novo cânone. Não faltam ao grupo escritores de gerações anteriores, como Chico Buarque, Rubens Figueiredo, Sérgio Sant’Anna e João Gilberto Noll, cujas obras se inscrevem no mesmo registro de transição. Os autores dos ensaios são todos professores universitários no Brasil e na Argentina, o que dá certa unidade aos textos críticos em termos de referências intelectuais, próprias dos departamentos de letras cada vez mais marcados pela influência da filosofia (que parece substituir o antes hegemônico referencial psicanalítico).

Os organizadores, Stefania Chiarelli, Giovannna Dealtry e Paloma Vidal, dividem os artigos em cinco grupos que, de certa maneira, propõem núcleos de interesse, cada um deles portador de uma proposta literária para enfrentar a questão central do livro: como relacionar a nova literatura com as referências que vêm do passado? Em outras palavras, de que maneira os novos autores – e os nem tão novos assim – inscrevem seu trabalho na história literária brasileira, num tempo que se caracteriza mais pela ruptura do que pela continuidade? Que elementos permitem pensar um caminho comum aos projetos de nossos escritores?
Adriana Lunardi     (Marcia Foletto/Divulgação)
Adriana Lunardi


A primeira seção se chama “Experiência, transmissão, alteridade” e reúne quatro ensaios. No primeiro, Stefania Chiarelli analisa a obra de Michel Laub (Diário da queda, quinto romance do autor) destacando a proximidade com a ficção de Samuel Rawet, no que toca à relação com as raízes judaicas de ambos. Mais que uma referência, o passado se constitui como uma questão, uma experiência crítica. Se a literatura de Laub chama atenção pela experiência, a de Bernardo Carvalho se caracteriza pela alteridade, como analisa Claudete Daflon ao estudar Nove noites. Num misto de romance e narrativa etnográfica, o autor colocaria em xeque a possibilidade de verdade nos dois universos, da arte e da ciência. O terceiro termo que faz parte o título da seção, transmissão, é o aspecto destacado na trilogia de romances de Carola Saavedra sobre a separação, em estudo de Diana Klinger, e em Leite derramado, de Chico Buarque, a partir de leitura de Alexandra Faria. Nos dois casos, a questão que se coloca diz respeito às possibilidades narrativas ou, mais ainda, às dificuldades de narrar, o que leva à exploração de elementos que evidenciam a falha, os cortes, os lapsos.
Luiz Ruffato     (Adriana Vichi/Divulgação)
Luiz Ruffato
A segunda parte de O futuro no retrovisor é composta de três textos que se debruçam sobre a obra de Ricardo Lísias, Adriana Lunardi e João Gilberto Noll, agrupados sob a chancela de “Literatura, vida, cena literária”. Os três autores, por diferentes registros, trazem para o texto a difícil separação entre arte e vida, em contos e romances que problematizam a presença do eu e do narrador. No caso de Ricardo Lísias, como aponta Luciene Azevedo, os fatos da vida pessoal do autor se mesclam com a ficção, com personagens que por vezes assumem o nome do próprio autor, criando uma assinatura literária que desliza entre dois mundos, com uma incômoda, mas astuta exposição da intimidade, que capta o leitor numa “brincadeira perversa”. Em Divórcio, mais recente romance do autor (posterior ao ensaio de Luciene Azevedo), a estratégia ainda se mostra operante. A escrita da intimidade, no entanto, é ainda mais intensa na obra de João Gilberto Noll que, como explica Gabriel Giorgi, radicaliza a interseção entre literatura e vida, até alcançar a dimensão da animalidade do corpo. O romancista dá uma resposta carnal à docilidade do poder que emana de um contexto social marcado pelo domínio da biopolítica. O bios é sede de revolta e não apenas endereço certo das manhas do poder.

Releituras

No terceiro conjunto de ensaios, “Releituras da tradição, reescrituras do moderno”, está em questão a maneira como a literatura contemporânea dá conta de propor novos modelos expressivos em função de seu desligamento com a tradição. Ou seja, para um novo modo de encarar o passado, uma nova forma estética. Sérgio Sá, ao analisar a obra de Rodrigo Lacerda, aproveita a dica do autor sobre a literatura de Eça de Queirós para propor certa ética da generosidade, que inunda a literatura de uma promessa de felicidade, de história bem contada, de encontro e comunicação, mas sem perder a ironia que daria o quê de contemporaneidade. Nos demais ensaios que integram a seção, Graça Ramos e Leila Lehnen destacam o diálogo com a literatura de formação (bildunsgroman) em João Almino e Daniel Galera, integrados contudo aos temas e elementos estilísticos do século 21 (daí o aspecto de reescritura da tradição). Na análise do romance Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato, Cátia Valério chama atenção para a visualidade e os recursos cinematográficos do romance-mosaico do autor, além de identificar a releitura crítica de estratégias utilizadas por autores como Graciliano Ramos, Autran Dourado, Oswald de Andrade e Osman Lins.
Chico Buarque     (IMS/Divulgação)
Chico Buarque


A seção seguinte, “Profanação, citação, encenação” começa com o ensaio de Giovanna Dealtry sobre a obra de Sérgio Sant’Anna. A autora arrisca uma homologia entre os textos ficcionais do escritor e as transformações que se observaram nas artes plásticas ao longo do século 20. Assim como as artes visuais deixaram de lado os suportes tradicionais e se reinventaram, a literatura de Sant’Anna foi além dos códigos convencionais, desafiando nosso renitente realismo. Mais que uma mudança de técnica, trata-se de uma aposta em novo modelo de conhecimento, que passa pelos sentidos, pela defesa da performance, pelo jogo entre as possibilidades da representação. Além de Sérgio Sant’Anna, a quarta seção reúne ensaio de Pascoal Farinaccio sobre o procedimento de citação em Lourenço Mutarelli (a citação como fermento para a criatividade pessoal em O cheiro do ralo); e estudo de Jorge Wolf acerca da estratégia de profanação na obra de Valêncio Xavier (que, mesmo profanado pelos proprietários das convenções literárias, foi capaz de profanar a arte, a cidade, o narrador e até a morte).

“Redefinições do cânone, dobras do nacional” é o título da última parte de O futuro pelo retrovisor. Como o nome indica, trata-se de problematizar o lugar da crítica no atual contexto da literatura brasileira. Se a prosa de ficção mudou para atender às provocações de uma nova relação entre a arte e seu tempo, a forma de se acercar das produções literárias também indica uma chacoalhada no território da crítica. Se o estatuto do narrador é um problema, o lugar crítico talvez seja uma questão ainda mais difícil de ser respondida. No primeiro ensaio, Paulo Roberto Tonani do Patrocínio parte dos trabalhos de Nelson Werneck Sodré e Flora Sussekind sobre o naturalismo brasileiro (chegando aos neonaturalistas) para se aproximar de Passageiro do fim do dia, de Rubens Figueiredo. Para o ensaísta, o romance propicia um diálogo com o naturalismo cientificista do século 19, mas a partir de bases postas pelo presente. Completam a seção textos de Susana Scramin e Paloma Vidal sobre obras de Milton Hatoum e Adriana Lisboa, em que são questionados os parâmetros convencionais da crítica, inclusive os gêneros literários e a busca de uma identidade nacional.

Em seu conjunto e na seleção dos autores estudados, O futuro no retrovisor se insere com coragem no terreno de disputas que hoje movem a literatura brasileira, presa ao conforto do mercado e das igrejinhas, por um lado, e nas aporias por vezes arriscadas do experimentalismo puro, por outro. Se no terreno da criação o cenário é instigante e se abre a várias perspectivas éticas e estéticas, no campo da crítica, seja ela universitária ou ensaística, o desafio é igualmente irrecusável. Foi-se, de vez, o tempo da delicadeza, e nem mesmo o passado é certeza de nada.

O FUTURO PELO RETROVISOR – INQUIETUDES DA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA. Organizado por Stefania Chiarelli, Giovannna Dealtry e Paloma  Vidal
. Editora Rocco, 328 páginas

Xico Sá

folha de são paulo
Túlio 999, respeito
Feliz gol mil, Túlio. És uma figura. Se não sair hoje, juro que estarei contigo na próxima tentativa
Amigo torcedor, amigo secador, o cara é tratado como folclórico, como se o folclore fosse uma coisa ruim e depreciativa, tudo bem, "folk" e "lore", do inglês, costumes de um povo, conhecimento de uma gente, fala sério, desculpa, mas uma das coisas que aprecio nos seres humanos, boleiros ou não, é a obsessão, e hoje, desculpa mídia inteligente de elite, só quero saber do Vilavelhense X Desportiva Ferroviária.
No tal embate, Túlio Maravilha pode chegar ao milésimo gol. Quem busca o milésimo, seja quem for, mesmo a gente dando um desconto de cem gols como margem de erro, merece respeito. Seja o Túlio seja o bravo Romário, seja o amigo flamenguista Leo Jaime, que diz ter feito dois mil e tantos. É sério.
Preste atenção, meu velho, são gols, não são crimes, e, quase sempre, vemos a austera imprensa caçoando de tal feito. O 999 do Túlio ganhou o apelido de "gol moqueca", justa homenagem ao Estado que o recebeu, aos 44 anos. Trabalha e confia, Espírito Santo.
Tem gente que invoca com o singelo trocadinho que o artilheiro fatura nesse projeto louco. Que mal há nisso. Gente hipócrita que ama tanto o dinheiro que não admite que alguém o ganhe fazendo gol e graça. Deixa o cara, pô, se hoje ele faz diante de meia dúzia de torcedores, já fez para o Goiás e para o gigante Botafogo com o Maraca lotado.
Eu mesmo odeio o que ele fez com o Santos em 95. Mas basta lembrar o que o meu amor na época, Daniela Rocha, dizia: "Que cara boa tem esse teu novo inimigo". De acordo. Ia ao Pacaembu com a Dani no tempo em que podíamos atirar radinho de pilha no bandeirinha. Não chegava a tanto. Quebrava o radinho na arquibancada mesmo.
Tomara que saia hoje o milésimo. De tanto a imprensa caçoar, estou na torcida. O brasileiro despreza o épico. Só gosta do goleador chato. Como o Túlio tira onda, está condenado. O brasileiro é um paulistano de nascença. Já nasceu desconfiado da nossa possibilidade do épico.
Gols, verdadeiros ou fictícios, não são crimes. São sonhos. Lindos sonhos de criança. Senhores comentaristas, sejam menos sérios, por favor, acreditem no futebol como fantasia, não como se fosse uma estupidez da política. De tanto levar a sério essa coisa, a gente acaba ajudando a provocar a violência.
Volto ao meu amor safra 95: "Eles discutem tão sério que parece que é uma assembleia da ONU", dizia Dani, musa linda de Sorocaba e do mundo, sobre as mesas redondas.
Feliz gol mil, Túlio. És uma figura. Se não sair hoje, juro que estarei contigo na próxima tentativa. Persegues a alegria, a prova dos nove, moqueca é capixaba, o resto é peixada. Aquele abraço.
@xicosa

    ENTREVISTA/NOEMI JAFFE » Em nome da memória‏

    Escritora fala sobre livro baseado no diário escrito pela mãe durante período em que ficou presa em Auschwitz


    Carlos Herculano Lopes

    Estado de Minas: 31/08/2013 


    Noemi Jaffe, crítica literária e professora (Cia das Letras/Divulgação)
    Noemi Jaffe, crítica literária e professora

    Depois de ouvir desde a adolescência, num misto de encantamento e temor, que a sua mãe, a sérvia judia Lili Jaffe, havia escrito um diário contando o que havia ocorrido com ela durante os 11 meses, de 1944 a 1945, quando esteve presa no campo de concentração nazista de Auschwitz, a escritora e crítica literária Noemi Jaffe acabou transformando-o no livro O que os cegos estão sonhando?. Para “sentir o que não sabia”, em 2009, enquanto começava o processo de montagem do texto, esteve no campo de extermínio. Em paralelo, Noemi escrevia também a coletânea de contos A verdadeira história do alfabeto e alguns verbetes de um dicionário, que está entre os finalistas do Prêmio Portugal Telecom. Já O que os cegos estão sonhando?, por sua vez, é finalista de outro prêmio importante, o Zaffari & Bourbon, do Rio Grande do Sul. Nascida em 1962, em São Paulo, onde vive, Noemi Jaffe, que anda às voltas com um novo livro – um romance que se passa na Hungria, em 1957, durante a revolução – conversou com o Pensar sobre literatura, guerra, memória e universidade.

    No ano passado, 67 anos depois de os fatos terem ocorrido, finalmente o diário escrito por sua mãe foi publicado no Brasil. Como se deu o processo?

    Depois de minha mãe ter voltado para a Sérvia em busca de parentes sobreviventes, ainda em 1945, e não ter encontrado ninguém, ela acabou conhecendo meu pai, que se apaixonou por ela. Como ela tentava ir para os Estados Unidos, atrás de seu irmão que tinha sobrevivido, aliando-se ao Exército americano, ela foi para a Hungria em busca de documentação e deixou o diário como lembrança para meu pai. Ele foi atrás dela, em Budapeste, e, como ele tinha uma família grande aqui no Brasil, ofereceu casar-se com ela somente para fins civis. Assim, ela chegaria ao Brasil com a documentação necessária para poder ir para os Estados Unidos. Mas, no meio do caminho, eles se apaixonaram, chegaram aqui e se casaram também no religioso. Quando nasci, em 1962, meus pais já estavam bem estabelecidos e dominavam a língua. Desde pequena, portanto, ouço as histórias de minha mãe e de meu pai, já falecido, sobre a guerra e sei da existência do diário. Na minha adolescência, já planejava fazer algo em relação a ele e, ao longo de minha pesquisa, encontrei anotações daquela época sobre planos para um livro. Nos anos 1990, minha mãe, minha irmã e eu traduzimos o diário para o português e o entregamos ao Museu do Holocausto, em Jerusalém, onde mora minha irmã. A Fundação Spielberg ficou sabendo da existência do diário e entrevistou minha mãe. Naquela época, tentei montar um livro com o diário, mas a ideia não deu certo. Finalmente, em 2009, ganhei um edital da Petrobras com esse projeto e no mesmo ano fui para Auschwitz com minha filha, já com a intenção de escrever o livro. Basicamente, foi isso o que aconteceu.

    Você escreve na introdução que, embora soubesse da existência do diário, este se constituía “como um mistério e um tesouro que, com certa inconsciência, não queria desvendar”. Por quê?

    De alguma forma, era como se não quisesse e temesse violá-lo, conhecendo seu conteúdo ou traduzindo-o para o português. Talvez temesse que o seu conteúdo fosse diferente daquilo que minha mãe contava ou quisesse mantê-lo numa atmosfera quase sagrada, imune a uma ideia de profanação pelo português e por mim. Mas, como constatei, não foi esse o caso. Foi muito bom tê-lo traduzido. Para todos, mas sobretudo para minha mãe, o que é o mais importante.

    E a sua mãe, como lidava com o diário? Era também um tabu para ela?

    Não, o diário nunca foi um tabu para minha mãe nem para meu pai. Nunca esconderam nada de mim. Ao contrário, fizeram questão, sobretudo meu pai, de me contar as histórias, os perigos, as aventuras. Como minha mãe é uma pessoa alegre e generosa, suas histórias não me faziam sofrer e eu tampouco a sentia como uma vítima. Sempre a considerei uma mulher forte e que consegue superar qualquer problema que a vida oferece.

    Como surgiu a ideia de realizar o livro em parceria com sua filha, Leda Cartum? E qual foi sua reação ao chegar a Auschwitz?

    Como minha filha Leda é escritora, formada em letras, no decorrer do processo surgiu também a possibilidade de ela participar do projeto, sob outro ponto de vista, da terceira geração pós-sobrevivência. Ela aceitou e fomos à Alemanha em 2009. Minha reação, ao chegar a Auschwitz, foi tentar assumir algum ponto de vista que não fosse pasteurizado, massificado. Decidimos ir durante o inverno – 20 graus abaixo de zero! – e sem guia. Só nós duas mesmo. Diante do horror evidente, procurava informações menos visíveis: os olhos nos retratos, os nomes nas malas, as datas, anotações nas paredes, nos banheiros, nos documentos, números nas listas dos oficiais nazistas, marcas nas paredes, inscrições, falhas na madeira, nas paredes, coisas assim. Penso que encontrei várias informações que me permitiram ver, no campo, não somente o lado terrível das mortes, mas também o aspecto heróoico dos sobreviventes e dos que morreram. Mas, de qualquer maneira, é uma experiência que só o corpo consegue (se tanto) viver. As palavras são realmente insuficientes, pois nada ali é do domínio do verbal, embora seja um dever transformar tudo em palavras. Mas uma coisa muito irritante é o lado comercial que é explorado pelas agências turísticas de Cracóvia e pelos próprios turistas. É muito incômodo.

    Como que se deu sua iniciação como ficcionista? 

    Escrevo desde que aprendi a ler e a escrever. Desde pequena invento alfabetos. Creio que o fato de ter sido depositária dessas histórias favoreceu muito meu pendor por narrativas e por um tipo de confinamento. Sempre me senti à margem de meus colegas e minha forma de me consolar dessa solidão era, quase sempre, lendo e escrevendo, além de me dedicar ao estudo de outras línguas. Tinha um tio que sempre me presenteava com livros muito bonitos e creio que a leitura desses livros foi o que me iniciou na ficção. Meus primeiros textos ficcionais foram escritos na escola mesmo e também num movimento juvenil judaico que eu frequentava.

    Como se deu o processo de criação dos contos de A verdadeira história do alfabeto e alguns verbetes de um dicionário?

    Enquanto escrevia o livro O que os cegos estão sonhando?, tinha recebido um convite para escrever um livro de contos pela Companhia das Letras, e não quis perder a oportunidade. De alguma forma, creio que um era uma espécie de contraponto do outro. Ambos falam de origens. Um de minha origem familiar, judaica e histórica; o outro, da origem ficcional das letras do alfabeto. Fui descobrindo, enquanto escrevia os dois, que há muita ficção em qualquer história assim chamada real e isso aparece também no diário. Estava lendo um livro do David Grossman, um autor que admiro muito, em que as personagens falam sobre hospitalizar palavras doentes, que são aquelas palavras muito desgastadas pelo uso banalizado. Isso me fez pensar em um uso inaugural das palavras e das letras, que é exatamente o que faz a poesia. Assim, fui pensando em palavras para cada letra e uma pequena narrativa em que algum personagem teria precisado daquela palavra e daquela letra para alguma circunstância, o que o teria feito inventá-la. Também criei um dicionário com palavras já existentes no português, mas com acepções diferentes daquelas encontradas nos dicionários comuns.

    Além de ficcionista, você também é professora. Qual o papel que a academia tem desempenhado hoje em relação à literatura brasileira?

    A literatura brasileira contemporânea não é muito ensinada nas universidades brasileiras. Já se chegou às décadas de 1960, 70 e 80, o que é um grande avanço, ao menos em relação à época em que eu estudei, quando só se chegava até os anos 1940. Em algumas pós-graduações também se ensina a literatura contemporânea, mas são poucas. No geral, a atenção que se dá é pouca e insuficiente, embora seja compreensível que a academia brigue por conservar a tradição – é o seu papel – e que ela esteja sempre atrás da produção. Mas deveria, certamente, haver um esforço maior no sentido de estudar e de incentivar a produção contemporânea, com mais revistas, seminários, ensaios e, principalmente, disciplinas.


    O que os cegos estão sonhando? – Com o Diário de Lili Jaffe (1944-1945)

    •  De Noemi Jaffe
    •  Editora 34, 236 páginas


    A verdadeira história do alfabeto e alguns verbetes de um dicionário
    •l  De Noemi Jaffe
    •  Editora Companhia das Letras, 128 páginas

    Deriva e retorno em Mistura fina Patrícia Carmello‏


    Deriva e retorno em Mistura fina 

    Patrícia Carmello

    Estado de Minas: 31/08/2013 


     (manim/mostra arte favela nos becos)

    O estupro no táxi, a surra da polícia, a tortura na ditadura de 1968, os sem-teto da periferia e outras tantas situações da nossa barbárie cotidiana, mas também a conversa no botequim e outros casos tragicômicos constituem o material com que Vera Casa Nova tece seus contos, no livro Mistura fina, e vai erguendo suas barricadas. De um desejo não todo submetido à ordem fálica, mas lançado pela palavra que libera o riso e a festa, onde se dança mesmo “desfilando de amarelo”, e onde se goza mesmo sob as preces dos pastores, como dançam e gozam suas protagonistas.

    Porém, as histórias não são tratadas como fatos objetivos, como lembra a autora na espécie de introdução que dá título ao livro. Pois em meio às distintas vozes “passantes e passadas” recolhidas para compor seu texto, uma parece predominar e, curiosamente, apontar o método que ela julga inexistente: a voz do jornal, a crônica da vida nacional, que despeja o volume de crimes individuais in natura diariamente diante dos espectadores-ouvintes, e que aparece em diversos contextos ao longo do livro.

    Desde sua pesquisa de doutorado sobre almanaques antigos de farmácia, na qual explorou a relação entre texto e imagem, Vera parece tomar este material, as notícias, exatamente como quem coleciona inscrições, ou como são apresentados os grafites dos muros de 1968 no livro de Olgária Matos, que não por acaso dá nome a um dos contos, “Paris 1968: As barricadas do desejo”, como legendas significantes dos movimentos estudantis e operários em ebulição na época.

     A frase epígrafe desta resenha poderia ser lida como revivescência do surrealismo retomado pelos situacionistas, que figuravam entre os principais responsáveis pelos escritos de rua do maio francês. Movimento artístico e político dissolvido em 1972, o situacionismo teve entre suas figuras centrais Guy Debord, cineasta e teórico proveniente do Movimento Letrista, grupo que, nos anos 1950, pretendia restaurar a força primordial da linguagem, atribuindo à letra um sentido independente da palavra, ligado a seu caráter de som. Portanto, é na qualidade de inscrições diagnósticas do nosso tempo que as notícias são recortadas e coladas sob outras configurações, sendo desnaturalizadas num processo de remontagem, que, se em outros autores limita-se ao simples jogo ou pastiche, aqui é permeado por uma decisão crítica e ética por parte da autora.

    Assim, em Mistura fina, operam-se inversões pouco comuns na cena literária contemporânea, e são traçadas verdadeiras vinganças contra as restrições do tempo: da espera criam-se espelhos e deleites, da miséria sai uma casa em construção, e até do estupro ouvem-se gritos de prazer. Tudo isso se escreve com humor muito distante do cinismo ou da hipocrisia, da recusa em ver saídas ou do ver saídas demasiado fáceis para os conflitos apresentados.

    Mas, antes que se acendam fogueiras, não é demais pontuar: a literatura, compreendida como lugar de criação da realidade, não se confunde com ela. Apesar de aquele gozo surgir na letra do texto como justificativa para a sobrevivência, logo se vê que ele advém do absurdo e provoca o riso (“os bandidos horrorizaram”) – um riso que vem abalar a estrutura da notícia-clichê, que aparece enquanto tal em outro conto: “outra curra seguida de morte”. Trata-se, pois, da interrupção de sentido, ou da afirmação simbólica de que a notícia pode ser outra. Nas palavras de Debord, a passagem marcaria o momento em que a montagem se apropria das imagens reificadas e, ao revelar seu caráter cênico, toma de volta seu lugar ao espetáculo, desviando-as de seu sentido estabelecido pela irrupção de uma abertura a novos sentidos possíveis.

    Os personagens de Mistura... são desvalidos, “gente de rua e de morro”, restos que emperram o bom funcionamento da máquina de criar desigualdades. São principalmente mulheres, que, desde crianças, apanham da polícia, são presas e assassinadas pela repressão, estupradas em táxis; ou, ainda, achando-se “peitudas e gordinhas”, tomam chá-de-cadeira nos bailes da juventude. Lembram, em singeleza, Macabéas e Miguilins em cenários próximos da selvageria da urbe e do campo. Rio de Janeiro e Minas Gerais. Indo além, como não mencionar a poética de François Truffaut em A pequena ladra ou em 400 golpes?

    E justamente por serem talhadas como imagens poéticas, imagem e escrita cumprem sua função de desrealização dessa realidade, bem como sua realização em novas bases, em outro nível, tocando o real, no aqui e agora: apesar de morrerem por overdose de merda (que merda? Escolha o leitor, a este é dado o direito de escolha). Apesar de tudo, os personagens dessa mistura escolhem correr atrás do sonho, tecendo e bordando inusitadas realidades.

    Já o narrador, em diversos momentos, confirmando a fineza do título, levanta-se com elegância, esbraveja e vibra, conversando com o leitor sobre o narrado, sobre o tempo e o amor. Conferindo alguma unidade aos contos, marcados por sua manifestação discreta, mas visível, o narrador, seguindo as palavras da autora, “conta e desconta” apenas para poder “contar o imprevisto”, realizando, com isso, o que toda boa literatura é capaz: tornar possível outra cena, outro modo, outras palavras...

    Pura deriva, como quer a autora. Mas também puro retorno, pois, ao criar suas idas e vindas da vida que se vinga brincando, seu texto faz voltar e pensar, ou recriar outras formas de vida. Capaz de inscrever em nossos muros, em nosso tempo, uma vez ainda: “A imaginação toma o poder”. E o sexo da noite sorri, agradecido.

    Patrícia Carmello é professora e pesquisadora de literatura pela UFMG


    Mistura Fina
    • Vera Casa Nova
    • Editora 7Letras
    • 76 páginas, R$ 34