quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O mestre - Walter Sebastião‏

Documentário mostra como Bezerra da Silva reuniu precioso repertório de clássicos que retratam o Brasil sob o olhar da periferia. Ele deu voz a um time de bambas da favela 


Walter Sebastião
ESTADO DE MINAS : 01/11/2012 


Documentário mostra como Bezerra da Silva reuniu precioso repertório de clássicos que retratam o Brasil sob o olhar da periferia

Onde a coruja dorme, documentário sobre o pernambucano Bezerra da Silva (1927-2005), será lançado amanhã. Não se trata de cinebiografia, mas de uma espécie de retrato artístico pintado coletivamente pelo próprio Bezerra e por criadores dos sambas que ele gravou. Gente como Tião Miranda, que trabalha com refrigeração; o bombeiro Pedro Botina, que ganha a vida removendo cadáveres; o carteiro Claudinho Inspiração; o camelô Popular P; 1.000tinho (sic); Walmir da Purificação; Roxinho; Adelzonilton e Nilo Dias. Essa turma compôs sucessos como Malandragem dá um tempo (“vou apertar/ mas não vou acender agora”), Candidato caô caô e Minha sogra parece sapatão.

 “As pessoas vão conhecer os compositores que fazem a glória da música de Bezerra da Silva”, afirma Simplício Neto, que dirigiu o filme em parceria com Márcia Derraik. O repertório genial veio de artistas anônimos – alguns nem são músicos profissionais. Muitas pérolas nasceram do batuque em caixa de fósforos ou em balcões de bar. “São visões da vida do brasileiro com a linguagem do samba, do humor e do protesto. Trazem o olhar das classes populares, da Baixada Fluminense e da periferia sobre temas muito atuais, como corrupção política, liberação das drogas e arrecadação de direitos autorais”, explica o diretor.

Bezerra da Silva teve o papel fundamental de trazer à luz essa produção. Até então, ressalta Simplício Neto, as comunidades não eram ouvidas sobre esses temas. A opção de filmar um “retrato coletivo” veio da constatação de que se ignorava quem, realmente, fez a cabeça de Bezerra da Silva.

Bezerra atuou quase como etnólogo e antropólogo: recolheu as canções de seus amigos, transcreveu-as e identificou seus autores. “Ele é um pouco curador”, resume Simplício. “Com gravador debaixo do braço, ele andou pelas comunidades, foi a lugares onde a coruja dorme, como dizem os músicos, procurando canções e autores. Esse material poderia ficar anônimo para sempre, virar folclore”, observa. O cineasta lembra que o pernambucano deixou obra inteligente, feita com talento, perspicácia e sensibilidade. “Ele era muito honesto. Inclusive, cuidou dos direitos autorais dos compositores”, elogia. O cineasta compara a ação de Bezerra da Silva à de Mário de Andrade como pesquisador e divulgador da cultura brasileira.

Onde a coruja dorme teve como ponto de partida o curta homônimo, lançado em 2001 e assinado pelos mesmos diretores, recém-formados em cinema. Quando apresentaram a ideia a Bezerra, ele reagiu rispidamente: “Elogio não enche barriga, é preciso dinheiro para filmar”. Mas apoiou o projeto quando soube que o documentário traria os compositores que ele gravou. Prêmios em editais de estímulo ao cinema permitiram a finalização e a distribuição do longa.

“Bezerra da Silva é respeitado pelo pessoal do rock e do hip-hop, que vê nele o samba contemporâneo, mas suas músicas ainda são raras nas rodas de samba. É preciso reconhecer o papel importante dele. Bezerra fez o partido-alto da Baixada”, defende Simplício Neto. “Falta a intelectualidade e a academia abrirem os olhos para essa arte. Os sambas de Bezerra devem voltar ao povo, de onde eles vieram”, completa.

 Em 1990, Bezerra da Silva veio a BH lançar o disco Eu não sou santo. Em entrevista ao Estado de Minas, explicou que suas canções eram retratos do cotidiano da favela. O cantor negou ser o inventor do estilo, recusou o rótulo de “sambandido” e criticou o pagode: “Isso não é gênero de música. Pagode é templo de povo asiático. E coisa de quem quer desmoralizar a profissão dos outros”.

Ele é o cara
Bezerra da Silva vendeu milhares de discos. Fez sucesso, mas não tocava no rádio. Tornou-se conhecido da classe média por meio de bandas como Barão Vermelho. O rapper Marcelo D2 gravou um disco homenageando sua obra. Com a caricatura do cantor que ilustra esta página, o cartunista Quinho, do Estado de Minas, venceu prestigiado salão de humor carioca. 

FALA, BEZERRA

“Fui pintor de parede, passei muita fome, dormi na obra em que trabalhava, morei no morro. Tenho medo da picareta. Então, não gravo música para a minha namorada. Gravo para comprar feijão, arroz e carne.” 

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“Ninguém queria as minhas músicas, pois eram consideradas música de vagabundo. Os compositores são pedreiros, bicheiros, camelôs, desempregados e favelados. A maioria mora na Baixada Fluminense. São pobres, mas têm o dom da inspiração.”

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“Músico brasileiro é o mais inteligente do mundo, mas é igual a mulher de zona. Tem que conseguir tantos fregueses para sobreviver que não arruma tempo para estudar.”

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