sexta-feira, 4 de abril de 2014

Carlos Herculano Lopes - O miquinho esperto‏

Estado de Minas: 04/04/2014 



Numa manhã dessas, para surpresa do seu Roberto, porteiro de um prédio no Bairro da Serra, bem próximo ao Parque das Mangabeiras, um miquinho apareceu na área de lazer. À primeira vista, como pôde perceber, o bichinho parecia estar ferido. Muito assustado, estava encostado no canto do muro, próximo a uma quaresmeira, da qual provavelmente tinha caído ou descido inadvertidamente. Outras árvores de menor porte ornamentavam o espaço, onde também existia piscina e uma quadra de vôlei.

Sem saber o que fazer, mas condoído com a situação, seu Roberto pegou o interfone e comunicou o ocorrido à síndica. Poucos minutos depois, dona Marlene, que há anos administra o prédio, estava no pátio, bem próxima ao animalzinho. Ainda mais apavorado, ele a encarava com os olhinhos miúdos, como se pedisse socorro.

“O jeito é apelar ao Corpo de Bombeiros, para que venham recolhê-lo”, ela disse ao porteiro, que providenciou o contato, usando o próprio celular. Prontamente atendido, do outro lado da linha um sargento, depois de se inteirar de tudo, falou que para resolver aquele tipo de diligência era melhor procurar o Ibama.

“Vamos então nos entender com eles”, voltou a dizer dona Marlene. Mas a essas alturas, enquanto seu Roberto fazia as ligações, a notícia havia corrido e outras pessoas já estavam no pátio, preocupadas com a situação do miquinho. Foi então que dona Yara, uma das moradoras mais antigas, com fama de brigona, se lembrou da clínica para animais que funcionava ao lado e deram um jeito de chamar o veterinário.

Este atendeu de pronto, já que tinha muitos clientes naquele prédio. “Creio que o mico está mesmo ferido, mas por se tratar de animal silvestre não posso fazer nada, tem de ser o Ibama”, ele disse, para horror de dona Yara, que até de desumano o chamou por ter se recusado a atender “o pobre serzinho indefeso”. “Sinto muito”, o veterinário respondeu, e deu um jeito de ir saindo de mansinho, para evitar maiores complicações.

Algum tempo depois, como seu Roberto contaria mais tarde, o movimento era tanto em torno do miquinho que uma viatura, passando pelo local, parou para ver o que estava havendo. “Alguém foi assaltado neste condomínio?”, quiseram saber os policiais. Ao tomar conhecimento da história, também arranjaram uma maneira de escorregar: “Não podemos fazer nada, ocorrência assim é só com a turma do Ibama”, disseram e se foram. Para se dar mais importância, saíram com a sirene ligada.

“E esse pessoal que não chega?”, reclamou dona Marlene, no que teve o apoio de dona Yara, da garota Raquel, já querendo levar o bichinho para o apartamento, e de outros moradores aflitos. O jeito, então, foi providenciar água e comida, diga-se, duas bananas-prata bem madurinhas, nas quais, para a decepção geral, o miquinho nem tocou. Apenas encarava a plateia com aqueles olhinhos pequenos e tristes, no qual alguns presentes, entre eles seu Roberto, chegaram a ver duas lágrimas. “Era de cortar o coração”, disse.

E a situação se estendeu por mais algumas horas, até que dois funcionários do Ibama, se desculpando pelo atraso, finalmente apareceram. Mas aí o miquinho, como se acordasse de repente, de um salto, quando iam jogar uma rede para pegá-lo, subiu na quaresmeira. Dela, numa outra acrobacia espetacular, alcançou o muro, o quintal de uma casa e, para alívio de todos, ganhou o parque, onde se perdeu entre as árvores.

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