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segunda-feira, 17 de junho de 2013

Atividades em grupo têm sido mais procuradas por pais de crianças com autismo

folha de são paulo
FERNANDO TADEU MORAES
DE SÃO PAULO

Assim que a cortina desceu e o teatro lotado começou a aplaudir, Wilker Vilela, 12, ficou feliz com a sua estreia nos palcos. "Gostei, é muito bom o calor dos aplausos."
Wilker é um dos 21 jovens do projeto Aut, que busca, por meio do teatro, ajudar crianças com autismo a melhorar suas habilidades sociais e a superar dificuldades de comunicação.
Ze Carlos Barretta/Folhapress
Wilker Vilela, 12, encena peça musical no teatro Dias Gomes, em SP
Wilker Vilela, 12, encena peça musical no teatro Dias Gomes, em SP
"Para ser um ator é necessário se expor ao público, esperar a vez de entrar, interagir, passar um certo charme. Tudo o que uma criança com autismo não tem", diz a neuropsicóloga Tatiane Ribeiro, que montou o projeto com a ajuda da também especialista em neuropsicologia Liège Felício, da fonoaudióloga Lais Mazzega e do diretor Deto Montenegro.
Depois de um ano de ensaios semanais, a estreia do musical teatral aconteceu no mês passado, no teatro Dias Gomes, em São Paulo.
No início, conta Ribeiro, os jovens não olhavam uns para os outros, apenas para baixo. O som alto, o ambiente apertado da coxia e a expressão das emoções em cada fala foram dificuldades superadas pelos agora atores.
Apesar de o objetivo inicial não ter sido uma terapia formal, as aulas de teatro acabaram dando resultados. A melhora na empatia dos jovens será medida por testes.
Esse tipo de atividade em grupo tem sido cada vez mais procurada pelos pais das crianças com autismo, segundo a psicóloga Roberta Marcello, diretora do instituto Priorit, no Rio.
"O foco é estimular a troca social das crianças", diz ela. Entre as atividades oferecidas na Priorit, especializada no tratamento de crianças com autismo e deficit de atenção, estão a capoeira, o judô, o canto e o desenho, indicadas a partir dos quatro anos de idade e realizadas com terapeutas que as adaptam à realidade do transtorno.
Segundo a psicóloga, muitos pais buscavam essas atividades em escolas normais, mas as crianças não conseguiam se adequar.
"É importante não só contornar as dificuldades da criança mas estimular suas habilidades", diz Marcello.
Segundo a psicóloga Caia Pacífico, colaboradora no Ambulatório de Autismo do IPq (Instituto de Psiquiatria) da USP, essas atividades não podem ser consideradas terapias, pois carecem de evidências científicas, "mas podem ter caráter terapêutico, na medida em que favorecem uma interação com o outro".
TERAPIAS
Entre os tratamentos individuais do autismo, destacam-se as terapias comportamentais e a psicanálise, sendo que a última tem sido alvo de críticas pela alegada falta de estudos científicos que comprovem seus resultados.
O método ABA (análise aplicada do comportamento, em inglês), usado desde a década de 1960, baseia-se em programas estruturados sob a ideia de um comando, um comportamento resultante (reação ou falta de reação) e uma consequência, como a recompensa por um comportamento desejado, explica a psicóloga comportamental Cláudia Romano, diretora do grupo Gradual.
"Há programas para desenvolver a sociabilidade, treinar o uso do banheiro, para alfabetização, linguagem etc.", completa Pacífico.
Já o Teacch (Tratamento e Educação para Autistas e Crianças com Deficits relacionados com a Comunicação), desenvolvido no início dos anos 1970, usa estímulos visuais, como figuras, e corporais, como gestos, para a comunicação.
A psicanálise, por outro lado, não se concentra nos sintomas. Segundo Vera Regina Fonseca, diretora científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise, o método busca a superação das dificuldades de relacionamento da criança por meio de jogos e da participação ativa do analista, como objeto de desenvolvimento da criança.
O objetivo é que ela consiga compartilhar emoções e compreender o que outras pessoas estão sentindo.
"Buscamos identificar quem a criança é, e não como gostaríamos que ela fosse. As outras terapias têm uma ideia de como a criança deve ser."
O Centro de Educação Terapêutica Lugar de Vida, em São Paulo, usa uma abordagem que mescla a psicanálise com a educação e também as atividades em grupo.
"Partimos da ideia de que a educação constrói a subjetividade e molda um modo de ser e como a criança se relaciona com os outros", diz Maria Cristina Kupfer, uma das fundadoras da instituição.
Uma característica do local são os grupos de educação terapêutica. "Formamos minigrupos com crianças com diferentes dificuldades, formando uma pequena experiência do que seria uma socialização de fato", diz Cristina Keiko, do conselho administrativo da instituição. Entre as atividades propostas estão oficinas de música, de cozinha e de escrita.
Maria Eugênia Pesaro, também da Lugar de Vida, diz que há uma busca por dar voz à criança autista: "Isso não significa que ela tenha de falar, o objetivo é que o que quer que a criança produza, seja fala, seja outro meio de expressão, tenha a ver com querer estar com o outro."
Editoria de Arte/Folhapress
Cães facilitam aceitação da terapia
DE SÃO PAULOO Ambulatório de Autismo da USP já usa há quatro anos a "pet terapia", que ajuda as crianças com o transtorno a se tornar mais abertas ao tratamento. "São cães treinados para não latir e não reagir a puxões", diz Estevão Vadasz, coordenador do ambulatório.
Vadasz diz que pesquisas já mostraram que o contato das crianças com cachorros aumenta os níveis da oxitocina, o hormônio da empatia.
"O uso desse hormônio para o autismo vem sendo estudado há alguns anos e sua produção ajuda o terapeuta no tratamento."

    segunda-feira, 10 de junho de 2013

    Entrevista da 2ª Suzana Herculano-Houzel

    folha de são paulo

    "Falta incentivo a ideias originais na ciência no país", diz neurocientista brasileira

    FERNANDO TADEU MORAES
    DE SÃO PAULO

    Folha ÍntegraA neurocientista Suzana Herculano-Houzel, 40, dedicou-se nos últimos anos a entender como o cérebro humano se tornou o que é. Seu trabalho a levou a ser a primeira brasileira convidada a falar no TED Global, famoso evento anual de conferências de curta duração que reúne convidados de várias áreas do conhecimento.
    Herculano apresentará em sua fala de 15 minutos, nesta quarta, os resultados de suas pesquisas sobre como o cérebro humano chegou ao número incrivelmente alto de 86 bilhões de neurônios: o consumo de alimentos cozidos. "Entre os primatas, temos o maior cérebro sem sermos os maiores. Grandes primatas, com a sua dieta de comida crua, não possuem energia suficiente para sustentar um corpo enorme e um cérebro grande."
    Na entrevista, concedida por telefone, a professora do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) dispara críticas à cultura brasileira de pesquisa científica, "que não incentiva a originalidade e a diversidade de pensamento", à pós graduação nacional, "muito fraca", e ao programa de bolsas Ciência Sem Fronteiras, "do jeito que está, parece demagogia" e defende a profissionalização da carreira de cientista.
    Luciana Whitaker/Folhapress
    A neurocientista Suzana Herculano-Houzel, que irá falar no TED Global, em seu laboratório na UFRJ
    A neurocientista Suzana Herculano-Houzel, que irá falar no TED Global, em seu laboratório na UFRJ
    *
    Folha - Sobre o que a sra. vai falar na palestra no TED?
    Suzana Herculano-Houzel - Vou apresentar o resultado do trabalho realizado no nosso laboratório, que mostra que o ser humano não é especial, nosso desenvolvimento cerebral não foge às regras que se aplicam aos outros primatas. Temos o maior cérebro primata sem sermos os maiores primatas. Como o tamanho do cérebro acompanha o tamanho do corpo, em geral, primatas maiores do que nós, como gorilas e orangotangos, deveriam ter um cérebro maior que o nosso e, no entanto, o gorila é duas a três vezes maior do que nós e nós temos um cérebro três vezes maior que o dos gorilas. Descobrimos que há uma explicação de origem metabólica para isso: quando calculamos a quantidade de energia que um primata obtém com a sua dieta de comida crua e quanto custa manter o corpo e o cérebro funcionando, descobrimos que os primatas não têm energia suficiente para sustentar um corpo enorme e um cérebro grande, com muitos neurônios. Também deveríamos obedecer à mesma regra, então nossos ancestrais conseguiram burlar essa limitação energética. Esse jeito, muito provavelmente, foi a invenção da cozinha, que transformou a maneira como aproveitamos as calorias, tornando os alimentos mais fáceis de serem mastigados e digeridos e, portanto, permitindo obter mais calorias em menos tempo.
    Com a invenção da cozinha, ter um cérebro grande deixa de ser um risco e passa a ser uma vantagem, ao mesmo tempo que nos libera para fazer coisas mais interessantes com o nosso cérebro. Poderíamos pensar que isso nos faz especiais, mas se você olhar a evolução do cérebro dos primatas, é possível perceber que há muito tempo existe uma tendência de aumento do tamanho do cérebro, mas nos nossos ancestrais e nos grandes primatas isso tinha encontrado essa barreira metabólica.
    Minha mensagem na palestra é que o que nos torna notáveis é o número alto de neurônios no córtex cerebral e conseguimos chegar a isso fazendo algo que nenhum outro animal faz que é cozinhar os alimentos.
    Recentemente dois grandes projetos ligados à compreensão do cérebro foram anunciados. Na Europa, um investimento de 1 bilhão de euros será destinado a uma simulação em computador do cérebro funcionando e, nos EUA, um consórcio de cientistas vai mapear o cérebro. Como essas iniciativas se inserem no atual quadro de pesquisa da neurociência?
    São desdobramentos do que já vinha sendo feito. Se você olhar para a história da pesquisa em neurociência, começamos tentando entender o que cada parte do cérebro faz, para que serve cada estrutura, e isso teve uma explosão extraordinária entre os anos 1990 e 2000 com as técnicas de ressonância magnética e tomografia computadorizada, que nos permitiram construir um mapa do que faz cada pedaço do cérebro. Nos últimos cinco anos, começou uma busca pela compreensão de como partes diferentes do cérebro interagem, colaboram e trocam informações. Nesse processo emerge a consciência, o autoconhecimento. Essa é a fronteira final nesse momento.
    A sua pesquisa se relaciona de alguma forma com esses projetos?
    De certa forma sim. Uma das coisas que estamos estudando e que faz parte de um artigo que acabamos de terminar é entender como os neurônios se distribuem ao longo do córtex humano [camada mais externa e sofisticada do cérebro], entre as diferentes áreas. Começamos uma pesquisa para saber qual é a relação entre a distribuição do número de neurônios e do número de sinapses, tentando entender as regras de construção do cérebro e como se dá a relação entre a distribuição de neurônios e as funções de cada área.
    As iniciativas americana e europeia de compreender o cérebro e os experimentos de interface cérebro-máquina, como do brasileiro Miguel Nicolelis, receberam bastante atenção da mídia. A senhora acha que o não cumprimento dos objetivos pode gerar alguma frustração na sociedade e até descrédito para a neurociência?
    Tudo depende de como as coisas são apresentadas. A maneira como eu entendo essa iniciativa do consórcio americano é compreender como o cérebro funciona como um todo. Mas, para vender isso para mídia, eles têm que colocar o propósito da cura do alzheimer, porque é um nome que as pessoas reconhecem e pensam "ah, isso é importante". Mas é importante que a mídia dê valor a esses assuntos, para que as pessoas passem a dar mais valor à pesquisa pelo conhecimento que geramos, e não só porque vamos curar doenças. Até porque se o público aprender a reconhecer o valor da ciência pela ciência, não tem por que ter frustração. Toda pesquisa bem feita traz, no mínimo, novas perguntas. Se a pesquisa é bem feita, não existe fracasso.
    A senhora se divide entre a pesquisa e a divulgação de ciência, algo raro na nossa academia. Você acha que há uma falha de comunicação entre os cientistas e a sociedade?
    Infelizmente a divulgação científica não é muito valorizada nem bem vista pelos cientistas. O CNPq [órgão federal de fomento à pesquisa], por exemplo, não considera a divulgação científica na conta da produtividade do cientista. Mas isso é compreensível. Dada a sobrecarga de ensino e pesquisa dos nossos cientistas, é difícil que eles ainda queiram fazer divulgação sem que isso lhes dê algum tipo de reconhecimento pelos seus esforços. Não sei se estaria fazendo divulgação se eu não tivesse voltado para o Brasil para fazer justamente isso. Depois é que eu voltei a fazer pesquisa.
    Quais são os principais problemas na maneira como se faz pesquisa científica no Brasil?
    Originalidade zero. Não existe incentivo à originalidade e à diversidade de pensamento. Quando eu cheguei nos EUA [para fazer o mestrado, em 1992], fiquei chocada ao descobrir que as pessoas não param cinco anos no mesmo lugar. Eles têm essa cultura de se mudar constantemente, o que favorece a diversidade de ideias. Aqui, a tradição é entrar na iniciação científica em um laboratório e continuar nele durante o mestrado, o doutorado e o pós-doutorado. E a tendência é a pessoa se aprofundar cada vez mais em um único assunto. Com isso, formamos jovens cientistas bitolados, tudo o que eles sabem é pensar em detalhes daquele único assunto que vêm desenvolvendo desde a iniciação científica. Além disso, a política de contratação nas universidades privilegia os ex-alunos. Criam-se colônias sem diversidade. Colônias em que você tem o fundador original, o chefe do laboratório, e as crias todas vão se espalhando ao seu redor, estudando a mesma coisa.
    Como a senhora vê o atual estado da pós-graduação no Brasil?
    O nível de exigência aqui é baixíssimo. Nos EUA e na Europa, após um ou dois anos no doutorado, você tem que apresentar o seu projeto de pesquisa original e, antes disso, precisa apresentar outro projeto de pesquisa sobre um tema que não seja da sua área só para provar a capacidade de raciocínio autônomo e original, de reconhecer um problema da ciência e propor um tratamento científico a ele. Aqui, temos um exame de conhecimentos, em que você precisa provar que domina um determinado assunto, mas com isso incentiva-se a repetir e não a gerar algo novo. No fundo, o aluno de doutorado aqui é uma pessoa que trabalha nas linhas de pesquisa de um determinando laboratório sem nenhuma exigência de que tenha contribuído de forma original para a ciência.
    A formação dada pela nossa pós-graduação é ruim, então?
    É fraca, muito fraca. Não porque faltem bons pesquisadores ou professores, mas porque não há cobrança, não se oferecem cursos com o professor ensinando na lousa, apenas seminários, como que dizendo: "O aluno que busque o conhecimento sozinho".
    Como a senhora vê o investimento do governo no programa de bolsas Ciência sem Fronteiras?
    Francamente, eu não entendo esse programa. Do jeito que está parece demagogia. Quando se começou a falar em Ciência sem Fronteiras, parecia um negócio extraordinário. Eu havia entendido que abriríamos as fronteiras nos dois sentidos, iríamos mandar jovens cientistas para fora e abrir as nossas fronteiras para os estrangeiros que quisessem vir trabalhar aqui. Poderíamos, quem sabe, acabar com o complexo de vira-lata da gente, de que só os outros que prestam, ao atrair pesquisadores de outros países. Não vemos isso acontecendo. O que se vê é uma porcentagem baixíssima de aprovação de projetos para trazer gente de fora. Pouquíssimas bolsas para enviar jovens para fazerem doutorado e pós-doutorado fora e uma massa enorme de dinheiro usada para mandar alunos de graduação para o estrangeiro, o que me choca pois, na minha avaliação, a graduação no Brasil é muito boa. Fiz graduação aqui na UFRJ e, quando cheguei aos EUA para fazer o mestrado, os professores achavam que eu era uma aluna extraordinária, pois já sabia coisas que eram dadas na pós-graduação de lá. Onde ficamos muito para trás é na pós-graduação.
    Apesar de diversos estudos mostrando o malefício das drogas ao cérebro, a senhora tem se posicionado a favor da legalização. Por quê?
    O problema maior das drogas é para aqueles que não têm nada a ver com a história e ficam presos no tiroteio, literalmente, que é a violência financiada pelo tráfico. No mundo ideal, gostaria que ninguém pudesse comprar drogas porque elas fazem mal e ponto. Mas também entendo que, por um lado, as pessoas deveriam ter liberdade para fritar o próprio cérebro em paz sem colocar as outras em risco. Vamos tornar as drogas acessíveis em farmácias, controladas pelo governo, para acabar com o tráfico. Mas sou contra a descriminalização, que só tranquiliza o usuário, que pode comprar a droga tranquilo, sem medo de ser preso. Sou a favor da legalização.
    Há uma discussão hoje em torno da diminuição da maioridade penal. Do ponto de vista da neurociência, é possível dizer que alguns desses jovens que recentemente cometeram crimes bárbaros não sabiam o que estavam fazendo?
    A adolescência é um processo que leva em torno de dez anos, as vezes até mais, e é um processo de transformação do cérebro, em que várias habilidades mudam, melhoram e a última delas é a de se colocar no lugar do outro e de ter um raciocínio consequente, entender os desdobramentos dos seus atos. Em torno de 17, 18 anos, em geral, essas habilidades de raciocínio consequente já existem e funcionam bem o suficiente para você caracterizar a pessoa como um adulto, mas é um processo. Qualquer idade que seja estabelecida vai ser arbitrária. A questão é se a idade que você escolhe como idade arbitrária é bastante segura ou não para você considerar em princípio que todos os jovens que já têm essa idade devem ter a capacidade de avaliar as consequências dos seus atos.
    Dezoito anos, então, é uma idade razoável para ser usada como marco?
    Acho perfeitamente razoável, talvez pudesse ser 19, ou 17 e meio, mas é importante reconhecer que essa idade é arbitrária. Além do mais, esses crimes hediondos cometidos por jovens não são cometidos porque a pessoa tinha 17 anos e cinco meses e, portanto, não tinha a capacidade de entender que quando ela estava jogando gasolina na dentista ela ia morrer se o fósforo fosse aceso. Uma criança tem essa capacidade. Nesse caso estamos falando de uma coisa diferente. Boa parte desses jovens que cometem crimes bárbaros, hediondos, é sociopata. Há a ideia de que a pobreza é culpa da classe média, de que o bandido é culpa da sociedade que não deu oportunidade. E é nesse tipo de sociedade que o sociopata floresce, uma pessoa perfeitamente sã, racional e capaz, por isso, de manipular os outros. Sociopata é um predador, causando problemas para todo mundo ao redor. Ele faz isso tanto melhor quanto mais as pessoas pensarem "pobrezinho, não é culpa dele, ele não fez nada de errado, ele não tem de ser punido". As pessoas nascem sociopatas e a sociedade tem de se saber como lidar com isso.
    Como identificar esse jovem?
    Psiquiatras bem treinados sabem fazer essa avaliação. Há sociopatas que jamais vão chegar a matar uma pessoa, mas ainda assim ele pode criar um monte de problemas para as pessoas ao redor dele. Mas considerando apenas os sociopatas que cometem crimes hediondos, eles devem ser reconhecidos e tratados como de fato de são, como uma pessoa cuja taxa de recuperação e de reinserção na sociedade é praticamente zero. E cuja taxa de reincidência é altíssima, não importa a idade. É isso que tem de ser levado em conta. No fundo, não importa a idade da maioridade penal.
    A sra. vem defendendo a profissionalização do cientista. O que é isso?
    Minha proposta é que o jovem que faz ciência tenha esse trabalho reconhecido, que seja considerado um cientista de fato. Um dos problemas do jovem que trabalha com ciência é que a própria família acha que eles estão de vagabundagem. O trabalho de pesquisa que um jovem faz sob a alcunha de estudante de pós-graduação é de verdade. Terminado o período da pós-graduação, esse jovem continua não tendo a possibilidade de ser contratado como cientista. São raros os institutos de pesquisa que contratam pesquisadores de fato no Brasil. Na grande maioria dos lugares, esse jovem vai ser contratado como professor. O primeiro problema é reconhecer que a pessoa que faz ciência tem um trabalho: ela se chama cientista. Hoje, eu não posso preencher uma ficha de dados e declarar como minha profissão cientista. Essa profissão não existe. E isso contribui para desvirtuar a pós-graduação, pois como o jovem que se forma não pode ser contratado como um pesquisador, a única maneira de ele continuar fazendo pesquisa é ele entrar para a pós-graduação. E ela então vira uma tábua de salvação, como a única maneira de continuar trabalhando no laboratório. E eles são a verdadeira mão de obra da pesquisa no Brasil. O número de publicação de artigos no país vem crescendo de mãos dados com o aumento no número de alunos de doutorado. Quem faz a pesquisa no Brasil são esses "alunos" da pós-graduação que, para mim, são cientistas, são trabalhadores, que deveriam ser reconhecidos como tais, com os direitos e deveres que todo trabalhador tem.
    E o que a sra. propõe para melhorar esse quadro?
    Proponho que se crie a profissão de cientista e que, para o jovem exercer a função de pesquisador, ele tenha de ser contratado. Se ele vai ou não fazer a pós-graduação também, isso passa a ser uma coisa à parte. A pós poderia passar a ser reservada, como deveria ser, àqueles alunos que demonstrem capacidade de raciocínio original, de propor novas ideias. A profissionalização do cientista não só resolveria o problema de o jovem recém-formado não ter o status de trabalhador com férias, décimo terceiro e tudo o mais, mas também ajudaria a resolver o problema da pós-graduação ser hoje uma tábua de salvação para os nosso jovens e não ser valorizada como ela deveria ser.
    Como tem sido a repercussão dessas ideias dentro da universidade?
    Críticas só de longe, por e-mail, sem mostrar a cara. Recebo muito apoio de alunos, que querem ter o seu trabalho reconhecido. Eu não entendo muito bem porque a ideia de profissionalizar a ciência incomoda tanto algumas pessoas. Mas as pessoas que se incomodam são as que estão lá no alto, são os diretores de institutos etc. Fica a impressão ruim de que eles não querem perder a mão de obra quase de graça. É muito comum ouvir: "Você está ganhando dinheiro para estudar". Esse é o tipo de mentalidade que mata a ciência. Isso é uma herança do século 18, pois os primeiros cientistas eram diletantes de famílias ricas, que não precisavam de dinheiro para fazer pesquisa. Hoje a realidade é outra, mas faltou mudar essa parte da pesquisa ser reconhecida como trabalho que é.
    Quais são os próximos passos da sua pesquisa?
    Estamos trabalhando com animais de cérebro enorme. Será o teste da nossa hipótese de que é o número de neurônios que importa e não simplesmente o tamanho do cérebro ou a relação com o tamanho do corpo. Estamos terminando agora de estudar um cérebro de elefante, depois baleias e estamos começando a trabalhar com pássaros para entender a diversidade de maneiras com o cérebro é construído e a relação que isso tem com as capacidades cognitivas e comportamentais dos diferentes animais. Mais adiante, vamos estudar a relação entre a construção do cérebro, o metabolismo e o sono. Por que animais de grupos diferentes têm necessidades diferentes de sono? E como isso está relacionado com o metabolismo do cérebro e o número de neurônios.

    RAIO-X SUZANA HERCULANO-HOUZEL
    NASCIMENTO
    No Rio de Janeiro, em 1972
    FORMAÇÃO
    Bióloga formada pela UFRJ, é professora da mesma instituição e fez pós-doutorado no Instituto Max-Planck de Pesquisa do Cérebro (Alemanha)
    DIVULGAÇÃO
    Publicou seis livros --o último, "Pílulas de Neurociência para uma Vida Melhor", compilação de seus textos publicados na Folha, para onde escreve desde 2006. Também é colunista da revista "Mente & Cérebro"
    PRÊMIOS
    Recebeu o Jabuti de Literatura e o Prêmio José Reis de Divulgação Científica

      quarta-feira, 1 de maio de 2013

      Mais um artigo de cientista da USP é cancelado - Fernando Tadeu Moraes

      folha de são paulo

      É o segundo caso de 'despublicação' de pesquisa assinada pelo bioquímico Rui Curi
      FERNANDO TADEU MORAESCOLABORAÇÃO PARA A FOLHAUm artigo de autoria do diretor do ICB (Instituto de Ciências Biomédicas) da USP, Rui Curi, foi "despublicado" nesta semana, deixando de ter validade como parte da literatura científica.
      Esse é o segundo artigo de Curi retirado de uma publicação. No começo de janeiro, um trabalho assinado por ele e por ex-alunos seus sofreu o mesmo processo após denúncias do blog especializado "Science Fraud".
      O artigo agora retratado foi publicado no periódico "Journal of Endocrinology" em 2007 e já havia sido alvo de uma errata publicada no começo do ano, por conter imagem "substancialmente similar" a outra de um trabalho do próprio Curi publicado na revista "Clinical Science".
      Os editores do periódico revisaram a justificativa dos autores que baseou a errata e concluíram que, tendo em vista os princípios éticos da revista, o artigo deveria sofrer uma retratação e não apenas uma correção.
      A autora principal do artigo foi aluna de doutorado de Rui Curi.
      Após a "despublicação" do primeiro artigo, em janeiro, a reitoria da USP constituiu uma comissão de especialistas para analisar a conduta do diretor do ICB.
      O prazo inicial de 60 dias para a apresentação do relatório foi prorrogado por mais 30 dias. Depois disso, foi pedido um parecer externo sobre o caso e o prazo foi novamente estendido, agora para o começo de maio.
      Rui Curi foi procurado ontem para comentar o caso, mas não atendeu às ligações.

        quinta-feira, 18 de abril de 2013

        Piauí já tinha presença humana há 22 mil anos, segundo estudo

        folha de sao paulo

        FERNANDO TADEU MORAES
        COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

        Um artigo de pesquisadores franceses e brasileiros traz novos dados à discussão sobre a data da chegada do homem à América ao analisar três sítios arqueológicos no Piauí e mostrar evidências de presença humana na região até 22 mil anos atrás.
        Os achados dos pesquisadores, publicados no periódico "Journal of Archaeological Science", são mais uma evidência empírica contra o chamado paradigma "Clovis first", a teoria mais antiga sobre a ocupação das Américas.
        Proposto por arqueólogos dos EUA na década de 1930, o modelo sustenta que os primeiros moradores do continente vieram a pé da Ásia durante a Era do Gelo há cerca de 13 mil anos --quando havia uma ponte terrestre entre os dois continentes-- e se dispersaram pelas Américas.
        Editoria de Arte/Folhapress
        "As evidências trazidas pelos estudos de artefatos líticos [objetos feitos com pedra lascada ou polida] não deixam dúvida da nossa descoberta", disseram Christelle Lahaye e Eric Böeda, líderes do time de arqueólogos. As escavações foram feitas entre 2008 e 2011 na Toca da Tira Peia, localizada no Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, e 113 artefatos de pedra foram recolhidos de cinco camadas do solo.
        Foi utilizada uma técnica que mede o dano natural da radiação solar em cristais como quartzo e feldspato presentes nos sedimentos nos quais foram encontrados os artefatos. Com isso, os cientistas conseguiram estimar a última exposição do solo à luz solar, variando de 4.000 anos no topo a 22 mil anos atrás no terceiro nível.
        Uma dificuldade desse tipo de estudo é saber se as lascas nos artefatos são resultado de trabalho humano e não de fenômenos naturais.
        "Encontramos ferramentas feitas a partir de matérias-primas que não se encontram perto do abrigo. Isso nos leva a concluir que elas foram escolhidas, trazidas, trabalhadas e utilizadas pela ação humana", disse Gisele Felice, da Universidade Federal do Vale do São Francisco.
        Para os autores, isso significa que homens viveram nessa parte do mundo no mínimo 10 mil antes do previsto.
        ROTA ALTERNATIVA
        Niède Guidon, presidente da Fundação Museu do Homem Americano e uma das autoras do trabalho, crê que as descobertas da equipe franco-brasileira reforçam a hipótese de que a chegada do homem à América se deu por várias regiões do continente.
        "Pensamos que houve migrações vindas da África por uma corrente marítima que vem do litoral africano até o Nordeste, e há migrações mais tardias que chegaram pelo sul, vindas do Pacífico."
        Segundo Guidon, grupos de humanos podem ter começado a sair da África a partir das grandes secas que atingiram o continente há cerca de 130 mil anos.
        Astolfo Araújo, do Museu de Arqueologia e Etnografia da USP diz, no entanto, que os modelos da vinda do homem pela África e pelo Pacífico, apesar de viáveis, são frágeis, devido à ausência de evidências convincentes.

        ANÁLISE
        Debate fica em torno de pistas indiretas com a falta de ossos
        RICARDO BONALUME NETODE SÃO PAULONão existe tema mais polêmico na ciência do que a origem do ser humano ou a sua disseminação pelo planeta.
        Basta ver o título de um livro popular sobre o tema, "The Bones of Contention", que usa uma expressão que significa um assunto sobre o qual não há consenso. Poderia ser traduzido como "os ossos da discórdia".
        No caso da colonização humana da América, o problema é pior: faltam ossos. São raros os sítios arqueológicos antigos com ossos humanos.
        Muito do que se debate sobre o tema acaba sendo em função de pistas indiretas, como pedras lascadas que poderiam ser instrumentos de fabricação humana.
        O sítio no Piauí sempre foi considerado um problema pela falta de provas concretas da presença humana. Uma grande ajuda aos seus defensores foi dada pelas pesquisas em Monte Verde, Chile, pela equipe do americano Tom Dillehay. Se havia gente no Chile, por que não no Piauí, mais perto da rota de migração vinda da Ásia?
        Por exemplo, a equipe descobriu restos de algas marinhas em Monte Verde, indicando que poderiam ser uma das fontes de alimento dos antigos índios do sítio.
        Monte Verde teria sido habitado há pelos menos 14 mil anos, mil anos antes portanto da cultura Clovis nos EUA.
        Os antigos habitantes teriam percorrido uma rota pelo litoral oeste das Américas vindos da Ásia, embora também existam especulações sobre rotas marítimas.
        A discussão dedica muita atenção às datas de povoamento e pouca ao cotidiano dos antigos colonizadores: o que comiam, onde moravam, como viviam, o que caçavam?
        Para Nicole Waguespack, da Universidade de Wyoming, mais dados confiáveis são necessários e também "construções teóricas capazes de integrar tais dados".

          domingo, 14 de abril de 2013

          O suicídio e a batalha por sua prevenção - Entrevista - José Manoel Bertolote

          folha de são paulo

          Viagem sem volta
          O suicídio e a batalha por sua prevenção
          FERNANDO TADEU MORAESRESUMO Médico psiquiatra lança manual de prevenção ao suicídio e ao comportamento suicida, que passa a figurar em compêndio de transtornos mentais. Ele comenta alguns dos muitos tabus que cercam o assunto, como a divulgação na imprensa, o luto duplicado, as frágeis estatísticas e a relação com doenças.
          Prevista para este ano, a inclusão de uma categoria de comportamentos suicidas no novo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o chamado DSM 5, referência na área de saúde mental em todo o mundo, pode ajudar os médicos a quantificar melhor esse fenômeno, em especial as tentativas, cujas taxas podem ser 40 vezes mais altas do que as dos suicídios consumados.
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          Essa é a opinião do psiquiatra José Manoel Bertolote, que acaba de lançar "O Suicídio e sua Prevenção" [Unesp, 142 págs., R$ 18]. Ele afirma, em entrevista à Folha, que a depressão, o alcoolismo e a esquizofrenia são as três principais causas por trás das mortes autoinflingidas.
          Estima-se hoje em 1 milhão o número anual de mortes por suicídio em todo o mundo. Isso o coloca como uma das "três principais causa de óbitos em determinadas faixas etárias de vários países e em várias regiões do globo", escreve Bertolote. No livro, o psiquiatra traça um histórico sobre o tema a respeito do qual já se debruçaram teólogos, juristas, filósofos, sociólogos entre outros, e analisa, sob o prisma da saúde pública, suas causas no Brasil e no mundo.
          Bertolote, 65, trabalhou por quase 20 anos na OMS (Organização Mundial da Saúde), onde chefiou a equipe de transtornos mentais e neurológicos. Uma de suas atribuições nesse período era auxiliar países a elaborar políticas de prevenção de suicídio. Hoje, ele é professor voluntário na Faculdade de Medicina da Unesp, em Botucatu, na qual se formou em 1971.
          Durante a entrevista, Bertolote fez um pedido: gostaria que fosse incluído neste texto o número do telefone do Centro de Valorização da Vida, o CVV: 141.
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          Folha - Como o sr. vê a inclusão da categoria de comportamentos suicidas no novo manual de psiquiatria?
          José Manoel Bertolote - Vejo com bons olhos. Hoje há boas estatísticas de mortes por suicídio para cerca de dois terços do mundo, mas não há um registro centralizado de tentativas de suicídio. Se uma pessoa ingere um veneno e vai parar no pronto-socorro, o caso é registrado como intoxicação; se ela corta os pulsos, lesão cortante. A intencionalidade acaba nunca sendo registrada.
          A inclusão de uma categoria de comportamento suicida é bem-vinda, pois vai permitir dar uma visão melhor desse quadro. Estudos mostram que a taxa de tentativa de suicídios chega a ser 40 vezes mais alta que a taxa de suicídios consumados.
          Como o suicídio se tornou um assunto da medicina?
          Até cerca de três séculos atrás, o suicídio era basicamente um problema teológico. O catolicismo considerava o suicídio um pecado grave, o islamismo considera até hoje o pior pecado, pois é a destruição da obra divina. Havia também o interesse de filósofos e, na Inglaterra e em vários outros países, o suicídio era considerado uma morte indigna. O direito o tratava como um crime contra o Estado.
          Foi a partir dos séculos 17 e 18 que médicos passaram a se interessar pela questão do suicídio e a considerar que o suicídio tinha uma relação estreita com a saúde, porque eles julgavam que todo suicídio era um ato de loucura. E isso foi ganhando adesão com o tempo. No século 20, consolidou-se a ideia de que o suicídio é um problema de saúde e, sobretudo, de saúde pública.
          Há relação entre suicídio e doença?
          O suicídio, em primeiro lugar, não é uma doença. Na perspectiva da saúde pública, é um fenômeno social de distribuição irregular na sociedade. Mas há estudos em todo o mundo que mostram que, por trás de grande parte das mortes por suicídio, existem doenças.
          A maioria dessas doenças são mentais, mas há também uma grande associação entre suicídio e doenças incuráveis e dolorosas. A mortalidade de portadores de HIV por suicídio, por exemplo, caiu muito depois do advento do coquetel de drogas, quando ela deixou de ser essa doença mortal. As doenças mais associadas ao suicídio são a depressão, o alcoolismo e, um pouco atrás, a esquizofrenia.
          Quais são os limites da prevenção do suicídio?
          Não acredito que o suicídio possa ser erradicado, pois é um fenômeno humano que existe desde sempre. Há, por exemplo, uma porcentagem de suicídios por trás da qual, por mais se investigue, não se encontra uma doença ou causa clara.
          Durkheim, em sua tipologia de suicídios, fala do suicídio altruísta [situação em que um indivíduo está tão conectado a sua comunidade, que abdica de sua individualidade, acreditando que sua morte pode trazer benefícios para a sociedade]. Como é que se vai prevenir isso? Não há o menor sentido. Não é disso que a prevenção do suicídio se ocupa. A prevenção se ocupa dos casos considerados evitáveis, porque decorrentes de um fator que poderia ser removido [como o alcoolismo].
          Um dado importante e comprovado é que a maioria das pessoas que tentam o suicídio não quer morrer. São pessoas que querem mudar uma situação, escapar de um problema e, às vezes, a situação é tão tantalizante que a pessoa não enxerga outra saída. Há estudos com pessoas que fizeram uma tentativa de suicídio por um método muito letal e estão próximas de morrer. Elas são entrevistadas nesse momento. A imensa maioria fica desesperada quando percebe que vai morrer e que é irreversível.
          A mídia deveria ter um papel nessa prevenção?
          A mídia tem um grande papel na prevenção do suicídio. Há um mito de que não se pode tocar no assunto nos jornais. A imprensa pode ajudar ou atrapalhar de acordo com a forma que trata o assunto. Abordar o tema com sensacionalismo, promovendo o ato, explicando métodos etc. só atrapalha, já que sempre existe, em toda população, um certo número de indivíduos suscetíveis. Agora, abordar de uma maneira potencialmente educativa ajuda, sem dúvida.
          O que o sr. acha de grupos como CVV e Samaritans [fundação inglesa aberta em 1953 dedicada à prevenção do suicídio]?
          Eu já trabalhei com CVVs e Samaritans de vários países do mundo e tenho muita admiração pelo trabalho deles. Um ponto importante a ressaltar é que eles não fazem só a prevenção do suicídio; seu grande mérito é auxiliar uma pessoa em crise. Eles conseguem solucionar uma crise que talvez hoje não fosse suicida, mas que, pela falta de perspectiva, poderia evoluir para uma crise suicida. Penso que eles deveriam ser estimulados pelas autoridades sanitárias.
          Como é o suicídio entre as populações indígenas?
          As taxas de suicídios em populações indígenas são as mais altas em qualquer país do mundo, segundo estudos. Isso se explica com fatores sociológicos. Em geral populações indígenas são marginalizadas, pobres. Além disso, cada vez mais se identifica nessas populações indígenas o álcool como um fator desagregador, desestabilizador, causando conflitos e levando ao suicídio.
          O álcool que havia em populações tradicionais indígenas brasileiras era o cauim, uma bebida de rituais, com baixo teor alcoólico; aí, de repente, eles pegam a cachaça, que tem um teor alcoólico altíssimo. E isso se agrava, pois as populações indígenas da América são de origem asiática, e é muito comum entre os asiáticos uma alteração genética que dificulta o metabolismo do álcool. Juntando todos os fatores, temos uma situação muito trágica numa população pequena de índios.
          Pode-se falar de um luto diferente para os parentes de um suicida?
          O luto de uma perda inesperada, sobretudo por uma forma inaceitável, é um luto mais complicado que o luto "normal". O suicídio sempre desperta nos que ficam no mínimo dois sentimentos: culpa e raiva. Isso causa um mal-estar tão grande que chega a ser um fator de risco de suicídio. São relativamente comuns suicídios em famílias em que um membro acaba de se suicidar.
          Há um importante movimento internacional de sobreviventes, chamado Survivors, fundado por um casal americano que perdeu sua única filha pelo suicídio. Eles se aproximam de famílias em luto para conversar, compartilhar experiências. O resultado é o desenvolvimento de uma solidariedade intragrupal e o sentimento de solidariedade e responsabilidade pelos outros.
          Entre 1980 e 2008 a taxa de suicídios de homens brasileiros quase dobrou. Quais são as possíveis explicações para isso?
          Foi um aumento muito localizado, em jovens de 16 a 25 anos. O que vou dizer agora é mais uma impressão do que uma afirmação científica. Duas coisas que afetam particularmente esse grupo aconteceram nesse período: por um lado, houve uma explosão do número de usuários de drogas; por outro, houve a reforma psiquiátrica que fechou radicalmente o número de leitos psiquiátricos. Esses leitos foram fechados no momento em que o aumento dos usuários de drogas pedia um número maior. A sociedade nesse período também se tornou mais violenta. Na mesma época, houve aumento do número de homicídios, especialmente entre os jovens.
          O que se sabe sobre as bases genéticas do suicídio?
          Essa é uma área pobre de resultados. Eu, particularmente, acho muito improvável que alguém encontre o gene do suicídio. O que se sabe é que existem genes da violência. Nos indivíduos com alto risco de violência, isso pode se expressar como um suicídio dramático ou como um homicídio. Casos de pessoas que pegam uma arma, matam vários e depois se matam certamente envolvem pessoas extremamente violentas.
          Uma grande dificuldade é que grande parte dos estudos genéticos é feito com gêmeos. Suicídio é um evento relativamente raro; encontrar gêmeos não é tão comum; e encontrar gêmeos nos quais um se matou e outro não é mais difícil ainda, o que torna as análises estatísticas muito pobres. O suicídio é uma coisa muito mais complexa do que pode ser expressada por um gene.
          Como o sr. vê o direito ao suicídio?
          Eu sou um pouco antiquado, acredito no juramento de Hipócrates, que diz que a tarefa principal do médico é preservar a vida. Claro que existem limites nos quais a preservação da vida não tem mais sentido. Filosoficamente, eu consigo entender alguém que, em plena posse de suas faculdades mentais, queira se matar; medicamente eu não tenho meios de justificar isso.
          Vejo o direito ao suicídio com ressalvas, mas sempre fica a pergunta incômoda: quem sou eu para dizer a alguém aparentemente consciente dos seus atos e que quer se matar que ele não deveria fazer isso?
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          "O suicídio, em primeiro lugar, não é uma doença. O suicídio, na perspectiva da saúde pública, é um fenômeno social que possui uma distribuição irregular na sociedade"
          "A mortalidade de portadores de HIV por suicídio, por exemplo, caiu muito depois do advento do coquetel de drogas, quando ela deixou de ser essa doença mortal"
          "O suicídio desperta nos que ficam dois sentimentos: culpa e raiva. Chega a ser um risco. São comuns suicídios em famílias em que um membro acaba de se suicidar"

            quinta-feira, 11 de abril de 2013

            Consumo excessivo de álcool cresce 24% entre as mulheres

            folha de são paulo

            Entre 2006 e 2012, aumentou para 18,5% a parcela de brasileiras que tomam quatro doses ou mais em duas horas
            Números são de estudo nacional sobre consumo de álcool que entrevistou mais de 4.600 brasileiros
            CLÁUDIA COLLUCCIDE SÃO PAULOFERNANDO TADEU MORAESCOLABORAÇÃO PARA A FOLHAAs mulheres estão bebendo mais e com mais frequência. Nos últimos seis anos, a proporção das que consomem álcool de maneira excessiva aumentou 24%, passando de 15% para 18,5% das brasileiras.
            É o que revela o segundo levantamento nacional de álcool, divulgado ontem pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).
            Foram entrevistadas 4.607 pessoas com 14 anos ou mais em 149 municípios brasileiros. Desse total, 1.157 eram adolescentes.
            Segundo Ronaldo Laranjeira, professor titular de psiquiatria da Unifesp e coordenador do levantamento, o aumento do consumo de álcool por mulheres reflete a maior frequência do ato de beber socialmente, e não em casa.
            "Mulheres que socializam como homens estão bebendo tanto quanto eles."
            Esse consumo excessivo de álcool é o que os especialistas chamam de "binge", isto é, a ingestão de quatro unidades ou mais de bebida, para mulheres, e cinco unidades ou mais, para homens, em um período curto de tempo (duas horas).
            Na pesquisa, uma unidade de álcool equivale a uma lata de cerveja, uma taça de vinho ou uma dose de vodca.
            Entre 2006 e 2012, houve um aumento de 31% nessa forma de consumo entre os brasileiros que bebem.
            Os dados mostram que, no geral, houve um aumento de 20% na proporção de bebedores frequentes (uma vez por semana ou mais).
            ENCHER A LATA
            Segundo Laranjeira, o brasileiro tem um comportamento diferente em relação à bebida do observado em outras partes do mundo.
            "Na Europa e nos EUA, há uma taxa baixa de abstêmios e uma taxa alta de bebedores moderados. Aqui, há muitos abstêmios e, comparando com os dados de 2006, quem já bebia passou a beber mais e com maior frequência", disse o psiquiatra.
            O levantamento mostra que quase um em cinco bebedores frequentes consome álcool de forma abusiva e tem um comportamento compatível com dependência.
            Os dados também revelam que 32% dos adultos que bebem dizem já não terem sido capazes de conseguir parar de beber em alguma ocasião.
            É o caso da funcionária pública federal Joyce, 49. Ela conta que sempre bebeu acima da média das amigas. "Enquanto elas estavam no primeiro copo, eu já estava no terceiro." Após os 30 anos, ela perdeu o controle.
            "Queria parar, mas não conseguia. Não bastava o fim de semana, comecei a beber também durante a semana. Não rendia no trabalho."
            Assim como ela, 8% dos entrevistados que bebem admitem que o uso de álcool já teve um efeito prejudicial no trabalho e 9% relataram que houve o prejuízo à família ou ao relacionamento.
            "Minha filha já me viu sair bêbada de um bar. A sorte é que ela foi estudar no interior e não presenciou as piores cenas de bebedeira", diz Joyce, livre do vício há dez anos.
            Para Laranjeira, o aumento no consumo excessivo de álcool pela população brasileira reflete o aumento da renda nos últimos anos, principalmente entre as classes mais baixas.
            Enquanto na classe A o consumo "binge" se manteve estável, nas classes C, D e E houve, respectivamente, um aumento de 43%, 43% e 48% nesse comportamento.
            Os efeitos da Lei Seca também já podem ser percebidos: houve diminuição de 21% na proporção de pessoas que relatam terem dirigido após o consumo de álcool no último ano, em relação a 2006.
            Para Ilana Pinsky, professora da Unifesp que também participou do estudo, entre as medidas que podem reduzir o consumo estão o aumento de preço das bebidas e a restrição dos locais de venda e da publicidade. Ela defende ainda mais ações de prevenção e tratamento.


            DEPOIMENTO
            'Engravidei na balada e não sei quem é o pai'
            DE SÃO PAULO
            Após 16 anos de alcoolismo, inclusive durante duas gestações, a dona de casa Sueli, 46, conseguiu abandonar o vício.
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            "Fui abandonada pela minha mãe aos seis anos e passei a ser criada pela minha avó. Era uma família que não gerava amor, gerava álcool. Meus avós, minha mãe e meu irmão, todos eram alcoólatras. Minha irmã morreu de overdose.
            Comecei a beber cedo, com 15, 16 anos. Ia aos bailes nos fins de semana, mas era tímida, tinha vergonha de namorar, de dançar.
            Aí descobri que, depois de algumas cervejas, me tornava poderosa.
            Aos poucos, comecei a beber a partir de quinta-feira. Aos 21, engravidei na balada. Não me lembro de nada. Não sei quem é o pai da minha filha. Mesmo grávida, continuei bebendo.
            Tive minha filha, mas não cuidava. Largava com a minha avó alcoólatra e ia para as baladas beber.
            Quando minha filha tinha nove meses, resolvi morar com um homem que mal conhecia. Tive sorte, foi um homem que me acolheu, que falou: Pare de trabalhar e cuide da sua filha'.
            Mas em vez de cuidar dela, passei a beber mais, só que em casa. Meus vizinhos cuidavam dela.
            Começaram as brigas, físicas e verbais. Meu marido chegava em casa do trabalho e queria a esposa. Encontrava uma bêbada.
            Quatro anos depois, nasceu minha segunda filha. Também a gerei no álcool. A partir daí, o descontrole foi total. Era minha filha maior que cuidava da caçula, de mim e da casa.
            Eu deixava a menor na escolinha, às 10h da manhã. Depois, passava na quitanda, comprava bebida [no começo era cerveja, depois passou a ser pinga com açúcar], começava a beber em casa e apagava.
            Um dia, minha filha menor quebrou uma garrafa de vinho e bati tanto que ela ficou dois dias de cama [começa a chorar compulsivamente]. No dia seguinte, eu não me lembrava de nada.
            E ela dizia: Eu odeio a senhora, não tenho mãe'. Até hoje ela não me perdoa.
            Já a maior conseguiu entender que tudo o que eu fiz foi por causa de uma doença chamada alcoolismo, não foi por maldade.
            No dia 13 de janeiro de 1998, decidi dar um novo rumo na minha vida. Liguei para o AA [Alcoólicos Anônimos]. No dia seguinte, ingressei na irmandade.
            A partir daí, comecei a ser mãe de fato. Depois disso, tive mais dois filhos, que hoje têm 14 e 11 anos. Eles dizem: Mamãe, eu te amo'. Das filhas mais velhas, nunca ouvi isso."

            terça-feira, 2 de abril de 2013

            Manifesto defende psicanálise como opção para autismo

            folha de são paulo

            Psicanalistas veem tentativa de excluir o método das políticas de tratamento; para psiquiatra, não há evidência de benefício
            FERNANDO TADEU MORAESCOLABORAÇÃO PARA A FOLHAO Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública, que agrega mais de 300 profissionais de cem entidades, lança hoje, Dia Mundial de Conscientização do Autismo, um manifesto em defesa do tratamento psicanalítico para pessoas com o transtorno.
            O documento é uma reação da comunidade psicanalítica ao que esses profissionais chamam de "tentativa de excluir a psicanálise" das políticas públicas de atenção ao autista.
            No fim do ano passado, a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo lançou um edital para o credenciamento de instituições para o tratamento de crianças autistas. O edital excluía a psicanálise, considerando só terapias cognitivo-comportamentais.
            Após manifestação de entidades que representam os psicanalistas, o edital foi retirado. A secretaria informou, em nota, que houve um erro no edital e que outro será lançado em breve.
            Para Estevão Vadasz, coordenador do Ambulatório do Autismo do Instituto de Psiquiatria da USP, excluir a psicanálise não é um erro.
            "Não há nenhuma evidência científica de que a psicanálise possa ter influência terapêutica positiva na evolução das crianças autistas", diz o psiquiatra.
            A ONG Autismo e Realidade, que reúne informações sobre o tratamento do transtorno, também não indica a psicanálise, segundo a psicóloga Joana Portolese, coordenadora-executiva da ONG.
            Para os psicanalistas, essas opiniões têm origem na falta de informação. "Eles acham que nós apenas replicamos a análise em adultos nas crianças autistas, que pedimos para eles contarem seus sonhos e fazerem livre associação", diz Maria Cristina Kupfer, professora do Instituto de Psicologia da USP.
            A diretora científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise, Vera Regina Fonseca, explica que a psiquiatria e as terapias comportamentais são dirigidas à eliminação dos sintomas, como o atraso na fala e no aprendizado.
            "Nossa proposta vai na contramão disso e busca aumentar a capacidade de estabelecer relações e compartilhar emoções."
            Segundo Fonseca, o psicanalista tenta compreender e interpretar o estado emocional da criança e ajudá-la a regulá-lo. "Isso se dá por uso de brinquedos e jogos, do estabelecimento de parcerias e da interpretação das atividades da criança."
            Ela afirma, no entanto, que ainda são necessárias pesquisas científicas mais abrangentes sobre o método.

              sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

              Cientistas criam orelha impressa em 3D

              folha de são paulo


              FERNANDO TADEU MORAES
              COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

              Cientistas da Universidade Cornell, nos EUA, conseguiram criar orelhas biológicas com técnicas de impressão 3D. Os resultados foram publicados nesta semana na revista científica "PLoS One".
              Primeiro, a equipe digitalizou a imagem 3D da orelha de uma criança de cinco anos. Essa imagem serviu de base para a impressão de um molde em três dimensões.
              Lindsay France/Cornell/AFP
              Lawrence Bonassar, professor em Cornell, nos EUA, mostra orelha impressa em 3D em seu laboratório
              Lawrence Bonassar, professor em Cornell, nos EUA, mostra orelha impressa em 3D em seu laboratório
              Os pesquisadores desenvolveram um colágeno de alta densidade dotado de uma consistência gelatinosa que foi injetado no molde.
              Depois, adicionaram células cartilaginosas de orelhas de vacas. O colágeno impresso em 3D serviu como uma estrutura sobre a qual a cartilagem se desenvolveu.
              O processo é rápido. "Demora metade de um dia para desenhar o molde, um dia para imprimi-lo e 30 minutos para injetar o gel. Podemos remover a orelha [do molde] 15 minutos depois", disse Lawrence Bonassar, um dos autores do trabalho.
              A orelha é, então, deixada por dias numa cultura de células cartilaginosas antes de ser implantada no dorso de ratos para avaliar a durabilidade e a estabilidade da estrutura por três meses.
              BIOLÓGICA
              A diferença desse experimento para outros que implantaram orelhas em ratos é que, antes, a estrutura tinha algum componente sintético para manter suas dimensões.
              Agora, os cientistas conseguiram gerar uma estrutura com formato idêntico ao da orelha usada como referência e que poderá receber material celular do paciente.
              Para os autores do estudo, foi demonstrada a formação de uma cartilagem de orelha estável a longo prazo com propriedades comparáveis às da orelha nativa.
              Ed. de arte/Folhapress
              A nova técnica pode beneficiar pessoas que sofrem de microtia, uma deformidade congênita na qual a orelha não se desenvolve, e aquelas que a perderam por um acidente ou doença.
              Segundo Carlos Komatsu, diretor da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, as técnicas atuais de reconstrução de orelha são baseadas na retirada da cartilagem da própria pessoa.
              O material é retirado principalmente da costela e, por isso, a técnica é preferencialmente aplicada em crianças, já que nelas essa cartilagem é bastante maleável.
              A cartilagem é então esculpida e implantada. As limitações do procedimento, diz o cirurgião, são a consistência mais dura e a maior espessura da cartilagem retirada das costelas, o que gera um resultado esteticamente insatisfatório.
              Segundo Komatsu, a nova técnica consegue contornar essas dificuldades.
              Os pesquisadores advertem que a impressão 3D ainda precisa de ajustes antes do uso em humanos.
              O grupo pretende iniciar em breve testes com células cartilaginosas humanas, que são muito mais difíceis de cultivar que as células bovinas.
              Os cientistas também trabalham para reconstruir outras estruturas cartilaginosas com a impressora, como nariz e traqueia.
              "A técnica é bastante promissora, mas é algo que só será viável a longo prazo", afirmou Komatsu.
              Com agências internacionais

              sábado, 19 de janeiro de 2013

              Santa Casa cancela cirurgias por falta de materiais e remédios

              FOLHA DE SÃO PAULO

              Procedimentos não urgentes chegaram a ser suspensos durante a semana; hospital alega falta de repasses
              Silva Junior/Folhapress
              Pacientes na área interna Santa Casa, no centro de São Paulo, que enfrenta falta de materiais hospitalares e remédios
              Pacientes na área interna Santa Casa, no centro de São Paulo, que enfrenta falta de materiais hospitalares e remédios
              FERNANDO TADEU MORAESCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA
              O Hospital da Santa Casa de São Paulo enfrenta há uma semana problemas de falta de insumos hospitalares e remédios. A situação também atinge o centro cirúrgico.
              Na quarta-feira, todas as cirurgias eletivas (não urgentes) chegaram a ser suspensas.
              O hospital admite o problema (leia ao lado) e diz que o desabastecimento se deve a problemas de caixa que surgiram por atraso no repasse de verbas das Secretarias Municipal e Estadual de Saúde.
              A Santa Casa é uma entidade filantrópica privada que recebe repasses do governo federal pelos atendimentos feitos pelo SUS.
              Governo estadual e municipal também financiam. O pronto-socorro do hospital Central realiza em média cerca de 31 mil atendimentos por mês.
              A Folha apurou que faltam remédios para tratamento de hipertensão, de insuficiência cardíaca e antibióticos, além de materiais como agulhas, esparadrapos, pulseiras de identificação de pacientes e coletores de secreção, usados em pacientes entubados.
              Segundo médicos da Santa Casa ouvidos sob condição de anonimato, desde segunda-feira há uma lousa dentro do local em que médicos e enfermeiros se dirigem para pegar materiais e remédios com uma lista dos itens em falta.
              A indicação no local é atender os pacientes com materiais improvisados.
              Segundo o superintendente da Santa Casa de São Paulo, Antonio Carlos Forte, a crise no centro cirúrgico ficou restrita à quarta-feira. Segundo ele, ontem nenhum cirurgia foi suspensa. A Folha apurou, no entanto, que apenas cirurgias pediátricas, plásticas e de cabeça e pescoço ocorreram ontem.

              OUTRO LADO
              Hospital diz que há 'furo de caixa' por falta de repasse
              COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
              O superintendente da Santa Casa, Antonio Carlos Forte, diz que houve um "furo de caixa" por atraso no repasse de verbas das secretarias municipal e estadual de Saúde.
              "O doente está aqui internado, espera ser operado hoje e acaba não sendo, é claro que fica prejudicado." Ele, porém, afirma que nenhum paciente ficou "desassistido".
              Procurada, a Secretaria de Saúde do Estado negou o atraso e informou que foram repassados "em dezembro, R$ 12,6 milhões em recursos extras" e que o mesmo valor será repassado até o fim do mês.
              Já a secretaria municipal informou que pagou ontem R$ 5,8 milhões referentes a este mês. Sobre as despesas de dezembro, a pasta afirma que o débito de R$ 11,5 milhões também já foi quitado. (FTM)

              RAIO-X DA SANTA CASA
              Dados do hospital central:
              Inauguração: 31 de agosto de 1884
              Leitos: 708
              Salas de cirurgia: 37
              Leitos UTI adulto: 60
              Leitos UTI neonatal: 12
              Número de médicos: 861
              Número de funcionários: 4.673 (sem contar os terceirizados)
              31.125
              atendimentos por mês
              foram feitos nos prontos-socorros em 2011, em média
              2.172
              cirurgias por mês
              foram feitas no hospital no mesmo ano, em média
              Fonte: Santa Casa de São Paulo

                sábado, 12 de janeiro de 2013

                Eventos climáticos extremos se intensificam

                FOLHA DE SÃO PAULO

                Organização Meteorológica Mundial aponta 2012 e o início deste ano como períodos de turbulência acima da média
                Fenômeno ainda não pode ser creditado à ação do homem, segundo especialista em clima do Inpe
                Menahem Kahana - 10.jan.2013/AFP
                Nevasca em Jerusalém - Vinte centímetros de neve caíram na cidade entre quarta e quinta desta semana, cobrindo as ruas e até as palmeiras; tempestade foi a pior em 20 anos
                Nevasca em Jerusalém - Vinte centímetros de neve caíram na cidade entre quarta e quinta desta semana, cobrindo as ruas e até as palmeiras; tempestade foi a pior em 20 anos
                FERNANDO TADEU MORAESCOLABORAÇÃO PARA A FOLHAO ano de 2012 provavelmente ficará na história como um período de eventos climáticos extremos, tendência que tem se mantido nas primeiras semanas de 2013.
                A China vem enfrentando o pior inverno dos últimos 30 anos; a Austrália sofre com queimadas por todo o país e teve nos quatro últimos meses de 2012 os mais quentes da sua história; o Paquistão foi inundado por enchentes inesperadas em setembro; o Brasil teve uma de suas primaveras mais quentes e, nos EUA, o último ano teve a temperatura média mais alta na parte continental.
                "Todo ano temos tempo extremo, mas é estranho ter tantos eventos extremos ao redor do mundo de uma só vez", disse Omar Baddour, da Organização Meteorológica Mundial.
                No Brasil, ainda não há dados consolidados sobre a temperatura média do ano passado, mas, para Jose Marengo, pesquisador do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), os dados até agora apontam uma situação parecida com a dos EUA. "Em 2012, especialmente a partir de setembro, batemos recordes de temperatura."
                No âmbito mundial, as temperaturas foram altas também. Estimativas da Organização Meteorológica Mundial mostram que, entre janeiro e outubro de 2012, a temperatura média foi cerca de 0,5º C acima da média do mesmo período entre 1961 e 1990, o que deve levar o ano passado a ser o oitavo ou nono mais quente desde 1850.
                Poderia ter sido pior, mas o ano começou com a presença do fenômeno climático La Niña, que provoca um resfriamento anormal no oceano Pacífico tropical. A média de temperatura registrada nos três primeiros meses do ano foi a menor desde 1997.
                Marengo destaca a onda de calor que atingiu o Sudeste e o Centro-Oeste do Brasil entre 28 e 31 de outubro como um dos evento mais surpreendentes de 2012. A temperatura na capital paulista chegou a 36,6º C no dia 30. "Essas temperaturas não são esperadas na primavera."
                No plano mundial, segundo o pesquisador, o efeito do furacão Sandy sobre a cidade de Nova York no fim de outubro foi bastante marcante.
                "Em um país que está tão preparado para as mudanças climáticas, com sistemas de alarmes e abrigos, o furacão parou sua cidade mais importante. Isso mostra que ninguém está preparado para um evento extremo."
                AQUECIMENTO GLOBAL
                Para Baddour, o aumento da frequência dos eventos extremos é um sinal de que a mudança climática não virá só na forma de aumento das temperaturas e sim como anomalias intensas e desagradáveis.
                Mas, segundo Marengo, é difícil dizer qual é o peso da atividade humana nesses acontecimentos.
                "O que é possível dizer hoje é que existe um componente humano nos eventos climáticos. O que não foi demonstrado ainda é o tamanho desse impacto".
                Para este ano, o pesquisador espera anomalias de temperatura nos chamados meses de intervalo, como maio e outubro. "No ano passado tivemos um maio muito frio e uma onda incrível de calor em outubro."

                sábado, 5 de janeiro de 2013

                Revista 'despublica' artigo de cientistas acusados de fraude

                FOLHA DE SÃO PAULO

                Pesquisas de brasileiros foram alvo de denúncia em site internacional; eles dizem que houve erro, e não má-fé
                Estudo é assinado por diretor de instituto da USP e seus ex-alunos; ele diz que tomará medidas contra erros
                FERNANDO MORAESCOLABORAÇÃO PARA A FOLHAUm artigo científico assinado por brasileiros acusados de fraude por um blog internacional acaba de ser retratado, ou seja, "despublicado" oficialmente, deixando de valer como resultado científico. Os autores da pesquisa, porém, negam que tenha havido má-fé.
                O artigo havia sido publicado na revista científica "Journal of Lipid Research" e investiga como ácidos graxos, presentes no óleo de peixe, podem modular a ação de moléculas do sistema de defesa do organismo.
                Outros três estudos do mesmo grupo terão erratas publicadas, e há pelo menos mais um artigo sob análise.
                Um dos autores é Rui Curi, 53, diretor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e um dos principais cientistas do país na área de metabolismo celular. Membro da Academia Brasileira de Ciências, ele já publicou 479 artigos. Vários dos outros cientistas que assinam as pesquisas questionadas são ex-alunos do pesquisador da USP.
                Curi recebeu a Folha em sua sala, onde estavam o vice-diretor do ICB, Benedito Corrêa, e um ex-aluno, Sandro Hirabara, também autor do artigo e professor da Universidade Cruzeiro do Sul.
                Com relação ao artigo "despublicado", afirmou que não houve fraude. "São erros que nós não vimos. Asseguro que não houve má-fé."
                Segundo ele, no artigo cuja publicação foi anulada, o problema envolvia quatro imagens, que deveriam representar a quantidade de proteínas na amostra estudada por meio de marcas num gel.
                As imagens escolhidas para representar os dados estavam erradas e algumas estavam até repetidas, o que poderia sugerir que houve manipulação delas. A responsável pelo estudo, Renata Gorjão, foi orientada por Curi no doutorado. Segundo ele, o erro já estava na tese.
                Segundo Curi, o problema não altera as discussões e os resultados do trabalho. Ele explicou que a decisão de retratar o artigo foi tomada em conjunto com os editores da revista, "para que ele possa ser revisto e talvez ser publicado em outro periódico, pois os dados são importantes".
                DENÚNCIA
                O caso começou em novembro, por meio de denúncias no blog "Science Fraud" sobre dois artigos cujo autor principal é Rafael Lambertucci, ex-aluno de Curi, que também assinou os artigos.
                As denúncias tratavam de imagens que aparentemente eram repetidas nos dois trabalhos. Lambertucci respondeu ao blog dizendo que as imagens parecidas se justificavam porque faziam parte do mesmo experimento.
                Os dois artigos, um publicado na "Cellular Physiology and Biochemistry" e outro no "Journal of Cellular Physiology", terão erratas.
                A Folha pediu a dois pesquisadores da área que analisassem esses artigos. Segundo eles, há suspeitas de má conduta científica no trato das imagens, mas ressalvaram que apenas uma análise mais detida, baseada nos dados brutos da pesquisa, poderia confirmar se o problema se deveu a fraude ou erro.
                Após mais denúncias sobre artigos do grupo -entre eles o que foi "despublicado"-, o advogado de Curi enviou um e-mail ao blog dizendo que as acusações eram injustas. Depois de receber e-mails de outras pessoas pressionando-o, o autor do blog decidiu tirá-lo do ar.
                Curi conta que, após as denúncias, a comissão de ética em pesquisa do ICB o contatou. Após uma série de reuniões, ele afirma que o grupo detectou quais tinham sido os erros e comunicou os editores das revistas para realizar as correções devidas.
                Não há ainda, no entanto, nenhuma comissão independente da USP avaliando a conduta dos pesquisadores.
                Curi disse que o seu laboratório está adotando medidas para evitar novos erros.