sábado, 15 de março de 2014

Orelha

Orelha
Estado de Minas: 15/03/2014


George R. R. Martin vai às origens de As crônicas de gelo e fogo (Mario Anzuoni/Reuters)
George R. R. Martin vai às origens de As crônicas de gelo e fogo

Antes do início


Enquanto milhões de fãs em todo o mundo esperam o sexto volume de As crônicas de gelo e fogo (nada menos que a origem do seriado Game of thrones, exibido pela HBO), seu autor, George R. R. Martin, resolve surpreender mais uma vez. Em vez de ir adiante, ele lança uma coletânea de novelas, O cavaleiro dos sete reinos, passadas no mesmo reino de Westeros, só que um século antes de sua milionária saga. Em tempo: o novo capítulo de As crônicas… só deve sair no ano que vem.


Fantástico em alta

A ameaça do fantástico, de David Roas, chega em breve às livrarias pela Edusp. O livro reúne seis artigos nos quais Roas faz um estudo amplo da literatura fantástica, que historicamente tem sido marginalizada pelos estudos literários acadêmicos. Com o sucesso de público e estima de grandes escritores, o gênero vem conquistando de décadas para cá um espaço crescente. O autor aborda questões teóricas sobre a definição do fantástico e busca mapear historicamente seu surgimento.


Kafka para dançar

Rasante é o nome do espetáculo de dança contemporânea que será apresentado de 20 deste mês a 13 de abril, de quinta a domingo, no Teatro João Ceschiatti do Palácio das Artes. A montagem é inspirada na obra de Franz Kafka e tem direção de Sérgio Penna. Em cena, cinco intérpretes a serviço de diferentes energias se lançam ao desafio de dançar gestos, movimentos e relações, na perspectiva de recriar o mundo contraditório das relações humanas. A montagem recebeu o Prêmio Estímulo da Fundação Clóvis Salgado em 2013.


Highsmith não perdoa


A mais perturbadora das escritoras policiais, criadora da série dedicada ao amoral Ripley, Patricia Highsmith tem nova obra traduzida no Brasil. Trata-se de As duas faces de janeiro, um dos romances mais simbólicos da escritora. O lançamento é da Benvirá, que vem publicando a obra de Highsmith. A novela reúne intriga policial, psicologia profunda e referências mitológicas, numa fábula tensa sobre os dilemas do ser humano, aprisionado nos labirintos entre a vida e a morte.


Fé e cidadania

O Núcleo de Estudos Sociopolíticos (Nesp), da PUC Minas e da Arquidiocese de Belo Horizonte, lança no dia 19 o terceiro volume, intitulado Fé, política e cidadania – Pesquisas, da série Cadernos temáticos do Nesp. A publicação conjuga três questões que integram a existência do cristão no mundo: a vivência da fé, a ação política e o exercício da cidadania. A partir das 20h, no prédio 4, auditório 1, câmpus Coração Eucarístico da PUC Minas (Av. Dom José Gaspar, 500). Os presentes receberão um exemplar da obra. Na ocasião, os autores da publicação farão uma breve exposição do conteúdo do livro.


Quem é quem

A Bíblia tem mais de 3 mil nomes citados em seus vários livros do antigo e novo testamento. E é para facilitar a vida do leitor que a Sociedade Bíblica do Brasil está lançando Quem é quem na Bíblia, que reúne informações precisas sobre todos os nomes próprios citados no livro sagrado. Além de localizar, dar as datas de referência e apresentar breve descrição da vida de cada nome citado, a obra ainda traz quadros históricos e árvores genealógicas dos principais personagens.

 (Jackson Romanelli/Divulgação)


Cabeças cortadas

Hotel Brasil, romance policial de Frei Betto (foto), ganha edição em inglês, depois de traduções para o italiano e o francês. Resenha da Publishers Weekly considerou a obra “uma sátira de mistério em uma casa de campo inglesa, dirigida por Pedro Almódovar, um olhar revelador do submundo marginalizado da sociedade brasileira”. O romance, que tem como subtítulo “O mistério das cabeças degoladas”, se passa num hotel decadente do Centro do Rio de Janeiro.


Crônicas de Bernardo

Conhecido como autor de A escrava Isaura e O seminarista, o mineiro Bernardo Guimarães (1825-1884) foi um escritor múltiplo, deixando além dos romances trabalhos para teatro e poesias, sem falar da intensa atividade como jornalista. Talvez a faceta menos conhecida do escritor ouro-pretano tenha sido sua atividade como cronista. O livro Bernardo Guimarães cronista, organizado por Francelina Ibrahim Drummond, lançado pela Editora Liberdade, é uma grande contribuição para o conhecimento da importância de Bernardo Guimarães para as letras brasileiras. Francelina Drummond reúne textos publicados entre 1867 e 1884 nos jornais Diário de Minas, Constitucional e Liberal Mineiro, que revelam o “talento precoce do romancista em formação”. A organizadora assina ainda textos introdutórios sobre o nascimento da imprensa em Ouro Preto e acerca o espírito da obra bernardina, entre a poesia juvenil e a prosa de maturidade.

A vida é um folhetim [Novo livro de Ana Miranda] - João Paulo

A vida é um folhetim
 
Novo livro de Ana Miranda, Semíramis tem como personagem-chave o romancista José de Alencar. Narrativa recupera momentos marcantes da vida política e da sensibilidade brasileira no século 19


João Paulo
Estado de Minas: 15/03/2014


Ana Miranda já levou para seus romances outros personagens da literatura brasileira, como Gregório de Matos, Gonçalves Dias e Augusto dos Anjos     (Adriana Vichi/Divulgação)
Ana Miranda já levou para seus romances outros personagens da literatura brasileira, como Gregório de Matos, Gonçalves Dias e Augusto dos Anjos

Ana Miranda é responsável por levar para o primeiro plano da literatura brasileira contemporânea o romance histórico. Em 1989, com Boca do inferno, ele deu ao leitor o prazer em conhecer a Bahia do século 17, marcado por disputas políticas e religiosas, por meio de um de seus mais brilhantes personagens, Gregório de Matos. O romance marcou época, não só pela habilidosa reconstrução histórica, mas também pelo uso de elementos expressivos do próprio poeta seiscentista, sobretudo a veia satírica. História e ficção.

Ao se aproximar de outros escritores como personagens, como Augusto dos Anjos (1884-1914), em A última quimera, e Gonçalves Dias (1823-1864), em Dias & Dias, Ana Miranda, sem perder o lastro factual, foi dando cada vez mais espaço à fantasia. No livro sobre Augusto dos Anjos está presente o clima de descaminho dos primeiros anos da República, os embates literários que mobilizavam os intelectuais do período, a vida de província, a busca de uma lírica capaz de incorporar a ciência e a metafísica. Ao falar de Gonçalves Dias, entram em cena a sensibilidade romântica, a descoberta da cultura indigenista, o nacionalismo exacerbado, a nostalgia do exílio.

A literatura brasileira e seus autores se tornam para Ana Miranda muito mais que temas e personagens. São ambientes históricos, universos morais nos quais os escritores surgem como atores que simbolizam uma forma de sensibilidade. Por isso, ainda que os livros da romancista caminhem cada vez mais para a criação, há uma âncora de realidade histórica que precisa ser mantida. A grande realização da escritora é conseguir transformar o que é pesquisa em elemento da narrativa. Ela não explica ou ilustra sua visão do período histórico e de seus atores, mas os coloca em ação a partir de aspectos que fazem parte do mundo retratado.

Em seu mais novo romance, Semíramis, o escritor da vez é José de Alencar (1829-1877). Trata-se de homem que sintetiza em sua obra e atuação política os grandes momentos do século 19 antes da República. Como romancista foi, talvez, o primeiro escritor profissional do país, representante máximo do romantismo no Brasil, autor de obras-primas como Iracema, O guarani e Lucíola. Foi também dramaturgo de sucesso e polemista. Gostava de criticar, mas, meio enfezado, detestava críticas.

Além disso, como jornalista era das penas mais temidas de seu tempo, tendo como inimigos ninguém menos que o duque de Caxias e dom Pedro II. Filho do padre e senador, chegou a ministro e colecionou adversários literários e ideológicos. De família importante no Ceará, era neto de dona Bárbara Pereira de Alencar (Bárbara do Crato), figura decisiva na Confederação do Equador e considerada a primeira presa política do Brasil. Seu pai foi deputado constituinte por duas vezes e senador vitalício. Conspirou contra Pedro I para levar ao trono Pedro II, que depois seria desafeto do filho.

Alencar é uma presença viva na cultura brasileira. Mesmo com forte acento de época, alguns de seus romances ainda são lidos nas escolas, adaptados para novelas de televisão e fazem parte do imaginário romântico brasileiro. Os fatos da agitada vida de José de Alencar estão em biografias bastante conhecidas, escritas por R. Magalhães Júnior (José de Alencar e sua época), Luís Viana Filho (A vida de José de Alencar) e, mais recentemente, no excelente O inimigo do rei – Uma biografia de José de Alencar ou a mirabolante aventura de um romancista que colecionava desafetos, azucrinava d. Pedro II e acabou inventando o Brasil, de Lira Neto. Semíramis é outra história.

A começar pela linguagem poética que conduz a prosa da escritora. Há um perfume de romantismo tanto na sintaxe como nas imagens e vocabulário, o que dá a sensação de que se lê um romance que poderia ter sido escrito por Alencar. Mais que imitação da forma, trata-se da confirmação de um modelo de narração, que dá grande importância à linguagem e suas evocações líricas. Há coisas que se dizem com poucas palavras; há momentos em que as palavras escondem o real sentido do que está sendo narrado.

Cazuzinha

O livro é estruturado em pequenos capítulos, escritos em primeira pessoa por Iriana, irmã de Semíramis, que dá nome ao romance. A narradora vai desfiando, com extrema delicadeza, a história social da região, sempre a partir de evocações pessoais. Há uma mão dupla entre o homem e a natureza, entre a psicologia e a política. Iriana, logo nos primeiros passos da narrativa, acompanha o pai em uma viagem ao Alagadiço Novo, terra dos Alencar. Lá, ela se encontra com a mãe do futuro escritor, que vive maritalmente com o padre José Martiniano, nos últimos dias de gravidez. Vê nascer o menino, que ganha o apelido de Cazuzinha (algo como moleque no linguajar do sertão), e logo sente que ele fará sempre parte de seu destino.

O que se segue não é a biografia de José de Alencar, contada de forma convencional, mas as impressões de Iriana e de sua irmã Semíramis. Em tudo distintas – a narradora é mulher da terra e a irmã uma sonhadora sensual –, elas logo se separam. Iriana fica no Ceará e Semíramis parte para o Rio e para um casamento com homem de destaque no cenário político. Torna-se uma mulher urbana, que frequenta teatros e óperas e alimenta sonhos bovaristas. Semíramis passa a escrever para a irmã, que vive a partir do que as cartas lhe trazem. A realidade se desdobra. Iriana se casa contra sua vontade, de preto, num vestido tingido de lama. O marido se mata na noite de núpcias. Uma viúva sem a experiência do amor.

Logo Cazuzinha se torna personagem importante na trama, autor de peças e romances, que tem sua vida sempre narrada por Semíramis, que faz com que a irmã se sinta próxima dele. Chega a sugerir que enredos para o palco, artigos para a imprensa e romances como A viuvinha tenham ligação com elas. Como as sonhadoras leitoras de romance, Iriana passa a ler sua própria vida como uma história narrada em folhetim.

Ana Miranda mescla frases do próprio Alencar, cita personagens históricos, como Machado de Assis, Gonçalves Dias e Castro Alves, mistura eventos históricos com a imaginação de Semíramis. Traições, rompimentos, viagens, seduções, tudo chega a Iriana em meio ao cenário armado em sua imaginação pelas cartas da irmã. Romance dentro do romance, que caminha para um território em que a verdade desliza sobre a ficção.

Por meio da troca de cartas entre a viuvinha do sertão (que não consegue sair do Crato pela obrigação de cuidar da avó cega e doente) e a exuberante mulher de político de destaque no Rio de Janeiro cria-se uma realidade própria, atravessada de lirismo, fantasia e verdade política. Cazuzinha e, mais tarde, José de Alencar, completa o trio e se torna o elo que junta os fatos registrados na correspondência entre as irmãs. Não é um acaso que a narrativa seja conduzida por duas mulheres, já que Alencar foi, ao seu tempo, quem melhor se aprofundou na psicologia feminina, com diferentes perfis de heroínas, todas elas de alguma forma presentes em Semíramis.

Não é necessário buscar mensagens em romances. Eles existem para nos dar a sensação que a leitura é uma forma de vida, tão completa quanto qualquer outra. É o que o enredo do livro nos mostra ao revelar a alma de duas mulheres, construídas pela fantasia que julgam real, numa atitude que vem do romantismo e se mantém presente em vários momentos da existência. Se tudo existe para terminar em livro, em Semíramis o teorema se inverte: são as palavras que dão sentido à vida. É o que, com muito prazer, o romance de Ana Miranda oferece aos leitores de hoje, caso ainda sejam capazes de se entregar à literatura: uma promessa de felicidade.

Semíramis


. De Ana Miranda
. Editora Companhia das Letras, 272 páginas, R$ 39,50

Entranhas da ditadura

Golpe militar de 1964 foi antecedido de articulação que uniu as Forças Armadas, o empresariado, partidos políticos e setores conservadores da classe média e da Igreja


Lucilia de Almeida Neves Delgado
Estado de Minas: 15/03/2014



Lute, obra emblemática de Rubens Gerchman, de 1967: a arte como forma de resistência (VIIPhot/Divulgação)
Lute, obra emblemática de Rubens Gerchman, de 1967: a arte como forma de resistência

O golpe político que, em 1964, mudou, com profundidade, a realidade do Brasil foi ensaiado ou anunciado ao menos em duas ocasiões antes de sua efetivação. O primeiro dos episódios aconteceu em 1954, quando do suicídio do presidente Getúlio Vargas, que enfrentou intransigente e cotidiana oposição da grande imprensa, dos políticos da União Democrática Nacional (UDN), do capital internacional e de segmentos das Forças Armadas, em especial os vinculados à Escola Superior de Guerra.

O segundo data de agosto de 1961, após a renúncia do presidente Jânio Quadros. Os mesmos setores que fizeram oposição visceral a Vargas tentaram impedir a posse do vice-presidente, João Goulart, que, como bom herdeiro do getulismo, também era filiado ao trabalhismo, ao nacionalismo, aos quais agregou forte reformismo social. Nessa ocasião, movimentos sociais e governadores de estado como Leonel Brizola, do Rio Grande do Sul, uniram esforços para garantir a posse constitucional do vice-presidente. Brizola chegou a coordenar a campanha pela legalidade que agregou estações de rádio em diferentes partes do território brasileiro. No plano institucional, alguns políticos democratas também se empenharam para garantir o respeito à Constituição. Negociaram o retorno seguro do vice-presidente e sua posse, embora com poderes reduzidos, pela adoção do sistema de governo parlamentarista.

Esses dois acontecimentos podem ser considerados como crônicas de um golpe anunciado. Um golpe que se concretizou em 1964 com a deposição de Goulart e a tomada de poder pelas Forças Armadas. Nessa ocasião, os militares que participaram do golpe político articularam-se com a UDN e alguns governadores de estado. Foram apoiados pelo empresariado nacional e internacional, setores conservadores da Igreja Católica, latifundiários, segmentos das classes médias que viviam aterrorizados com a possibilidade de o Brasil se transformar em um país socialista, governo dos Estados Unidos e grande imprensa, em especial os jornais O Globo, Tribuna da Imprensa, Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo.

Era o tempo da Guerra Fria, caracterizada por forte bipolaridade entre socialismo e capitalismo. Esse conflito ideológico e político também alimentou forte tensão interna no Brasil. Em janeiro de 1963, o sistema de governo, depois da realização de um plebiscito, voltou a ser presidencialista. João Goulart recuperou a plenitude de seus poderes e a partir dessa data aprofundou a adoção de políticas governamentais contrapostas aos interesses de empresas internacionais e dos grandes proprietários de terras.

Essa orientação governamental era apoiada e exigida por efervescentes movimentos sociais urbanos e rurais, em especial pelos sindicatos e ligas camponesas. A oposição ao governo entendia que o presidente Goulart extrapolava ao adotar um perfil “populista e demagógico”, pois além de não controlar os movimentos sociais, com eles dialogava com frequência, prejudicando a paz social e as condições de governabilidade.

Intervenções militares sempre ocorreram na história da República brasileira. Mas antes de 1964, com exceção dos primeiros anos sequentes à proclamação da República, não chegaram a levar as Forças Armadas ao poder. Em março de 1964, contudo, ao derrubar um presidente constitucionalmente eleito e empossado, os militares assumiram o governo do Brasil, contando com o apoio de muitos políticos e tecnocratas. Governaram por 21 anos.

A ditadura restringiu de forma crescente o exercício da cidadania e reprimiu com violência as manifestações de oposição. Pela ordem foram cinco os governantes militares, um era marechal e os demais generais: Humberto de Alencar Castelo Branco, Arthur da Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Batista de Figueiredo. Os historiadores costumam dividir o somatório do período desses governos em três fases. A primeira começa e 1964 e vai até 1968. Foram esses os anos de institucionalização e consolidação do autoritarismo.

Entre as medidas mais importantes desse período destacam-se: prisões de cidadãos civis e militares que não apoiaram o golpe de Estado; fim da estabilidade no emprego e criação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), intervenção em mais de 400 sindicatos; proibição de greves; início da promulgação dos atos institucionais e da cassação de mandatos políticos; estabelecimento de eleições indiretas para presidente da República, governadores de estado e prefeitos das capitais; dissolução do pluripartidarismo e criação da Aliança Renovadora Nacional (Arena), que reuniu os governistas, e do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que abrigou a oposição autorizada. E por fim, aprovação pelo Congresso Nacional de Constituição centralizadora e autoritária, que entrou em vigor em janeiro de 1967.

Nessa fase, embora a União Nacional dos Estudantes (UNE) estivesse na ilegalidade, o movimento estudantil atuou, de forma contundente, no campo oposicionista, realizando congressos e passeatas. A mais expressiva foi a dos 100 mil, em 1968, no Rio de Janeiro. Reuniu, além de estudantes, artistas, intelectuais e parcela do clero progressista. Em outubro daquele ano, entretanto, o movimento estudantil sofreu forte desarticulação em decorrência da repressão que desbaratou o congresso da UNE em Ibiúna, no interior de São Paulo. Na ocasião, os mais importantes líderes do movimento estudantil foram presos.

Também nesse período, movimentos culturais tornaram-se canais de expressão de descontentamento e oposição, em especial no campo da música popular, que fez dos festivais da canção brasileira espaços de protesto. O teatro também contribuiu para manifestação de insatisfação com o regime militar. Muitos espetáculos, em especial os encenados pelo Opinião e Arena, traduziam discordância com um governo cada vez mais ditatorial.

Também nessa fase, João Goulart e Juscelino Kubitschek aliaram-se ao antigo adversário, Carlos Lacerda, e formaram um movimento que ficou conhecido como Frente Ampla. Seu objetivo era congregar as forças de oposição ao governo federal. A iniciativa, de grande valor simbólico, não rendeu frutos, pois foi reprimida.

O fim do período de institucionalização aconteceu como desdobramento mais imediato do pronunciamento do deputado do MDB Márcio Moreira Alves, na Câmara dos Deputados, também no ano de 1968. O parlamentar fez severas críticas ao governo e aos militares, inclusive no campo dos direitos humanos. Na sequência, o Congresso Nacional foi fechado e o Ato Institucional nº 5 editado.

Repressão e tortura A promulgação do AI-5, em dezembro daquele ano, marcou o início da segunda fase do regime militar, representou o fechamento completo do regime político e consolidou a ditadura ao dotar o governo de prerrogativas institucionais que levaram à ampliação da repressão e à generalização da prática da tortura.

Esse período correspondeu à fase do denominado “milagre brasileiro”. Nessa época, o Produto Interno Bruto (PIB) chegou ao patamar de 12% ao ano. A propaganda governamental divulgava a imagem de um Brasil potência, pacificado e presenteado com a adoção do mar das 200 milhas, a construção da Ponte Rio-Niterói e o início de construção da Transamazônica. Essa estrada jamais foi concluída, mas deixou um rastro de miséria e desmatamento.

Esses foram também os anos de maior repressão às oposições. O alvo principal eram as organizações que atuavam na clandestinidade. Seus militantes foram presos, torturados e processados. Centenas deles morreram ou “desapareceram”. Muitos corpos até hoje não foram localizados. A oposição legal efetiva também não foi tolerada e novas cassações de mandatos políticos proliferaram. Foi um tempo em que uma forte censura às artes e à imprensa limitou a expressão artística e política. Eram os anos de chumbo.

Por volta de 1976 iniciou-se a terceira fase do ciclo autoritário, que coincidiu com o fim do milagre econômico. O aumento vertiginoso dos preços do petróleo e a recessão da economia interferiram negativamente na economia e geraram grande insatisfação popular.

O general presidente Ernesto Geisel sucedeu ao governo Médici. Influenciado por Golbery do Couto e Silva, fundador da Escola Superior de Guerra e do Serviço Nacional de Informações, previu dificuldades crescentes e custos políticos altíssimos para o governo caso os militares permanecessem no poder por um período indefinido. Resolveu então, embora com discordância de seus pares, que controlavam o sistema repressivo, iniciar um processo de “distensão lenta, gradual e segura”.

Ao término do mandato de Geisel, a realidade política brasileira passara por transformações. A repressão diminuiu e as oposições, ainda que de forma tímida, começaram a se reorganizar. Fato expressivo do novo ciclo que se iniciava foi a primeira greve do ABC paulista, em maio de 1978, já no governo Figueiredo. O movimento sindical estimulou a proliferação de inúmeros movimentos sociais e políticos que lutaram pelo retorno da democracia política.

Em janeiro de 1979, a revogação do AI-5 e de outros atos institucionais entrou em vigor, o que facilitou a reorganização das forças de oposição e acelerou o processo de liberalização política. O grande marco dessa fase foi, depois de crescente campanha pela “anistia ampla, geral e irrestrita”, a aprovação da Lei da Anistia de 1979, que embora limitada e conexa, possibilitou a abertura das prisões e o retorno ao país de milhares de exilados políticos.

Outro fato marcante no processo de democratização foi o restabelecimento do pluripartidarismo. No ano de 1982 ocorreram eleições para governadores de estado e na sequência uma grande campanha política/popular, denominada Campanha pelas diretas, que defendia o retorno das eleições diretas para a Presidência da República.

A década de 1980 marcou o final do ciclo ditatorial. A campanha pelas Diretas já, que reuniu milhões de brasileiros, mesmo derrotada no Congresso Nacional, preparou o caminho para a eleição, realizada pela via indireta e elegeu um presidente civil, Tancredo Neves. Que não foi empossado em decorrência de sua morte.

Mas esse processo de democratização, marcado por avanços e recuos, só culminou quando da realização de uma Assembleia Nacional Constituinte e da promulgação de uma nova Constituição, em 1988. Chegava ao fim um período de exceção que restringiu a liberdade de imprensa, criou um aparato de informação e segurança de grande capilaridade, adotou a tortura como prática cotidiana nas prisões, levou brasileiros ao exílio, instituiu a censura, cassou mandatos políticos, legislou por atos institucionais, pôs em prática a triste medida do banimento de brasileiros, fez vigorar uma Constituição autoritária e ceifou vidas.

Lucilia de Almeida Neves Delgado é historiadora e professora dos programas de pós-graduação em história e direitos humanos da Universidade de Brasília.

No meio do caminho tinha uma bola‏ - Ana Clara Brant

No meio do caminho tinha uma bola
Livro reúne crônicas, poemas e cartas de Carlos Drummond de Andrade sobre o futebol. O poeta se revela apaixonado pelo esporte e seus heróis 
 
Ana Clara Brant
Estado de Minas: 15/03/2014


O poeta acompanhou com suas crônicas nove Copas do Mundo, de 1954 a 1986 (Arquivo EM)
O poeta acompanhou com suas crônicas nove Copas do Mundo, de 1954 a 1986

A maioria dos leitores de Carlos Drummond de Andrade se acostumou a ler o poeta versando sobre amores, dores, sobre o tempo, o silêncio, indagando sobre o mundo ou evocando lembrança de seus tempos de menino. Por isso, soa até curioso quando chega ao mercado um livro que mostra observações do itabirano sobre o esporte mais popular do país.

Com textos selecionados por Luis Mauricio e Pedro Augusto Graña Drummond, netos do escritor, e posfácio de Juca Kfouri, Quando é dia de futebol (Companhia das Letras) traz em quase 200 páginas crônicas e poemas publicados em sua maioria nos jornais Correio da Manhã e Jornal do Brasil, nos quais o autor trabalhou durante muitos anos, além de trechos de cartas do poeta a amigos e familiares.

Textos líricos, irônicos e bem-humorados. A maior parte não retrata um time específico, mas as rivalidades entre grandes clubes e lances geniais de Pelé (“O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé!”) ou Mané Garrincha (“Há um Deus que regula o futebol, esse Deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios.”). Ganham destaque a Seleção Brasileira e eventos como a Copa do Mundo, já que Drummond passou por nove delas, de 1954, na Suíça, até a última testemunhada pelo autor, em 1986, no México.

Tudo que envolvia o esporte bretão, seja a paixão do torcedor ou o fascínio que uma transmissão pelo rádio provocava, estava presente em sua escrita, sempre atenta ao homem comum. Uma das crônicas que mais chamam a atenção e que abre o livro foi publicada no Minas Gerais de julho de 1931. “Enquanto os mineiros jogavam” fala da angústia de cavalheiros em volta de um rádio durante um jogo da Seleção Mineira. Num domingo à tarde, como de costume, Drummond ia ver os bichos no Parque Municipal, já que estava cansado de lidar com gente durante a semana, e ficou espantado de ver uma aglomeração de pessoas ali. Enquanto “onze mineiros batiam bola no Rio de Janeiro, dois mil mineiros escutavam, em Belo Horizonte, o eco longínquo dessa bola e experimentavam uma patriótica emoção”.

Apesar da imagem sóbria de funcionário público, por incrível que pareça o esporte, e sobretudo o futebol, era uma das paixões de Carlos Drummond de Andrade. Não era frequentador assíduo dos estádios, mas tudo leva a crer que não era torcedor do Valeriodoce, time de sua cidade natal, Itabira, mas do Vasco da Gama, como descreve em um dos textos do livro (“E viva, viva o Vasco: o sofrimento/ há de fugir, se o ataque lavra um tento/ Time, torcida, em coro, neste instante,/ Vamos gritar: Casaca! ao Almirante./ E deixemos de briga, minha gente./ O pé tome a palavra: bola em frente”).

Ao falar de futebol, o autor trata também de política, da sua influência nas massas humanas, do carnaval, da família e de outros assuntos que o leitor deve ir descobrindo à medida que avança na leitura e observa que o futebol é para o povo um refúgio ante tais fracassos. Desse refúgio ele extrai sua maior alegria. Faltando poucos meses para a Copa do Mundo, Quando é dia de futebol é uma bola cheia de lirismo para mergulhar nessa que é uma das maiores paixões do brasileiro.


Trecho do livro


Milagre da Copa

Bulhões a Campos, fagueiro:
Enfim domada a inflação!
Valorizou-se o Cruzeiro
E muito mais o Tostão.


Correio da Manhã, 3/4/66


Quando é dia e futebol
• De Carlos Drummond de Andrade
• Editora Companhia das Letras,
• 198 páginas, R$ 34,50