"Brejo da Cruz" foi a escolha do jornalista e crítico literário Oscar
Pilagallo, autor do livro "Roberto Carlos". Seu critério é particular:
uma música que fosse só dele, tivesse tema social - "em que ele se
destaca, apesar de cantar tão bem o amor e ser craque na crônica" -,
transbordasse lirismo, outra característica de Chico, e fizesse um
casamento feliz de letra e melodia. "Brejo da Cruz" é a última de um
espécie de trilogia dedicada a crianças de rua. As outras duas são
"Pivete" e "O Meu Guri". "É o melhor retrato da indiferença da sociedade
ao infortúnio da criançada 'alucinada' que 'se alimenta de luz'."
Crítico musical e autor do blog Quinta Essência, sobre discos pouco
comentados ou esquecidos de MPB, Marcelo Pinheiro aponta como sua canção
predileta uma dessas que ocupam espaço cativo na memória afetiva.
Trata-se de "João e Maria", interpretada por Chico e Nara Leão, em disco
da cantora de 1977. "Essa valsinha fez muito sucesso durante minha
infância. À melodia engavetada por décadas, composta por Sivuca, em
1947, Chico acrescentou letra repleta de imagens oníricas e lúdicas, que
até hoje me remetem aos dias mágicos de quando eu era criança."
Menos famosa foi a apontada como melhor por Ricardo Cravo Albin,
enciclopedista musical, produtor e fundador do Museu da Imagem e do Som
(MIS) do Rio. "'Rancho dos Mascarados' pode não ser a melhor, mas a que
mais me impressionou na primeira fase de Chico como compositor. Não sei
bem porque a escolho, sei apenas que em cada momento de felicidade que
vivi nessas últimas quase cinco décadas da música, eu simplesmente
começo a cantarolá-la." Importante historiador musical e crítico, antes
de se tornar repórter do programa "Fantástico", Maurício Kubrusly
prefere o lado político de Chico. Escolheu duas canções marcantes como
símbolos de resistência à ditadura: "Apesar de Você" e "Vai Passar".
"Ambas acenam com o fim da ditadura militar que amordaçou o Brasil
durante tanto tempo e fizeram parte da nossa história."
A maioria das respostas da enquete, que consultou 40 pessoas, veio
acompanhada de ressalvas e explicações das mais divertidas e aceitáveis,
antes de aparecer o título e a justificativa da escolha - ou não.
Alguns preferiram não votar. O diretor artístico da Orquestra Sinfônica
de São Paulo (Osesp), compositor, violonista, crítico literário e
musical, escritor e editor Arthur Nestrovsk, por exemplo, pediu
desculpas e não arriscou. "Com toda sinceridade, acho impossível atender
seu pedido. Não existe 'a' melhor." Houve quem brincasse que se alguém
pedisse para fazer uma lista das dez melhores de Chico, acabaria
apontando 40 e, por fim, entregaria 60 indicações. Foi o que disse o
compositor, biógrafo e produtor Hermínio Bello de Carvalho. Além de ter
dirigido shows de Chico, os dois compuseram "Chão de Esmeraldas", faixa
que abre o disco "Chico Buarque de Mangueira" (1997). Sua escolha foi
"Eu Te Amo" como a melhor. "Chico tem tantas composições geniais, mas
essa me diz muito pessoalmente. Além disso, como letrista, ele é
perfeito nessa canção. É a que eu gostaria de ter feito. Pode não ser a
melhor para alguns, mas para mim é."
O jornalista, escritor e biógrafo Ruy Castro preferiu se abster de
votar, em virtude do posicionamento de Chico contra as biografias não
autorizadas, ao defender o direito dos artistas de preservar sua vida
pessoal. "Já fui da opinião de que, se se fizesse uma lista dos cem
melhores sambas de todos os tempos, Chico Buarque apareceria com pelo
menos 10 ou 15. Mas depois da vergonhosa atuação dele no caso das
biografias, resolvi dar um tempo na minha apreciação por sua obra", diz.
Enquanto isso, Maria Bethânia afirma, entusiasmada: "Rosa dos Ventos".
"Para mim, é a mais importante, mais bonita e inesquecível. Título do
espetáculo criado por Fauzi Arap e Flávio Império para mim. Uma música
épica, forte, brasileira. Chico é o máximo."
Filho de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) - um dos intelectuais
mais importantes do país e autor do clássico "Raízes do Brasil" -, Chico
Buarque cresceu lendo autores franceses, russos e alemães, em um
ambiente intelectual e musical privilegiado. Ao mesmo tempo, amava os
sambas de Noel Rosa, Dorival Caymmi, Ataulfo Alves, Ismael Silva, Nelson
Cavaquinho e muitos outros que ouvia no rádio ou na vitrola de sua
casa. Mais tarde, passou a imitar, ao violão, João Gilberto e Tom Jobim,
ídolos de adolescência.
O marco zero de sua carreira como compositor começou há 50 anos, ao
compor "Tem Mais Samba". Em 1965, gravou o primeiro compacto, aos 21
anos, com as faixas "Pedro Pedreiro" e "Um Sonho de Carnaval". No ano
seguinte, veio a consagração: "A Banda" passou a ser cantada em todo
país e dividiu com "Disparada", de Geraldo Vandré, o primeiro lugar no
Festival da Record. "Viva a música, o sopro de amor que a música e banda
vêm trazendo, Chico Buarque de Hollanda à frente, e que restaura em nós
hipotecados palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas,
compensando a confiança perdida nos homens e em suas promessas",
escreveu Carlos Drummond de Andrade, no "Correio da Manhã", em 1966.
A canção em ritmo de marcha cantada por Nara Leão foi o suficiente
para o fundador do Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio, Ricardo Cravo
Albin, dobrar o conselho da instituição a colher um depoimento dele para
a posteridade, aos 22 anos - um documento de valor inestimável para a
história. "Tive de convencer pesos pesados, pois eles achavam um absurdo
convidar alguém tão jovem, sem histórico musical relevante, enquanto
outros nomes importantes ainda vivos não tinham sido ainda ouvidos por
nós", diz Albin.
Ele conta que usou um argumento "velhaco e verdadeiro", porém
necessário, movido por sua intuição e empolgação. "Lembrei que Noel Rosa
tinha morrido com apenas 27 anos, em 1937, depois de levar uma vida
desregrada, com muita bebida e cigarro, e que pouco havia de registro
sobre sua vida. E que o mesmo poderia acontecer com Chico, que tinha uma
rotina de boemia semelhante. Insisti que não podíamos perder a chance
de um registro histórico urgente. Claro que não era assim, que exagerei,
mas eu estava entusiasmado, tinha uma admiração imediata pela sua
pequena obra, que me comoveu profundamente."
No mesmo ano de 1966, o cantor lançou o primeiro álbum: "Chico
Buarque de Hollanda". Além de "A Banda", o disco traz outros clássicos,
"A Rita", "Pedro Pedreiro" e "Olé, Olá". Na volta do exílio voluntário
de 15 meses na Itália, iniciado em 1969, quando "comeu a pizza que o
Diabo amassou", segundo Nelson Motta, Chico voltou transformado. Fez o
compacto simples que trazia as faixas "Apesar de Você" e "Desalento",
esta em parceria com Vinicius de Moraes.
O disco de nº 365.315, da Philips, foi recolhido por ordem da
censura, depois de vender 100 mil cópias em apenas três semanas. "Hoje
você é quem manda, falou tá falado, não tem discussão", diz a letra de
"Apesar de Você", que deveria fazer parte das faixas de "Construção"
(1971). Com sofisticada combinação de rebeldia e lirismo, o disco é,
para muitos, sua obra-prima, com canções inovadoras, marcadas pela
ironia de um compositor maduro, que rompia com a imagem de bom moço.
Ao voltar do exílio, Chico parecia cansado de ser tratado como
discípulo ou uma espécie de "Noel Rosa contemporâneo". A faixa-título -
eleita sua melhor composição, segundo enquete publicada nesta edição -
descrevia a existência ignorada e a morte trágica de um operário, homem
simples que vivia à margem da euforia econômica artificial da ditadura,
em uma letra poderosa, cantada como faziam os velhos menestréis da Idade
Média ou os autores de cordéis nordestinos. Só que com altíssima
sofisticação poética. O arranjo fabuloso, do maestro tropicalista
Rogério Duprat, deu a forma acabada de um marco da MPB.
Chico voltou a criticar o regime com "Cálice", cantada com Milton
Nascimento, com letra de confronto político, cheia de trocadilhos contra
a censura e que foi vetada em 1973. "Meus Caros Amigos" (1976)
tornou-se uma coleção de hits. Além das censuradas "Apesar de Você" e
Cálice", trazia a segunda colocada na enquete do
Valor "O que Será", mais "Mulheres de Atenas", "Olhos nos Olhos", "Vai Trabalhar, Vagabundo" e "Meu Caro Amigo".
A mensagem de "O que Será" foi entendida como senha para o
engajamento na luta pela democracia. Chico daria ainda o tiro de
misericórdia na ditadura, ao compor um tipo de hino da missa de sétimo
dia do regime, enquanto este ainda não tinha baixado a sepultura, com
"Vai Passar" (1984), samba acelerado e contagiante que varreu o país de
uma euforia incontida quando se lutava pelas eleições diretas para
presidente da República.
Chico Buarque continuou a fazer grandes discos, como "Paratodos"
(1993), enquanto iniciava uma bem-sucedida carreira de escritor de
romances (leia texto na pág. 14). A essa altura, construíra a trilha
sonora de duas gerações, cujas existências seriam relembradas por suas
canções eternamente. No ano passado, porém, criou um ruído em sua
imagem: foi apontado de ser a favor da "censura", ao se manifestar
contra as biografias não autorizadas e defender o direito dos artistas
de preservar sua vida pessoal.
Cronista das imperfeições da vida
Por José Castello
Uma marca - uma ferida - se derrama sobre toda a literatura de Chico
Buarque: a instabilidade. Nada é garantido. A insegurança predomina. A
falta de solidez interior e o mascaramento definem os personagens. São
seres volúveis, que atravessam a vida como podem, arrastando consigo
suas dúvidas e suas perguntas. Não há um solo, mas um pântano. Basta
lembrar o que ocorre com Eulálio Montenegro d'Assumpção, o personagem
central de "Leite Derramado", romance de 2009. Enquanto agoniza em um
leito de hospital, ele tenta reconstituir sua história de vida - que se
mistura à história da República brasileira - ditando-a para alguém que
tanto pode ser sua filha, Maria Eulália, sua ex-mulher Matilde, ou uma
enfermeira. Alguém que é só uma máscara. Não é certo sequer que ele dite
a história, talvez apenas delire. Claudicando, derrapando em
incertezas, mas maravilhados, nós a lemos.
Nesses relatos quebrados, com idas e vindas, cortes, deslizes, em que
predominam não a visibilidade, mas a cegueira, o personagem se
constrói. Nada mais temos que pedaços de uma vida, ou vislumbres, partes
que nem sempre se conectam e se completam - exatamente, aliás, como
acontece na vida de qualquer um. A vida não é perfeita e Chico Buarque
faz da imperfeição um dos elementos cruciais de sua escrita.
Eulálio dita suas memórias, ou imagina que as dita? Até que ponto
devemos confiar nas lembranças de um homem que, agonizando, em vez de
ganhar corpo, se fragmenta? A memória é uma armadilha, feita de lapsos,
deslizes, furos. É, porém, tudo o que Eulálio tem - e é, de certo modo
muito doloroso, também tudo o que temos. A agonia do personagem de Chico
não é uma agonia de morte, mas de vida. Sustentando seu relato, está o
sonho de sair do hospital, de se casar e morar numa fazenda. Os sonhos
são a cola que confere alguma densidade às lembranças. Pois, na medida
em que é incoerente, a memória destrói a história, em vez de
construí-la. Tanto que, quanto mais Eulálio recorda, mais perdido ele
está e mais capenga é sua narrativa. A figura da mulher Matilde,
fugidia, e da filha, que teria sido encontrada no lixo, acentuam esse
derramamento. Nada se sustenta. No fundo, o relato de Eulálio é só uma
forma de preencher o tempo. Talvez esse seja o papel da literatura:
desenrolar narrativas sobre o tempo para que ele se torne mais aceitável
e nos forneça a ilusão de um sentido.
Chico Buarque é um escritor que consegue manejar com firmeza a falta
de consistência e as ambiguidades que caracterizam a vida contemporânea.
Não tem medo dos aspectos dúbios, dos paradoxos, das situações
incompletas; ao contrário, dessa complexidade ele retira a força de seus
relatos. É o que acontece em um romance como "Estorvo", de 1999, uma
sucessão de fatos enigmáticos distantes de qualquer ilusão de coerência.
O que define o homem não é a coerência, mas a incoerência; a literatura
de Chico apenas cede a essa incômoda verdade. Através do olho mágico de
sua porta, o protagonista de "Estorvo" vê um desconhecido. Pode ser que
já tenha visto aquele rosto. Das feições indefinidas e da experiência
do desconhecimento surge uma aventura que nos é oferecida como uma
narrativa. O protagonista de romance habita um limite no qual sonho e
realidade não se separam. Ele vive desse cruzamento. Precisa suportá-lo.
Ele é a própria condição de sua existência. A mistura é o que o impede
de avançar - estorvo, isto é, obstáculo -, mas é também o que o faz
avançar. É no escuro, saltando obstáculos e adversidades, que vivemos.
Os personagens de Chico Buarque têm diante de si, sempre, uma série
de desafios intransponíveis. E é porque não podem ser transpostos que
eles conferem à vida uma impressão de estabilidade. De paralisia, que se
mantém como regra, como destino que devemos aceitar. Paralisia
instável, como se caminhássemos (afundássemos) em uma planície inundada.
Também o "ghostwriter" José Costa, do romance "Budapeste", de 2003,
habita a corda bamba. O caráter duplo de sua vida de escritor por
encomenda já é um sinal da volubilidade em que está retido. Na Hungria,
ele se transforma em Zsoze Kósta, uma espécie de falsificação da
falsificação. Quem é ele, afinal? Eis uma pergunta que Chico nos oferece
com grande resignação, já que nem ele mesmo, provavelmente, sabe
respondê-la. A realidade é flúida, não é digna de confiança. É
imperfeita e mutável, nada é garantido - e isso já começa em nossa vida
pessoal, como Kósta nos mostra. Chico coloca em questão a solidez e
retidão dos personagens realistas que quase sempre deram a marca da
literatura brasileira. Em seus romances, o leitor não está pisando na
seca de Graciliano, ou no mundo colorido de Jorge Amado, ou no pampa de
Erico Veríssimo - ele nunca sabe onde está pisando. E, em consequência,
nunca sabe onde está também.
As perguntas são muito mais frequentes que as respostas. As dúvidas,
muito mais comuns que as afirmações. Chico Buarque nos introduz em um
mundo no qual nada tem lugar e nome certo. Seus personagens são
estrangeiros em um mundo que pisam pela primeira vez. Seus personagens
são estrangeiros em um mundo que pisam pela primeira vez. Estão exilados
daquelas qualidades - caráter, certezas, nome - que caracterizam o
humano. No entanto, e paradoxalmente, essas oscilações são a marca mais
fundamental do homem contemporâneo. Todos nos multiplicamos e nos
dividimos para viver. Nesse aspecto, a literatura de Chico sincroniza
com a vida atual, ela também pulverizada e indecifrável.
Já em "Benjamin", romance de 1995, o protagonista, Benjamin Zambraia,
se encontra preso na rede de suas próprias obsessões. Nada em sua
existência é muito nítido - e ele descobre que o mundo tem a estrutura
de um pesadelo. Tem a impressão de que sua vida é filmada - e que ele
não passa de um personagem de si mesmo. Essa duplicação confere ao
mundo, mais uma vez, uma grande fragilidade. Se a vida é um filme, onde
fica a realidade? Como qualificar de real uma experiência que se
dissolve nas sombras e que se disfarça? Em vez de ser acolhedora e digna
de confiança, a realidade se mascara - sintoma de nossa época de nomes
falsos, de identidades flúidas e de mascarados - e se torna um obstáculo
à própria existência. Em quem se pode confiar? Como sustentar a
confiança em si mesmo? Sinais do mundo contemporâneo se espalham por
toda a obra de Chico Buarque, que, com o avançar do tempo, se torna cada
vez mais atual. Ela sincroniza com o mundo líquido que nos cabe viver,
sem garantias, sem convicções seguras, sem certezas. Um mundo em que
tudo pode ser tudo. Um mundo de que só a literatura, poderoso
instrumento de desmascarar o real, consegue dar conta.