sábado, 12 de outubro de 2013

Umas palavras aleatórias - Antonio Risério

A Tarde - 12/10/2013

Hoje, aos 60 anos, me sinto bem mais paciente com os outros. Mas muita coisa ainda me irrita. A estupidez, por exemplo. E aqui a publicidade é um prato cheio



“Já acho mais quem me aborreça do que quem me agrade”, escreve Machado de Assis no Memorial de
Aires, atribuindo o fato à velhice. É engraçado. Muita gente se refere assim à velhice. Como se os mais velhos fossem necessariamente mais ranzinzas, intolerantes, impacientes, cheios de manias. Como estou fazendo meus 60 anos, devo dizer que minha percepção pessoal não tem nada a ver com isso. Fui adolescente irônico, “dono da verdade”, arrogante mesmo, olhando tudo de cima. Hoje, ao contrário, me sinto bem mais paciente, tolerante e conciliador diante dos outros. Já não acho que tenho sempre razão e que todo mundo é obrigado a concordar comigo, a menos que seja burro ou trapaceiro ideológico.

Mas é claro que muita coisa ainda me irrita. A estupidez, por exemplo. E aqui a publicidade é um prato cheio. Tempos atrás, uma propaganda do Eco Sport falava de caranguejos na praia – e não mostrava nenhum deles, mas um band de grauçás. Agora, na televisão, propaganda de água mineral Minalba, aparece um sujeito com cara de professor de educação física falando a seguinte asneira:
“Para cuidar bem de sua saúde, é preciso adquirir novos hábitos. Entre eles, o de beber água”. Beber água é novo hábito? Pelo que dizem nossos gênios publicitários, sim. Aliás, nem sei como a humanidade conseguiu sobreviver até aqui sem beber água. Num próximo comercial, eles poderiam falar de outros novos hábitos que precisamos adquirir. Como o de ingerir alimentos. Ou o de fazer sexo, por exemplo.

Há, também, a campanha publicitária que parte do princípio de que todo cidadão é imbecil (achar que o público é estúpido é uma das condições de sobrevivência da publicidade). Por exemplo: a vida de qualquer banco é dinheiro. Bancos são instituições feitas de grana e voltada para a grana. Movem-se sob os signos da usura e do lucro. Mas vejam aí a propaganda que o HSBC colocou no ar:
“Em que momento vamos parar de pensar tanto em dinheiro?”. Nunca vi maior cinismo em toda a minha vida. Qualquer tipo de empresa poderia fazer essa pergunta, menos um banco. Se esse pessoal do HSBC estivesse falando sério, abriria mão de um micromilímetro de seu lucro diário e compraria uma casa para mim na beira do mar.

Mas encontro a estupidez e a diluição também no terreno das artes plásticas. Vejo na internet uma artista plástica que fez um gato enorme, que ronrona quando é acariciado. Em primeiro lugar, a ideia é apenas cretina. Em segundo, é plágio, coisa que talvez a moça, na sua santa ignorância, não saiba. Mas é que, ainda na década de 1960, um em meio àquelas multidões de artistas “pop” fez uma escultura em tamanho natural da atriz italiana Virna Lisi, que, quando acariciada, emitia gemidos supostamente sensuais. Pois é: agora, a moça que fez o gato se acha genial. Pode? Pode – e eu é que tenho de dormir com todos esses barulhos e ruídos informacionais.

Mas nem tudo é motivo de queixa. Um bálsamo, agora, é que serei obrigado a reler tudo o que Darcy Ribeiro escreveu. É claro que ando lendo coisas novas, mas também viajado na base de muitas releituras.
Por isso citei Machado de Assis no início deste texto. Nesse ano de 2013, reli, por ordem, todos os romances que Machado escreveu, desde Ressurreição, publicado em 1872. Mais de 1.200 páginas no chamado “papel bíblia”. Me apaixonei de novo (e perdidamente) por Brás Cubas e Quincas Borba. Mas a idade vai chegando e a gente muda aqui e ali de opinião. Desta vez, achei simplesmente maçante, chata mesmo, a narrativa das bobagens de Bentinho e Capitu no Dom Casmurro. Sei que os fãs de Machado vão me execrar por isso. Mas não posso fazer nada. O romance não desceu redondo.

Quanto a Darcy Ribeiro, é o seguinte. A Fundar – Fundação Darcy Ribeiro – me escolheu para escrever a biografia do velho. Tenho até 2017, um prazo de três anos, para fazer o trabalho. E já vou começar pela releitura de Confissões e pela leitura de dois livros sobre Montes Claros,
a cidade mineira onde o mestre nasceu e fez as suas primeiras estripulias

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