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terça-feira, 27 de agosto de 2013

Rosely Sayão

folha de são paulo
A criança e a infância
O modo como a criança vive a infância depende de muitos fatores, entre eles o modo social de pensar a criança
"Não basta ser criança para ter infância." Essa frase contundente está presente no documentário "A Invenção da Infância" (disponível na internet) dirigido por Liliana Sulzbach, que propõe uma reflexão sobre os estilos de vida de nossas crianças no mundo atual. É uma frase que persegue meus pensamentos, conduz o meu trabalho e que, no último sábado, me fez pensar muito.
É que no dia 24 de agosto comemorou-se o Dia da Infância. Grandes reportagens a esse respeito nos veículos de comunicação ou mesmo pequenas notas lembrando a data, por acaso apareceram? De um modo geral, pouco vimos a esse respeito. A lembrança da existência dessa data parece ter ficado restrita aos grupos que, de maneira direta ou indireta, trabalham com e/ou para crianças.
Faz sentido esse silêncio da sociedade a respeito de uma data que, aliás, não deve ser considerada comemorativa. A infância está desaparecendo e temos contribuído de modo expressivo para isso. Como temos feito isso?
Para começar a pensar, temos de considerar que ser criança é um fato biológico, mas o modo como ela vive essa etapa da vida, que vai até a adolescência, depende de múltiplos e complexos fatores, entre eles o modo social de pensar a criança. É aí que entramos.
De um modo geral, cada vez mais a criança, notadamente a que pertence à família de classe média, tem sido tratada como um ser que precisa ser preparado para o futuro. Há algumas décadas, passamos a acreditar que quanto mais precocemente a criança for engajada em situações de estudos formais, maiores as chances ela terá de êxito no futuro.
Já temos inúmeros estudos e pesquisas que comprovam que iniciar o contato com o conhecimento sistematizado mais cedo não contribui no aprendizado que deve ocorrer a partir dos sete anos. Por isso, tudo o que conseguimos ao fazer isso é deixar de ver a criança em seu presente, ou seja, a vemos muito mais como um ser que, um dia, será alguém.
Também temos deixado a criança cada vez mais tempo na escola. As três ou quatro horas iniciais se transformaram, progressivamente, em cinco, seis, oito, dez e até 12 horas de permanência no espaço escolar! Se considerarmos que ir para a escola é o trabalho da criança, elas têm trabalhado demais, à semelhança de seus pais, os adultos.
Temos entendido que o tempo de permanência na escola é uma necessidade social já que os pais têm se dedicado muito à vida profissional. Conheço profissionais que trabalham muito além da jornada e justificam o excesso como necessário para dar conta da responsabilidade profissional. E a pessoal, com os filhos, onde temos colocado tal responsabilidade?
Crianças têm se alimentado como adultos que se alimentam mal. E, como estes, têm enfrentado doenças por causa disso. Esse fato não ocorre por falta de informação dos responsáveis pelas crianças e sim pela falta de paciência e dos cuidados necessários que elas necessitam.
Ah, mas elas pedem, exigem até, as porcarias ofertadas insistentemente e disponíveis em todos os cantos. Sim, mas por isso vamos permitir que fiquem escravas de seus impulsos e que consumam como adultos?
Abordei dois pontos apenas de nossa contribuição direta para o fim da infância. Há muitos outros. Por isso, todo dia deveríamos fazer essa reflexão: queremos que nossas crianças tenham infância, ou já consideramos esse conceito obsoleto?

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Rosely Sayão

folha de são paulo
Tutela on-line
Para conquistar a autonomia é preciso passar pela heteronomia, ou seja, ser governado por um outro
A internet já não é mais novidade. Os pais já têm muita informação sobre como os mais novos podem aproveitar bem o uso da rede e sobre como podem se colocar em risco dos mais variados tipos. Mesmo assim, as dúvidas continuam. Ou melhor, permanecem.
Semanalmente sou consultada por pais que querem saber com que idade devem deixar o filho usar mídias sociais e/ou usar a internet sozinho, por quanto tempo eles podem ficar na internet e sobre como controlar o uso da rede para evitar que eles tenham acesso a conteúdos impróprios para a idade.
Será que são dúvidas mesmo o que os pais têm? Desconfio que não. Afinal, basta usar a própria rede para encontrar centenas de sites que orientam os pais a esse respeito. Além disso, já usamos a internet o tempo suficiente para termos acumulado uma boa experiência nesse assunto.
Mas, se não se trata de falta de informação, o que é que confunde os pais a ponto de deixá-los inseguros para fazer uma escolha, tomar uma decisão a esse respeito?
Os pais não querem ser vistos pelos filhos e por seus pares como caretas. No século 21, agir como um careta soa ofensivo, humilhante, ultrapassado. E como a internet é vista como um instrumento extremamente atual, regrar seu uso para os filhos parece ganhar o sentido de antigo. Careta.
Acontece que é prerrogativa do adulto que tem filho ser careta. Você pode ser antenado com todos os recursos tecnológicos, pode ter uma visão de mundo muito atual, pode entender o mundo como um jovem. Mesmo assim, será considerado careta por seu filho pelo simples fato de ser mãe ou pai. Conheço adolescentes que consideram seus pais caretas justamente por se comportarem como jovens.
Por isso, melhor usar a caretice intrínseca a seu papel, caro leitor, para transmitir a seus filhos os valores que você preza. Além disso, sempre é bom relembrar que, para conquistar a autonomia, que é a capacidade de governar a própria vida, é preciso passar, necessariamente, pela heteronomia, ou seja, ser governado por um outro. Melhor que esse outro seja a mãe e/ou o pai, não é verdade?
Os pais temem também que os filhos fiquem à margem de seu grupo e que sejam diferentes porque não frequentam os mesmos sites que os colegas, não jogam os mesmos jogos que eles, não vejam o vídeo do momento etc.
Esse temor só faz sentido quando entendemos que para fazer parte de um grupo é preciso se comportar como os demais. Não! Para participar de um grupo é preciso saber integrar-se a ele e para se integrar a qualquer grupo é fundamental o autoconhecimento.
Se você autoriza que seu filho faça qualquer coisa só porque a maioria dos colegas faz, você não o ajuda a se conhecer. Sem se conhecer, ele não aprende a se respeitar, e reconhecer as próprias diferenças é absolutamente necessário para manter a identidade e, portanto, a dignidade no relacionamento consigo mesmo e com o outro.
Em resumo: não há regras que levem o seu filho a fazer um bom e positivo uso da internet. Então, restam o uso do bom-senso, a aplicação dos valores familiares e o respeito à fase da vida de seu filho.
Crianças e adolescentes precisam da tutela dos pais na vida de um modo geral. O uso da internet é apenas uma pequena parte da vida que demanda essa mesma tutela.

    terça-feira, 13 de agosto de 2013

    Rosely Sayão

    folha de são paulo
    Aprendizado e angústia
    Com o incentivo de um adulto, a criança consegue encarar melhor o difícil processo de aprendizado
    Ficar concentrado em algo que exige muito de nossa atenção tem sido cada vez mais difícil e doloroso. Vivemos num mundo que nos diz, incessantemente, que precisamos ter satisfação logo, que a dor precisa ser evitada e/ou suprimida, que a felicidade é a melhor escolha.
    Quando tentamos nos concentrar em uma tarefa árdua, logo percebemos que as distrações presentes em nosso entorno são, quase sempre, bem mais sedutoras, não é verdade? Dá vontade de beliscar algo gostoso, de atender a um telefonema nada importante, de ler as mensagens que chegaram, de buscar algo na internet etc.
    Pronto: está armada a cilada que tem como objetivo nos retirar da situação incômoda em que estávamos. Ter de realizar algo que não é nossa escolha no momento e que exige esforço e tempo de dedicação perturba, angustia, provoca insatisfação. E é disso que queremos fugir.
    Claro que, ao agirmos assim, a situação irá se complicar porque, afinal, aquela tarefa precisará ser realizada mais cedo ou mais tarde. Aí é que entra o exercício da maturidade. Realizamos um esforço ainda maior para dar conta de nossa responsabilidade porque sabemos que ela é intransferível.
    A criança sofre esse contexto muito mais do que o adulto. Imagine, caro leitor, uma criança ao fazer uma lição ou ao aprender algo que dizemos que ela precisa saber.
    Certamente você já testemunhou uma cena desse tipo. Ela decide apontar o lápis, organizar seu material à mesa, pegar (dezenas de vezes) algo necessário na mochila... Além disso, sente fome e vontade de ir ao banheiro, olha para sua borracha e se lembra de uma outra que tanto queria mas não tem.... E assim ela segue, sem saber que o seu comportamento visa unicamente escapar da angústia que ela enfrenta.
    Nós, que aqui estamos há muito mais tempo do que ela, fomos tão tomados por esse mesmo contexto, que nem sempre nos damos conta de que a criança precisa de nossa ajuda nesse momento. Ela precisaria saber, por nossa condução, que ela pode comer mais tarde, que não precisa de tanto material por perto, que a vontade de ir ao banheiro pode ser postergada etc.
    Ao contrário, tratamos de atender a todas as suas solicitações na tentativa de "limpar" a situação para que a criança consiga, finalmente, se dedicar ao que precisa. Tudo o que conseguimos ao agir assim é estimular a criança a escapar de outros modos de sua missão.
    Há um grupo de crianças que confunde a angústia que a toma nesse momento com dor. Dor física: dor de cabeça, dor de barriga, dor na mão, por exemplo, são reclamações frequentes de crianças que enfrentam a angústia de ter de aprender algo.
    Como a lógica médica passou a reger nossas vidas, damos toda atenção a tais dores, que não são inventadas pela criança, é bom ressaltar: são confundidas por ela.
    Quase todas as escolas hoje têm enfermaria; a qualquer hora do dia, se você passar por lá, caro leitor, encontrará alguma criança com tal reclamação, tanto quanto muitas outras no banheiro, no bebedouro, vagando pelos corredores.
    Elas deveriam ser encorajadas a ficar em classe e a enfrentar a angústia que o aprendizado provoca. Com nossa ajuda, com nosso apoio, com nossa firmeza e carinho, elas podem enfrentar tal desconforto por conta própria e seguir em frente.
    O resultado seria o crescimento da autoestima, que se desenvolve à medida que a criança adquire confiança em sua capacidade de colocar em ato seu potencial.

    terça-feira, 6 de agosto de 2013

    Rosely Sayão

    folha de são paulo
    Cala a boca já morreu?
    Adultos querem tranquilidade e filhos e crianças agitadas fazem os pais perderem a paciência; como conciliar?
    "Cala a boca, menino!" Essa frase já foi usada com regularidade por muitos pais há algum tempo. Quando a criança interrompia uma conversa de adultos com insistência, quando falava o que não deveria falar, quando o momento exigia silêncio, por exemplo, a frase era dita com tranquilidade pelos adultos.
    O mais interessante é que a expressão não era considerada agressiva, tampouco humilhante, nem pelos adultos nem pela própria criança. Era como dizer "Fica quieta, menina!" de modo mais incisivo, quando a situação assim o exigia.
    Com o passar do tempo, os conceitos de educação dos filhos mudaram, a maneira de tratar a criança mudou e os adultos passaram a buscar uma convivência com os filhos que fosse mais respeitosa. Deixamos, pouco a pouco, de tratar as crianças como se elas não tivessem sentimentos reativos à maneira como os adultos se relacionavam com ela.
    Essas mudanças provocaram transformações na formação da criança: ela passou a ser mais questionadora, a ter mais presença e a ser reconhecida como integrante do grupo familiar, com direitos, e não apenas com o dever de obedecer aos pais. Surgiu, então, uma frase: "Cala a boca já morreu".
    A transição de uma fase à outra não ocorreu sem percalços, é claro. Muitos pais se perderam, as crianças passaram a ser o centro da família e tornaram-se ruidosas, exigentes, autoritárias até. Foi então que passou a circular no mundo adulto a ideia de que as crianças não têm limites e esse conceito pegou.
    O mundo dos adultos mudou concomitantemente: a juventude deixou de ser uma etapa da vida e passou a ser um estilo de viver e isso levou o adulto a viver mais para si e a ter grandes dificuldades de renunciar ao que considera importante em sua vida. A busca da felicidade transformou-se em meta de vida e isso fez com que problemas e dificuldades que surgiam no trajeto da vida fossem ignorados ou contornados para que desaparecessem.
    Como consequência dessa nova forma de estar no mundo, tanto de crianças quanto de adultos, surgiram contradições. Os adultos querem tranquilidade e filhos ao mesmo tempo. As crianças querem ser atendidas e, hiperestimuladas, tornam-se agitadas e fazem os pais perderem a paciência em curto espaço de tempo. Como conciliar a convivência de expectativas tão distintas?
    O avanço tecnológico nos permitiu ressuscitar o "Cala a boca, menino!". Por onde andamos, vemos crianças entretidas com tablets, aparelhos celulares, reprodutores de vídeos portáteis. Em restaurantes, em carros, em hotéis, em praias, vemos crianças hipnotizadas com as traquitanas tecnológicas.
    A televisão já ocupou esse lugar, tanto que foi chamada de "babá eletrônica". Mas ela tem restrições: só pode ser usada em casa. Agora, esses outros recursos possibilitam que as crianças deixem de perturbar os pais em qualquer lugar.
    A tecnologia e a internet e suas amplas possibilidades fazem parte da vida de nossas crianças e são recursos que podem ser usados de modo rico e favorável a elas. Mas, dessa maneira que as temos usado, é apenas mais um estímulo que se junta a tantos outros.
    É ingenuidade pensar que a criança se acalma com seu uso. Ela se agita mais ainda sem ter alvo certo, sem aprender a dirigir sua energia para o que precisa, torna-se ainda mais dispersa.
    O "Cala a boca, menina!" de hoje é bem mais sofisticado e sedutor, mas continua a ser um "cala a boca".

    terça-feira, 30 de julho de 2013

    Rosely Sayão

    folha de são paulo
    De volta para a escola
    Umas das funções da escola é inserir a criança no mundo público --e essa é uma lição difícil para a criança
    Nos próximos dias, as crianças voltarão às aulas depois de um período de descanso. O melhor desse retorno é reencontrar os colegas, conviver e brincar com eles e até mesmo provocá-los. Isso também faz parte do relacionamento entre elas.
    Durante as férias, em geral, as crianças ficam sem a rotina rigorosa que a escola impõe até mesmo fora de seu espaço. É que o horário escolar determina também os horários em casa. Horários para dormir, para acordar, para alimentar-se e para brincar, entre outros, são organizados pela família de acordo com o horário em que os filhos vão para a escola, não é verdade?
    Além da retomada de uma rotina nem sempre agradável para a criança, retornam também as responsabilidades com a vida escolar: lição de casa, estudo para um bom aproveitamento, aulas particulares e outras atividades complementares. E voltam também a cobrança dos pais e as próprias da criança, é claro.
    Por isso é que, depois das férias, independentemente da idade, a criança passa novamente por um período de adaptação. E, nesse recomeço, muitos pais enfrentam birras, recusas, mal humor, resistências e choros que atrapalham a retomada da rotina e o cotidiano familiar, sempre marcado por horários.
    É preciso ter paciência porque é difícil mesmo para a criança passar de uma situação para outra quando a escolha não foi feita por ela. Quando ela está dormindo não quer acordar, quando está brincando não quer ir tomar banho e, quando está no banho, não quer sair. Haja paciência! Mas esse é mesmo o ingrediente mais importante quando se tem filhos.
    Há também um ponto importante que nem sempre é considerado nessas horas difíceis para os pais, que podem achar que tudo não passa de manha dos filhos.
    Como integrante da família, o filho é único, mesmo quando há irmãos. Todos os filhos são únicos na dinâmica familiar atual. E, acima de tudo, as crianças são o centro da família.
    Agora, imagine, caro leitor, sair desse lugar privilegiado e passar a ser mais uma entre tantas outras crianças. Não, não é nada fácil para ela essa passagem do aconchego e da segurança do ambiente familiar para a impessoalidade do mundo público. Essa é uma das funções fundamentais da escola. Aliás, essa é uma das lições mais difíceis para a criança: a entrada no mundo público. Difícil, mas absolutamente necessária.
    Na experiência de ser mais uma, a criança tem vantagens e desvantagens. Ela vivencia, por exemplo, relacionamentos em que o afeto não é o eixo central. Por mais que isso possa parecer ruim, saiba, leitor, que é muito bom! Os afetos familiares são fundamentais, mas também pressionam, exigem, cobram. Livrar-se deles por um período do dia é estruturante também para a criança.
    Por outro lado, participar de um grupo de adultos e de pares que a criança não escolheu pode ser incômodo. Mas assim será a vida dela num futuro próximo e, por isso, é tão importante que ela aprenda a viver por conta própria no ambiente social.
    É por isso que muitas crianças expressam, de maneiras diversas, algum desgosto no retorno às aulas. E é por isso também que os pais precisam ser pacientes, compreensivos e amorosos na situação, porém firmes e confiantes de que o filho conseguirá superar sua dor. E a escola deve realizar essa transição docemente.
    Aprender e crescer doem, mas ninguém deve permanecer na infância além do tempo próprio dela, não é?

    terça-feira, 23 de julho de 2013

    Rosely Sayão

    folha de são paulo
    Novidades
    Festinha com 'Asa Branca' como tema, acampamento, piquenique... As crianças adoram essas novidades
    Um número pequeno mas expressivo de famílias de classe média iniciou uma mudança importante em seu estilo de vida em função da formação dos filhos.
    O primeiro ponto que percebo nessa mudança diz respeito ao consumo como ponto de inserção dos filhos nos grupos de seus pares. Não sei se você percebeu, caro leitor, que as famílias, no geral, se comportam, no que se refere aos filhos, de uma maneira semelhante, o que torna a vida das crianças muito parecida.
    Por exemplo: a comemoração dos aniversários sofreu um processo de pasteurização tal que as próprias crianças, apesar de demandarem a mesma festa que os colegas tiveram, já estão entediadas porque sabem antecipadamente e com exatidão o que vai acontecer.
    Bufês que oferecem os mesmos brinquedos e brincadeiras com monitores, convites distribuídos a todos os colegas de classe, sem distinção, doces, temas, enfeites e bolos sempre iguais. Que enfado!
    Hoje, os temas começam a mudar, principalmente com crianças abaixo dos seis anos que frequentam escolas que as introduzem no mundo preferencialmente pela arte e pela cultura.
    Para ilustrar, dois casos: uma garota quis que sua festa fosse inspirada em um poema de Cecília Meireles que havia trabalhado na escola e um garoto escolheu o tema "Asa Branca", que também estava pesquisando em classe. Não é encantador a criança conseguir escapar das armadilhas dos temas recorrentes dessas festas e, assim, afirmar sua identidade?
    O número de convidados das comemorações encolheu e nem sempre são festas que dão o tom do aniversário. Conheço pais que foram acampar com o filho e alguns de seus amigos e outros que fizeram um piquenique em praça pública. É preciso dizer que as crianças adoraram tais novidades!
    Os passeios com os filhos também estão mudando. Encontrei nestas férias muitas famílias em Inhotim --espaço cultural e botânico com arte contemporânea localizado em Brumadinho, MG. Vindas de vários Estados diferentes, elas lá estavam para explorar o espaço com as crianças. E deu gosto observar como as todas elas acompanhavam com interesse e curiosidade as diversas exposições do museu.
    Ah! E não é que também as férias das crianças passaram a ser bem-vindas para muitos pais? Aprender a se relacionar com os filhos sem a rotina que a vida escolar impõe tem sido um desafio para os pais. Muitos não sabem o que fazer com as crianças em casa e com muito tempo livre. E não me refiro aqui aos pais que não podem tirar férias ao mesmo tempo que os filhos, que isso fique bem claro.
    Pais que têm tempo para os filhos e, mesmo assim, os enviavam a programas de férias, descobriram que as crianças podem ficar em casa sem muita programação especial. O relacionamento entre eles e a descoberta da criança de que ela tem liberdade para escolher o que quer fazer estão marcando as férias de muitas famílias.
    Finalmente: essas famílias estão em busca de escolas diferentes para seus filhos. O que esses pais procuram? Escolas que tratem as crianças como crianças mesmo quando elas frequentam o ensino fundamental, que agucem a curiosidade de seus alunos pelo conhecimento, que saibam se comunicar com crianças e jovens e, principalmente, que os ensinem a viver em grupo e a administrar os conflitos com os pares.
    O problema é que as famílias têm encontrado muita dificuldade para achar escolas assim. Isso significa que é hora de repensar a organização escolar!

      terça-feira, 16 de julho de 2013

      Rosely Sayão

      folha de são paulo
      Tutela e emancipação
      Confiar no filho adolescente é ignorar o fato de que ele ainda não é adulto; é preciso, portanto, vigiá-lo
      Conversei com um adolescente de 16 anos acompanhado de sua mãe e ambos estavam chateados um com o outro. O garoto disse à mãe que no final de semana iria dormir na casa de um amigo. Na madrugada, ela foi acordada por um telefonema de um hospital, pois o filho lá se encontrava em observação.
      Quem tem filhos imagina o estado em que essa mãe ficou até chegar ao hospital. Ela só sossegou depois de ver o filho e constatar que, de fato, além de um hematoma no braço, ele nada tinha.
      O garoto e seu colega decidiram ir até uma balada. No retorno, foram de carona com um amigo que estava com eles e sofreram um acidente leve, que provocou mais danos no carro do que nos quatro jovens que estavam dentro. Que sorte! Bem, aí começou a discussão entre mãe e filho.
      Ela, que disse sempre ter confiado no filho, sentiu-se traída pelo fato de ele ter feito algo que não havia sido previamente lhe informado. O segundo ponto que a mãe não aceitou foi o fato de o filho ter visto o colega tomar bebida alcoólica e, mesmo assim, ter aceitado a carona dele.
      Essa mãe, assim como muitas outras que têm filhos adolescentes, acreditava que podia confiar nele. Não, ninguém pode confiar que o filho adolescente irá sempre agir da maneira que os pais o ensinaram e esperam que ele faça. Por quê?
      Porque os adolescentes estão ainda em processo de desenvolvimento da maturidade e da autonomia que terão na vida adulta. Eles costumam ser impulsivos, nem sempre avaliam os riscos que correm e olham muito mais para o que lhes interessa. No geral, eles focam tanto o olhar no que buscam que acabam por perder a perspectiva que lhes permitiria ver além, ou seja, o contexto que os cerca nesse momento. É especialmente por tais motivos que muitos deles fazem coisas das quais se arrependem posteriormente.
      E esse era o estado do garoto com quem conversei: de completo arrependimento. Ele disse que iria mesmo, como planejado, dormir na casa do amigo, mas eles foram convidados por outros amigos para uma balada e decidiram ir.
      Disse também que viu o colega que ofereceu carona beber, mas achou que havia sido uma pequena quantidade e, além disso, pensou que economizaria uma boa grana do táxi.
      O garoto tem toda a pinta de ser um bom menino, mas não achou nada demais o que aconteceu. Seu arrependimento era apenas um: o de ter aceitado carona de um colega que bebera. Por causa disso, não se conformava com o grau de braveza da mãe, e lembrou que em outra ocasião ela já havia dado autorização para que ele fosse ao local da balada em que havia estado.
      A partir desse ponto, os dois achavam que não havia mais diálogo entre eles. Mas dialogaram muito bem com as ideias um do outro. Sempre que há diálogo --coisa rara-- entre pais e filhos, há conflito de ideias. Não é conversando que a gente se desentende? Diálogo não é estratégia de persuasão.
      O exemplo dessa mãe com seu filho nos dá algumas pistas. A primeira: confiar no filho adolescente é ignorar que ele ainda não é adulto. É preciso, portanto, tutelar os filhos, mesmo que a distância e com muita discrição. Segunda: os filhos precisam saber que alguns pontos de sua relação com os pais são inegociáveis. Informar sempre aos pais onde estão é uma delas, importante para adolescentes e seus pais.
      Moral da história: não dá para emancipar filhos adolescentes se eles ainda não estão prontos para isso.

        terça-feira, 9 de julho de 2013

        Virtude da polidez - Rosely Sayão

        folha de são paulo
        Uma pesquisa publicada em portais de notícias chamou minha atenção. Por meio dela, fiquei sabendo que diretores de recursos humanos de 19 países, entre eles o Brasil, consideram que a maioria dos profissionais não se veste de forma adequada para o trabalho.
        O interessante é notar que a média brasileira é maior do que a geral nessa questão: 9% é a média mundial dos diretores que afirmaram ver profissionais malvestidos com muita frequência e 42%, a média dos que viram o fenômeno ocorrer com certa frequência. No Brasil, os índices registrados foram de 22% e 54%, respectivamente.
        Essa notícia me lembrou algumas situações semelhantes que já acompanhei no espaço escolar. Por exemplo: não é raro o constrangimento de coordenadores e diretores quando notam que professoras, principalmente da educação infantil, vão para o trabalho com calças de cintura baixa. Como as professoras sentam-se no chão regularmente com seus alunos, acabam deixando descobertas partes do corpo que deveriam estar protegidas do olhar do outro nesse tipo de situação.
        E criança pequena não perdoa: "Mãe, eu vi o cofrinho da professora hoje!", disse em altos brados um garoto de quatro anos assim que sua mãe chegou para buscá-lo. O curioso é que coordenadores e diretores não sabem muito bem como conversar com os professores a esse respeito.
        Do mesmo modo, gestores escolares também não sabem como agir quando alunas do ensino médio vão para a aula excessivamente maquiadas e com roupas com decotes generosos, justas e curtas. Definir uniforme? Proibir certas roupas? Fazer o quê?
        A esse tipo de comportamento somam-se outros. Um exemplo é quando alunos de oito, nove anos, em plena aula, se distraem por intermináveis minutos com o dedo no nariz. Novamente, professores ficam constrangidos e não sabem se devem ou não interferir.
        A questão permanece em aberto sem uma boa solução, até agora, para as escolas que enfrentam esses tipos de problema. Por que elas não pensam em debater a questão com docentes e alunos à luz do conhecimento?
        Essas situações me levaram de volta à leitura deliciosa de um livro que li pela primeira vez há uns dois anos: "A História da Polidez", de Frédéric Rouvillois. A polidez, mesmo sendo considerada por muitos autores como uma virtude menor quando comparada a outras, é necessária para a boa convivência social, além de ser a porta de entrada para as chamadas grandes virtudes.
        A Revolução Francesa foi um marco na transformação de comportamentos sociais; hoje, com a existência de celulares, da internet e de uma informalidade radical nos relacionamentos interpessoais, tanto familiares quanto públicos, as normas da boa educação mudaram mais ainda. Entretanto, nos resta uma boa pergunta: e a polidez no sentido de civilidade, ou seja, no que se refere à boa convivência, ao respeito ao outro, a quantas anda? Famílias e escolas têm se ocupado dessa questão na educação dos mais novos?
        Certamente ganhamos muito com a transformação das rígidas e precisas regras de etiqueta que já tivemos de atender. Mas a reclamação constante de barulho, do desrespeito de regras básicas de trânsito, da grosseria no trato interpessoal nos apontam a necessidade de rever a educação para a virtude da polidez.
        As escolas, por exemplo, poderiam abrir a discussão com seus alunos sobre a adequação das vestimentas em situações diversas, só para voltar ao assunto do início de nossa conversa. E uma boa provocação inicial poderia ser a letra da música "Com que roupa?", de Noel Rosa.
        rosely sayão
        Rosely Sayão, psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia-a-dia dessa relação. Escreve às terças na versão impressa de "Cotidiano".

        terça-feira, 2 de julho de 2013

        Rosely Sayão

        folha de são paulo

        Ideologia do consumo na escola

        Nos últimos dias, duas mães me contaram fatos acontecidos nas escolas que os filhos frequentam e que as deixaram bem aborrecidas. São dois exemplos que podem nos ajudar a pensar a respeito do papel da escola no mundo contemporâneo.
        A primeira mãe contou que seu filho está num dos últimos anos do ensino fundamental e que a escola tem, anualmente, um evento que envolve as ciências da natureza.
        Essa é --ou pode ser-- uma atividade muito boa para os alunos, que precisam usar os conceitos que aprendem na teoria de um modo prático e apresentar o trabalho aos visitantes do evento --em geral pais e parentes--, o que colabora para o desenvolvimento da linguagem oral ligada ao conhecimento.
        Essa mãe, de um modo geral, apreciou bastante o acontecimento e ficou orgulhosa da participação do filho. Acontece que, dias depois, a escola enviou aos pais um questionário com o título "Pesquisa de Satisfação", com perguntas referentes ao evento que iam do uso do espaço à performance dos alunos.
        Essa mãe não gostou nem um pouco desse questionário e, ao trocar ideias com outros pais sobre o assunto, percebeu que eles se dividem em dois grupos: os que apoiam essa atitude da escola e a consideram um ato de parceria entre família e escola e os que, como ela, não acham a atitude pertinente.
        Já a outra mãe contou que a escola que o filho frequenta ofereceu "palestras" para as classes a respeito da nutrição e do valor de alguns alimentos. Acontece que quem ofereceu as tais "palestras" foi uma empresa que produz um desses alimentos, que foi distribuído graciosamente aos alunos após a explanação. Foi o que bastou para deixar essa mãe indignada e a fez procurar outra escola para o filho.
        Qual é o elemento comum em situações tão diversas? O fato de pais e alunos serem tratados como consumidores pelas escolas. Sim: no mundo atual, o papel do consumidor tem merecido atenção especial de nossa sociedade, não é verdade? Direitos cada vez mais respeitados, publicidade cada vez mais cara, bens de consumo mais sofisticados. Vivemos na era do consumo.
        E a escola? Qual o seu papel social nesse contexto? Repercutir essa ideologia? Claro que não. Cabe à escola, na formação cidadã de seus alunos, usar o conhecimento para que eles, em meio a tantas ofertas e pressão para o consumo desenfreado, possam fazer escolhas conscientes, bem informadas e críticas.
        E é bom saber que as escolas, quer queiram ou não, formam cidadãos, principalmente no "currículo oculto", ou seja, aquilo que é ensinado pelas atitudes tomadas, como essas de nossos exemplos.
        Os mais novos não vão à escola para satisfazer os pais, deixá-los orgulhosos ou para aprender a consumir. O mundo já se encarrega desse último item, muito bem por sinal.
        Eles vão à escola para, por meio do conhecimento, entender melhor o mundo, desenvolver senso crítico e ser capazes de pensar de modo diferente de seus pais. É justamente isso que possibilita que o mundo mude, não é verdade? Ou queremos que eles vivam como seus pais?
        Se, no entanto, a escola não pensar minuciosamente naquilo que ensina de todas as formas, ficará submetida a várias ideologias, principalmente a do consumo. É isso que queremos para os mais novos?
        rosely sayão
        Rosely Sayão, psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia-a-dia dessa relação. Escreve às terças na versão impressa de "Equilíbrio".

        terça-feira, 25 de junho de 2013

        Rosely Sayão

        folha de são paulo
        Cabo de guerra
        É preciso distinguir os conflitos insolúveis, que são poucos, dos que podem ser negociados com os filhos
        Uma leitora, mãe de dois filhos que têm seis e oito anos, diz que vive em conflito com os garotos.
        Ela quer que eles tomem banho, eles querem jogar videogame; ela quer que eles almocem, eles pedem petiscos; ela quer que eles se arrumem rapidamente para a escola, e eles demoram muito. "Parece que é de propósito", diz essa mãe.
        Bem ou mal, dependendo do dia, ela consegue dar conta da árdua tarefa de educar os filhos. O problema é que ela está começando a achar que a situação vai piorar.
        Como algumas de suas amigas têm filhos adolescentes e elas trocam experiências sobre o assunto, está assustada com o que a espera nos próximos anos.
        Em resumo, pergunta se os conflitos dos filhos com os pais no período da adolescência precisam ser tão pesados como ela tem visto.
        Seria tão bom educar sem conflitos, não é verdade? Às vezes, tenho a impressão de que esse seria o maior desejo dos pais -- e de professores também.
        Que tal mandar o filho tomar banho e ele ir na hora, lembrá-lo da lição e ele imediatamente se encaminhar para dar conta de sua responsabilidade, dizer que é hora de dormir e ele responder que já estava mesmo sentindo muito sono?
        Nunca será assim o relacionamento de pais com filhos, por um motivo simples: o que as crianças querem em geral não coincide com o que os pais mandam. Pronto: é assim que nasce um conflito. E esses conflitos são naturais no processo educativo porque as crianças miram apenas no que querem e os pais no que elas precisam.
        Esse tipo de conflito continua na adolescência, só que com novas aparências. Agora, eles querem ir para as baladas da moda, fazer viagens sem os pais, tomar bebidas alcoólicas etc.
        A questão é que os jovens têm, nesse período da vida, novos argumentos e já aprenderam muitas estratégias para pressionar os pais, que se sentem acuados frente a tantas demandas dos filhos.
        E tem mais: os pais podem pegar uma criança pela mão e levá-la ao banho, por exemplo, mesmo contra a vontade. Com o filho adolescente, já não dá para fazer isso.
        Converso muito com pais e noto que boa parte deles perde o foco na relação com os filhos porque quer que eles aceitem o que é dito. Isso pode acontecer de vez em quando, mas quando se tratar de um querer imperativo do filho, certamente os pais não vão conseguir convencê-lo a abdicar dele.
        Por isso, é preciso distinguir os conflitos insolúveis daqueles que podem ser negociados. E, pensando bem, os insolúveis são poucos, por isso dá para bancá-los.
        Por exemplo: se os pais acham que ainda é cedo para o filho frequentar baladas, vão ter de se preparar para reafirmar sua posição sempre, até que o filho tenha idade para ir. Se acham que ele pode ir, é bom lembrar que em determinados locais e horários há restrições de idade para entrar.
        Permitir que o filho frequente tais baladas significa aceitar que ele use estratégias ilícitas para ter êxito em seu intento. E isso se dará com a anuência dos pais. Esse fato pode trazer consequências para o relacionamento entre pais e filhos, já que alguma lição o jovem aprende com a atitude dos pais. O difícil é saber que tipo de lição ele absorve.

          terça-feira, 18 de junho de 2013

          Morte sem faz de conta - Rosely Sayão

          folha de são paulo



          A criança entende o conceito de morte? Devemos ou não anunciar a ela a morte de uma pessoa querida da família ou de um bicho de estimação? Se esse for o caso, como fazer isso? Ela deve ser levada a enterros, a cemitérios? Como lidar com as reações da criança quando ela recebe uma notícia desse tipo?
          Essas são questões delicadas para muitos pais, que não sabem como proceder nessas situações. Vamos conversar sobre esse tema, já que, mais cedo ou mais tarde, os pais terão de escolher como agir com seus filhos a esse respeito.
          Como uma criança com menos de seis anos entende a morte? Para isso, vamos lembrar como ela entende a noção de tempo.
          Começo com um exemplo. Uma criança de quatro anos pega um objeto para brincar. Segundos depois, quando a mãe percebe, tira o objeto da criança e diz que ela não pode brincar com aquilo. A criança, que havia gostado muito da brincadeira, pergunta quando ela poderia pegar o tal objeto, e a mãe responde com firmeza: "Nunca". A mulher continua com seus afazeres, de olho na filha que se distrai com outras coisas. Alguns minutos depois, a garota pergunta à mãe com ansiedade: "Agora já é nunca?".
          Nessa idade, a criança não é capaz de entender o significado de "nunca mais". Como o que a morte anuncia é exatamente que nunca mais a pessoa que morreu voltará, a compreensão da criança a respeito da morte é diferente da de um adulto. Mesmo assim, como ela merece ser respeitada e tem o direito à verdade, precisa ser comunicada da morte de parentes e, se possível, ser levada a funerais. Participar de rituais sociais é um modo de ser introduzido na vida.
          Um pouco mais tarde, entre oito e dez anos mais ou menos, a criança se apropria mais da noção de tempo e, consequentemente, da morte. Ela começa a entender de modo mais concreto que a morte pode afetar ela mesma e/ou seus pais, e isso é assustador.
          Foi essa situação que a mãe de uma garota de dez anos enfrentou. Colocou um filme para assistir com a filha cujo enredo parecia apropriado: um garoto, da mesma idade que ela, queria construir um grande número de bonecos de neve para entrar no livro de recordes e, assim, ser lembrado para sempre. O problema apareceu quando o personagem contou o motivo de seu desejo: ele tinha uma doença e iria morrer. A garota começou a chorar e pediu para parar de assistir ao filme.
          Sim: a criança se desespera com a ideia de que vai morrer --só que ela ainda não sabe quando. E, na atualidade, em que o mundo adulto foi devassado para as crianças, elas sabem que não são apenas os velhos que morrem: criança também morre. Não é a idade, a saúde ou qualquer outra coisa que possibilita a morte. É o fato de estar vivo.
          Mas é a partir desse momento que a criança cresce e passa a pensar. Como diz Fernando Savater em seu livro "As Perguntas da Vida", a evidência da morte traz amadurecimento, pensamento, humanização. Isso possibilita investir na vida.
          Por isso, as crianças não devem ser poupadas do fato, mas acolhidas em seu sofrimento, acompanhadas em sua angústia, apoiadas em seu crescimento.
          É: testemunhar o processo de humanização dos filhos não é simples. Exige força e coragem.
          rosely sayão
          Rosely Sayão, psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia-a-dia dessa relação. Escreve às terças na versão impressa de "Equilíbrio".

          terça-feira, 11 de junho de 2013

          Que pressa é essa? - Rosely Sayão

          folha de são paulo

          Que pressa é essa?


          Tenho recebido muitas mensagens de mães e de pais com dúvidas sobre qual é a melhor época para começar a tirar as fraldas dos filhos e como dar o primeiro passo. Vamos conversar a esse respeito, já que essa parece ser uma questão aflitiva para quem tem filho pequeno.
          Uma mãe me escreveu dizendo que ela gostaria de esperar a filha dar sinais de que está pronta, mas a escola a chamou para informar que eles já vão começar a tirar a fralda e a instruíram sobre o que ela deve fazer em casa.
          Uma leitora, cujo primeiro filho tem agora dois anos, conta que não aguenta mais ouvir tanta gente perguntar quando ela vai tirar a fralda do garoto. Por outro lado, uma avó confidencia que acha os métodos atuais para ensinar a criança a ir ao banheiro inadequados. São boas as questões, não? Então vamos a elas.
          O que eu li, nas linhas e nas entrelinhas das mensagens desses pais, é que eles se sentem pressionados. Fiz até uma comparação entre eles e quem tem filhos em época de entrar em faculdade. Parece, caro leitor, que são os pais que estão em prova nesse momento. Vamos manter a calma porque, nos dois casos, trata-se da vida dos filhos e de situações que eles devem resolver --com a nossa ajuda, claro!
          Não há tempo certo nem para começar nem para terminar esse processo; não há método mais ou menos adequado; não há receita. E sabe por quê? Porque não se trata apenas de controlar alguns músculos do corpo para conter o xixi ou o cocô; trata-se também de desenvolvimento pessoal, disponibilidade para o crescimento, tipo de relacionamento com a mãe e muito mais.
          A criança costuma dar sinais claros de que ela quer aprender a usar o banheiro. Os pais não precisam se preocupar tanto. O que não podemos é antecipar o processo. Recentemente eu assisti a uma reportagem em que pais colocavam o filho de meses para fazer xixi fora das fraldas. Será que essa criança irá debutar --me perdoe usar esse conceito antigo-- aos cinco anos? Que pressa é essa? Vamos respeitar o desenvolvimento de nossas crianças!
          Bem, mas quando a criança costuma dar esses sinais? Quando já controla melhor os músculos de seu corpo, o que podemos observar, por exemplo, quando ela consegue correr ou subir alguns degraus de escada. Além disso, quando ela se interessa pelo uso do banheiro.
          Talvez esse seja o melhor indicativo para iniciar o processo com a criança. Quando ela pergunta do uso do banheiro, pede para ir, quer ficar por lá mais tempo, por exemplo. Quanto mais natural for o processo, melhor para a criança.
          Os pais não devem atrapalhar. Para isso, precisam munir-se de calma e paciência. A criança nem sempre vai acertar, e, mesmo depois de os pais acharem que ela já aprendeu, ela vai querer usar o banheiro quando tiver vontade, não quando os pais quiserem. E mais: ganhar prêmios por fazer a coisa que os pais julgam certa confunde a criança.
          Esse é um momento importante, quando a criança conquista mais independência em relação ao seu corpo e adere de modo ativo ao estilo de vida adulto e de sua família.
          Quando a criança se nega a largar a fralda, embora nada em seu organismo a atrapalhe, é interessante refletir sobre quais motivos ela tem para recusar o estilo de vida que ela observa em casa e na escola.
          rosely sayão
          Rosely Sayão, psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia-a-dia dessa relação. Escreve às terças na versão impressa de "Equilíbrio".

          terça-feira, 4 de junho de 2013

          Sim, eles crescem - Rosely Sayão

          folha de são paulo
          Os pais reclamam das demandas incessantes dos filhos, mas sofrem quando essa situação começa a mudar
          A mãe de um garoto de nove anos vive uma crise que ela não percebe como tal e pode ser interessante pensar a esse respeito, principalmente para quem tem filhos com idade acima dos seis anos.
          Essa mãe diz que o filho sempre solicitou a presença dela para tudo, mas que agora está bem mudado.
          Até dias atrás, o menino ligava para ela perguntando o que deveria comer, se poderia ver tal filme e deixar a lição de casa para fazer à noite em companhia dela. Também pedia que a mãe escolhesse a roupa dele etc.
          Em casa, no fim de semana, o garoto vivia atrás da mãe para decidir do que brincar, o que fazer e quem convidar para jogar bola.
          Muitas mães vivem situações semelhantes e reclamam, porque gostariam de poder ler o jornal sem interrupções, de ir ao banheiro em paz e de passar ao menos uns dez minutos em casa ocupadas com as tarefas domésticas sem precisar se responsabilizar por cada uma das atividades dos filhos.
          Pois a mãe do garoto citado acha que ele está entrando na adolescência precocemente porque a tem procurado menos. Ela, que confessou ter desejado ardentemente alguns momentos de sossego, agora sente falta das demandas incessantes do filho.
          A mãe de uma adolescente se debate com situação parecida: diz que ela e a filha sempre foram muito próximas, mas já não sente mais essa proximidade.
          Antes, trocavam confidências, a filha lhe confiava segredos típicos de adolescentes e sempre pedia a opinião da mãe a respeito das amigas. Mas, de repente, segundo a mãe, tudo mudou.
          Quando ela se aproxima da filha durante uma conversa da garota ao telefone com amigas, percebe que ela muda de assunto rapidamente.
          Segredos, então, que anteriormente eram confidenciados por ambas, agora nem pensar: parece que, repentinamente, as duas ficaram sem assunto.
          Será que esse menino de nove anos e essa adolescente estão em crise? É provável que não, porque os filhos não precisam da constante proximidade dos pais.
          Quem consegue prestar atenção aos filhos se dá conta de que eles alternam com regularidade fases em que buscam a proximidade dos pais (da mãe, em especial) e o distanciamento deles.
          Os filhos têm o direito de identificar quando precisam dos pais e os querem muito próximos e quando já não querem isso.
          E quando mães, como as duas citadas, percebem pela primeira vez que seus filhos se afastam, o que está em jogo pode ser a angústia delas e não a mudança de comportamento dos filhos. E que angústia seria essa? A de se separar dos filhos.
          Pelo menos em teoria, criamos os filhos para que eles cresçam, não é? Não criamos nossas crianças para que permaneçam crianças para sempre. O crescimento resulta em assumir a própria vida e, portanto, separar-se dos pais.
          Talvez uma questão importante para reflexão de muitas mães da atualidade seja a dificuldade de suportar essa separação que, lembremos, ocorre desde o nascimento. Como atualmente os laços afetivos entre adultos estão frágeis e se rompem por qualquer motivo, por mais fútil que seja, a busca de um relacionamento próximo perene com os filhos parece oferecer alguma segurança aos pais.
          Mas com um custo demasiadamente alto para os filhos, que ficam, dessa maneira, impedidos de crescer e atingir a maturidade.
          Não é aos nove anos ou na adolescência que os filhos se afastam dos pais pela primeira vez. Mas pode ser a primeira vez que as mães reconheçam essa dor. A separação pode ser uma experiência dolorosa, mas suportável.
          E deve ser. Mães não são feitas de cristal e filhos precisam crescer.

            terça-feira, 28 de maio de 2013

            Rosely Sayão

            folha de são paulo

            Coisa de menino ou coisa de menina?


            Acompanho com regularidade blogs escritos por mães a respeito da maternidade, do relacionamento com os filhos e das dificuldades que encontram na educação deles.
            Fico impressionada ao constatar como há gente que reflete, que pensa a educação, que aprende com os erros cometidos e está sempre disposta a compartilhar tudo com outras mães e outros pais. Além disso, é uma delícia ler textos bem escritos, bem-humorados e criativos.
            Um dia desses, em um desses blogs que sigo, vi uma foto que quase não precisou de texto para expressar a opinião dessa mãe. Duas garotas, com menos de oito anos, riam para a câmera exibindo com alegria as fantasias que vestiam. De Batman e Robin. Uma única frase acompanhou a foto: "Para meninas com personalidade".
            Estava claro. Essa mãe questionava o que convencionamos separar como brinquedos e brincadeiras de meninos e de meninas. É sobre essa questão a nossa conversa.
            Até a primeira metade do século 20, os estereótipos a respeito do que era adequado para meninas e para meninos era quase consenso social. Azul para meninos, rosa para meninas; carrinhos para meninos, bonecas para meninas; certas profissões para homens, outras para mulheres e assim por diante.
            A partir dos anos 1960 tudo passou a mudar. Desconstruímos os rígidos papéis de homem e mulher e passamos a reconstruir novos, processo esse que ainda está em curso. Foram as crianças que mais ganharam com isso.
            O colorido das fantasias, inclusive de bailarina, dos adereços femininos, da maquiagem, das vestimentas e dos calçados de salto etc. passou também a habitar a vida dos meninos; carros, ferramentas, espadas, bolas etc. se transformaram também em coisas de menina.
            Não foi --e ainda não é-- sem temor por parte dos adultos que isso aconteceu. Meninas jogando futebol? Meninos brincando de casinha? Um estranhamento tomou conta de muitos pais, que manifestam resistência a esse novo estilo de vida. Os motivos? O principal, além da quebra de uma tradição, diz respeito à sexualidade, é claro.
            Professoras e coordenadoras de escolas de educação infantil ainda costumam ouvir reclamações de mães sobre brincadeiras na escola que os filhos relatam e que escapam aos estereótipos em vigor, um pouco mais fracos, mas que ainda valem para muita gente. A maioria das reclamações vem da parte de mães e pais de meninos. Não é interessante esse fato?
            Sabemos que preconceitos e estereótipos solidamente colocados na sociedade demoram a ser transformados e substituídos. É responsabilidade das organizações colaborar nesse processo.
            Muitas escolas, principalmente de educação infantil, têm dado valiosa contribuição para que esses estereótipos e preconceitos de que falamos enfraqueçam. Mas elas podem melhorar.
            Aí, em pleno século 21, empresas oferecem produtos em embalagens diferentes para meninas e para meninos! Exemplo? Chocolate rosa para elas e azul para eles, com brindes considerados femininos e outros masculinos.
            E ainda justificam que esse é um anseio do seu grupo consumidor. Ora, se o consumidor sempre tivesse razão, o mundo estaria muito mais atrasado. Talvez não tivéssemos carros e aviões, e sim carroças de boi sofisticadas.
            Muito se fala a respeito da responsabilidade social. Empresas exploram esse conceito principalmente para transformá-lo em marketing.
            A decisão de comercializar produtos dirigidos para meninas e para meninos é uma ação que expressa uma total irresponsabilidade social, não é verdade?
            rosely sayão
            Rosely Sayão, psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia-a-dia dessa relação. Escreve às terças na versão impressa de "Equilíbrio".

            terça-feira, 21 de maio de 2013

            Rosely Sayão

            folha de são paulo

            Escolas congeladas
            Nossas instituições de ensino estão mais interessadas em rankings do que em ideias criativas
            Recebi duas mensagens de professores que vão nos ajudar a pensar a respeito do que acontece com as escolas que os mais novos frequentam desde bem cedo. Dois profissionais de educação, distantes entre si em alguns aspectos e muito próximos em outros, vão nos conduzir em nossa conversa de hoje.
            A primeira mensagem veio de um jovem professor, tanto de idade quanto de profissão. Formado há poucos anos, ele diz que tem muitas ideias diferentes para sua prática docente e as usa para melhor compreender os alunos que frequentam a escola hoje, mas que se sente muito desestimulado em seu trabalho.
            O problema é que os colegas não só não reconhecem o potencial contido nas novas formas de ensinar e de se relacionar com os alunos como também não aceitam mudar seu modo de pensar. Esse jovem professor está com medo. Medo de se transformar em um docente semelhante aos seus colegas e, dessa maneira, perder a paixão pelo ato de ensinar.
            A outra carta veio de uma professora já aposentada. Ela contou que, durante os 25 anos em que esteve em sala de aula, trabalhou incansavelmente para que seus alunos entendessem que é preciso cuidar do espaço comum --a sala de aula e os demais ambientes escolares-- porque é o território de todos. Além disso, dedicou grande parte de seu tempo para ensinar a boa convivência.
            Ela afirmou ter conseguido bons resultados com os alunos. Mas, contou, por mais que tentasse influenciar seus colegas, nunca alcançava êxito com eles. E ela se cansou tanto que adoeceu.
            Dois depoimentos bem semelhantes de dois professores diferentes apontam para uma questão que parece estar invisível há muito tempo: o congelamento da escola. E essa situação tem uma relação íntima com quem não é professor, mas tem filhos na escola, em qualquer nível, e também com quem nem sequer tem filhos.
            Temos lido muitas notícias a respeito da educação. É impossível ignorar o que vem sendo insistentemente dito: uma característica importante para se estimular nos alunos é a criatividade do pensamento e da ação.
            A aprendizagem ocorre de modo mais consistente no coletivo e em ambiente colaborativo. O ensino da convivência pública e do papel do colega é fundamental --a formação da atitude do estudante determina em grande parte seu aprendizado. E os professores têm mais êxito em seu trabalho quando participam plenamente da equipe no espaço escolar.
            Criatividade, coleguismo, cidadania, trabalho em equipe? Certamente todas essas palavras estão presentes nos chamados projetos político-pedagógicos de todas as escolas. Mas, na prática, o que vemos é uma escola que todo dia faz tudo sempre igual, que ignora a participação verdadeira dos alunos, que desestimula a formação da equipe profissional.
            Nossas escolas estão muito mais interessadas na competitividade, no planejamento do professor, mesmo que seja burocrático, na massificação, tanto dos docentes quanto dos alunos. E você sabe, caro leitor, por que ela permanece assim congelada? Porque nossa sociedade assim o quer.
            Não é verdade que valorizamos o espírito competitivo incentivado nas escolas? Que damos a maior importância aos rankings baseados em avaliações? Que apreciamos nomes imponentes de métodos pedagógicos praticados e que acreditamos que é frequentando escolas que agem dessa maneira que o futuro dos mais novos será melhor?
            É assim que garantimos o congelamento da escola. E é assim, também, que vamos, aos poucos, apagando o brilho e a paixão de docentes (existem muitos deles que, como os professores citados, querem fazer diferente).
            Eles necessitam de muita coragem para não ceder à tentação de se acomodar no congelamento que a escola propõe e precisam de nossa ajuda. Vamos apoiá-los?

              terça-feira, 14 de maio de 2013

              E tome diálogo - Rosely Sayão

              folha de são paulo

              Conversei com um pequeno grupo de mulheres, amigas entre si e mães de adolescentes, a respeito dos desafios que elas enfrentam na educação dos filhos. E eles não são poucos, não é verdade? Em tempos em que há tanto adulto querendo viver como adolescente, para os verdadeiros jovens é duplamente difícil passar por essa fase.
              Bem, nessa conversa que durou pouco mais de uma hora, algumas questões centralizaram a atenção de todas. As opiniões das mães eram semelhantes, por isso achei interessante trazer algumas delas para nossa reflexão.
              O primeiro ponto, unanimidade entre elas, foi o que elas chamaram de "diálogo com os filhos". Essas mães procuram resolver quase tudo na base da conversa. O problema, elas contaram, é que essa estratégia considerada tão importante não funciona.
              Primeiramente, pedi que explicassem o que consideram "diálogo com os filhos" e em quais situações usam o recurso. Surpresa! Disseram usar o tal diálogo para tudo.
              Dialogam para cobrar as responsabilidades dos filhos, para negar um pedido deles que consideram inadequado, para mostrar que o que fizeram é errado etc. E tome diálogo o dia todo!
              Pedi que uma das mães explicasse como usa o diálogo com a filha de 14 anos, toda vez que ela pede para ir a uma balada para menores.
              A mãe disse que explica à filha que ela ainda não tem idade, que nesses locais há oferta de bebida alcoólica e o cérebro dela não está preparado para isso, que ela terá tempo para fazer isso etc.
              E por que não funciona? Porque a filha já mentiu para a mãe que ia dormir na casa de uma amiga e foi para uma balada. A mãe descobriu porque, coincidentemente, um amigo dela estava no local, viu a garota e a avisou.
              Foi difícil essas mães entenderem que isso que elas pensam ser diálogo, na verdade, não é. O que elas fazem são tentativas de convencer os filhos com palavras, argumentos e discursos de que a posição delas é a certa e, por isso, eles devem aceitá-la.
              Que ingênuo engano, não é verdade? Como tentar convencer os jovens de que eles ainda devem obedecer às normas familiares? Essa é uma batalha perdida de antemão.
              Os pais de adolescentes precisam aceitar que, em determinadas situações, não há diálogo, ainda. Há troca de informações, de opiniões, mas, se os pais não aceitam o pedido feito, negado está. Tratam-se de decisões que dizem respeito à vida dos filhos --poucas, de fato-- que os pais tomam e ponto final.
              Outro exemplo dado foi o "diálogo" que as mães tentam travar com os filhos sobre a vida deles. Elas querem saber de quase tudo para que possam, segundo elas, orientá-los. Querem saber quem eles namoram, com quem ficam nas festas, se usaram alguma droga e por aí vai.
              Os filhos escapam, dão respostas monossilábicas, desviam do assunto, dizem que a conversa não tem nada a ver. Com razão, defendem sua privacidade, já que, nesse caso, não há diálogo algum.
              Outro ponto interessante foi que várias mães acham "normal" que o filho tenha documento falsificado com idade maior. Uma, inclusive, disse que ajudou o filho a tirar o documento. Elas disseram que, como fizeram isso na adolescência, consideram normal também que os filhos façam a mesma coisa.
              Este é o problema: muitos pais fizeram mesmo isso quando jovens. Mas de maneira diferente, porque faziam bem escondido dos pais e isso significava assumir a responsabilidade pelo que faziam. De qualquer maneira, não são mais jovens. E pais sempre serão caretas para os seus filhos.
              Além disso, o mundo mudou. Uma mãe disse que tinha documento falso para entrar no cinema. Hoje, usam em baladas regadas a álcool, situação bem mais arriscada.
              Educar filhos adolescentes não tem sido tarefa fácil, principalmente porque o mundo adulto tem pensado e agido de forma bem parecida com a deles. Quem tem filhos nessa idade precisa assumir sua maturidade, não é verdade?
              rosely sayão
              Rosely Sayão, psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia-a-dia dessa relação. Escreve às terças na versão impressa de "Equilíbrio".

              terça-feira, 30 de abril de 2013

              Lição de desrespeito - Aluna de 13 anos de colégio particular denuncia assédio sexual praticado por colegas

              folha de são paulo

              Episódio recente de violência sexual envolvendo alunos de uma escola particular paulistana evidencia a falta de reflexão, de princípios éticos e de limites entre os adolescentes
              ELIANE TRINDADECOLABORAÇÃO PARA FOLHAJULIANA VINESDE SÃO PAULOA vítima tem 13 anos. Os agressores, 14. Todos são alunos de uma tradicional escola particular paulistana. No último mês, são o centro de um enredo que põe à prova o papel de pais, educadores e da própria instituição e que abre o debate sobre violência sexual entre adolescentes.
              A garota, do oitavo ano, diz ter sido assediada sexualmente por três meninos do nono ano. Segundo ela, os meninos mandaram uma mensagem de celular falsa, em nome de um amigo dela, marcando um encontro para depois da aula de inglês.
              Chegando lá, em uma praça perto do colégio, na zona oeste, ela conta ter sido cercada e agarrada contra a vontade pelos três. Conseguiu se desvencilhar e foi direto à escola fazer a denúncia.
              A instituição suspendeu os meninos por sete dias e se viu na obrigação de debater o fato, já que versões aumentadas ganharam os corredores. Uma orientadora percorreu as turmas do quinto ao nono ano esclarecendo 500 alunos.
              "É grave, mas não se trata de estupro", informou a direção da escola. Para não expor os envolvidos, a Folha preservou o nome da instituição.
              "Não houve violência física, mas desrespeito. Estamos trabalhando a questão e acreditamos ser possível reverter a situação dentro da escola", disse a coordenação.
              A família da garota decidiu não levar o caso à polícia. "Estamos tomando as decisões com o colégio", diz a mãe da menina, que é professora na mesma instituição.
              Os pais dos meninos não quiseram se manifestar. A garota também não quer mais tocar no assunto. Sua mãe diz respeitar a decisão, mas afirma: "Escolhemos viver a situação, e não esquecê-la. Estamos atentos às consequências e abertos ao diálogo".
              BRINCADEIRA BOBA
              Há duas semanas, em outra escola particular na mesma zona oeste, dois meninos de 12 anos foram suspensos por terem feito "uma brincadeira" com alunas da mesma idade. "Eles chegam por trás, põem a mão no ombro das meninas fingindo que vão abraçar e descem até os seios", descreve a orientadora. Só que uma reclamou. "Chegou com olhos cheios de lágrimas, disse que pegaram no seu peito."
              Um dos garotos assumiu e quis pedir desculpas à colega, que não aceitou. Os pais foram chamados e os meninos, afastados por um dia.
              Situações como essas são, sim, violência sexual, segundo a psicóloga Renata Coimbra Libório, pesquisadora da Unesp. "Não precisa consumar o estupro. O toque sem consentimento é abuso."
              Tempos atrás, um aluno distribuiu na sua escola um vídeo em que ele fazia sexo consensual com uma colega de 13 anos. Ele foi separado da turma até a conclusão do semestre e, depois, convidado a se retirar do colégio.
              Casos de adolescentes que passam dos limites são frequentes e não acontecem só na escola, mas em festinhas e baladas, lembra a psicóloga Rosely Sayão, colunista daFolha. "A sexualidade desses jovens está muito exacerbada e eles não têm noção de respeito. Acham normal passar a mão nas meninas e beijar não sei quantas", diz.
              A fase dos 13 anos é a pior, segundo Sayão. É quando a efervescência hormonal se junta à hiperestimulação.
              "Há estímulos o tempo todo, na TV e na música", diz Neide Saisi, psicopedagoga e professora da PUC-SP.
              Muitos desses estímulos não são positivos, segundo Antonio Carlos Egypto, psicólogo especialista em orientação sexual. Basta assistir a um programa de humor ou a peças publicitárias para perceber que "a imagem da mulher-objeto é usada de maneira escancarada", diz ele.
              "Os adolescentes falam que vão pegar' alguém. A gente só pega objetos", complementa Sayão.
              A desvalorização da mulher é reforçada pela família e pela escola mesmo sem saber, segundo Renata Libório: os pais valorizam o comportamento garanhão dos meninos e a escola pensa estar prevenindo a violência aconselhando as meninas a usar roupa larga e saia comprida.
              "Por que não ensinar o menino a respeitar a menina, não importa a roupa que ela use?", pergunta.
              PREVENÇÃO
              A prevenção da violência sexual nessa faixa etária depende de uma discussão sobre papéis e gêneros, segundo Egypto. E isso é responsabilidade da escola e da família. "Não tem só que discutir a prevenção de gravidez na adolescência. É preciso falar do prazer, de como conter os impulsos. Não podemos fingir que o desejo não existe."
              Dá para contar nos dedos as escolas particulares de São Paulo que têm projetos específicos de sexualidade, de acordo com Maria Helena Vilela, diretora do Instituto Kaplan, entidade que faz trabalhos em educação sexual.
              O tema está previsto nos Parâmetros Curriculares Nacionais. "Não é o que acontece. A sexualidade deve estar em palestras e no dia a dia dos professores, na forma como tratam todos os temas."
              No Gracinha (Escola Nossa Senhora das Graças), a professora de ciências e a orientadora são responsáveis por falar com as turmas sobre sexo.
              "Tenho uma aula por semana e falamos de sexo, internet e outros assuntos", diz Nausica Riatto, orientadora do sexto ao nono ano. Ela considera que o colégio faz um trabalho de prevenção, mas, mesmo assim, todo ano acontece uma polêmica relacionada a sexo na escola, como casos de exibição de imagem na internet.
              No Colégio Bandeirantes, a bióloga Estela Zanini coordena há 16 anos um programa de educação sexual que inclui aulas semanais. "Eles têm muita informação sobre sexo, o problema é que nem sempre essa informação é contextualizada, muitas vezes é cheia de preconceitos."
              O que falta talvez não seja educação sexual, mas o ensino de valores morais.
              De acordo com a pedagoga Luciene Tognetta, pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral, o tema é alvo de um jogo de empurra entre escola e pais. "Não cabe só à família ensinar respeito e regras de convivência", afirma.
              Os pais deveriam passar valores ligados ao espaço privado. A escola deveria ensinar regras da vida pública. "É no relacionamento com pessoas de fora da família que desenvolvemos princípios éticos apurados e aprendemos a respeitar qualquer um."
              Para Tognetta, o ensino moral deve ser espalhado por todas as disciplinas e servir de vacina contra a violência.
              "Ainda pensam que a moral é ensinada em aula de religião. É preciso debater, fazer com que o aluno pense nas suas atitudes. A escola tem esse dever."
              Mas a instituição sozinha não faz tudo, lembra Sayão. "A escola precisa de apoio, está acuada e impotente, e que apoio a sociedade tem dado? Não vejo ninguém como vítima ou culpado nesse caso. A sociedade é cúmplice dessa história."

                EUA e Canadá punem abuso sexual com expulsão de aluno
                SABINE RIGHETTIDE SÃO PAULOEm solo norte-americano, um fato como o ocorrido recentemente em uma escola de São Paulo, em que três alunos tentaram agarrar à força uma colega, provavelmente resultaria na expulsão dos adolescentes agressores.
                "Fico assustado em saber que os garotos foram apenas suspensos", disse à FolhaWilliam Taverner, editor-chefe do periódico científico "American Journal of Sexuality Education".
                Nos EUA, as punições são aplicadas dependendo do caso, das regras dos Estados e da própria escola.
                "É preciso garantir a segurança da vítima e acompanhar o desenvolvimento dos garotos agressores antes que eles voltem à escola", afirma Maia Christopher, diretora da ONG ATSA (associação para tratamento de abusadores sexuais, na sigla em inglês).
                No vizinho Canadá, atentados sexuais, assim como porte de armas ou de drogas, são motivo de expulsão se acontecerem em escolas públicas --onde estuda a quase totalidade da população em idade escolar. Os estudantes expulsos de escolas canadenses recebem aconselhamento para que melhorem de comportamento e sigam para outra escola.
                Além de definir punições mais severas para violência sexual, os EUA investem na prevenção. Hoje, 22 dos 50 Estados norte-americanos, além do Distrito de Columbia, exigem que as escolas públicas tenham educação sexual como parte do currículo.
                Em algumas regiões, como na Califórnia, essas aulas obrigatórias começam já no jardim da infância. "É preciso ensinar quais os toques e as atitudes que são inapropriados", diz Christopher.

                  'Suspensão é pena branda', diz educadora
                  COLABORAÇÃO PARA A FOLHADE SÃO PAULOOs três estudantes que armaram uma emboscada para a garota de 13 anos foram suspensos por uma semana, punição considerada branda demais por alguns pais de alunos da escola.
                  "Alguns pedem mais rigor, mas a maioria é solidária com a posição da instituição", diz a direção do colégio, que nem cogitou expulsar os meninos: "Seria tirar a questão da frente e jogá-la para a sociedade".
                  Os debates têm sido calorosos na instituição. "É normal o rebu dentro da instituição. Expulsar os meninos, porém, é perder a oportunidade de educá-los", diz Neide Saisi, psicopedagoga e professora da PUC-SP.
                  Já Ana Olmos, psicoterapeuta especializada em crianças e adolescentes, defende uma punição exemplar nesse tipo de caso. "Houve um abuso. A vida da menina está marcada. O mínimo que a escola pode fazer é expulsar sumariamente os garotos."
                  A especialista, que acompanhou casos semelhantes em outras escolas, entende a expulsão como medida educativa para toda a comunidade. "Tratar a questão só na esfera administrativa reforça a velha saída de pais que preferem abafar o caso e passar a mão na cabeça dos filhos, dizendo que a culpa foi da menina que se insinuou."
                  Segundo o juiz Eduardo Melo, ex-presidente da Associação Brasileira de Magistrados, Promotores e Defensores Públicos da Infância e da Juventude, dependendo da gravidade do fato, a escola pode atuar como mediadora, mas casos de estupro devem ser levados à esfera judicial. "Se a vítima é adolescente, só o ato de agarrar ou apalpar já pode ser considerado estupro de vulnerável", afirma ele.
                  Para a psicóloga Renata Coimbra Libório, da Unesp, punir não é a principal função da escola. "Escola não é delegacia. O papel da instituição é prevenir, é instigar uma discussão sobre o que aconteceu para que não aconteça de novo", afirma. "E, se a família da vítima quiser, pode ir até uma delegacia e fazer uma denúncia."
                  Para a pedagoga Luciene Tognetta, o principal é que os meninos pensem no que fizeram. "Eles precisam reparar o erro. Podem fazer uma campanha sobre violência sexual, dar uma aula para a turma sobre sexualidade ou mesmo pagar a terapia da garota. É o que chamamos de justiça restaurativa."
                  Já a vítima, além de receber apoio, deve ser encorajada a se indignar com a situação e se manifestar. "Ela não pode se sentir acuada por vergonha ou por discursos de adultos dizendo que ela vai ficar falada'", diz Olmos.

                    Lanche infeliz - Rosely Sayão

                    folha de são paulo

                    "É hora do lanche!". Essa frase, que era dita quase aos gritos pelas crianças quando soava o sinal na escola anunciando o intervalo, costumava ser uma alegria.
                    Depois de mais ou menos duas horas estudando ou brincando com os colegas e sendo conduzidas pelos professores, tomar o lanche trazido de casa e feito com carinho e dedicação pelos pais ou pelos avós, às vezes pela empregada da casa, era tudo o que as crianças precisavam.
                    O lanche na escola faz mais do que alimentar a criança ou matar sua fome. É ao fazer aquela refeição que o aluno relaxa e se lembra, nem sempre de modo consciente, da segurança de sua casa e da presença e do afeto dos pais. E é isso que refaz a energia da criança e permite que ela retome o seu período de trabalho escolar com mais coragem e mais confiança.
                    Eu tenho observado o tipo de lanche que os alunos tomam atualmente nas escolas.
                    Bem, primeiramente temos de lembrar que hoje há dois tipos de escola: aquelas que ainda preservam a tradição de a criança levar seu alimento de casa e aquelas que já oferecem o lanche para os seus alunos.
                    Por que tantas escolas privadas assumiram mais esse encargo em seu trabalho? Bem, pelo que sei, por dois motivos bem diferentes.
                    Algumas poucas dessas instituições se preocuparam com a qualidade da alimentação das crianças e assumiram a responsabilidade de educar seus alunos também nesse quesito.
                    Essas escolas, que atendem principalmente os menores de seis anos, preparam o lanche em seus próprios espaços e não se preocupam apenas com a refeição balanceada e/ou com a oferta de alimentos saudáveis para as crianças. Elas incentivam os alunos, ensinam a experimentação e oferecem uma merenda saborosa, bonita e com um aroma que dá água na boca de qualquer adulto! E as crianças se deliciam nessa hora. Dá para perceber a alegria delas na hora do lanche.
                    Há outras escolas que decidiram oferecer o lanche por solicitação dos pais. Elas contrataram nutricionistas ou empresas que levam os lanches para a escola e, sinto informar: as opções que conheci não pareciam muito apetitosas, não. Tampouco saudáveis do jeito que se fala.
                    Certamente há nutricionistas por trás desses lanches, mas pode ser que esses profissionais se preocupem mais com o aspecto nutricional dos alimentos do que com as crianças e com sua educação.
                    Por fim: tenho observado lanches que os alunos levam de casa e tenho ficado impressionada com o que tenho visto. Sucos industrializados, bolos, bolachas recheadas, salgadinhos, bisnagas etc.
                    De vez em quando, consigo ver alguns alunos comendo frutas ou um bolo caseiro no intervalo. Mas essa cena tem sido cada vez mais rara, tanto quanto a alegria das crianças no momento de comer o lanche.
                    Preparar o lanche de um filho é um ato amoroso. Nestes tempos em que os pais declaram tantas vezes seu amor pelos filhos, por que é que as lancheiras que vão de casa para a escola têm sido assim tão pouco amorosas?
                    Não vale justificar o problema com a falta de tempo dos pais. Talvez a explicação esteja mais para falta de disponibilidade, não é?
                    Afinal, preparar qualquer refeição para os filhos exige isso: disponibilidade e amorosidade. E dá trabalho.
                    Mas ter filhos pressupõe mesmo muito trabalho. Inclusive na hora de preparar o lanche que ele irá comer longe de casa. E amor aos filhos se declara dessa maneira: cuidando deles, fazendo-se presente na ausência e, de vez em quando --de vez em quando!--, demonstrando esse sentimento com beijos, frases e abraços. E isso, de preferência, quando eles aceitarem essas manifestações de bom grado.
                    Rosely Sayão
                    Rosely Sayão, psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia-a-dia dessa relação. Escreve às terças na versão impressa de "Equilíbrio".