quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Frei Betto - Espaços urbanos‏

Não será surpresa se os shoppings do futuro oferecerem hospedagem para que o consumidor se livre do convívio familiar 



Estado de Minas: 11/09/2013 


Restam nas cidades brasileiras poucas casas erguidas antes de 1930. A especulação imobiliária, associada à nossa insensibilidade à preservação da memória histórica, derrubou-as. Observe esses detalhes: casas antigas têm a porta de entrada colada na calçada. Tempo em que havia quintais e os moradores punham cadeiras na calçada para um dedo de prosa à hora do crepúsculo. A sala de visitas, e mesmo quartos, davam diretamente para a rua, já que quase não havia ruído exterior.

Aos poucos, as casas recuaram das calçadas. Trocou-se o quintal da parte de trás pelo jardim na parte da frente. O ruído de bondes, ônibus, caminhões, exigiu sala na ala posterior e quartos nos fundos. Ainda morei em casa de esquina rodeada de jardim. O muro baixo era um detalhe estético. Criança, eu preferia saltá-lo atravessar o portão.

A explosão urbana e sua violência desfiguraram o casario. Agora, com seus muros altos e grades intransponíveis, as casas escondem a “cara”. Muitas adotam perfil penitenciário: cercas eletrificadas, câmeras de vigilância, portões acionados por controle remoto etc. Algumas têm até guaritas e holofotes para clarear a calçada quando alguém transita ali.

Os prédios verticalizaram os moradores e, na medida do possível, abriram espaços para eles evitarem ao máximo transitar nesse lugar “perigoso” chamado rua. Assim, surgiram edifícios de luxo dotados de piscina, academia de ginástica, playground, churrasqueira, salão de festa etc.

Havia, contudo, um inconveniente para os moradores imbuídos da síndrome de agorafobia ou dromofobia: teriam que sair à rua para se abastecer. Percorrer armazéns, mercearias, quitandas, lojas.

O supermercado engoliu quase tudo isso ao concentrar em um único espaço tudo de que se necessita para o lar, de alimentação a produtos de limpeza. Com a vantagem de as mercadorias ficarem expostas à mão do freguês e sem ninguém a exigir que seja rápido na escolha.

Não combinava, porém, o supermercado dispor de prateleiras de joias, sapatos e roupas. Criou-se, então, o shopping center, onde se embute todo tipo de comércio, de supermercado (dotado de verduras frescas) a artefatos de pesca, incluindo lanchonetes, restaurantes e salas de cinema e espetáculos.

Agora surge um novo conceito: o Atoll, um supershopping (71 mil metros quadrados) erguido próximo à cidade francesa de Angers. Todo ele é “ecologicamente correto”. Nenhuma logomarca em sua carcaça de alumínio. Nada de poluição visual. Além de 60 lojas e 12 restaurantes, o Atoll abriga academias de ginástica, salão de beleza, playground, parques com fontes, árvores e alamedas ajardinadas. Enquanto os pais fazem compras, as crianças brincam em grandes módulos ou assistem a DVDs sob cuidados de funcionários especializados.

A filosofia de marketing do Atoll é simples: saia de sua casa apertada, do estresse familiar, e ingresse no Jardim do Éden do consumismo, onde você desfrutará de requinte, espaço verde, atenção de elegantes recepcionistas. Em suma, o Atoll vende algo mais que produtos materiais: a ilusão de que o consumidor se iguala em status àqueles que têm alto poder aquisitivo.

Ora, como em sociedade de classes sonhos e ambições são socializados, mas não o acesso real a eles, o Atoll oferece um lounge a quem gasta pelo menos 1,5 mil euros, onde o consumidor tem acesso gratuito à internet, bebidas, revistas e jornais, máquinas de café expresso e até fraldário.

Pelo andar da carruagem, não ficarei surpreso se os shoppings do futuro oferecerem serviço de hotelaria, permitindo que o consumidor, abraçado a seu individualismo, se livre do convívio familiar.

CINE CEARÁ » Aceitando as diferenças

Longa-metragem do uruguaio Fernández Pujol é uma das surpresas do festival, lançando desde já o nome do veterano Carlos Frasca como forte candidato ao prêmio de melhor ator


Mariana Peixoto

Estado de Minas: 11/09/2013 


O filme uruguaio Rincón de Darwin foi muito bem recebido ao ser exibido na noite de segunda-feira  (Cine Ceará/Divulgação  )
O filme uruguaio Rincón de Darwin foi muito bem recebido ao ser exibido na noite de segunda-feira

Fortaleza – Até a virada do século, o Uruguai não produzia um longa-metragem por ano. Tampouco tinha escola de cinema e sua tradição cinematográfica era basicamente como espectador e crítico. Treze anos passados, o Uruguai consegue produzir anualmente uma dezena de filmes, como também conta com cinco escolas voltadas para a produção audiovisual. Por meio de títulos como Whisky (Juan Pablo Rebella, 2004), O banheiro do papa (César Charlone, 2005), Gigante (Adrián Biniez, 2009) e A vida útil – O conto de cinema (Federico Vieiroj, 2010), a produção uruguaia ganhou destaque no circuito internacional. E ainda uma alcunha própria: cinema de minimalismo melancólico.

“Não creio que o cinema uruguaio seja minimalista melancólico. Creio que o uruguaio seja minimalista melancólico, principalmente a minha geração”, brincou o veterano ator de teatro Carlos Frasca, em entrevista ontem de manhã, em Fortaleza. Ele é um dos protagonistas de Rincón de Darwin, longa-metragem de estreia de Diego Fernández Pujol, por ora o maior destaque da competitiva iberoamericana do Cine Ceará – não será surpresa se Frasca levar o prêmio de melhor ator do festival. Até sexta-feira, serão exibidos oito longas na principal mostra do festival, entre produções de Cuba, México, Argentina, Espanha e Brasil (com três selecionados).

Estradeiro Comédia dramática em clima de road movie, Rincón de Darwin reúne três homens de gerações, personalidades e estilos de vida completamente distintos. Na trama, Gastón (Jorge Temponi) recebe de herança uma casa que havia sido visitada por Charles Darwin em 1833 e que ali teria feito pesquisas que o ajudaram a desenvolver a teoria da evolução. Para avaliar o local, ele convoca o escrivão Américo (Frasca), que anda deprimido com o envelhecimento e o casamento iminente da única filha. Por obra do acaso, os dois viajam na velha caminhonete de Beto (Jorge Esmoris), um faz-tudo de passado nebuloso. Nada sairá como o planejado e, por meio de diálogos impecáveis, a narrativa vai ganhando ritmo.

“Há mais uma categoria dentro do minimalismo melancólico”, disse Fernández Pujol. “Meu filme não tem um final tão aberto. Os personagens têm seus conflitos interiores, mas são capazes de ser felizes. O que estamos querendo é dizer quem somos através de diversos filmes. Há uma identidade cultural que nos une”, continua Pujol. O trio de protagonistas consegue espelhar essas nuances. “Se tivessem com quem escolher, eles não fariam essa viagem juntos. E muitas vezes começamos a conviver com uma pessoa, que não tem nada a ver com a gente, e depois nos damos conta de que não somos tão diferentes assim. Não precisamos (assim como os personagens) ser amigos, mas entender o outro já é o bastante”, argumenta o diretor.

Concomitantemente ao percurso na caminhonete, há uma narração, em inglês, das observações de Darwin, que age como um quarto personagem. “Eles estão fazendo o mesmo caminho que um aristocrata europeu fez 180 anos antes. Para ele, éramos selvagens”, afirma o diretor. Esse discurso paralelo acaba complementando a intenção de Fernández Pujol com a história, pois reafirma a ideia de diferença versus tolerância. 

GIRO » Científico‏


Estado de Minas: 11/09/2013 

Escorpião de 350 milhões de anos

O fóssil de um escorpião de 350 milhões de anos, achado na África do Sul, é a mais antiga forma de vida encontrada em terra firme no hemisfério sul, segundo especialistas da Universidade Wits, em Johannesburgo. O animal viveu no Gondwana, no fim do Período Devoniano. Gondwana foi um supercontinente, essencialmente situado no hemisfério sul e que abrangia as atuais América Latina, África, Antártida, Austrália, Península Arábia e o subcontinente indiano. “Até agora, não tínhamos qualquer prova de que Gondwana tivesse sido habitado por animais invertebrados nessa época”, afirmou o professor Robert Guess, do Instituto de Estudos Evolutivos de Wits. No fóssil distinguem-se claramente uma pinça e o ferrão. Formas de vida similares, mais antigas, foram encontradas em outro supercontinente, a Laurásia, que abarcava as atuais Ásia, Europa e América do Norte.


Teia de aranha superforte

Cientistas dos Estados Unidos afirmaram ontem que cobriram uma teia de aranha com nanotubos de carbono, criando uma fibra que não apenas é superforte, mas também conduz eletricidade. A nova linha é três vezes mais forte do que a teia de aranha sem tratamento, que já é uma das substâncias mais fortes da natureza, indicaram os estudiosos. A primeira aplicação possível seria para dispositivos médicos em nanoescala. Em testes, os protótipos foram usados como um monitor cardíaco ou um êmbolo, capaz de erguer uma carga relativamente grande de 35 miligramas, usando corrente elétrica e umidade para fazer o fio se contrair como um músculo. O estudo, publicado na revista científica Nature Communications, foi conduzido por Eden Steven, do Laboratório Nacional de Alto Campo Magnético em Tallahassee, Flórida.


Astronautas retornam à Terra

Três astronautas da Estação Espacial Internacional (ISS) – dois russos e um americano – retornarão à Terra depois de uma estadia de cinco meses no espaço. A aterrissagem estava prevista para as 23h58 de ontem (2h58 de hoje, no horário local) nas estepes do Cazaquistão, ex-república soviética da Ásia Central, onde se localiza o cosmódromo de Baikonur. Os russos Pavel Vinogradov e Alexandre Missurkin e o americano Chris Cassidy chegaram à ISS em 29 de março a bordo de uma nave russa Soyuz. Na estação permanecem o italiano Luca Parmitano, o russo Fiodor Iurchijin e a americana Karen Yberg. No fim de setembro se unirão a eles o americano Michael Hopkins e os russos Oleg Kotov e Sergueã Riazanski.

Aquecimento e tragédias climáticas

As mudanças climáticas provocadas pela atividade humana tiveram influência sobre meia dúzia de eventos climáticos extremos no ano passado, afirmou uma equipe de especialistas que examinou 12 desses episódios – de secas nos Estados Unidos e na África a fortes chuvas na Europa, na Austrália, na China, no Japão e na Nova Zelândia. Metade dessas ocorrências demonstrou algum indício de terem sido piores do que o esperado devido a elementos como água do mar ou temperaturas mais quentes, causados por emissões de gases estufa e aerossóis na atmosfera. O relatório, intitulado Explicando os eventos extremos de 2012 de uma perspectiva climática, foi publicado no Boletim da Sociedade Meteorológica Americana.

Asteroides ganham árvore genealógica‏


Asteroides ganham árvore genealógica Pesquisadores da Unesp desenvolvem método mais aprimorado para definir a família das rochas espaciais 

Vilhena Soares


Estado de Minas: 11/09/2013 

Ilustração mostra momento em que grande rocha espacial se desintegra: processos como esse dão origem às famílias de asteroides. Estudo sobre o tema é trabalhoso (Nasa/Reuters - 20/9/11)
Ilustração mostra momento em que grande rocha espacial se desintegra: processos como esse dão origem às famílias de asteroides. Estudo sobre o tema é trabalhoso

Brasília – Como o Sistema Solar foi formado? Para responder a essa pergunta, astrônomos se voltam ao estudo de vários corpos espaciais, como o Sol, os planetas, os cometas e os asteroides. Agora, nova técnica desenvolvida por uma equipe internacional liderada por especialistas da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) vai ajudar a compreender melhor esses últimos objetos.

O time criou uma forma mais refinada que as atuais para identificar as chamadas famílias de asteroides, grupos de rochas que se formam quando objetos grandes colidem e se dividem em muitas peças menores. Esses pedaços passam, então, a orbitar o Sol em conjunto. Eventualmente, alguma dessas partes pode tomar um caminho próprio e ameaçar o planeta, por exemplo.

Identificar quais são os membros de uma família é fundamental para definir sua origem e, assim, entender melhor a história do Sistema Solar. O problema é que os métodos atuais ainda trazem muitos erros, reunindo objetos que não têm a mesma origem – muitas vezes, objetos estranhos acabam se aproximando do conjunto e confundindo os pesquisadores. “Com respeito a outros métodos, o nosso permite identificar menos objetos com taxonomias incompatíveis, chamados de interlopers, como membros das famílias”, afirma Valério Carruba, coordenador do estudo.

A nova técnica se tornou possível graças a uma missão da Nasa denominada Wise (Wide-field Infrared Survey Explorer), que mediu a luz refletida (albedo geométrico) por 100 mil asteroides entre 2011 e 2012. Com isso, tornou-se possível usar essa informação para definir se dois asteroides são da mesma família – em caso afirmativo, eles devem ter o albedo geométrico semelhante.

Conjunto de dados Inserir esse dado no estudo dos conjuntos de rochas permite eliminar aqueles corpos que estão próximos do grupo, mas têm origem diferentes. Logo, pertencem a outra família. Também permite que um objeto distante do grupo seja classificado como um “membro desgarrado” da família. “Neste trabalho, juntamos três tipos de dados: elementos orbitais próprios (descrevem a posição, a elongação e a inclinação), as cores e os albedos do Wise”, descreve Carruba.

O professor ressalta que o estudo foi um trabalho feito em conjunto com outros países. “É uma parceria entre pesquisadores do Brasil, da França e dos Estados Unidos. No Brasil, colaboraram pesquisadores da Unesp e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Na França, pesquisadores do Observatoire de Meudon. E, nos EUA, do SouthWest Research Institute (SWRI)”, conta Carruba, que foi revisor para o Planetary Geology and Geophysics (PGG), programa de pesquisa da Nasa. “Por conta disso, busquei também o trabalho deles para utilizar em nossa pesquisa”, destaca.

Basílio Santiago, astrônomo e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), destaca que a triagem dos asteroides, mostrando qual deles pertence a determinada família, é algo trabalhoso, uma tarefa complicada. “Muitos compartilham mais ou menos a mesma órbita. O problema é que, com o tempo, esses pedaços vão se dispersando, entram em órbitas diferentes. Por isso a necessidade de técnicas mais apuradas. Se forem analisados só os parâmetros orbitais, você acaba identificando somente um conjunto”, explica.

O especialista destaca que o albedo é um ponto essencial na técnica recém-desenvolvida. “O problema é que eles se espalham, mas têm a mesma origem, o mesmo núcleo principal. Com informações como a reflexão da luz que emitem, fica mais fácil identificar de onde surgiram”, complementa o pesquisador.

Segurança
De acordo com Rundsthen Nader, astrônomo e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o estudo de asteroides, além de ajudar a esclarecer como ocorreu a formação do Universo, é importante na busca por prevenir a colisão desses corpos com a Terra. “Os asteroides são uma amostra do que era o Sistema Solar. Ao estudar suas famílias, você consegue descobrir em qual região da galáxia ele estava quando ocorreu o espalhamento. E, ao analisar isso, você também pode estudar e tentar classificar outras famílias que têm chances de colidir com a Terra, prevendo isso com antecedência”, explica o pesquisador.

Valério Carruba adianta que o método será aperfeiçoado, para que acompanhe outros trabalhos científicos publicados fora do país. “Depois da publicação do nosso artigo, um novo método mais avançado de classificação de asteroides foi submetido para a publicação. Já estamos trabalhando para adequar nosso estudo à essa nova taxonomia e temos novos resultados muito promissores, que serão apresentados em duas conferências em Londres e na Itália ainda este ano”, declara. “Os dados obtidos com esse novo método foram disponibilizados gratuitamente para toda a comunidade científica e estão disponíveis no depositório de dados astronômicos da Universidade de Estrasburgo, na França.”
Para Santiago, da UFRGS, o trabalho pode ajudar outros estudos. “Eles introduziram informações que vêm de duas grandes missões. A novidade bacana é combinar esses dados e torná-los públicos, para que outros pesquisadores possam ter acesso e, assim, a pesquisa evolua”, destaca.