domingo, 22 de setembro de 2013

Antonio Prata

Impressões digitais
Sob os cantos da unha havia tinta, seda, poeira de botecos sórdidos, uma ou outra jovem assistente, fossilizada
Isso não é um dedão do pé, é uma declaração de princípios, pensei, assim que o pintor sentou na cadeira de praia, ao meu lado. Da primeira falange, brotava meia dúzia de pelos mal-ajambrados, feito capim que tivesse nascido numa rachadura da calçada, secado ao sol e sido descabelado pelo vento. A unha não devia ser cortada havia uns três meses --ou, pelo menos, não inteiramente cortada, pois a frente, que na maioria dos dedões é uma reta ou uma meia-lua, era quase um S, como se ele houvesse dado uma dentada com o Trim, dito "Ah, que se dane..." e resolvido ir pintar um quadro, beber conhaque ou cair nos braços de uma de suas assistentes --sempre lindas, sempre jovens, sempre apaixonadas pelo grande artista.
Sob os dois cantos da unha havia aglomerações escuras, em que uma escavação arqueológica certamente encontraria: tinta óleo, aquarela, fixador; seda para cigarros, cashmere, pelos de pincel; poeira de botecos sórdidos do centro do Rio, poeira de restaurantes chiques de Nova York, certa poeira oriunda da Amazônia colombiana; uma ou outra assistente linda, jovem e fossilizada.
O conjunto da obra formava uma instalação, uma metonímia do artista, onde se lia seu desprezo pelas coisas chãs: nosso asséptico "zeitgeist", nossa crença na manutenção do corpo e no reinado do Photoshop. Afirmava-se, ali, a prevalência das pulsões sobre a razão e vislumbrava-se a aceitação da morte. Um dedão romântico. Um dedão beatnik. Um anacrônico dedão.
Correndo pela praia, veio o jovem colecionador do mercado financeiro, dono da casa em que o pintor estava hospedado. Sentou, deu um gole num isotônico, tirou o tênis, e a paisagem mudou da água pro vinho --ou, mais precisamente, do vinho pra água. Não seria absurdo se alguém afirmasse que ele tinha corrido até o fim da praia, parado num podólogo e voltado. Aquele dedão também não era apenas um dedão, mas sim uma declaração de princípios. Se você chegasse bem perto, veria, onde o artista cultivava o anárquico tufo de capim, apenas uns furinhos --o jovem colecionador do mercado financeiro arrancava os pelos com pinça, um a um, a cada 15 dias. A unha era um retângulo perfeito, pequena tela brilhante capaz de refletir as nuvens do céu em full HD. Os cantos estavam impecavelmente limpos: uma escavação arqueológica sairia de mãos vazias, dando apenas, talvez, com um leve odor de Pato Purific.
O conjunto da obra era uma metonímia do jovem colecionador do mercado financeiro. Uma ode ao controle, ao planejamento, um pequeno totem anal-retentivo, em homenagem ao mundo administrado. Aquele dedão comemorava o triunfo da razão sobre os instintos, a vitória do homem sobre a natureza, cria-se imbatível, imortal, dava um pontapé na passagem do tempo. Um dedão de alta performance. Um dedão ISO 9000. Um atualíssimo dedão.
Os dois se levantaram e foram em direção ao mar, discutir, com água pelas canelas, quanto custaria para a visão de mundo de um ir parar em cima da lareira do outro.
Eu fiquei ali, sozinho com meus dedões.

    O que sobra ainda para Walter White fazer?

    CRÍTICA SERIAL
    LUCIANA COELHO - coelho.l@uol.com.br
    O embate entre o médico e o monstro no protagonista de 'Breaking Bad' agora não vai além de palavras
    O fim está próximo, e quem acompanha "Breaking Bad" só não está mais desconsolado porque o episódio da semana passada foi uma obra-prima digna de qualquer lista de melhores coisas feitas para a TV.
    Mas, nesta noite, quando for ao ar nos EUA o penúltimo capítulo da história do professor de química convertido em traficante de metanfetamina, faltarão apenas 75 minutos para sabermos o destino de Walter White, Jesse Pinkman e Skyler White. E aí, o vazio.
    Se você não está entre aqueles encarando o relógio com um híbrido de ansiedade e negação, desista da coluna hoje para evitar saber do episódio passado.
    Se você está, o consolo: os capítulos de hoje e o derradeiro, semana que vem, serão mais longos que o habitual, anunciou o canal AMC, que produz a série.
    A derrocada moral de Walt/Heisenberg entrou em sua espiral final. E não foi com a morte de seu cunhado Hank (Dean Norris, sensacional), executado pelo líder de uma gangue de traficantes neonazistas ao ter a identidade de agente antidrogas descoberta.
    Essa cena --um dos assassinatos mais doídos da TV, talvez ao lado do de Teri Bauer em "24 Horas"-- serviu só para lembrar que o embate entre o médico e o monstro do químico vivido por Bryan Cranston, tão legítimo no início, não vai muito além de palavras.
    Assim como a decisão do tio Jack (a série tem obsessão com tios?) estava selada, como disse Hank, a de Walt também estava.
    Tampouco degringolou no telefonema para sua mulher e cúmplice Skyler. Com o protagonista presumivelmente ciente de que a polícia ouvia, apesar da raiva, a ligação serviu para eximi-la em um futuro processo.
    Se doeu para uns, serviu de expurgo para os odiadores da personagem (Anna Gunn, que vive Skyler, disse em artigo no New York Times', ter recebido ameaças de morte).
    A espiral final não foi desencadeada nem com a ordem para matar Jesse, seu pupilo-antagonista. Não. O fundo do poço, o que assustou até quem sabe que Walter White não tem redenção, veio com o sinal verde para a gangue neonazi torturar o ex-aluno como (e para o que) bem entendesse.
    "Ozymandias", o episódio que leva o nome do poema sombrio de Percy Shelley (1792-1822) lido no trailer desta temporada, é o fim de tudo. Depois dele, fica difícil imaginar o que resta.
    Mike "reviverá" para ajudar Jesse? Saul ainda tem truques para seu cliente mais exigente? Skyler se vingará? E Marie? Lydia dirá a que veio? Walt pagará da forma convencional --à Justiça-- por seus crimes? Sobretudo, e depois de tudo, como será o embate final entre Jesse Pinkman e Walter White?

    Mauricio Stycer

    O duplo papel de Edir Macedo
    Em sua biografia, o bispo reconhece usar a Record para combater inimigos religiosos
    No duplo papel de empresário e líder espiritual de uma igreja, Edir Macedo é um estranho no ninho no mundo da comunicação. O segundo volume de sua biografia, recém-lançada, ainda que projetada a apresentá-lo como uma vítima de inimigos ferozes, joga alguma luz sobre o lugar ambíguo que a Record, sob seu comando, ocupa hoje no mercado.
    Escrito em parceria com o vice-presidente de jornalismo da emissora, Douglas Tavolaro, "Nada a Perder" está dividido em três volumes. No primeiro, lançado em 2012, Macedo descreve com autopiedade a sua formação religiosa, até "o encontro" com Deus.
    Nas páginas que antecedem esse relato longo e cansativo, o autor dedica-se a delinear, com contundência, o grande inimigo: "O clero romano mandava e desmandava no Brasil". Sobre a sua prisão, em 1992, sob acusação de charlatanismo, curandeirismo e estelionato, escreve: "Nunca aceitei a ideia de que a Justiça brasileira seria influenciada pelas vontades do Vaticano ou pela pressão da imprensa manipulada por eles".
    A conexão entre o que parecem ser as duas missões de Macedo --levar a voz de Deus aos fieis e combater os que querem calá-lo-- fica mais clara no segundo volume. Apesar da evocação algo mística estampada na capa, "Meus Desafios Diante do Impossível", o subtítulo faz alusão à compra da Record, por US$ 45 milhões, em 1989.
    Ainda que descreva o negócio como "uma provação", vencida depois de percorrer um "doloroso caminho", Macedo desce a alguns pormenores menos edificantes, como o reconhecimento de que usou um testa de ferro na primeira etapa das negociações.
    Por que comprar a Record? "Era um projeto idealizado para conquistar almas", escreve. Em outro trecho, falando da sua briga com representantes do espiritismo, Macedo é explícito ao afirmar que entende a TV comercial como uma ferramenta de luta e conversão de almas. "A Rede Record ainda não era nossa para denunciar tamanha depravação."
    Como se sabe, depois de adquirida, a emissora foi usada um sem-número de vezes como arma para ataques, travestidos de programas jornalísticos, a grupos religiosos rivais e a jornalistas que questionaram práticas da Igreja Universal.
    Se no primeiro volume a mídia era apenas um instrumento do Vaticano, neste segundo ela alcança alguma autonomia no combate a Macedo. "A compra da Record atingiu em cheio os barões da mídia, intocáveis e superpoderosos, acostumados a uma ascendência promíscua em distintas esferas do poder."
    Aparentemente sem se dar conta da contradição, Macedo revela que ofereceu o apoio da Record a Fernando Collor em troca do direito de fazer uma oração na posse do presidente, em 1990. A aproximação não prosperou, segundo ele, porque Collor "ignorou" o pedido.
    Macedo não trata da sua ascendência junto ao governo Lula e não inclui, entre as dezenas de fotos do livro, a imagem que o mostra no beija-mão da presidente Dilma no dia da posse, em 2011.
    O autor também evita, infelizmente, um tema delicado. Como reuniu, 12 anos depois de fundar a Igreja Universal, o capital necessário para a compra da Record? "Até hoje não sei como conseguimos. Não foi por caminhos semelhantes ao de qualquer negócio comum. Não houve cálculos detalhados nem estudos financeiros. Simplesmente, agi pela fé."

      Porque a vida não basta - Ferreira Gullar

      Porque a vida não basta
      A arte contemporânea acabou com a crítica; isso é expressão da crise por que passam as artes plásticas
      Embora tenha frequentemente criticado o que se chama de arte contemporânea, devo deixar claro que não pretendo negá-la como fato cultural. Seria, sem dúvida, infundado vê-la como fruto da irresponsabilidade de alguns pseudoartistas, que visam apenas chocar o público.
      Há isso também, é claro. Mas não justificaria reduzir a tais exemplos um fenômeno que já se estende por muitas décadas e encontra seguidores em quase todos os países.
      Por isso, se com frequência escrevo sobre esse fenômeno cultural, faço-o porque estou sempre refletindo sobre ele. Devo admitir que ninguém me convenceria de que pôr urubus numa gaiola é fazer arte, não obstante, me pergunto por que alguém se dá ao trabalho de pensar e realizar semelhante coisa e, mais ainda, por que há instituições que a acolhem e consequentemente a avalizam.
      O fato de negar o caráter estético de tais expressões obriga-me, por isso mesmo, a tentar explicar o fenômeno, a meu ver tão contrário a tudo o que, até bem pouco, era considerado obra de arte. Não resta dúvida de que alguma razão há para que esse tipo de manifestação antiarte (como a designava Marcel Duchamp, seu criador) se mantenha durante tantos anos.
      Não vou aqui repetir as explicações que tenho dado a tais manifestações, as quais, em última análise, negam essencialmente o que se entende por arte. Devo admitir, porém, que a sobrevivência de tal tendência, durante tanto tempo, indica que alguma razão existe para que isso aconteça, e deve ser buscada, creio eu, em certas características da sociedade midiática de hoje. O fato de instituições de grande prestígio, como museus de arte e mostras internacionais de arte, acolherem tais manifestações é mais uma razão para que discutamos o assunto.
      Uma observação que me ocorre com frequência, quando reflito sobre isso, é o fato de que obra de arte, ao longo de 20 mil anos, sempre foi produto do fazer humano, o resultado de uma aventura em que o acaso se torna necessidade graças à criatividade do artista e seu domínio sobre a linguagem da arte.
      Das paredes das cavernas, no Paleolítico, aos afrescos dos conventos e igrejas medievais, às primeiras pinturas a óleo na Renascença e, atravessando cinco séculos, até a implosão cubista, no começo do século 20, todas as obras realizadas pelos artistas o foram graças à elaboração, invenção e reinvenção de uma linguagem que ganhou o apelido de pintura.
      Isso não significa que toda beleza é produto do trabalho humano. Eu, por exemplo, tenho na minha estante uma pedra --um seixo rolado-- que achei numa praia de Lima, no Peru, em 1973, que é linda, mas não foi feita por nenhum artista. É linda, mas não é obra de arte, já que obra de arte é produto do trabalho humano.
      Pense então: se esse seixo rolado, belo como é, não pode ser considerado obra de arte, imagine um casal de urubus postos numa gaiola, que de belo não tem nada nem mantém qualquer relação com o que, ao longo de milênios, é tido como arte. Não se trata, portanto, de que a coisa tenha ou não tenha qualidades estéticas --pois o seixo as tem-- e, sim, que arte é um produto do trabalho e da criatividade humana. Se é boa arte ou não, cabe à crítica avaliar.
      E toca-se aqui em outro problema surgido com essa nova atitude em face da arte. É que, assim como o que não é fruto do trabalho humano não é arte, também não é possível exercer-se a crítica de arte acerca de uma coisa que ninguém fez.
      O que pode o crítico dizer a respeito dos urubus mandados à Bienal de São Paulo? A respeito de um quadro, poderia ele dizer que está bem mal-executado, que a composição é pobre ou as cores inexpressivas, mas a respeito dos urubus, que diria ele? Que não seriam suficientemente negros ou que melhor seria três em vez de dois? Não o diria, pois nada disso teria cabimento. Não diria isso nem diria nada, porque não é possível exercer a crítica de arte sobre o que ninguém fez.
      Desse modo --e inevitavelmente--, a chamada arte contemporânea acabou também com a crítica de arte. Isso tudo é, sem dúvida, a expressão da crise grave por que passam hoje as artes plásticas.
      Costumo dizer que a arte existe porque a vida não basta. Negar a arte é como dizer que a vida se basta, não precisa de arte. Uma pobreza!