domingo, 1 de setembro de 2013

Suzana Singer - Folha Ombudsman

folha de são paulo
oMBUDSMAN
Médicos e monstros
Papel do jornal é trazer luz para esse debate extremado sobre o novo programa de saúde do governo federal
A importação de médicos cubanos equivale a encher um "avião negreiro", como tachou a colunista Eliane Cantanhêde, ou os médicos brasileiros que fazem oposição ao programa do governo são "corporativistas" que "colocam a vida de pacientes abaixo de seus interesses", como acusou Gilberto Dimenstein?
A discussão em torno do Mais Médicos pegou fogo nesta semana. As posições favoráveis e contrárias são tão extremadas que fica difícil para o leitor formar uma opinião.
Quais as reais condições de trabalho oferecidas aos cubanos? Está certo exigir que passem por um exame duro (Revalida), se eles vão lidar com atenção básica à saúde? O que os médicos brasileiros que criticam tanto a vinda dos estrangeiros propõem para melhorar o atendimento nas periferias das metrópoles e no interior?
Não são perguntas simples e o papel do jornal nessa hora é trazer luz ao debate. AFolha vinha razoavelmente bem nessa cobertura. Fez reportagens relevantes, abriu espaço para a polêmica e, na terça-feira passada, teve a sensibilidade de publicar na capa a fotografia de um médico cubano sendo vaiado por colegas brasileiros, que também gritavam: "Escravo, escravo!"
Era uma imagem forte, que acabou sendo usada pelos que defendem o programa para tentar deslegitimar as críticas, movidas, segundo eles, por puro preconceito.
Na sexta-feira, foi a vez de o jornal dar munição aos que condenam o Mais Médicos, com a manchete "Prefeitos demitirão médicos locais para receber os de Dilma". Só que desta vez a Folha errou um pouco a mão, a começar pelo título infeliz - "os médicos de Dilma" são o cardiologista Roberto Kalil Filho e o oncologista Paulo Hoff, do Hospital Sírio-Libanês, não os que estão inscritos no programa.
A reportagem elencava 11 cidades do Norte e do Nordeste que decidiram trocar profissionais para ficar com os selecionados pelo governo federal. A vantagem seria uma economia no orçamento municipal, já que a União bancará o salário dos contratados pelo programa.
Segundo o texto, essa troca de mão de obra "ameaça o objetivo do programa", que é diminuir a carência de médicos. Foi dado grande destaque à médica Junice Moreira, demitida do município de Sapeaçu (BA) para, segundo colegas de cooperativa, "dar lugar a um cubano".
Embora uma das regras básicas da Folha seja sempre ouvir o "outro lado", o Ministério da Saúde não foi procurado.
Foi precipitado dar manchete para os 11 casos relatados, que correspondem a 2% dos 539 municípios que serão atendidos nessa etapa do Mais Médicos.
Pode-se imaginar que a Folha detectou a ponta de um iceberg, ou seja, que muitos prefeitos planejam essa manobra. Se tivesse ouvido antes o Ministério da Saúde, o jornal teria registrado que há um cadastro on-line que permite ao governo monitorar mudanças de equipe e punir os municípios que fizerem trocas.
Das 11 cidades listadas com a intenção de substituir médicos, três contestaram as informações publicadas. As prefeituras de Barbalha (Ceará), Sapeaçu e Jeremoabo (Bahia) negam que vão trocar seus profissionais pelos do governo federal.
O coordenador da Agência Folha afirma que a apuração está correta e que as entrevistas estão gravadas - à exceção de Jeremoabo, cuja prefeitura não conseguiram contatar.
Na avaliação da Redação, não havia necessidade de ouvir o Ministério da Saúde, porque "não se trata de uma acusação contra o governo". "O outro lado eram as prefeituras dos municípios."
O Mais Médicos vai começar de verdade amanhã, quando os primeiros profissionais chegarem aos municípios carentes. Vai ficar mais fácil espanar as nuvens ideológicas e avaliar, na prática, a qualidade do programa. Tomara que o jornal não deixe essa novela esmorecer.

    AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA » Vendo Downton Abbey‏


    Estado de Minas: 01/09/2013 


    Downton Abbey parte da saga de uma família aristocrática para revelar um painel da sociedade inglesa       (Carnival Films/Divulgação)
    Downton Abbey parte da saga de uma família aristocrática para revelar um painel da sociedade inglesa


    Tem muita gente assistindo a Downton Abbey. Eu também. A série passa nas quintas-feiras e é repetida aos domingos pelo canal GNT. Tem gente tão curiosa que já comprou todo o seriado inglês, e, em reuniões sociais, pode se gabar de saber o que vai acontecer.

    Guardadas as proporções, a série virou uma espécie de O direito de nascer de nossa época. Quando tal novela de rádio cubana foi levada ao ar, lá pelos anos 1950, foi uma comoção internacional. O ex-vice-presidente da Nicarágua e escritor Sergio Ramirez revelou que, no interior de seu país, era possível acompanhar a novela andando pela rua, pois todos os rádios estavam conectados na estória.

    Quem vê Downton Abbey não apenas segue a saga da aristocrática família Crawley, mas as transformações sociais e morais por que passam ricos e pobres no período que vai do afundamento do Titanic (1912) a vários fatos históricos marcantes: a 1ª Guerra Mundial, a gripe espanhola, a luta da Irlanda pela independência, o surgimento do telefone e das torradeiras elétricas, a evolução da moda e penteados, etc. Além disso, os Crawleys passam por várias crises: uma filha, quebrando a rigidez dos códigos, resolve ser enfermeira durante a guerra, apaixona-se e se casa com um irlandês; outra filha se entrega a um sedutor turco; a outra é abandonada no altar pelo noivo. E o próprio chefe do clã está à beira da falência.

    Não dá para narrar em poucas palavras o que sucede no seriado. Além de me entregar ao prazer normal de assistir a essa impecável narrativa, ocorre-me outra coisa: a ligação possível com algo mais sério e, ao mesmo tempo, divertido.

    Vejam como as coisas aparentemente banais podem ser seriamente estudadas. O seriado inglês é perfeito para estudar história, sociologia, psicologia, culinária, moda e a medicina da época. É interessantíssimo, inclusive para analisar o processo narrativo de ontem e de hoje. Façam a experiência: verifiquem o que é narrativa de estrutura simples e narrativa de estrutura complexa. Não estou fazendo autopropaganda. O livro Análise estrutural de romances brasileiros (Unesp), há 40 anos usado dentro e fora da universidade, explica a estrutura tanto de O guarani, A moreninha e O cortiço quanto de Machado de Assis, Graciliano e Clarice Lispector. Mais do que isso, aquele conceito de simples e complexo ajuda a entender a vida em geral e especialmente as novelas de televisão. Sem falar nos best-sellers que estão por aí.

    Ainda agora, leio nos jornais que Nicholas Sparks veio à bienal carioca lançar seus livros. Ele diz, descarada e triunfantemente, que seus livros só têm uma fórmula, e ele a repete sempre. Com isso, enche o imaginário de seus leitores e a conta bancária ao vender 90 milhões de exemplares.

    O divertido da análise estrutural é que ela materializa e visualiza o que não sabemos. Por exemplo: nesse Downton Abbey, usando recursos simples da matemática (que aprendemos no primário), pode-se dizer que há dois conjuntos: o conjunto da aristocracia e o dos serviçais.

    Esses dois conjuntos (como ocorre em O cortiço, de Aluísio Azevedo), apesar de suas regras, interagem entre si. A interação pode ser ilustrada pelo que chamamos de “código culinário”. A comida elaborada na movimentada cozinha pelos serviçais chega à mesa dos senhores com uma mensagem determinada. E quando um casamento é desfeito e os empregados têm direito a comer a comida dos patrões, ocorre algo curioso. Numa análise mais ampla, poderia-se demonstrar como, além da comida, trajes e etiqueta são importantíssimos. Através desses elementos ocorre o “sistema de trocas” afetivas entre aristocratas e empregados.

    Esses dois conjuntos que interagem e se modificam, por outro lado, estão sujeitos a transformações, recebem o influxo de personagens e agentes do exterior. Surgem conflitos entre novos ricos e velhos ricos, entre aristocracia inglesa e milionários americanos. Em certo sentido, Julian Felllowest, o autor dessa história, guardadas as proporções e diferenças, age como Balzac e Dostoievski. Eles faziam painéis das mutações de sua época. Não é à toa, dizem muitos críticos, que se entende melhor certa época lendo Machado e Jorge Amado que lendo certos livros de história e sociologia.


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    Meninos que dançam‏

    Jovens superam preconceito e sonham reviver a história emocionante de Billy Elliot 



    Jefferson da Fonseca Coutinho


    Estado de Minas: 01/09/2013 


    Lucas Medeiros encontrou na dança força para seguir em frente quando a vida parecia fugir sob seus pés (Leandro Couri/EM/D.A Press)
    Lucas Medeiros encontrou na dança força para seguir em frente quando a vida parecia fugir sob seus pés



    Nos salões de ensaio, no palmo entre as barras e os espelhos, os solos são pas-de-deux perfeitos. O corpo masculino e seu duplo trazem escrita feita à luz e movimento. Ali, o sujeito homem, obra do criador, é a existência na pulsação do instante. Falam o olhar, a respiração e o traçado das veias sob a pele ramificada de suor e ritmo. Agregados, únicos, meninos e meninas, dos 8 aos 80, são levados pelo vigor do teatro físico que há no gênero. No templo do linóleo, impermeável, garotos bailam o bom combate. Escambam o preconceito pelo que há de belo na diferença. Nos passos inspirados no romance social britânico Sob a luz das estrelas, do escocês A. J. Cronin (1896-1981), de 1935 – feito filme e musical de sucesso nos anos 2000 –, o Estado de Minas encontrou alguns dos Billys Elliots mineiros e traz, em série até terça-feira, histórias de amor e entrega à arte do homem na dança.


    Movimento que vem da alma

    Jefferson da Fonseca Coutinho
     

    Lucas Medeiros, 22 anos: a força sagrada da dança que vem do coração (Leandro Couri/EM/D.A Press)
    Lucas Medeiros, 22 anos: a força sagrada da dança que vem do coração

    Com o coração na ponta dos pés de moleque ou no sopro da fala macia de doutor veterano, alunos e professor dão lição de dedicação e coerência nos caminhos incertos da dança. Estrelas meninas, bailarinas, de passado, presente e futuro, acolhem com generosidade os meninos mais perdidos no espaço. Os números da principal escola profissionalizante da dança em Minas Gerais não mentem.



    "Crianças felizes, homens melhores"
    Publicação: 01/09/2013 04:00
    Arnaldo Alvarenga, 56 anos: a dança na cesta básica  (João Miranda/EM/D.A Press    )
    Arnaldo Alvarenga, 56 anos: a dança na cesta básica

    Um ideal. O bailarino que se fez doutor nas artes espera ver “a dança na cesta básica na formação do brasileiro”. As razões de Arnaldo Leite de Alvarenga, de 56 anos, são muitas. De sobra. Uma delas é a fé num ser humano melhor por meio da cultura da dança e tudo que ela envolve. “A dança precisa estar no crescimento das crianças”, defende. “Crianças felizes, homens melhores”, acredita Arnaldo. O artista, professor, coreógrafo e pesquisador é um dos responsáveis pela escola superior de dança da UFMG, que diploma sua primeira turma no próximo ano.

    Na adolescência, em tempos difíceis, Arnaldo sofreu bullying na escola. “Na época, não tinha esse nome, mas era isso. Para muitos, por causa da dança, eu era o ‘veado’ do colégio”, lamenta. Arnaldo diz ter perdido a conta das vezes em que “brigou de porrada” com seus agressores na saída do Instituto Champagnat, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte. O garoto inquieto, dançarino, de muita personalidade, não baixou a cabeça. Quanto mais provocado, mais dedicado à inquietude da alma.

    Irrequieto, o menino Arnaldo levou os conhecimentos das artes cênicas e da astronomia – outra paixão – para entre os muros da escola. No último ano na casa de ensino, com o espírito de liderança fortalecido, agregou os colegas da eletrônica e desenhistas para seu grand finale: Fausto, poema trágico do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832). Arnaldo adaptou, coreografou, pintou, bordou e dirigiu. Em cena, o estudante despediu-se, encarnando Mefistófeles, o demônio.

    Bem antes do Instituto Champagnat, nos anos 1960, o menino Arnaldo já aprontava das suas no entorno da Avenida Álvares Cabral, saltando telhados. Um precursor do parkour – arte de deslocamento e de exploração de obstáculos, utilizando-se das habilidades do próprio corpo –, o professor “brincava de pegador nas alturas”, vencendo as obras do prédio da Escola de Direito da UFMG. Num salto da memória, com ares de garoto, Arnaldo conta que já esteve engessado por seis vezes. “Até os 13 anos, fui uma constante no Hospital da Previdência”, diverte-se.

    Em casa, na Avenida Augusto de Lima, Arnaldo demonstra prazer e gosto em falar do passado. Ainda que de recortes difíceis nas lembranças, como o bullying na escola e os conflitos em família pela imersão no mundo da dança. Como o personagem Billy Elliot, inspirado na obra de A. J. Cronin, Arnaldo precisou dançar escondido. Tristeza breve, apagada pelo orgulho das aulas na Escola de Dança Moderna Marilene Martins, no terceiro andar do Colégio Arnaldo. “Ganhei uma bolsa. Naquela época, catavam-se os homens no laço para a dança”, conta.

    Algum tempo depois, a escola ganhou o nome de Trans-Forma Grupo Experimental de Dança, espaço que marcou a história da dança na cidade. Arnaldo se emociona ao relembrar o salão de ensaios na Avenida Carandaí, entre as mangueiras e as curvas da Serra do Curral, numa metrópole horizontal, de outros tempos. Emoção que se repete ao relembrar o professor Carlos Leite, velhinho, severo, movendo as pás do moinho nos bastidores de Dom Quixote, de Cervantes (1547-1616), no Teatro Sesiminas, nos anos 1990, substituindo o técnico que faltou ao trabalho.

    Estudioso por natureza, paralelo à dança, além dos estudos em técnica de desenho arquitetônico, Arnaldo se graduou em geologia. Também se formou terapeuta corporal e fez carreira como “pesquisador do corpo do idoso”. Ganhando o pão sempre por meio da dança, Arnaldo chegou a trabalhar com “leitura corporal aplicada na área de recursos humanos” para grandes empresas. A academia foi caminho natural para o menino gentil, aplicado, que devora livros e trabalha para melhorar o mundo.

    Mestre e doutor em educação, Arnaldo Alvarenga, o “Mefistófeles” de passagem tumultuada, vilipendiado na escola secundarista, cativou o respeito das mais altas rodas. Orientador de muitos, é autor de livros na área de história da dança, além de professor dos cursos de graduação em teatro e da dança da Escola de Belas Artes da UFMG. Casado com a restauradora Dolores Belico, Arnaldo alimenta em casa outra paixão. Uma pinscher serelepe, habilidosa com as quatro patas, chamada Pina Bausch.


    Um sinal do Olimpo



    Em 2008, durante culto na Igreja do Evangelho Quadrangular, uma revelação: de acordo com o pastor visitante, um jovem presente, de 17 anos, iria encantar muitas paisagens com sua arte. O líder estranho se aproximou do garoto ainda mais estranho e disse: “Fique de pé, meu filho. Deus tem um plano para a sua vida. Ele se alegra com a sua dança e você ainda vai fazer parte de uma grande companhia e levar a sua dança para vários lugares”. Palavras reunidas que marcaram o coração de Lucas Medeiros, de 22, do Bairro Jardim Alvorada, na Região Noroeste de Belo Horizonte.
    Hoje, o bailarino é destaque da Companhia de Dança Palácio das Artes, um dos grupos mais importantes do Brasil, em atividade desde 1971. Há cinco anos, na época da revelação, o mundo parecia ter desabado sobre a família de Lucas. O pai, Kleider Valério de Medeiros, de 47, gerente de hotel, havia enterrado a mulher, vítima de leucemia, ao mesmo tempo em que cuidava da doença rara da filha. A menina adolescente, bailarina, perdia os movimentos da cintura para baixo. Uma maré de desgosto, envolvendo a mãe e a irmã tão queridas, principais referências de Lucas.

    “Quando minha mãe morreu, se consolidou no meu coração uma convicção de que, independentemente das circunstâncias, a dança em mim era para toda a vida”, emociona-se. Pouco antes do período de agonias, Lucas já dançava balé, jazz moderno e contemporâneo em pas-de-deux com a irmã. “Na igreja, quando comecei a dançar, senti que podia dizer mais com o meu corpo do que com as palavras.” Depois de estudar por conta própria passos copiados em DVDs e de levar às salas de ensaio os alongamentos aprendidos nas aulas de educação física, Lucas entendeu que era hora de treinar e dançar para valer.

    Ao ouvir a revelação dita pelo pregador, que não o conhecia e não sabia de sua história amadora com a arte, Lucas caiu em águas. “Na hora, entrei em prantos. Já sentia essa vontade, essa vocação. Aquilo me tocou profundamente”, ressalta. Cinco anos passados, imersos nos salões de ensaios, Lucas já não frequenta mais os cultos evangélicos. “Antes, na igreja, Deus era algo externo, que me via de cima. Hoje, com a dança, Deus está dentro de mim”, volta a emocionar-se, trazendo a mão aberta ao lado esquerdo do peito. Pausa na conversa para ensaio de solo em Tudo que se torna um.

    No salão no quarto andar do Palácio das Artes, com o balanço nas janelas das copas verdes do Parque Municipal, Lucas é iluminado pela claridade que atravessa as vidraças. Parece um gigante de asas no manejo da muleta feita pá no espetáculo de repertório. Não está só. Nos arredores, entre os veteranos da companhia, estrelas bailarinas como Sônia Pedroso, Lina Lapertosa, Cláudia Lobo e Lívia Espírito Santo. “Privilégio e honra do encontro”, segundo o jovem artista. Lívia e Sônia foram professoras de Lucas. Hoje, são colegas de cena. “São minhas referências, espaço de força e informação”, agradece.

    O pai, Kleider, gostaria que Lucas fizesse algo de futuro e dinheiro: “Medicina, direito…”, conta o bailarino. Preconceito é assunto superado. Para ele, os tempos mais difíceis já são poeira no tempo. Ainda que as “piadinhas machistas” vindas de colegas de cursinho o incomodem. Lucas voltou às salas de “aulas normais”. Prepara-se para o vestibular de cinema da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) . “Tenho enfrentado de novo o que eu já tinha até esquecido. Mas, na medida do possível, tento lidar com isso de maneira natural”, suspira.


    Ruídos embalam os passos

    Pablo Garcia do Carmo, 13 anos: vocação que vem da infância (Leandro Couri/EM/D.A Press    )
    Pablo Garcia do Carmo, 13 anos: vocação que vem da infância

    Pablo Garcia do Carmo, de 13, pequenino, parecia impossível aos olhos dos pais. Tudo o que é ruído ganhava movimento no corpo miúdo em calças curtas do garoto. O moleque dançava ao som do liquidificador, dos chiados da TV e das britadeiras nas ruas. Não havia som no espaço que não ganhasse passo para o mocinho de pouco mais de metro. Aos 4 anos, a mãe, Luciene da Conceição Morais, de 37, conta “pirueta” de Pablo no hipermercado que resultou em batelada de jarras de acrílico pelos corredores.

    “A dança para ele sempre foi tudo. Tentamos levá-lo para o futebol, para o tae-kwon-do, não teve jeito. Ele só queria saber de dançar”, conta a comerciante. De acordo com a mãe, na escola, enquanto os colegas de luta treinavam golpes, Pablo pedia para ir ao banheiro. “Só para sair da sala e ver as meninas do balé.” Em casa, qualquer coreografia da TV – em comerciais, programas e novelas – servia para ser copiada entre os móveis dos cômodos de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

    O balé, “coisa de menina”, para a família estava para se esvair. “Um dia, na rua, Pablo viu uma menininha, bailarina, vestida de azul. ‘Se tem azul, aceita homem’, ele pensou. Pegamos o endereço da escola e ele não parou mais”, diz Luciene. Da Escola da Eliane para o Centro de Formação Artística (Cefar), do Palácio das Artes, foi um pulo. Aprovado pela Fundação Clóvis Salgado (FCS), em 2008, Pablo avança com os estudos para a tão sonhada profissionalização.

    Com o apoio dos mais próximos, especialmente da mãe e do pai, Paulo Sérgio Viana do Carmo, de 45, Pablo tem superado como gente grande os desafios de ser o único homem da família na dança. Diz não se importar mais com os comentários entre conhecidos de “ele é bailarino, gente… ele usa saia”. Teve também casal de tios que proibiu o filho de brincar com Pablo. “Você não vai brincar mais com ele, porque dançar balé não é coisa de homem”, disseram. Pablo lamenta. Contudo, mostra-se preparado para lidar com os ruídos do preconceito e da falta de informação.


    Uma escola para a vida

    Formandos do Cefar: quatro homens e duas mulheres invertem a tradição (Leandro Couri/EM/D.A Press    )
    Formandos do Cefar: quatro homens e duas mulheres invertem a tradição

    Na sala de ensaio de esquina no Cefar, o grupo de quatro meninos e duas meninas ensaia e chama a atenção. São formandos de mais uma turma do curso profissionalizante de dança da Fundação Clóvis Salgado. Grupo raro com o dobro de homens em relação às mulheres. A proporção de profissionais masculinos formados pela escola do Palácio das Artes nos últimos cinco anos é de dois meninos para cada 10 meninas. Privilégio para a dupla Sara Marchezini, de 22, e Carolina Pego, de 21. Duas moças sorridentes, de encantos típicos das meninas de tutu e sapatilhas cor-de-rosa.

    Carolina dança desde mocinha. Passou pelas salas de aula da UFMG, mas não gostou do ensino superior da dança. Este ano, prepara-se para tentar vaga no curso de comunicação das artes do corpo, na PUC de São Paulo. Para a bailarina, é uma alegria ver seus colegas homens felizes com as sapatilhas. “É realmente complicado porque existe o preconceito. Mas, ao mesmo tempo, é maravilhoso ver os meninos vencendo essa barreira”, considera. Sara Marchezini, não menos apaixonada pelos tablados, vê o homem na dança, no Brasil, como um avanço social. “É uma interação importante não só para a arte, mas para a vida de ambos. Homens e mulheres”, avalia.

    Os quatro garotos sorriem ao ouvir o depoimento das belas. Ricardo Sabino, de 27, o mais alto do grupo, ator de musicais, busca qualificação nas aulas de clássico. Já esteve em cena nos espetáculos Cinderela, Branca de Neve e Eu não sou cachorro não, produções de Belo Horizonte. O artista revela que a família foi sabendo aos poucos da sua paixão pela dança. “Minha mãe se assustou quando viu pela primeira vez os acessórios que uso na dança. Foi um choque o suporte nas mãos”, diz.

    Dalton Correia, de 23, olhos verdes luminosos, alegra-se com a conversa. Diz que, por anos, garoto, levantou às 5h e chegou em casa por volta da meia-noite, todos os dias, para dar conta da jornada dupla de bailarino e operador de telemarketing. Morador de Contagem, na região metropolitana, o formando passa três horas por dia dentro do ônibus 6820. Problemas de aceitação pela escolha profissional superados, Dalton foca no último ano de formação. “Deixei o trabalho para me dedicar aos espetáculos de final de curso.”

    “Vi pais, incomodados com as roupas que os filhos usavam, levantarem-se no meio do espetáculo e deixarem a plateia”, diz Elton de Souza, de 22, professor de dança contemporânea nas horas vagas. De Ibirité, também passa cerca de três horas por dia dentro do busão. Um dos 16 bolsistas do Balé Jovem da Fundação Clóvis Salgado (FCS), Elton conta com o apoio da família e dos amigos para levar adiante o sonho de fazer carreira e ser respeitado como profissional da dança.

    Vem de Jordânia, no Vale do Jequitinhonha, o último formando de 2013. Henrique Dias, de 27, dança desde os 13. Fez carreira entre os jordanienses com o axé e com o forró. Na terra natal, diz ter sofrido com as piadinhas machistas dos “leigos”. “São leigos. Tratam a arte assim, com chacota, porque não sabem do que estão falando”, justifica, em paz. Por dois anos, em 2008 e 2009, Henrique passou pela escola de dança do Grupo Corpo. Desde 2010 no Palácio das Artes, o bailarino comemora “dias mais amenos”. “A falta de R$ 30 para a inscrição na escola ficou para trás”, sorri.


    Estima-se que 40% das brasileiras com mais de 50 anos apresentam algum grau de calvície.‏


    Símbolo de feminilidade 

    Estima-se que 40% das brasileiras com mais de 50 anos apresentam algum grau de calvície. Dependendo da intensidade, a queda de fios mexe com a autoestima e causa depressão
     

    Celina Aquino

    Estado de Minas: 01/09/2013 


     (istockphoto)


    Enquanto cabelo era sinônimo de força para Sansão, é provável que Dalila o enxergasse como símbolo de feminilidade. Por isso, a queda dos fios pode ser tão devastadora para as mulheres. Estima-se que 40% das brasileiras com mais de 50 anos apresentam algum grau de calvície. Em casos mais extremos, a perda de cabelo mexe com a autoestima e pode até causar depressão.

    Existem mais de 100 causas conhecidas de queda de cabelo. A mais comum está relacionada com a genética. Apesar de o problema não passar necessariamente de uma geração para a seguinte, a herança familiar tem forte influência. “Se a mulher tem pais, avós, tios ou irmãos calvos, a probabilidade de ter queda de cabelo é maior”, pontua o cirurgião plástico mineiro Marcelo Pitchon, especialista em transplante capilar. Ele informa que 95% a 98% dos casos têm ligação com a genética, o que leva a alopecia (nome técnico da calvície) androgenética a se manifestar com mais frequência entre as pacientes.


    Geralmente, as mulheres calvas começam a perder cabelo a partir de um a dois centímetros depois da linha que emoldura o rosto, o que é diferente do sexo masculino, pois os homens costumam apresentar as famosas entradas, até que ficam sem o contorno entre a testa e o couro cabeludo. Pitchon esclarece que há, na linha do cabelo das mulheres, uma enzima chamada aromatase, que tem papel protetor do couro cabeludo. A substância não está presente na cabeça dos homens.
    É normal perder até 100 fios todos os dias. Isso porque o cabelo tem um ciclo de vida, que pode durar de dois a sete anos, em que passa pelas fases de nascimento, crescimento e queda espontânea. Em mulheres com tendência genética, os fios vão crescendo cada vez menos, até que chegam ao ponto em que ficam praticamente imperceptíveis, o que as leva a enxergar o couro cabeludo.


    Quem não tiver paciência para contar fio a fio pode observar outros aspectos que caracterizam a alopecia androgenética. Se o rabo de cabelo começa a afinar, algumas áreas do couro cabeludo estão visíveis ou há fios muito finos entre os normais, é hora de fazer avaliação com um especialista. “Vemos mulheres que compram uma série de produtos, que não são necessariamente ruins, mas não são indicados para o caso delas. Não existe receita de bolo. Queda de cabelo é um assunto médico e a orientação é procurar um dermatologista, e não fazer tratamentos caseiros”, alerta o coordenador do Departamento de Cabelos e Unhas da Sociedade Brasileira de Dermatologia, Francisco Le Voci.


    Com a escolha adequada, é possível esticar o tempo de sobrevivência dos fios. Le Voci acrescenta que o arsenal terapêutico também consegue impedir ou desacelerar o acometimento dos folículos pilosos, estruturas de onde nascem os fios, que começam a atrofiar em quadros de calvície. O sucesso do tratamento, no entanto, depende do estágio em que está a alopecia. “Independentemente do resultado, mesmo que não seja o dos sonhos, o melhor é tratar adequadamente, do que não tratar. A perda dos cabelos tem efeito devastador. As mulheres ficam extremamente abaladas, muito desconfortáveis, com vergonha e, às vezes, deprimidas”, observa o dermatologista, que defende o acompanhamento médico.

    SOLUÇÃO A autoestima da administradora de empresas Suely Rocha Mitraud Ruas, de 58 anos, despencou na mesma proporção em que os fios caíram. “Qualquer mulher que tenha um pouco de vaidade não se sente bem ao se olhar no espelho. Vivi muitos momentos de tristeza por causa disso. Você vira alvo de olhares”, relembra. Para disfarçar a calvície, ela cortou o cabelo bem curtinho e passou a usar faixas arco no cabelo. Suely demorou para procurar ajuda, acreditando que a queda fosse uma situação passageira, provocada por estresse. Não sabia que, entre os seis irmãos, havia sido sorteada para puxar a calvície do pai.


    O tricologista de São Paulo Adriano Almeida explica que é possível tratar a alopecia com medicamento oral, muitas vezes associado a vitaminas, injeções intralesionais no couro cabeludo, laser (aplicado semanalmente, com luz que estimula o desenvolvimento do cabelo) e loções capilares para uso em casa. Os xampus também integram o tratamento, não porque impedem a queda, mas porque tiram a oleosidade dos fios, fator que dificulta o crescimento. As mulheres, normalmente, optam por usar uma prótese de cabelo enquanto os fios não aparecem. Ao contrário da peruca, o implante não cirúrgico é feito sob medida para as pacientes, com fios naturais que se assemelham aos originais.


    Alternativa definitiva, o transplante capilar pode custar de R$ 6 mil a R$ 40 mil. O médico retira a reserva de cabelo da parte posterior da cabeça. Não se sabe por que, essa é a região que nunca vai ser afetada pela calvície. Invenção do especialista mineiro Marcelo Pitchon, a técnica com fios longos pode ser a salvação das mulheres, já que o cabelo da paciente não é raspado. Os fios são transferidos do tamanho em que estão, permitindo um resultado imediato. “O importante é a sombra que o cabelo dá. Como tenho a possibilidade de mudar o ângulo, aproximar ou afastar mais os fios, consigo cobrir áreas maiores”, descreve o cirurgião plástico, referindo-se ao procedimento, que considera uma arte.


    Com o transplante capilar, Suely deu uma rasteira na genética e voltou a sorrir. Ela revela que não tem o mínimo constrangimento de falar sobre a cirurgia e agora fica feliz em saber que nada a impede de deixar o cabelo crescer. “Posso decidir o que quero fazer”, comenta.



    Xampus antiqueda funcionam

    Mito – A função básica de um xampu é a higienização adequada dos cabelos. Com relação à queda, a ação é muito limitada. No tratamento, é importante o uso do xampu para a limpeza do couro cabeludo e para que não ocorra agressão
    aos fios.

    O uso de secador e chapinha provoca queda de cabelo

    Verdade – O secador deve ser usado com temperatura de morna a fria para que não ocorra dano térmico em fios já enfraquecidos. A chapinha também deve ser evitada se os fios estiverem fracos, pois pode intensificar a fragilidade.

    Os fios caem mais em quem lava a cabeça todos os dias

    Mito – A lavagem diária não provoca mais queda de cabelo.

    Dormir com o cabelo molhado influencia na queda de cabelo

    Mito – O hábito pode deixar os fios mais secos e quebradiços, mas não piora a queda.

    Caspa está relacionada com queda de cabelo

    Mito – A caspa é uma condição crônica, que não está associada à queda. O que pode ocorrer é uma mulher ter mais caspa por alterações hormonais que estejam provocando a perda
    dos fios.

    Uma pessoa estressada pode ficar calva

    Verdade – O estresse pode ser um fator secundário de acentuação da calvície, mas existem alopecias que são causadas primariamente por isso.

    A alimentação influencia
    na queda de cabelo

    Verdade – Uma alimentação deficiente de nutrientes pode, sim, causar queda.
    Normalmente, isso ocorre em casos de quase desnutrição ou um déficit muito significativo.

    O cabelo cai mais com
    o envelhecimento

    Verdade – Os fios podem cair mais com o passar dos anos. Todos teremos algum grau de queda com o envelhecimento, o que não quer dizer que ocorrerá uma calvície avançada somente por conta disso.

    Antibiótico causa queda
    de cabelo

    Verdade – Existe, sim, a possibilidade de vários medicamentos provocarem a queda dos cabelos. Isso, muitas vezes, está relacionado com a sensibilidade de cada pessoa.

    Deixar resíduos de creme pode fazer o cabelo cair

    Mito – Os resíduos normalmente não provocam queda.

    O uso de química (escova progressiva, tintura) acelera o processo de queda de cabelo

    Verdade – Os tratamentos cosméticos, de maneira geral, podem acentuar a queda em fios enfraquecidos. Em alguns casos, podem até ser a causa primária de uma queda mais acentuada.

    É normal cair cabelo durante a gravidez

    Mito – As alterações hormonais durante a gravidez levam a uma diminuição da queda de cabelo.
    O que pode haver é uma queda mais intensa, compensatória,
    no pós-parto.

    Anticoncepcional acelera a queda de cabelo

    Depende – O anticoncepcional geralmente auxilia no tratamento de calvície, pois regulariza o ciclo menstrual. Porém, pode ocorrer de a pílula piorar a queda em algumas mulheres.

    Fonte: Francisco Le Voci, coordenador do Departamento de Cabelos e
    Unhas da Sociedade Brasileira
    de Dermatologia



    ALÉM DA    GENÉTICA

    Quando é temporária, a queda de cabelo pode ser provocada por outros fatores que
    não estão ligados à
    herança familiar:

    deficiência nutricional: principalmente de cobre, zinco e ferro, minerais importantes para o crescimento do cabelo

    distúrbios endócrinos: o hipotireoidismo é um dos problemas que podem interferir no ciclo do cabelo

    cirurgia bariátrica: impede que a paciente absorva os nutrientes de forma adequada, o que pode levar à queda de fios

    alopecia areata: tipo de calvície, geralmente causada por
    estresse, que faz o cabelo cair em pequenas áreas

    menopausa: a mulher deixa de produzir o hormônio feminino de forma abundante, elevando a concentração do hormônio masculino, responsável pela queda de cabelo

    doenças autoimunes: é frequente
         haver queda de cabelo em
         pacientes com lúpus

    quimioterapia: o tratamento para câncer também ataca as células que dão origem
    ao cabelo

    Fonte: Adriano Almeida, tricologista