segunda-feira, 5 de maio de 2014

Eduardo Almeida Reis - Heureca!‏


Reza a lenda que o sábio sículo saiu correndo nu pelas ruas de Siracusa gritando 'Heureca! Heureca!', após formular a Lei do Empuxo num banho de banheira 
 
Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 05/05/2014

Do grego heúreka ‘achei’, heureca é interjeição usada como expressão de triunfo ao encontrar-se a solução de problema difícil e foi atribuída ao matemático grego Arquimedes (287-212 a.C.). Um dos principais cientistas da Antiguidade Clássica, Arquimedes foi matemático, físico, engenheiro, inventor e astrônomo nascido e assassinado em Siracusa.

A Lei do Empuxo e a Lei da Alavanca são algumas das contribuições do gênio considerado o maior matemático da Antiguidade e um dos maiores de todos os tempos. Durante o cerco a Siracusa, Arquimedes foi morto por um soldado romano, mesmo tendo sido as tropas avisadas de que deveriam poupá-lo sem ferimentos, tamanha a admiração que os líderes romanos tinham por ele.

Pouco se sabe de sua vida, se foi casado, se teve filhos, mas é provável que tenha morrido solteiro porque a soma das descobertas de sua genialidade era e continua sendo incompatível com a notícia de que o gás acabou, o condomínio está atrasado, é preciso trocar e alinhar os pneus do carro, o chico atrasou 15 dias.

Siracusa, na Sicília, era naquele tempo uma colônia (ou cidade-estado?) da Magna Grécia. Hoje é italiana e tem cerca de 123 mil habitantes, que você tanto pode chamar de sículos, como de siciliotas, sicilienses ou sicilianos. Sículo só aprendi agora, o que diz bem da vastidão de minha ignorância.

O empuxo arquimediano, como aprendemos no colégio, sobre um corpo parcial ou totalmente imerso em um fluido, é a força que age no sentido oposto ao da gravidade e cuja magnitude é igual ao peso do volume do fluido deslocado pelo corpo. Reza a lenda que o sábio sículo saiu correndo nu pelas ruas de Siracusa gritando “Heureca! Heureca!”, após formular a Lei do Empuxo num banho de banheira.

E todo esse nariz de cera, que passou das 290 palavras, vem a propósito de uma descoberta que fiz há dois dias e deve ser do interesse de muitos leitores. Nunca tive maiores problemas para dormir, tanto assim que só muito raramente tomei soníferos. Dormia mal pela maldita apneia do sono e ronquei durante séculos.

Há coisa de uns 14 anos investi na dentadura de silicone da dra. Regina e fiquei livre da maldita apneia. Meses atrás, contudo, às voltas com a notícia de uma cirurgia complexa, passei a dormir porcamente, mesmo com a dentadura de silicone, porque pensava na cirurgia, nos riscos, nos custos – e aí já viu, né?

Foi quando me receitaram um tarja preta fraquinho, Rivotril 0,25, que funcionou à maravilha porque me impedia de “pensar” durante a noite. Não leio bulas. O comprimido funcionou, fui operado, voltei a tomar um comprimidinho toda noite e as coisas caminhavam mais ou menos, quando notei que, mesmo dormindo bem, cerca de oito horas por noite, acordava sonolento e passava o dia inteiro desanimado. Idade? Talvez...

Então, num acesso raríssimo de inteligência, philosophei: se o 0,25 me derruba à noite pode ser que continue a fazer efeito durante o dia. Consultei uma amiga, que me disse já ter tomado o mesmo comprimido, sob receita médica, para ansiedade e problemas do gênero, e que o remédio funciona assim mesmo, o dia inteiro.

Num segundo acesso de inteligência – heureca! – parei com o comprimido há várias noites, durmo admiravelmente e, pasme o leitor, acabei com a sonolência e o desânimo durante os dias.

Filosóficas

Ensinar filosofia numa escola pública de Taguatinga (DF), mesmo com um professor chamado Antônio Kubitschek, não podia dar boa coisa. Numa prova de múltipla escolha, o mestre citou a funkeira Valesca Popozuda como “grande pensadora contemporânea”.

O enunciado da questão dizia: “Segundo a grande pensadora contemporânea Valesca Popozuda, se bater de frente...”. Os alunos deviam escolher a primeira das quatro respostas propostas: “é só tiro, porrada e bomba”, prova aplicada a 400 alunos do ensino médio. Marcelo Aguiar, secretário de Educação do Distrito Federal, louvou a questão elaborada pelo professor, como também louvo: Antônio Kubitschek, que lindo nome tens tu, se todos gostam de cheque, nem todos gostam de ti.

Outrossim, louvo a grande pensadora Popuzuda. Consta que tem 1.100ml de silicone em cada nádega. Se pensa com o sesso (ê), “par de nádegas, traseiro”, pensa bem, porque o tem dos mais expressivos. E vem sendo considerada líder feminista pelas mestrandas e doutorandas da UFRJ, Universidade Federal do Rio de Janeiro, maior concentração de mestres e doutores do Brasil, a dois passos do Complexo da Maré, conjunto de favelas com 130 mil habitantes supostamente vigiados pelas Forças Armadas por causa da Copa das Copas.

O mundo é uma bola


5 de maio de 1769: decreto autorizando o estabelecimento na Lousã, em Portugal, de uma fabrica de papel de escrever. Deve datar daí o drama dos que se queixam do papel em branco. Em 1920, o papa Bento XV canoniza Santa Joana D’Arc. Em 1968, estudantes franceses invadem a Sorbonne: cerca de 600 foram presos. Em 1984, entra em funcionamento a primeira unidade de energia da Usina Hidrelétrica de Itaipu, assunto atual pela possibilidade provável de racionamento em 2014. Hoje é o Dia Nacional do Agito, do Líder Comunitário, das Comunicações e da Luta dos Estudantes de Farmácia.

Ruminanças

“Ventre faminto não tem ouvidos” (La Fontaine, 1621-1695).

A moda agora é criar cobras

É crescente a venda de animais exóticos no país. Em um criatório da Grande BH, negócios aumentam 200% ao ano



Carolina Mansur e Marinella Castro
Estado de minas: 05/05/2014

Ricardo Bruce tem três jiboias de estimação, que custaram de R$ 1,7 mil a R$ 2 mil: do susto à empolgação     (Fotos: Edésio Ferreira/EM/D.A Press  )
Ricardo Bruce tem três jiboias de estimação, que custaram de R$ 1,7 mil a R$ 2 mil: do susto à empolgação



Tiago Lima conta que há uma extensa fila de espera para a compra dos répteis
Tiago Lima conta que há uma extensa fila de espera para a compra dos répteis




Assim como boa parte dos brasileiros, o comerciante Ricardo Bruce de Vasconcelos Vilela, de 36 anos, também tem um animal de estimação. Um não, três. O curioso é que ele não tem um cachorro ou um gato, como a maioria. Ricardo convive diariamente com três jiboias, que custaram de R$ 1,7 mil a R$ 2 mil cada. O gosto excêntrico, segundo ele, assusta no primeiro momento. “Perguntam se sou doido”, brinca. “Mas depois vêm as outras perguntas: onde comprei? Por quê? O que elas comem? E as reações seguintes são de empolgação e êxtase, principalmente entre os homens”, garante.

A opção por serpentes veio pelos baixos custos de manejo, além da docilidade do animal e do fato de não soltar pêlos nem fazer barulhos. “É fácil cuidar e se precisar ficar fora uns dias o bicho fica bem sozinho”, argumenta Ricardo Bruce. Os gastos mensais com as serpentes são praticamente zero, garante. “Crio camundongos para alimentação em casa e os únicos custos são com a ração própria para roedores, em média R$ 15 por mês, e a serragem para forrar os biotérios, mais R$ 12 mensais”, diz. Já quem opta por adquirir alimentos para as cobras na época da alimentação, ou congelados, pode ter leve aumento de custos.

A rotina com o animal, que tem terrário próprio (uma espécie de aquário feito em madeira para cobras), é outra diferença. “Não dá para levar comigo onde vou porque assusta um pouco, mas em casa ela toma sol, participa dos bate-papos e quando chegam amigos que já a conhecem pedem para vê-la. Mas outros ainda assustam”, lembra. Os benefícios da convivência, para Ricardo, são maiores. “Como é um animal de movimentos leves, me acalma em dias de estresse. Como todo hobby, é uma distração, ajuda a descarregar”, lembra.

No criatório Vale Verde, em Betim, na Grande BH, 400 pessoas de todos os estados do Sudeste, aguardam em uma longa fila de espera pelo seu animal de estimação: uma jiboia que vão buscar no aeroporto assim que receberem o aviso do criador. A espécie reproduzida em cativeiro – que pode vir da mata atlântica, do cerrado, da caatinga ou da Amazônia – ganha fãs pelo Brasil. A produção do criatório, que é o maior do país na venda do réptil, não consegue atender à demanda de seus clientes. A produção do bichinho de estimação, que ainda provoca temor e arrepios em muitos, cresceu 200% no último ano embalada pela procura que avança ligeira e silenciosa, como um bote certeiro.

Criadas em terrários, as cobras custam entre R$ 1,3 mil e R$ 3 mil e não chegam na proporção esperada pelo mercado. “Nosso criatório de jiboias é recente. A Vale Verde o comprou em 2012”, explica Tiago Lima, coordenador do zoológico e criatório da Vale Verde. A produção começou no ano passado e lá já nasceram 250 filhotes, sendo que todos os répteis já têm dono. “São despachados para o país, via aérea.” Segundo ele, a manutenção do animal, que pode viver até 40 anos, é de R$ 30 ao mês com alimentação, basicamente feita a partir de roedores. Os camundongos são vendidos congelados, já para o propósito de servir de presa.

E quem são os consumidores dos adoráveis bichinhos de estimação? “Nosso público é variado, temos de adolescentes a pessoas acima de 60 anos.” O mercado brasileiro legalizado de animais de estimação movimenta mundo afora perto de  R$ 10 bilhões anuais. No país, só a venda dentro do território nacional fatura perto de R$ 600 milhões ao ano, mas a cadeia que abrange segmentos como pet shops, equipamentos e rações faz circular R$ 3,3 bilhões no mesmo período. “A demanda brasileira cresce perto de 30% ao ano, mas é contida pela limitação do Ibama, que restringe a criação de espécies”, diz Luiz Paulo do Amaral, presidente da Associação Brasileira de Criadores e Comerciantes de Animais Silvestres e Exóticos (Abrase).

ILEGAIS PREDOMINAM Tiago Lima defende que no país a regulamentação para animais seja revista e cita como exemplo o caso da jiboia. “Hoje, 99% do comércio de répteis em território nacional é ilegal. Os anúncios podem ser flagrados até pela internet, redes sociais”, aponta. O Vale Verde comercializa mais de 100 espécies silvestres e exóticas, como o papagaio-verdadeiro, conhecido por ser falador e vendido por  R$ 2,3 mil, líder na preferência nacional. Espécies como a arara-canindé, de cor azul e peito amarelo (R$ 2,7 mil), também são ícones do mercado e agora ganham, quem diria, as jiboias como parceiras do reinado. E a jiboia pica? Tiago Lima explica que essas cobras são solitárias e devem ser mantidas em cativeiro para que não se escondam ou fujam, mas não são agressivas.

Procurado pelo Estado de Minas, o Ibama se restringiu a informar em nota que “a partir de 2011, conforme estabelecido pela Lei Complementar 140, a competência para autorização de criadouros de animais silvestres é do governo estadual”. Além disso, informou que em 2013 eram 497 criadouros autorizados pelo Ibama e que uma lista oficial com os animais que podem ser criados como estimação está em processo de elaboração. Mas, para o presidente da Abrase, o posicionamento significa dizer que “o segmento está à deriva”, já que o ambiente atual é de ausência de um código de fauna e pautado por normas administrativas defasadas que causam uma insegurança jurídica grande para o setor. “Se o país não teve capacidade de se organizar em tantos anos, imagina os estados. Vai levar anos para que isso se organize e o segmento possa crescer conforme o seu potencial ”, adianta. 

VÍRUS » Funed preparada para o Chikungunya‏

VÍRUS » Funed preparada para o Chikungunya

Estado de Minas: 05/05/2014


Perigo para o Brasil: vírus pode ser transmitido pelo Aedes aegypti (na foto, mosquito e larvas), que causa dengue  (Edésio Ferreira/EM/D.A Press)
Perigo para o Brasil: vírus pode ser transmitido pelo Aedes aegypti (na foto, mosquito e larvas), que causa dengue


A Fundação Ezequiel Dias (Funed), em Belo Horizonte, que é o laboratório central de saúde pública de Minas Gerais, já tem estrutura laboratorial condizente e profissionais capacitados para diagnosticar casos de contaminação pelo vírus Chikungunya. Conforme o Estado de Minas mostrou em 5 de março, o vírus é originário da Tanzânia, tendo sido identificado em 1952, mas sua transmissão pelo Aedes albopictus e também pelo Aedes aegypti, o mesmo que transmite a dengue, já passou pela África, Estados Unidos, e chegou também à América Central. No momento, causa uma epidemia no Caribe.

Com a proximidade da Copa do Mundo no Brasil, que vai atrair milhares de pessoas de diferentes regiões do planeta, o Ministério da Saúde admite a possibilidade iminente da chegada da febre Chikungunya ao país. Por isso, tem trabalhado com os laboratórios centrais de saúde pública (Lacens) no sentido de prepará-los e capacitar os profissionais para o diagnóstico e controle da doença.

Segundo a funcionária do Laboratório de Dengue e Febre Amarela da Funed, Eliza de Souza Lopes, o Instituto Evandro Chagas, laboratório referência nacional para esse exame, já está produzindo reagentes para que, em breve, possam ser feitos os diagnósticos em todos os Lacens do país. Além disso, em parceria com o Ministério da Saúde, vai promover, a partir de hoje, em Belém (PA), uma reciclagem para os profissionais de todo o Brasil.

A técnica utilizada para o diagnóstico do vírus e a que será aplicada na Funed será a do teste Elisa e também a do PCR em tempo real, assim como são feitos os diagnósticos do vírus da dengue e da febre amarela. “Enquanto laboratório central de saúde pública, a Funed cumpre seu papel de atender, com eficiência e qualidade, a todas as demandas de vigilância do país. Há vários meses temos trabalhado na preparação para atuação em eventos de massa, como a Copa do Mundo, num esforço conjunto entre Funed, governo de Minas, Exército, Ministério da Saúde e tantos outros agentes públicos”, diz o presidente da fundação, Francisco Tavares Junior.

TRANSMISSÃO O vírus Chikungunya é transmitido pelo mesmo vetor transmissor da dengue, o Aedes aegypti e o Aedes albopictus, mas trata-se de um vírus diferente e não um novo tipo de dengue. A pessoa doente tem os mesmos sintomas de dengue, mas com a diferença de muitas dores nas articulações de forma aguda e que podem durar semanas. Até o momento, o Brasil registrou apenas casos importados, ou seja, pessoas que chegaram ao país já infectadas.

Pesquisa identifica proteínas que ajudam a combater a leishmaniose

Parasita "engana" sistema imunológico Sequenciamento de um dos causadores da leishmaniose revela como o protozoário produz proteínas que impedem reação de proteção do organismo. Pesquisa é coordenada pela UFMG, com colaboração de outros laboratórios


Carolina Cotta
Estado de Minas: 05/05/2014


Vacúolos parasitóforos desenvolvidos pelo protozoário Leishmania amazonensis (em vermelho) em macrófago de camundongo (cinza). Imagem obtida em microscópio eletrônico de varredura por emissão de campo a partir de amostra fraturada por fita adesiva. Dezenas de parasitas estão alojados em espaçosos compartimentos intracelulares do macrófago hospedeiro. Nesses vacúolos espaçosos o parasita se refugia do sistema imune do hospedeiro. Produzida por Fernando Real, um dos autores da pesquisa, a imagem ficou em segundo lugar na categoria Dimensão micro da edição 2012 do Prêmio Fotografia/CNPq (Fernando Real/Divulgação)


Vacúolos parasitóforos desenvolvidos pelo protozoário Leishmania amazonensis (em vermelho) em macrófago de camundongo (cinza). Imagem obtida em microscópio eletrônico de varredura por emissão de campo a partir de amostra fraturada por fita adesiva. Dezenas de parasitas estão alojados em espaçosos compartimentos intracelulares do macrófago hospedeiro. Nesses vacúolos espaçosos o parasita se refugia do sistema imune do hospedeiro. Produzida por Fernando Real, um dos autores da pesquisa, a imagem ficou em segundo lugar na categoria Dimensão micro da edição 2012 do Prêmio Fotografia/CNPq

A identificação de duas proteínas produzida pelo parasita Leishmania amazonensis pode explicar por que ele consegue conviver harmoniosamente com células que deveriam matá-lo. O sequenciamento do genoma do Leishmania amazonensis, um dos causadores da leishmaniose cutânea e difusa, demorou quatro anos para ser concluído, mas viabilizou a identificação de proteínas que poderiam subverter as defesas do organismo hospedeiro, participando da evasão do seu sistema imunológico. O sequenciamento em si foi realizado de maneira automatizada em um equipamento de última geração nos Estados Unidos, mas todo o processamento e a análise dos genes envolvidos são mérito de pesquisadores brasileiros.

Coordenado pela doutora em bioquímica e biologia molecular Diana Bahia, do Departamento de Biologia Geral da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o estudo é uma colaboração com o Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia (DMIP) da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), além de grupos do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), de Campinas, e do Laboratório de Genômica e Expressão da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). No artigo “The genome sequence of Leishmania(L.) amazonensis: functional annotation and extended analysis of gene models”, publicado na revista científica DNA Research, eles mostram como duas proteínas sintetizadas e secretadas pelo protozoário imitam a do hospedeiro.

Segundo Diana Bahia, essa imitação permite a ligação dessas proteínas a componentes do arsenal imunológico do indivíduo infectado, bloqueando sua ativação e silenciando a resposta inflamatória. O estudo também avançou na investigação dos genes relacionados à formação de um vacúolo (chamado vacúolo parasitóforo), bolsa que abriga o parasita no interior dos macrófagos, células de defesa que os englobam e tentam destruí-los (foto). Nela, o parasita se multiplica e resiste a eventuais ataques do sistema imunológico.

Segundo o doutor em Microbiologia e Imunologia Fernando Real, do DMIP, um dos pesquisadores e autores principais, no caso de Leishmania amazonensis e da sua espécie-irmã Leishmania mexicana, essa bolsa é bem mais espaçosa do que as formadas por outras espécies de protozoários causadores da leishmaniose. “Essa pode ser uma das maneiras de o parasita subverter e enganar o sistema imunológico do hospedeiro”, acredita. A motivação para o estudo, inclusive, veio do fato de a Leishmania amazonensis residir nesse vacúolo mais espaçoso dentro dos macrófagos, ao contrário da Leishmania major e da Leishmania braziliensis, que residem em vacúolos mais apertados, justapostos ao corpo do parasita.

“O vacúolo criado pelo parasita, quando está em sua forma amastigota, ou seja, intracelular, parece ser um mecanismo elaborado, usado para sua multiplicação e proteção contra o ataque do sistema imune do hospedeiro. Esse vacúolo largo é uma característica ainda pouco estudada, até o momento descrita apenas para as espécies do complexo mexicana”, explica Diana. Daí a importância do genoma, que proveu os pesquisadores de informações sobre proteínas expostas ou secretadas pelo parasita, principalmente na forma amastigota, que auxiliassem na formação desse vacúolo. Dessa maneira, seria possível entender o possível mecanismo biológico por trás de sua sobrevivência dentro do macrófago e, consequentemente, encontrar meios de neutralizar seu ciclo intracelular.

O genoma de um organismo funciona como um manual de instruções do seu funcionamento. Ele provê indicações de que genes estariam relacionados com problemas científicos e médicos na investigação desses parasitas. É preciso tomar toda a informação decorrente do sequenciamento e, pontualmente, investigar a participação efetiva dos genes preditos (aqueles anotados como tendo características de genes) na manifestação clínica da doença, por exemplo, ou na formação do vacúolo parasitóforo, para aqueles mais interessados na pesquisa básica. “O genoma ‘abre mais portas do que fecha’. Temos mais perguntas a investigar do que respostas”, acrescenta Diana.

No estudo, os pesquisadores buscaram identificar genes espécie-específicos em Leishmania amazonensis e Leishmania mexicana que poderiam estar relacionados à leishmaniose cutânea difusa. Segundo Diana, são pouquíssimos os genes encontrados apenas nessas duas espécies. Independentemente da manifestação da doença, as espécies de Leishmania são muitíssimo parecidas: mais de 90% dos genes fazem parte de um repertório comum ao gênero. Mas o que aparentemente faz a diferença é a quantidade de cópias de cada gene. “Encontramos muitos genes expandidos (aqueles que se apresentam em maior numero de cópias em dado organismo) em número de cópias nas duas espécies. Talvez esses genes estejam envolvidos nas peculiares manifestações clínicas provocadas por esses parasitas e na homeostase (condição de relativa estabilidade que o organismo necessita para realizar suas funções adequadamente) entre parasita e hospedeiro”, explica

VIDA EM SILÊNCIO Esses parasitas estão adaptados para viver silenciosamente no hospedeiro, até que alguma deficiência do sistema imune permita que ele saia de sua forma latente e desenvolva as lesões no mesmo. Umas espécies, contudo, parecem mais adaptadas do que outras – mais agressivas – a viver silenciosamente em determinados hospedeiros, fenômeno ainda pouco estudado. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), boa parte dos mamíferos reservatórios e de humanos infectados pela Leishmania amazonensis não apresentam lesões. “Por isso acreditamos que esse protozoário seja uma dessas espécies que evoluíram de modo a adquirir vantagens em uma vida intracelular e a se adaptar a viver silenciosamente no hospedeiro”, explica a pesquisadora da UFMG.

Do ponto de vista médico, o sequenciamento genômico possibilita a identificação de genes importantes para o estabelecimento do parasita e para sua disseminação pelo organismo. Alguns produtos desses genes preditos podem ser potenciais alvos de vacinação (profilática ou terapêutica) ou para desenho de drogas que impeçam a continuidade da doença. Do ponto de vista biológico, o genoma pode revelar fatores para a biogênese do vacúolo largo, no qual esses parasitas vivem, permitindo a investigação do estado de latência que esses parasitas podem atingir em infecções crônicas, e também para a investigação do tropismo (movimentação) do parasita do sítio da picada do inseto até outras regiões na doença disseminada.

A pesquisa foi realizada com financiamento do projeto Jovem Pesquisador da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e por meio de bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).


Causador de graves lesões


Leishmania é um gênero de protozoários que inclui os parasitas causadores das leishmanioses. As espécies são transmitidas por mosquitos do gênero Phlebotomus, no Velho Mundo, e do gênero Lutzomyia, no Novo Mundo, e seus hospedeiros primários são mamíferos como cães e camundongos, além de répteis. Leishmania amazonensis faz parte do chamado “complexo mexicana”, também composto pela espécie Leishmania mexicana. A Leishmania mexicana foi classificada, em 1953, por Francisco Biagi, como agente causador da úlcera dos chicleros, lesão cutânea comum entre trabalhadores rurais da América Central. A Leishmania amazonensis foi descoberta pelos professores Jeffrey Shaw (da Universidade Federal de São Paulo) e Ralph Lainson (do Instituto Evandro Chagas), em 1972.

Das mais de 20 espécies descritas, as do complexo mexicana provocam lesões crônicas, nodulares e muitas vezes disseminadas em humanos. Já Leishmania amazonensis encontra-se predominante no Brasil, na Bacia Amazônica, e está envolvida em manifestações cutâneas que abrangem formas simples (nódulo ou lesão simples), difusas (vários nódulos na região infectada) e disseminadas (vários nódulos espalhados por outras regiões do corpo). Essa tem maior envolvimento em uma forma mais grave e de difícil tratamento dessas manifestações cutâneas disseminadas. A forma anérgica difusa leva a sérias lesões desfigurantes no indivíduo que se assemelham à lepra e é praticamente impossível de serem curadas.


DAQUI PARA O FUTURO » Melhor entendimento da comunicação celular


Com o genoma do parasita Leishmania amazonensis sequenciado, surgem mais possibilidades para a investigação da biologia dessa espécie, que pode ser feita, inclusive, em comparação com os genomas de outras espécies de Leishmania. A apresentação do genoma deve ser o início, e não o fim, de uma série de experimentações a fim de se checar a relevância médica e biológica dos genes preditos. Um dos próximos passos, segundo Diana Bahia, é, a partir do isolamento dos largos vacúolos parasitóforos formados por essa espécie, mapear que componentes do hospedeiro e que estruturas do parasita fazem parte dessa estrutura. Além disso, torna-se viável a identificação de proteínas do parasita que participam da sinalização celular, ou seja, fosforilam e ativam substratos, em uma cascata de eventos de comunicação celular. Essas proteínas têm sido amplamente estudadas como alvo de drogas para doenças proliferativas, como o câncer. Para os pesquisadores, a interferência em algumas dessas vias de sinalização, por meio de desenho de drogas específicas, poderá ser um futuro promissor para o controle da manifestação da doença causada pelo parasita.