terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Contra a corrente - Carolina Braga

Contra a corrente 
 
O cearense Gero Camilo comemora 20 anos de carreira e defende o trabalho do ator. Artista diz que arte não deve se submeter ao mercado e prepara disco e peça de teatro 
 
Carolina Braga*
Estado de Minas: 28/01/2014


Gero Camilo foi a Tiradentes homenagear o ator Marat Descartes e deixou seu recado em defesa do teatro (Fotos: Túlio Santos/EM/D. A Press)
Gero Camilo foi a Tiradentes homenagear o ator Marat Descartes e deixou seu recado em defesa do teatro

Tiradentes – O ator Gero Camilo chegou a Tiradentes com uma defesa evidente em seu discurso. “Não queremos fazer filmes. Queremos construir obras de arte”, disparou durante debate sobre a carreira do amigo Marat Descartes, homenageado desta 17ª edição. Quem o conhece de perto sabe que não se trata de uma frase de efeito. Ele que exibiu como diretor o curta 145, assume uma postura crítica num tempo em que o mercado tem ditado algumas regras. Se o ofício dele está no meio, defenderá como pode.

Em 2014 completam-se 20 anos que Gero Camilo deixou Fortaleza para ingressar na Escola de Arte Dramática da USP. Tornou-se conhecido do Brasil inteiro em Bicho de sete cabeças, de Laís Bodanzky, e depois disso participou de alguns dos projetos mais expressivos no cinema nacional dos últimos anos, como Cidade de Deus (2002), Madame Satã (2002), Narradores de Javé (2003) e Carandiru (2003), entre outros. Na meca da indústria cinematográfica mundial, fez Chamas da vingança (2004) ao lado de Denzel Washington. Em meio a tantos e diversos trabalhos, nunca deixou o teatro e outras linguagens de lado.

No bojo das comemorações das duas décadas de atividade como intérprete ele está com agenda cheia. Em março, lançará o segundo CD da carreira, batizado Megatamaínho. São 12 composições e parcerias com Luiz Caldas, Otto, Vanessa da Mata e Criolo. Em abril, tem estreia prevista de Lá fora vai estar chovendo sempre, espetáculo com texto dele e direção em parceria com Gustavo Machado. As atrizes Paula Cohen e Camila Pitanga estão confirmadas no elenco. “O projeto é que a peça vá para Belo Horizonte por meio do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Se acontecer, vai ser incrível, vamos ficar um mês por lá”, conta. No cinema, está envolvido em pelo menos cinco projetos, entre eles o longa Os pobres diabos, de Rosemberg Cariry.

“Uma obra de arte não nasce para se adequar ao mercado. É o contrário”, critica. Ele sabe o tamanho do desafio em sustentar este discurso. “Nem todos estão na mesma corrente, mas só de levantar o debate já é positivo”, avalia. Quando observa os colegas, o ator vê cada vez mais gente pautando as escolhas pelos benefícios profissionais, como um emprego qualquer, e não pelo prazer da realização. Gero Camilo garante que a questão financeira nunca esteve em primeiro plano. Nem por isso ele deixou de espalhar obras de arte por aí. Faz com a mesma intensidade literatura, música, cinema, teatro e televisão.

ATORES Para Gero Camilo, as expressões que envolvem as artes cênicas precisam entender melhor o papel do teatro na formação do ator. “Cada vez que escuto que está muito teatral é um elogio, não é uma crítica. Não gosto desse preconceito”, reclama. Ele se sente incomodado com a ideia de que o cinema é contemporâneo e o teatro é muito antigo.

“Não suporto esse discurso de que o teatro não contribui para o cinema, que é uma coisa exagerada”, dispara. Para ele, o que falta é ousadia por parte dos diretores. “Eles são limitados em buscar apenas na televisão seus atores, porque muitos deles nem sequer vão ao teatro. É um problema de formação cultural”, conclui.
Murilo Salles e Cícero Filho no debate sobre O passarinho lá de Nova Iorque
Murilo Salles e Cícero Filho no debate sobre O passarinho lá de Nova Iorque

Hoje na Mostra

Cine Teatro Sesi

    10h30 – Debate sobre o filme  A vizinhança do tigre
    12h – Debate sobre os curtas      da Mostra Foco
    15h –Perspectivas para o audiovisual brasileiro em 2014
    17h30 – Mostra Sui Generis, filme Paixão e virtude,
de Ricardo Miranda

Cine Tenda
    18h – Sessão de curtas da  cena mineira
    19h30 – Mostra Aurora, filme O bagre africano de Ataleia, de Aline X e Gustavo Jardim
    22h30 – Sessão de curtas

Cine BNDES Praça
    21h – Sessão de curtas

Cine-tenda Bar Show
    0h30 – Show de Dibigode e Dona Jandira

Filmes mexem com o público
Exibido na mostra Transições, dedicada a longas que abordam as relações do homem com a cidade, Riocorrente, de Paulo Sacramento, causou uma debandada do Cine Tenda no início da noite de domingo. Com roteiro inconsistente ambientado na cidade de São Paulo, o longa se embola em um triângulo amoroso indefinido. Houve mal-estar na sala, com pais acompanhados de seus filhos menores diante de cenas impróprias. No caderno de divulgação do festival constava que o filme estava classificado como censura livre.

O documentário de Murilo Salles O passarinho lá de Nova Iorque surpreendeu com a irreverência de seu personagem, o cineasta Cícero Filho. Todo o longa se desenrola a partir do desejo de refilmar um cena específica de seu filme. “Existe no filme a nossa brincadeira com o fazer cinema”, afirmou o diretor durante o debate sobre a obra. “É meio estranho ser o próprio personagem da própria vida. Foi angustiante, mas para minha surpresa também foi agradável e emocionante”, comentou o retratado. A sessão que fechou o dia no Cine Tenda foi do longa pernambucano Amor, plástico e barulho, de Renata Pinheiro.

 Já o público do Cine Praça conferiu Olho nu, a aproximação do diretor Joel Pizzini ao universo do cantor Ney Matogrosso. Classificado como “filme-ensaio”, o documentário resgata entrevistas do passado, imagens de clipes e shows em uma visita ao passado do artista. Os embates com o pai militar até a própria aceitação das escolhas do artista fazem parte da narrativa. A previsão é de que Olho nu chegue ao circuito comercial em maio.

* A repórter viajou a convite da Mostra de Cinema de Tiradentes

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