quarta-feira, 3 de julho de 2013

Vinicius Torres Freire

folha de são paulo
A voz das ruas do mercado
Liquidação no Brasil pode até passar logo, mas 'manifestantes' e 'vândalos' abalam economia
NENHUM MOTIVO parece despropositado o bastante ou sem sentido quando a manada financeira está mugindo e correndo para a saída. Motivos reais, fantasistas ou mesmo picaretas não faltam hoje em dia no Brasil.
Ontem, até os bloqueios de estradas do Movimento Brasil Caminhoneiro, do velho Nélio Botelho, andavam na boca e nos bate-papos eletrônicos dos rapazes do mercado (e das mais raras moças também).
O motivo principal da liquidação na Bolsa era, óbvio, o problemaço no grupo "X", de Eike Batista. Mas as ações de empresas e bancos maiores também estavam indo para o vinagre (sim, a segunda revolta do vinagre acontece ora nas finanças).
Como se sabe, o país havia derrapado na ladeira entre maio e junho.
Primeiro, como vítima da manada financeira mundial, que antecipava ávida e ansiosamente a mudança na política monetária americana (em suma, tirando dinheiro daqui, de investimentos em commodities e recursos naturais que vendemos etc.).
Depois, veio o desarranjo no mercado de títulos da dívida pública brasileira (juros sobem, o preço dos papéis cai e quem emprestou para o governo leva uma tunda). A coisa toda ainda está meio difícil de entender nos detalhes, mas aumentou o mau humor.
O mau humor vinha inflando desde 2012: crescimento baixo, política econômica na biruta, governo metendo bronca e intervindo em mercados. Histórias velhas, mas vivas.
Como resultado, o dólar saltou, cresceu o risco de inflação e alta de juros maiores. História de sempre.
Para piorar, ninguém ainda acredita na "virada fiscal" prometida pelo governo no fim de maio (isto é, o governo gastar menos). As contas estão ruins, os povos dos mercados dizem temer mais gastos em razão da "reação às ruas" e, cerejinha recente nesse bolo de desconfiança, o governo apareceu agora com mais uma novidade contábil.
Na prática e em resumo grosso, o governo pode tirar dinheiro do BNDES com uma mão (para tapar buracos na conta do governo) e entregar com outra (fazendo mais dívida). A coisa toda é pequena, mas virou motivo de troça e escárnio na praça do mercado.
Até a queda da produção industrial virou motivo, da boca para fora, para a liquidação no mercado, como se a maioria dos que faziam negócio ontem estivesse ligando a mínima. De resto, nem dá para saber bem o que significou o tombo industrial de maio. Na média dos últimos meses, a coisa vai como sempre, recuperação lerdinha e miúda.
No entanto, o estresse financeiro e político dos últimos dois meses mais a lerdeza de dois anos vão jogar mais areia na economia. O dólar mais caro, no curto prazo (e dada a lerdeza mundial), não vai ajudar muito a exportação e vai prejudicar investimentos (máquinas e equipamentos ficam mais caros).
Convém notar que a taxa de investimento no Brasil tem caído porque os empresários estão em "greve de confiança" (foi o investimento do setor privado que caiu, desde 2012; o do setor público, embora minúsculo, até aumentou um tico). Em vez de surgirem sinais animadores, o caldo engrossou: dólar mais caro, juros mais altos, incerteza política, finança global mais conturbada. Se não atrapalhar muito, pelo menos não vai ajudar em nada.
vinit@uol.com.br

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