quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Doente vegetativo 'responde' a médicos


Doente vegetativo 'responde' a médicos
Grupo no Canadá fez perguntas a pacientes com lesão e observou "respostas" por meio de ressonância magnética
Resultado pode mudar prognósticos nos casos em que não era detectado nem um mínimo de consciência
DE SÃO PAULO
Um canadense que há mais de dez anos entrou em estado vegetativo conseguiu "responder" a perguntas feitas por pesquisadores, como "você sente dor?", durante um exame de ressonância magnética funcional.
O feito, registrado pelo neurocientista britânico Adrian Owen na Universidade de Ontario Ocidental, no Canadá, mostra que o paciente Scott Routley, 39, tem uma consciência mínima.
"Fizemos o exame diversas vezes, e o padrão de atividade cerebral mostra que ele está claramente escolhendo responder às nossas questões. Acreditamos que ele sabe quem é e onde está", afirmou o pesquisador à BBC.
O grupo de Owen já havia publicado uma pesquisa na revista médica "Lancet" demonstrando a detecção de consciência mínima em pacientes antes classificados como em estado vegetativo.
O estudo foi relatado em reportagem da Folha em novembro de 2011. À época, o neurocientista afirmou que determinar que alguém está em um estado minimamente consciente e não vegetativo permanente pode mudar o prognóstico do paciente, porque as chances de recuperação são maiores para quem está consciente.
LESÃO CEREBRAL
Quem sofre uma lesão cerebral pode ter sua consciência afetada em diferentes níveis. Após um dano que leve ao coma, o paciente pode evoluir para estados como a morte cerebral, sem possibilidade de recuperação, o coma crônico ou vegetativo.
Entre os que ficam vegetativos, parte fica nesse estado em caráter permanente, com poucas chances de recuperação, e parte retém uma consciência mínima.
O trabalho de Adrian Owen tenta identificar essa consciência mínima nos pacientes.
Scott Routley sofreu um acidente de carro há 12 anos, que causou uma lesão cerebral. Seus pais afirmaram à BBC que sempre acharam que o filho tinha alguma consciência e respondia a questões com movimentos dos dedos, mas essa percepção não era aceita pelos médicos.
Os resultados de Routley e de outros pacientes que demonstraram padrões cerebrais condizentes com respostas durante as ressonâncias magnéticas serão tema de um documentário exibido pela rede britânica.
O neurorradiologista Edson Amaro Junior, professor da Faculdade de Medicina da USP e coordenador do Instituto do Cérebro do hospital Albert Einstein, afirma que o trabalho de Owen abre a perspectiva de uma nova linha de pesquisa, mas ainda há muitas perguntas a serem respondidas antes de confirmar os resultados do estudo atual.
Amaro explica que a ressonância magnética funcional detecta mudanças na oxigenação do cérebro que indicam as regiões onde os neurônios estão em atividade.
Para saber se os pacientes estão respondendo ou não, os padrões de imagem são comparados aos de pessoas "normais".
Uma das ressalvas à técnica, segundo o radiologista, é essa comparação, porque justamente a oxigenação do cérebro pode ter mudado com o dano. "A pessoa que sofreu a lesão não tem a mesma resposta vascular. O cérebro está preservado, mas sofreu ruptura de conexões."
Também é difícil saber se o paciente está entendendo as perguntas ou não -porque nem todos têm a audição preservada-, se suas respostas correspondem ao que foi indagado ou se a ordem das questões influencia a forma da resposta.
Amaro diz que uma aplicação importante para a técnica, no futuro, pode ser melhorar o conforto do doente, ao obter respostas sobre o nível de dor, como foi tentado agora. Por outro lado, o exame pode aumentar o nível de ansiedade do paciente, quando ele percebe que pode responder, mas não perguntar.

Dia Mundial - Diabetes mata mais que acidente de trânsito no Brasil


Diabetes mata mais que acidente de trânsito no Brasil
DE SÃO PAULO - Um levantamento divulgado pelo Ministério da Saúde mostra que, em 2010, 54,8 mil pessoas morreram por consequência do diabetes no país. A doença matou mais do que acidentes de trânsito (42 mil) e a Aids (12 mil).
Em 2000, foram 35,2 mil, mortes. Ou seja, a taxa de mortalidade em dez anos cresceu de 20,8 por 100 mil habitantes para 28,7 por 100 mil em 2010.
As mulheres são as maiores vítimas. Em 2010, das 54,8 mil mortes, 30,8 foram de mulheres. Entre as diferentes faixas etárias, a mais atingida é a das pessoas com mais de 80 anos. Entre os idosos dessa idade, o número de mortes dobrou entre 2000 (6,8 mil) e 2010 (15,7 mil). Do total de mortos, 24 mil têm baixa escolaridade.
Em entrevista coletiva, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou a estabilização do número de internações por diabetes (72 mil nos primeiros dos últimos três anos), atribuída à distribuição gratuita de medicamentos pelo programa Saúde Não Tem Preço.
A meta do governo é reduzir em 2% ao ano as mortes prematuras por doenças crônicas, o que incluiu o diabetes e também males cardíacos e câncer.
Além dos dados, o governo divulgou ontem também o lançamento de um site especial para diabetes (autocuidado.saude.gov.br).

    Prisão brasileira é 'medieval' e viola direitos, afirma ministro da Justiça


    Prisão brasileira é 'medieval' e viola direitos, afirma ministro da Justiça
    Em evento em SP, Cardozo diz que preferiria morrer a cumprir pena longa em algumas prisões
    Declaração foi dada um dia após o STF condenar o ex-chefe da Casa Civil José Dirceu a cumprir pena em regime fechado
    Divulgação/CDN
    O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, durante evento ontem em São Paulo
    O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, durante evento ontem em São Paulo

    DE SÃO PAULODE BRASÍLIAO ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, classificou ontem o sistema prisional brasileiro como "medieval" e disse que preferia morrer a cumprir pena por longo tempo em uma prisão do país.
    A afirmação foi feita em um evento com 300 empresários em São Paulo, um dia após o STF (Supremo Tribunal Federal) condenar o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu a 10 anos e 10 meses de prisão em regime fechado por causa do escândalo do mensalão.
    Ele respondia a uma pergunta sobre qual era a sua posição em relação à adoção da pena de morte. "Se fosse para cumprir muitos anos em uma prisão, em algumas prisões nossas, eu preferia morrer", disse durante o evento.
    O ministro afirmou ainda que o sistema penitenciário não consegue ressocializar os detentos. "Quem entra no presídio como um pequeno delinquente, muitas vezes sai como membro de uma organização criminosa para praticar grandes crimes."
    Para ele, o sistema prisional é medieval e violador de direitos humanos. "Ele não possibilita aquilo que é mais importante numa ação penal, que é a reinserção social daquele que foi colocado na situação de privação da sua liberdade", disse Cardozo.
    SUPERLOTAÇÃO
    Dados do próprio Ministério da Justiça mostram que, no ano passado, havia 471 mil presos em todo o país para 295 mil vagas no sistema.
    Todas as 27 unidades da federação têm mais detentos do que comportam e, ano a ano, a situação está piorando. Em 2000, por exemplo, a população carcerária do país era de 232 mil detentos.
    Assim como ocorre com a segurança pública, o sistema penitenciário é de responsabilidade de cada Estado. Porém, uma das funções do ministério dirigido por Cardozo é coordenar as ações nessa área também.
    Para especialistas, uma das razões da superlotação e da consequente afronta aos direitos humanos, conforme disse o ministro, ocorre por causa do elevado número de presos provisórios. Esses são os detentos que não foram julgados e estão em penitenciárias de regime fechado.
    De acordo com o Fórum Brasileiro da Segurança Pública, 37% dos presos do Brasil aguardam julgamento.
    CULTURA DA VIOLÊNCIA
    Durante o mesmo evento, Cardozo criticou a cultura da violência, citando que até nos videogames os vencedores são os que matam mais. Disse ainda que todos os governos têm responsabilidade sobre a segurança pública.

      Coleta de material - Antonio Prata


      ANTONIO PRATA
      Coleta de material
      Imaginei-me chegando ao balcão, depositando o potinho vazio e dizendo: 'Olha, não são vocês, sou eu'
      ÉRAMOS EU, um potinho de plástico e a Bruna Surfistinha -"Se precisar de estímulo, tem umas revistas naquela gaveta" haviam sido as últimas palavras da funcionária do laboratório antes de me abandonar à solidão das quatro paredes beges. Eu estava ali para realizar um espermograma, exame a que, após alguns meses de infrutíferas investidas fecundatórias, resolvi submeter-me -embora "submeter" não seja o verbo mais adequado se pensarmos que a responsabilidade pela "coleta do material" recaía, única e literalmente, em minhas mãos.
      Woody Allen disse certa vez que não deveríamos nos envergonhar da masturbação, afinal, trata-se de sexo com a pessoa que você mais ama. Ok, talvez num domingo chuvoso, no recesso do lar, entre um brownie e um seriado de TV; mas no 11º andar de um edifício na rua Itapeva, constrangido pelo cheiro de álcool, pelo bip das senhas no painel, insistindo em me lembrar das 15 pessoas que, do lado de lá da diáfana porta de fórnica, ops, de fórmica, sabiam muito bem o que eu estava prestes a fazer (discrição claramente não havia sido a prioridade da mocinha ao urrar "Sr. Antonio, espermograma!!!"), a coisa fica um pouco diferente.
      Não sei se foi o cheiro de álcool, as pessoas lá fora, a obrigação de cumprir com o dever, mas assim que tranquei a porta me veio aquela dúvida que um homem jamais deve deixar brotar diante do sexo, seja com uma pessoa, com várias ou com nenhuma: e se eu não conseguir? E se for incapaz de -hum, hum- performar a coleta? Seria a mais humilhante de todas as brochadas, uma inédita brochada solitária, diante da qual eu poderia dizer, sem mentir: isso nunca me aconteceu antes!
      Imaginei-me chegando ao balcão, depositando o potinho vazio -transbordante de fracasso- e dizendo: "Olha, não são vocês, sou eu. Tô um pouco nervoso. Será que não dava pra eu ler umas Caras velhas antes? Tomar um cafezinho? Quem sabe se eu começar por um hemograma básico, sei lá, um colesterol e triglicérides, depois passar pra uma ressonância -aquele escurinho, aquele ronronar...- e só então formos aos finalmentes, hein?".
      Estava prestes a aceitar a derrota quando, do fundo de minha acuada masculinidade, uma voz ecoou. Era a voz de Van Damme, o Grande Dragão Branco: "Retroceder, nunca; render-se, jamais!". Ele estava certo. Eu não podia me deixar vencer pelo medo. Eu fora até ali por uma razão clara: pelo filho que pretendo ter. Para saber se está tudo bem comigo (ou, deveria dizer, com eles?) antes de gastar um ano em malogradas -embora nada sofridas- tentativas. Falhar, naquele instante, não seria um ato de fraqueza, mas de egoísmo: um desrespeito com o futuro, uma afronta à minha missão biológica. E foi este sentimento cívico, este ancestral chamado da natureza que me trouxe de volta a confiança, fez o coração pulsar o sangue em minhas veias e... Bom, vamos parar por aqui. Certas intimidades, melhor ficarem entre as quatro paredes beges, entre mim, o potinho de plástico e a Bruna Surfistinha -que, sem nem suspeitar, no 11º andar da rua Itapeva, no fundo de uma gaveta, vem ajudando a povoar este Brasil varonil. Com licença -e desculpe qualquer coisa.