sábado, 7 de setembro de 2013

Duca Leindecker músico e escritor‏


LETRA E MÚSICA » Em busca da leveza O guitarrista, cantor e escritor gaúcho Duca Leindecker lança o álbum solo Voz, violão e batucada com 10 canções inéditas, em que toca todos os instrumentos 

Walter Sebastião

Estado de Minas:
07/09/2013 


Além de trabalho autoral, Duca Leindecker mantém projeto Pouca Vogal com Humberto Gessinger     (Edu Defferrari/Divulgação)
Além de trabalho autoral, Duca Leindecker mantém projeto Pouca Vogal com Humberto Gessinger


Tem som diferente no ar: Voz, violão e batucada, segundo CD solo do gaúcho Duca Leindecker, de 43 anos. Ele é compositor, instrumentista, cantor, diretor de clipes e escritor com dois romances publicados. E discografia extensa: sete discos com a banda Cidadão Quem e um com o Pouca Vogal, projeto com Humberto Gessinger. “Tudo ao mesmo tempo. Entrei na onda da gurizada de ter várias projetos simultâneos”, conta com humor e falando de público que é leitor de seus livros. “Temos muitos meios disponíveis e adoro ficar fazendo arte o tempo todo”, justifica.

Voz ,violão e batucada traz 10 canções inéditas, todas escritas em 2012. Músicas tranquilas, interpretadas com gosto, pop fino, autoral sem ser esnobe. Com som diferente: Duca toca violão (inclusive batucando na caixa do instrumento), bumbo e pandeiro, construindo sozinho harmonias e percussões. É o próprio músico quem recomenda ver o clipe de Iceberg no YouTube, para entender a proposta. “Experimentação, hoje, é fundamental. Vivemos momento de desgaste dos formatos. Os Beatles são geniais, mas precisamos de outras possibilidades musicais”, defende.

 O disco mostra qual é o desejo musical de Duca no momento: dedicar-se às canções. Projeto de alguém que começou carreira como instrumentista e, ainda muito jovem, foi considerado um dos melhores guitarristas do Rio Grande do Sul. “Quando a gente se dedica ao estudo de um instrumento, acaba se afastando da coisa mais essencial da música, que é a canção. Instrumental é muito forma. Estou buscando alguma coisa que seja forma e conteúdo”, explica. Canções que mostram resultados dessa investida podem ser Tudo é longe ou Brutalidade e sol.

A vontade de fazer canções vem movida ainda por mais um desejo: realizar música que tenha espontaneidade e soe natural. “Não é fácil. Tudo é fluente quando você está tocando em casa. Ligou o botão no estúdio, vem a tensão”, conta. “Passar leveza em música é desafiador”, garante. Algumas composições, que lembram o som do primeiro Clube da Esquina, movimento que o gaúcho admira, estão ligadas a esse aspecto “É música que tem espontaneidade”. Ainda ligado à mesma referência está o fato de Duca ter mãe mineira e ser amigo e admirador dos irmãos Venturini.

Duca Leindecker avisa que é compositor que canta. “E quem canta seus males espanta”, brinca. “Cantar é colocar para fora, da forma mais visceral possível, os sentimentos que temos dentro de nós e, nesse sentido, terapia”, define. Adora ver intérpretes cantando músicas dele, como é o caso de Maria Gadú e Tiago Iorc, que gravaram a canção Música inédita.

Dylan
Duca Leindecker toca vários instrumentos. Começou vida profissional aos 13 anos tocando violão em bares. “Me pagavam com arroz de carreteiro”, recorda. Ele lembra ainda que, nas apresentações, ia da bossa nova à música tradicional do Rio Grande do Sul. Com o aparecimento do rock, nos anos 1980, participou de várias bandas, conheceu Humberto Gessinger e criou o Cidadão Quem. O que o levou a se interessar pela guitarra, que valeu a Duca, por três vezes, ser considerado pela crítica especializada o melhor guitarrista do Rio Grande do Sul. Bob Dylan, nos anos 1990, assistiu à apresentação de Leindecker e o convidou para fazer abertura de shows.

É de 1999 o primeiro romance, A casa da esquina, já em 10ª edição. O segundo, A favor do vento, foi lançado em 2002. Duca está concluindo nova obra – além de ser jurado do setor de literatura da edição de 2013 do prêmio Açorianos. “Difícil definir o que sou”, observa, evitando rótulos de músico, escritor ou cineasta. “A literatura foi muito importante, porque me deu linha direta com a gurizada.”

Colaborou para isso, explica, o primeiro livro ter agradado às escolas de ensino médio. Duca Leindecker assinou vários clipes e um curta-metragem, Chá de frutas vermelhas. “Sem estrutura não dá para pensar em cinema”, lamenta.

duas perguntas para...
Duca Leindecker
músico e escritor

Como você analisa a relação dos jovens com a leitura?

É incrível a disposição dos mais jovens para ler. A prova é Harry Porter, livros enormes que eles devoram, porque são obras que vão ao encontro deles. O que não dá é para empurrar os clássicos, é queimar etapas. Cria trauma que leva à generalização, incorreta, de que literatura é chato. A gente chega aos clássicos. O jovem hoje fala outra língua, é outro ser humano, então é complicado entender linguagem de dois séculos atrás.

A que se deve o aumento de livros escritos por músicos?

São dois fenômenos. Um, genuíno, natural, porque contar histórias tem a ver com música. Qualquer música, até instrumental, conta uma história, tem uma narrativa por trás. Outro aspecto é que, com a derrocada da indústria fonográfica, como não se vendem mais discos, as pessoas querem fazer algo que venda. Temos escritores de verdade e também muito oportunismo.

Ideias garantem o futuro‏

Visando estimular o empreendedorismo dentro das universidades, programa da PUC Minas já beneficiou 120 estudantes desde que foi criado, em 2005 


Paula Carolina


Estado de Minas: 07/09/2013 

Transformar uma ideia inovadora em empresa rentável. Esse é o mote do Programa de Aceleração Célula PUC Minas, que, em parceira com a Fumsoft – instituição que atua na criação, capacitação, qualificação e fomento de empreendedores e organizações produtoras de software de Minas Gerais –, tem o objetivo de disseminar e estimular o empreendedorismo dentro das universidades. Desde 2005, cerca de 35 empresas, num total de 120 estudantes, já passaram pelo programa, muitas atuando com sucesso hoje no mercado.

A cada ano, alunos do curso de sistemas de informação da PUC têm a oportunidade de, com estudantes de outras áreas ou mesmo já formados (e independentemente da instituição de ensino), constituir uma sociedade e participar de processo de seleção que elege três ou quatro projetos para serem desenvolvidos dentro da Fumsoft. “É o período mais propício para despertar neles a vontade de empreender. Aliás, os universitários hoje querem é empreender, ter seu próprio negócio. Ninguém mais quer ser empregado. A chamada geração Y é competente, quer trabalhar, mas privilegia muito a questão da autoria”, pondera a coordenadora de empreendedorismo da Fumsoft, Daisy Melo. 

A exigência para a formação do grupo é que pelo menos dois integrantes sejam estudantes do curso de sistemas de informação da PUC. “Os estudantes podem ter sócios de áreas complementares às habilidades que serão desenvolvidas pela empresa”, continua Daisy. “O importante é que tenham um sonho e saibam atrair essas pessoas complementares, pois, normalmente, a ideia é de um só”, observa. A partir do momento em que o grupo é selecionado, o projeto é modelado e construído um modelo de negócio para, então desenvolver o produto mais viável dentro daquele objetivo. Durante seis meses, os estudantes trabalham dentro da Fumsoft, tendo não só espaço físico e mobiliário à disposição como a consultoria de profissionais capacitados na área de tecnologia da informação e a convivência com outros empreendedores. “Das 35 empresas desenvolvidas dentro do programa, sete estão atuando hoje. É um resultado extraordinário se considerarmos que estão só validando ideias. Hoje, um capitalista de risco que quer investir olha de 100 até mil empresas e não consegue escolher uma para apostar”, compara a coordenadora.

CUIDADOS O último processo de seleção ocorreu em abril e os grupos iniciaram os trabalhos em junho. Em dezembro, os projetos serão apresentados a potenciais investidores. A Cuidare On-line é uma das empresas em desenvolvimento. Formada em enfermagem, Viviane Reis de Oliveira já estava criando um site voltado para cuidadores (e para quem procura um cuidador) em diversas áreas da saúde e bem-estar. Associou-se ao irmão, que cursa sistemas de informação na PUC, e o programa caiu como uma luva. “Acho que uma das coisas mais importantes foi que, na Fumsoft, iniciamos o processo da maneira correta. Muitos projetos morrem antes da hora por ser iniciados da maneira errada”, afirma Viviane. “Aprendemos a montar um plano de negócios e temos uma assessoria”, completa.

A Cuidare On-line é um site que pretende ser uma plataforma para conectar quem busca serviços que envolvam cuidados de maneira geral – cuidadores de idosos, babás, atendimento a gestantes, personal trainer, fisoterapeutas etc. – com quem oferece esses serviços, seja empresa ou profissionais freelancer. O objetivo é dar um atendimento bem personalizado.

“Muitas pessoas têm exigências pontuais. Por exemplo, no momento, tem uma pessoa que está procurando um personal trainer que esteja no condomínio onde mora, em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, às 6h. Com certeza, deve ter alguém com essa disponibilidade, mas essa pessoa não está encontrando. O site busca exatamente fazer essa conexão”, exemplifica. A plataforma pretende funcionar em duas vertentes. De um lado, quem está buscando qualquer tipo de serviço entra no site, faz a inscrição e se cadastra. E pode, inclusive, participar de comunidades relativas ao assunto. De outro, o profissional se apresenta e pode comprar uma cota dentro do site para integrar uma lista de cuidadores. Todos passam por processo de verificação de segurança, que inclui desde a checagem do endereço onde moram e possíveis antecedentes criminais em todo o Brasil até o perfil disponível em redes sociais. 

“Notamos que quem busca uma babá ou um cuidador de idoso, por exemplo, tem sempre um pé atrás e muito receio de colocar um desconhecido em casa. Então, pretendemos dar essa segurança”, avalia Viviane. Outra proposta é visitar gratuitamente as pessoas que buscam os cuidadores para entender de perto suas reais necessidades.
Para dar mais segurança ao acordo entre contratantes e contratados, o site oferece ainda um serviço, nesse caso pago, que envolve a garantia de marcação de dia e horário e até de pagamento entre as partes, para evitar “cano” de um dos dois lados. “O pagamento do profissional pode ser feito pelo site e só é disponibilizado para ele depois de realizado o serviço. Por outro lado, ele já vai fazer o serviço sabendo que o depósito está garantido”, explica. Grande parte do site já está concluída e, no momento, o grupo de Viviane está na fase de cadastrar profissionais para depois dar início ao processo de divulgação.

JOGOS Recém-formado em tecnologia em jogos digitais pela PUC São Gabriel e professor de curso técnico, Klaus Wagner Oliveira da Cunha desenvolve a Angra Games com quatro amigos. “A ideia já estava em andamento há uns seis meses. Vimos o edital e resolvemos participar. Além da estrutura física, passamos a contar com networking e consultoria em geral para a criação do produto, amadurecimento e desenvolvimento da empresa”, conta. O objetivo é desenvolver qualquer tipo de aplicação ou interação em jogo, usando o conceito de gamificação, ou seja, o uso de aplicativos em jogos em situações ou aplicações que não necessariamente sejam jogos.

Usando a experiência de professores que todos são, um dos primeiros focos é o ensino a distância, com elementos de interação baseados em jogos. "O aluno vai fazendo a atividade que o professor deixou no sistema, como se fosse um jogo. Tem pontuação e ranking. Enquanto joga, ele está estudando", explica Klaus. “Qualquer interação vale ponto. O aluno aumenta a experiência e, conforme vai evoluindo, vai ganhando títulos. E esse espaço é visível para os professores, que podem, por exemplo, avaliar qual é o melhor aluno”, continua. O primeiro cliente e patrocinador do projeto é o Centro Educacional Conceição Ferreira Nunes (Cecon), onde todos os integrantes do grupo já trabalharam e para o qual está sendo desenvolvido também um sistema completo de gerenciamento, incluindo controle de matrícula e tudo mais que uma escola precisa.

CARREIRA Da comunicação entre universitários de forma anônima ao conhecimento mais profundo da futura profissão, a Plano de Carreira mudou consideravelmente o foco depois do apoio da Fumsoft. “Nosso projeto mudou bastante. A ideia inicial era desenvolver um aplicativo de comunicação em que, por exemplo, você é estudante da PUC e viu alguém na lanchonete e quer se comunicar com essa pessoa. Então, usaria esse aplicativo de forma anônima. A pessoa que nos orientou disse que poderíamos melhorar a ideia e foi o que fizemos”, relata a estudante de biomedicina Carolina Gonçalves Dias. “Refletindo mais, vimos outro problema mais significativo para os universitários em um primeiro momento, que é conhecer bem o mercado em que vai trabalhar e saber como se capacitar para sair da faculdade mais bem preparado”, continua. 

A equipe então criou um site em que estudantes podem se cadastrar e conhecer empresas do setor relacionado ao curso que fazem. Por outro lado, a empresa tem a oportunidade de se apresentar, como uma forma de publicidade, e também vir a conhecer aqueles que poderão ser seus futuros profissionais. Oferecer cursos de capacitação é outro objetivo do site, que iniciará o conteúdo com o curso de publicidade e propaganda, tendo em vista a experiência de uma das integrantes da equipe.

Personagem da notícia

André Fonseca, Sócio-proprietário da dito Internet

Exemplo de sucesso

Os empresários André Fonseca e Bruno Andrade Alves se conheceram na faculdade e resolveram participar do Programa de Aceleração Célula PUC Minas para desenvolver a empresa Dito Internet, o que teve início em meados de 2007. Hoje, a empresa cria aplicativos que têm o objetivo de ajudar outras empresas a gerar negócios por meio do relacionamento de consumidores nas redes sociais. Entre os clientes, nada menos que marcas como TIM, Fiat, MRV e Ingresso.com. Este último, contratante de um serviço que ilustra bem a atuação da empresa. "O objetivo é permitir que a pessoa compre, pelo Facebook, o ingresso para o cinema. Quando compra, fica sabendo que amigos seus já assistiram àquele filme, o que acharam, a que outros filmes assistiram etc.", explica André. "Pesquisas mostram que as pessoas confiam mais na opinião dos amigos do que nos comerciais. Daí a força para esse boca a boca pela internet", finaliza. Pelo nível de comprometimento dos sócios com o trabalho, André até acredita que a empresa chegaria aonde está, mesmo sem o apoio do programa. No entanto, ressalta a importância da colaboração da Fumsoft, em especial pela oportunidade da troca de ideias
com outros empreendedores, treinamentos e cursos de
que participaram.

Jovens são a maioria dos que fumam no mundo e no Brasil‏

Jovens são a maioria dos que fumam no mundo e no Brasil 


Bruno Ferrari

Oncologista


Estado de Minas: 07/09/2013 


Como ocorre todos os anos, em 29 de agosto, o Brasil voltou os olhos para os riscos que o consumo de tabaco traz à saúde. Todos nós, em maior ou menor grau, sofremos dos males que o cigarro acarreta. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o tabagismo é a principal causa de morte evitável em todo o mundo. A OMS estima que um terço da população mundial adulta, ou seja, mais de dois bilhões de pessoas, sejam fumantes. Mesmo com as incisivas campanhas governamentais mostrando os males que tal vício acarreta, a maior fatia desse universo é constituído por jovens. Outros levantamentos comprovam que, aproximadamente, 47% de toda a população masculina e 12% da população feminina no mundo fumam. Pior do que saber que a maioria dos fumantes é de jovens é o dado apurado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Segundo a revista científica New England, nas casas onde há um fumante, os demais moradores têm 31% a mais de risco de sofrer um acidente vascular cerebral isquêmico do que uma pessoa que mora em um ambiente livre do tabaco. Ou seja, mesmo sem dar uma única tragada, o fumante passivo também sofre as consequências do vício.

O cigarro está relacionado, como fator desencadeador, a nada menos que 30% dos cerca de 100 tipos de câncer conhecidos. Em muitas dessas modalidades da doença, como os cânceres de pulmão e de boca, o tabagismo é fator predominante na origem das patologias. No dia a dia clínico, recebemos rotineiramente pacientes cuja origem do câncer é, seguramente, o (mau) hábito de fumar. Não há vício que mate mais no mundo do que o tabagismo. O total de mortes devido ao uso do tabaco atingiu a cifra de 4,9 milhões de óbitos anuais, o que corresponde a mais de 10 mil por dia. Caso as atuais tendências de expansão do seu consumo sejam mantidas, esses números aumentarão para 10 milhões de mortes anuais por volta por volta de 2030, sendo metade delas em indivíduos em idade produtiva, ou seja, entre 35 e 69 anos. Nos últimos anos, o hábito de fumar ainda persiste entre 25% da população brasileira. E grande parte desse contingente é formado por jovens, o que torna o dado ainda mais preocupante. Pesquisa Vigitel 2012 (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), realizada pelo Ministério da Saúde e divulgada pelo Estado de Minas (Gerais, 30/8/2013), mostra que o número de fumantes tem caído ano a ano. Nos últimos seis anos, de acordo com o levantamento, eles já diminuíram de 15% para 12% da população. Mesmo assim, é um número ainda considerável. Um em cada oito brasileiros está sujeito aos males que o fumo acarreta. Precisamos não de um dia para tratar dos males que o cigarro traz à saúde, mas de toda uma política pública voltada a tal fim. A OMS já criou o programa Tabaco ou Saúde na América Latina, cujo objetivo é estimular e apoiar políticas e atividades controle do tabagismo nessa região, e no apoio à elaboração da Convenção Quadro para o Controle do Tabaco, idealizada pela OMS para estabelecer padrões de controle do tabagismo em todo o mundo. Importante, mas ainda insuficiente dada a gravidade do problema.

Tradição de aliança e paz - Cavalhada de Nossa Senhora de Nazareth‏

Tradição de aliança e paz 


Geraldo Lopes

Estado de Minas: 07/09/2013 


Um dos pontos altos da encenação são as embaixadas dos dois imperadores diante da bandeira de Nossa Senhora de Nazareth (Acervo da Cavalhada/Divulgação)
Um dos pontos altos da encenação são as embaixadas dos dois imperadores diante da bandeira de Nossa Senhora de Nazareth


Palco da primeira eleição direta das Américas, da revolta contra a cobrança do quinto do ouro e do primeiro grito pelas Diretas-Já, o povoado de Morro Vermelho, em Caeté, na Grande BH, celebra hoje os 309 anos da Cavalhada de Nossa Senhora de Nazareth, uma das mais antigas tradições culturais do Brasil, introduzida em Minas por colonizadores portugueses no apogeu do Ciclo do Ouro e jamais interrompida. Neste ano, a festa ganha um marco especial com a comemoração do tricentenário da matriz de estilo barroco, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Durante três séculos, a manifestação folclórica e religiosa vem sendo repassada de geração a geração e mantém suas características originais. É assistida por mais de 10 mil moradores e turistas. Apesar de enfocar a luta entre mouros e cristãos, a cavalhada de Morro Vermelho representa o fim da guerra, culminando com a vitória dos cristãos, a conversão, o batismo e o pacto de aliança.

No século 6, os mouros ou muçulmanos invadiram a Europa, de onde só foram expulsos 800 anos depois. Um dos episódios dessa luta ficou conhecido como a batalha de Carlos Magno e os 12 pares da França. Esse fato foi relembrado em toda parte e encenado em cavalhada para incentivar a fé cristã. A tradição começou em Portugal no século 13 e se espalhou pelo Brasil.

Hoje, moradores e visitantes do povoado serão acordados às 4h com banda de música, fogos e repique de sinos anunciando as festividades. Ao meio-dia começa o desfile dos mascarados, que percorrem ruas e casas expulsando males e limpando caminhos para a cavalhada, à noite. Pontualmente às 20h, 12 cavaleiros cristãos e 12 mouros conduzem a bandeira de Nossa Senhora de Nazareth à praça, onde são recebidos com fogos de artifício, repiques de sino e banda de música.

O imperador mouro saúda com embaixadas a bandeira, recebida do embaixador cristão, que também a venera. Os mouros hasteiam a bandeira em seu reino, simbolizando a adoção da fé cristã. Para selar a paz entre os povos, os imperadores dão novas embaixadas. Cristãos e mouros entrelaçam fitas no mastro, amarrando o compromisso de fé aos pés da Virgem Maria. Unidos, os cavaleiros fazem uma série de evoluções. Encenam um 8 (união de dois povos), uma meia-lua (início de uma amizade crescente) e assistem a um espetáculo pirotécnico (queima de deuses pagãos). Cristãos e mouros fazem novas evoluções e se despedem da multidão.

Para o presidente da cavalhada, Nildo de Jesus Leal, a permanência da tradição por 309 anos, sem nenhuma interrupção e praticamente sem ajuda oficial, se deve em grande parte ao repasse dos eventos de geração a geração. “Este bem histórico imaterial já faz parte da vida das crianças, que criaram inclusive uma cavalhada mirim, com cavalos de pau, para manter viva a tradição de seus pais e avós. É a festa de maior relevância no distrito e envolve toda a comunidade no planejamento, organização e execução.”

Amanhã, dia do nascimento de Nossa Senhora, há missa cantada em latim a quatro vozes, acompanhada de orquestra. À noite, moradores e visitantes percorrem, em procissão, ruas enfeitadas. A chegada da imagem à matriz é transformada em apoteose e queima de fogos, sendo a festa encerrada com o Te Deum, um agradecimento a Deus.

COMO CHEGAR Para quem está em Belo Horizonte, o acesso a Morro Vermelho pode ser feito pela BR-381, via Serra da Piedade até Caeté, seguindo-se por 10 quilômetros por estrada de terra até o distrito. O acesso a Caeté pode ser feito também por Sabará em estrada asfaltada de 21 quilômetros. Outra opção é por Nova Lima e Raposos, seguindo-se 16 quilômetros por estrada de terra.

Uma relíquia de 300 anos

O povo de Morro Vermelho e visitantes participam amanhã de solenidade especial para celebrar as Bodas de Esplendor dos 300 anos da Matriz de Nossa Senhora de Nazareth, que inclui bênção do óleo, acendimento da lâmpada do Santíssimo Sacramento e abertura do ano do tricentenário do templo.


Em estilo barroco, a matriz de Morro Vermelho foi construída em 1713, em substituição à antiga capela, que foi encontrada em ruínas pelo capitão-mor Paulo Rodrigues Durão, pai do poeta de O Caramuru, frei José de Santa Rita Durão. A data existente na capela-mor (1869) corresponde à sua reforma. A igreja é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A devoção a Nossa Senhora de Nazareth tem sua origem ligada à história do nobre português dom Fuás Roupinho, que, durante uma caçada, viu seu cavalo saltar sobre um penhasco. Lembrando-se de uma pequenina imagem da Virgem Maria que avistara, implorou por seu socorro e, milagrosamente, o cavalo estancou, salvando-o da queda. Dom Roupinho mandou erguer no local um santuário que perpetuasse o culto a Nossa Senhora de Nazareth. A igreja foi construída no alto de um penedo, em Portugal, e é visível do mar, a longa distância, por isso a santa tornou-se padroeira dos navegantes. Foram eles que propagaram o seu culto, transportando-o para o Brasil.

A paróquia foi criada em 30 de novembro de 1880 pela Lei 2.709 e hoje pertence à Arquidiocese de Belo Horizonte. Seu primeiro vigário foi o padre Francisco de Assis Chagas. A imagem de Nossa Senhora de Nazareth mostra a Virgem de túnica, véu, brincos e colares, com o Menino Jesus nos braços. A matriz foi restaurada recentemente com a ajuda dos moradores e abriga acervo de altares e imagens, com as da padroeira, do Senhor dos Passos e de São José de Botas.
O forro da capela-mor apresenta pintura rococó, cujo quadro central tem por tema a assunção. O altar-mor exibe monograma da Virgem Maria, símbolos da Eucaristia e representação do Espírito Santo no forro. Nele está entronizada a imagem de Nossa Senhora de Nazareth, peça de origem portuguesa, obra de artista erudito, com tratamento requintado.



Programa

   HOJE
    4h    Tradicional matina, com banda de música, fogos e repique de sinos, para acordar os moradores e anunciar as festividades.

    12h    Desfile dos mascarados pelas ruas e casas para expulsar os males e trazer a paz.

    18h    Encerramento da novena e retreta na praça.

    20h    Tradicional Cavalhada de Nossa Senhora de Nazareth.

   AMANHÃ

    10h50    Solenidade de abertura da Bula Papal de Indulgência Plenária, de Pio IX, que concede graça especial aos visitantes do templo no dia da natividade de Maria.

    11h    Missa solene orquestrada e cantada em latim a quatro vozes.

    17h    Celebração eucarística presidida por dom Walmor Oliveira de Azevedo

    19h    Procissão luminosa pelas ruas, encerrada na matriz com bênção do Santíssimo e canto do Te Deum.


Saiba mais

TERRA DE REBELIÕES

Morro Vermelho é conhecida na história de Minas Gerais como sede da primeira eleição direta das Américas. Em 1707, como ato de resistência às determinações de Portugal e dos desmandos de paulistas nas comarcas mineiras, os povos de Sabará, Rio das Velhas e de Caeté marcharam para Morro Vermelho, onde elegeram o líder da comunidade Manuel Nunes Viana governador das Minas Gerais. Foi o início da Guerra dos Emboabas. Também foi marcante no povoado a insurreição, em 1715, contra a cobrança do quinto do ouro por bateias. O imposto foi aceito pelas comarcas, mas Morro Vermelho se rebelou, expulsou o governador, que revogou a medida. Em 7 de setembro de 1983, a comunidade se concentrou para mais um levante, dando início ao grito de liberdade pelas eleições diretas para presidente da República. Até então um ato isolado da oposição, o movimento tomou as ruas das metrópoles brasileiras e no ano seguinte se tornou um clamor nacional.


LINHA DO TEMPO
Publicação: 07/09/2013 04:00
1641

Bandeirantes fundam o arraial de Vira Copos. Após incêndio, é erguido o atual povoado de Morro Vermelho

1690

Descoberto no distrito um grande veio de ouro em afluente do Rio das Velhas

1704

Portugueses e nordestinos promovem a primeira Cavalhada de Nossa Senhora de Nazareth


1708

Manuel Nunes Viana é eleito governador das Gerais. Começa a Guerras dos Emboabas, movimento que deu início à formação de Minas

1713

Construção da Matriz de Nossa Senhora de Nazareth, cuja paróquia foi criada em 1880

1714

Morro-vermelhenses promovem o Levante das Bateias, expulsam governador e derrubam imposto

1866

Papa Pio IX concede indulgência plenária aos fiéis que participarem da Festa de Nazareth

1983


Povo do distrito vai às ruas pelas Diretas-Já. Movimento avança Brasil afora no ano seguinte.

2013

Distrito comemora os 300 anos da Matriz de Nossa Senhora de Nazareth e os 309 da cavalhada