sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

LITERATURA » Elas têm a força‏ - Carlos Herculano Lopes

LITERATURA » Elas têm a força 


Escritoras preparam novos projetos, confiantes no aumento do interesse dos brasileiros por literatura. Lya Luft, Mary del Priore e Márcia Tiburi anunciam lançamentos para este ano
Carlos Herculano Lopes

Estado de Minas: 03/01/2014


 Se o ano passado foi bom para as mulheres que se dedicam à literatura no Brasil, 2014 promete boas surpresas. Novos projetos não faltam a escritoras consagradas como Lya Luft, Mary Del Priore, Márcia Tiburi e Ana Paula Maia. Que o diga Del Priore, às voltas com um novo tema – o sobrenatural – depois de lançar mais de 20 livros de história, entre eles Condessa de Barral – a paixão do imperador, O príncipe maldito e o best-seller Histórias íntimas.

 “Minha paixão é escrever. Estou sempre envolvida com pesquisas que me levam a novos personagens e a buscar narrativas que tragam informação e prazer para o leitor. Desse ponto de vista, meu próximo livro, que está bastante adiantado, será o melhor que puder fazer, ainda mais com esse fascinante tema”, conta ela.

 Coisas “do outro mundo” à parte,  Mary Del Priore diz que o público brasileiro tem se interessado mais por história, principalmente depois de a mídia dar visibilidade para publicações nessa área. Mas ainda falta multiplicar leitores, acredita a professora, que deu aulas na Universidade de São Paulo (USP) e na PUC Rio. Isso só será possível quando o ensino da matéria for menos afeito a enfoques ideológicos, priorizando a paixão e a curiosidade do leitor. Para isso, adverte Mary, é necessário mudar mentalidades.

“Nosso patrimônio histórico não tem verbas para sua salvaguarda; as comunidades não veem seu passado material ou imaterial como prioridade; nas escolas, faltam políticas de educação patrimonial que consolidem um modelo de cidadania cultural. O terceiro setor, que vem se batendo pelo cuidado aos bens culturais, é ignorado pelas autoridades e pela própria sociedade”, afirma Mary.

MEDIOCRIDADE Dizendo-se bastante pessimista em relação ao novo ano, “pois, no Brasil, estamos passando por uma fase de mediocridade generalizada”, Lya Luft prepara o lançamento de O tempo é um rio que corre (Record), previsto para março. “Trata-se de um pequeno ensaio sobre o mistério do tempo que passa. Acho que as pessoas vão se divertir com a sua leitura”, acredita a gaúcha, autora do best-seller Perdas & ganhos.

De acordo com Lya, livros de ficção mais densos têm enfrentado dificuldades no Brasil. As pessoas, constata a escritora, querem leitura mais leve e divertida, sem maiores compromissos. “Não é culpa delas, mas do clima de futilidade geral que tem imperado por aí”, resume.

Gaúcha como Lya Luft e radicada em São Paulo, a romancista e filósofa Márcia Tiburi já está escrevendo novo livro, mas evita detalhá-lo para não atrapalhar seu processo criativo. “Será um tipo muito específico de obra de arte”, adianta. Para ela, a literatura brasileira experimentou bom momento no ano passado, apesar dos problemas econômicos, políticos e culturais enfrentados pelo país. “Estou otimista, espero que 2014 seja melhor em todos os sentidos, inclusive o literário”, diz.

A romancista carioca Ana Paula Maia, autora do celebrado De gados e homens, constata que o público leitor – principalmente feminino – aumentou bastante. “Elas são mais exigentes. Percebo um crescimento do número de mulheres interessadas nos meus livros, o que é uma grata surpresa, pois não são voltados para elas. Espero que 2014 também seja bom para a literatura”, conclui.


TRÊS PERGUNTAS PARA...
. Josélia Aguiar
. Crítica literária e jornalista


O ano que passou foi bom para as escritoras brasileiras?

Não só 2013. Nos últimos anos, temos assistido à estreia ou ao lançamento de livros significativos de autoras de todas as idades, tanto na prosa quanto na poesia. Não só para as mulheres as coisas parecem melhores: a literatura brasileira contemporânea passa por uma revalorização, ao menos em relação ao interesse da imprensa, o que deixa editoras e curadorias mais receptivas a autores nacionais. Como no passado tínhamos menos mulheres na ativa, a impressão pode ser de que as coisas têm sido mais interessantes particularmente para elas. Numericamente, creio que a quantidade de homens na cena literária ainda é maior.

Que livros lançados em 2013 por escritoras você destacaria?

Vou destacar livros de ficção, em ordem alfabética: Hanói, de Adriana Lisboa; As miniaturas, de Andréa Del Fuego; Esquilos de Pavlov, de Laura Erber; e Opisanie Swiata, de Veronica Stigger.

Quais são os seus projetos literários para 2014?

Além de continuar escrevendo sobre literatura, já que sou especializada na área, estou concluindo uma biografia de Jorge Amado para o selo Três Estrelas.

Carioca universal [Ivan Lins] - Eduardo Tristão Girão

Carioca universal
 
Ivan Lins surpreende em disco gravado com o grupo InventaRio. Clássicos de seu repertório e parcerias com Chico Buarque ganham nova sonoridade, além de versões em italiano e inglês


Eduardo Tristão Girão
Estado de Minas: 03/01/2014


Ivan Lins (C) e InventaRio imprimiram novos conceitos a canções conhecidas do compositor brasileiro (Angelo Trani/divulgação)
Ivan Lins (C) e InventaRio imprimiram novos conceitos a canções conhecidas do compositor brasileiro

Carioca com carreira consolidada no exterior, o pianista e compositor Ivan Lins testa novamente a popularidade de sua obra, desta vez com o disco que registra seu encontro com músicos do grupo italiano InventaRio. Lançado na Itália pelo selo Blue Note, o trabalho chega ao mercado nacional pela Biscoito Fino, trazendo faixas em português, inglês, italiano (a maioria) e no dialeto napolitano.

“Como gosto de colocar meu trabalho à disposição de conceitos novos e diferentes, quando recebi o convite para esse projeto, aceitei na hora. Os músicos são excelentes, inquietos como eu. Nós nos encontramos na Itália e concebemos juntos a sonoridade e a performance, mas deixando prevalecer a criatividade deles, muito interessante. Foi uma bela oportunidade de ter a minha música soando de uma forma nova, inclusive para mim”, conta Lins.

As gravações ocorreram no Rio de Janeiro e na Itália entre outubro de 2011 e janeiro de 2012. A produção ficou a cargo da banda formada pelo carioca Dadi (voz e violão) e os italianos Ferruccio Spinetti (baixo), Francesco Petreni (bateria e percussão) e Giovanni Ceccarelli (teclado). Colaborou com o projeto o radialista italiano Max de Tomassi, amigo de Lins, conhecedor de música brasileira e um dos incentivadores da tradução das canções para o italiano.

“Todos são excelentes músicos, além de admiradores do meu trabalho. Gravar com essa turma foi fácil e surpreendente. Percebi logo que eles são muito criativos, o que trouxe nova sonoridade para as canções”, elogia Ivan Lins. O cantor e compositor destaca também os convidados especiais do disco: Chico Buarque, Vinicius Cantuária, Vanessa da Mata, Maria Gadú e os instrumentistas italianos do Gnu Quartet.

AGENDA Habituado a circular pela Europa e pelos Estados Unidos, Ivan Lins comenta que sua agenda, nos últimos dois anos, tem priorizado shows no Brasil. “Isso se deve, sobretudo, à crise na Europa, mas a tendência é o panorama melhorar. A música brasileira de qualidade, seja de qual artista for, é muito apreciada em todo o mundo. A minha não é exceção, o aval do Quincy Jones deu um plus ao alcance dela lá fora”, conclui.


SAIBA MAIS

O “afilhado” de Quincy


Ivan Lins é um dos compositores brasileiros mais gravados por estrelas do jazz. Tudo começou na década de 1980, quando Quincy Jones descobriu o autor de Madalena. Inicialmente, as melodias originais e harmonias sofisticadas do carioca seduziram o guitarrista George Benson. Logo depois, começaram a pipocar releituras feitas por Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald, Sting, The Manhattan Transfer e Chaka Khan. A lista já ultrapassa duas mil gravações. No belíssimo disco The heart speaks (1996), Terence Blanchard relê 13 temas de Ivan. Destacam-se também encontros do brasileiro com os cubanos Chucho Valdez e o grupo Irakere, sem falar de incontáveis duetos, entre eles os bem-sucedidos encontros com Jane Monheit e Michael Bublé.

Bola bem dividida

Kiko Ferreira

Aberto com inédita Imprevedibile, parceria de Ivan Lins com Max de Tomassi, que traduz bem a ponte entre sonoridades brasileiras e italianas, o disco InventaRio encontra Ivan Lins tem como detaques as parcerias do dono da bola com Chico Buarque.

Primeiro Renata Maria: vertida para o italiano como Stella d’a mia, traz a voz delicada de Maria Pia de Vito. Sou eu, que Ivan e Chico fizeram para o pagodeiro Diogo Nogueira, ganhou a versão Com me – a dupla de autores se sai bem em italiano.

Tem mais: a surrada Madalena ganha sobrevida em versão instrumental, com destaque para o flugelhorn de Fabrizio Bosso. Há também novos sabores os clássicos Começar de novo, Lembra de mim, Camaleão e Guarde nos olhos interpretados por Vanessa da Mata, Chiara Civello, Maria Gadú e Bungaro.

Ivan Lins está na fila do patrocínio. Procura parceiros para viabilizar sua turnê com o grupo InventaRio. Que venham o show, o DVD, o blue ray, o especial de TV. Sucesso internacional na certa.

Carlos Herculano Lopes-Um homem feliz‏

Um homem feliz 
 
"Pouco mais de um ano depois da minha vinda para a capital, a alegria das alegrias: a Seleção Brasileira foi tricampeã" 
 
Carlos Herculano Lopes
Estado de Minas: 03/01/2014


Quando cheguei a Belo Horizonte, no fim de dezembro de 1968, portanto, há 45 anos, depois da viagem de caminhão que durou três dias e meio para vencer cerca de 380 quilômetros, chovia tanto que o Vale do Rio Doce, de onde vim, parecia que ia desaparecer, como ocorre agora.

A primeira coisa que me impressionou na capital, se bem me lembro (morava com os tios Neusa Beirão e Joaquim Aguiar, no Bairro da Serra, mas descia a pé para o Colégio Arnaldo), foram as enormes correntes que, no início da tarde, eram instaladas na Avenida Afonso Pena, da esquina com a Rua Aimorés até a Avenida Bernardo Monteiro, impedindo o trânsito. Um dia, sem conseguir conter a curiosidade, perguntei à tia Neusa o porquê daquilo. E ela me respondeu: “Ali é o Dops, onde ficam os presos políticos”.

Por aqueles tempos, o prefeito de BH se chamava Luiz de Souza Lima, e também me lembro de que algum tempo depois, pois os jornais e a televisão não falavam de outra coisa, mataram sua filha, Jô. O governador de Minas era Israel Pinheiro da Silva, que, como meu pai havia me contado, foi o engenheiro chefe da construção de Brasília. Sua mulher, dona Coraci, faleceu recentemente, já centenária. Durante o seu mandato – também nunca me saiu da memória –, ocorreu a tragédia do desabamento do Parque de Exposições da Gameleira, matando dezenas de operários.

Pouco mais de um ano depois da minha vinda para a capital, a alegria das alegrias: a Seleção Brasileira comandada por Zagalo foi tricampeã no México. O jogo final, contra a Itália, nós vencemos por 4 a 1. Alguns dias depois, na companhia de colegas do Arnaldo, fui à Avenida Afonso Pena receber os jogadores mineiros, que desfilaram em um caminhão do Corpo de Bombeiros. Entre eles estavam Tostão, Dario e Piazza, craques que nos anos seguintes teria o privilégio de conhecer.

Naquele dia em que o Brasil ganhou o tri, para melhorar ainda mais as coisas, o general Emílio Garrastazu Médici, presidente da República, decretou que os ônibus deveriam circular de graça. Fizemos a maior farra, andando de um lado para outro com as roletas liberadas. Poucos meses depois, na minha inocente adolescência, ajudei a recepcionar este homem, também na Afonso Pena, balançando bandeirinhas do Brasil enquanto papel picado caía dos prédios e bandas militares executavam hinos patrióticos.

Nos idos de 1968, quando tantas coisas aconteciam no mundo e cheguei a Belo Horizonte, de onde nunca mais saí, acabei me apaixonando por uma menina chamada Lílian, que estudava no Colégio Sacré-Coeur de Marie, também na Serra, colega da minha prima Maria Helena. Dona de imensos olhos verdes, dos quais não posso me esquecer, ela se mudou pouco depois com a família para Alagoas, para onde o pai, que era do Exército, havia sido transferido.

Jamais poderia imaginar que, tanto tempo depois de chegar a esta cidade que considero minha, iria poder, guardadas as devidas proporções (e por isso agradeço a Deus), me considerar um homem feliz, que hoje tem a alegria de desejar a todos os amigos e leitores um ótimo 2014. 

Eduardo Almeida Reis‏ - Televisão

Eduardo Almeida Reis - Televisão
Estado de Minas: 03/01/2014


Marcel Proust, muito citado nos últimos tempos, disse que “um homem de grande talento prestará menos atenção à tolice alheia do que um tolo”. Na falta de grande talento, gosto muito de prestar atenção à tolice alheia, daí este suelto que vai encantar o leitor de Tiro&Queda.
Pago por uma tevê a cabo que é uma porcaria e me dá uma infinidade de canais religiosos, uma porção de canais de televendas, uma quantidade inimaginável de manhãs sertanejas. Um dos raros canais que assisto me chama de “assinante”, além de viver pedindo “fale com a GloboNews”. Por isso, aproveito a ensancha para constatar que o programa GloboNews em Pauta está piorando a olhos vistos. Seria mudança na produção?

A ideia é boa, mas o programa lá vai afundando. Primeiro, porque deu para incluir profissional que destoa do resto da equipe. Depois, porque as conselheiras de finanças, ótimas jornalistas, se perdem e tomam nosso tempo respondendo às consultas de dois ou três assinantes sobre assuntos que só interessam aos dois ou três.
O jornalista Jorge Pontual, brilhante profissional, precisa de um consultor fashion. É inadmissível que um jornalista de televisão se vista com um terno preto, camisa preta e gravata negra. Que é aquilo? Nem o presidente da AIPD, a Associação Internacional de Papa-Defuntos, teria coragem de vestir-se daquele jeito. E o negócio vai por aí para tristeza dos que gostávamos da ideia do programa.
Já que o assunto é televisão, informo ao caro leitor que aquele comercial imbecilérrimo, de 15 segundos, do desodorante Dove Men Care – em que um consumidor de desodorantes de outras marcas vê seu braço cair logo depois de esguichar o produto em seu sovaco, enquanto uma voz avisa “Desodorantes comuns podem causar danos nada agradáveis...”, foi parar no Ministério Público e na comissão de ética do Conar. Custa a crer que uma agência de imensa multinacional possa produzir comercial tão idiota. Comentei-o com a jovem e bela senhora que fica diante da tevê em minha companhia. Agora, sou informado de que o MP e o Conar estão tomando providências diante das muitas reclamações. Uma senhora queixou-se do comercial abusivo, agressivo, desnecessário e constrangedor para deficientes que o assistem, citando uma parenta que chora, sofre e esconde o rosto quando o anúncio passa na TV.

Alto nível
No delicioso livro As vacas Leiteiras, os portugueses Mário e Fernando Vieira de Sá, pai e filho, agrônomo o primeiro, veterinário o segundo, dizem que “dado o alto grau de baixo nível do nosso povo, cujo índice mais verídico é o analfabetismo, somos francos em considerar a utilidade muito relativa do presente trabalho. Não há portanto meio-termo: ou se encara o analfabeto e a esse não se lhe pode escrever, ou se encara a massa de doutores e para esses o livro é demasiado elementar”.

Felizmente vivemos num país em que é grande a massa de doutores, como os deputados federais Arlindo Chinaglia (PT-SP) e Sebastião Bala Rocha (Solidariedade-AP), formados em medicina. Bala Rocha, como senador pelo Amapá, foi o tal que fez discurso de meia hora na tribuna do Senado falando mal de mim. No ano de 2004 apareceu na tevê algemado pela Polícia Federal por furto como secretário de Saúde do seu estado. Claro que não foi para a cadeia e se elegeu deputado federal.

Discutindo no plenário da Câmara, quando Bala Rocha acusou o colega de baixar o nível do debate, Chinaglia respondeu: “Só tenho a dizer uma coisa a Vossa Excelência: graças à minha formação, nunca fui algemado na minha vida”. Bala Rocha respondeu: “Eu fui injustiçado, seu p..., seu fDP..., eu fui injustiçado”. E continuou: “Os políticos do PT é que estão sendo algemados e presos na Papuda”.
Os poucos deputados presentes se meteram entre os dois para evitar que trocassem bofetões, enquanto o presidente desligava os microfones. Gente finíssima.

 Preconceituosos
Em rigor, o adjetivo preconceituoso pode ser contra ou a favor, porque significa parcial, não isento, e parcial significa “que toma partido a favor ou contra uma pessoa, uma facção, sem que importe a justiça ou a verdade”. Aí é que está: a favor ou contra.

Só o preconceito, o parcial
a favor do safismo explica a presença no rádio, na tevê e num grande jornal paulista de uma senhora que não abre a boca que não seja para dizer asneiras. Nada tenho contra a sua sexualidade, mas as suas opiniões, sobre todos os assuntos, só têm cabimento numa lata de lixo.
 O mundo é uma bola
3 de janeiro de 1496: Leonardo da Vinci testa a máquina voadora que construiu e não avoou. Em 1521, Martinho Lutero é excomungado pelo papa Leão X. Em 1534, o parlamento inglês nomeia o rei Henrique VIII chefe da Igreja Anglicana. Em 1558, Mem de Sá toma posse do cargo de governador-geral do estado do Brasil. Em 1889, início da “crise de loucura” que acomete Nietzsche até morrer em 1900. Que se pode esperar de um filólogo, filósofo, crítico cultural, poeta e compositor?

 Ruminanças

“Há milhões de imbecis pelo mundo, os outros é que são uma minoria ridícula” (Nelson Rodrigues, 1912-1980).