domingo, 3 de fevereiro de 2013

Haiti e Santa Maria no Tendências/Debates

folha de são paulo

DANY LAFERRIÈRE
O momento do Haiti
Em meio ao terremoto em Porto Príncipe, foi preciso que as instituições desaparecessem para surgir um povo discreto e orgulhoso
Chego a Porto Príncipe no dia 6 de janeiro de 2010 para um festival literário. A vida parece retomar seu ritmo normal, após décadas de turbulência. Moças risonhas passeiam nas ruas, tarde da noite. O banditismo recuou um passo.
Nos bairros populares, como o de Bel-Air, a criminalidade não é mais tolerada. Pintores primitivistas batem papo com vendedores de manga e abacate nas esquinas de ruas poeirentas. Tudo é tão calmo que algumas pessoas já se inquietam.
Uma calmaria tão prolongada não é habitual em Porto Príncipe. Para o jovem com o rosto metade oculto por um chapéu de palha, um perigo novo nos espreitava. Perguntamo-nos o que poderia ser, pois já tínhamos visto de tudo: ditaduras hereditárias, golpes de Estado militares, ciclones repetidos e sequestros às cegas.
Estou no restaurante do hotel Karibé com meu amigo Rodney Saint-Eloi, editor de "Mémoire d'Encrier", que acaba de chegar de Montreal. Duas malas pesadas repletas de suas publicações mais recentes estão ao pé da mesa. Eu aguardava minha lagosta, e Saint-Eloi, um peixe ao sal grosso, quando ouvi uma explosão terrível.
Um segundo depois, estávamos deitados de barriga sob as grandes árvores do pátio. O terremoto foi tão forte que sacudiu a terra como se ela não passasse de um lençol que alguém tivesse tentado estender.
Nessa hora, as pessoas estavam espalhadas por toda parte na cidade: nas escolas, nos supermercados, no trabalho ou, ainda, presas nos engarrafamentos monstruosos que paralisam Porto Príncipe nos horários de pico. Toda essa agitação parou bruscamente às 16h53. O minuto fatal que cortou o tempo haitiano em dois.
Quando voltaram a si, muitas pessoas já estavam debaixo de escombros. Gritos nos chegavam, vindos do fundo da terra. Durante aquela noite trágica, deitados sobre o chão, ainda sentiríamos em nosso íntimo mais profundo 43 abalos sísmicos -alguns fortes, outros mal perceptíveis. Esse acontecimento tão radical teria um impacto profundo sobre a sociedade haitiana.
Um fato novo salta à vista. A cidade, durante aquelas primeiras noites, foi ocupada por uma multidão disciplinada, generosa e discreta. Pessoas andando de um lado a outro sem parar, com uma determinação estranha. Pessoas que pareciam indiferentes àquela dor, que suportavam com uma elegância que suscitou admiração universal.
O mundo ainda está grudado à telinha. Temos a impressão de assistir a uma cerimônia estranha que envolve os vivos e os mortos. Espantamo-nos pelo fato de pessoas poderem passar tanto tempo sob os escombros, sem beber ou comer. É que eles têm o hábito de comer pouco. Como é possível pôr o pé na estrada, deixando tudo para trás? É que as pessoas já possuem tão poucas coisas. Quanto menos objetos inúteis se possui, mais se é livre, e não estou fazendo um elogio à pobreza.
Não foi a desgraça do Haiti que comoveu o mundo a esse ponto, mas o modo como os haitianos enfrentaram seu infortúnio. Esse desastre fez surgir diante de nossos olhos fascinados uma floresta de pessoas notáveis que as instituições nos escondiam.
Foi preciso que as instituições desaparecessem momentaneamente para que víssemos surgir, sob uma nuvem de poeira, um povo ao mesmo tempo discreto e orgulhoso. Então, tirei meu caderninho preto do bolso para tomar nota desse fato intrigante: se os imóveis desabaram, as flores sobreviveram.

    ANTONIO MARIA CLARET
    O lado técnico da tragédia
    Menosprezada no Brasil, a engenharia de incêndio oferece uma segurança a edificações de que nenhuma norma técnica é capaz
    Os incêndios sempre estiveram entre as catástrofes mais desafiantes de todos os tempos. Contam com nossa inércia e descaso para ceifar vidas sem piedade. Dessa vez, as vítimas foram os jovens de Santa Maria (RS). Mas, antes, muitos outros sucumbiram às suas armadilhas.
    A sociedade se revolta. Quer nomear culpados e trazê-los a julgamento público. Embora mereça respeito a dor dos que perderam filhos e amigos, nenhuma intenção, verdadeira ou bravata, será capaz de aplacar a fúria das chamas.
    Contra a surpresa do fogo, é preciso usar de vigilância. Não uma vigilância que impeça o sono, mas aquela que se infiltra nas regras de convívio e se materializa em rotinas de aprovação de projetos e de concessão de alvarás e licenças.
    Não devem ser meros atos burocráticos, diluídos na responsabilidade de bombeiros raros e prefeituras muitas, porque eles criam o que agora se quebrou: a ilusão de segurança. A vigilância não prescinde da educação, especialmente da cívica, que responsabiliza cada um pela segurança de todos.
    Mas, a segurança oficial das normas não basta: é também ilusão de segurança, porque as normas técnicas existentes, muitas vezes, carecem de bases justamente técnicas.
    O esforço de normalização da segurança contra incêndio empenhado pelos corpos de bombeiros merece reconhecimento público, mas existe uma engenharia de incêndio, ou uma ciência dos incêndios, que não lhes está ao alcance e que é pujante em outros países.
    No Brasil, tem inexpressivo lugar nas academias. Apenas o foco da proteção passiva de estruturas merece estudos, ainda não avançados, em várias universidades e em um laboratório da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
    Dessa ciência, emanam novas tecnologias e métodos de projeto, que tornam as edificações materialmente mais seguras.
    Muitos vão dizer o que faltou à boate Kiss. Pode ser que tudo o que digam tenha mesmo faltado, mas o principal antecede esse fatídico evento: são estudos brasileiros de comportamento humano em pânico; pesquisas brasileiras de reação ao fogo de materiais; estudos brasileiros da densidade de ocupação das edificações e de sua carga de incêndio; pesquisas brasileiras de planos efetivos de escape em condições de pânico.
    Bombeiros têm lutado por isso e para efetivar a normalização técnica. Mas o atendimento de nenhuma norma prescritiva brasileira, sejam elas oficiais ou convencionais, como as da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), pode dar à edificação a segurança que projetos responsáveis de engenharia de incêndio proporcionam.
    Nesse momento de consternação, pensemos em nossas centenas de escolas, boates, cinemas, shoppings, estádios e edifícios: todos vivem a doce ilusão de segurança. É necessário fazer algo mais que nomear culpados pós-tragédia; é necessário viabilizar novos centros de pesquisa em engenharia de incêndio.
    O país, como os seus vizinhos, não tem um só cone calorímetro, equipamento que está para o engenheiro de incêndio como o microscópio está para o biólogo. É preciso repensar as bases legais do trabalho de prevenção dos bombeiros, ao mesmo tempo em que é urgente flexibilizar os projetos de edificações, dando vez à engenharia de incêndio.
    Infelizmente, em todo o mundo, as revoluções da engenharia de incêndio se iniciaram após grandes tragédias. O episódio do edifício Joelma, em 1974, deu início ao movimento por uma normalização ampla da segurança contra incêndio no Brasil; que seja aprofundado com a boate Kiss de Santa Maria.

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