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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Vinicius Mota

folha de são paulo
Os liberais de cada um
SÃO PAULO - Marina Silva deu mostras de ter amadurecido na entrevista publicada ontem nesta Folha. O discurso da ordem não se restringiu à crítica dos protestos violentos, na qual empregou sem assombro o termo "Estado democrático de direito", frequente no léxico conservador.
Em dois outros momentos, a presidenciável endossou ideias de orientação liberal na economia. Autonomia do Banco Central? "Fundamental". Pretende encarar uma nova reforma na Previdência? Sim.
Na eleição de 2010, Marina já acenava à chamada ortodoxia econômica, no meio de um palavreado confuso e contraditório. Parece que a fase de dúvidas passou.
Sem entrar no mérito da convicção da ex-ministra, há boas razões práticas para abraçar a causa. Hegemônica nos últimos cinco anos, a condução alternativa, "desenvolvimentista", está desmoralizada pelos frustrantes resultados entregues.
O próprio governo reconhece a derrota e corrige a rota da pilotagem econômica. Fará concessões adicionais à cartilha liberal, tantas quanto julgar necessárias para manter-se no poder. Tem um time reserva, orientado pelo treinador Palocci, pronto para entrar em campo se for preciso.
A turma liberal tucana, aliviada com o afastamento de José Serra --para ela um desenvolvimentista da Unicamp--, está firme com Aécio Neves. Armínio Fraga, ex-chefe do BC, encabeça este grupo.
Nesse quadro, é natural que Marina Silva, cujo desempenho de segunda colocada nas intenções de voto melhorou, arregimente os seus próprios liberais. Recebe a aproximação de André Lara Resende, um dos melhores economistas brasileiros do século passado, mentor do Plano Real.
Decerto se trata de um Lara Resende modificado, excêntrico e desalentado com as peripécias recentes da economia global. Pensa alto se vale mesmo a pena o crescimento econômico. Ainda assim, não se recusa um Lara Resende.

    segunda-feira, 12 de agosto de 2013

    O teste dos protestos - Vinicius Mota

    folha de são paulo
    SÃO PAULO - Que fatores terão contribuído para a dispersão da impressionante onda de protestos da última quinzena de junho?
    É melhor apostar num conjunto de vetores. O recuo das autoridades nas tarifas de ônibus; a falta de líderes e objetivos condutores; o cansaço do exercício cívico reiterado; a violência, latente e explícita, dos episódios; o fechamento da janela global da Copa das Confederações.
    E as férias escolares. A atração gravitacional de lugares como Maresias, Búzios, Porto Seguro e Machu Picchu deve ter agido aqui mais ou menos como o inverno russo para as tropas de Napoleão.
    Não parece coincidência que o Movimento Passe Livre tenha esperado a volta às aulas para tentar reacender a centelha da revolta maciça --já que grupelhos menos ou mais violentos continuam a bloquear vias e a depredar nas grandes cidades.
    O ato marcado para depois de amanhã nesta capital será um teste interessante. O MPL, um movimento juvenil conectado com sindicatos, teses e grupos de esquerda, passou a não gostar da brincadeira que havia iniciado justamente quando ela ganhou corpo e conotação apartidária.
    Fazendo beicinho, o MPL chegou a anunciar sua retirada das manifestações --o que não faria diferença àquela altura-- quando o PT foi criticado pela tentativa de embarcar nos protestos. O disfarce oposicionista falhou: nas ruas de São Paulo, porta-bandeiras petistas foram lembrados, nem sempre com bons modos, de que sua sigla governa a cidade e o país.
    O MPL volta à carga cercado dos companheiros de sempre, incluindo o PT. A pauta da convocação, centrada no metrô, é uma tentativa de ataque aos tucanos.
    O teste da quarta-feira será de duas ordens. O MPL conseguirá arregimentar multidão comparável em tamanho e perfil --mais de 80% sem preferência partidária-- às do final de junho? Em caso afirmativo, conduzirá a pauta da indignação?

      segunda-feira, 5 de agosto de 2013

      O governo tem o que mostrar - Vinicius Mota

      folha de são paulo
      SÃO PAULO - As eleições presidenciais no Brasil têm sido competitivas. Mesmo o triunfo de Fernando Henrique no primeiro turno de 1994 foi consignado por maioria estreita. Apesar de expostos ao efeito imediato do Real, talvez o maior bilhete eleitoral da história recente, 46% votaram em outros candidatos.
      Quatro anos depois, o advento da reeleição deu novo impulso ao candidato do PSDB. Ainda assim, 47 de cada 100 eleitores no primeiro turno preferiam mudar de presidente.
      A derrocada econômica do segundo governo FHC e o desgaste provocado pelo racionamento de energia à moda soviética imposto à população não foram suficientes para neutralizar a capacidade de competir do candidato governista. José Serra foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno por 61% a 39%.
      Em 2006, o petista teria de disputar mais uma rodada final, a despeito do arranque da economia e dos efeitos escalares das transferências de renda, que àquela altura já se faziam sentir. O bônus econômico e social só fez avolumar-se nos quatro anos seguintes, mas nem assim a candidata da situação conseguiu evitar o segundo turno.
      Esse histórico ajuda a ajustar as expectativas sobre as chances do governismo na eleição de 2014. Questionada nas ruas e nos gabinetes, com a popularidade abalada e assolada por más notícias na economia, Dilma Rousseff poderia parecer aos mais afoitos uma carta fora do baralho na sucessão. Não será.
      Nas condições que se apresentam, dificilmente repetirá a votação do primeiro turno de 2010, quando ficou a pouco mais de 3 pontos percentuais da maioria --o que fez de sua campanha na segunda rodada quase um passeio no parque de tão fácil. Mas continua provável que ela se qualifique para uma disputa final mais dura, mas ainda em condições de competir pela reeleição.
      O governo terá o que mostrar na campanha. E não será pouco.

        segunda-feira, 29 de julho de 2013

        Vinicius Mota

        folha de são paulo
        A segunda encíclica de Lula
        SÃO PAULO - Mesmo antes das manifestações de junho, a rota do governo federal vinha sendo ajustada para tornar-se mais conservadora. Na economia, o nacional-desenvolvimentismo já havia sido abalado pelo surto de autonomia do BC nos juros.
        Na política, um acúmulo de reveses e escaramuças com aliados tornara embaçado o trâmite de toda proposta reformista do Planalto. A presidente perdeu iniciativa parlamentar, com seu poder de veto ameaçado pela maioria legislativa.
        O saldo dos protestos, associado a sinais recentes de mais fraquejo na atividade econômica, tende a reforçar a opção pela transição conservadora até a eleição do ano que vem. O trauma com o fracasso da iniciativa plebiscitária ajudará o governo a assimilar essa lição.
        Enquanto o PT faz "mise-en-scène" para exercitar o figurino esquerdista, o ex-presidente Lula sabe que precisa reconquistar interlocução e credibilidade na direção oposta. Empresários, banqueiros, a velha classe média e vastos contingentes populares de regiões menos dependentes de recurso estatal passaram a enxergar alternativa de poder em outras freguesias.
        Há ingenuidade na discussão sobre o retorno de Lula como candidato em 2014. Voltar nessas condições seria flertar com a derrota ou, na melhor hipótese, com um governo fraco e acossado por todos os flancos no quadriênio seguinte.
        O papel de Lula será o de costurar o retorno de sua criatura ao convívio tolerável, quiçá amigável, com o centro e a direita. Agirá para que, num possível duelo com Marina Silva --ou até Aécio Neves--, Dilma Rousseff volte a significar voto de segurança.
        Espere-se, portanto, um avanço do governo na agenda conservadora --na economia, na política, nos costumes-- ao longo dos próximos 15 meses. A segunda versão, embora não explícita, da Carta ao Povo Brasileiro está sendo elaborada pelo signatário da original.

        segunda-feira, 10 de junho de 2013

        Vinicius Mota

        B de bêbado
        Folha SÃO PAULO - 
        Os tucanos de São Paulo acabam de contribuir para a onda de retrocesso moralista por que passa a legislação no país. O deputado estadual Cauê Macris propôs, e seus colegas aprovaram, a "ficha suja" para motoristas acusados pela polícia de dirigir embriagados.
        Se o governador Geraldo Alckmin sancionar o texto --com o qual já disse simpatizar--, estará criada uma punição moral no Estado supostamente mais moderno da nação. O Detran passará a publicar o nome de todo cidadão cuja habilitação for cassada sob a acusação de conduzir com a "capacidade psicomotora alterada".
        Para a humilhação pública tornar-se mais eficaz, que tal estampar também a foto do acusado? E divulgar ao final da novela e nos intervalos do "Jornal Nacional"?
        Podemos adotar o método das autoridades de Ohio, nos EUA. Consiste em obrigar o apenado a usar no seu veículo uma placa de cor di-ferente, amarela e escarlate, para que todos saibam do seu crime.
        Outra opção é o castigo dos puritanos que colonizaram o norte da América no século 17. Todo motorista acusado de dirigir bêbado será obrigado a ostentar, na parte da frente da roupa, uma letra B garrafal. Em azul e amarelo, cores do PSDB.
        Que os execrados possam perder o emprego, ou ver explodirem seus custos com seguro, não é problema para nossos novos moralistas. Pelo contrário, esse é o efeito desejado pelo deputado Macris.
        Tampouco os incomoda a perda da habilitação ser sanção apenas administrativa, que não passa por juiz. Delegados e burocratas do Detran terão o poder discricionário de expor o indivíduo à humilhação.
        Isso importa menos diante da tentação de apelar aos anseios por vingança, e pela depuração de hábitos de vida, latentes em parte do eleitorado. Serve também de cortina de fumaça para o fracasso das autoridades na aplicação das leis vigentes.

        segunda-feira, 3 de junho de 2013

        Anedotário - Vinicius Mota

        folha de são paulo
        SÃO PAULO - "Ouvi que vai ter neve amanhã", diz a dona de casa. "Não vou entrar na fila por isso", retruca a vizinha. Após levar horas para obter sua ração, um homem parte furioso, dizendo que vai matar o líder Gorbatchov. Volta logo e frustrado: lá a fila estava ainda maior.
        Assim era o humor popular sob as ditaduras socialistas do leste europeu. Caviloso, sarcástico e às vezes masoquista. Servia como válvula de escape em regimes que reprimiam a informação e o contraditório. Rebatia, com a tinta da penúria cotidiana, a propaganda oficial laudatória.
        A presidente Dilma Rousseff exerce um estilo de governo que por vezes lembra o solipsismo dos secretários-gerais soviéticos. Obsessiva pelo controle da informação, distanciada do mundo sublunar da política congressual e partidária, desconfiada dos assessores e da própria sombra.
        Plano C de Lula para a sucessão de 2010 --depois de queimados os cartuchos de Dirceu e Palocci--, Dilma não tem base regional. Não se pode dizer de pronto onde fez carreira política. É típica representante da categoria que o filósofo Friedrich Nietzsche chamou de "nômades do Estado sem lar", ao referir-se aos burocratas das nações modernas.
        Rousseff é uma ideia instalada na cadeira presidencial. Na leitura complacente, uma ideia ingênua demais para sobrepujar as cobras criadas da política brasileira, em especial quando o vento da economia bate na proa.
        A governante solitária vê-se agora no centro de anedotas desfavoráveis. A obsessão pelo controle resvala no descontrole com as tentativas de pilotar até o avião presidencial. A compra urgente de um fogão para o Palácio da Alvorada enseja gracejos machistas. Virão mais casos reveladores da personalidade difícil, muitos brotando de sua camarilha.
        Eis a mudança: nem o círculo próximo à presidente segura mais as críticas a seu modo de conduzir. Elas começam a fluir sob a forma de maledicências e anedotas variadas.

        segunda-feira, 27 de maio de 2013

        Vinicius Mota

        folha de são paulo
        Impotentes x Batalhadores
        SÃO PAULO - A corrida de multidões para agências da Caixa, em meio ao boato sobre o fim do Bolsa Família, foi um evento exemplar do Brasil contemporâneo, embora um de seus aspectos remonte a antigas discussões sobre psicologia das massas.
        O debate entrou na agenda da academia e da política na virada do século 19 para o 20. A urbanização galopava, e as metrópoles europeias tornavam-se aglomerados de populações desenraizadas.
        Na multidão, dizia-se, diluem-se a identidade e o autogoverno do indivíduo, que passa a agir por impulso e imitação. Suscetíveis, as massas devem ser diligentemente manipuladas pela elite da nação.
        Lideranças fascistas lambuzaram-se nesse melado. Investiram no carisma hipnotizador do Führer e na propagação metódica das mentiras que lhes interessavam.
        Para espalhar boatos e calúnias, não dispunham de acesso telefônico instantâneo a dezenas de milhões de pessoas. Agora, a tecnologia está à mão. Mesmo que não tenha havido ação orquestrada no caso da Caixa, ficou evidente o potencial dessa ferramenta chamada telefone celular.
        Também ressalta no episódio o grau de dependência de largas fatias da população em relação ao governo federal. Será que mamãe Dilma vai cortar a mesada? Melhor correr e raspar a conta já.
        Resplandece a ética do impotente, de quem espera do governo remédio para seus problemas. De quem encara como dádiva a migalhice recebida dos políticos na assistência, na saúde e na educação.
        Mas esse é apenas um polo dos arquétipos em conflito na sociedade brasileira. O outro é o dos batalhadores. De quem acredita que a recompensa individual diferenciada deve decorrer do esforço diferenciado. De quem exige dos governos o retorno eficiente dos impostos que paga.
        Batalhadores e impotentes vão bater chapa no ano que vem, na disputa mais profunda pelo poder federal.

          segunda-feira, 20 de maio de 2013

          Vinicius Mota

          folha de são paulo

          O freio da ignorância
          SÃO PAULO - O século 21 avança depressa, e o período de alta vigorosa do PIB no final da década passada parece cada vez mais a exceção num longo período de quase 35 anos de desempenho rasteiro. Mas por que o Brasil está há tanto tempo nesse labirinto da renda média, sem perspectiva de encontrar logo a saída?
          Haverá decerto mais de uma resposta correta, e a melhor delas conjugará um feixe de fatores preponderantes. Dívida externa, experimentos macroeconômicos desastrosos e desestímulo à poupança e ao investimento estão entre eles.
          A vizinhança tampouco ajudou. No entorno da China estão Japão, Coreia do Sul e várias nações dinâmicas da Ásia, todos comprometidos com a economia de mercado e obsessivos competidores globais nas cadeias de alto valor industrial.
          No entorno do Brasil está provavelmente a maior concentração mundial de bravateiros nacionalistas. Abundam regimes populistas de nações especializadas na produção de comida, pedra e óleo.
          Mas o Brasil possui dimensões de continente. Teria condições plenas de conectar-se ele próprio ao circuito global do conhecimento, da inovação e da eficiência.
          Se não fez isso, foi também porque, geração atrás de geração, nossas lideranças negligenciaram o investimento profundo e maciço em educação. Nesse quesito, curiosamente, o nacional-desenvolvimentismo, de direita ou de esquerda, costuma exibir desempenho péssimo.
          Tem sido pródigo em distribuir regalias a empresários, criar amarras contra a competição externa, fabricar oligopólios domésticos e manipular preços. Relegou, porém, a nota de rodapé as necessidades de criar conhecimento e de elevar depressa a instrução e, assim, a produtividade dos brasileiros.
          Sem plano ambicioso para a educação, a expectativa de acelerar a economia num horizonte visível continuará prejudicada.

            segunda-feira, 13 de maio de 2013

            Vinicius Mota

            folha de são paulo

            2015
            SÃO PAULO - A dinâmica da etapa hiperfinanceira do capitalismo global, que entra na sua quarta década de vigência, tem produzido crises periódicas e violentas. Brasil e México foram vítimas da primeira onda, no início da década de 1980.
            A economia mexicana seria atingida de novo mais de dez anos depois. Seguiram-se abalos no sudeste da Ásia, na Rússia e, já no raiar do século 21, na Argentina.
            A afluência chinesa produziu um curto período de graça, interrompido no final de 2008 pelo choque nos Estados Unidos e na Europa.
            Ao longo desse ciclo, resolver uma crise significou plantar as sementes de outra no futuro. A conversão das dívidas habitacionais das famílias americanas em títulos, capazes de originar outros papéis negociáveis no circuito da finança global, tirou o país da letargia nos anos 80. Mas foi a base da derrocada décadas depois.
            Uma das consequências prováveis do modo como a crise atual está sendo resolvida será um abalo, cedo ou tarde, nas chamadas economias emergentes. A valorização de preços associados a nações como o Brasil dá mostras de ter esbarrado em limites sólidos.
            O avanço das commodities metálicas, energéticas e agrícolas se dissipa na forma de inflação, que acomete brasileiros, chineses e quase todos os povos emergentes de maneira semelhante. Nessas nações, o preço dos imóveis galopou, numa onda mais ou menos sincrônica.
            Desacelera-se o motor chinês, que, em conjunto com os juros nulos e os deficit monumentais dos ricos, sustenta a estabilidade modorrenta neste pós-crise. Não está à vista abalo no curto prazo, mas a piora constante de indicadores já ficou difícil de reverter. Um ajuste brusco de contas pode estar encubado até 2015.
            Em vez de aumentar suas defesas para uma provável tempestade, o Brasil está se tornando mais vulnerável nas finanças.
            Conhecemos esse filme.

              segunda-feira, 6 de maio de 2013

              Ovelhas desgarradas - Vinicius Mota

              folha de são paulo

              SÃO PAULO - A faculdade da reeleição para cargos do Executivo, implantada em 1997, dificultou o exercício da oposição. Derrotar um governador ou um presidente candidato ao segundo mandato tornou-se uma possibilidade rara, uma façanha.
              Com ciclos de oito anos, explodiu o custo da sustentação de partidos fora da órbita governista. Nenhuma reforma política, a não ser o improvável fim da reeleição, parece capaz de arrostar essa tendência.
              Hoje talvez apenas o PT seja capaz de exercer oposição competitiva na hipótese de perder o domínio da generosa máquina federal. Ainda assim, a legenda dificilmente escapará de uma dieta severa de emagrecimento quando a derrota vier.
              Mas uma derrota em 2014, quer de Dilma Rousseff no Planalto, quer de Geraldo Alckmin em São Paulo, seria uma surpresa. Ambos se esforçam agora para fazer valer a seu favor a inércia do sistema que permite a reeleição.
              A presidente e o governador priorizam recolher o máximo da adesão dos partidos-satélites, de modo a assegurar o maior tempo de propaganda televisiva possível. Esse é o ativo de ouro das eleições brasileiras contemporâneas, que compensa um passeio no jardim malufista.
              Nos dois casos, liquidar a fatura no primeiro turno não é o objetivo central. A meta é estabelecer sobre os adversários uma vantagem larga a ponto de tornar muito difícil a virada na votação decisiva.
              Eduardo Campos é a ovelha desgarrada do comboio dilmista. Poderá frustrar a expectativa da presidente de obter folgada votação no Nordeste.
              José Serra, cortejado pelo MD de Roberto Freire, poderá tornar-se, por assim dizer, o Eduardo Campos de Alckmin? Imagine um cenário em que Serra saia candidato a governador do Estado pela nova legenda.
              Nessa confusão em que se transformou a política partidária nacional, eis uma possibilidade que não deveria ser descartada.
              vinimota@uol.com.br

                segunda-feira, 29 de abril de 2013

                A opinião de Vinicius Mota

                folha de são paulo

                Magia pura
                SÃO PAULO - A liberação das drogas vai diminuir seu consumo. A descriminalização do aborto reduzirá a sua prática. Ações afirmativas não terão impacto negativo no desempenho dos beneficiados na graduação; muito pelo contrário. O kit progressista contemporâneo costuma difundir essas ideias de modo frequente.
                Em geral conta-se com a boa vontade de acadêmicos amigos. Dos que sabem que os dados e a lógica contrariam essas assertivas, mas não contam. Dos que são hábeis em torturar as estatísticas e fazê-las confessar apenas o conveniente.
                Daí a importância de estudos como os que esta Folha publicou ontem, dando notícia de que o desempenho médio dos alunos cotistas é inferior, do início ao fim dos cursos universitários, na comparação com os estudantes não beneficiados.
                Estivéssemos em ambiente neutro, pouco haveria a noticiar. Notas piores de graduandos que tiveram uma educação básica pior apenas confirmam o esperado.
                A questão seria saber até que ponto o desempenho ruim seria tolerável para instituições cuja missão também é promover a excelência. E que medidas haveria para mitigar esse efeito indesejado.
                Mas vivemos assediados por essa voga de pensamento mágico, capaz de harmonizar os elementos mais contraditórios numa narrativa adocicada. Nada mais próximo do que Marx chamou, pejorativamente, de "ideologia", embora seus seguidores tenham composto o mais poderoso sistema de crenças do século 20.
                A lei federal das cotas exige que o Ministério da Educação acompanhe e avalie o desenvolvimento dessa política pública. Prevê também uma revisão do programa após dez anos de sua implantação.
                Seria importante criar e publicar indicadores objetivos de desempenho dos alunos beneficiados. Sem xamanismo, o debate seria travado com a profundidade e o nível de informação que merece.

                  segunda-feira, 22 de abril de 2013

                  20 anos depois - Vinicius Mota

                  folha de são paulo

                  SÃO PAULO - Policiais recebem da sociedade o mandato especial de proteger a vida e a liberdade dos cidadãos contra quem as ameace. Para cumprir o objetivo, podem usar legitimamente a violência, invadir domicílios, interceptar conversas e vasculhar contas bancárias. Podem matar.
                  As democracias maduras reconhecem a importância dos servidores encarregados dessa tarefa. Agentes mortos em serviço recebem tratamento de honra não só das autoridades, mas da sociedade e da imprensa. Alvejar policiais é considerado crime contra o Estado.
                  A contrapartida de tanta deferência e de tanto poder conferido à polícia são rígidos sistemas de treinamento e controle. A tolerância com o policial que abusa de suas prerrogativas é nenhuma, a começar de dentro de sua corporação.
                  Processos contra agentes de segurança são eficientes. Expulsa-se ou reintegra-se, condena-se ou absolve-se num lapso de tempo suficiente para que a memória da ale-gada ofensa ainda paire no ar.
                  De que adianta finalizar o primeiro dos quatro julgamentos do massacre do Carandiru mais de 20 anos depois do fato? Finalizar, aliás, é um termo impróprio: os 23 PMs condenados vão recorrer da sentença em liberdade. Sabe-se lá quando essa etapa vai acabar de verdade.
                  A resposta cabal da Justiça a esse evidente abuso deveria ter chegado ainda na primeira metade dos anos 1990. Teria sido pedagógica para as várias turmas de novos policiais que se formaram desde lá. Teria tirado os culpados das ruas e da convivência com colegas. Teria livrado os inocentes de uma carga torturante.
                  No início da década passada, os condenados já teriam cumprido o período de regime fechado. Estariam hoje em liberdade condicional, fechando o ciclo ideal do castigo também sob a ótica individual.
                  Mas, em 2013, o castigo pelos crimes de um longínquo 1992 nem sequer começou.
                  vinimota@uol.com.br

                    segunda-feira, 15 de abril de 2013

                    Vinicius Mota

                    folha de são paulo

                    Inflação e voto
                    SÃO PAULO - De cada 100 brasileiros aptos a comparecer às urnas em outubro do ano que vem, 40 tinham menos de 16 anos ou nem haviam nascido quando o Plano Real liquidou a superinflação. Para essa fatia do eleitorado, é fraca a memória de preços galopantes, corridas aos supermercados no dia do pagamento e estresse cotidiano com o valor do dinheiro no banco.
                    Em meados dos anos 1990, o Brasil aproveitou-se tardiamente de uma onda mundial que, desde o início da década anterior, vinha reprimindo a inflação. O feito propiciou ao consórcio liderado por Fernando Henrique Cardoso oito anos de domínio da Presidência da República.
                    Os pressupostos da política econômica sob FHC foram mantidos pelo PT nos seis anos seguintes. Até que apareceu a crise financeira no final de 2008. Três décadas depois, os parâmetros que haviam baixado a inflação no mundo e inaugurado uma era de frenética finança global estavam de pernas para o ar.
                    Para quem gosta de fixar-se a padrões algo misteriosos, talvez haja ciclos longos, de 25 a 30 anos, alternando-se no capitalismo mundial. Estaríamos agora de novo entrando num período de maior tolerância com a inflação?
                    Na vizinhança, Argentina e Venezuela já reabriram a caixa de Pandora inflacionária. O efeito indesejável, para seus governantes, é o potencial político desestabilizador dessas variações abruptas no poder de compra das famílias.
                    Logo após o chamado milagre econômico da ditadura militar brasileira, a "carestia" animou a primeira vitória eleitoral da oposição, o MDB, em 1974. A inflação costuma oferecer aos adversários de quem está no governo uma plataforma imediata e poderosa de contestação.
                    A oposição ao PT no Brasil já entendeu esse jogo. Por isso, elevar os juros e evitar a escalada dos preços passou a ser crucial para a reeleição de Dilma Rousseff.

                    segunda-feira, 8 de abril de 2013

                    Vinicius Mota

                    folha de são paulo

                    Dos serviçais aos serviços
                    SÃO PAULO - Desigualdade e ineficiência andam juntas no setor terciário da economia, o dos serviços. Mão de obra farta e desqualificada inibe a racionalização de atividades. É mais barato contratar dez pessoas para fazer o que uma, num ambiente modernizado, poderia produzir.
                    A exploração do trabalho em países muito desiguais também promove situações aviltantes, coloniais. Um diplomata brasileiro quis saber onde ficava o quarto dos empregados no apartamento que desejava alugar em Nova Déli, na Índia. Disseram-lhe que não havia, pois os serviçais dormiam nas escadarias do edifício.
                    Quando a desigualdade diminui, com o salário na larga base da pirâmide social crescendo mais depressa, despontam vetores favoráveis aos ganhos de eficiência e de dignidade no trabalho. O Brasil de hoje passa por uma transição desse tipo.
                    O caso das domésticas é emblemático, mas não é único. Por que precisamos de cobradores de ônibus com os sistemas automatizados do transporte urbano? Ou de frentistas nos postos, onde o usuário pode abastecer seu próprio carro e pagar a conta num guichê central?
                    A organização corporativista do trabalho nos portos torna-se também dispendiosa. A construção civil está desafiada a automatizar e racionalizar parte da atividade. Ressalta-se a ineficiência de serviços públicos diretos, como a gestão caótica dos alvarás, e concedidos, caso dos cartórios.
                    Esse movimento passa a confrontar em diversas frentes a arquitetura protecionista das relações de trabalho no Brasil. Nações que atravessaram com êxito essa etapa do desenvolvimento concentraram a proteção ao trabalhador no seguro-desemprego e na Previdência Social.
                    Diminuíram, em contrapartida, as amarras legais e os custos para contratar e demitir pessoas. Resta saber como um governo composto por sindicalistas vai reagir a esse desafio histórico.

                      segunda-feira, 25 de março de 2013

                      Não é legal - Vinicius Mota

                      folha de são paulo

                      Não é legal
                      SÃO PAULO - O Código Penal estabelece pena de 6 a 20 anos de reclusão para o ato de "matar alguém". Daí não se deduz que o homicídio seja proibido no Brasil. Tanto não é que ocorre às dezenas de milhares todo ano. Nações avançadas conseguem diminuir bastante sua incidência, mas jamais erradicá-lo.
                      Somos livres até para fazer o mal, eis um fato da nossa condição. A distinção entre criminalizar e proibir pode ser útil para debater assuntos que dividem moralmente a sociedade, como as drogas e o aborto.
                      Quando a lei fixa penas para o aborto, ressalvando casos de risco de vida para a mãe e de gravidez provocada por estupro, o seu objetivo é refrear a prática. O efeito esperado é menos mulheres recorrendo ao aborto, no cotejo com uma situação hipotética em que ele não fosse crime.
                      Avaliar a eficácia da lei é um desafio lógico e estatístico, pois jamais saberemos como se comportaria a mesma sociedade, no mesmo tempo histórico, mas sob legislação diversa. Espanta-me, a esse respeito, o argumento usado por grupos a favor da descriminalização, de que fixar penas para o aborto aumenta sua incidência, em franco desacordo com o objetivo da lei.
                      Um dado muito usado, de artigo na revista "Lancet", é o fato de haver em geral menos abortos, para cada grupo de mil mulheres em idade fértil, nos países com legislação liberal. Mas isso não indica nada.
                      Na esmagadora maioria dessas nações, as mulheres têm mais renda e acesso a métodos contraceptivos e menos gestações do que no grupo dos países em que a prática é criminalizada. O estudo não faz essas ponderações estatísticas.
                      Pouco se destacam, além disso, dados mais difíceis de harmonizar com a hipótese da ineficácia da
                      legislação. De cada 100 gestações no mundo rico, diz a "Lancet", 26 terminam em aborto, contra 20 nos países em desenvolvimento.

                        segunda-feira, 18 de março de 2013

                        Vinicius Mota

                        folha de são paulo

                        Pulou o corgo?
                        SÃO PAULO - Para as decisões fundamentais da vida e da história, a tradição cunhou uma expressão grave. Quem atravessa o Rubicão, como o general romano que cruzou esse rio para desafiar a República, sabe que não terá caminho de volta. Não encontrará meio-termo entre a glória e a humilhação.
                        Na política brasileira, não precisamos ser tão radicais assim. Quem diz que não foi, como o ex-prefeito Kassab sobre a adesão ao governo Dilma, pode ter ido. Ou ter ficado no meio do caminho, com a água batendo no tornozelo. Adotemos, para o bem da nossa nação, um termo mais flexível e amigável: pular o corgo.
                        "Corgo" é corruptela de "córrego", muito conhecida no interior. A palavra pode soar até mais caudalosa que o necessário -um arroio, um regato, um fiozinho de água bastariam para esse propósito. Mas passemos.
                        Teria Eduardo Campos, o governador de Pernambuco, pulado o corgo em direção à candidatura presidencial no ano que vem? As suas movimentações recentes, entre políticos e empresários, indicam que sim. Isso prenunciaria desligamento iminente do seu partido, o PSB, da base de apoio da presidente Dilma? É o que veremos nos próximos dias.
                        Depois das declarações de Campos mais críticas ao governo Dilma, registradas no sábado nesta Folha, as pressões no PT e no PMDB para expelir o PSB vão se intensificar. Não seria fácil para alguns aliados e correligionários do governador de Pernambuco passar tanto tempo longe dos cargos federais que hoje ocupam. Estamos a longínquos 18 meses da eleição de 2014.
                        Por motivo não claramente estabelecido, o debate da sucessão presidencial antecipou-se bastante. A hidrologia da política brasileira, que prefere os veios d'água aos rios e às cataratas, não está acostumada a operar nesse cenário. Até a Justiça coíbe declarações de candidatura antes do prazo oficial. Há tempo de sobra para pular o corgo de volta.

                          segunda-feira, 11 de março de 2013

                          Vinicius Mota

                          folha de são paulo

                          Múmias do socialismo
                          SÃO PAULO - Não é de hoje que déspotas da esquerda socialista terminam mumificados e exibidos ao público. Lênin, Stálin e Mao precederam Hugo Chávez nesse destino. Se o marxismo privilegiou na teoria os movimentos mecânicos e impessoais da história e das classes, na prática não dispensou os seus faraós.
                          Antes de optar pela mumificação, os mandatários bolivarianos devem ter sopesado o fato de que Chávez não foi um ditador genocida, no que se diferencia de outros líderes socialistas cujos corpos foram preservados da decomposição. Prevaleceu a vontade de reforçar o mito, e com ele o "statu quo", ao menos até a eleição presidencial do mês que vem.
                          Faz sentido a urgência. A utilidade política das múmias socialistas prescreve antes do preparado que as embalsama. Stálin de glicerina tornou-se logo um incômodo e foi enterrado. Menos de 40 anos após sua morte, a União Soviética desceu à cova.
                          A China e o Vietnã só não seguiram o mesmo caminho porque, contrariando seus fundadores embalsamados, transformaram-se em ditaduras capitalistas. A pobreza e a degradação campeiam em Cuba e na Coreia do Norte, dois microexperimentos remanescentes.
                          O chavismo na Venezuela tem a vantagem de não configurar-se como regime socialista. A economia venezuelana, antes e depois de Chávez, é basicamente a mesma. Extrai petróleo e o troca por tudo o que consome.
                          Os sucessores do caudilho terão de bater-se com agruras típicas de uma economia monoexportadora, agravadas pelo surto de despesas eleitoreiras do ano passado. Prevê-se em 2013 uma forte redução no crescimento do PIB, para 2% ou menos, contra 5,6% em 2012. A fim de diminuir seu deficit, o governo desvalorizou a moeda, o que terá impacto na inflação e no abastecimento.
                          Na urna de cristal, o cadáver de Chávez terá cada vez menos serventia para enfrentar o agastamento que esse quadro provocará.

                            segunda-feira, 4 de março de 2013

                            Vinicius Mota

                            folha de são paulo

                            Série B
                            SÃO PAULO - Quem assiste ao debate econômico modulado pelas expectativas de curto prazo talvez não se dê conta da encalacrada em que nos metemos. Diriam os muito otimistas, ou cínicos, que o país deve triplicar seu crescimento neste ano.
                            Uma taxa de 3% a 3,5% seria suficiente para acomodar uma gama variada de interesses imediatos, empresariais e políticos. Mantém baixo o desemprego, coloca panos quentes na compressão dos lucros e não ameaça as contas externas.
                            O percurso da inflação nos próximos meses é o principal incômodo, mas ninguém acredita que ela vá sair de controle. O objetivo de perseguir 4,5% de carestia -ou mesmo de baixar esse alvo ao longo desta década- foi para o vinagre faz tempo. Um desacreditado Banco Central parece que recuperou da soberana o direito de cogitar, quem sabe, de elevar os juros.
                            O horizonte encurtou tanto, e os parâmetros para avaliar o desempenho econômico ficaram tão mesquinhos, que mal se nota ou se questiona o rebaixamento das expectativas de longo prazo para o Brasil. A perspectiva de crescer 3% ao ano no decurso desta década, depreende-se, não incomoda muita gente.
                            Nesse ritmo, a renda per capita levará mais de 35 anos para dobrar, em termos reais. Somos uma nação mal remediada com US$ 12 mil anuais por cabeça. Se chegarmos à metade do século 21 com o dobro disso, ainda assim estaremos a meio caminho do nível de renda de hoje nos Estados Unidos.
                            A modorra das expectativas nos coloca de volta na toada das décadas perdidas. Nos 33 anos até 2012, o Brasil cresceu 3% ao ano. Equivalente ao dos EUA no mesmo período, o ritmo é de país desenvolvido.
                            Apenas o ritmo. Nós disputamos a série B da liga mundial. E ali permaneceremos ao longo deste século, jogando pelo empate, se depender da média das expectativas domésticas.

                              segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

                              Vinicius Mota

                              folha de são paulo

                              Homem novo, truque velho
                              SÃO PAULO - Gilberto Kassab vai-se tornando o político dos sonhos de qualquer governo. Inclina-se a apoiar todos eles, e de todos participar com seu partido, sem importar-se com a cor da camisa.
                              Agora o seu sucessor na prefeitura desta capital descobriu mais uma utilidade de Kassab. O líder do PSD aceita numa boa posar de bode expiatório para as mazelas da cidade sob a gestão do "homem novo", o petista Fernando Haddad.
                              Alagou? Deu pane nos semáforos? Caíram centenas de árvores? Apagou a luz? Embolou o tráfego? Tudo culpa do Kassab. O ex-prefeito resmunga um pouco, mas assimila o golpe, como assimila as vaias de petistas nos encontros públicos do partido de Lula, seu dileto aliado.
                              A velha tática de acusar a "herança maldita" de gestões passadas soa cômica nesse caso. Haddad franqueou ao kassabismo um pedaço generoso da sua administração -a estatal de eventos SPTuris, com seus gordos contratos e salários.
                              Na habitação, o feudo ficou com o fotogênico Paulo Maluf, outro ex-prefeito antes amaldiçoado pelo petismo. Numa conta simples, o governo do homem novo carrega em seu DNA traços marcantes dos caciques que fizeram o que fizeram na cidade nos últimos 20 anos.
                              Marcante foi também o primeiro teste para Haddad mostrar, na prática, a sua originalidade e o seu compromisso com as promessas. A montanha da ampla flexibilização alardeada no programa de inspeção veicular pariu um rato quando chegou à Câmara. Um vexame para quem acaba de sair das urnas com 3,4 milhões de votos.
                              Mas a máquina de atribuir responsabilidade aos outros não deu trégua. A prefeitura pôs-se a "pressionar" o governador do Estado para que estabeleça inspeção obrigatória em veículos da Grande São Paulo.
                              Quando vai começar a gestão nova de Fernando Haddad? A velha já começou.

                                segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

                                Vinicius Mota

                                folha de são paulo

                                Liberdade dos bispos
                                SÃO PAULO - Pastor ou professor? A Igreja Católica debate o perfil do novo líder a ser eleito em março. O experimento algo frustrante com Bento 16, teólogo circunspecto, recomendaria um sucessor atilado nas lides com a comunidade dos fieis.
                                A distinção soa artificial para quem observa a trajetória, nos primórdios do Cristianismo, de Paulo de Tarso -o mesmo que, feito santo, dá nome a esta cidade brasileira. Converter e convencer, ensinar e revelar, criticar e erigir eram missões inseparáveis no apóstolo tardio.
                                Paulo, encarregado da evangelização em grandes centros do Império Romano, foi o pilar da emancipação do movimento cristão em relação ao Judaísmo. Liberou a nova crença da rigidez, do localismo e do hermetismo judaicos. Abriu portas para um inédito monoteísmo de massas, franqueado a todos, e não só ao povo eleito.
                                Mas a força de Paulo -a sua pregação acerca do caráter libertador da fé no redentor, em oposição ao statu quo da lei mosaica- precisou ser controlada à medida que a Igreja Católica crescia e se confundia, ela própria, com o establishment.
                                A salvação do espírito só seria válida nos termos da organização eclesiástica. A liberdade espiritual de que falava Paulo -que poderia abonar leituras dispensando mediações na ligação entre fiel e criador- foi transferida para o conjunto dos bispos.
                                No segundo e no terceiro séculos da era cristã, um profundo trabalho de depuração foi realizado pelos líderes da igreja. Traçou-se a genealogia dos bispos, a fim de atestar a sua relação histórica e espiritual com um dos apóstolos de Jesus.
                                A filiação do bispo de Roma, que viria a ser o chefe da igreja, foi atribuída a Pedro, o pescador do mar da Galileia. Paulo, que como Pedro fora morto na capital do império, sumiu desse mapa. A igreja entendeu que seria prudente separar os papeis entre o professor e o pastor -e controlar bem seus exercícios.