sábado, 3 de maio de 2014

Sexo e saúde - Carmita Abdo

O Globo 03/05/2014

Vínculos afetivos gratificantes podem preservar a boa condição física e emocional das pessoas e vice-versa

Pesquisas recentes concluíram que a falta
de vínculos afetivos de boa qualidade
compromete a saúde de homens e mulheres,
na mesma medida em que o tabagismo.
O contrário também se verifica: vínculos afetivos
gratificantes podem preservar a boa condição
física e emocional das pessoas.

Para os homens, a união estável faz bem, pois
prolonga a vida deles e a sensação de conforto.
Em contrapartida, com as mulheres não ocorre
o mesmo. Melhor que o vínculo conjugal são as
amizades e a prática regular de exercícios físicos.
Também já foi demonstrado que homens e
mulheres se vinculam com amigos de forma
peculiar, ou seja, enquanto para elas o apoio
mútuo as ajuda a enfrentar situações difíceis do
cotidiano, para eles isso não se observa.

Elas compartilham sentimentos, o que libera
na circulação sanguínea o neurotransmissor serotonina,
provocando tranquilidade e evitando
depressão. Eles, por seu turno, não costumam e
não se sentem confortáveis em falar uns com os
outros a respeito de seus sentimentos. Evitam
que os assuntos descambem para a intimidade.

Mas, quando se trata de vida sexual, as pesquisas
apontam que, sendo prazerosa, ela tem a capacidade
de estimular tanto o cérebro masculino
como o feminino, considerado na atualidade como
o mais importante dos órgãos sexuais.

Sabe-se, e não é de hoje, que o estresse e a depressão
deterioram as células cerebrais. A boa nova é
que o sexo as preserva e até favorece o desenvolvimento
neuronal, diminuindo os níveis de ansiedade.
A ocitocina (substância associada à lactação e ao
vínculo afetivo entre mãe e filho e entre as pessoas
em geral), ao ser liberada na circulação, favorece o
crescimento neuronal e protege o hipocampo contra
o estresse. O hipocampo é a área do cérebro que
responde pela memorização e pelo aprendizado.

A atividade sexual, quando exercida de forma regular,
acelera a neurogênese no hipocampo de ratos.
Portanto, o sexo ajuda a capacidade cognitiva
desses animais. O mesmo pode ocorrer com os humanos.
Para melhor ilustrar essa situação, vale lembrar
que pesquisadores europeus, há pouco mais de
cinco anos, já haviam comparado três grupos de
pessoas em diferentes situações afetivas: os recémapaixonados,
os parceiros de longa data e os sem
parceiros. Entre os apaixonados recentes foram
encontrados os níveis sanguíneos mais elevados
do fator de crescimento neuronal, uma substância
que modula as emoções, a ansiedade e as mudanças
de comportamento, tendo papel na manutenção
de neurônios no sistema nervoso.

Alguns anos depois, americanos estudaram as
áreas cerebrais mais ativadas em casais que continuavam
apaixonados e com vida sexual ativa,
mesmo após duas décadas de relacionamento.
Ressonâncias magnéticas funcionais (exame que
mostra o fluxo sanguíneo no cérebro, detectando
as áreas em atividade) foram realizadas enquanto
esses casais eram convidados a contemplar a projeção
de fotos de amigos recentes ou antigos e dos
respectivos parceiros(as) sexuais.

Diante da imagem do(a) parceiro(a), o exame
mostrou a maior ativação das células do cérebro. As
áreas onde é grande a concentração de dopamina
(neurotransmissor associado à recompensa e à motivação)
foram as mais estimuladas em recém-apaixonados.
Naqueles com relacionamentos longos foi
evidenciada maior ativação também em áreas relacionadas
ao vínculo maternal e à afinidade.

Conhecer estes resultados completa a conhecida
noção de que não há sexo sem boa saúde. Sabe-
se agora que essa é uma via de mão dupla:
também não há saúde sem sexo.

Esperma é criado com célula da pele

O Globo 03/05/2014

Pesquisa com camundongos dá esperança a homens inférteis

FREDERICO GOULART
frederico.goulart@oglobo.com.br
RENATO GRANDELLE
renato.grandelle@oglobo.com

A pele de homens inférteis pode ser
usada para criar espermatozoides. Esta
foi a conclusão de um estudo inédito
publicado na revista “Cell”, que pode
revolucionar os tratamentos de fertilidade
e oferecer esperança para homens
que não podem ter filhos.

É possível obter desses tecidos as
chamadas células-tronco de pluripotência
induzida (iPS, na sigla em inglês)
— aquelas que mais se assemelham
com células-tronco embrionárias em
sua capacidade de se transformar em
qualquer tecido do corpo.

No experimento, as células iPS foram
injetadas em testículos de camundongos,
dando origem a células germinativas,
que são as precursoras do espermatozoide.
Esta é uma iniciativa pioneira na tentativa
de mapear como ocorre o desenvolvimento
do espermatozoide. Se a
técnica for bem-sucedida, será possível
gerar em laboratórios mais gametas e
de melhor qualidade, que poderiam
depois ser levados para clínicas de reprodução.

— Induzimos a formação de espermatozoides
com o transplante de células
humanas no testículo dos camundongos
— explica Cyril Ramathal, autora chefe
do estudo e bióloga da Universidade de
Stanford (EUA). — Uma operação como
essa pode ter grande potencial na área
da medicina reprodutiva.

DIFICULDADES NO TRANSPLANTE

Cinco homens participaram da pesquisa
e tiveram amostras da pele extraídas
para a criação das células iPS.
Três dos voluntários tinham um tipo
de mutação em seu cromossomo Y
que impede completamente a produção
de espermatozoides maduros —
uma condição chamada azoospermia,
que afeta 1% dos homens no mundo.
Os outros dois envolvidos no levantamento
eram férteis.

Segundo a pesquisa, os homens com
a azoospermia podem ter tido células
germinativas em algum momento no
início de suas vidas, mas elas foram
perdidas antes da idade adulta.
A realização do levantamento enfrentou
dificuldades, como as consequências
da introdução das células
iPS nos testículos camundongos, já
que os processos reprodutivos e fisiológicos
dos roedores são diferentes
dos observados nos seres humanos.
Além disso, pode haver uma grande
demora entre etapas importantes da
pesquisa, como o desenvolvimento
das células germinativas.

Ainda assim, os roedores tinham características
que os elegiam como melhores
participantes do novo estudo.
Sabe-se que os camundongos podem
apresentar um tipo de infertilidade semelhante
à vista nos seres humanos —
suas células germinativas desapareciam
rapidamente quando eram recémnascidos.

CONGELAMENTO DOS TECIDOS

Embora mais pesquisas precisem ser
realizadas, a coleta e o congelamento
de tecidos de meninos com mutações
que causariam a azoospermia
pode dar-lhes a opção de ter filhos
mais tarde.

— Essa pesquisa é um passo importante
para que tenhamos, no futuro, uma
terapia com células-tronco para o tratamento
da azoospermia, a mais severa
forma de infertilidade do homem — explica
Michael Eisenberg, professor-assistente
de urologia de Stanford. — Enquanto
o estudo demonstra claramente
a importância que a genética desempenha
na formação do espermatozoide, ele
também sugere que algumas dessas limitações
poderiam ser superadas.

Professor de biologia celular e neurociências
da Universidade de Montana
(EUA), Reijo Pera lembra que a técnica
pode ser importante para a recuperação
da fertilidade de pacientes que passam
por tratamento de determinados
tipos de câncer:

— Há possibilidades intrigantes para
o uso da pesquisa entre homens que se
tornaram inférteis com o tratamento de
câncer — destaca. — A infertilidade é
uma das mais comuns e devastadoras
complicações destas terapias.

Para o especialista em células-tronco
Stevens Rehen, neurocientista da UFRJ
e do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino,
o transplante realizado pela equipe
americana pode trazer inovações ainda
mais polêmicas.

— Um homem infértil poderia receber
a célula germinativa de outro homem
e, assim, amadurecer o seu próprio
espermatozoide. Seria o “homem
de aluguel” — avalia. — É claro que
uma criação como esta levantaria um
amplo debate ético.

As equipes de Stanford e Montana
querem em breve estender os transplantes
aos primatas não humanos.

— Antes, porém, precisamos considerar
novas técnicas de segurança e
potenciais causadoras de tumor nas células
transplantadas. Vamos avaliar estes
fatores antes das novas aplicações.
Os problemas de fertilidade afetam
de 10 as 15% dos casais. Em 30% dos casos,
o fator masculino está por trás dessa
incapacidade de ter filhos. Já existem
alguns tratamentos para melhorar a
qualidade e a quantidade de sêmen.

O gaguejar de Eliane - José Castello

O Globo - 03/05/2014

A ESCRITA DE MEMÓRIAS, COMO EM “MEUS DESACONTECIMENTOS”, FUNCIONA COMO UMA COLA QUE VEM REMENDAR O QUE SE ESFARELAVA

A escrita de Eliane Brum teve vários nascimentos. No primeiro, o parto envolveu dolorosas histórias de família. Antes dela, os pais perderam uma menina. “A morte é um mundo sem palavras. E é curioso que minha primeira lembrança seja a morte. Como se eu tivesse nascido morta”. Só pela perda de Maninha, ela imagina, a mãe decidiu engravidar de novo — e ela, Eliane, teve a chance de nascer. “Se alguém espiasse meus pensamentos, saberia que eu sentia um alívio culpado pela morte da outra. Intuía que, se ela não tivesse morrido, eu não teria nascido”. As primeiras palavras gaguejadas pela menina surgiram, assim, dessa morte anterior. Experiência fundadora que Eliane Brum, hoje escritora consagrada, relata no comovente “Meus desacontecimentos — A história da minha vida com as palavras” (LeYa).


No segundo nascimento, aos três ou quatro anos de idade, ela apanhou pela única vez do pai, que não suportou que a menina destruísse, com uma tesoura, o rascunho de um discurso. Os pedaços não puderam ser colados e nem lidos. Os gritos da garota foram ouvidos de longe. “Talvez esse tenha sido o momento em que me tornei escritora”. A escrita nascendo das palavras despedaçadas do outro. Aos poucos, aprendeu que “nossa vida é nossa primeira ficção”. Lembranças não são fatos, mas restos retrabalhados. A memória não é o que aconteceu, mas algo que se faz do que aconteceu.


No terceiro nascimento, era um dia vazio e desesperador. “Foi num domingo que eu escrevi pela primeira vez para não morrer”. A tristeza a empurrava para o vidro da janela. Para resistir ao impulso, pegou caneta e papel e começou a rabiscar um poema. “Era uma poesia ruim, rebuscada como os livros que eu andava lendo, mas meu pai gostou”. Até ali, percebia o mundo “como uma noite sem fim nem começo”. Mal podia se acomodar no próprio corpo, sempre devastado por vírus, bactérias e reações alérgicas. Ao arriscar- se na poesia, Eliane encontrou, porém, um segundo corpo. “A palavra escrita me encaixou em um corpo onde eu podia viver. O corpo-letra”. A escritora nasceu outra vez.


A palavra escrita lhe deu a possibilidade de transcender a realidade, encontrando um refúgio no qual ela pode se fortalecer. Esse segundo corpo, de letras, é um corpo indestrutível. “Vivo tudo no corpo. Às vezes me pergunto o que aconteceria comigo se não existisse a palavra escrita. Eu respondo: teria me assassinado”. Logo depois ressalva: “É uma resposta dramática, e eu sou dramática”. Nada que se escreve pode ser apagado. Esse é o grande risco que a palavra envolve: ela não se revoga, mesmo quando é negada fica como cicatriz. Fica uma marca, que designa uma existência. “Toda história contada é um corpo que pode existir. É uma apropriação de si pela letra-marca de sua passagem pelo mundo”. Foram muitos os momentos de nascimento da palavra, como um estojo protetor em que a existência se aloja.


Até os cinco anos de idade viveu em um apartamento muito escuro, em Ijuí, noroeste do Rio Grande do Sul, um lar que detestava. “Tudo para mim era muito mortífero, tudo era quase morrer”. Ainda sem o abrigo das palavras, e com a ausência da irmã que partiu precocemente, a infância se tornou uma experiência letal. Na maturidade, aprendeu que a escrita se encarna no corpo físico. A cada novo livro, um corpo antigo precisa morrer para que outro, com novas inscrições e novas marcas, possa surgir. A escrita é sempre uma tentativa de remendar aquilo que não tem conserto. Quando nasceu, a lenda familiar conta que o pai, cheio de fúria, quebrou um vaso do hospital. “Por muitos anos, fui esse vaso quebrado, até me surpreender um dia pensando em mim sem se como cacos de mim”. A escrita de memórias, como agora em “Meus desacontecimentos”, funciona como uma cola que vem remendar aquilo que se esfarelava.


A morte precoce da irmã lhe deu uma biografia — uma bio que lhe permitiu nascer. “Eu agora lhe dou uma grafia. Aqui consumamos nossa fusão, mas também a separação definitiva”. Além de uma espécie de renascimento da irmã morta, seu novo livro é uma afirmação da existência não só da escritora, mas também da mulher. Pequena, ouvia da avó, com muito espanto, as histórias de Pedro Malasartes, “esse matuto cheio de lábia de um Brasil ingênuo, mas também brutal”. Ao fim dos relatos, afirmando ter esquecido o que ouviu, mentindo, pedia que a avó contasse outra vez. A repetição era uma espécie de alimento que a conservava viva. A avó gostava de contar, ainda, supostas histórias de seus antepassados. “Não sei o quanto é verdade, o quanto é lenda. Não acho que faça alguma diferença para aquela velhinha em forma de bibelô”. Mais uma vez: é através da ficção — da mentira — que a realidade toma corpo e ganha o status de verdade. Verdade, portanto, que carrega a marca original da invenção.


A palavra escrita é potente, mas é perigosa. “As cartas de amor de minha avó provam que não há reparação para a palavra escrita”. Os erros, marcados a sangue no corpo da história, não se corrigem. Eliane pensa aqui em sua própria vida de repórter consagrada. “Eu sempre soube que, se errasse — e algumas vezes errei — não haveria maneira de reparar”. Para vingar o pai, humilhado pelo prefeito da cidade, a pequena Eliane planejou, um dia, o incêndio da prefeitura. Chegou a tentar: os fósforos quebraram em suas mãos. O projeto incendiário fracassou. Perigo das palavras: mesmo quando só pronunciadas, não há vingança que desfaça sua força. Transformou seu furor incendiário em combustível para a carreira jornalística. “Percebo que escrever me salvou de tantas maneiras e também desta”.


Até mesmo a leitura pode ser uma espécie de maldição. Algo que não mais se apaga. Por isso, em suas andanças de repórter, Eliane se comoveu com os homens que lhe disseram: “Sou cego das letras”. Medita: “Era como expressavam, em voz sentida, sua condição de analfabeto”. Se pode ser uma espécie de praga, a palavra nunca deixa de ser uma luz sem a qual só subsistem o antes e o depois da escuridão. Estamos eternamente a gaguejar, nunca chegamos às palavras certas, mas sem elas não existimos.

João Paulo - Professor de dengo‏

Professor de dengo
 
Centenário de Dorival Caymmi destaca a importância da obra do compositor para a cultura brasileira


João Paulo
Estado de Minas: 03/05/2014


Caymmi em praia da Bahia: um cenário certo para uma música universal (Acervo EM)
Caymmi em praia da Bahia: um cenário certo para uma música universal

O Brasil celebrou esta semana o centenário de Dorival Caymmi. O baiano passou a vida celebrando o Brasil. De poucos artistas pode-se dizer que há uma divisão entre o antes e depois na vida de uma nação. Foi assim com Caymmi e, o que é mais impressionante, sem que ele fizesse esforço para isso. Sua obra é uma consagração da gratuidade e gentileza: nasceu inteira com ele para nos tornar mais felizes.

A arte de Caymmi é feita de muitos encantos. Talvez o maior deles seja a relação com o tempo. Ele não tinha pressa e ensinou outra dimensão de relacionamento com a história. Enquanto muitos buscam o excesso e a rapidez, como se a arte repetisse as demandas do mundo da produção, o compositor esperava que a canção se completasse por si mesma. Caymmi compôs apenas 101 canções em mais de 70 anos de trabalho. Não precisou de nenhuma a mais ou a menos para ter uma obra completa.

É comum ouvir de estudiosos e admiradores que as músicas de Caymmi parecem obras do povo, uma espécie de domínio público antecipado, como se ele apenas revelasse algo que habita o inconsciente coletivo dos brasileiros. No entanto, a grande força de sua criação é exatamente dar ares de simplicidade a algo construído com grande engenho e inteligência estética. Na música e na letra.

Dorival era um homem culto e capaz da mais difícil das artes: juntar leveza e sofisticação. Na verdade, o algoritmo que explica suas canções é feito exatamente deste aparente paradoxo: quanto mais simples, mais elementos se juntavam para dar à luz a expressão de seu engenho. Não há nada mais simples que a perfeição. No campo musical, seus conhecimentos iam da obra de Bach ao jazz de Gershwin. Tinha um talento especial para a música modal (que vinha dos cantos do candomblé) e uma coragem natural em propor harmonias dissonantes, vindas antes da música impressionista que da bossa nova – que veio depois e deve muito a ele.

A poesia da canção também é devedora do baiano. Se Noel Rosa é o criador da dicção urbana, com letras diretas e coloquiais, pode-se creditar a Dorival uma contribuição que, além de técnica – sobretudo com as canções praieiras – é também ética. Noel, mesmo popular e suburbano, tinha seus preconceitos com as religiões africanas e deixa entrever certo racismo que fazia parte da cultura da época – chega a zombar de um despacho e se orgulha de morar no bairro com nome da princesa Isabel. Em Dorival, o cenário da Bahia aponta outra luz.

Caymmi é solar. O antropólogo Antonio Risério chega a dizer que o baiano é talássico, que o mar circunda sua obra por dentro e por fora. Dá motivo para os versos e embala o ritmo das melodias. A natureza praieira do Rio é relativamente recente. Na Cidade da Bahia, ela se perde no tempo. Quando a bossa viu passar a garota de Ipanema, Salvador já seguia há séculos o balanço das moças a caminho do mar. A própria relação de Dorival Caymmi com a bossa nova é mais importante do que se imagina.

João Gilberto, o criador da bossa ao lado de Tom Jobim, foi responsável pelo que se pode chamar “jeito bossa nova” de cantar. Assim, mais que um gênero, tratava-se de um estilo. Tudo podia ser BN, desde que tocado por João. No entanto, o cantor não precisava alterar em nada as canções de Dorival para aproximá-las de sua maneira de tocar e cantar. A bossa estava nelas, antes mesmo de ser inventada.

Em uma de suas raras entrevistas, João fez questão de reconhecer a inteligência rítmica e harmônica de Rosa morena, de Caymmi, em sua capacidade de mudar os acentos e valorizar a poesia com sua naturalidade. Dorival, que não era bom só de música, mas sabia ser agradável e tinhoso, agradeceu com picardia: “Sem querer bancar o sabichão, que eu não sou, são aquelas esperas de Rosa que ele (João Gilberto) deixa a zona vazia para poder colocar o molho. Dá para fazer 20 rotações de bunda nesse pedaço vazio. João Gilberto é um ourives do espaço vazio”. Tente definição melhor para a bossa nova.

Na praia As canções de Caymmi não foram poucas, foram exatas. E também múltiplas. A primeira face é a do compositor dos sambas praieiros, sincopados e buliçosos. O estilo que marcaria seu primeiro disco, ainda nos anos 1950, se tornou um gênero na avaliação do folclorista Luís da Câmara Cascudo. O disco, Canções praieiras, já apresentava um artista dono de composições como Quem vem pra beira do mar, O mar, O bem do mar, Pescaria, É doce morrer no mar, A jangada voltou só, Lenda do Abaeté e Saudade de Itapoã. Possivelmente, é o disco de estreia da MPB com o maior número de obras-primas irretocáveis e definitivas, que, 60 anos depois, continuam vivas e presentes no repertório.

Dorival seguiria em outras vertentes, como a do samba-canção, que ajudou a consolidar com músicas como Só louco, Não tem solução, Nem eu e Marina. O estilo, que se casava com um imaginário em tudo distante das canções solares, era feito para o clima das boates do Rio de Janeiro, para onde o compositor se mudou. No entanto, mesmo com a ambiência urbana e certo ar de bolero, Dorival imprime no samba-canção um jeito mais intimista, menos vitimizador e, sobretudo, menos machista. O homem que gostava de mulheres parece que desejava que elas fossem felizes, mesmo que para isso eles precisassem confessar que eram loucos e tinham corações insensatos.

Outro campo de criação de Dorival foram os retratos de mulher, como destaca Francisco Bosco em seu livro sobre Caymmi. Sensual no jeito de cantar e olhar, Dorival parece sempre seguir na imaginação o andar de uma mulher (“a vizinha quando passa”, “Dora pra lá, Dora pra cá”). Ele sabe, e ensinou a todo mundo, que é dengo que a nega tem. Há uma certa malemolência que esvazia o caráter propriamente erótico do samba carioca ou do sofrimento do samba-canção à la Lupicínio Rodrigues. As demandas da sensualidade são menos pesadas e talvez por isso mais prazerosas. Gente como Marina, Dora, Doralice e Rosa fazem parte de nossa memória de dengos.

Além disso, a feminilidade do samba baiano está também na incorporação da religiosidade, de um certo senso de mistério da vida. Como definiu Antônio Risério em seu livro Caymmi, uma utopia de lugar, “o misticismo baiano não tira o chão de ninguém”. E é essa imanência, essa força grudada na vida, que caracteriza bem o lado feminino das músicas do compositor. E tem mais: as mulheres de Caymmi são alegres e trazem felicidade. O compositor gostava muito das mulheres a ponto de fazer um tipo de samba especialmente para elas. Algo que, na falta de nome melhor, Aldir Blanc chamou de “samba Caymmi”.

Personagem Autor popularíssimo, destes que todos sabem de cor, Dorival Caymmi foi também compositor de compositores. Homenagem afetiva tocante, Caymmi se tornou personagem da história da música brasileira, habitando canções de colegas. É o caso de Paratodos, de Chico Buarque: “Contra fel, moléstia, crime, use Dorival Caymmi”; ou Toquinho e Vinicius em Tarde em Itapoã: “Depois na praça Caymmi, sentir preguiça no corpo”. Ou ainda na bela celebração de João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio, em Nação: “Dorival Caymmi falou pra Oxum, com Silas estou em boa companhia, o céu abraça a terra, deságua o Rio na Bahia”. E, também, em dois sambas de Gilberto Gil, Buda nagô: “Dorival é um Buda nagô, filho da casa real da inspiração. Como príncipe, principiou a nova idade de ouro da canção”; e na recente Gilbertos: “Foi Dorival Caymmi quem nos deu a noção da canção como um liceu”.

Dorival atravessou o século 20 brasileiro, com suas mudanças políticas e sociais. É possível que, além de afetado pela roda da história, ele tenha ajudado a dar a dimensão de nosso processo civilizatório. O compositor nos ensinou a valorizar a cultura popular (sem nunca ter sido etnomusicólogo, mas um criador de novos universos a partir da tradição), a respeitar as mulheres (com sua saudável e sensual relação com as personagens de suas canções), e a dar à música urbana brasileira uma dimensão de modernidade que depois seria resgatada pela bossa nova.

Mas sua relação com a Bahia e o mar talvez sejam as mais expressivas marcas de sua vida e de nossa incompetência em preservar as belezas que ele nomeou e musicou. Não se sabe se a Bahia está viva ainda lá, em meio ao artificialismo do turismo e da cultura para inglês ver; nem se o mar quando quebra na praia ainda é bonito, no monturo da poluição e da especulação imobiliária. Dorival, como se vê, não é referência do que passou, mas do que nos cabe fazer para continuar a merecer suas canções.